ESPECIAL DON SIEGEL #29: FUGA DE ALCATRAZ (Escape from Alcatraz, 1978)

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Antes que eu me esqueça (ou que algum dos meus cinco leitores comece a me cobrar), tenho o Especial Don Siegel para dar continuidade. E empaquei logo agora que estamos no finalzinho, justamente num dos maiores clássicos do homem, a sua última obra-prima! Mas vamos lá, FUGA DE ALCATRAZ. Quando o projeto foi parar nas mãos do Siegel o sujeito deve ter lido o roteiro de Richard Tuggle, baseado no livro de J. Campbell Bruce, sentido o momento e pensado: “Preciso fazer um filme foda pra caralho!“.

Pois bem, estamos praticamente no fim de um ciclo… Não, não é o último trabalho do Siegel, mas ele viria a fazer só mais um filme por inteiro (LADRÃO POR EXCELÊNCIA, com Burt Reynolds) e já no seguinte (JINXED) seria interrompido por problemas de saúde que o impediria de filmar até a sua morte no início dos anos 90. O filme acabou finalizado pelo Sam Peckinpah. Além disso, ALCATRAZ marca também o desfecho da parceria de cinco filmes com seu ator fetiche, Clint Eastwood. Portanto, com o material que tinha em mãos, Siegel deve ter buscado um último suspiro, aquela forcinha e inspiração a mais para deixar, de uma vez por todas, a sua marca na história do cinema… O resultado é simplesmente magistral, não só um dos melhores filmes de fuga de prisão, mas uma das grandes obras de uma filmografia cheia de preciosidades.

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FUGA DE ALCATRAZ é baseado numa autêntica escapada d’A Rocha, a cadeia de segurança máxima localizada na Baia de São Francisco, também conhecida como Alcatraz, e que sempre se gabou de ser totalmente à prova de fuga. Na verdade, vamos aos números. Desde sua fundação, o presídio registrou quatorze tentativas de fugas, computando 39 presidiários que tentaram a proeza. 26 acabaram capturados e encarcerados de volta, sete tiveram a carcaça perfurada à bala e três morreram afogados. Ficam faltando três que desapareceram completamente. Como nunca mais ouviram falar de nenhum deles, as autoridades acreditam que tenham se afogado, embora seus corpos nunca tenham sido encontrados. Uma maneira das autoridades, hipócritas como sempre, manterem a aparência. De qualquer maneira ou de outra, um ano depois dos acontecimentos, a prisão fechou suas portas, transformando-se numa atração turística.

FUGA DE ALCATRAZ é justamente sobre a escapulida desse trio. Um deles é Frank Morris, interpretado pelo Eastwood, então já sabemos de antemão quem é o badass fodão da parada. Além disso, o sujeito já chega na penitenciária trazendo na bagagem a reputação de especialista em fugas de prisões. E não demora muito, Morris começa a colocar em prática a elaboração de um plano de fuga, junto com outros prisoneiros, entre eles os irmãos Anglin (Fred Ward e Jack Thibeau) e acrescentar mais uma façanha no currículo, até porque a vida na prisão é dura para Frank e o filme já predispõe o espectador a odiar o sistema carcerário do local. Uma galeria de guardas sádicos e desumanos e um diretor de prisão filho da puta mesquinho que solta “Não criamos bons cidadão, mas criamos bons prisioneiros“, ajudam na ideia de simpatizar por criminosos. E é o que acontece de fato… Quando a tentativa de fuga finalmente começa, fica impossível não torcer pelos encarcerados, não importa o crime que cometeram para estarem ali…

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No entanto, em momento algum Siegel parece se preocupar em fazer julgamentos moralistas com os prisioneiros, muito menos interessa a ele debater profundamente sobre o sistema penitenciário, algo que já fizera com grande eloquência no clássico REBELIÃO NO PRESÍDIO. Don Siegel se interessa mesmo é nas relações humanas dentro daquele universo e, obviamente, importa a ele a emoção do suspense, os mínimos detalhes do desenvolvimento de um plano fuga e, especialmente, a ação.

Mas aqui a ação é um caso delicado. A elaboração do plano e execução dos preparativos para a fuga é bastante simples, daquele jeitinho Siegel de filmar, só o essencial, trazendo sempre um divertimento a mais à narrativa, preparando o espectador para o que está por vir. Agora, quem conhece o trabalho do Siegel sabe que não vai saborear os desdobramentos dessa preparação com uma fuga espetacular e explosiva. A tal grande FUGA DE ALCATRAZ é mais uma questão de corpos e espaços e tempos. São os personagens se espremendo em locais apertados, entrando em poços, buracos em paredes, subindo em lugares altos, percorrendo telhados na surdina, agachando quando o guarda se aproxima… Enfim, sem espetáculo, tudo rigorosamente filmado da forma mais simples e crua possível, numa maestria de encher os olhos e prender a respiração do início ao fim.

