STARCRASH SOUNDTRACK


Um adendo ao post anterior. De vez em quando esqueço de mencionar as trilhas sonoras dos filmes que comento aqui no blog, principalmente quando não deveria esquecer, como é o caso do STARCRASH. O grande John Barry, autor de diversas trilhas famosas – entre elas a James Bond theme, da série 007 – foi o responsável pelo trabalho nesta ficção científica de Luigi Cozzi. Ainda que em alguns momentos a impressão é de que Barry reaproveitou versões descartadas de músicas dos filmes do espião britânico, não deixa de ser um excelente acompanhamento para as imagens do filme.

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STARCRASH (1978)

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É comum considerar STARCRASH, de Luigi Cozzi, um mero rip-off italiano de STAR WARS. A verdade é que não deixa de ser mesmo. O filme abre com uma longa e lenta tomada de uma nave sobrevoando o espaço bem ao estilo de George Lucas e durante a aventura vários outros detalhes o apontam como uma “cópia descarada”, com direito ao maniqueísmo básico, um andróide como alívio cômico, batalhas de naves espaciais e até sabres de luz. Mas se observarmos com mais cuidado a concepção da obra, as influências do cinema de Cozzi, é possível encontrar um filme desvencilhado, de universo próprio, diferente de outras produções que almejavam tirar uma casquinha do sucesso do filme de Lucas.

A prova disso é que a ideia que originou STARCRASH foi concebida antes da existência de um STAR WARS. Era o projeto dos sonhos de Cozzi e que, numa primeira tentativa de levar adiante, ninguém se interessou em bancar. A sorte é que pouco tempo depois, o filme de Lucas estreou e, como todos sabemos, foi um grande sucesso. Os mesmos produtores que haviam rejeitado o projeto de Cozzi anteriormente, agora percebiam que poderiam tirar proveito daquele filão que surgia.

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Com algumas mudanças e adaptações, STARCRASH foi ganhando uma roupagem estilo STAR WARS, mas no fim das contas, Cozzi, que foi creditado sob o pseudônimo de Lewis Coates, conseguiu, na medida do possível, deixar intacta a essência do seu cinema, cuja paixão pelo sci-fi americano dos anos 50 e por Ray Harryhausen predominam no cerne do filme. Além, é claro, da influência evidente de produções do passado, como JASÃO E OS ARGONAUTAS e BARBARELLA, para citar alguns.

É notória essa devoção de Cozzi pela ficção científica e o seu debut como diretor foi um exemplar de baixíssimo orçamento, chamado IL TUNNEL SOTTO IL MONDO. Nada  que se compare com a produção de STARCRASH que, se não chega aos pés do orçamento de STAR WARS, ao menos era suficiente para um “equivalente” italiano. Mas é possível perceber a utilização de alguns elementos do gênero durante toda a carreira do homem, independente do tipo de filme que estivesse envolvido. Seja num giallo, convencendo Dario Argento a usar uma ideia fantasiosa inspirada numa revista científica em 4 MOSCAS NO VELUDO CINZA, ou, já nos anos 80, as criaturas mecânicas bizarras que aparecem em HERCULES, com Lou Ferrigno.

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STARCRASH, portanto, é o parque de diversões de Cozzi, onde ele pôde mergulhar de cabeça no universo que tanto admirava tendo recurso pra isso, trabalhando suas obsessões como contador de histórias e criador de mundos. Em termos de script é o seu “caos organizado” habitual, já que o diretor nunca foi um grande entusiasta do chamado roteiro “bem estruturado”. O filme parece ser todo pensado de maneira visual, em cenas específicas, sequências épicas, efeitos especiais, ideias interessante, mas que juntando tudo acaba virando uma porra-louca sem muita lógica narrativa. Até entendo porquê os produtores, num primeiro instante, rejeitaram o Projeto.

