ÁTILA – O REI DOS HUNOS (1954); CLASSICLINE

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De vez em quando o diretor Douglas Sirk dava um tempo dos seus habituais melodramas hollywoodianos, carregados dos conflitos emocionais que davam dignidade às lágrimas do público, e resolvia fazer outra coisa completamente diferente, explorar outros gêneros, respirar novos ares. Daí surgia obras como ÁTILA, O REI DOS HUNO, um maravilhoso épico de aventura histórica, do estilo “sandália e espada”, que para os fãs dos famosos melodramas do diretor pode até soar, à primeira vista, um bocado estranho… No entanto, lá pelas tantas, deve ter batido em Sirk uma saudade de trabalhar certos temas e, sem abandonar a proposta de aventura épica, toda a angústia humana da marca registrada do diretor acaba surgindo por aqui.

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Com isso, o recorte histórico do personagem título ganha um outro sentido, que ultrapassa as batalhas e conquistas de territórios e transcende a outras coisas, a uma dissecação da jornada dessa figura histórica chamada Átila. Uma jornada que já não é mais física, mas espiritual. Não são mais as lutas de espadas, os conflitos entre os povos da época ou a fidelidade histórica, mas sim uma religiosidade que é inerente a este mundo povoado por figuras apegadas na fé que interessa a Sirk.

O título original de ÁTILA – O REI DOS HUNOS parece concordar mais com as intenções do diretor. O seu belo título é THE SIGN OF THE PAGAN. Trata-se, portanto, menos de uma biografia, que é o que o título nacional parece indicar, sobre o mais famoso dos líderes bárbaros, e mais um filme sobre o homem em conflito com sua fé, num choque de civilizações entre o Império Romano e os bárbaros, e mais particularmente entre o cristianismo representado por Roma e o culto pagão celebrado pelos hunos. É menos o “cinema do corpo” dos filmes de “sandália e espadas” e os pepla italianos, e mais uma odisseia espiritual do indivíduo diante da sorte…

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O cerne do filme acaba sendo Jack Palance, num desempenho tão magistral, tão poderoso, talvez o maior de sua carreira. Num primeiro momento, Palance entrega um Átila orgulhoso, confiante e ávido guerreiro com um ódio mortal do Império Romano, com uma filosofia da barbárie que se contrapõem com seu brilho tático e habilidades militares. E uma presença física em cena fenomenal, como na cena de sua chegada à festa dada pelo imperador Teodósio aos bárbaros, em Constantinopla, onde Átila impõe autoridade pra cima dos romanos e tem a chance de humilhar o melhor guerreiro local. Mas não demora muito o filme começa e revelar-lhe as fraquezas, as dúvidas, o conflito com a fé… E Palance vai crescendo, cada vez mais sublime.

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Seu oposto é Jeff Chandler, que interpreta Marciano, o centurião romano que, por fim, carrega o fardo de salvar todo o Império. Os dois se encontram pela primeira vez quando o personagem de Chandler é capturado a caminho de Constantinopla levando uma mensagem para o imperador. O sujeito consegue fugir e se apressa para a famosa cidade, onde encontra um aliado de importância, a adorável Princesa Pulcheria. Só que as advertências de Marciano sobre a ameaça bárbara são ignoradas. Enquanto isso, Átila decide realizar a ousada ação de atacar Roma, apesar das sombrias previsões de seu vidente.

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Previsões, fé, conflitos do espírito são coisas que Douglas Sirk se apega. E algumas das melhores sequências do filme partem da dialética cristianismo vs paganismo. Destaco duas: a primeira é um clichezão, mas que nunca perde a sua força: logo depois de um discurso de cólera de Átila contra Roma e promovendo um grande ataque contra seus muros, um raio atinge e parte ao meio a árvore mais próxima do grupo, trazendo à tona a possibilidade de uma resposta do divino às afrontas do bárbaro. A segunda é o ponto alto do filme, quando já nos arredores de Roma, o próprio papa se aproxima num pequeno barco pelo rio, envolto em uma névoa celestial, para tentar influenciar os bárbaros a desistirem do ataque… É bem provável que esta seja uma das sequências mais belas que Sirk filmou em sua carreira.

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A partir daí, os presságios do vidente acabam se mostrando verdadeiros, Átila se vê encarando um longo processo de definhamento espiritual e se perde no abismo, enquanto Marciano convoca os romanos para um ataque surpresa. O confronto final do exército romano contra os Hunos de Átila, apesar de curto e sintético, também serve para provar que Sirk definitivamente tinha talento para dirigir ação com o mesmo vigor de seus dramas suburbanos pelos quais ele é mais conhecido. Mas é mesmo no prazer de narrar essa grande jornada espiritual de Átila que reside um filme magnífico. E claro, em Jack Palance, que é o centro das atenções. Um verdadeiro monumento.