Menos que um FUGINDO DO INFERNO e mais para um Bresson e seu UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU. O que caracteriza o cinema de ação de Siegel é justamente seu anti-clímax, o modo cru e seco pelo qual lida com momentos que poderiam ser deflagradores nas mãos de outros diretores. Siegel nunca trabalha cenas de ação ou violência apenas para brincar de esmagar bonequinhos – talvez na batalha final de OS ABUTRES TÊM FOME, mas é um filme que se assume num tom escapista. Geralmente, Siegel observa, ele analisa, desconstrói. É o que o torna um dos diretores de ação mais peculiares da história do cinema. O cunho “Intelectual da Ação” atribuído ao diretor não é a toa.

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ESPECIAL DON SIEGEL #28: O TELEFONE (Telefon, 1977)

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A essa altura do campeonato, Don Siegel já tinha dirigido John Wayne, Steve McQueen, Lee Marvin, Eli Wallach, Richard Widmark, entre outros grandes… Mas o encontro do diretor com um dos maiores astros do cinema badass setentista deveria ter causado uma explosão atômica em termos cinematográficos! Infelizmente não chegou nem perto de ser isso tudo. O que não significa que O TELEFONE, estrelado por Charles Bronson, seja ruim. Um trabalho menor, com certeza, longe dos holofotes de ambos indivíduos, mas que ainda possui imenso interesse como thriller de ação e espionagem. Convenhamos, um filme de ação menor dirigido pelo Siegel e estrelado pelo Bronson em plenos anos 70 ainda é melhor do que 90% do que é feito no gênero nos padrões atuais…

E olha que a ação aqui é mínima, simples e seca, mas se você aceitar a lógica do filme, é bem capaz de entrar num estado de tensão que mantém a diversão do início ao fim. Trata-se de um dos filmes de espionagem com a Guerra Fria de pano de fundo dos mais bizarros que eu já vi. A começar pelo Bronson interpretando um agente secreto soviético… Sim, um filme americano sobre espiões na guerra fria no qual um agente soviético, encarnado pelo Charles Bronson, é o herói…

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Na verdade, herói não seria o termo certo. O filme nunca define para quem devemos torcer, parece que todo mundo tá fazendo merda ou consertando merda de alguém. Mas a trama é um puta achado! A missão de Bronson ir até os Estados Unidos e matar Nicolai Dalchimsky (Donald Pleasence), um ex-KGB que roubou uma lista de nomes de agentes secretos russos infiltrados em várias cidades na terra do Tio Sam. O problema é que, e aí é que entra a graça do filme, esses tais agentes russos, na verdade, sofreram lavagem cerebral e não fazem a menor ideia de que são espiões. Inclusive pensam que são autênticos americanos. Mas basta dar-lhes um comando de voz, um código, para ativar o cérebro desses indivíduos e fazer com que cumpram a missão que lhes foram incumbidos, que basicamente se resume a ataques suicidas e explosivos em pontos militares estratégicos.

Outra questão é que este programa soviético de ataque, intitulado “Telefon”, foi desligado há quinze anos e os próprios alvos que deveriam ser destruídos já não possuem mais tanto valor… No entanto, Nicolai tem a lista de nomes de todos esses agentes, os números de seus telefones e, principalmente, o código de ativação da mente – um poema de Robert Frost – que faz os malucos explodirem coisas. E os russos já não têm intenção de iniciar uma terceira guerra mundial a essa altura, portanto, Bronson entra em cena pra tentar impedir que isso aconteça…

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A missão de Bronson é, naturalmente, Top Secret, uma vez que toda a ideia gira em torno de liquidar Nicolai antes dos americanos descobrirem o que está acontecendo, quem está praticando esses atentados – seria muito embaraçoso para os soviéticos ter que admitir que um programa como “Telefon” sequer existe. A coisa só piora para a KGB, uma vez que os caras nunca se preocuparam em informar o premier soviético de sua existência. E não informaram pelo motivo mais besta possível… Porque esqueceram.

Chegando aos Estados Unidos, Bronson conta com a ajuda da espiã Barbara, encarnada por Lee Remick, a qual o sujeito não pode revelar muitas informações sobre sua missão, e conta apenas o mínimo que ela precisa saber para ajudá-lo. O que ele não sabe é que Barbara também esconde alguns segredos, como pro exemplo, matar o pobre Bronson assim que ele cumprir sua missão…

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O fato de interpretar um espião soviético não parece fazer muita diferença a Bronson, que não faz mais que sua  figura habitual , caladão, carrancudo, mas ao mesmo tempo simpático e muito à vontade. É o tipo de coisa que admiro no sujeito e ele fez tão bem, desempenhando um personagem frio e inexpressivo, mas com uns momentos de ruptura inesperada, com algumas piscadelas, um sorriso de “eu sou foda” e um brilho nos olhos.

