ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.13: FOUR OF US ARE DYING (1960)

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Soube há poucos dias que TWILIGHT ZONE está de volta em 2019, uma nova versão da série, agora capitaneada pelo diretor Jordan Peele (CORRA e NÓS), dando uma de Rod Serling, fazendo o mesmo que o criador do seriado original, o qual além de roteirizar grande parte dos episódios, fazia as famosas narrações que tornaram o programa tão peculiar. Não vi ainda nenhum episódio dessa série nova, mas pela lista de diretores, nomes da nova geração que, se não são grandes mestres, possuem alguns bons trabalhos da safra atual do horror, acho que vale a pena uma conferida. Qualquer hora dou uma chance. Por enquanto, vou continuar peregrinando aqui nos episódios clássicos, ainda na primeira temporada.

Entramos agora na década de 60, estamos no décimo terceiro capítulo. THE FOUR OF US ARE DYING foi escrito pelo próprio Serling e dirigido por John Brahm. A trama é sobre um sujeito, Arch Hammer (Harry Townes) que possui a habilidade especial de poder mudar seu rosto, literalmente metamorfosear sua face para se parecer com outras pessoas. Geralmente, pessoas que já morreram… Durante o episódio, Arch usa sua habilidade para tentar melhorar sua vida (amorosa, financeira…) independentemente de seu efeito sobre os outros à sua volta.

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Primeiro, personifica o falecido trompetista Johnny Foster para conseguir com que sua namorada, Maggie (Beverly Garland), uma cantora, concorde em fugir com ele. Mais tarde, ele se faz passar por Virgil Sterig, um gângster recentemente assassinado, para tirar dinheiro do Sr. Penell, o bandido que matou Sterig. Seu plano dá errado e foge sendo perseguido por dois brutamontes. Para escapar, Hammer assume o rosto de um jovem boxeador, Andy Marshak, que ele vê num cartaz estampado num beco escuro. No entanto, ele encontra o pai do verdadeiro Marshak, que pensa estar diante de seu filho, o qual partiu o coração de sua mãe e acabou com a vida de uma doce moça. Hammer empurra o homem para o lado e volta ao seu quarto de hotel. Mais tarde, no entanto, quando ele retoma o rosto de Marshak, a fim de fugir de um detetive de polícia, ele encontra novamente o pai de Marshak, só que desta vez o homem tem uma arma em punho…

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No início de 1959, George Clayton Johnson, um jovem escritor, que viria ainda a contribuir com a série, e amigo de Charles Beaumont (que já havia roteirizado o nono episódio desta primeira temporada, PERCHANCE TO DREAM), escreveu um conto intitulado “All of Us Are Dying“, que era sobre um jovem que se aproveita do fato das pessoas o enxergarem como ” o indivíduo que mais querem ver no mundo” (sua queda ocorre quando ele entra em um posto de gasolina e o atendente o vê como um homem que há dez anos ele queria matar). Johnson apresentou a história a um certo agente, que encaminhou para Rod Serling.

Serling gostou logo de cara da ideia de um homem que pudesse ser visto com outros rostos. Ele comprou a história, e começou o trabalho de adaptação para a série e intitulou THE FOUR OF US ARE DYING. Como era o habitual de Serling, apenas um conceito, uma premissa, era utilizado, e escreveu um história bem diferente do original.

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Inicialmente, a produção considerou trabalhar apenas com um ator e, através de processos de maquiagem, mudar sua aparência para se adequar a cada personagem. Essa ideia acabou sendo descartada por causa da intensa composição que o ator teria que sofrer e da grande quantidade de tempo que iria se gastar. O que não era o normal no processo de produção e filmagens desses episódios, curtos e de baixo orçamento. Depois de um longo processo de casting, foram escalados os quatro atores que aparecem como “protagonistas” em THE FOUR OF US ARE DYING, todos com o intuito de fazer acreditar que por trás daqueles quatro rostos existia um único personagem, um único homem. O que deixa evidente a ideia de uma certa busca por uma identidade, ou a fuga de ser “quem você é” como forma de sobrevivência, o principal tema a ser investigado pelo episódio.

