RIO GRANDE (1950)

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RIO GRANDE fecha a “Trilogia da Cavalaria” de John Ford, formada por outros dois filmes que já comentei por aqui: SANGUE DE HERÓIS (1948) e LEGIÃO INVENCÍVEL (1949). Todos estrelados por John Wayne. Aliás, Wayne reprisa o mesmo personagem do filme de 48, Kirby York, um tenente da cavalaria dos Estados Unidos, que dirige um posto na luta contra os Apaches ao redor do Rio Grande, que faz a fronteira entre EUA e México.

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Em meio às tensões da guerra contra os índios, o filho de York de 16 anos, Jeff, o qual ele não via desde que era um bebê, aparece no posto como um dos novos recrutas. O que dá uma balançada no duro coração do sujeito, dividido entre a devoção e o dever de um Tenente e o desejo proibido de se reaproximar do filho. E as coisas ficam ainda mais complicadas quando a ex-mulher de York, Kathleen (Maureen O’hara), retorna para levar seu filho para casa.

O argumento de RIO GRANDE é muitas vezes apontado como uma metáfora do conflito na Coreia que rolava na época (Ford até viria a fazer um documentário sobre o tema pouco depois, chamado THIS IS KOREA!) e acaba sendo, dos filmes da trilogia, o que lida mais diretamente com a ação, com sequências de batalhas, ataques dos índios, no tom de aventura e diversão.

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As sequências do ataque noturno ao acampamento e, depois, à caravana são desses momentos primorosos que demonstram a genialidade de Ford em filmar cenas de ação. Mas assim como os filmes anteriores (na verdade, toda a filmografia de Ford), a ação acaba sendo bem menos importante do que outras possibilidades que parecem interessar ao diretor, como a relação de York com seu filho e principalmente de York com sua ex-mulher, um retrato maduro de um casal que se ama em silêncio, mas que já não pode viver sua união.

E aí Ford deita e rola nessa situação, com alguns dos momentos mais tocantes do filme. Gosto especialmente da sequência da serenata, os soldados cantando “I Will Take You Home, Kathleen“… de deixar qualquer um marmanjo com os olhos marejados. Ou a cena em que York lasca um beijo desajeitado em Kathleen dentro de sua tenda, e logo depois pede desculpas…

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Alguns personagens secundários também se destacam, como Tyree, vivido por Ben Johnson, um procurado pelos xerifes da região que acabou se alistando, mas por ser um ás na montaria e com um revolver na mão, acaba ganhando as graças de York. E quando o sujeito salva Jeff das mãos dos índios, abatendo três de forma ágil, percebe-se que o sujeito não tá para brincadeiras. É um dos pontos altos das sequências de ação em RIO GRANDE. No elenco, ainda temos Harry Carey Jr. e o habitual colaborador de Ford, Victor McLaglen, sempre fazendo o alívio cômico.

A fotografia que retorna ao preto e branco por aqui – depois de Ford realizar uma pintura cromática em LEGIÃO INVENCÍVEL – é tão bela quanto a de SANGUE DE HERÓIS e reforça as palavras do crítico de cinema Tag Gallagher, talvez o maior especialista em Ford, de que RIO GRANDE seja o básico do básico do diretor – tão óbvio tecnicamente, mas tão bem sucedido, tão essencial dentro de uma filmografia autoral como a de Ford, que talvez seja um dos melhores exemplares de inicialização, ou seja, para ter um contato inicial com a obra do diretor.

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RIO GRANDE está disponível no Brasil em DVD pela Classicline.

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SANGUE DE HERÓIS (Fort Apache, 1948); Classicline

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SANGUE DE HERÓIS é o primeiro filme da “trilogia da cavalaria” de John Ford – o segundo eu já comentei por aqui, LEGIÃO INVENCÍVEL – e é mais um dos grandes westerns do diretor e que veio em boa hora na sua carreira. Ford vinha de um desastre comercial com o belíssimo DOMÍNIO DOS BÁRBAROS, um de seus filmes mais intimistas, mas que o público não recebeu muito bem, e precisava agora desesperadamente de algum material que fosse resultar num sucesso comercial. E foi SANGUE DE HERÓIS que colocou Ford de volta ao topo.