Lee Remick também faz sua graça, com uma atuação mais alto astral, como se estivesse numa comédia romântica… O que funciona muito bem como um contraste do protagonista, embora também passe por uma fria assassina quando necessário. Já Donald Pleasence não tem muito tempo pra desenvolver um vilão interessante, apesar de sua presença em cena ser sempre marcante, mesmo usando uma peruca à Elton John de vez em quando… Culpa do roteiro (que tem Peter Hyams como um dos responsáveis), que fica mais preocupado em avançar com a história do que dar atenção ao vilão, mas acaba funcionando nas mãos de Siegel, que consegue dar ritmo a O TELEFONE com habilidade de um mestre, sem muita enrolação, mantendo o filme, de um modo geral, divertido.

O TELEFONE pode não ser lá um filme perfeito e não é todo mundo que consegue entrar no clima, mas tem essa trama maluca, boas atuações e o Charles Bronson interpretando um russo, ou seja, curioso o suficiente para entrar nas listas tanto dos fãs do Siegel quanto do Bronson.

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ESPECIAL DON SIEGEL #27: O ÚLTIMO PISTOLEIRO (The Shootist, 1976)

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Tinha convidado alguém pra escrever sobre O ÚLTIMO PISTOLEIRO, mas isso já faz mais de um ano, acabou que a pessoa não me enviou nada e eu também não lembro quem era, então tanto faz. O importante é dar prosseguimento à peregrinação do cinema de Don Siegel, que chega neste western que carrega, digamos, uma certa importância peculiar. O fato é que três anos depois de protagonizar O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o maior ícone do western americano, John Wayne, bateu as botas por conta de um câncer fodido no pulmão e estômago. Este filme aqui, portanto, acabou por ser sua derradeira performance. E não poderia ser mais melancólico que o último filme do “Duke” fosse sobre um velho pistoleiro em fim de carreira chamado J. B. Booker, que descobre que tem um câncer terminal.

Booker só quer viver seus últimos dias da melhor maneira possível. Para confirmar a suspeita sobre sua saúde, visita um velho amigo médico, Dr. Hosteler, interpretado por por outro gigante, James Stewart, e obtém o diagnóstico que confirma seu câncer incurável. Em seguida, aluga um quarto em uma pensão administrada por uma viúva (Lauren Bacall) e seu filho adolescente (vivido por um jovem Ron Howard). Uma vez que Booker é reconhecido pela sua fama, as notícias se espalham pela pequena cidade de Carson City, incluindo sobre a doença, e percebe que não vai conseguir viver o pouco tempo que  lhe resta tão pacificamente como gostaria. Há tanto pessoas que tentam tirar proveito da presença do sujeito, como o agente funerário (John Carradine) que pretende embalsamar seu corpo, ou o jornalista que quer publicar um livro sobre suas façanhas, quanto, obviamente, outros pistoleiros desfrutando da situação para ganhar fama num possível duelo com Booker. Como o sujeito não quer “partir dessa para uma melhor” em agonia, deitado numa cama, a ideia de morrer trocando tiros com quem quer que seja até que não é tão ruim…

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John Wayne, como não poderia ser diferente, é o tour de force de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, está simplesmente sensacional. O sujeito reúne toda a essência da persona que desenvolveu ao longo da carreira vivendo centenas de personagens para transcender em Booker, o cowboy em fim de carreira definitivo. Wayne nunca esteve tão carismático e singelo como aqui, sem perder o jeito durão que o transformou num dos maiores casca-grossas do velho oeste. Mas são os momentos bucólicos e simples que dão força ao filme: os diálogos entre Wayne e Bacall, a relação fraternal que surge entre o protagonista e o jovem Ron Howard e principalmente Wayne contracenando com James Stewart, num desses momentos dignos de antologia.

Don Siegel aproveita todo esse material humano da melhor maneira possível, sem nunca soar piegas pelos temas delicados e nem cair na tentação de transformar a coisa toda num dramalhão sentimental. O filme é até bastante leve e divertido, embora não tenha a energia de outros trabalhos do homem, que foca mais nas performances do elenco. E apesar de atores talentosos, que é realmente o melhor de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o filme não deixa de ter alguns problemas. Depois de um começo sólido, que te cativa, o ritmo começa a cair um bocado, enrola demais e me peguei bocejando lá pelas tantas.

