THE LIGHTHOUSE

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THE LIGHTHOUSE é o novo trabalho de Robert Eggars, diretor do fantástico A BRUXA, um dos meus filmes de horror favoritos da década.

Existem poucas informações sobre este THE LIGHTHOUSE até agora, mas a primeira imagem (acima), liberada esta semana, já deu um gostinho de ansiedade. Foi anunciado como um filme de fantasia, horror, drama, mas parece ser algo bem intimista, pouco povoado (como era também o trabalho anterior do diretor), centrada em torno desses dois sujeitos e um farol na Nova Escócia. Atualmente, o filme só lista os dois atores no imdb: Willem Dafoe, que interpreta um personagem chamado “Old”, e Robert Pattinson.

Eggers vem se revelando um cineasta defensor da criação de um senso de autenticidade. Pattinson e Dafoe recentemente confirmaram que as condições de filmagem de THE LIGHTHOUSE eram “duras” e que os dois dificilmente se falavam, exceto nas suas cenas juntos. Em uma entrevista recente, Pattinson chegou a dizer que queria dar um soco em Eggers de tão obsessivo ele era. Além disso, Eggers se manteve firme em gravar em filme preto-e-branco de 35mm, evitando a recomendação de filmar em digital e depois converter na pós-produção.

A A24 Films, que também distribuiu A BRUXA, distribuirá THE LIGHTHOUSE, que terá sua estréia no Festival de Cannes agora em maio, fora da competição.

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A BRUXA (The VVitch: A New-England Folktale, 2015)

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Apenas uns comentários rápidos sobre A BRUXA, de Robert Eggers, pra não passar batido… Até porque é preciso celebrar quando aparece algo assim, desse nível, em tempos que o cinema de horror anda na mesmice, tão genérico, salvo as poucas exceções que aparecem a cada ano. Um caso raro que realmente investe pesado na criação de uma atmosfera densa e angustiante, ao invés de ser mais outro filme de sustos histéricos, gerando momentos que fizeram algumas pessoas saírem um tanto agitadas da sala onde assisti. E foi interessante a experiência de ver um filme como este no escuro do cinema e perceber a reação do público diante de uma obra nada convencional para os padrões que esses comedores de pipoca estão acostumados. Um misto de pessoas que achavam o filme chato e lento com outras que literalmente estavam aterrorizadas de medo. Juro, uma moça bem na minha frente agarrada ao braço do namorado não parava de chorar e dizer “Quero ir pra casa, tô com medo”… Hahaha! Isso é ou não é espetacular?

Quanto a mim, achei A BRUXA uma pequena obra-prima, desses filmes que por mais que elevasse a minhas expectativas, conseguiu me surpreender e desconcertar. Simplesmente o melhor filme de horror desde… Não sei… Acho que o último filme de horror que mexeu tanto comigo assim foi o sueco DEIXE ELA ENTRAR (2008), de Tomas Alfredson… Ou seja, já faz um tempinho que não fico tão impressionado com um filme do gênero. Não que não tenhamos bons exemplos por aí. IT FOLLOWS, só pra citar, é um que não deixa de ser maravilhoso e entrou no meu top 10 do ano passado; mas nada que se compare com A BRUXA.

Não quero ficar descrevendo essa belezinha, mas digamos, basicamente, que é sobre uma família religiosa e puritana pra cacete, no século XVII, que após ser banida da comunidade local por motivos que a trama não faz a mínima questão de explicar, tenta sobreviver em outros cantos, longe de tudo e de todos, no interior da Nova Inglaterra, mas acaba tendo sua fé posta à prova quando se deparam com forças malignas que habitam a floresta próximo ao seu novo lar. O que se segue é uma história pesada, melancólica, cheia de paranoia e medo, com a família se rompendo. Mas sem criar discursos morais em relação a fé cega e desvairada dos personagens… O filme não os julga em momento algum por suas crenças ou por quem eles são, o que torna toda a calamidade da trama ainda mais devastadora.

Principalmente porque os eventos que ocorrem em A BRUXA nunca são sugestivos, ambíguos, ou colocam o espectador para refletir sobre a possibilidade de tudo não se passar de uma espécie de ilusão ou psicose coletiva por causa do fanatismo religioso da família… O filme deixa bem claro desde o início que todos os acontecimentos são reais e se manifestam de forma física. E a partir disso, meus caros, até eu, que me considero um “macaco velho” com filmes de horror, fiquei impressionado com algumas situações perturbadoras que o filme coloca na tela…

Não vou descrevê-las, mas duas cenas em especial tiveram grande impacto enquanto eu assistia ao ponto de não conseguir piscar os olhos. Fiquem atentos à cena do menino enfeitiçado, um dos trabalhos de encenação mais fortes que vi nos últimos anos, com destaque para a atuação do jovem Harvey Scrimshaw, cuja expressão corporal e a maneira que entoa seu monólogo final é de prender a respiração (aliás, o trabalho de todos os atores é simplesmente fantástico). A outra cena é perto do final, quando a violência finalmente explode… Sem querer estragar a surpresa, envolve um certo bode chamado Black Phillip, que tem tudo para se tornar o mais novo ícone do cinema de horror atual.

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Esses e outros momentos me fizeram contorcer na cadeira, de tão desconfortável que eu estava, com o nível de tensão e o clima pesado de medo que o diretor Robert Eggers, um estreante em longas, imprime com bastante cuidado e habilidade, especialmente na construção atmosférica. Todo o visual é trabalhado minunciosamente, com uma fotografia cinzenta e quase todo filmado à luz natural, para engolir o espectador pra dentro filme. E a trilha sonora, com seus acordes agudos e mistura de gritos e vozes cacofônicas, só reforçam esse efeito, criando um cenário de pesadelo enervante com uma tensão crescente que perdura até o final. E que final! Já me disseram que o filme deveria acabar antes, que o diretor não soube o momento de terminar… Discordo totalmente, o desfecho é lindo, é intransigente, é ousado e niilista… Enfim, arrebatador.

Não sei se teremos outro filme de horror em 2016 tão bom quanto A BRUXA, aliás, não sei se teremos um filme, independente do gênero, tão bom quanto este aqui. Claro, ainda é muito cedo pra falar, mas como sou sempre pessimista em relação ao cinema atual, não duvido de nada… Por enquanto, trata-se do melhor filme que vi em 2016. Uma curiosidade é que um dos produtores de A BRUXA é brasileiro, Rodrigo Teixeira, portanto, tem dedo nacional na bagaça. E fica aqui uma sugestão para quem curte um horror mais anacrônico, quem curte mais O BEBÊ DE ROSEMARY e O EXORCISTA do que as merdas que fazem hoje: Corram para as salas e desfrutem do melhor filme de horror dos últimos anos na tela grande. E aproveitem pra rir um bocado com a reação de uma parte do público que não está nem um pouco preparada para ter uma experiência como esta.