BUÑUEL #3: LAS HURDES (1933)

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Na época do lançamento de A IDADE DO OURO, Luis Buñuel foi convidado a ir à Hollywood como “observador”, portanto, não estava presente quando explodiu o escândalo de seu último trabalho, o choque entre a grã-finagem burguesa numa pré-estreia às portas fechadas na mansão do produtor (que não sabia do que se tratava o filme, deu total liberdade à Buñuel, que também não fazia questão nenhuma de lhe contar nada à respeito).

Em Hollywood, as aventuras de Buñuel, sempre rabugento e agressivo a tudo e a todos, duraram pouco tempo. Certo dia, o produtor da MGM Irving Thalberg pediu ao espanhol uma opinião a respeito de um filme falado em castelhano estrelado por uma atriz chamada Lili Damita, e Buñuel lhe respondeu: “Não quero ouvir putas“. Foi expulso de Hollywood e voltou para a Espanha.

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Na sua terra natal, Buñuel leu um livro sobre a região das Hurdes e percebeu material para um novo filme. O problema era arranjar grana depois da recepção de A IDADE DO OURO, nenhum produtor ia arriscar botar dinheiro nas mãos de um inconformado iconoclasta subversivo… O jeito foi ir atrás de alguns amigos e contar com a sorte. Muita sorte. Um desses amigos era um anarquista chamado Ramón Acin que se apaixonou pelo tema de LAS HURDES e disse a Buñuel: “Se eu ganhar na loteria, dou-te tudo para teu filme“. E ganhou! O valor não era exatamente uma fortuna, mas já era um começo. O diretor de cinema Yves Allegret também contribuiu, pagou o aluguel da câmera e Buñuel partiu para Hurdes com seus colaboradores para filmar.

LAS HURDES é um documentário sobre a tal região que dá nome ao filme, na qual Buñuel compreendia que a realidade já era bastante expressiva e surreal suficiente para ficar fantasiando na ficção. Trata-se de uma região remota da Espanha onde, ainda na década de 30, a civilização mal se desenvolveu e o filme mostra como os camponeses locais tentam sobreviver às duras penas nessa realidade. Buñuel consegue criar imagens impressionantes desse cotidiano e até encontra certa lógica surrealista que lhe é tanto peculiar…

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Obviamente é um filme forte para o período pela situação de degradação humana que Buñuel faz questão de mostrar sem qualquer concessão. Só que aí vem a pegadinha genial do diretor. Buñuel recria situações, cenas e “realidades” para enfatizar o todo. Exemplo: há um plano em que o narrador diz que as cabras da região caem com certa frequência do alto dos rochedos e morrem. Exatamente neste momento, o que aparece na tela é uma cabra despencando do alto de um rochedo… E no canto da tela uma fumaça que não fizeram nem questão de tentar esconder, provavelmente de uma espingarda, que alveja o animal e o faz cair morto.

Dessa maneira, LAS HURDES cria um choque de imagem-verdades, que é a essência do próprio cinema. “A câmera mente 24 vezes por segundo“, como diz Brian De Palma. Socialmente, aliás, é muito mais importante para Buñuel mostrar o que podemos chamar de imagem-inquisitório, para acordar o ímpeto de revolta dos espectadores, do que salvar um burro de um enxame de abelhas, uma das cenas que me vem à mente da galeria de “gags” trágicas da narrativa de LAS HURDES, ou evitar a ideia de atirar numa cabra no alto de um rochedo só para filmá-la caindo… Perturbador e fascinante, o documentário não deixa de ser a visão corrosiva de um surrealista.

LAS HURDES tem disponível no youtube, tem só 30 minutos de duração e vale a pena ser visto.

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BUÑUEL #2: A IDADE DO OURO (1930)

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Buñuel passando por aqui. Comentei no último post sobre um UM CÃO ANDALUZ, que causou certa agitação quando foi lançado, como é notório. É difícil ficar indiferente diante da grandeza subversiva deste primeiro trabalho do espanhol até mesmo hoje, passados mais de 90 anos. Um desses marcos que serviu de influência àqueles que buscavam inspiração para uma vanguarda cinematográfica. Mas há quem diga que foi apenas um aquecimento para o que estava por vir logo à seguir: A IDADE DO OURO.