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É o que dá sentido a THE FOUR OF US ARE DYING. E o roteiro de Serling é impiedoso ao tratar do assunto contando a história de um homem tão especial, mas que no fundo é triste e que tem um fim implacável. A direção de John Brahm – que já havia realizado dois episódios, JUDGMENT NIGHT e TIME ENOUGH AT LAST, que é um dos meus episódios favoritos – é bastante engenhosa, imaginativa, e aproveita bem os econômicos, mas muito criativos, espaços e cenários estilizados que representam a grande cidade, cheias de placas, neons e atrações noturnas de várias espécias. O elenco está bem afiado, especialmente os quatro atores “protagonistas” e vale destacar a participação de Beverly Garland, que curiosamente também participa do filme que comentei no último post, O EMISSÁRIO DE OUTRO MUNDO. Chama a atenção também a notável trilha sonora do grande Jerry Goldsmith, em relativo início de carreira.

THE FOUR OF US ARE DYING é desses episódios essenciais de TWILIGHT ZONE.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.10: JUDGMENT NIGHT (1959)

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Em JUDGMENT NIGHT, um sujeito chamado Carl Lanser (Nehemiah Persoff) se vê de repente num navio percorrendo o oceano Atlântico. Estamos em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, e o sujeito não sabe direito quem é, quem são as pessoas ele encontra – embora tenha a sensação de tê-los conhecido antes – e nem como chegou ali. No decorrer da trama, as coisas vão ficando cada vez mais misteriosas, até porque Lanser, de alguma maneira, tem a certeza de que um submarino nazista está perseguindo o navio e, pela sua premonição, algo vai acontecer à 1h15 da madrugada.

Seus temores acabam se confirmando e exatamente no horário esperado surge um submarino alemão numa ofensiva contra a sua embarcação. Olhando através de binóculos, Lanser tem uma visão aterradora ao perceber a identidade do capitão do submarino… Seu navio afunda, a tripulação é metralhada ainda tentando sobreviver na água, e a consequência de todas essas ações trágicas e sádicas resulta num dos mais perturbadores infernos que a série poderia nos proporcionar.

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O roteiro de Rod Serling para JUDGMENT NIGHT provavelmente foi inspirado no mito do Holandês Voador, a famigerada lenda do navio fantasma cuja tripulação é condenada a vagar pelos mares por toda a eternidade. A diferença aqui é que o tal inferno consiste na sentença de Lanser em reviver o naufrágio daquele navio infinitamente. Noite após noite, o sujeito de repente se vê na mesma situação, sem saber como chegou ali, mas tendo certeza de que à 1h15, vai dar merda…

A direção do episódio ficou por conta de John Brahm, que já havia realizado um dos meus episódios favoritos até aqui, TIME ENOUGH AT LAST, e ainda viria a contribuir pelo menos uma dezena de vezes. Seu trabalho não é tão ousado como a de Robert Stevens (WHERE IS EVERYBODY?, WALKING DISTANCE), com seus enquadramentos entortados, Brahm geralmente era mais sutil e apostava mais no visual sombrio e atmosfera carregada. De fato, JUDGMENT NIGHT parece um pesadelo e por um bom tempo a impressão é que o protagonista vai acordar a qualquer momento.

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Um nevoeiro sempre presente nas externas e o uso de imagens desfocadas contribuem bastante para impressão confusa de Lanser da situação. Brahm usou imagens semelhantes em 1944 para retratar as ruas cobertas de neblina da Londres vitoriana na sua refilmagem de THE LODGER, de Alfred Hitchcock. A sequência do ataque no final também é muito bem conduzida, com explosões e efeitos especiais cuidadosamente utilizados e sem receio algum de chocar o público da época mostrando inocentes passageiros, incluindo mulheres e crianças, sendo destroçados pelo ataque submarino.

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Embora possa ser um pouco previsível, JUDGMENT NIGHT ainda é um ótimo episódio com um roteiro intrigante de Serling, uma performance maravilhosa de Nehemiah Persoff (que ainda está vivo, aos 98 anos), e um momento inspirado do diretor John Brahm. Sem dúvida um dos pontos altos da primeira temporada.

