ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.7: THE LONELY (1959)

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Mais um ALÉM DA IMAGINAÇÃO pra moçada bonita que acompanha o blog! É evidente que só vou conseguir definir os melhores e piores episódios quando terminar de assistir a essa primeira temporada por completo. Mas uma coisa pelo menos já posso confirmar: THE LONELY, sétimo episódio, corre sérios riscos de ser um dos meus favoritos. É bem simples e trata de um dos temas mais frequentes da série – o isolamento humano, como o título do capítulo já indica – mas a premissa é simplesmente genial e teria potencial para algo bem mais ambicioso.

James A. Corry (Jack Warden) é um prisioneiro que vive completamente sozinho num asteroide vagando no espaço, que consiste num novo e particularmente cruel, tipo de prisão. Sim, os condenados são jogados num asteroide no espaço e cumprem suas penas por lá! Isso é fantástico! Óbvio que o que realmente pega para Corry é a solidão, já que passa meses sem viva alma para interagir ou tomar, jogar um xadrez ou beber uma cerveja. Situação que o deixa completamente louco. De tempos em tempos, um foguete pousa no local para lhe trazer mantimentos, entre outras coisas. São esses mínimos contatos que mantêm a cabeça do sujeito no lugar. Mas depois de tanto tempo, nem isso basta.

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Felizmente, o gentil capitão Allenby (John Dehner) trouxe uma caixa a mais na sua última visita. Dentro, um robô chamado Alicia (Jean Marsh), que foi construída com características muito humanas. Incluindo sentimentos. Ela pode sentir dor e solidão, assim como Corry. Embora a rejeite num primeiro momento, o protagonista não está mais sozinho e se entrega à necessidade de uma companhia. Na próxima visita, Allenbe chega com boas notícias. Corry foi perdoado, o sistema de prisão espacial em asteroides foi cancelado e todos os prisioneiros estão voltando para a terra. O problema é que há espaço suficiente no foguete apenas para Corry, Alicia precisa ser deixada para trás.

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Dirigido por Jack Smight, e escrito pelo criador da série, Rod Serling, THE LONELY peca apenas por ser tão urgente, deixa um gostinho de “quero mais” e, talvez, não chegue a fundo no seu estudo sobre o homem em isolamento, nem na ideia de suprir essa necessidade numa relação com um robô. No entanto, a história é tão bem contada nesses vinte e poucos minutos, reduzindo toda a sua potencialidade à essência, que o episódio acaba passando seu recado de forma contundente e divertido às pampas.

Algumas cenas chaves são fantásticas nesse sentido, como quando Corry conhece Alicia e a rejeita porque ela não é uma pessoa real, apenas uma imitação. Mais tarde, ele se deixa consumir pela fantasia, não porque esteja apaixonado por um robô, mas porque ele precisa de algo tangível para se relacionar. No final, quando Allenby atira no rosto de Alicia, revelando nada mais do que fios em curto-circuito, Corry é imediatamente lembrado de quão perto ele chegou de perder a noção de realidade.

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Um dos destaque de THE LONELY é a solução que encontraram para a geografia do asteroide. Foi filmado principalmente no Parque Nacional do Vale da Morte, um lugar que serviria de cenários para muitos episódios da série que se passam em algum planeta distante. O deserto vazio e sem vida proporciona ao espectador a sensação de solidão perturbadora que os personagens encaram. É um oceano de nada. Quando Allenby e seus homens chegam ao local, são um lembrete para Corry que ainda há esperança, mas quando vão-se embora, não importa onde o protagonista vá, em qualquer direção que ele olhe sempre vai haver o vazio.

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Para quem não se lembra, Jack Warden é o jurado # 7 no clássico de Sidney Lumet, DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA. Ator prolífico, marcou presença em várias produções de peso nas três décadas seguintes. E é notória sua participação em THE LONELY, numa atuação expressiva e convencendo como sujeito desesperado pela solidão. O diretor americano Jack Smight é um dos mais interessantes a pintar na série e manda bem na direção, com muito frescor e originalidade. É um sujeito que já fez de tudo um pouco: estudou psicologia, lutou na guerra, dirigiu teatro e até foi Disc-Jockey. No cinema, demonstrou grande talento, mas acabou sendo engolido pelos estúdios e relegado mais à televisão. Mas tem vários bons filmes no currículo. Voltou à ALÉM DA IMAGINAÇÃO mais três vezes: THE LATERNESS OF THE HOUR (1960), THE NIGHT OF THE MEEK (1960) e TWENTY TWO (1961), todos na segunda temporada.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.6: ESCAPE CLAUSE (1959)

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Da safra dos episódios cômicos da série, ESCAPE CLAUSE conta a história de Walter Bedecker (David Wayne) um homem tão paranoico com a morte que vive com a ideia de que está com doenças terminais e à beira de comer capim pela raiz, quando na verdade possui uma saúde de ferro e queixa-se de que seu médico e sua esposa estão lhe enganando. Na verdade, Bedeker é tão obcecado pelo medo da morte, fantasiando essas situações patológicas, que o próprio diabo o vê como uma boa fonte para assegurar mais uma alma para o inferno.

