RAIZES DO CÉU (Roots of Heaven, 1958)

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Em meados dos anos 40, ainda durante a Segunda Guerra, o diretor John Hunston  estava em Los Angeles finalizando algum de seus documentários filmados em campo de batalha. Huston, ao lado de John Ford, Frank Capra, William Willer e outros, contribuiu com o exército americano registrando imagens da guerra. Enfim, o fato é que neste período em que estava em LA, Huston passava os dias entre o trabalho e um bocado de festas. Segundo as palavras do próprio diretor, “Tendo acabado de voltar ao trabalho com heróis de verdade, não estava com vontade de aguentar a subespécie cinematográfica. Foi com essa disposição e ânimo que encontrei Errol Flynn parado no saguão durante uma recepção na casa de David O. Selznick“.

Flynn estava já com um copo de uísque na mão, como lhe era habitual. Devia ter enchido a cara… E Huston conta que o sujeito andava a procura de confusão. Não demorou muito, Flynn chamou a mulher que Huston estava paquerando na época de alguma coisa não muito agradável, Huston retrucou sem muita gentileza e ambos acabaram procurando um local mais isolado, ao fundo dos jardins, para chegarem às “vias de fato”.

Essa história é uma das melhores entre as tantas que Huston conta em sua biografia e que vale a leitura de cada palavra, cada linha, cada descrição… Mas, para resumir, a luta entre Errol Flynn e John Huston realmente aconteceu neste dia, ambos eram pugilistas e trocaram socos violentos por quase uma hora, sem golpes sujos e tudo dentro das normas do Marquês de Queensberry, ou seja, as regras oficiais do boxe. Detalhe que foi visto com grande decência para ambos oponentes.

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Errol Flynn vive um boxeador em GENTLEMAN JIM, de Raoul Walsh

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Nos anos 70, o diretor John Huston mostra a Stacy Keach como se faz em CIDADE DAS ILUSÕES

A coisa foi  tão respeitosa entre os dois que, na manhã seguinte, Flynn ligou para Huston para saber como o diretor estava passando (só para constar, o ator foi parar no hospital com algumas costelas quebradas). Todo esse respeito fez com que Huston tivesse sempre Flynn em alta estima. No fim dos anos 50, o diretor foi escalado para dirigir um filme na África em que um dos atores contratados era Errol Flynn. “Ele apareceu logo depois da nossa chegada e nós dois nos apertamos as mãos. Era o nosso primeiro encontro desde aquela noite sanguinolenta séculos atrás“. O filme: RAÍZES DO CÉU.

Quando fez RAÍZES DO CÉU, Errol Flynn estava muito longe de ter aquela imagem que o imortalizou nos filmes de aventura dos anos 30, vivendo heróis como Robin Hood e Capitão Blood. E não apenas por estar mais velho, mas pela seu notório problema com o alcoolismo. Em 1958, Flynn abandonou uma peça de teatro antes da estreia por alegar que era um veículo pobre e banal, mas também porque a essa altura ele era incapaz de memorizar suas falas e sua atuação era deplorável. Ganhou uma chance de Zanuck quando lhe ofereceu uma participação em RAÍZES DO CÉU justamente para fazer o papel de um bêbado…

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Já era a terceira vez em seguida que Flynn interpretava um bêbado, desta vez encarnando o Major Forsythe, um desertor britânico que se junta a um grupo de aventureiros – alguns deles bem oportunistas – para seguir o idealista Morel (Trevor Howard) nos seus esforços de preservar os elefantes africanos e impedir que sua caça aconteça.

Tanto o homem do dinheiro, Zanuck, quanto o diretor John Huston ficaram interessados no romance do francês Romain Gary e decidiram tocar o projeto juntos. No entanto, a expedição da equipe de filmagens em território africano resultou numa saga desastrosa com elenco e equipe tentando mais sobreviver à experiência do que no resultado do filme. Temperaturas altíssimas e doenças tropicais tomaram uma boa parcela de tempo da produção… O ator Eddie Albert, por exemplo, teve um colapso e delirou por vários dias. E Flynn se fortificou, obviamente, com suas doses de vodka e outros drinks, administrando sua aventura diante de qualquer contratempo que lhe pudesse ocorrer. Tanto que, em sua autobiografia, Flynn comenta que foi o filme que mais gostou de fazer acima de qualquer outro… Continuar lendo

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FÚRIA SELVAGEM (Man in the Wilderness, 1971)

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Ainda na toada de O REGRESSO resolvi rever MAN IN THE WILDERNESS, de Richard C. Sarafian pra ver o que dava. Que filme sensacional! É muito melhor do que eu lembrava e bem diferente do filme do Iñarritu… Mas numa estúpida comparação das versões, este aqui ganharia de lavada. O filme me fez pensar um bocado na carreira de Sarafian, diretor de talento gigante mas extremamente subestimado e pouco lembrado. E quando o fazem é por VANISHING POINT, lançado no mesmo ano deste aqui. É um baita filmaço que ganhou seu status de filme cult com merecimento, mas não consigo ver lógica para que MAN IN THE WILDERNESS não tenha virado um clássico entre os westerns de aventura setentistas, ao lado de O PEQUENO GRANDE HOMEM, O HOMEM CHAMADO CAVALO, O GRANDE BUFALO BRANCO, e outros…