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Rola algumas histórias de que Siegel e Wayne não teriam se dado muito bem durante as filmagens e era comum o ator tentar querer dirigir o filme, atravessando Siegel, reclamando que o projeto merecia um tom mais épico, totalmente fora do estilo mais seco do diretor. Inclusive chegou a queixar e palpitar no tiroteio final, dizendo que seu personagem nunca poderia atirar em alguém pelas costas, que  nunca tinha feito isso na vida, e esse tipo de baboseira. Acho que o “Duke” já estava perdendo a noção, mas O ÚLTIMO PISTOLEIRO volta a melhorar justamente perto do final, quando Books parte na iminência de encarar os seus inimigos à base de chumbo-grosso. E ação do clímax talvez não seja das melhores sequências de tiroteio que o Siegel já filmou na vida, mas é classuda, tensa e sangrenta suficiente pra prender a respiração.

De qualquer forma, o saldo final é muito positivo. O ÚLTIMO PISTOLEIRO pode não ser a melhor despedida, mas não deixa de ser um bom reflexo da mudança dos tempos para um pistoleiro old school adentrando no século XX, e um interessante estudo sobre a aproximação da morte. E vale muito a pena aproveitar o “Duke” numa atuação daquelas!

ESPECIAL DON SIEGEL #26: O MOINHO NEGRO (The Black Windmill, 1974)

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Assisti outro dia a O MOINHO NEGRO pela primeira vez para adiantar este especial eterno aqui no blog. Trata-se de um thriller de espionagem que o Siegel fez lá pelos lados da Europa e meio que sumiu dos radares entre os filmaços que o homem fez nos anos 70, pós DIRTY HARRY e CHARLEY VARRICK. Andei lendo algumas críticas da época e outras que saíram já na era da internet e é curioso como a grande maioria desdenha da obra, que realmente não está a altura dos melhores filmes do sujeito, mas é legal, não deixa de ser interessante, tem vários momentos ótimos. E tem um Michael Caine encabeçando o elenco (que é fantástico e conta com a presença do grande Donald Pleasence), além do climão de policial europeu que de alguma forma dá um charme a mais ao filme e faz uma boa combinação com o estilo secão do Siegel.

John Tarrant (Caine), um agente MI6, serviço secreto britânico, descobre que seu filho, David, foi sequestrado por uma quadrilha chefiada por um sujeito carrancudo, McKee (John Vernon), e seu resgate deverá ser pago com uma certa quantia de diamantes que seu departamento secretamente obteve para uma operação qualquer, ou então o moleque vai sofrer as consequências… Para piorar a situação, os bandidos ainda forjam várias situações que incriminam Tarrant, fazendo parecer que ele faz parte do esquema, algo que seus superiores acabam acreditando, incluindo o desajeitado Cedric (Pleasence). E é nessa situação “Hitchcockiana” e com uma face dura como uma pedra, sem demonstrar qualquer sentimento – “Fomos treinados para isso” – que Tarrant resolve agir por conta própria para ter seu filho de volta.

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Uma dessas ações é justamente roubar os diamantes de seus chefes, que recusaram a negociar com os sequestradores, e levar sozinho à Paris para rastrear os facínoras. Ao final, toda a investigação o leva ao moinho negro do título, onde descobre-se os motivos do sequestro e quem realmente está por trás de todo o esquema, com direito a uma troca de tiros de metralhadora filmada do jeitinho classudo e cru do Siegel, bem diferente da ação dos filmes na época do espião britânico mais famoso, James Bond. Aliás, Caine é um espião do tipo intuitivo que usa mais cérebro que músculos, o que pode ser uma das razões do fracasso de crítica e bilheteria… Apesar da cena típica de um 007, com o herói sendo apresentado a uma arma secreta, uma maleta que dispara tiros.

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O fato é que O MOINHO NEGRO é bem paradão na sua primeira metade, meio enrolado e demora mais que o necessário para engrenar, além de uns furos de roteiro muito mal explicados… Mas Siegel consegue manter as coisas no lugar com uma boa atmosfera britânica e química entre os personagens. Nas mãos de algum diretor mais convencional, por exemplo, a relação de Tarrant e sua esposa, que o culpa a princípio, pelo sequestro do filho, poderia soar piegas e dramático demais, algo que não acontece… Enfim, mesmo com alguns probleminhas, O MOINHO NEGRO não deixa de interessar e até mesmo empolgar os amantes de um bom thriller setentista e também aos fãs do bom e velho Don Siegel.