A trama é centrada nas aventuras de um casal contrabandista espacial, Stella Star (a musa Caroline Munro) e seu parceiro no crime Akton (Marjoe Gortner). Ambos são recrutados pelo imperador do universo, vivido por Christopher Plummer, para ajudá-lo a combater o terrível Conde Zarth Arn, encarnado pelo genial Joe Spinnel. Acompanhados de Thor (Robert Tessier pintado de verde) e Elle, um andróide badass, sensível e todo engraçadão, essa turma realiza jornadas pelos confins do espaço para tentar localizar o planeta onde o facínora construiu uma arma poderosíssima. E se, por um acaso, toparem com o filho do imperador durante a missão, devem trazê-lo de volta também. Como ninguém sabe onde está a tal arma, o grupo vai parando de planeta em planeta, dos mais variados tipos, cores e criaturas diferentes para averiguar. E assim STARCRASH apresenta um catálogo dos mundos criados por Cozzi.

Em determinado momento, Akton revela-se bem mais que um simples sidekick, demonstrando poderes sobrenaturais, se tornando um personagem chave. É ele quem surge com o sabre de luz para salvar o dia. Finalmente eles encontram o planeta correto, que por acaso é o mesmo onde descobrem o príncipe, interpretado pelo astro de S.O.S. MALIBU, David Hasselhoff, enfrentam robôs em stop motion, conhecem a verdade sobre a tal arma e, por fim, retornam a tempo para participar da gloriosa batalha final contra o exército de Zarth Arn.

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O visual do filme, extravagante e bem elaborado, é um dos grandes trunfos de STARCRASH e demonstra como a criatividade dos realizadores neste departamento é ilimitada. O que é bom, porque em termos de ação, as lutas, tiroteios com raios lasers, as batalhas espaciais, tudo é filmado de maneira bastante simplória. O que realmente diverte são as ideias e os contextos em que essas cenas ocorrem. A sequência que se passa num planeta dominado por guerreiras amazonas é um bom exemplo, com a mulherada bonita e que culmina com uma estátua gigantesca em stop-motion perseguindo os heróis. Canhestro e fascinante ao mesmo tempo. E como o ritmo é frenético, mantém sempre uma ação contínua na tela, segurando a atenção do público.

Outro grande destaque que não poderia deixar de mencionar é a presença de Caroline Munro como protagonista. Simplesmente não dá pra desgrudar os olhos da beldade… Deslumbrante em cada enquadramento e abusando de modelitos mínimos e apertados, Caroline foi a primeira escolha de Cozzi para viver a personagem de Stella Star, que pode ser definida como uma versão mais “experimentada” de Barbarella (Jane Fonda), mas tão incompetente quanto. No entanto, a beleza e a vontade de se aventurar no desconhecido acaba fazendo com que nos derretamos por ela.

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Curioso que Caroline voltaria a trabalhar com o ator Joe Spinnel após contracenarem por aqui, no excelente MANIAC (80), de William Lustig, e THE LAST HORROR FILM (82), de David Winters. Spinnel é um ator magnífico e subestimado que merecia ser mais lembrado. Parece se divertir bastante fazendo o grande imperador do mal. O restante do elenco, já citado, também contribui, com atenção especial para o ainda jovem, mas já canastrão, mister SOS Malibu, e o desempenho de Plummer, o único que parece estar levando a produção a sério. Hehehe!

Mas até o Cozzi, mesmo tendo consciência que estava criando um produto matinée, uma aventura sci-fi inofensiva e divertida, sem grandes pretensões inventivas, também não deixa de levar STARCRASH a sério. Afinal, é o filme definidor de sua arte, de seu cinema, é o trabalho pelo qual será sempre lembrando pelos admiradores e que o coloca como uma das mentes mais criativas do cinema popular italiano.

Mais imagens de STARCRASH aqui. E um pouco mais de Caroline Munro aqui.

