FALCÕES DA NOITE (Nighthawks, 1981)

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Ontem revi FALCÕES DA NOITE, um trabalho um tanto atípico do Sylvester Stallone que nunca recebeu a devida atenção que merece. Não sei como foi a recepção na época, mas hoje quando se fala de cinema de ação/policial dos anos oitenta, estrelado pelo Stallone, é quase impossível para seres humanos normais não imaginar filmes recheados de sequências de ação mirabolantes, explosivas, e pancadaria ou tiroteios exagerados. Mas eis que se deparam, por acaso, com este aqui, um drama policial com tom mais realista e com clima de ressaca setentista, que está longe dos exageros de um COBRA ou TANGO & CASH, chega até a ser compreensivo a decepção de alguns… Por outro lado, tem que ser muito chato para não perceber a beleza de FALCÕES DA NOITE e reconhecer que se trata de um bom filme do gênero.

Curiosamente, FALCÕES DA NOITE teria se chamado OPERAÇÃO FRANÇA III. E no lugar do Stallone, Gene Hackman reviveria seu icônico policial, Popeye Doyle. É sério isso. O estilo setentista e mais intimista da obra não é uma simples coincidência. Mas, por alguns motivos (o principal foi que Hackman “deu pra trás”), o projeto de uma segunda continuação do clássico de William Friedkin acabou não dando certo e o roteiro foi adaptado para outros personagens. No entanto, ao que tudo indica, o plot básico permaneceu, mesmo com as constantes interferências que o Stallone fazia no roteiro.

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Portanto, teríamos Doyle enfrentando um sádico terrorista alemão pelas ruas de Nova York. Daria tudo pra ver esse filme… Mas ok, temos FALCÕES DA NOITE, que apresenta Wulfgar (Rutger Hauer), um terrorista que acaba perdendo a linha nos seus negócios, que se resume em explodir lugares e pessoas, e precisa sair de cena por uns tempos após um ataque, antes que seus ex-companheiros o traia ou a polícia o prenda. Então decide ir para Nova York, lugar perfeito para se abrigar terroristas foragidos sem ser incomodado, principalmente depois de uma cirurgia plástica facial.

O que Wulfgar ainda não sabe é que um especialista anti-terrorismo, Peter Hartman (Nigel Davenport) antecipou seus movimentos e já está em Nova York planejando uma forma de capturá-lo. Para isso conta com uma ajudinha extra formada por alguns dos melhores homens do departamento de polícia local: Deke DaSilva (Stallone) e Matthew Fox (Billy Dee Williams), os cabras perfeitos para essa missão. Típicos tiras cascas-grossas, sabem lidar com a bandidagem e conhecem cada canto do submundo nova-iorquino. Logo no início, o filme apresenta a tática da dupla de pegar vagabundos: DaSilva se veste de senhora indefesa e anda pelas ruas escuras à noite. Quando os bandidos se aproximam achando que vão faturar mais uma bolsa, é tarde demais pra perceber que a mulher tem barba e tem uma arma apontada pra eles.

Apesar da experiência, ambos passam por um treinamento anti-terrorismo que martela na cabeça dos policiais a necessidade de matar Wulfgar de qualquer maneira, nem que coloque em risco a vida de inocentes, algo que DaSilva é totalmente contra e quase abandona o barco. Mas no fim das contas, decide permanecer no grupo depois de vários momentos de pura reflexão profunda e filosófica.

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Stallone e Williams estavam em ótima fase, e possuem uma química que funciona legal como parceiros policiais. Williams (mais conhecido por ser o Lando de STAR WARS) é o que chamamos de parceiro cool. Sabemos que é coadjuvante, que não vai ter o mesmo destaque que o protagonista, mas é sempre bom vê-lo em ação ou como contraponto do herói. O que chama a atenção é Stallone estar longe do seu habitual estereótipo do policial brucutu que se acha acima da lei , como em COBRA, por exemplo. Embora seja de fibra, o sujeito se apresenta em FALCÕES DA NOITE um pouco mais comedido, introspectivo, demonstrando uma faceta mais frágil, tentando se reaproximar da ex-mulher… Algo bem diferente da imagem action man dos anos oitenta e noventa que ajudou a solidificar. Se bem que analisando friamente os personagens de Stallone, a grande maioria é bem mais complexa do que aparenta. E filmes como RAMBO (o primeiro), OVER THE TOP, LOCK UP e até mesmo o próprio COBRA, podem revelar como protagonista uma figura com sensibilidade… Mas FALCÕES DA NOITE é um dos exemplos mais claros de que Stallone não é só músculos como muitos imaginam por puro preconceito. E o Oscar deste ano vai reconhecer isso. Estamos na torcida! Há ainda uma pequena participação do grande Joe Spinnel, como chefe de policia, que é sempre um deleite.