Na trama, o tenente-coronel Owen Thursday (Henry Fonda) é um ilustre oficial da Guerra Civil que acaba tendo que assumir um posto em tempos de paz que não é lá muito da sua vontade. Para ser sincero, Thursday considera sua nomeação como o novo oficial comandante do Fort Apache, no Território do Arizona, como um insulto e deixa isso bem claro à todos ao seu redor.

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O território vive em problemas com os Apaches, cujo líder, Cochise, desenterrou a machadinha de guerra e leva seus guerreiros ao longo da fronteira com o México em protesto contra a corrupção de um agente indígena local que está mais interessado em vender uísque do que cobertores e comida decente. Como Thursday está ansioso para encontrar alguma maneira de conquistar a glória e sair daquele território o mais rápido possível, a missão de trazer Cochise e seu povo de volta à reserva o atrai.

Só que Thursday acaba se demonstrando um cabeça dura arrogante e um péssimo líder. Thursday não sabe nada sobre os Apaches e não está disposto a seguir o conselho de oficiais experientes, como por exemplo o Capitão Kirby York (John Wayne), e todos seus atos anunciam uma inevitável tragédia que se aproxima. Continuar lendo

DVD REVIEW: LEGIÃO INVENCÍVEL (She Wore a Yellow Ribbon, 1949); Classicline

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No final dos anos 40 o diretor John Ford iniciara uma espécie de trilogia que celebrava as proezas da cavalaria do exército americano no imaginário do velho oeste. Ficou conhecida como a Trilogia da Cavalaria, todos estrelados por John Wayne. Começa em 1948 com SANGUE DE HERÓIS (1948) e terminava dois anos depois com RIO GRANDE (1950). Mas o mais peculiar dos três episódios só podia ser a peça do meio, LEGIÃO INVENCÍVEL, que assisti recentemente num belíssimo DVD lançado pela Classicline.

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Por que o mais peculiar? Primeiro, é preciso destacar a presença de Wayne, que foi o principal ator colaborador da carreira de Ford. Até esta altura, o diretor o utilizava como o habitual bravo cowboy icônico do faroeste americano, papéis que exigiam mais a presença física de Wayne do que uma construção mais profunda de seus personagens. Quando precisava de algo mais complexo, recorria a atores que julgava mais talentosos dramaticamente, como Henry Fonda em A MOCIDADE DE LINCOLN e PAIXÃO DOS FORTES. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #27: O ÚLTIMO PISTOLEIRO (The Shootist, 1976)

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Tinha convidado alguém pra escrever sobre O ÚLTIMO PISTOLEIRO, mas isso já faz mais de um ano, acabou que a pessoa não me enviou nada e eu também não lembro quem era, então tanto faz. O importante é dar prosseguimento à peregrinação do cinema de Don Siegel, que chega neste western que carrega, digamos, uma certa importância peculiar. O fato é que três anos depois de protagonizar O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o maior ícone do western americano, John Wayne, bateu as botas por conta de um câncer fodido no pulmão e estômago. Este filme aqui, portanto, acabou por ser sua derradeira performance. E não poderia ser mais melancólico que o último filme do “Duke” fosse sobre um velho pistoleiro em fim de carreira chamado J. B. Booker, que descobre que tem um câncer terminal.

Booker só quer viver seus últimos dias da melhor maneira possível. Para confirmar a suspeita sobre sua saúde, visita um velho amigo médico, Dr. Hosteler, interpretado por por outro gigante, James Stewart, e obtém o diagnóstico que confirma seu câncer incurável. Em seguida, aluga um quarto em uma pensão administrada por uma viúva (Lauren Bacall) e seu filho adolescente (vivido por um jovem Ron Howard). Uma vez que Booker é reconhecido pela sua fama, as notícias se espalham pela pequena cidade de Carson City, incluindo sobre a doença, e percebe que não vai conseguir viver o pouco tempo que  lhe resta tão pacificamente como gostaria. Há tanto pessoas que tentam tirar proveito da presença do sujeito, como o agente funerário (John Carradine) que pretende embalsamar seu corpo, ou o jornalista que quer publicar um livro sobre suas façanhas, quanto, obviamente, outros pistoleiros desfrutando da situação para ganhar fama num possível duelo com Booker. Como o sujeito não quer “partir dessa para uma melhor” em agonia, deitado numa cama, a ideia de morrer trocando tiros com quem quer que seja até que não é tão ruim…

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John Wayne, como não poderia ser diferente, é o tour de force de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, está simplesmente sensacional. O sujeito reúne toda a essência da persona que desenvolveu ao longo da carreira vivendo centenas de personagens para transcender em Booker, o cowboy em fim de carreira definitivo. Wayne nunca esteve tão carismático e singelo como aqui, sem perder o jeito durão que o transformou num dos maiores casca-grossas do velho oeste. Mas são os momentos bucólicos e simples que dão força ao filme: os diálogos entre Wayne e Bacall, a relação fraternal que surge entre o protagonista e o jovem Ron Howard e principalmente Wayne contracenando com James Stewart, num desses momentos dignos de antologia.

Don Siegel aproveita todo esse material humano da melhor maneira possível, sem nunca soar piegas pelos temas delicados e nem cair na tentação de transformar a coisa toda num dramalhão sentimental. O filme é até bastante leve e divertido, embora não tenha a energia de outros trabalhos do homem, que foca mais nas performances do elenco. E apesar de atores talentosos, que é realmente o melhor de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o filme não deixa de ter alguns problemas. Depois de um começo sólido, que te cativa, o ritmo começa a cair um bocado, enrola demais e me peguei bocejando lá pelas tantas.

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Rola algumas histórias de que Siegel e Wayne não teriam se dado muito bem durante as filmagens e era comum o ator tentar querer dirigir o filme, atravessando Siegel, reclamando que o projeto merecia um tom mais épico, totalmente fora do estilo mais seco do diretor. Inclusive chegou a queixar e palpitar no tiroteio final, dizendo que seu personagem nunca poderia atirar em alguém pelas costas, que  nunca tinha feito isso na vida, e esse tipo de baboseira. Acho que o “Duke” já estava perdendo a noção, mas O ÚLTIMO PISTOLEIRO volta a melhorar justamente perto do final, quando Books parte na iminência de encarar os seus inimigos à base de chumbo-grosso. E ação do clímax talvez não seja das melhores sequências de tiroteio que o Siegel já filmou na vida, mas é classuda, tensa e sangrenta suficiente pra prender a respiração.

De qualquer forma, o saldo final é muito positivo. O ÚLTIMO PISTOLEIRO pode não ser a melhor despedida, mas não deixa de ser um bom reflexo da mudança dos tempos para um pistoleiro old school adentrando no século XX, e um interessante estudo sobre a aproximação da morte. E vale muito a pena aproveitar o “Duke” numa atuação daquelas!

HOJE TEM!

A rede de cinemas Cinemark está com uma bela iniciativa, tem lançado alguns clássicos restaurados em suas salas e já nos deu a oportunidade de rever alguns exemplares como CASABLANCA, de Michael Curtiz, e PSICOSE, de Alfred Hitchcock, em alta definição. Mas agora a coisa ficou séria e atualmente encontra-se em cartaz RASTROS DE ÓDIO, uma das grandes obras-primas de John Ford. Já perdi as contas de quantas vezes revi, na TV, em DVD, mas não dá pra perder agora na tela grande. Continuar lendo