ESPECIAL DON SIEGEL #25: O HOMEM QUE BURLOU A MÁFIA (CHARLEY VARRICK, 1973)

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por MARCELO NARDI

Os anos 70 foram tão grandiosos para o cinema que além da ascensão dos jovens diretores da geração Nova Hollywood, havia os veteranos como Sam Peckinpah, Robert Aldrich e Don Siegel no auge de suas carreiras engenhando filmes de ação geniais como THE GETAWAY (1972), EMPEROR OF THE NORTH (1973) e CHARLEY VARRICK (1973). Estes trabalhos ainda hoje reverenciados retém uma atmosfera e energia raramente recriada nos dias atuais. São poucos os diretores que conseguem reproduzir 15% da truculência setentista. CHARLEY VARRICK aka O HOMEM QUE BURLOU A MÁFIA é um filme que engloba diversas características desta década e penso que não poderia ter sido feito em outra época com os mesmos resultados.

Em todos os melhores filmes do Don Siegel antes mesmo de 1973 (THE KILLERS, THE BEGUILED, DIRTY HARRY, HELL IS FOR HEROES, COOGAN’S BLUFF, MADIGAN) permeia onipresente uma espécie de violência febril, seja em forma de ameaça ou em forma física. Em CHARLEY VARRICK não podia ser diferente, inclusive fica transparente que a ambientação e algumas situações do enredo são ainda muito bem utilizadas nas tramas de alguns dos melhores filmes e seriados de crime modernos – KILLING THEM SOFTLY do Andrew Dominik, NO COUNTRY FOR OLD MEN dos irmãos Coen e a série BREAKING BAD – só para citarmos três exemplos onde se percebe a influência da obra.

Os créditos de O HOMEM QUE BURLOU A MÁFIA apresentam ao espectador a rotina de uma pacata cidade do interior americano do Estado Novo México, daquelas com apenas uma escola, um mercado, uma delegacia e um banco. Pois é justamente este banco que logo nas primeiras cenas é violentamente assaltado com trágicas consequências para ladrões, funcionários e policiais.

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Após uma fuga explosiva, entre mortos e feridos, contemplando cenas de ação provindas do melhor cardápio do diretor, começamos acompanhar o cabeça do roubo, o astuto Charley (Walter Matthau) e o seu jovem beberrão e inexperiente comparsa e funcionário Harman Sullivan (Andrew Robinson), mesmo ator que interpretou o serial killer em DIRTY HARRY, aqui em um papel bastante diferente. Os sujeitos queriam apenas fazer um roubo prático e não muito ambicioso em um banco pequeno e esperavam sair com uns 20/30 mil dólares, porém na contagem pós-fuga são surpreendidos com mais de meio milhão de dólares em dinheiro. Acontece que a imprensa noticia no rádio e na televisão que foram roubados apenas algo em torno de dois mil dólares.

E é nesse jogo de mentiras que fica evidente para Charley que eles roubaram “dinheiro marcado”, dinheiro lavado proveniente de apostas, drogas e prostituição, portanto dinheiro da máfia e o sujeito inteligente sabe que roubar da máfia é uma sentença de morte. Charley Varrick conclui que terá que olhar por cima dos ombros a cada minuto e a partir desse momento terá que bolar planos ardilosos para se livrar do perigo. Em um dos melhores diálogos do filme, Charley tenta explicar para o seu não tão inteligente comparsa, que seria melhor ser perseguido por 10 agentes do FBI, do que ser perseguido pela incansável organização criminosa, que não sossegará até conseguir o seu dinheiro de volta e mais importante, não descansará até punir de forma exemplar os responsáveis pelo transtorno.

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A partir daquele momento, trabalhando para os donos deste dinheiro, está o brutamontes Molly (Joe Don Baker), camarada de chapéu e cachimbo que parece ter saído diretamente de um faroeste com a missão de colher informações, identificar e ir atrás dos ladrões e não economizar brutalidade quando for necessário (e quando desnecessário também não faz mal). Destaque para a atuação de Joe Don Baker que rouba o filme toda vez que está em cena, como o assassino de aluguel de poucas palavras e de postura ameaçadora e arrogante, intimidando gerentes de banco, mulheres e até mesmo idosos, em uma vertente contínua do politicamente incorreto, mas cinematograficamente permitido.

A curiosidade é que o papel de Molly originalmente foi escrito para Clint Eastwood que recusou o trabalho, por supostamente não ter achado nenhuma característica redentora no personagem que o motivasse a interpretá-lo. Como consequência disto, uma piada interna foi lançada em uma das cenas. Ao adentrar uma sala, Joe Don Baker se apresenta “Eu sou Molly” e recebe a seguinte resposta: “Eu pensei que você fosse o Clint Eastwood”.

A estrutura narrativa do filme é bastante solta e permite ao espectador se divertir com as situações que são criadas em diferentes cenários (prostíbulos, trailers no deserto, lojas de armas, estúdios fotográficos de passaportes clandestinos, escritórios e armazéns) incluindo uma genial ponta do diretor, que aparece em uma cena jogando ping-pong com gangsteres chineses!