4 MOSCAS NO VELUDO CINZA (4 mosche di velluto grigio, 1971)

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4 MOSCAS NO VELUDO CINZA é a terceira parte da famosa “trilogia dos animais” que marcou o início da carreira de Dario Argento como diretor. Os outros filmes são O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL e O GATO DE NOVE CAUDAS, todos os três estruturados no subgênero que Argento cristalizou, aquele dos assassinatos misteriosos, dos matadores de luvas pretas, cujas vítimas quase sempre são moças indefesas ou coadjuvantes desavisados e o principal suspeito, geralmente, é o herói que precisa correr contra o tempo para desvendar os mistérios e provar sua inocência. Yeah, estamos falando do giallo, o subgênero mais elegante do cinema popular europeu!

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A trama de 4 MOSCAS é centrada no baterista de uma banda de rock, interpretado por Michael Brandon, que se vê envolvido numa enrascada quando acaba matando acidentalmente um sujeito desconhecido que o seguia. O problema é que uma figura estranha, mascarada, fotografou o crime e começa a fazer chantagens com o pobre músico. Durante sua jornada, cheia de conflitos psicológicos, tentativa de resolver o caso e se segurar para não ir à policia e se entregar, o rapaz conta com a ajuda de vários indivíduos interessantes, como o personagem vivido pelo grande Carlo Pedersoli, mais conhecido como Budd Spencer, que fazia a alegria da moçada na Sessão da Tarde, e um detetive gay interpretado por Jean-Pierre Marielle.

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É curioso como o filme tem um caráter bem mais experimental que os dois gialli anteriores. É como um divisor de águas na carreira do italiano. PÁSSARO é um bom filme de estreia, mas que nunca me empolgou muito, GATO já consegue resultados bem mais expressivos, mas é aqui em 4 MOSCAS que Argento começa a subverter certos padrões visuais para se tornar o gênio que foi. É, DRACULA 3D demonstra sérios sinais de que ele perdeu aquela genialidade…

Ainda bem que temos um 4 MOSCAS pra poder rever. Na minha opinião é o mais interessante dessa trilogia inicial, mesmo sendo considerado um esboço de PROFONDO ROSSO em alguns quesitos, principalmente no que confere aos procedimentos técnicos, na forma como Argento trabalha sua câmera, na criação da atmosfera de suspense. O assassinato no parque, por exemplo, é uma belíssima demonstração de manipulação de cenários, tempo, clima, coisas que Argento aperfeiçoaria mais tarde. Vários outros instantes são de encher os olhos, como a perseguição no metrô, além da sequência que rola a grande revelação do caso, por mais absurda que seja, parece plausível e muito bem resolvida visualmente.

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Em conversa com o Felipe M. Guerra, ele me conta que a tal ideia absurda partiu do Luigi Cozzi, que foi co-roteirista de 4 MOSCAS. Não vou revelar detalhes, mas Argento relutou em aceitar por achar muito fantasioso, mas, nas palavras do próprio Felipe, “Cozzi arrumou um artigo retirado de uma dessas revistas sensacionalistas e sem nenhuma fundamentação científica. (…) Ele mostrou o recorte e o Argento se convenceu“. Ainda bem!

Outro destaque óbvio é a trilha sonora do mestre Ennio Morricone, ingrediente fundamental em algumas cenas chaves, como no impactante desfecho, quando o belo e o brutal entram em perfeita sintonia como poucas vezes se vê por aí. 4 MOSCAS NO VELUDO CINZA é Argento em sua melhor forma, por isso mesmo obrigatório!

LUIGI COZZI E UM MOMENTO NERD

Aproveitando o eurocult feeling, quase ia me esquecendo de um fato acontecido recentemente com o editor deste blog. Numa dessas andanças durante as férias em Janeiro, acabei parando em Roma. Entre um monumento histórico e outro resolvi dar um pulo na Profondo Rosso, a loja especializada em artigos de filmes e literatura de horror e fantasia, que é gerenciada por ninguém menos que o Luigi Cozzi, diretor de alguns clássicos do cinema popular italiano nos anos 70 e 80, como STARCRASH e HERCULES, aquele com o Lou Ferrigno no papel principal. E, bem, o resultado foi essa foto aí:

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