Concordo em partes. É difícil adjetivar UM CÃO ANDALUZ como um aquecimento. Por outro lado, A IDADE DO OURO realmente surge como um progresso do talento de Buñuel como artista, até porque este aqui é um trabalho bem mais pessoal. Ainda que seja divulgado como a segunda parceria entre Buñuel e Salvador Dalí, há muito pouco do artista plástico por aqui.

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Assim que a produção iniciou, Buñuel e Dalí se desentenderam, o diretor acabou limando as ideias de Dalí, que acabou se recusando a ter qualquer coisa a ver com a realização do filme. Rola até boatos que no primeiro dia de filmagem, Buñuel perseguiu Dalí no set com um martelo… Não duvido de nada vindo de alguém que encheu os bolsos de pedras para se defender de uma possível reação agressiva do público na estreia de UM CÃO ANDALUZ… Pra não dizer que Dalí não fez nada, em sua biografia Buñuel assume que há uma cena no filme que foi escrita pelo pintor.

Sem muita contribuição de Dalí, e com uma hora de duração para fazer suas maluquices, é possível perceber de cara algumas diferenças em relação ao seu trabalho anterior. A IDADE DO OURO possui uma lógica narrativa relativamente menos irracional. Ou seja, por mais inserido no movimento surrealista, existe uma história definida que Buñuel desejava contar. E se UM CÃO ANDALUZ não tinha nada a ser interpretado pela sua pureza na falta de lógica, aqui os simbolismos representam coisas, existem alvos a serem alvejados. É principalmente uma sátira sobre os costumes morais e sociais burgueses e um ataque feroz à igreja católica. ❤

O filme começa como um documentário sobre escorpiões, dando atenção especial às seções da cauda do bicho, cuja sexta seção é a bolsa cheia de veneno. Com algum esforço, talvez dê para delinear A IDADE DO OURO em seis seções, e igualar a seção final como a mais espinhosa – uma espécie de recriação dos “120 Dias de Sodoma“, de Sade, mas com uma figura parecida com Jesus Cristo emergindo cansado de uma orgia – como o golpe final desta obra-prima iconoclasta.

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Provavelmente, a coisa mais consistente que temos de uma trama é o retrato bizarro de um homem e uma mulher que se apaixonam e repetidamente tentam se reunir e consumar essa paixão.  Em outras palavras, eles querem é sexo! Mas são continuamente impedidos de fazê-lo por membros da respeitável sociedade burguesa. Esses que até hoje nos causam problemas, como por exemplo impedir o quadro da Banheira do Gugu no início da década passada… Bando de moralistas filhos da p@#$%!

Bom, a multidão prende o sujeito que só queria esvaziar o saco, e que já estava rolando na lama com sua amada, e ele responde com atos de selvageria para minar sua moralidade: chuta um cachorro, esmaga um besouro, espanca um cego, pisoteia um violino e até estapeia uma mulher da alta sociedade numa festa da aristocracia. Esses atos selvagens só conectam cada vez mais o casal apaixonado, que não consegue manter as mãos e as línguas longe um do outro… Ou dos pés de uma estátua, numa das imagens mais icônicas de A IDADE DO OURO.

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Toda essa narrativa vem frequentemente acompanhadas por imagens estranhas e surreais, que ainda conservam um incrível e inquietante poder de nos impressionar nos dias de hoje: a mulher que espanta uma vaca da sua cama em sua casa de classe alta, o jardineiro que dispara com uma espingarda arbitrariamente e mata seu filho, o protagonista que joga vários objetos – simbólicos ou não – de uma janela, incluindo uma árvore em chamas, uma girafa e, para alegria da igreja católica, um bispo. E o tal final, que é uma das melhores coisas do filme, que coloca Jesus saindo do castelo dos 120 dias de Sodoma depois de participar de uma orgia.

Todo o tipo de simbolismo possível que Buñuel pudesse conceber para atacar a igreja católica ou a burguesia foram utilizados aqui. Não é a toa que a IDADE DO OURO ficou banido por décadas em alguns países e seu diretor excomungado… Filme altamente recomendado principalmente para os iconoclastas de plantão que não tem problema com a abordagem de britadeira de Buñuel à sua sátira mordaz.

