FALCÕES DA NOITE (Nighthawks, 1981)

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Ontem revi FALCÕES DA NOITE, um trabalho um tanto atípico do Sylvester Stallone que nunca recebeu a devida atenção que merece. Não sei como foi a recepção na época, mas hoje quando se fala de cinema de ação/policial dos anos oitenta, estrelado pelo Stallone, é quase impossível para seres humanos normais não imaginar filmes recheados de sequências de ação mirabolantes, explosivas, e pancadaria ou tiroteios exagerados. Mas eis que se deparam, por acaso, com este aqui, um drama policial com tom mais realista e com clima de ressaca setentista, que está longe dos exageros de um COBRA ou TANGO & CASH, chega até a ser compreensivo a decepção de alguns… Por outro lado, tem que ser muito chato para não perceber a beleza de FALCÕES DA NOITE e reconhecer que se trata de um bom filme do gênero.

Curiosamente, FALCÕES DA NOITE teria se chamado OPERAÇÃO FRANÇA III. E no lugar do Stallone, Gene Hackman reviveria seu icônico policial, Popeye Doyle. É sério isso. O estilo setentista e mais intimista da obra não é uma simples coincidência. Mas, por alguns motivos (o principal foi que Hackman “deu pra trás”), o projeto de uma segunda continuação do clássico de William Friedkin acabou não dando certo e o roteiro foi adaptado para outros personagens. No entanto, ao que tudo indica, o plot básico permaneceu, mesmo com as constantes interferências que o Stallone fazia no roteiro.

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Portanto, teríamos Doyle enfrentando um sádico terrorista alemão pelas ruas de Nova York. Daria tudo pra ver esse filme… Mas ok, temos FALCÕES DA NOITE, que apresenta Wulfgar (Rutger Hauer), um terrorista que acaba perdendo a linha nos seus negócios, que se resume em explodir lugares e pessoas, e precisa sair de cena por uns tempos após um ataque, antes que seus ex-companheiros o traia ou a polícia o prenda. Então decide ir para Nova York, lugar perfeito para se abrigar terroristas foragidos sem ser incomodado, principalmente depois de uma cirurgia plástica facial.

O que Wulfgar ainda não sabe é que um especialista anti-terrorismo, Peter Hartman (Nigel Davenport) antecipou seus movimentos e já está em Nova York planejando uma forma de capturá-lo. Para isso conta com uma ajudinha extra formada por alguns dos melhores homens do departamento de polícia local: Deke DaSilva (Stallone) e Matthew Fox (Billy Dee Williams), os cabras perfeitos para essa missão. Típicos tiras cascas-grossas, sabem lidar com a bandidagem e conhecem cada canto do submundo nova-iorquino. Logo no início, o filme apresenta a tática da dupla de pegar vagabundos: DaSilva se veste de senhora indefesa e anda pelas ruas escuras à noite. Quando os bandidos se aproximam achando que vão faturar mais uma bolsa, é tarde demais pra perceber que a mulher tem barba e tem uma arma apontada pra eles.

Apesar da experiência, ambos passam por um treinamento anti-terrorismo que martela na cabeça dos policiais a necessidade de matar Wulfgar de qualquer maneira, nem que coloque em risco a vida de inocentes, algo que DaSilva é totalmente contra e quase abandona o barco. Mas no fim das contas, decide permanecer no grupo depois de vários momentos de pura reflexão profunda e filosófica.

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Stallone e Williams estavam em ótima fase, e possuem uma química que funciona legal como parceiros policiais. Williams (mais conhecido por ser o Lando de STAR WARS) é o que chamamos de parceiro cool. Sabemos que é coadjuvante, que não vai ter o mesmo destaque que o protagonista, mas é sempre bom vê-lo em ação ou como contraponto do herói. O que chama a atenção é Stallone estar longe do seu habitual estereótipo do policial brucutu que se acha acima da lei , como em COBRA, por exemplo. Embora seja de fibra, o sujeito se apresenta em FALCÕES DA NOITE um pouco mais comedido, introspectivo, demonstrando uma faceta mais frágil, tentando se reaproximar da ex-mulher… Algo bem diferente da imagem action man dos anos oitenta e noventa que ajudou a solidificar. Se bem que analisando friamente os personagens de Stallone, a grande maioria é bem mais complexa do que aparenta. E filmes como RAMBO (o primeiro), OVER THE TOP, LOCK UP e até mesmo o próprio COBRA, podem revelar como protagonista uma figura com sensibilidade… Mas FALCÕES DA NOITE é um dos exemplos mais claros de que Stallone não é só músculos como muitos imaginam por puro preconceito. E o Oscar deste ano vai reconhecer isso. Estamos na torcida! Há ainda uma pequena participação do grande Joe Spinnel, como chefe de policia, que é sempre um deleite.