Assisti a ÁTILA, O REI DOS HUNOS em DVD, lançamento fresquinho de Janeiro da Classicline. O disco é apresentado em uma edição com uma cópia excelente, num belíssimo widescreen, áudio original e dublagem em português para aumentar o clima nostálgico. Acompanha trailer de cinema e uma galeria de imagens como extra. O DVD pode ser adquirido nas melhores lojas ou na loja virtual da própria distribuidora.

 

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ALONE IN THE DARK (1982)

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Um divertido filme de terror do glorioso inicio dos anos 80, dirigido por Jack Sholder, e que nos presenteia pela reunião de três grandes figuras do cinema de gênero: Donald Pleasence, Martin Landau e a “cereja do bolo”, Jack Palance. Este é o pequeno clássico ALONE IN THE DARK, chamado no Brasil de NOITE DE PÂNICO.

Pleasence interpreta o Dr. Leo Bain, diretor de um hospício onde se encontram, além de pacientes comuns, figuras extremamente perigosas sob tratamento psiquiátrico. Dois deles são vividos Landau e Palance. O primeiro é um ex-padre que colocou fogo em sua própria igreja e o outro é um ex-prisioneiro de guerra e que acabou se tornando o líder de grupo psicopata do tal manicômio. O que inclui ainda mais dois malucos para completar o time: um sujeito extremamente obeso e um perigoso assassino conhecido como Bleeder, já que seu nariz sangra toda vez que comete um assassinato.

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A trama de ALONE IN THE DARK tem seu inicio quando o psiquiatra Daniel Potter (Dwight Schultz) é contratado pelo Dr. Bain (que é tão louco quanto seus internos) para substituir o Dr. Harry Merton, antigo responsável pelos pacientes mais perigosos acima citados e que foi transferido para outra clínica. Mas vocês sabem como são os loucos, não é mesmo? Quando colocam alguma ideia na cabeça é difícil tirar. Sendo assim, o personagem de Palance comenta que o Dr. Potter, na verdade, assassinou o Dr. Merton para tomar o seu lugar, então o grupo de perigosos desequilibrados decidem bolar um plano para matar seu novo psiquiatra.

No “campus” do hospício, os pacientes podem vagar tranquilamente, inclusive os quatro psicopatas desvairados, embora sejam muito bem vigiados. À noite, a única circunstância que os mantém presos é o sistema eletrônico de segurança que depende de energia. Para nossa sorte, acontece um inusitado apagão que coloca a pequena cidade do filme num verdadeiro caos (com direito à invasão de lojas e crimes em massa) e os quatro loucos varridos aproveitam para escapar e ir atrás do Dr. e toda sua família.

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A trama é bem simples, como podem perceber, mas são vários os pontos que se destacam para uma boa degustação. Uma delas consiste na direção de Jack Sholder, que está longe de ser perfeita, mas passa a impressão de que seja o trabalho de um veterano que dirigiu vários exploitations de terror nos anos setenta, com muita bagagem nas costas, etc. Só que ALONE IN THE DARK é o primeiro filme do cara (que faria mais tarde alguns filmes legais do gênero, como A HORA DO PESADELO – PARTE 2 e THE HIDDEN), apresentando ótimo domínio de cena e na criação de atmosfera de terror. Além de saber como aproveitar a presença quase mística de alguns do atores envolvidos sem mostrá-los demais.

Jack Palance, por exemplo, aparece em pouquíssimas cenas, mas só de saber que é o sujeito que está cercando a casa do Dr. Potter com toda sua família dentro, no meio da noite, já é suficiente para impressionar, mesmo que a câmera do diretor mostre, quase sempre, dentro da casa onde estão as prováveis vítimas dos lunáticos. É o caso de uma forte presença do ator que vai além do “estar” em cena ou não. A mesma coisa acontece com o Martin Landau (que aparece um pouquinho mais).

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Palance inclusive se recusou a filmar uma sequencia em que seria visto matando um motorista antes de roubar-lhe o carro. Ele disse que não era necessário expor tanto o personagem desta maneira para mostrar ao publico o quanto ele era perigoso. E estava totalmente certo. Seu personagem é de longe o mais sombrio, assustador e ameaçador e sem precisar de muito esforço. Sem dúvida alguma, é o que o filme te de melhor. Ainda conta com efeitos especiais do mestre Tom Savini e várias situações antológicas, como o sonho surrealista do personagem de Martin Landau ou o final com o Palance entrando no Pub punk.

Outra coisa legal é o fato do personagem Bleeder nunca mostrar seu rosto. Em determinado momento, ele utiliza uma mascara de hockey que lembra a mesma que outro famoso assassino oitentista viria a usar algum tempo depois, mas que surgiu na mesma época deste aqui… seria alguma coincidência?

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Não importa, o que vale mesmo é a diversão, e é o que ALONE IN THE DARK concede com garantia. Dificilmente vou ver um filme sobre louco(s) psicopata(s) sem antes pensar nesta belezinha.