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BUÑUEL #1: UM CÃO ANDALUZ (1929)

Tava revendo no youtube UM CÃO ANDALUZ, primeiro filme do espanhol Luis Buñuel, um curta tão fundamental para qualquer cidadão que tenha o mínimo de interesse pelo cinema e, caramba, lá se vão praticamente noventa anos de existência desta pequena obra-prima… Ainda hoje, revendo essa merda, as imagens me impressionam tanto que resolvi tentar dar uma peregrinada na obra do diretor. A última vez que fiz isso à sério aqui no blog foi com o Don Siegel, há uns dois anos, e agora resolvi que quero homenagear Luis Buñuel. Um desafio, eu sei, custe o tempo que custar, tempo que anda curto pra cacete ultimamente, veremos como vai ser isso…

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Apesar de UM CÃO ANDALUZ ter o prestígio como obra surrealista, não vale a pena reduzir Buñuel apenas à alcunha de “mestre do surrealismo”, seria fechar as portas para uma variedade de significados que cada um de seus filmes que eu vi até agora emana de maneira muito própria. Mas aqui, neste seu primeiro trabalho, é impossível fugir desse movimento, é de longe o filme surrealista mais conhecido, em parte devido a participação do pintor surrealista de Salvador Dali na sua concepção, mas também por causa de imagens específicas que nunca parecem deixar a nossa consciência cinematográfica.

É impossível também explicar o que se trata UM CÃO ANDALUZ, apesar de todas as interpretações freudianas encontradas em críticas espalhadas por aí. Prefiro acreditar na insistência do próprio Buñuel de que não há nenhum significado por aqui, mas cuja inspiração eram os elementos irracionais coletados dos seus sonhos e do seu co-autor, Dalí.

Como Buñuel explicou certa vez: “Nossa única regra (ao escrever o roteiro) era muito simples: nenhuma ideia ou imagem que pudesse se prestar a uma explicação racional de qualquer tipo seria aceita. Tínhamos que abrir todas as portas para o irracional e ficar apenas aquelas imagens que nos surpreenderam, sem tentar explicar o porquê.

Acima de tudo, UM CÃO ANDALUZ representa uma consciência imagética que penetra em nossa consciência e dá uma noção do que os jovens surrealistas estavam fazendo no período em ressignificar as convenções artísticas e, no caso específico de Buñuel, subverter agressivamente a forma e a estrutura do cinema.

A coerência narrativa, por exemplo, está longe de ser o foco por aqui, o que já era absurdamente ousado; as cenas se contrapõem como um fluxo de consciência, e realmente há uma influência das teorias psicanalíticas de Freud, mas não é algo fechado a ser compreendido. Se a sequência de eventos em forma de sonho não faz nenhum tipo de sentido convencional, o filme ainda tem substância visual suficiente para envolver e assombrar os espectadores – como um sonho. E se até hoje algumas imagens conseguem impactar, imaginem o tapa na cara que deve ter sido em 1929.

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Um bom exemplo é logo no início, a notória cena da lua sendo cortada por uma nuvem, em transição para um globo ocular de uma mulher sendo aberto à navalha – foi utilizado um bezerro morto na filmagem, mas imagem que fica surpreende ainda hoje…

O filme é uma série de gags surrealistas, como já disse, retiradas dos sonhos dos realizadores, e que vão se amontoando ao longo de uma narrativa sem qualquer linearidade ou lógica. A navalha é a mais impressionante, é uma das imagens mais usadas para representar UM CÃO ANDALUZ,  mas pra mim, a cena mais marcante é a do homem com as mãos no seio da mulher, cuja face, numa espécie de êxtase do orgasmo, se confunde com a de uma espécie de zumbi, um morto-vivo… Outras sequências que me vem à mente de forma aleatória é a da mão que brotam formigas ou a do sujeito puxando penosamente dois pianos contendo um burro morto em cada um e com dois sacerdotes sendo arrastados no meio disso tudo (um deles é o próprio Dalí). Buñuel também aparece, é o fumante que surge na cena de abertura, que corta o olho da mulher com a navalha.

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A primeira exibição de UM CÃO ANDALUZ teve uma audiência cheia de notáveis, incluindo Pablo Picasso, Jean Cocteau e todo o grupo surrealista de André Breton. A recepção positiva do público ao filme surpreendeu Buñuel, que ficou aliviado por não haver violência, já que tinha enchido os bolsos de pedras, caso fosse necessário enfrentar uma plateia enfurecida. Dalí, pelo contrário, ficou desapontado, sentindo que a reação do público fez a noite “menos emocionante”.

Quem nunca viu, assista, não passa de 20 minutos. Para facilitar, segue UM CÃO ANDALUZ na íntegra: