ESPECIAL DON SIEGEL #27: O ÚLTIMO PISTOLEIRO (The Shootist, 1976)

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Tinha convidado alguém pra escrever sobre O ÚLTIMO PISTOLEIRO, mas isso já faz mais de um ano, acabou que a pessoa não me enviou nada e eu também não lembro quem era, então tanto faz. O importante é dar prosseguimento à peregrinação do cinema de Don Siegel, que chega neste western que carrega, digamos, uma certa importância peculiar. O fato é que três anos depois de protagonizar O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o maior ícone do western americano, John Wayne, bateu as botas por conta de um câncer fodido no pulmão e estômago. Este filme aqui, portanto, acabou por ser sua derradeira performance. E não poderia ser mais melancólico que o último filme do “Duke” fosse sobre um velho pistoleiro em fim de carreira chamado J. B. Booker, que descobre que tem um câncer terminal.

Booker só quer viver seus últimos dias da melhor maneira possível. Para confirmar a suspeita sobre sua saúde, visita um velho amigo médico, Dr. Hosteler, interpretado por por outro gigante, James Stewart, e obtém o diagnóstico que confirma seu câncer incurável. Em seguida, aluga um quarto em uma pensão administrada por uma viúva (Lauren Bacall) e seu filho adolescente (vivido por um jovem Ron Howard). Uma vez que Booker é reconhecido pela sua fama, as notícias se espalham pela pequena cidade de Carson City, incluindo sobre a doença, e percebe que não vai conseguir viver o pouco tempo que  lhe resta tão pacificamente como gostaria. Há tanto pessoas que tentam tirar proveito da presença do sujeito, como o agente funerário (John Carradine) que pretende embalsamar seu corpo, ou o jornalista que quer publicar um livro sobre suas façanhas, quanto, obviamente, outros pistoleiros desfrutando da situação para ganhar fama num possível duelo com Booker. Como o sujeito não quer “partir dessa para uma melhor” em agonia, deitado numa cama, a ideia de morrer trocando tiros com quem quer que seja até que não é tão ruim…

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John Wayne, como não poderia ser diferente, é o tour de force de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, está simplesmente sensacional. O sujeito reúne toda a essência da persona que desenvolveu ao longo da carreira vivendo centenas de personagens para transcender em Booker, o cowboy em fim de carreira definitivo. Wayne nunca esteve tão carismático e singelo como aqui, sem perder o jeito durão que o transformou num dos maiores casca-grossas do velho oeste. Mas são os momentos bucólicos e simples que dão força ao filme: os diálogos entre Wayne e Bacall, a relação fraternal que surge entre o protagonista e o jovem Ron Howard e principalmente Wayne contracenando com James Stewart, num desses momentos dignos de antologia.

Don Siegel aproveita todo esse material humano da melhor maneira possível, sem nunca soar piegas pelos temas delicados e nem cair na tentação de transformar a coisa toda num dramalhão sentimental. O filme é até bastante leve e divertido, embora não tenha a energia de outros trabalhos do homem, que foca mais nas performances do elenco. E apesar de atores talentosos, que é realmente o melhor de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o filme não deixa de ter alguns problemas. Depois de um começo sólido, que te cativa, o ritmo começa a cair um bocado, enrola demais e me peguei bocejando lá pelas tantas.

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Rola algumas histórias de que Siegel e Wayne não teriam se dado muito bem durante as filmagens e era comum o ator tentar querer dirigir o filme, atravessando Siegel, reclamando que o projeto merecia um tom mais épico, totalmente fora do estilo mais seco do diretor. Inclusive chegou a queixar e palpitar no tiroteio final, dizendo que seu personagem nunca poderia atirar em alguém pelas costas, que  nunca tinha feito isso na vida, e esse tipo de baboseira. Acho que o “Duke” já estava perdendo a noção, mas O ÚLTIMO PISTOLEIRO volta a melhorar justamente perto do final, quando Books parte na iminência de encarar os seus inimigos à base de chumbo-grosso. E ação do clímax talvez não seja das melhores sequências de tiroteio que o Siegel já filmou na vida, mas é classuda, tensa e sangrenta suficiente pra prender a respiração.

De qualquer forma, o saldo final é muito positivo. O ÚLTIMO PISTOLEIRO pode não ser a melhor despedida, mas não deixa de ser um bom reflexo da mudança dos tempos para um pistoleiro old school adentrando no século XX, e um interessante estudo sobre a aproximação da morte. E vale muito a pena aproveitar o “Duke” numa atuação daquelas!

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