Mas o melhor do filme é definitivamente Rutger Hauer  (em seu primeiro filme americano), muito convincente, com um olhar expressivo, louco, fazendo o terrorista sangue frio que mata sem piedade. E o fato é que Stallone percebeu que Hauer estava chamando mais a atenção e resolveu mexer alguns pauzinhos. Como já mencionamos, constantemente Sly era visto conversando com o roteirista David Shaber para alterar algumas cenas, diálogos, a fim de tirar o destaque de Hauer e tentar colocar os holofotes pra si. Não deu muito certo… Digo, Stallone manda bem sempre, é um dos meus atores favoritos. Mas competir com Rutger Hauer é praticamente impossível… Desculpa aí, Sly…

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Há até uma história curiosa envolvendo os dois atores e vai rolar uns spoilers… Se não quiserem saber nenhum detalhe importante do filme, sugiro pular o parágrafo. A primeira cena que gravaram em FALCÕES DA NOITE foi justamente o desfecho, na qual Hauer leva uns tiros do Stallone, que engana o vilão vestido de mulher. Haviam uns cabos amarrados no holandês para que fosse puxado pra trás a cada bala alvejada no personagem. E Sly, não sei porque diabos, pediu aos técnicos que puxassem o sujeito com uma força acima do esperado, o que causou sério, digamos, desconforto em Hauer. Quando descobriu que Stallone que havia pedido que o puxassem com tanta força, o holandês emputeceu, enfiou o dedo na cara de Sly e o restante das filmagens pairou um climão no ar… Mas Hauer estava decidido a não desperdiçar a sua primeira chance em solo americano e mandou bem na performance. Tanto que foi durante as filmagens de FALCÕES DA NOITE que a mãe do ator faleceu, o que não o impediu de continuar fazendo o filme.

Já Sly estava com moral na época. A direção do filme, por exemplo, é creditada a Bruce Malmuth, que mais tarde viria a fazer DIFÍCIL DE MATAR, um dos melhores filmes de Steven Seagal. Mas as filmagens iniciaram sobre a batuta do veterano Gary Nelson. Quando este último pulou fora, por mais confusões com Stallone, pra variar, Malmuth assumiu justamente quando deveriam filmar a sequência de perseguição no metrô de NY. Mas na pressa de substituir o diretor e para não perder um dia de filmagem, quem assumiu a direção foi o próprio Sly, o que gerou até uns problemas no sindicato de diretores. Mas é um dos grandes momentos do filme, uma perseguição tensa e realmente bem filmada, que mostra o talento de Sly atrás das câmeras, algo que já havia demonstrado em PARADISE ALLEY, sua estreia na direção. O filme até oferece alguns ótimos momentos de ação mais agitados e explosivos, mas não é esse o foco de FALCÕES DA NOITE, filme policial de atmosferas, dramas e personagens…

Apesar de tudo, FALCÕES DA NOITE sofreu com vários problemas de finalização. Um primeiro corte teria aproximadamente duas horas e meia e de tanto mexe e remexe, o filme acabou levando a pior em alguns momentos em que se percebe que falta algo, ou que o ritmo não tá legal. Há um certo choque entre o “tema policial urbano” e a “trama de terrorismo internacional” que é meio estranho. Deixa o filme torto, mas não tira o brilho e a diversão do resultado final. que permanece um filmaço, sem dúvida alguma.

