A VINGANÇA DO NINJA (Revenge of the Ninja, 1983)

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Seria complicado fazer A VINGANÇA DO NINJA começar de onde ENTER THE NINJA terminou, porque o personagem de Shô Kosugi, um mestre ninja “do mal”, foi decapitado por Franco Nero no confronto final. No entanto, como resolveram trazer o ator japonês de volta nesta “continuação” oficial do filme de Menahem Golan, o jeito foi fazer um filme totalmente independente. Ou seja, A VINGANÇA DO NINJA não tem qualquer ligação com o filme “anterior”.

Sendo assim, Kosugi é um bom sujeito por aqui. Seu personagem vive uma vida tranquila e pacata com o seu clã no Japão, numa bela casa, com grandes jardins, é um artista que trabalha com bonecas de porcelana japonesas, um bom marido, pai de família e… Enfim, é tudo tão tocante que um filme sobre a vida desse cara deveria ser dirigido por um Mizoguchi ou Yasujiro Ozu. Mas A VINGANÇA DO NINJA é realizado pelo Sam Firstenberg, e é mais uma produção da Cannon Films, portanto, podem esquecer uma provável beleza poética da coisa. O tal clã é logo atacado por um grupo de ninjas, estrelinhas na testa prá todo lado, a esposa do protagonista é assassinada (os únicos sobreviventes, na verdade, são o próprio Kosugi e o filho recém nascido) e temos aí a premissa montada para um belo filme de ação ninja. Até porque o personagem do Kosugi, além de tudo aquilo que eu disse ali em cima, não poderia deixar de ser também um mestre ninja!

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Para recomeçar a vida, um amigo americano convence Kosugi a levar seu filho para os EUA e abrir uma galeria para suas bonecas. Ok, eu não vou ficar fazendo piadinhas com o fato do protagonista produzir bonecas, seria muito óbvio. Prefiro acreditar que se trata de um elemento da teoria de que todo herói badass tem um lado sensível. Exemplos temos aos montes: Schwarza em COMANDO PARA MATAR (1985) alimentando um veadinho nos créditos de abertura; Steven Seagal salvando o cachorrinho em OUT FOR JUSTICE (1991); Van Damme com seu coelhinho de estimação em BORDER PATROL (2008)… qual é o problema do Kosugi ter uma coleção de bonecas, caralho?!?!

Bom, Kosugi aceita a proposta do amigo e vai para os EUA brincar de bonecas. Os anos se passam, o moleque cresce e tudo anda bem encaminhado na galeria de bonecas de Kosugi. Há até um esforço do filme em trabalhar o choque cultural nos personagens, como na cena em que a assistente do herói, uma loura americana, resolve praticar treinamento ninja sem calcinha, num dos momentos mais dramáticos do filme…

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Er… De todo modo, ainda há uma história que poderia ser dirigida por um Shohei Imamura ou Nagisa Oshima… mas, repito, o filme é do Firstenberg! Pra quem não se lembra, o Firstenberg talvez seja o maior especialista em filmes de ninja em solo americano, tendo dirigido o clássico AMERICAN NINJA, com o Michael Dudikoff… Portanto, para dar uma esquentada na trama, Kosugi descobre que o tal amigo americano utiliza a exportação das bonecas para traficar drogas no interior delas… Quem poderia imaginar?

As surpresas não acabam por aqui, porque depois que toda a ação começa pra valer, com a presença de vários ninjas para Kosugi chutar na cara, descobrimos que seu amigo americano também é um… mestre NINJA!!! Um ninja branco como no filme anterior, só que em papel invertido. Desta vez o ninja branco é o vilão.

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Em termos de ação, o nível de qualidade das cenas de luta em A VINGANÇA DO NINJA são muito boas, com longas sequências de pancadaria, muitos ninjas sendo abatidos e todo o tipo de armamento ninja sendo utilizado em vários tipos de cenários. O duelo final, que se passa no topo de um arranha céu, é um bom exemplo onde espaço é muito bem aproveitado para o tipo de ação que temos aqui.

Portanto, em vários aspectos A VINGANÇA  DO NINJA acaba por ser um exemplar de respeito dentro do subgênero feito nos Estados Unidos. Talvez até mais que o primeiro filme em termos de cultura ninjitsu e artes marciais. Mas ENTER THE NINJA tem Franco Nero, com aquela piscadela de olho no freeze frame final, é bem mais ingênuo e muito mais divertido na minha opinião. O que não tira os méritos deste aqui, é claro. Obrigatório para quem curte um bom filme de ninja.