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.8: TIME ENOUGH AT LAST (1959)

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Hey! Já fazia um tempinho que não postava sobre algum episódio da série ALÉM DA IMAGINAÇÃO por aqui. Ainda estamos na primeira temporada e chegamos a um dos episódios mais divertidos e, ao mesmo tempo, cruéis de todo o seriado. TIME ENOUGH AT LAST é o nome do episódio que traz o grande Burgess Meredith no papel de Henry Bemis, um sujeito que não quer nada na vida além de um lugar calmo e tempo para apreciar as palavras de uma página… Sejam livros, revistas, jornais, se deixar, é capaz de ler até a bula de remédios. O cara só quer ler.

Uma atividade saudável, certo? Não para Bemis, que é tão obcecado pela leitura que prejudica seu convívio social, sua mulher lhe proíbe de ler, escondendo ou hachurando livros, interfere até no seu desempenho no trabalho como caixa de banco, sempre com um romance de Dickens escondido na gaveta para dar umas lidas ao mesmo tempo em que precisa atender as pessoas na fila, deixando seu chefe furioso. A única coisa que o sujeito gosta de fazer é ler, e é a única coisa que não lhe deixam fazer.

Como um dos temas habituais da série (e de vários outros veículos de ficção científica do período) é a paranoia da corrida atômica, Guerra Fria e bombas nucleares, o episódio avança justamente quando uma grande bomba finalmente acaba com toda a vida no planeta. Menos Bemis, que estava na sua pausa para o almoço e resolveu se esconder no cofre do banco para ler um pouquinho… Ao sair do local, descobre uma nova realidade, a de que ele é o único ser vivo vagando pela terra devastada.

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O nosso herói até tenta levar numa boa, mas a solidão que lhe angustia lhe faz pensar em acabar também com a sua própria vida. Tudo muda quando ele encontra uma biblioteca cujos livros milagrosamente sobreviveram intactos à explosão. Milhares e milhares de livros lhe esperando e todo o tempo do mundo para ler… Um verdadeiro paraíso para Bemis. Seria terrível se algo acontecesse para evitar que ele finalmente desfrutasse de uma paz literária, não é? Hehe!

Escrito pelo criador da série, Rod Serling (baseado num conto de Lynn Venable) TIME ENOUGH AT LAST é um episódio mais leve e divertido na maior parte do tempo, mas muito efetivo na sua “mensagem”, alertando para um contexto desesperador. Uma leveza que se contrapõe perto da complexidade de sentimentos que o episódio desperta, mas por isso mesmo tão interessante.

É o tipo de exemplar que vai se perdendo ao longo do seriado, que vai ficando cada vez mais sério e sombrio nas abordagens dos temas a cada episódio. Mas aqui, como estamos ainda no início, era possível ter um contexto sério num episódio bem humorado, embora em determinado momento a situação de Bemis fique mais dramática e o desfecho seja um soco muito bem dado na fuça do espectador. Mas TIME ENOUGH AT LAST é notável devido à astúcia do enredo, o final irônico e cruel é simplesmente inesquecível e a performance de Burgess Meredith, uma das mais marcantes de ALÉM DA IMAGINAÇÃO.

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Outro destaque de TIME ENOUGH AT LAST é o design de produção deslumbrante do cenário pós-apocalíptico, muito efetivo em sua desolação e bem utilizado pelo diretor John Brahm, que faz aqui sua estreia na série. Brahm foi um dos cineastas mais requisitados de ALÉM DA IMAGINAÇÃO, trabalhando em doze episódios ao longo do seriado. Nascido na Alemanha, o sujeito seguiu os passos de vários profissionais do cinema daquele país, que deram no pé quando Hitler assumiu o poder no início da década de trinta. Possui uma filmografia bem interessante, apesar de hoje não ser muito lembrado, e dedicou grande parte da carreira a fazer seriados.

Já o ator principal de TIME ENOUGH AT LAST, Burgess Meredith, apareceu em um total de quatro episódios de ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Mas sem dúvida alguma foi aqui que fez seu desempenho mais conhecido da série, como o infeliz, abatido e ávido leitor Henry Bemis, numa atuação cativante. Os fãs da série de filmes ROCKY vão se lembrar dele como Mickey, o treinador de Rocky Balboa.

Se você não viu este episódio, dê uma conferida. deve ter no youtube. Mesmo que não vá assistir a série inteira, pelo menos TIME ENOUGH AT LAST é diversão garantida, uma pequena joia da ficção científica televisiva que não vai decepcionar.