TOP 10 SYLVESTER STALLONE

O velho Sly recebeu o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante pela sua atuação no belo CREED (2015) no último domingo e hoje foi indicado ao Oscar pela mesma performance. Para comemorar, resolvi fazer um Top 10 das minhas atuações favoritas do sujeito. Portanto, não levo em consideração a qualidade dos filmes, apenas o trabalho dramático do ator. Podem discutir à vontade:

cobra10. COBRA (1986), de George P. Cosmatos

over-the-top-stallone-face-109. OVER THE TOP (1987), de Menahem Golan

Sylvester-Stallone-creed08. CREED (2015), de Ryan Coogler

lock-up07. CONDENAÇÃO BRUTAL (Lock Up, 1989), de John Flynn

paradise06. A TABERNA DO INFERNO (Paradise Alley, 1978), de Sylvester Stallone

fist-51005. F.I.S.T. (1978), de Norman Jewison

maxresdefault04. COP LAND (1997), de James Mangold

7591275286_Rocky_Balboa_2006_BluRay_720p_x26403. ROCKY BALBOA (2006), Sylvester Stallone

tumblr_npl57iplgG1qetb0ho1_128002. ROCKY (1976), de John G. Avildsen

rambo201. FIRST BLOOD (1982), de Ted Kotchef
(bastavam os dez últimos minutos finais deste aqui pra colocá-lo em primeiro lugar)

ESCAPE PLAN (2013)

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Já estamos em novembro e analisando o panorama do cinema de ação em 2013, se por um lado não tivemos uma safra vasta de bons exemplares (o que já é habitual nos últimos anos), por outro tivemos a oportunidade de notar algumas peculiaridades: Arnold Schwarzenegger retornou como protagonista de seu próprio veículo de ação em THE LAST STAND, que marcou também uma ótima estreia do coreano Jee-Woon Kim em Hollywood; já Sylvester Stallone não apenas estrelou o melhor filme de ação do ano até o momento, BULLET IN THE HEAD, como também proporcionou o retorno de Walter Hill à cadeira de diretor depois de dez anos sem lançar nada para cinema. Por essas duas obras já teríamos motivos suficientes para comemorar. No entanto, não satisfeitos, Sly e Arnie ainda tiveram forças para se juntar e lançar ESCAPE PLAN, que já merece destaque só pela ideia de colocar lado a lado esses dois ícones do cinema de ação. O bom é que o filme vai além disso.


ESCAPE PLAN não é exatamente um retorno ao tipo de filme que transformou esses caras no que eles são. Mas me lembra uma época, em meados dos anos 90, em que eles já estavam consolidados como action heroes e realizavam umas coisas como O DEMOLIDOR e QUEIMA DE ARQUIVO, fitas menores em suas carreiras, mas divertidíssimas e muito superiores em relação à grande maioria do que é realizado hoje em termos de ação. Acho até que é neste período que esse crossover deveria ter acontecido… Mas, antes tarde do que nunca. Até porque ambos, apesar da idade avançada, ainda possuem fôlego e truculência suficiente para esmagar qualquer Vin Diesel, The Rock, ou seja lá quem for, vê-los caídos diante do seus olhos e ouvir o lamento de suas mulheres… Não é isso o melhor da vida?

Em ESCAPE PLAN, Stallone é praticamente um McGyver com músculos e precisa utilizar mais a inteligência do que a força bruta em sua profissão, que consiste em procurar brechas nas penitenciárias de segurança máxima. Como deve ser simpatizante do jornalismo gonzo, a maneira como realiza o trabalho é se infiltrando como prisioneiro, estudando o local, percebendo os pontos fracos e arranjando maneiras de escapulir. Depois de vários anos fazendo isso, escreve um livro sobre o assunto. Uma versão casca-grossa de Hunter S. Thompson.

O problema é quando o Sly decide encarar um novo desafio e acaba parando numa prisão construída a partir das informações, conceitos e ideias adquiridas por ele próprio, a partir do seu trabalho. Uma prisão aparentemente impossível de escapar. Para sua sorte, encontra no local o Schwarzenegger, vivendo o seu personagem mais legal desde TRUE LIES, e decidem unir força para traçar uma rota de fuga. Será que uma prisãozinha será suficiente para parar essa dupla? Quem já viu o filme sabe, quem não viu, vai precisar ver, porque eu não vou contar.

Só digo que Arnoldão rouba o filme em cada momento que aparece na tela, muito mais que um sidekick de luxo, compondo um personagem diferente de tudo que já fez. Com cabelos e cavanhaque grisalhos, não deixa de ser o brutamontes badass motherfucker de sempre, mas ao mesmo tempo intercala o tipo engraçadão com variáveis demonstrações de fragilidade diante de algumas situações. A cena em que finge um ataque de desespero para chamar a atenção dos guardas e reza em alemão na solitária já pode entrar na lista dos momentos antológicos da carreira do homem. Stallone também está ótimo, o problema é ter pego Schwarzenegger num dia inspirado e acabou tendo o brilho ofuscado.

O elenco se completa com algumas figuras interessantes: Vincent D’Onofrio, Sam Neil, Jim Caviezel e Vinnie Jones. Estes dois últimos os vilões da parada. 50 Cent não compromete com seu pequeno papel. E a surpresa é a interessante utilização de um personagem árabe, vivido por Faran Tahir, que, numa jogada de muito bom senso do roteiro, consegue quebrar alguns clichês.

O diretor sueco Mikael Hafstrom pode não ser um mestre do cinema de ação, mas parece plenamente consciente do tipo de filme que os fãs de Sly e Arnie estavam esperando. ESCAPE PLAN nem possui tantas sequências de ação assim, é mais focado no thriller com os elementos de filmes de prisão. E a presença dos dois atores em cena, contracenando, já é de encher os olhos, de absorver o espectador com uma incrível sensação de nostalgia. Há um profundo respeito do diretor pelos velhos e isso fica claro na maneira como os filma, como os enquadra, como trabalha a rivalidade dos dois em cena. Há até uma breve luta entre os dois que é praticamente um sonho realizado! Sly vs Arnoldão! Wow!

Quando a ação finalmente explode, a adrenalina toma conta. Não há nada mais, com perdão do meu francês, fodástico que Stallone e Schwarzenegger atirando, esmurrando e explodindo coisas de maneira frenética! Hafstrom nem é muito habilidoso na direção dessas sequências, mas pelo menos evita certos maneirismos do cinema de ação atual, como esconder a incompetência chacoalhando a câmera. Aqui podemos enxergar perfeitamente o que se passa e o sujeito ainda aproveita para homenagear Arnoldão com o momento mais badass de ESCAPE PLAN, quando o austríaco faz pose em câmera lenta e se prepara para cuspir fogo em diversos vilões com uma metralhadora estilo COMANDO PARA MATAR em punho! Para Stallone, o roteiro lhe reserva uma luta franca contra o Vinnie Jones, que é outro ponto alto do filme.

Obviamente, ESCAPE PLAN não é perfeito. Toda vez que o filme volta suas atenções aos personagens fora da prisão corta o ritmo envolvente da trama principal, do foco, que é Stallone e Arnie enjaulados. Mas isso só acontece momentaneamente e não prejudica a narrativa de maneira alguma. Na maior parte do tempo, o filme se assume como diversão pura e de qualidade para os admiradores do bom cinema de ação exagerado e aos fãs de ambos atores. Seria um erro esperar mais do que isso. Só lamento que tanto ESCAPE PLAN quanto LAST STAND e BULLET IN THE HEAD tenham fracassado nas bilheterias. Algo preocupante, porque estou gostando da ideia de ter esses velhotes em atividade no cenário atual. Quando os executivos dos estúdios perceberem que esses caras estão dando prejuizo, o que vai acontecer? E onde estão os fãs  que enchiam as salas de cinema há vinte anos atrás? Ou será que estou sendo muito pessimista?

Para finalizar, outros cinco encontros marcantes de autênticos ícones do cinema de ação em filmes que levam o termo truculência ao extremo realizados nos últimos trinta e poucos anos:

DEATH HUNT (81), de Peter R. Hunt: Lee Marvin e Charles Bronson pertencem a uma geração anterior à do Sly e Arnie, ambos já haviam feitos alguns filmes juntos e dispensam apresentações. É neste aqui que se dá o encontro mais dramático entre eles. Na trama, Marvin promove uma caçada humana pra cima do Bronson pelas terras geladas na fronteira do Canadá. O negócio é que nenhum dos dois é o vilão da história, e muito menos o bonzinho. Enquanto pensamos nesse dilema, a violência explode na tela.

TANGO & CASH (89), de Andrey Konchalovskiy: Rambo encontra Snake Plissken, num buddy movie de ação policial que poderia ser melhor, mas ainda assim possui ingredientes suficientes para os afccionados pelo gênero receberem uma bela dose de explosões, tiros e pancadaria. E ainda tem o Jack Palance como vilão e Robert Z’Dar, o queixo mais discreto do cinema, como desafeto de ambos numa prisão que Sly e Russel precisam fugir. Prisão? Fugir? Opa…

SOLDADO UNIVERSAL (92), de Roland Emmerich: No primeiro filme da saga dos unisoldiers, dois ícones colocados frente a frente como galos numa rinha. O músculos de Bruxelas, Jean-Claude Van Damme, encara o brutamontes sueco, Dolph Lundgren, num dos melhores filmes da carreira de ambos. Super produção na época, o destaque vai para o Dolph, que faz um dos personagens mais insanos que já encarnou: um sargento que pira, extermina todos os soldados do seu pelotão e faz um colar utilizando as orelhas dos defuntos. Verdadeiro artista artesanal…

MASSACRE NO BAIRRO JAPONÊS (93), de Mark L. Lester: Este aqui é simplesmente um dos filmes mais divertidos e brutais do gênero nos anos 90. Perdi a conta de quantas vezes assisti, só sei que é um dos grandes responsáveis por me fazer amar tanto o cinema de ação. Dolph Lundgren dessa vez une forças com o filho de Bruce Lee, Brandon, que consegue a proeza de roubar a cena do sueco com um personagem carismático e excelente na porrada. Uma pena que Lee morreu tão cedo. Teria lugar garantido hoje no hall da fama dos grandes ícones do cinema de ação. Este filme é prioridade para um futuro texto. Aliás, todos dessa lista são…

O DEMOLIDOR (93), de Marco Brambilla: Mais duas figuras nada amigáveis são colocadas em lados diferentes. E o confronto desses caras vai além do limite do espaço e tempo! Stallone é o policial mais casca grossa do mundo e faz de tudo para pegar Wesley Snipes, o terrorista mais perigoso do mundo. Até consegue, mas vários inocentes morrem no caminho. Ambos são presos e congelados. Trinta anos no futuro, Wesley Snipes toca o terror e só Stallone, o policial old school é capaz de pará-lo. Que comece o segundo round! Mas antes, Sly precisa aprender a usar as três conchas…

BULLET TO THE HEAD (2012)


BULLET TO THE HEAD é exatamente o que eu estava esperando. Simples, violento, objetivo e sem frescuras. E, de algum modo, um retorno aos velhos tempos dos filmes de ação casca-grossa. Baseado numa história em quadrinhos, marca o retorno de Walter Hill à cadeira de diretor para um trabalho feito pra cinema e tem Sylvester Stallone como Jimmy Bobo, um assassino profissional em busca de vingança. Mas isso vocês já estão carecas de saber pelas sinopses e trailers que rolam por aí. O que vocês realmente precisam saber é que Stallone passa o filme inteiro esmurrando, explodindo e atirando na cabeça de bandido, mesmo os desarmados, na covardia, e sem qualquer remorso! E nem passa pela cabeça do sujeito o chato clichê da crise de consciência por causa do seu tipo de trabalho e modo de vida. “Buah! preciso sair dessa vida de matança”, como dizem os pseudos action heroes desta geração politicamente correta.

E Stallone está perfeito por aqui. Chega até emocionar vê-lo construindo um personagem carismático, engraçado e badass, para entrar na sua galeria de papéis marcantes, como Rocky, Rambo, Marion Cobretti e outros. O Barney Ross, de MERCENÁRIOS, por exemplo, que eu adoro, parece uma compilação de um monte de personalidades que o Stallone já interpretou, inclusive a dele própria. Jimmy Bobo é algo novo na carreira do Sly, que parece ter se divertido bastante ao encarnar um assassino sangue frio e sarcástico ao extremo. Sem contar que na sua idade atual entram alguns conflitos pelo fato de ser um dinossauro anacrônico diante do mundo moderno, da mesma maneira que o Schwarzenegger de xerife em THE LAST STAND…

Acho até que acertaram na escolha de substituir Aaron Eckhart pelo Sung Kang, que não é lá tão conhecido. Eckhart tem personalidade e presença, tiraria um pouco o foco do Stallone. Kang é apenas um bom acompanhamento. Um contraponto interessante do protagonista, até pelo fato de ser um policial que faz parceria com um assassino, apesar de não ser daqueles coadjuvantes cools, como Brandon Lee em MASSACRE NO BAIRRO JAPONÊS, ou Steve James em AMERICAN NINJA. Dá uns tiros e aplica umas artes marciais em dois ou três meliantes, além de sempre descobrir umas coisas relevantes para o caso que investigam através de celular, algo que desnorteia um pouco o Jimmy, que não é muito ligado à tecnologia… Mas o resto do filme é Stallone em ação puríssimo! Apesar disso, a química entre os dois é ótima e Kang não se torna nunca pedante. Algumas das melhores sequências de BULLET TO THE HEAD são justamente aquelas que os dois dialogam, trocam desaforos e piadinhas, lembrando os bons e velhos buddy movies dos anos 70 e 80. Gosto de uma cena em que o personagem de Kang pergunta a Jimmy Bobo quem é a mãe de sua filha. O sujeito responde que ela era “uma puta drogada que morreu há quinze anos“. E pronto, só essa frase basta para destroçar mais de uma década de cinema de ação hollywoodiano politicamente correto (com as raras exceções).

No elenco ainda temos Christian Slater, num pequeno papel de advogado do vilão. E é bacana poder vê-lo na telona. É desses atores que em algum momento deixou a carreira desandar e foi parar em produções direct to video, como o Cuba Gooding Jr. e o Val Kilmer. Temos também Adewale Akinnuoye-Agbaje encarnando um vilão inescrupuloso e Jason Momoa, seu principal capanga responsável pelos serviços sujos. Pausa para falar do Momoa. Tomei certa antipatia pelo sujeito depois da refilmagem de CONAN, mas ele está perdoado por este papel em BULLET TO THE HEAD (e também pelo GAME OF THRONES, que nunca acompanhei, mas já cheguei a ver alguns episódios). Momoa faz aqui o típico vilão old school, que se fosse nos anos 80, seria interpretado por um Vernon Wells ou Brian Thompson. Um mercenário filho da puta que realiza seus serviços pelo prazer de matar e não pelo dinheiro que entra na conta. E ainda contracena com Stallone uma luta de machados que, putz, é de encher os olhos de qualquer fã de “cinema de macho”. Para finalizar, apresentando Sara Shahi, uma belezinha tatuada que encarna a filha do Stallone. E podem comemorar, é possível ver algumas tattoos, digamos, mais intimas da moça…

Sobre a direção do Hill, que substituiu o Wayne Kramer (desistiu por diferenças de opiniões entre o Stallone), é preciso apontar algumas coisas. Definitivamente dá para perceber o estilo do homem impresso no modo de filmar a cidade, no excelente domínio na direção de atores, a maneira de trabalhar os elementos do gênero com a essência dos anos 80, etc… Mas de vez em quando parece que estamos diante de um direct to video mais classudo, mais elegante. Há até alguns efeitos moderninhos de pós produção que eu nunca pensei em ver num filme de um sujeito do calibre do Hill. Não chega a incomodar, mas poderia ser evitado.

Em termos de ação, o sujeito ainda manda muito bem. Só não esperem algo tão old school, com o charme de um EXTREME PREJUDICE, INFERNO VERMELHO ou 48 HORAS. Em vários momentos Hill chacoalha a câmera, picota na edição, especialmente em cenas de luta, o que não quer dizer que seja mal feito, pelo contrário, é tudo muito bem orquestrado por alguém que conhece profundamente a gramática do cinema de ação. E mesmo adotando esses artifícios modernos, o diretor demonstra que é possível fazer ação de qualidade nos nossos dias.

Tenho lido algumas resenhas gringas depois de conferir e confesso que não esperava encontrar tantas críticas negativas, dizendo que o roteiro faz juz ao segundo nome do protagonista (na verdade, é Bonomo, Bobo é um apelido carinhoso que o personagem possui). Será que só eu fiquei empolgado? Ok, o roteiro não é nenhum primor e possui alguns furos. Mas a quantidade de Stallone dando tiro na cabeça de bandidos compensou qualquer equívoco pra mim. Comparado ao vasto número de obras primas que o gênero concebeu nos anos 70 e 80, BULLET TO THE HEAD não deixa de ser mesmo apenas um filme genérico, uma gota no oceano de truculência fílmica, que ora remete ao cinema de ação daquele período, ora parece que realmente estamos vendo um exemplar da época. Agora, dentro do panorama atual, é um frescor, objeto de rara honestidade, um baita filmaço de ação.