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E Sarafian estava em estado de graça quando filmou a história de Zach Bass, vivido por Richard Harris, num de seus melhores desempenhos, um desbravador do velho oeste que, após ser atacado por um urso selvagem, é deixado para morrer no meio do nada. Recupera-se dos ferimentos e parte para se vingar dos antigos companheiros, entre eles o diretor John Huston. Como disse no texto de O REGRESSO, o plot do filme de Iñarritu é exatamente a mesma coisa, mas os desdobramentos a partir desses eventos é que distanciam uma obra da outra. A começar pelo lado alegórico que contempla a obra de Sarafian, e que é justamente a parte piegas do filme de Iñarritu. Na verdade, não tinha intenção de ficar fazendo comparações, mas é difícil num momento em que O REGRESSO está tão em voga e tão fresco na cabeça… Vocês sabem, gosto dessa nova versão como um grande filme de aventura, mas está longe de ser a jornada mística e espiritual que Iñarritu gostaria que fosse em comparação com o que Sarafian realiza em MAN IN THE WILDERNESS. O processo de ressurreição e transformação, tanto na recuperação física, quanto psicológica, de Harris é arrebatador na sua perfeita comunhão com a natureza, na sua busca pela sobrevivência, encarando fome, frio, animais e o caralho e transcendendo seu desejo de vingança à outro nível espiritual… Continuar lendo

ROY BEAN – O HOMEM DA LEI (The Life and Time of Judge Roy Bean, 1972)

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Paul Newman, um dos meus atores favoritos, morreu. Em sua homenagem, fui procurar no meu acervo alguns filmes dele que eu ainda não tivesse visto e acabei encontrando ROY BEAN – O HOMEM DA LEI, dirigido pelo mestre John Huston. Como era o único que eu não tinha visto, não precisei nem ter o trabalho de escolher. Mas foi muito recompensador, tanto por conta do próprio Paul Newman, numa belíssima interpretação, digna da galeria de personagens que viveu ao longo de sua carreira, quanto pelo prazer da descoberta de mais uma grande obra de John Huston já ingressando na sua fase final da carreira, que é repleta de alguns de seus melhores filmes, como FAT CITY e O HOMEM QUE QUERIA SER REI.

O roteiro de ROY BEAN – O HOMEM DA LEI foi escrito pelo grande John Milius (genial diretor de CONAN – BÁRBARO) e trata da vida do juiz que dá nome ao título, Roy Bean, vivido por Newman, cujos princípios básicos de sua profissão e filosofia de vida se resumem em sentenciar todo criminoso à forca, sem importar-se com a gravidade do crime. A história se passa na pequena cidade de Vinegaroon, onde acompanhamos o seu crescimento ao longo do tempo sob a influência do excêntrico e casca-grossa Juiz e que serve de metáfora para analisar um período de transformação na formação da civilização americana.

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Elogiar o trabalho de Paul Newman seria o mínimo a se fazer. Seu personagem ganha uma forma física, mental e mística que poucos atores poderiam conceber com tanto carisma, humor e profundidade dramática (Talvez um Mitchum ou Lee Marvin também aguentassem o tranco com tanta formosura).

Vale destacar ainda o elenco composto por figuras ilustríssimas como Anthony Perkins, no papel de um reverendo que surge no início do filme narrando sua passagem direto para a câmera, olhando para o público, algo que acontece várias vezes durante o filme com outros personagens. O próprio diretor John Huston surge em cena como um sujeito excêntrico que deixa um urso de presente ao Juiz. Ainda temos Jacqueline Bisset, Roddy McDowall, Ned Beatty, Richard Farnsworth, Stacy Keach como o fora-da-lei Bad Bob, o Albino, e a bela Ava Gardner, uma das mulheres mais lindas da história, fazendo uma participação como Lillie Langtry, a musa do protagonista.

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ROY BEAN – O HOMEM DA LEI não é um western convencional. Desde o início percebe-se um tom despretensioso na narrativa que logo alcança um ar estilizado já no primeiro tiroteio. Não é também um filme de muita ação, mas quando acontece, Huston parece não se importar muito com verossimilhanças, mas sim em dar a sensação de uma lembrança antiga, como uma história que foi contada de geração em geração até se tornar uma lenda que ultrapassa os limites da realidade. A cena em que o Albino toca o terror na cidade, por exemplo, é uma das minhas favoritas nesse sentido, com o tiro que lhe acerta, disparado pelo Juiz, deixa um buraco de desenhos animados, estilo Looney Tunes. É sensacional!

John Huston foi um dos grandes mestres do cinema americano e cada filme, especialmente nessa fase final da carreira, é uma descoberta deliciosa e que demonstra um diretor lúcido e totalmente maduro. E essa primeira (de duas, a segunda seria com o EMISSÁRIO de MACKINTOCH) parceria com Paul Newman é um dos grandes momentos de sua belíssima filmografia.