O próprio Belzebu (Thomas Gomez) aparece em seu leito e lhe oferece uma tentadora vida eterna. Em troca, Bedecker lhe daria a sua mercadoria mais valiosa. O contrato ainda diz que nada de mal pode lhe acontecer. Seu corpo é indestrutível, não importa que se jogue à frente de um trem ou entre num prédio em chamas… Bedecker não reluta muito e assina o papel…

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O episódio prossegue mostrando que a vida de um imortal pode ser bem entediante. E na sua busca por novas emoções (e muito se jogar no vão do metrô), Bedeker acaba provocando um acidente que mata a sua própria mulher (Virginia Christine). O sujeito acaba preso e é sentenciado à prisão perpétua, o que pra ele é passar toda uma eternidade trancafiado numa cela…

ESCAPE CLAUSE é o típico conto do “contrato com o diabo”, tão explorado na cultura popular. E aqui não foge muito da fórmula – um protagonista que faz um acordo com o tinhoso que vai lhe beneficiar, mas acaba prejudicado exatamente pelo seu desejo – exceto pelo fato de que Rod Serling, o roteirista do episódio e criador da série, tenha escolhido trabalhar o tema num tom de comédia. Se por um lado ESCAPE CLAUSE é simpático e curioso, por outro, essa opção pelo cômico tira imensa força que o episódio poderia ter.

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Acaba tudo soando de maneira leve demais, sem que o conceito desse tipo de história tenha o efeito de reflexão desejado no espectador. No entanto, ESCAPE CLAUSE é o que é. Ou seja, não vale a pena criar hipóteses do que poderia ter sido… E vale ainda como passatempo rápido e rasteiro, especialmente pelas atuações. David Wayne exagera um pouco na dose, mas funciona dentro da proposta do episódio. Mas quem realmente se destaca em ESCAPE CLAUSE é Thomas Gomez no papel do diabo, que se apresenta como o Sr. Cadwallader. Gomez desafia a imagem tradicional do Anjo das Trevas, atraente, refinada e sombria como é habitual, para aparecer aqui com sua aparência de gordinho sorridente e simpático. Toda a sequência em que convence Bedeker a assinar o contrato já vale uma conferida no capítulo.

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A direção de ESCAPE CLAUSE é de Mitchell Leisen, que já havia realizado THE SIXTEEN MILLIMETER SHRINE, o quarto episódio, e ainda viria a dirigir PEOPLE ARE ALIKE ALL OVER, também nessa primeira temporada.

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.5: WALKING DISTANCE (1959)

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A maioria das pessoas tende a se identificar com WALKING DISTANCE. Quem nunca pensou em voltar no tempo, revisitar um local familiar do mesmo jeitinho que era há vinte, trinta, cinquenta anos, ver a si mesmo na infância, ver seus pais… É o que acontece com Martin Sloan (Gig Young), um homem de negócios de NY. Certo dia, numa viagem de trabalho, precisa parar num posto de gasolina/oficina à beira de estrada e percebe que está a 1,5 km de Homewood, a pequena cidade onde passou sua pequenez e que há 25 anos não retorna. Como seu carro ainda vai demorar algumas horas para fazer um reparo, decide fazer uma caminhada até lá.

Chegando em Homewood, Martin percebe que não só cruzou os 1,5 km, mas também retornou 25 anos de volta no tempo. Ele encontra as ruas, as lojas, o carrossel da praça, as pessoas que conheceu, do mesmo jeito que era na infância… E até bate na porta da sua própria casa. Seus pais atendem e, obviamente, não reconhecem seu filho. Martin se encontra com ele mesmo quando tinha cerca de dez anos de idade, mas afligido com toda essa situação, provoca um acidente que machuca a sua versão criança.