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BLACK EAGLE (1988)

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Um avião que transporta um sistema de orientação de mísseis a laser de última geração cai em Malta. O governo americano age rápido e envia seu melhor agente, Sho Kosugi, até lá para recuperá-lo. Só que o sujeito tem trabalhado demais e quase não tem tempo pra família e isso tem o deixado chateado… Qual é a solução? Leve as crianças junto pra Malta e coloque-as num hotel cinco estrelas até que Kosugi termine o trabalho. Só que os russos também estão atrás do sistema e, obviamente, vão fazer de tudo para atrapalhar a vida do nosso herói, até mesmo sequestrar seus filhos e tentar tornar a trama de BLACK EAGLE mais agitada…

Um dos vilões russos é um tal de Jean-Claude Van Damme. É divertido vê-lo ainda em início de carreira tentando ganhar seu espaço. O sujeito basicamente desempenha o mesmo personagem que fez em NO RETREAT NO SURRENDER,  um meliante, guarda-costa e braço direito de um facínora russo. Embora este seja um papel precoce e minúsculo, Van Damme já demonstra suas qualidades que ajudariam a torná-lo um astro do cinema de ação dos anos 90, como por exemplo sua arte que justifica o cinema feito em 16:9: o espacate.

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Mas tirando a presença de Van Damme, BLACK EAGLE é bem problemático em vários sentidos. sei lá, os produtores não estavam pagando o cara? E como é o protagonista, que carrega grande parte do filme, o resultado é insoso, sem muita energia. Mas o pior de tudo são as cenas de Kosugi com os filhos. Quero dizer, precisamos mesmo de um herói que leva seus filhos para a praia e museus durante a METADE de um filme de ação? Tenho certeza de que enquanto mata russos e tenta cumprir a misão ele gostaria de sair com os filhos e tal, mas isso só retardam um filme que já é lento até para os padrões do cinema de ação do período. Enfim, se Van Damme aproveita cada minuto por aqui, como veículo para Kosugi BLACK EAGLE é puro lixo.

Vale mais a pena concentrar a atenção em Van Damme, cujo personagem é bem mais interessante e expressivo. De resto, BLACK EAGLE é maçante e previsível. O pior é que Van Damme e Kosugi ficam muito pouco tempo juntos na tela e têm apenas duas lutas, nenhuma das quais são exatamente muito boas. A primeira termina abruptamente a segunda é muito mal ilumiada, numa escuridão desnecessária. Claro, ambos demosntram suas habilidades e alguns momentos de luta são bons, mas levando em conta o material humano que temos aqui, era para ter coisa melhor.

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Em suma, os fãs de Sho Kosugi vão sair frustrado de BLACK EAGLE, já os admiradores do belga tem aqui um lado curioso de vê-lo aprontando as suas em início de carreira. De qualquer forma, os apreciadores de filmes de ação não vão sair muito satisfeitos, exceto por um ou outro momento. Faça um favor a si mesmo e ao invés de assistir a este aqui priorize um PRAY FOR DEATH ou REVENGE OF NINJA se querem ver o Kosugi na sua melhor forma, e reveja KICKBOXER, O GRANDE DRAGÃO BRANCO, DUPLO IMPACTO e etc… Este aqui pode esperar.

ENTER THE NINJA (1981)

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Fui convidado pelo companheiro Karl Brezdin, do blog Fist of B-List, para participar do NINJAVEMBER 2013, um especial que reúne em seu blog textos sobre filmes de ninja espalhados pela blogosfera. Como ele disse que não havia problema o texto ser em português, resolvi contribuir com ENTER THE NINJA. Não faço ideia se outro blog vá escrever sobre o filme, mas isso pouco importa. O fato é que se existe um subgênero chamado, digamos, “ninja movie“, esta fita aqui pode ser considerada uma das mais importantes.

Filmes de ninja sempre existiram, mas AMERICAN NINJA, de Sam Firstenberg, talvez tenha sido o principal responsável por popularizar a figura do guerreiro encapuzado no cinema ocidental. Mas se voltarmos um pouco no tempo para conferir a origem da febre nos Estados Unidos, provavelmente chegaremos em ENTER THE NINJA. Produzido pela Cannon Group, da dupla Golan-Globus, e dirigido pelo próprio Menahem Golan, o filme estabelece a ideia do ocidental que se torna um mestre da arte ninjitsu. No caso deste aqui, temos ninguém menos que o italiano Franco Nero, com bigode e tudo mais, dentro de um pijama branco.

