TOP 10 JOHN McTIERNAN

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Depois de comentar toda a filmografia de John McTiernan aqui no blog, resolvi, antes tarde do que nunca, colocar em ordem de preferência os meus dez filmes favoritos do homem. Como McT só tem apenas onze longas, ficou de fora o único que é realmente um lixo, ROLLERBALL (2002). O resto fica assim:

10) 13º GUERREIRO (The 13th Warrior, 1999)
09) MEDICINE MAN (1992)
08) VIOLAÇÃO DE CONDUTA (Basic, 2003)
07) A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO (The Hunt for Red October, 1990)
06) DELÍRIOS MORTAIS (Nomads, 1986)
05) O ÚLTIMO GRANDE HERÓI (Last Action Hero, 1993)
04) THOMAS CROWN: A ARTE DO CRIME (The Thomas Crown Affair, 1999)
03) DURO DE MATAR 3: A VINGANÇA (Die Hard: With a Vengeance, 1995)
02) O PREDADOR (Predator, 1987)
01) DURO DE MATAR (Die Hard, 1988)

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ESPECIAL McT POST FINAL: FILMOGRAFIA NO BLOG

mctiernan-warbirdsO especial do diretor John McTiernan finalmente está encerrado. Escrevemos aqui no blog sobre todos os filmes que o sujeito já realizou. Só voltaremos a postar sobre ele de novo quando  lançar seus próximos trabalhos, se é que isso realmente vai acontecer, ou se eu ou algum dos colaboradores rever algum de seus filmes e tiver algo a acrescentar. Mas, por enquanto, ficamos por aqui com o McT. Segue a lista de seus filmes:

BASIC (2003)
ROLLERBALL (2002)
THOMAS CROWN – A ARTE DO CRIME (1999)
O 13º GUERREIRO (1999)
DURO DE MATAR 3 – A VINGANÇA (1995)
O ÚLTIMO GRANDE HERÓI (1993)
MEDICINE MAN (1992)
A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO (1990)
DURO DE MATAR (1988)
O PREDADOR (1987)
NOMADS (1986)

Neste domingo descobriremos quem será o próximo diretor que vamos explorar por aqui. Para contribuir na escolha, participe desta enquete na página do Dementia¹³ no Facebook.

ESPECIAL McT #11: VIOLAÇÃO DE CONDUTA (Basic, 2003)

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por DANIEL VARGAS

É impressionante a má vontade da crítica especializada (Tirando o Jonathan Rosenbaum) com esse que foi o último filme do mestre moderno da ação, John McTiernan, antes de ir em cana por perjúrio em um caso bizarro envolvendo ele e um produtor daquela bagunça que foi o remake de ROLLERBALL. Inclusive exatamente por estar vivendo esse momento problemático que acho que VIOLAÇÃO DE CONDUTA ainda assim conseguiu ser um dos mais engenhosos e instigantes thrillers da década passada. Continuar lendo

ESPECIAL McT #10: ROLLERBALL (2002)

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Depois de recuperar seu prestígio como diretor, refilmando um clássico de Norman Jewinson, THOMAS CROWN – A ARTE DO CRIME, John McTiernan passou para o trabalho seguinte, um remake de um filme do Norman Jew… Opa! Curiosamente, ROLLERBALL é a releitura de um filme de 1975, dirigido pelo mesmo sujeito de CROWN, O MAGNÍFICO, o que, na verdade, não importa muito. O que vale mesmo é que o seu filme de 99 é um dos grandes trabalhos da carreira de McT, enquanto este aqui trata-se, sem nenhuma dúvida, do pior de todos. Continuar lendo

ESPECIAL McT #9: THOMAS CROWN – A ARTE DO CRIME (Thomas Crown Affair, 1999)

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Não sei se vocês ainda se lembram (bem, alguns sim, já que me cobraram), mas em 2013 eu comecei este especial aqui no blog que dissecaria a obra do John McTiernan e, vejam só, faltando apenas três filmes para terminar acabei deixando de lado. Acho que é hora de retomar essa bagaça, até porque tô afim de escolher outro nome pra explorar a filmografia e não quero deixar essa ponta solta. O próximo da lista então é THOMAS CROWN – A ARTE DO CRIME. Continuar lendo

ESPECIAL McT #8: O 13º GUERREIRO (The 13th Warrior, 1999)

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Após o lançamento de DURO DE MATAR: A VINGANÇA, John McTiernan entrou numa furada chamada O 13º GUERREIRO. Filmado em 1997, o filme só chegou aos cinemas em 1999, demonstrando que desde a sua produção alguma coisa estava errada, e foi um fracasso de crítica e público. O pior é que tinha tudo para ser uma fascinante aventura épica, uma releitura de OS SETE SAMURAIS no universo Viking, sob o olhar de um árabe, interpretado pelo Antonio Banderas, com batalhas grandiosas e os efeitos especiais charmosos da época. E ainda evocaria alguns elementos do cinema de McTiernan, que explorava aqui novas possibilidades, um épico histórico, talvez para não ficar tão estigmatizado como diretor de ação, após ter redefinido o gênero com DURO DE MATAR (88), brincado com as suas estruturas em O ÚLTIMO GRANDE HERÓIS (93), e levado o conceito de ação às últimas consequências em DURO DE MATAR: A VINGANÇA (95). McTiernan, naquele período, possuía um certo prestígio em Hollywood. Era dos poucos auteurs, no sentido mais cahiers possível, a conseguir trabalhar no studio system sem sofrer grandes interferências, mantendo sua visão de cinema e de mundo intacta.

Até que um dia resolveu encarar O 13º GUERREIRO

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O filme é baseado num livro de 1974 de Michael Crichton, que além de romancista era produtor, roteirista e diretor de filmes. Fez até alguns exemplares de ficção científica obrigatórios, como WESTWORLD (73), precursor de O EXTERMINADOR DO FUTURO (84), com o Yul Brynner fazendo papel de andróide com “defeito” que resolve exterminar indivíduos inocentes. Filmaço! Enfim… o fato é que Crichton é um dos produtores de 13º GUERREIRO, e entregou a sua criação literária nas mãos do McTiernan. Nunca li o tal livro, não posso fazer nenhum tipo de análise detalhada, mas o que se sabe é que McT e os roteiristas fizeram todo o tipo de modificações que bem entenderam. Crichton não gostou do resultado e, após umas sessões de testes negativas, o próprio Crichton resolveu retornar aos sets para filmar e refilmar algumas sequências. E deu no que deu…

Com a qualidade da obra já comprometida, restava apostar na figura do Banderas estampando os materiais promocionais do filme para atrair publico. O espanhol estava em alta em meados dos anos 90, pagando de herói galã após encarnar o Mariachi matador em A BALADA DO PISTOLEIRO e personificar o lendário Zorro, na superprodução A MÁSCARA DO ZORRO. Aqui ele vive Ahmed, um poeta árabe que se apaixona pela esposa de seu rei e, por conta disso, é enviado numa missão cujo propósito é simplesmente afastá-lo da amada. Podia ter sido pior, o rei poderia ter ordenado sua cabeça ou que cortassem os seus bagos… Mas não, o sujeito pôde pegar seu conselheiro, o veterano Omar Sharif, e rumou para o norte onde acaba se reunindo com um grupo de guerreiros escandinavos. Em determinado momento, um pedido de socorro de um vilarejo Viking é enviado e faz com que treze guerreiros sejam escolhidos para enfrentar a ameaça. Ahmed é destinado a ser o 13º e inicia uma jornada de transformações pessoais.

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Os filmes de McTiernan costumam ser mais do que simples exemplares de gênero. Para cada grande sequência de ação de um PREDADOR, há um estudo de personagem, há um detalhe que é trabalhado para suscitar a reflexão. Portanto, é natural esperar que a aventura de Ahmed pudesse render algumas lucubrações, e realmente há uma tentativa de colocar o personagem em momentos de inquietações e conflitos espirituais e psicológicos que uma jornada dessas poderia render. Mas é frustrante perceber que o filme acaba desistindo desse caminho e não vai a fundo no estudo do personagem. É tudo muito superficial e genérico.

Há certos momentos, detalhes e algumas boas sacadas, no entanto, que me chamaram a atenção nesta revisão. Percebe-se a mão de McTiernan em alguns casos, como a sequência que mostra Ahmed aprendendo o idioma de seus novos companheiros, que me lembrou a forma que o diretor utilizou para resolver a questão da língua falada em A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO. A invasão dos guerreiros Vikings à caverna onde a tribo inimiga se esconde é outro ponto alto, com boa dose de tensão e um trabalho atmosférico bem cuidado. Mas momentos com esses quesitos são raros, já que a maioria das cenas de ação no decorrer do filme decepciona, apesar da violência gráfica e extrema. A “grande” batalha final, por exemplo, mostrada numa câmera lenta tosca, sem emoção alguma, fecha com chave de ouro o desperdício de tempo que é uma sessão de O 13º GUERREIRO.

Não dá pra colocar a culpa toda no McTiernan, já que não veremos a sua versão pra saber se era realmente pior ou se era uma obra-prima destruída pelo Crichton, que ficou encucado com as mudanças realizadas em sua criação. Mas se um dia McT conseguir lançar a sua director’s cut eu seria o primeiro da fila para conferir.

ESPECIAL McT #7: DURO DE MATAR: A VINGANÇA (Die Hard: With a Vengeance,1995)

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Prosseguindo com o Ciclo John McTiernan, para falar de DURO DE MATAR – A VINGANÇA convidei um dos maiores admiradores do filme que conheço e que inicia aqui uma espécie de colaboração oficial no blog. De vez em quando, o sujeito vai pintar por aqui com alguns textos especialíssimos. E acho que já começou muito bem!

por DANIEL VARGAS

Quando Bruce Willis retornou ao seu icônico papel de John McClane pela terceira vez, algumas coisas já haviam mudado bastante na vida do astro desde o primeiro filme. Para começar, o próprio fator “astro”. Bruce Willis não só já havia se tornado um, como provavelmente era o maior do mundo naquela época (Com Stallone e Schwarzenegger já meio que desgastados). O próprio diretor do DURO DE MATAR original, John McTiernan que retomava a série, já era considerado um dos mais respeitados diretores de ação de Hollywood. E se já no segundo filme as pessoas meio que engoliram com certa dificuldade a frase do McClane: ““Como é que a mesma merda pode acontecer com o mesmo cara duas vezes?”, aqui no terceiro a estigma que o homem comum já havia se transformado em mais um “super action hero” era inevitável. E mesmo Willis interpretando o personagem com os mesmos aflitos, a mesma humanidade de sempre, (errando, hesitando, se alterando, como uma pessoa perfeitamente normal) o público já enxergava McClane como um Rambo urbano.

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Então com o fator “homem comum em situação extrema” fora do baralho para o Willis, como contornar isso? Colocando o Samuel L. Jackson para fazer o pobre coitado da vez, é claro! Os dois recém saídos do surpreendente sucesso de PULP FICTION, mas sem nunca se encontrarem em cena uma vez sequer, dessa vez aqui eles se grudam do começo ao fim mostrando excelente química e criando um improvável buddy-cop movie, onde um dos personagens nem policial é, e solucionando o principal ingrediente que fez o primeiro filme ser tão especial.

Como odeio escrever sinopses quando estou escrevendo sobre um filme, deixa eu ir direto ao ponto: O campo de batalha da vez aqui não é um local fixo como no prédio Nakatomi Plaza em Los Angeles ou o aeroporto de Washington, e sim a inteira cidade já caótica de Nova York, a “homeland” do nosso herói. Lançado em 1995, pré-11 de Setembro, (lembro com exatidão como cenas do filme foram usadas anos depois a exaustão para demonstrar a terrível semelhança entre Hollywood e a vida real que acontecia no fatídico dia. Engraçado que no próprio filme tem uma menção, como alívio cômico, ao atentado terrorista no World Trade Center anterior ao 11 de Setembro em 1993) McClane aceita a participar de um joguinho que um terrorista que acionou diversas bombas em locais diferentes pela cidade, propondo em troca poupar vidas de civis. Logo em sua primeira “missão”, o azarado policial é mandado andar em pleno Harlem vestindo apenas uma placa escrito:

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Da hora a vida, né?

“Simon diz: Sr. Wayne, seu chá está pronto”

O tal terrorista conhecido apenas como “Simon” obviamente nutre um rancor específico por McClane, querendo o colocar em situações constrangedoras, perigosas e até mortais. Mas por quê? Então você que não viu o filme, por favor pare de ler o texto porque vou tirar isso a limpo agora: o Tal de Simon terá a identidade completa revelada como Simon Gruber. Sim, o irmão do “terrorista” Hans Gruber (Alan Rickman), morto por McCLane no primeiro filme e que agora busca vingança. Vendo por esse ponto de vista chega até ser comovente a história de amor de uma família de terroristas tão unida. Mas assim como no primeiro filmes, as coisas não são bem o que parecem. Mas essa revelação, que considero bem mais importante do que a relação de Simon com Hans, não vou deixar escapar. Fique apenas sub-entendido que justamente o que fez falta para o segundo filme em termos de um vilão fodão (acho o uso tanto de William Sadler quanto de Franco Nero, desperdiçados. O que é um pecado) o terceiro supre com uma composição sinistra genial de Jeremy Irons, que não deixa nada a desejar ao personagem de Alan Rickman. Muito pelo contrário, ele até mesmo possui o mesmo talento para “dissimular”. Aliás, não lembro de outro filme de ação puro depois desse, além da dobradinha Travolta/Cage em A OUTRA FACE que tivesse um vilão tão icônico e carismático. Estou me referindo apenas a filmes cujo o gênero “ação” se sobressai aos demais no filme em si, ou seja, não me refiro a personagens de dentro de temáticas mais divididas como “aventura” ou “policial”, deixando claro. O último que me chamou atenção nesse sentido foi Van Damme em OS MERCENÁRIOS 2 e ainda sim talvez muito mais por saudosismo do que pelo personagem em si. Não é a toa que Sean Connery, cujo papel foi o primeiro a ser oferecido, recusou por achar se tratar de um personagem maligno demais para ele (E realmente seria uma surpresa ver ele nesse perfil, apesar de achar que ele mataria a pau tanto quanto Irons)

diehard3_2990Willis: “Você é racista! Você não gosta de mim porque eu sou branco!”
Jackson: “Eu não gosto de você porque você matou meu camarada Vince em PULP FICTION!”

Mas voltando a história, depois de escapar de um possível linchamento de uma gangue local do Harlam com ajuda de Zeus Carver (O já citado Sam Jackson), um vendedor local boa-praça mas com um pouco de complexo de Malcolm X demais da conta (um personagem cuja a verborragia parece ter saído de um filme do Spike Lee, mas que o deixa ainda mais divertido) que acabou se metendo nessa furada por puro acidente. McClane, agora obrigado a trabalhar com o pobre civil contra sua vontade por Simon que mantem contato com eles por ligações misteriosas (onde ele parece estar sempre a par de tudo que acontece com a dupla em detalhes, dando-lhe um aspecto ainda mais misterioso e divino), os mandando de ponta a ponta pela cidade, tentando desvendar pequenas charadas afim de impedir que ele acione as bombas espalhadas pela a Grande Maça. O que se segue é uma direção frenética (literalmente) de McTiernan com nossa dupla tentando chegar nos locais designados por Simon a tempo, seja por corridas alucinadas de carro pelo tráfico infernal da cidade ou mesmo de bicicleta ou a pé. (de maneira que eles até conseguem chegar mais rápido ao locais desejados devido ao trânsito caótico) Mas não pensem que Zeus está ali apenas para ser alívio cômico como o cidadão comum. É um personagem inteligente e corajoso que salva a pele de McClane diversas vezes no filme.

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Originalmente escrito por Jonathan Hensleigh, especializado em roteiros de filmes de ação/aventura de grande orçamento, a história inicialmente era para ser outro terceiro filme de outro clássico do gênero, MÁQUINA MORTÍFERA e o personagem de Zeus seria uma mulher (?!), o que faria mais sentido se nessa versão da série o Murtaugh (Danny Glover) estivesse enfim aposentado e Riggs (Mel Gibson) trabalhando sozinho (será?). E de fato o filme é nada mais que um clássico “corrida contra o tempo”. Quase um “chase-movie” cujo a motivação do personagem é mera desculpa para perseguições, conflitos e explosões. Muitas explosões. Mas tudo isso é muitíssimo bem encaixado para a saga de McClane e orquestrado por quem entende do riscado, com personagens cativantes, que você realmente se importa e torce. E se estressa junto pela tensão. Sem nunca deixar de admirar a maneira como o vilão arquiteta seu plano de maneira genial e colocando a cidade sob seu domínio utilizando apenas sua voz. (Irons só vai aparecer de fato depois de quase uma hora de filme rolando)

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Dá para se dizer que DURO DE MATAR – A VINGANÇA é o tipo de blockbuster milionário que o cinema produziria em massa se o mundo fosse perfeito. Aquele blockbuster que vale cada centavo gasto. Uma sequência que nada deve ao original. Sem nunca se comprometer para atingir um público maior nos cinemas (além de uma cena de tiroteio violenta e brutal no elevador, McTiernan incluiu uma cena de sexo gratuita apenas porque já sabia que o filme receberia censura 16 anos) e ao mesmo tempo saber incluir perfeitamente o humor no filme. E aqui não há lugar para Greedo atirar primeiro. McClane é Eastwood aqui, atirando primeiro enquanto deixa a cautela para os vilões acharem que estão por cima da situação. Um grande filme que talvez tenha sido prejudicado apenas pelo estigma do “terceiro filme é sempre o pior” das diversas trilogias que tivemos até então. Talvez isso explique o motivo do porque a cotação do filme é tão baixa no Rotten Tomatoes e, pasmem, a do horrendo quarto filme ser superior. Ou talvez pelos seus 10 minutos finais onde tudo parece ser solucionado em um passe de mágica onde eles conseguem fazer o que não conseguiram em 1:50 de filme. E ainda trazem o personagem do Zeus junto, arriscando sua vida depois que ele já estava são e salvo. Pra quê?! Eu juro que acharia lindo se o Simon Gruber saísse vitorioso, e nem precisaria matar o herói pra isso! (e assim até retornando a humanidade do McClane do primeiro filme, que fecharia perfeitamente o ciclo) Mas acho que isso já é pedir demais para um blockbuster desse tamanho.

Agradecimentos ao Ronald pelo convite!

McTIERNAN IS FREE!

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O diretor John McTiernan deixou hoje a prisão federal de Yankton após 328 dias encarcerado. Para quem não sabia, o diretor de DURO DE MATAR (88) havia sido condenado a um ano por perjúrio e por mentir ao FBI numa investigação envolvendo escutas telefônicas e o ex-detetive Anthony Pellicano. A treta foi na época das filmagens de ROLLERBALL (02), quando McTiernan foi dar uma uma de esperto e contratou Pellicano para grampear o seu produtor. Os processos vêm rolando há muitos anos e praticamente destruiu a carreira e a saúde do diretor. Mas foi só em Abril de 2013 que, finalmente, o sujeito entrou em cana.

Now he is free. Acho difícil que McTiernan volte a dirigir, embora já tenham anunciado coisas do tipo “sai da cadeia direto para set de filmagens“. Caso isso aconteça, fico otimista de que tenhamos pela frente obras de qualidade pra sair do marasmo que é o cinema de ação americano atual. Nas últimas semanas surgiu a notícia de que ele faria um action movie chamado RED SQUAD. Este poster-teaser abaixo está rolando e  até o imdb colocou na página do diretor como “pré-produção”. Quem sabe não acontece? Ficamos na torcida.

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ESPECIAL McT #6: O ÚLTIMO GRANDE HERÓI (Last Action Hero, 1993)

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O ÚLTIMO GRANDE HERÓI foi um dos filmes mais importantes da minha pré-adolescência, que me fez compreender, ainda muito cedo, sobre questões que envolvem a magia do cinema, sobre a linha que separa a fantasia da realidade, sobre os heróis de ação que fizeram minha cabeça quando era moleque, como Stallone, Van Damme, Steven Seagal, e claro, Arnold Schwarzenegger. E o mais legal é que esta aula de cinema não soa chata nem pretensiosa, mas diverte a valer com uma narrativa embalada à doses de ação, muito humor, trilha sonora esperta, referências cinematográficas, enfim, é sempre um prazer rever essa joia dos anos 90.

Um dos motivos que me fazia gostar tanto de O ÚLTIMO GRANDE HERÓI era a condução narrativa através do ponto de vista de um garoto, com seus 13/14 anos, movie geek, apaixonado pelo bom e velho cinema de ação da mesma forma que muitos de nós éramos na mesma época. Que garoto não gostaria de vivenciar a libertação dos reféns em DURO DE MATAR acompanhado de John McClane, ou ter ido à Marte em uma aventura sensacional com Douglas Quaid em O VINGADOR DO FUTURO? É esse tipo de sensação que o filme proporciona, mais ou menos da mesma forma que O EXTERMINADOR DO FUTURO II, que não deixa de ser um bom exemplo também, apesar do tom mais pesado, melancólico, e não o faça como análise, mas como elemento dramático.

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Na trama, o tal garoto recebe um bilhete mágico que misteriosamente o transporta para dentro do filme de ação cujo personagem principal é o famoso Jack Slater (vivido pelo Arnie), um policial durão bem ao estilo STALLONE COBRA. E todo o conceito do filme é trabalhado com o garoto tentando convencer Slater que aquele universo é, na verdade, uma mentira, um filme, gerando situações antológicas, como a sequência da vídeo locadora, onde Stallone é o ator estampado numa peça promocional de O EXTERMINADOR DO FUTURO II. Mas uma das minhas cenas favoritas é como o garotinho imagina a adaptação de Hamlet, de Shakespeare, com o Schwarzenegger no papel título, soltado a célebre “ser ou não ser?” para, logo depois, sair atirando com armas de fogo e lançando granadas para vingar a morte de seu pai, o rei da Dinamarca… Hahaha!

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Arnie, aliás, está ótimo com seu personagem, muito à vontade, a todo momento soltando frases de efeito, brincando com a essência e a mitologia do herói dos filmes de ação. O sujeito consegue imprimir de maneira exata aquilo que o filme propõe: ser uma brincadeira das mais inteligentes sobre o mundo do cinema. O garotinho também contribui com isso, e os vilões são um conjunto de todos os estereótipos desta espécie. Aliás, O ÚLTIMO GRANDE HERÓI vai buscar alusões, elementos e fundamentos dos filmes do gênero para enriquecer o discurso, como os exageros intencionais em sequências de ação, personagens extremamente caricatos, e se alguém aí não entender a piada, fica difícil gostar (e se você não gosta de filmes de ação, então esqueça).

O elenco é um destaque à parte, em especial na galeria dos bandidos, os quais inclui Anthony Quinn, Charles Dance, Tom Noonam e F. Murray Abraham (“Ele matou Mozart!”). Ainda temos Art Carney como o velho lanterninha do cinema com o ticket mágico e Ian McKellen encarnando a Morte que sai do filme O SÉTIMO SELO, de Ingmar Bergman, e começa a vagar pelas ruas de Los angeles. A sequência que se passa na premiere do novo filme de Jack Slater é uma delícia, cheia de participações especiais, como Van Damme, Chevy Chase, James Belushi…

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A direção de O ÚLTIMO GRANDE HERÓI não poderia ser melhor. Claro que ajuda muito ter um mestre do cinema de ação como John McTiernan, o homenageado atual do blog, comandando a produção. Um sujeito que faz PREDADOR, e revoluciona o gênero com DURO DE MATAR, tem total consciência no que estava realizando aqui. Por isso engana-se quem acha que o filme é apenas um action movie exagerado e sem cérebro dos anos 90. Penso que O ÚLTIMO GRANDE HERÓI talvez seja até perspicaz em demasia para seu público alvo, embora um moleque de 13 anos consiga entender tranquilamente, ou pelo menos sentir a experiência divertidíssima que é, embora a “crítica séria” da época, ao que parece, não entendeu muito bem a piada.

ESPECIAL McT #5: MEDICINE MAN (1992)

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Embora o clima eurocult tenha invadido o blog durante este mês, é preciso lembrar que ainda estou fazendo a peregrinação pelo cinema do John McTiernan, assistindo e comentando todos os seus filmes. Então é preciso voltar um pouco a atenção para o cinema das Américas de novo. E neste caso, estamos falando da América do Sul. Do Brasil, especificamente! Sim, MEDICINE MAN, o quinto filme do homem, é uma aventura que se passa em terras tupiniquins e, apesar de se um filme menor na filmografia do diretor de DURO DE MATAR, possui alguns momentos fascinantes. Algo normal em se tratando de McTiernan.

Sean Connery, provavelmente satisfeito com o trabalho realizado por McTiernan em A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO, resolveu bancar na produção de MEDICINE MAN, filme que lhe serve mais uma vez de veículo para demonstrar seu talento, mas também permite que McTiernan retorne ao ambiente de PREDADOR, agora sem alienígena assassino, sem mercenários parrudos, sem a mesma tensão, mas com o mesmo vigor cinematográfico, fazendo aqui o seu trabalho mais “hawksiano”.

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Lorraine Bracco é Rae Crane, uma cientista que chega ao Brasil para vistoriar o trabalho do Dr. Robert Campbell (Connery) e acaba encontrando uma espécie de Coronel Kurtz hippie, de rabo de cavalo, no meio de uma tribo indígena no coração da Amazônia. É nesse cenário que o filme assume-se como uma aventura tendo essa forte presença feminina e situações e diálogos dignos das screwball comedies que Howard Hawks fazia com Cary Grant e Katharine Hepburn.

Percebe-se um McTiernan mais light, confortável, embora não esteja filmando tiroteios e explosões, que é onde já provou que se sai melhor. Um McTiernan que consegue imprimir o ritmo ideal e trabalhar alguns elementos clássicos dos filmes de aventura. Sem contar que é um prazer para os olhos acompanhar os movimentos de câmera no meio das árvores da floresta brasileira. Uma cena simples, Connery e Bracco sobem na copa de uma árvore para olhar a vista, se torna facilmente numa autêntica aula de direção.

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Ainda assim, mesmo com todo esse background clássico e inúmeros momentos absolutamente emocionantes, a sensação final é que falta ao filme alguma coisa. Parece haver um certo conflito de intenções com MEDICINE MAN. Se por um lado temos um bom roteiro, escrito por Tom Schulman, em que sentimos a mensagem ambiental, por outro temos o olhar de McTiernan, mais interessado na relação entre os dois protagonistas e que acaba por não ter material suficiente para chegar a altura de seus filmes anteriores. De qualquer maneira, ainda há os belíssimos desempenhos de Connery e Bracco, além da participação curiosa de José Wilker.

MEDICINE MAN era um dos poucos filmes do diretor que ainda não tinha visto quando iniciei a peregrinação. É mais um itinerário de revisões, na verdade. Confesso que as expectativas estavam bem baixas com este aqui e quando me deparei com essa aventura simpática, acabei surpreendido. Pode ser que isso tenha influenciado meu juízo. Mas mantenho, por enquanto, a posição. É um filme que merece ser visto.

ESPECIAL McT #4: A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO (The Hunt for Red October, 1990)

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Voltando aos poucos com as atividades por aqui, após uma pausa para descanso e viagens, prosseguimos com a filmografia do John McTiernan pra variar. A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO foi meio injustiçado por minha pessoa durante muito tempo. Uma revisão em 2013 ajustou as coisas. É um filmão! Embora ainda não ache dos melhores trabalhos do diretor, consegue tranquilamente ser um thriller de uma eficiência absurda na construção e condução de sequências de tensão, e isso sem precisar apelar para a carga de ação deflagradora que havia em PREDADOR ou DURO DE MATAR.

É um trabalho, digamos, mais sério e político, se comparado aos outros dois filmes citados do McT, apesar de que já em 1990 o tema “Guerra Fria” estava um bocado defasado. Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de Tom Clancy, que por sua vez foi inspirado num episódio real ocorrido em 1975, no qual um pequeno navio de guerra soviético foi amotinado e sua tripulação pediu asilo no ocidente.

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No caso do filme (e do livro do Clancy), um moderníssimo submarino russo, chamado de Outubro Vermelho, dirige-se em direção aos Estados Unidos munido com poder de fogo nuclear suficiente para iniciar (e terminar) a terceira guerra mundial num piscar de olhos. O governo soviético alega não ter nada a ver com isso; os americanos não vão esperar o submarino chegar mais perto para perguntar “qualé?”. Nisso, entra em cena o analista da CIA Jack Ryan (Alec Baldwin), que contém informações sobre o comandante do submarino, encarnado pelo Sean Connery, e acredita na possibilidade do sujeito ter desertado e está, na verdade, tentando escapar para os Estados Unidos. Enquanto ninguém sabe exatamente o que se passa, inicia-se a tal caçada ao Outubro Vermelho

Jack Ryan é uma figurinha carimbada na literatura e no cinema. Harrison Ford interpretou duas vezes (JOGOS PATRIÓTICOS e PERIGO REAL E IMEDIATO), Ben Affleck também em A SOMA DE TODOS OS MEDOS, e está para ser lançado JACK RYAN: SHADOW RECRUIT, com Chris Pine no papel (que, aparentemente, parece ser uma bela merda). Mas é em OUTUBRO VERMELHO que o personagem criado por Clancy aparece pela primeira vez na tela grande. É curioso, porque Ryan não é um agente de campo, não é um homem de ação, portanto é bem diferente do tipo de herói que McTiernan havia desenvolvido nos seus trabalhos anteriores no gênero ação, como o Dutch (Schwarzenegger, em PREDADOR) ou McClane (Willis, em DURO DE MATAR). No único tiroteio do filme, Ryan precisa mandar chumbo como um completo principiante, tremendo nas bases, diante da situação de perigo.

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Como disse antes, o filme não apela para sequências de ação. É mais focado na construção atmosférica de tensão, intrigas e, claro, a sensação claustrofóbica de se ambientar uma narrativa quase inteiramente dentro de submarinos. Tudo isso revestido por um thriller político inteligente, bem articulado e cuidadosamente dirigido pelo McTiernan – os combates de submarinos, embora lentos e táticos, são de deixar a mão suando!

Mas o grande destaque de OUTUBRO VERMELHO é o desempenho de Sean Connery no papel do comandante russo. Belíssima atuação, o sujeito constrói uma figura repleta de fraquezas e ambiguidades encobertas pela pompa e imponência de um maioral soviético. Sem sombra de dúvida um dos grandes momentos da carreira de Connery e provavelmente o tour de force de OUTUBRO VERMELHO. Apesar de ter ficado mais famosinho, Jack Ryan acaba por ser um mero coadjuvante por aqui. Fica claro que o filme é um veículo para Connery demonstrar seu talento.  A produção conta ainda com Scott Glenn, Sam Neill, James Earl Jones, Tim Curry, Stellan Skarsgård e vários outros.

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Para finalizar e encher mais um pouco a bola do McTiernan, há uma pequena sacada em OUTUBRO VERMELHO que demonstra porque o sujeito é um dos grandes do cinema americano: o diretor resolve toda a questão do idioma russo, que é transitado para o inglês, num simples movimento de câmera que é de uma genialidade de arrepiar. É logo no início do filme e não vale ficar descrevendo, mas não tem como não perceber ou ficar indiferente quando acontece. É mágico! E são momentos como esse que o cinema guarda seus encantos.

ESPECIAL McT #3: DURO DE MATAR (Die Hard, 1988)

1359741734_1Dizem que DURO DE MATAR é o pai do cinema de ação moderno feito em Hollywood. Não vou discordar, mas se for mesmo, não deve estar se sentindo muito orgulhoso com o resultado atual. Em algum momento em meados dos anos 90 algo deu errado no percurso e hoje 90% do que é produzido em termos de filmes de ação nos Estados Unidos pode ser considerado lixo, puro e simples. Mas não tenho intenção agora de ficar ressaltando a mediocridade do cinema de ação Hollywoodiano atual. O que quero aqui é prosseguir minha peregrinação pelo cinema de John McTiernan, especialmente agora que chegamos em sua obra-prima máxima, também conhecida como – e não tenho receio algum de afirmar isso, mesmo que alguém possa discordar – o melhor filme de ação americano de todos os tempos.

Acho que nem precisava me preocupar em descrever a trama, mas vamos lá. John McClane (Bruce Willis) é um policial de Nova York que vai a Los Angeles visitar sua esposa e filhos na véspera de natal. O casamento não anda lá essas coisas, a mulher mora em outra cidade por conta de um emprego numa multinacional, e o sujeito acha que é um bom momento de tentar uma reaproximação. Os planos de McClane vão por água abaixo quando um grupo de terroristas internacionais, liderado pelo maquiavélico Hans Gruber (Alan Rickman), decide invadir o local, manter todo mundo como refém e roubar 600 milhões de dólares em títulos trancados num cofre do prédio. Para a nossa sorte, McClane consegue escapulir das vistas dos bandidos e passa o filme inteiro sendo “o pior pesadelo” de Hans e sua turma.

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O filme segue a mesma linha de O PREDADOR, trabalho anterior de McTiernan, em termos de ação, na qual toda a trama se estrutura como um grande thriller, mais focado nas situações de tensão do que em lutas e tiroteios. Só a ideia de ter um cara sozinho no mesmo ambiente que um monte de criminosos armados e as mais variadas situações que podem surgir a partir daí já é meio caminho andado para segurar o espectador na poltrona. Um dos grandes êxitos de DURO DE MATAR é conseguir segurar um estado de tensão constante e amplificar a sensação caótica que McClane se encontra. Ou seja, o filme possui um ritmo alucinante independente da situação mostrada. Mesmo os momentos de conversa  são tão apreensivos quanto os instantes mais urgentes de ação.

Funciona especialmente pela ideia do protagonista vulnerável, do herói humanizado, talvez o tópico mais importante de DURO DE MATAR. E a escolha de Bruce Willis é fundamental. O filme nasceu como um projeto de continuação para COMANDO PARA MATAR (85), estrelado pelo Arnold Schwarzenegger. Não sei se no primeiro tratamento do roteiro o plano era colocar John Matrix (Arnie) num prédio cheio de terroristas, ou se a história já era baseado no livro de Roderick Thorp. Só sei que a coisa começou a desandar quando o Arnoldão abandonou o barco. Mudanças aqui e acolá, passaram-se alguns anos e finalmente os roteiristas Jeb Stuart e Steven E. de Souza conseguiram chegar em algo que agradasse o produtor Joel Silver e ao McTiernan.

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O livro de Thorp que serviu de inspiração para DURO DE MATAR chama-se Nothing Lasts Forever, que é uma continuação de outra obra do autor chamada The Detective. Esta já havia sido adaptada para o cinema no fim dos anos 60, com Frank Sinatra, que, aliás, mesmo aos 73 ano de idade, foi lhe oferecido o papel de John McClane por conta de uma clausula de um contrato referente ao filme anterior. Seria, no mínimo, estranho o Blue Eyes velhinho enfrentando terroristas. E o Bruce Willis? Ainda demorou a ser encontrado. O personagem foi oferecido aos dois maiores astros do cinema de ação na época, Schwarzenegger e Stallone, e também a Burt Reynolds, Richard Gere, Harrisson Ford, Mel Gibson e outros… Todos rejeitaram.

No fim das contas, calhou de ser aquele sujeitinho mais conhecido pelo seriado A GATA E O RATO, que fazia sucesso na época. É interessante fazer um exercício de imaginação e pensar como seria Burt Reynolds pendurado na mangueira de incêndio com aquele bigodão, ou Harrisson Ford soltando um Yippie-kai-yai motherfucker, mas não dá para negar que a escolha de Bruce Willis foi perfeita, embora ninguém acreditasse que pudesse carregar um filme de ação. A melhor escolha? Nunca se sabe, mas perfeita acho que podemos garantir. Qualquer outro ator no lugar de Willis e teríamos um DURO DE MATAR absurdamente diferente.

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Mas o que o homem tem que outros não têm? Basta olhar pra ele. Bruce é a representação do sujeito comum e o extremo oposto dos musculosos e indestrutíveis action heroes que povoavam os anos 80. E esse é um dos principais motivos que faz DURO DE MATAR ser o grande marco no cinema de ação americano e o policial John McClane um dos personagens mais revolucionários do gênero.

É o herói cinematográfico com atributos de um ser humano normal: Seus músculos não são volumosos, seu corpo e mente vulneráveis e em certas circunstâncias não sabe nem o que fazer. Sujeira, suor e sangue se acumulam e o simples fato de estar com os pés descalços torna-se um elemento narrativo. McClane precisar salvar o prédio tomado por terroristas e ainda tem questões conjugais a resolver. Estávamos acostumados em ver Stallone costurando seus próprios ferimentos no meio do mato, ou Schwarzenegger carregando tranquilamente uma tora pesada no braço, enquanto McClane age como se tivesse saído da vida real e poderia ser qualquer um de nós.

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Claro, basta assistir ao filme para perceber que, na verdade, não. Não poderia. Vamos ser honestos, ninguém teria colhões de pular do terraço de um arranha-céu prestes a explodir apenas com a mangueira de incêndio amarrado na cintura. É um “herói de carne e osso”, mas ainda estamos diante de um filme de ação exagerado da década de 80. De qualquer maneira, há uma identificação por parte do público muito maior com McClane do que o personagem “exército de um homem só” que monopolizava o gênero naquele período.

E não vamos esquecer que se o desenvolvimento de um bom herói eventualmente depende de um grande vilão, vale destacar o desempenho magistral de Alan Rickman, que compõe um Hans Gruber frio e calculista, que age de maneira extremamente racional. A relação que desenvolve com McClane é outro ponto forte de DURO DE MATAR e cria um equilíbrio narrativo interessante. Se assemelha a uma partida de xadrez: De um lado o herói improvisando diversas maneiras de sobreviver e salvar o dia e do outro um adversário cauteloso que pensa com cuidado antes de realizar qualquer movimento com seus peões.

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É curiosa também a relação de McClane com o sargento Al Powell, interpretado por Reginald VelJohnson, que o ajuda na jornada em conversas por rádio. Powell é o contato externo de John McClane e, mesmo sem compartilhar o mesmo ambiente, há uma química forte entre os dois. Uma maneira inusitada que o filme trabalha a ideia de sidekick. O encontro dos dois ao final, que nunca haviam se visto antes, é tocante.

Graças ao excepcional roteiro de Stuart e Souza, outros coadjuvantes ganham uma dimensão bem maior que o de costume. É o caso da esposa do homem, Holly (Bonnie Bedelia); Argyle, o motorista da limousine; Harry Ellis (Hart Bochner), que é um do personagens mais babacas que já pintou nos filmes de ação; além de outros que têm participações menores, mas conseguem de alguma maneira “deixar sua marca”, como o eterno capanga, Al Leong, roubando chocolate e Robert Davi na cena em que sobrevoa o Nakatomi Plaza de helicóptero e solta a minha frase favorita do filme: “Just like fuckin’ Saigon!“. E olha que estamos diante de um filme em que a cada quinze segundos os personagens soltam frases que se tornaram memoráveis.

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Além disso, DURO DE MATAR é repleto de pequenos toques geniais. Desde o início, a descoberta de McClane em esfregar os dedos dos pés no carpete após um longo vôo (obrigando o personagem a andar descalço o restante do filme), o poster de uma garota pelada na parede que serve como guia para o herói se localizar no labirinto de Nakatomi, até o uso de Beethoven na trilha sonora quando os terroristas adentram o cofre, acabam por criar uma experiência das mais ricas e fascinantes do cinema americano dos últimos trinta anos.

John McTiernan, diretor classudo, moderno e detalhista, realmente conseguiu reunir todos os elementos que precisava para fazer um verdadeiro épico do cinema de ação, uma obra-prima do gênero sem antecedentes. Orquestra cada cena, cada fragmento de filme, com uma excelente noção de ritmo e de arquitetura da ação, além de inteligência (o fato do protagonista utilizar mais o cérebro do que balas para se livrar dos apuros é sinal disso). O filme ainda cresce absurdamente sob um olhar estético, cortesia do holandês Jan de Bont na direção de fotografia, abusando de lens flare bem antes de virar modinha com J.J. Abrams.

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E em matéria de ação, alguns momentos já se tornaram clássicos: o tiroteio na cobertura do edifício que culmina no fosso do elevador e nos dutos de ventilação; a S.W.A.T. tentando invadir o local; o confronto entre o herói e Karl, o “braço direito” de Hans, um alemão brutamontes querendo vingar a morte do irmão (a primeira vítima de McClane); a já citada mangueira de incêndio e vários outras cenas pontuais que transformaram DURO DE MATAR num dos mais representativos filmes de ação daquele período.

Logo, dizem que é o pai do cinema de ação moderno… Ok, agora que chegamos aqui, preciso concordar com essa afirmação.  Hollywood mudou a maneira de trabalhar o gênero após a existência de DURO DE MATAR – trazendo junto mais de um milhão de exemplares com o selo DIE HARD plot, como A FORÇA EM ALERTA, com Steven Seagal, PASSAGEIRO 57, com Wesley Snipes, e, claro, DURO DE MATAR 2, dois anos depois. O problema é que ninguém no cinema americano pós-88 chegou perto de fazer algo tão magnífico com um filme de ação como DURO DE MATAR. É uma pena, portanto, que hoje pouquíssimos “filhos” façam esse “pai” se orgulhar.

Vale lembrar, já que estamos em dezembro, que DURO DE MATAR é um filme natalino. Nada melhor que rever ou apresentar para alguém que ainda não tenha visto. Bem melhor do que aquelas produções piegas onde as pessoas descobrem o significado do natal e blá blá blá… O verdadeiro significado do natal é Bruce Willis descalço pisando em caco de vidro pra livrar a carcaça! Ho-Ho-Ho!

ESPECIAL McT #2: O PREDADOR (Predator, 1987)

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O legal de fazer uma peregrinação pelo cinema de John McTiernan é que sua filmografia não possui má fase. Tá certo que 13º GUERREIRO não é lá grandes coisas – preciso rever, só lembro que não gostei – mas a carreira do homem é coerente no seu excelente nível de qualidade. E logo após a estreia com NOMADS, o sujeito já ataca com O PREDADOR, daqueles filmes que representa tudo que há de melhor no cinema de ação truculento dos anos 80. E ainda acrescenta um elemento sci-fi para deixa a coisa ainda mais interessante.

McTiernan tem a capacidade de fazer filmes que se tornam mais sublimes a cada novo contato. Pelo menos os principais têm essa proeza de nunca perderem a força: DURO DE MATAR (88), O ÚLTIMO GRANDE HERÓI (93), DURO DE MATAR III (96) e, claro, este aqui, que revi pela milésima há poucos dias e, não teve jeito, permanece a belezura de sempre.  

Na trama, o major Dutch, vivido pelo Arnold Schwarzenegger, comandante de um grupo de veteranos do Vietnam especializado em missões especiais, é convocado para resgatar militares que, possivelmente, foram sequestrados por guerrilheiros nas selvas de algum país latino-americano após a queda do helicóptero que os transportavam. Em pouco tempo de busca, os militares são encontrados… mortos. Com os corpos totalmente esfolados, pendurados nas árvores de cabeça para baixo. A partir daí, a busca passa a ser dos assassinos dos companheiros pela floresta adentro, já que ninguém pode sair impune de tamanha barbárie.

No entanto, Dutch e seus homens, aos poucos, começam a perceber, da pior maneira possível, que seu inimigo não é um guerrilheiro, não é nem sequer humano, mas algo desconhecido, com habilidades notáveis e um poder de fogo assustador. A coisa vai esquentando e a tensão subindo à medida em que cada personagem é abatido de forma brutal, até chegar num inevitável confronto, o embate derradeiro e arrasador do homem vs criatura.

Podem não acreditar, mas a gênese de O PREDADOR surgiu como uma brincadeira entre os roteiristas, os irmãos Jim e John Thomas, do tipo “e se rolasse o encontro entre Rambo e E.T. – O EXTRATERRESTRE?“.  Claro que a coisa precisou se desenvolver bastante até se transformar nesta espécie de WILD BUNCH com anabolizantes. Especialmente em relação ao visitante do espaço. E não deve ter sido fácil controlar os egos de todos os brutamontes que conseguiram reunir por aqui. 

Uma das proezas dos roteiristas foi exatamente conseguir criar um conjunto preciso de características para cada personagem, o que deve ter ajudado a manter os egos controlados. Mesmo que alguns sejam um bocado estereotipados, todos têm uma personalidade singular e, enquanto não sobra apenas o Arnoldão no final, TODOS têm praticamente a mesma importância na aventura e possuem seus momentos de protagonismo. 

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Além do Arnie, o elenco parrudo é formado por Bill Duke, Carl Weathers, Sonny Landham, e Jesse Ventura, que tenta roubar a cena. Embora seja um dos primeiros a vestir o terno de madeira, seu personagem, arrogante ao extremo, foi agraciado com algumas das falas mais legais de PREDADOR. “I ain’t got time to bleed” é uma das minhas favoritas. Landham também faz uma figura legal, com toda a mística indígena, trazendo elementos de faroeste para o filme. Curioso que no seu contrato o ator deveria estar sempre acompanhado de um guarda-costas. Mas não era para protegê-lo, mas sim proteger os outros do Landham, que tinha fama de brigão. Do lado menos robusto temos Shane Black, o roteirista criador de MÁQUINA MORTÍFERA, fazendo o papel do cara de óculos menos musculoso do grupo, e Richard Chaves, que não possui tanta presença física, mas consegue se destacar entre os fortões.

No entanto, dentre os brutamontes reunidos aqui, incluindo o próprio Predador, quem se sobressai mesmo é o bom e velho Schwarzenegger. Dutch é um de seus melhores personagens, o primeiro que uniu toda a áurea do action hero com um jeitão totalmente cool. Seja com o charuto no canto da boca e a polo vermelha no início do filme ou com o corpo coberto de lama, segurando uma tocha e gritando à plenos pulmões para atrair o Pedrador para suas armadilhas estilo Rambo. Poucos atores conseguiram chegar no seu nível de presença física, de caracterização do herói cinematográfico, de maneira tão contundente a partir dos anos 80.

Um dos elementos essenciais de PREDADOR em relação aos atores se estabelece logo no início, quando Dutch reencontra um velho companheiro de guerra, Dillon (Carl Weathers). Conan/John Matrix encontra Appolo Creed/Action Jackson! Ambos se vêem, trocam piadas, um chama o outro de filho da puta e dão as mãos para se cumprimentarem. Nesse ato de tocar as mãos, inicia uma pequena disputa de queda de braço e a câmera foca nos músculos avantajados de ambos, especialmente do ex-miss universo que possuía um baita muque.

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O físico, a força bruta, dos atores funciona como componente dramático-visual. Esses caras, pelo menos a maioria, desempenham seus papeis não apenas através do gesto corporal, das expressões faciais, da fala e suas entonações, mas também na maneira como o bíceps aparece na tela, como os músculos do pescoço se comportam no enquadramento, como as veias sobressaltam na pele somando valor estético, o que torna PREDADOR um dos filmes mais físicos que existe.

E ver como esse bando de machões musculosos começa a demonstrar fragilidade e medo diante da ameaça desconhecida é uma das ideias mais incríveis do filme. Há uma cena em que Landham diz, com toda frieza do mundo, que está com medo. E Chaves retruca “Bullshit. You ain’t afraid of no man.“. “There’s something out there waiting for us, and it ain’t no man. We’re all gonna die.“, arremata Landham. Ainda assim, na hora do “vâmo vê”, o sujeito larga a metralhadora, e pega uma faca para esperar uma morte honrosa enfrentando o adversário de frente.

Quando o Predador finalmente aparece em cena, percebe-se que os personagens realmente tinham motivos para temer. A ideia da camuflagem é ótima, bem feita com os efeitos especiais da época, mas é em seu estado natural, e sem a máscara, que a coisa impressiona. E pensar que tudo poderia ser diferente, no mau sentido… Sim, aquela história de que Jean-Claude Van Damme havia sido escalado para ser o Predador é verdadeira. O belga chegou a participar de algumas filmagens, mas sua participação foi interrompida e, aparentemente, suas cenas não chegaram a ser utilizadas. O problema foi quando a fantasia de alienígena, na concepção original (foto abaixo) chegou à locação para as filmagens. A produção percebeu que o visual era absurdamente inapropriado. Parecia um besouro gigante, um monstro de ficção científica dos anos 50. No papel funcionava, mas na prática não.

Acreditem. Dentro daquela roupa está JCVD.

Acreditem. Dentro daquela roupa está JCVD.

Após algumas tentativas, decidiram que atitudes drásticas deveriam ser tomadas. Contrataram o mestre Stan Winston, que em tempo recorde criou o visual do alien que aparece no filme. Trocaram o dublê (Van Damme) que vestiria a fantasia, pegaram um sujeito de dois metros de altura, e voilà, estava pronto um guerreiro das estrelas, com visual badass, dreads, e uma imponência de dar calafrios. Além disso, Van Damme é baixinho, não fazia muito sentido tê-lo como um perigoso alienígena. O que ele faria no confronto com o Arnie? Daria um chute rodado?

O Predador não possui qualquer de background nesse primeiro filme. Sabemos que é um visitante de outro planeta porque logo na abertura uma nave espacial chega à Terra. Em PREDADOR 2 é possível conhecer alguns detalhes a mais. No entanto, o que importa aqui é a ameaça ele representa. É a perfeita personificação do mal, um colecionador de crânios humanos querendo aumentar seu mostruário. E isso basta para embarcar na aventura de Arnie e seus companheiros. El Diablo cazador de hombres, como bem define Elpidia Garrillo, a única mulher no filme.

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E parece que o Predador se diverte bastante com essa sua atividade, brincando de “quem eu vou matar primeiro?“. Claro que ele facilita as coisas para o seu lado com seus aparatos alienígenas de última geração pra cima de indivíduos inferiores como nós, terráqueos. Deve ser para não correr muitos riscos. Mas não desperdiça a chance de uma boa briga de mãos limpas, como no final, quando tira o capacete, as armas e decide encarar o Shwarza no mano a mano.

Dentre todos os envolvidos em O PREDADOR, talvez o mais casca-grossa mesmo seja o McTiernan, cuja carreira de diretor estava dando ainda os primeiros passos, mas encarou o projeto, pegou vários brutamontes, jogou todos no meio do mato e filmou como gente grande. Após essa experiência o sujeito estava pronto pra outra. E não foi a toa que no ano seguinte revolucionou o cinema de ação com DURO DE MATAR.

Toda a trama de O PREDADOR é uma grande aventura, um grande thriller, com tiros e explosões pontuais distribuídas pela narrativa, mas bastante focado no suspense, na ideia do monstro que pode atacar a qualquer instante. Um dos grandes momentos do filme faz exatamente essa mistura de suspense e a ação exacerbada típica dos anos 80:

Após a tensão de um iminente encontro com a criatura, Bill Duke chega ao local onde Ventura fora atingido por um laser e só dá tempo de ver o Predador piscando os olhos para ele. Num ato de desespero instintivo, o sujeito pega a minigun e começa a cuspir fogo na direção que o nariz aponta. Aos poucos, os outros companheiros vão chegando e, mesmo sem fazer a mínima ideia em quem ou o que o Duke está atirando, não pensam duas vezes e começam a atirar também! E quando a munição do pente acaba, eles trocam e continuam atirando! São 64 segundos da mais pura dose de truculência cinematográfica!

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Ação urgente e frenética, com troca de tiros, facadas e pirotecnia, ao estilo COMANDO PARA MATAR, só acontece em um momento, o ataque ao acampamento dos guerrilheiros. Mas é para arregaçar! McTiernan conduz o espetáculo de maneira clássica e artesanal, com muito domínio da gramática da ação, filmando apenas o essencial. O resultado não poderia ser mais expressivo, classudo e fisicamente exagerado. Especialmente quando temos Jesse Ventura com sua minigun! É de encher os olhos dos aficcionados pelo gênero, graças, também, ao trabalho excepcional do coordenador de dublês, Craig R. Baxley, que dirigiu alguns filmes interessantes, como ACTION JACKSON, STONE COLD e I COME IN PEACE.

A verdade é que com o elenco que temos aqui, a construção dos personagens e a trama estilo jungle war, não precisaria nem de um alienígena assassino na jogada para termos um bom filme de ação oitentista. Mas, como temos um ingrediente que torna o filme mais especial do que já seria, ao final rola o confronto épico entre Arnold e a criatura do espaço para arrematar um filme perfeito, simples e sem excessos. O estilo aqui é diferente da ação anterior, mais cadenciada, atmosférica e estratégica, mas não menos física. Quando os dois personagens partem para a trocação, o austríaco leva a maior surra de sua carreira, mas McTiernan cria algumas das imagens mais emblemáticas do cinema de ação e ficção científica dos anos 80.

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Como todo clássico instantâneo daquele período que se preze, PREDADOR, numa original mistura de gêneros, também influenciou algumas produções menos abastadas, que aproveitavam as principais ideias de filmes de sucesso, gerando os famigerados rip-off’s. Da mesma maneira que MAD MAX II, FUGA DE NY e O SEGREDO DO ABISMO, PREDADOR foi responsável por imitações como ROBOWAR, de Bruno Mattei, BANGIS, DNA, com Mark Dacascos, e vários outros.

Também vieram as continuações. PREDADOR 2, dirigido por Stephen Hopkins, acontece na cidade grande, na selva urbana, e temos Danny Glover como policial tentando resolver a situação. Gosto dessa sequência, só não vi tantas vezes quanto o original. E já está meio que na hora de rever… PREDADORES, de 2010, é bem fraco. Agora, os crossovers do universo ALIEN com PREDADOR, confesso que nunca tive interesse algum em conferir. Prefiro continuar revendo de vez em quando esta  maravilha aqui.

ESPECIAL McT #1: NOMADS (1986)

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Já era um “veterano” em McTiernan quando vi NOMADS pela primeira vez há pouco mais de dois anos. Revi incontáveis vezes PREDADOR (87), O ÚLTIMO GRANDE HERÓI (93), DURO DE MATAR III (95), além do primeiro DURO DE MATAR (88) que é um dos meus filmes de ação de cabeceira. Tinha assistido também a outros trabalhos do homem, como CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO (90), THOMAS CROWN (99), BASIC (03) e vos garanto que toda essa experiência com os seus filmes posteriores não me preparou em nada para conferir este estranhíssimo horror movie que marcaria a estreia de McTiernan na direção.

O autor de John McTiernan: LeMaître du Cinéma d’action, Claude Monnier, lembra de uma história interessante com Howard Hawks, na época do lançamento de seu primeiro filme, de 1926, THE ROAD TO GLORY. Tendo acabado de conferir aquele dramalhão pesado e trágico, o produtor Sol Wurtzel chegou para o Hawks e disse “Pronto, você demonstrou que é capaz de realizar um filme. Mas, pelo amor de Deus, faça agora algo mais divertido!”. E, realmente, há uma diferença absurda entre NOMADS e o restante da carreira do McTiernan. Dá a impressão de que o sujeito queria exorcizar alguns demônios antes de se firmar em Hollywood.

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NOMADS é aquele caso no qual falar pouco já é falar demais. O certo seria apenas recomendá-lo, “assistam a essa bagaça sem ler nada a respeito“. No entanto, já falando demais, a trama de gira em torno de um antropólogo francês, interpretado pelo Pierce Brosnan, famoso por estudos de tribos nômades ao redor do mundo. Quando chega a Los Angeles, junto com a esposa, para dar aulas numa universidade, acaba tendo problemas com uma gangue de punks barra pesada. Ao invés de chamar a polícia, ou algo assim, o sujeito decide reviver suas experiências antropológicas em pleno submundo urbano. Passa, então, a seguir, tirar fotos e observar os hábitos da gangue pelos cantos da cidade. A coisa toma contornos cada vez mais bizarros quando Brosnan descobre que, na verdade, aquele grupo é formado por espíritos, ou demônios, que vagueiam como nômades pela Terra em forma humana para espalhar o mal.

E se tudo isso já não bastasse, a maneira como McTiernan estrutura a trama contribui para manter as coisas de forma ainda mais enigmática e com certa originalidade. O próprio plot que eu descrevi aí em cima acaba acontecendo de uma maneria bem diferente do que se espera. E o filme não faz a mínima questão de entregar tudo explicado de bandeja para o espectador, o que pra mim é essencial, uma pena que isso seja cada vez mais raro no cinema atual. O roteiro é do próprio McTiernan e foi o único que escreveu em toda a carreira.

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Já na direção, o sujeito demonstra uma talento raro na condução de um debut. Faz algumas experimentações estéticas, mas a maior parte do tempo mantém um estilo clássico de um mestre, com pequenos movimentos de câmera conscientes, enquadramentos bem compostos e muita noção de ritmo. As sequências noturnas, em especial, são bem bonitas visualmente, com bastante atmosfera e tensão, como nos momentos em que Brosnan espreita a corja pelas ruas escuras.

Há uma cena incrível que o protagonista se esconde das figuras que o perseguem debaixo de um carro. A câmera fica lá estática mostrando o ator deitado enquanto os pés dos seus algozes aparecem o rondando, mas não dá pra saber se eles o perderam de vista, ou se estão brincando com o sujeito. Só sei que a cena é tensa pra cacete! Outro momento que me marcou foi quando Brosnan joga um desses seres do alto de um prédio e o indivíduo cai sob o mesmo enquadramento do Hans Gruber (Alan Rickman) em DURO DE MATAR… Esse enquadramento em especial parece ser uma obsessão na carreira do McTiernan. Há também em O ÚLTIMO GRANDE HERÓI e DURO DE MATAR III. 

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Mesmo com a qualidade visual, NOMADS foi massacrado pela crítica na época. Mas há mesmo algumas questões que realmente podem espantar a clientela: a narrativa se torna confusa em determinada altura, o experimentalismo da gramática do horror, a falta de explicação, até o sotaque do Brosnan, que é irlandês, mas interpreta um francês, que se muda para L.A. Depende do nível de tolerância de cada um. Essas questões, para mim, não são nada e simplesmente embarquei na trama, no visual onírico, na atmosfera inquietante de sonho, na trilha sonora oitentista, ignorei os pontos discutíveis e, longe de ser uma obra-prima, NOMADS resultou num mix de estranheza e encantamento.

Não é um PREDADOR ou DURO DE MATAR, mas é surpreendentemente sólido como filme de horror, especialmente vindo de um estreante. Aliás, há um ator que disse em sua biografia que ficou tão hipnotizando com o clima do filme que convenceu os produtores a contratarem o diretor para sua próxima empreitada. O ator é o Arnold Schwarzenegger e o filme acabou se tornando o segundo trabalho de McTiernan, que nem preciso dizer qual é…