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Seu pai vem falar com ele e, dessa vez entende que está se dirigindo a seu filho adulto, que veio do futuro, pede-lhe para deixar o local porque ele não tem “nada para fazer aqui”. O tempo dele já passou e é a vez do pequeno Martin ter sua chance. Martin Sloan diz adeus ao pai e retorna à estrada de volta ao seu carro, dessa vez mancando da perna por conta do acidente que acabou de causar à criança que fora. Martin Sloan acabou de fazer uma curta viagem para ALÉM DA IMAGINAÇÃO.

As histórias de viagem do tempo sempre me fascinaram, mas a maioria cede às complexidades do conceito. Não vejo mal, mas é a simplicidade de WALKING DISTANCE que me encanta. Concentra-se na aventura humana e mais emocional de seu personagem sem se preocupar muito com com os efeitos paradoxais de viagem no tempo. É o sentimento físico e metafísico do tempo que passou, das coisas que cresceram e as que se foram.

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Gig Young tem uma performance fantástica como Martin Sloan. Os mais cascudos vão se lembrar dele em TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA, de Sam Peckinpah, fazendo um dos assassinos atrás de Warren Oates. Mas teve uma carreira sólida como coadjuvante, tendo sido indicado três vezes ao Oscar de melhor ator nessa categoria, com DEGRADAÇÃO HUMANA, de Gordon Douglas, UM AMOR DE PROFESSORA, de George Seaton, e A NOITE DOS DESESPERADOS, filmaço de Sydney Pollack em que Young acabou levando a estatueta. Teve uma morte trágica, poucas semanas após se casar com uma editora de revista alemã, Kim Schmidt. O casal foi encontrado morto e supostamente Young meteu bala na esposa e se matou.

A direção de WALKING DISTANCE é de Robert Stevens, que já havia dirigido um episódio da série, o primeiro, WHERE IS EVERYBODY?. Em ambos percebe-se um estilo próprio do diretor na composição dos enquadramentos, como a utilização dos espelhos e nas cenas mais tensas e climáticas, por exemplo, em que a câmera entorta os ângulos para dar um tom de estranheza.

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WALKING DISTANCE é considerado por muitos um dos melhores episódios desta primeira temporada. Mas o próprio roteirista do capítulo e criador da série, Rod Serling, não achava grandes coisas. Acreditava que tudo acontece depressa demais, como Sloan encontrar seus pais muito cedo. Mas estamos falando de uma historinha contada em vinte e poucos minutos, que era a duração habitual dos episódios da série (apenas na quarta temporada os capítulos tiveram uma duração maior), e nesse caso, não dava pra trabalhar tanto os acontecimentos, exceto de uma forma em que tudo se desenvolvesse rapidamente. Mas não sei ainda se concordo também que se trate de um dos melhores episódios, preciso continuar revendo os contos seguintes. Mas sem dúvida alguma é um que me cativa pela simplicidade e pela forma singela de passar sua mensagem.

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.4 – THE SIXTEEN MILLIMETER SHRINE (1959)

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Este quarto episódio da primeira temporada de ALÉM DA IMAGINAÇÃO já se destaca por ter a maravilhosa Ida Lupino como protagonista. Num papel que remete à Gloria Swanson como Norma Desmond no clássico de Billy Wilder, CREPÚSCULO DOS DEUSES. Só que com os elementos fantásticos que são habituais da série criada por Rod Serling.

Na trama de THE SIXTEEN MILLIMETER SHRINE, temos a velha atriz que não se dá conta de que seu momento já passou, que não tem mais idade para papeis de mulheres jovens e bonitas, ou não quer acreditar nisso… Barbara Jean Trenton (Lupino) descarta totalmente a realidade e vive agora enfurnada na sua sala de projeção, vendo e revendo seus antigos filmes românticos de trinta anos atrás, tentando reviver sua juventude. Seu agente (vivido pelo grande Martin Balsam) teme pela sanidade da mulher, assim como sua criada (Alice Frost), e faz de tudo para trazê-la de volta à realidade, que ela se aceite como a grande atriz que fora e siga em frente como uma artista mais madura, com mais gabarito…

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Mas essa é a vida que ela quer, quando todos eram bonitos e românticos, onde ninguém a confundiria com um estrela de cinema obsoleta. Ela continua assistindo a seus antigos filmes e o mundo continua tentando esmagar seus sonhos, mas tudo o que lhe resta são os sonhos, e então, bem… estamos ALÉM DA IMAGINAÇÃO por aqui, onde coisas estranhas acontecem e os sonhos se tornam reais nos limites dessa fronteira.