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Após completar seu treinamento no Japão e se tornar um mestre ninja, Nero vai para as Filipinas ajudar um amigo de longa data (Alex Courtney, que é a cara do James Caan na época do PODEROSO CHEFÃO), que possui um rancho no local e passa por alguns problemas com um grande empresário que quer comprar suas terras. A mulher do sujeito, Susan George, ama o local e não pretende vender de maneira alguma. E a coisa vai complicando, porque a oferta do inescrupuloso businessman é “irrecusável”, do tipo “ou vende, ou algo ruim pode acontecer“.

E o recém formado “ninja branco” resolve ajudar da melhor forma possível: distribuindo pancadas em capangas que tentam persuadir seu amigo. Finalmente, o vilão, que é interpretado por Chistopher George, decide utilizar dos mesmos recursos de seu adversário e contrata um ninja diretamente do Japão para bater de frente com Franco Nero. E por pura coincidência e originalidade do roteiro, o cara escolhe justamente um desafeto do protagonista da época dos estudos ninja, vivido por Shô Kosugi.

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Ok, já dá pra ter uma noção do que teremos aqui. Sim, o filme é bobo e até um bocado constrangedor em alguns momentos, mas acaba divertindo justamente por isso. Por exemplo, tá certo que todos nós admiramos Franco Nero como o casca-grossa do Spaghetti Western e do cinema Polizieschi, o sujeito que interpretou Keoma e o Django original. No entanto, convenhamos, como mestre ninja não convence nem a minha avó. Mas a graça de ENTER THE NINJA está exatamente na ideia absurda de ter alguém do calibre de Franco Nero como um ninja, por mais ridícula que seja. É daquelas alegrias que só o cinema dos anos 80 poderia proporcionar.

Como Nero não percebe nada de artes marciais, em TODAS as cenas de luta nota-se claramente o uso de dublê, independente do personagem estar vestido de ninja ou não. Mas a grande sacada é que entre um golpe e outro em plano aberto com o dublê, corta para um close do Franco Nero fazendo cara de quem realmente estava enfrentando uns vinte sujeitos de uma vez. É simplesmente genial. Há uma outra cena que entrega de bandeja a total falta de habilidade do ator. Nero pega um nunchaku e começa a manuseá-lo em um momento de treino, tentando fazer aqueles movimentos estilo Bruce Lee, e o resultado é extremamente tosco! Hahaha! Belo mestre ninja esse aí…

 De qualquer forma, esta questão foi alterada na continuação, REVENGE OF THE NINJA, que traz de volta o Shô Kosugi como herói. No papel de vilão até que manda bem por aqui, só que o filme é tão bobinho que em momento algum sentimos que ele é uma ameaça para o Nero. O confronto final entre os dois, por exemplo, é bem curto e o herói não tem grandes dificuldades para derrotá-lo.

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Quem se destaca é Christopher George que faz um dos vilões mais estereotipados dos anos 80. Seu personagem ficou famoso nesta era do youtube por conta da cena em que é morto pelo herói, com um video cujo título é Best Death Scene Ever. Como podemos perceber, Nero manda uma estrelinha ninja em cheio no peito do sujeito, que desmunheca, solta um gritinho estranho e faz umas caras impagáveis… Uma performance corporal artística muito expressiva, eu diria. De fazer inveja a Marlon Brando ou Lawrence Olivier. Susan George também tem muita presença, especialmente porque se nota que está sem sutiã durante o filme inteiro e os peitos ficam balançando debaixo da blusa.

A ação de ENTER THE NINJA é basicamente composta por pancadaria, só que conduzida sem muita inspiração. Até que há o suficiente pra manter o espectador entretido, mas são rápidas e não chegam a empolgar muito. São má dirigidas, má coreografadas, má decupadas. Mas valem pela presença do Franco Nero inserido nos close-ups. Alguns momentos que tentam aproveitar mais da essência do ninjitsu, especialmente as armas e as habilidades especiais que só os ninjas possuem, acabam se tornando mais interessantes. Mas, no fim das contas, são outros detalhes, ridículos ou não, que importam e que fazem ENTER THE NINJA o clássico que é.

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