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Além de um verdadeiro filmaço, pode-se considerar CHARLEY VARRICK um claro ápice na filmografia do diretor, aqui ele consegue trabalhar com todos os elementos do seu cinema na maior liberdade, em campo aberto entre uma paisagem e outra, mantendo um ritmo preciso e inserindo excelentes cenas de ação que culminam no sensacional clímax do filme que envolve três personagens, um carro e um avião. Um dos motes do filme que se evidencia pelo título traduzido em português é a perspicácia, inteligência e paciência do protagonista, que prefere resolver sozinho e na surdina todos os seus problemas. Aliás o filme ia se chamar “ O último dos independentes”, mas o título foi alterado de última hora para contrariedade do diretor.

Destaque também para a trilha sonora e a fotografia do filme, é realmente impressionante a beleza dos filmes ambientados no Estado do Novo México. A amplitude das paisagens confere vida ao filme e também regulam as dimensões e ações dos personagens. Trata-se de “cinema físico” da mais alta qualidade, utilizando os espaços internos e externos com máxima eficiência para a trama.

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ESPECIAL DON SIEGEL #24: PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL (Dirty Harry, 1971)

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DIRTY HARRY é desses clássicos quase incontestáveis do cinema badass. Um dos filmes policiais mais influentes do gênero, ao lado de BULLIT e OPERAÇÃO FRANÇA, na renovação do policial americano tendo até inspirado a italianada a desenvolver o poliziesco, o tipo de filme equivalente realizado no país da bota. Além de criar um dos personagens mais controversos do gênero, “Dirty” Harry Callahan, o tira durão que age de acordo com suas próprias leis, cujos ideais nem sempre vão de acordo com os burocráticos métodos da policia e por aí vai…

Atores para encarnar esse tipo de personagem nos anos 70 não faltavam. Charles Bronson, Burt Reynolds, Lee Marvin, Warren Oates, enfim, a lista é gigantescas de figuras cascas-grossas que dariam vida com perfeição a “Dirty” Harry. Aliás, DIRTY HARRY foi originalmente anunciado tendo Frank Sinatra no papel título. O sujeito vinha fazendo personagens interessantes no fim dos anos sessenta em thrillers policiais e de ação. Mas antes de ser o escolhido, John Wayne, Steve McQueen e Paul Newman também estavam brigando pelo papel. Porém, quando Sinatra desistiu, quem acabou encarnando Harry Callahan foi mesmo o bom e velho Clint Eastwood.

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Eastwood já era um rosto conhecido após a enorme popularidade da trilogia de Spaghetti Westerns que fez com Sergio Leone, além de outras produções, mas foi com “Dirty” Harry que o sujeito atingiu o merecido status de grande astro de Hollywood naquele período por parte do público, que encarou o filme como um thriller de ação dos bons, e não como o produto fascista que alguns críticos apontavam. Sim, “Dirty” Harry tortura e mata bandido sem qualquer remorso… Me chamem de reacionário, mas no cinema e apenas no cinema isso é bom demais!

Com Sinatra pulando fora, o diretor original Irvin Kershner também não quis mais saber do projeto. Melhor pra nós, já que Don Siegel, o intelectual da ação, que já havia dirigido Clint antes diversas vezes, acabou assumindo o posto em mais uma parceria com o ator e fez bonito como sempre. Não faltam por aqui momentos classudos para entrar no currículo do diretor, como a clássica sequência do início, na qual Callahan impede um roubo a banco e aproveita para soltar um de seus discursos mais celebrados:

I know what you’re thinking, punk. You’re thinking “did he fire six shots or only five?” Now to tell you the truth I forgot myself in all this excitement. But being this is a .44 Magnum, the most powerful handgun in the world and will blow you head clean off, you’ve gotta ask yourself a question: “Do I feel lucky?” Well, do ya, punk?

Cortesia de alguns bons roteiristas daquele período do cinema americano, incluindo John Milius, que trabalhou numa das primeiras versões do script.

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Um detalhe que ajudou muito para o sucesso do filme na época, e que talvez não seja um fato tão conhecido assim, é que  DIRTY HARRY foi inspirado na série de assassinatos reais cometidos pelo serial killer chamado Zodíaco. Aquele mesmo que acabou virando um filme bem mais realista nas mãos do David Fincher em 2007. Um baita filmaço, aliás… Mas uma diferença crucial, obviamente, é que por aqui não há moleza para um assassino tendo um policial casca-grossa como “Dirty” Harry Callahan em seu encalço.