Mais uma vez escrito por Serling, o episódio obviamente não possui a sátira ácida do filme de Billy Wilder, embora ambos tenham temas similares. Mas não deixa de ser eficiente nas questões que propõem, como viver do passado ou num mundo de fantasia ao invés de aceitar a dolorosa realidade. Ajuda muito ter uma Ida Lupino sublime como Barbara Jean Trenton, evitando a tentação de imitar o desempenho exagerado de Gloria Swanson, mas fazendo uma estrela do cinema tão obsessiva quanto Norma Desmond em CREPÚSCULO DOS DEUSES. Uma curiosidade, Lupino foi a única pessoa a protagonizar um episódio da série e também a dirigir um outro. Na quinta temporada ela realizou THE MASKS.

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Martin Balsam fazia aqui sua primeira participação em ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Voltaria à série em 1963, na quarta temporada, no episódio THE NEW EXHIBIT.

A direção de THE SIXTEEN MILLIMETER SHRINE ficou por conta de Mitchell Leisen, que é segura e elegante, mas nada especial. Não que o episódio precisasse também… Basta as atuações de Lupino e Balsam para a coisa funcionar. Leisen ainda viria a dirigir mais dois episódios em ALÉM DA IMAGINAÇÃO: ESCAPE CLAUSE e PEOPLE ARE ALIKE ALL OVER, ambos da primeira temporada.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.3 – MR. DENTON ON DOOMSDAY (1959)

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Uma das coisas mais legais de ALÉM DA IMAGINAÇÃO é o diálogo entre gêneros. Além do sci-fi, do horror e da fantasia, que são o básico da série, sempre teremos uns episódios mais dramáticos, outros mais cômicos, teremos policiais noir, guerra, aventura e até western. Este último é o caso de MR. DENTON ON DOOMSDAY, terceiro episódio da primeira temporada.

Em 1959, os filmes de bangue-bangue ainda dominavam os olhares do público. Mas não esperemos a linguagem básica do western totalmente presente aqui nessa curta história de redenção e destino. O protagonista, por exemplo, não é nenhum cowboy ou xerife durão, mas o retrato exato de um bêbado. A história se passa numa pequena cidade do velho oeste americano e o nosso “herói” é Al Denton, vivido por Dan Duryea, constantemente humilhado por um jovem pistoleiro chamado Dan Hotaling, interpretado pelo inigualável Martin Landau. Tudo o que Denton gostaria era de poder se redimir, de uma nova chance na vida, mas acaba sempre perdido em mais uma garrafa de uísque.

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O elemento fantástico da série vem na espécie de um anjo da guarda transvestido de um vendedor ambulante (Malcolm Atterbury), que chega à cidade e resolve misteriosamente se intrometer no destino de Denton. Agora o sujeito tem a sua segunda chance, se redescobre muito mais homem do que achava que ainda era. Mas será que vai aproveitá-la devidamente?

Novamente escrito pelo criador da série, Rod Serling, MR. DENTON ON DOOMSDAY é um dos episódios sobre “perdedores”, onde o personagem principal é um ferrado que está do lado errado da sorte. Em seguida, acontece algo “mágico”, algo inacreditável que invade a realidade infeliz do personagem, cujo efeito muda para sempre sua vida e sua visão sobre o futuro. Em cada uma dessas histórias, no entanto, há uma escolha fundamental que deve ser feita pelo personagem. O milagre nunca vem de graça e nunca sem a necessidade de uma ação humana como catalisador. MR. DENTON ON DOOMSDAY exemplifica exatamente esse tema, que ainda serão explorados em vários episódios da série.

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Enfim, é um episódio agradável. O cenário do Velho Oeste funciona bem como palco para esse jogo de moralidade. Vale dar ênfase ao elenco, no qual temos um ator gabaritado como Dan Duryea, que já tinha realizado, por exemplo, diversos filmes noir de Fritz Lang. Mas meu destaque vai para um jovem Martin Landau, demonstrando um talento incrível e indícios do grande e expressivo ator que seria futuramente, recebendo o Oscar de melhor ator coadjuvante em ED WOOD, de Tim Burton. Uma pena seu falecimento recente. Malcolm Atterbury tem uma participação menos expressiva, mas sua presença também chama a atenção. Fez uma carreira mais voltada para séries de TV, tendo recebido mais de 150 créditos como ator.

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A direção do episódio ficou por conta de Allen Reisner, prolífico diretor de séries, embora MR. DENTON ON DOOMSDAY seja seu único trabalho em ALÉM DA IMAGINAÇÃO.