BORN AMERICAN (1986)

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Houve uma fase na carreira do diretor finlandês Renny Harlyn em que ele era apontado como uma das grandes promessas do cinema de ação. Hoje, no entanto, já deu para perceber que o sujeito não conseguiu atingir o potencial que era aguardado, mas chegou a realizar alguns bons filmes. Nada muito profundo, mas muito sólido e sempre divertido, demonstrando um bom olho para sequências de ação, como é caso de DURO DE MATAR 2 e RISCO TOTAL. Hoje quero falar um pouco do seu primeiro trabalho, BORN AMERICAN, um filmeco de ação oitentista com certas peculiaridades…

Produzido com dinheiro americano e finlandês, BORN AMERICAN é estrelado por um jovem chamado Mike Norris. Sim, trata-se do filho do homem, do mito, Chuck Norris, tentando seguir os passos do pai. Nunca achei o velho Chuck muito carismático, o fascínio pelos seus filmes e pela figura que criou como herói de ação vale justamente pela ausência de variação expressiva e falta de talento dramático. Seu filho segue pelo mesmo caminho por aqui e constrói uma figura que também não possui carisma algum. A diferença do rapaz em relação a seu pai é que seu persoangem é tão irritante que não dá para torcer por ele como herói. Aliás, os três personagens centrais são detestáveis e estúpidos… Aí complica.

São três amigos americanos que vão passar férias na Finlândia e resolvem atravessar a fronteira com a Rússia por mera diversão, se achando no direito de invadir território alheio, talvez uma alusão ao próprio Estados Unidos. Não demora muito são avistados pelo exército russo, perseguidos, capturados e trancados numa prisão de segurança máxima que faria uma penitenciária brasileira parecer um hotel cinco estrelas. A premissa é simplesmente excelente! Mas existem alguns detalhes que pegam pra cima de BORN AMERICAN.

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Uma delas, como eu disse, é a falta de identificação com os protagonistas. Outra é como o filme carece um bocado de ação. Chega num certo ponto que eu já estava com o dedo coçando para apertar o botão fast forward… Há, de qualquer forma, dois ótimos momentos bem movimentados. O primeiro num pequeno vilarejo russo, muito explosivo e com direito ao Norris Jr. Dando alguns chutes em russos malvados; o outro é na fuga da prisão no final, um tiroteiro frenético bem ao estilo dos anos 80. Há uma ideia GENIAL de um jogo de xadrez humano que ocorre dentro da prisão que é, infelizmente, ignorado. Aparece rapidamente numa cena, mas fico imaginando que poderia render bons momentos…

Mas há também um clima curioso que atravessa o filme, uma mistura de action movie americano dos anos 80 com a atmosfera pesada e o visual do cinema do leste europeu daquele período, estilo VÁ E VEJA, que é bem interessante, funciona muito bem. Em termos de ação, BORN AMERICAN não tem muito o que oferecer, mas no fim das contas é um exemplar um tanto singular que vale uma conferida, nem que seja para saber como o Harlin foi parar em Hollywood e entender porque o filho do Chuck não teve muito sucesso como herói de ação.

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DURO DE MATAR 2 (Die Hard 2,1990)

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O fato de DURO DE MATAR 2 não ter sido dirigido pelo John McTiernan não é motivo para deixarmos de fora desta peregrinação pela carreira do diretor. Serve de anexo ao ciclo, cujo próximo da lista seria exatamente a terceira parte da “trilogia” (vamos fingir só um pouquinho que aqueles dois últimos filmes não existiram). Uma curiosidade é que McT até tinha planos para comandar a produção, mas acabou se envolvendo com  A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO e os produtores decidiram não esperar. Foram em busca de sangue novo e escalaram o finlandês Renny Harlin que, até então, demonstrava grande talento para a coisa.

É verdade que Harlin nunca tenha atingido o potencial que lhe era esperado e hoje possui um currículo bem irregular, com várias porcarias e alguns exemplares bem divertidos, como RISCO TOTAL, com o Stallone. Mas é em DURO DE MATAR 2 que o sujeito realiza o seu melhor trabalho. Tá certo que o filme não chegue aos pés do primeiro em termos de grandeza cinematográfica, aliás, nenhum outro filme de ação americano jamais chegou, mas é uma continuação eficiente, repleto de cenas de ação espetaculares e bem filmadas, efeitos especiais de primeira qualidade e um elenco de encher os olhos.

O mais difícil seria colocar o herói novamente numa situação extrema que rendesse uma nova aventura. Em determinado momento de DURO DE MATAR 2, John McClane, outra vez interpretado por Bruce Willis, pergunta para si mesmo: “Como a mesma merda pode acontecer com o mesmo cara duas vezes?“. Considerando que a fórmula da aventura anterior fora um sucesso e se tornou um marco do cinema de ação, não se importaram em te colocar nessa situação de novo, meu caro McClane… A trama desta vez se passa num aeroporto, de novo às vésperas do natal, onde terroristas trabalham um plano mirabolante para libertarem um preso político, o General Ramon Esperanza (Franco Nero), que está sendo extraditado. Como a mulher de McClane está num dos vôos rumo ao aeroporto, o sujeito se mete de novo em todo tipo de enrascada para salvar o dia.

Além do astro italiano de DJANGO (66) em cena, a galeria de vilões é formada por John Amos e William Sadler. Ambos excelentes, mas este último está especialmente insano, surgindo no filme completamente nu, praticando exercícios de artes marciais, se concentrando para entrar em ação. No elenco ainda temos Dennis Franz, Fred Dalton Thompson, Tom Bower e até uma participação de John Leguizano e Robert Patrick. Mas o grande destaque e um dos principais motivos para encarar essa nova aventura é Bruce Willis, que repete o papel com muito carisma e consagra-se de vez como um ícone do cinema de ação.

Embora tenha uma premissa interessante, o roteiro de DURO DE MATAR 2 é desnivelado, com alguns excessos, detalhes que entravam a narrativa numa tentativa besta de complicar o simples ou tornar o filme mais longo do que deveria. A quantidade de takes para explicar todo o lance da munição de festim ou o retorno do repórter do primeiro filme, que surge aqui de maneira forçada, desnecessária e quebra o ritmo em alguns momentos, são alguns exemplos de como tudo poderia ser mais enxuto.

Nada que chegue a incomodar, no entanto, até porque se torna irrelevante quando a ação toma conta da tela em sequências absurdas, tensas e bastante violentas. Entre tiroteios bem orquestrados e a alta contagem de corpos, McClane é quase atropelado por um avião; é lançado ao céu no assento ejetável da cabine segundos antes do jato explodir, criando um dos enquadramentos mais icônicos da série; e no grand finale precisa trocar porradas com os bandidos na asa de um avião em movimento! É simplesmente de tirar o fôlego!

DURO DE MATAR 2 ainda apresenta uma daquelas cenas que não têm mais espaço para o cinema de ação bunda-mole atual: refiro-me aos terroristas derrubando um avião aleatório matando centenas de passageiros inocentes sem qualquer remorso. Só este detalhe já o colocaria acima da média do que é feito no gênero atualmente. Mas o legal é que o filme vai muito além. Claro, nas mãos de um McTiernan poderia render mais uma obra-prima do gênero, mas o resultado aqui é um action movie que cumpre aquilo que se propõe.