Clint Eastwood tem aqui uma atuação magnífica, daquelas que dá pra perceber que o sujeito realmente entende o personagem. E que presença que o sujeito tem na tela! “Dirty” Harry é um ícone, sem dúvida alguma! A cena na qual o bandido mantém um ônibus escolar como refém e avista de longe a figura de Dirty Harry estática, fria, esperando tranquilamente em cima de uma ponte, pronto para fazer sua magnum 44 cuspir chumbo grosso, é algo que não dá para esquecer facilmente.

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Na direção, o estilo de Siegel é magistral, como não poderia ser diferente. DIRTY HARRY praticamente sintetiza tudo o que eu disse em todos outros textos sobre o estilo de direção do homem: simples, cru, essencial… Quando se pensa em DIRTY HARRY, você não necessariamente pensa em grandes sequências de tiroteios e perseguições mirabolantes,  ou enquadramentos e movimentos de câmera elaborados. Você simplesmente pensa que temos aqui um filme bom pra porra, com um personagem principal badass pra caceta! E é exatamente isso que Siegel quer, que o espectador aprecie o grande filme que está diante dos olhos sem interferir, sem chamar a atenção para o seu trabalho. Mas obviamente está tudo lá em termos de direção, é surpreendente como tudo é bem construído, sem pressa, só filmando o essencial… E é evidente que as cenas de ação resultam em momentos de encher os olhos sem precisar agitar a câmera ou acelerar os cortes. Em tempos de HARDCORE HENRY, isso aqui é mágico.

DIRTY HARRY acabou tendo quatro sequências que vou postar logo a seguir… E vejam só, mesmo este aqui sendo essa grandiosidade, gosto mais de MAGNUM FORCE, o segundo filme da série. Mas, questão de gosto pessoal mesmo… A série de filmes do policial “Dirty” Harry Callahan é toda boa, com alguns mais interessantes, como IMPACTO FULMINANTE, outros mais fracos, como THE ENFORCER, mas nunca deixam de divertir com um dos policiais mais controversos do cinema. E os chatos de plantão podem achar o filme fascista ou não, eu prefiro ressaltar a importância que DIRTY HARRY teve para o gênero, a direção magistral de Don Siegel, a atuação de Clint e de Andrew Robinson como Scorpion, o tal serial killer, as sequências de ação pelas ruas de São Francisco e a sensacional trilha de Lalo Schifrin. O resto é resto.

ESPECIAL DON SIEGEL #23: O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (The Beguiled, 1971)

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por MARCELO NARDI

Em 1971, independentemente do que viria no futuro, Clint Eastwood já tinha o seu nome assegurado como um ícone do cinema. O “Estranho Sem Nome” dos filmes de Sergio Leone já havia garantido o seu status para a eternidade. Nos faroestes, os personagens os quais ele se acostumou a interpretar, já haviam enfrentado sádicos bandidos, queimaduras no sol do deserto e surras monumentais, mas nunca antes um personagem do homem havia sofrido tanto quanto nas mãos das mulheres do filme mais perverso e estranho que Don Siegel dirigiu. Terceira parceria entre ator e diretor, THE BEGUILED baseado em uma adaptação literária do gênero sulista/rural americano, foi também, segundo Siegel, a sua própria realização preferida. E isso quer dizer muito, aliás, uma das curiosidades é que durante as filmagens Eastwood conduziu um documentário sobre os bastidores do filme intitulado “The storyteller”. Isto demonstra que na época o ator e iniciante diretor já era um devoto de Don Siegel, provando o seu respeito com essa produção documentária que abordava a visão criativa do artista. Em 1992 Clint Eastwood viria a dedicar sua obra-prima máxima OS IMPERDOÁVEIS para o próprio Siegel. Até poderíamos apontar alguns paralelos entre os dois filmes, como por exemplo a mola propulsora das tramas girarem ao redor de articulados e hierárquicos grupos de mulheres com lideranças bem definidas.

Nos meses finais da guerra civil americana, Clint é John, um soldado Yankee que nos é apresentado logo de cara ferido, sozinho, perdido em território inimigo e semi-inconsciente no meio de uma floresta no sul dos Estados Unidos. Ele tem a sorte (ou azar, difícil decidir) de ser encontrado por uma jovem garota que saltitando, colhe cogumelos na floresta como se no primeiro momento tivesse saído diretamente de algum filme completamente diferente.  Na primeira das muitas controversas cenas do filme, John lasca um beijo na menina apenas para confundir uma caravana de soldados locais que rapidamente passam por eles. “Livre do perigo”, aos trancos e barrancos o soldado a beira da morte é conduzido por ela até o portão de ferro de uma escola para mulheres, com ares de convento, onde ela mora junto a uma dezena de moças e uma diretora. A tradicional escola é um casarão colonial isolado no meio da floresta com um grande terreno cercado por enormes portões de ferro.