Mas o melhor do filme é definitivamente Rutger Hauer  (em seu primeiro filme americano), muito convincente, com um olhar expressivo, louco, fazendo o terrorista sangue frio que mata sem piedade. E o fato é que Stallone percebeu que Hauer estava chamando mais a atenção e resolveu mexer alguns pauzinhos. Como já mencionamos, constantemente Sly era visto conversando com o roteirista David Shaber para alterar algumas cenas, diálogos, a fim de tirar o destaque de Hauer e tentar colocar os holofotes pra si. Não deu muito certo… Digo, Stallone manda bem sempre, é um dos meus atores favoritos. Mas competir com Rutger Hauer é praticamente impossível… Desculpa aí, Sly…

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Há até uma história curiosa envolvendo os dois atores e vai rolar uns spoilers… Se não quiserem saber nenhum detalhe importante do filme, sugiro pular o parágrafo. A primeira cena que gravaram em FALCÕES DA NOITE foi justamente o desfecho, na qual Hauer leva uns tiros do Stallone, que engana o vilão vestido de mulher. Haviam uns cabos amarrados no holandês para que fosse puxado pra trás a cada bala alvejada no personagem. E Sly, não sei porque diabos, pediu aos técnicos que puxassem o sujeito com uma força acima do esperado, o que causou sério, digamos, desconforto em Hauer. Quando descobriu que Stallone que havia pedido que o puxassem com tanta força, o holandês emputeceu, enfiou o dedo na cara de Sly e o restante das filmagens pairou um climão no ar… Mas Hauer estava decidido a não desperdiçar a sua primeira chance em solo americano e mandou bem na performance. Tanto que foi durante as filmagens de FALCÕES DA NOITE que a mãe do ator faleceu, o que não o impediu de continuar fazendo o filme.

Já Sly estava com moral na época. A direção do filme, por exemplo, é creditada a Bruce Malmuth, que mais tarde viria a fazer DIFÍCIL DE MATAR, um dos melhores filmes de Steven Seagal. Mas as filmagens iniciaram sobre a batuta do veterano Gary Nelson. Quando este último pulou fora, por mais confusões com Stallone, pra variar, Malmuth assumiu justamente quando deveriam filmar a sequência de perseguição no metrô de NY. Mas na pressa de substituir o diretor e para não perder um dia de filmagem, quem assumiu a direção foi o próprio Sly, o que gerou até uns problemas no sindicato de diretores. Mas é um dos grandes momentos do filme, uma perseguição tensa e realmente bem filmada, que mostra o talento de Sly atrás das câmeras, algo que já havia demonstrado em PARADISE ALLEY, sua estreia na direção. O filme até oferece alguns ótimos momentos de ação mais agitados e explosivos, mas não é esse o foco de FALCÕES DA NOITE, filme policial de atmosferas, dramas e personagens…

Apesar de tudo, FALCÕES DA NOITE sofreu com vários problemas de finalização. Um primeiro corte teria aproximadamente duas horas e meia e de tanto mexe e remexe, o filme acabou levando a pior em alguns momentos em que se percebe que falta algo, ou que o ritmo não tá legal. Há um certo choque entre o “tema policial urbano” e a “trama de terrorismo internacional” que é meio estranho. Deixa o filme torto, mas não tira o brilho e a diversão do resultado final. que permanece um filmaço, sem dúvida alguma.

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STARCRASH (1978)

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É comum considerar STARCRASH, de Luigi Cozzi, um mero rip-off italiano de STAR WARS. A verdade é que não deixa de ser mesmo. O filme abre com uma longa e lenta tomada de uma nave sobrevoando o espaço bem ao estilo de George Lucas e durante a aventura vários outros detalhes o apontam como uma “cópia descarada”, com direito ao maniqueísmo básico, um andróide como alívio cômico, batalhas de naves espaciais e até sabres de luz. Mas se observarmos com mais cuidado a concepção da obra, as influências do cinema de Cozzi, é possível encontrar um filme desvencilhado, de universo próprio, diferente de outras produções que almejavam tirar uma casquinha do sucesso do filme de Lucas.

A prova disso é que a ideia que originou STARCRASH foi concebida antes da existência de um STAR WARS. Era o projeto dos sonhos de Cozzi e que, numa primeira tentativa de levar adiante, ninguém se interessou em bancar. A sorte é que pouco tempo depois, o filme de Lucas estreou e, como todos sabemos, foi um grande sucesso. Os mesmos produtores que haviam rejeitado o projeto de Cozzi anteriormente, agora percebiam que poderiam tirar proveito daquele filão que surgia.

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Com algumas mudanças e adaptações, STARCRASH foi ganhando uma roupagem estilo STAR WARS, mas no fim das contas, Cozzi, que foi creditado sob o pseudônimo de Lewis Coates, conseguiu, na medida do possível, deixar intacta a essência do seu cinema, cuja paixão pelo sci-fi americano dos anos 50 e por Ray Harryhausen predominam no cerne do filme. Além, é claro, da influência evidente de produções do passado, como JASÃO E OS ARGONAUTAS e BARBARELLA, para citar alguns.

É notória essa devoção de Cozzi pela ficção científica e o seu debut como diretor foi um exemplar de baixíssimo orçamento, chamado IL TUNNEL SOTTO IL MONDO. Nada  que se compare com a produção de STARCRASH que, se não chega aos pés do orçamento de STAR WARS, ao menos era suficiente para um “equivalente” italiano. Mas é possível perceber a utilização de alguns elementos do gênero durante toda a carreira do homem, independente do tipo de filme que estivesse envolvido. Seja num giallo, convencendo Dario Argento a usar uma ideia fantasiosa inspirada numa revista científica em 4 MOSCAS NO VELUDO CINZA, ou, já nos anos 80, as criaturas mecânicas bizarras que aparecem em HERCULES, com Lou Ferrigno.

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STARCRASH, portanto, é o parque de diversões de Cozzi, onde ele pôde mergulhar de cabeça no universo que tanto admirava tendo recurso pra isso, trabalhando suas obsessões como contador de histórias e criador de mundos. Em termos de script é o seu “caos organizado” habitual, já que o diretor nunca foi um grande entusiasta do chamado roteiro “bem estruturado”. O filme parece ser todo pensado de maneira visual, em cenas específicas, sequências épicas, efeitos especiais, ideias interessante, mas que juntando tudo acaba virando uma porra-louca sem muita lógica narrativa. Até entendo porquê os produtores, num primeiro instante, rejeitaram o Projeto.

A trama é centrada nas aventuras de um casal contrabandista espacial, Stella Star (a musa Caroline Munro) e seu parceiro no crime Akton (Marjoe Gortner). Ambos são recrutados pelo imperador do universo, vivido por Christopher Plummer, para ajudá-lo a combater o terrível Conde Zarth Arn, encarnado pelo genial Joe Spinnel. Acompanhados de Thor (Robert Tessier pintado de verde) e Elle, um andróide badass, sensível e todo engraçadão, essa turma realiza jornadas pelos confins do espaço para tentar localizar o planeta onde o facínora construiu uma arma poderosíssima. E se, por um acaso, toparem com o filho do imperador durante a missão, devem trazê-lo de volta também. Como ninguém sabe onde está a tal arma, o grupo vai parando de planeta em planeta, dos mais variados tipos, cores e criaturas diferentes para averiguar. E assim STARCRASH apresenta um catálogo dos mundos criados por Cozzi.

Em determinado momento, Akton revela-se bem mais que um simples sidekick, demonstrando poderes sobrenaturais, se tornando um personagem chave. É ele quem surge com o sabre de luz para salvar o dia. Finalmente eles encontram o planeta correto, que por acaso é o mesmo onde descobrem o príncipe, interpretado pelo astro de S.O.S. MALIBU, David Hasselhoff, enfrentam robôs em stop motion, conhecem a verdade sobre a tal arma e, por fim, retornam a tempo para participar da gloriosa batalha final contra o exército de Zarth Arn.

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O visual do filme, extravagante e bem elaborado, é um dos grandes trunfos de STARCRASH e demonstra como a criatividade dos realizadores neste departamento é ilimitada. O que é bom, porque em termos de ação, as lutas, tiroteios com raios lasers, as batalhas espaciais, tudo é filmado de maneira bastante simplória. O que realmente diverte são as ideias e os contextos em que essas cenas ocorrem. A sequência que se passa num planeta dominado por guerreiras amazonas é um bom exemplo, com a mulherada bonita e que culmina com uma estátua gigantesca em stop-motion perseguindo os heróis. Canhestro e fascinante ao mesmo tempo. E como o ritmo é frenético, mantém sempre uma ação contínua na tela, segurando a atenção do público.

Outro grande destaque que não poderia deixar de mencionar é a presença de Caroline Munro como protagonista. Simplesmente não dá pra desgrudar os olhos da beldade… Deslumbrante em cada enquadramento e abusando de modelitos mínimos e apertados, Caroline foi a primeira escolha de Cozzi para viver a personagem de Stella Star, que pode ser definida como uma versão mais “experimentada” de Barbarella (Jane Fonda), mas tão incompetente quanto. No entanto, a beleza e a vontade de se aventurar no desconhecido acaba fazendo com que nos derretamos por ela.

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Curioso que Caroline voltaria a trabalhar com o ator Joe Spinnel após contracenarem por aqui, no excelente MANIAC (80), de William Lustig, e THE LAST HORROR FILM (82), de David Winters. Spinnel é um ator magnífico e subestimado que merecia ser mais lembrado. Parece se divertir bastante fazendo o grande imperador do mal. O restante do elenco, já citado, também contribui, com atenção especial para o ainda jovem, mas já canastrão, mister SOS Malibu, e o desempenho de Plummer, o único que parece estar levando a produção a sério. Hehehe!

Mas até o Cozzi, mesmo tendo consciência que estava criando um produto matinée, uma aventura sci-fi inofensiva e divertida, sem grandes pretensões inventivas, também não deixa de levar STARCRASH a sério. Afinal, é o filme definidor de sua arte, de seu cinema, é o trabalho pelo qual será sempre lembrando pelos admiradores e que o coloca como uma das mentes mais criativas do cinema popular italiano.

Mais imagens de STARCRASH aqui. E um pouco mais de Caroline Munro aqui.