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Dividida entre acolher o inimigo ferido ou entregá-lo as autoridades militares conterrâneas, a diretora Mrs Martha (Geraldine Page) opta por “ajuda-lo” momentaneamente, o escondendo em um quarto improvisado e tratando todos os seus machucados. A presença de um homem entre elas, depois de muito tempo isoladas de companhia masculina, impacta de forma considerável a rotina das mulheres da casa. Entre elas está Edwina (Elizabeth Hartman) uma professora virgem de 22 anos que fica encarregada da chave do quarto de John. Relutante e tímida no inicio ela logo acaba apaixonada pelo camarada. Mesmo sem o peculiar charuto no canto da boca, aqui Clint encontra-se tão canastrão e persuasivo quanto nos faroestes da trilogia dos dólares e logo no início ele percebe na paixonite da professora uma alternativa para sair livre do lugar caso o perigo bater na porta, afinal a qualquer momento poderia adentrar um soldado local e o leva-lo preso ou até mesmo abatido dali.

Mas no seu primeiro momento desperto e bem alimentado, já com consideráveis mordomias e mesmo com boas possibilidades de sair facilmente portão afora, John não parece com muita pressa e aproveita as tardes livres trovando as garotas, a diretora e até mesmo a cozinheira da escola (sim até mesmo a cozinheira!). Entre as garotas maiores de idade também está a nem um pouco tímida e estonteantemente loira e linda Carol (Jo Ann Harris) que fazendo justiça ao soldado, foi a primeira a se oferecer aos braços do camarada. Curiosamente a atriz e Eastwood iniciaram um caso de amor que durou até alguns anos após a produção.

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Com o passar dos dias essas regalias femininas ao redor de John vão se acumulando em sentimentos de medo, atração, desejo, ciúmes, mágoa e até mesmo ódio e o filme lentamente e depois explosivamente vai ganhando formas mais perversas que colocam John em extremos maus lençóis.  O resultado é uma espécie de conto de fadas as avessas em crescente tensão (imaginem o que aconteceria se o lobo mau fosse mantido em cativeiro pela chapeuzinho vermelho e pela sua vovozinha ou algo parecido).

Don Siegel conduz muito bem essa atmosfera toda e coloca o espectador masculino a roer unhas e se contorcer na cadeira, com um desenrolar realmente muito pesado e em certas partes nauseante para o nosso ponto de vista. Esse é o filme de terror psicológico do grande diretor que escolhe a dedo um herói do cinema de gênero e o atira no meio de um furacão feminino de emoções suprimidas. Siegel deveria saber por isso que o filme não funcionaria com outro ator, que não tivesse um apelo popular tão grande.

No ápice de sua carreira Don Siegel não abriu mão da sua objetividade característica para conduzir um dos seus filmes mais embriagantes, ele mantém a direção concisa e com pés no chão seguindo uma narração linear e se utilizando apenas de breves flashbacks, um sonho e preciosos zoons nos rostos dos personagens para enfatizar a situação claustrofóbica vivida por John. Outro dos ingredientes brilhantes do filme é a canção de soldado entoada provavelmente por uma das meninas da escola, que abre e fecha os créditos contando como paisagem de fundo a parte externa do casarão, cheio do verde das árvores que é eficientemente capturado pela deslumbrante fotografia do filme. Nas sequências ao ar livre alguns enquadramentos remetem a um faroeste e o espectador que cair de paraquedas na sessão deve facilmente imaginar que a qualquer momento Clint Eastwood pode e vai se envolver em algum tiroteio ou algo parecido.

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Meses depois ainda em 1971, Don Siegel estaria lançando nos cinemas DIRTY HARRY e retomaria o seu curso no gênero policial e de ação com filmes empolgantes e populares, mas essa sua incursão nos bastidores da guerra civil (afinal o que diabos transcorre em uma escola para mulheres durante a guerra enquanto a bala come solta e os homens se matam do lado de fora?) ainda permanece como um dos seus filmes mais singulares e marcantes, além de representar uma rica contribuição do diretor a escola de cinema da Nova Hollywood, período no qual estúdios como a Universal, responsável por tornar possível THE BEGUILED estariam propensos e mais dispostos a lançar filmes controversos, autorais e livres de grandes censuras. Isto no papel, porque na prática o diretor e o seu ator principal tiveram que brigar bastante com os executivos da Universal para conseguir manter o final que eles idealizaram.

ESPECIAL DON SIEGEL #22: OS ABUTRES TÊM FOME (Two Mules for Sister Sara, 1970)

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por GABRIEL LISBOA

Se quando falei sobre MADIGAN foquei no início do filme, acho melhor começar pelo fim com essa análise e por isso esse texto tem vários spoilers. Começo com a sequência final de OS ABUTRES TÊM FOME e mais pra frente conto direito a estória. Enfim. Estamos no meio de uma invasão de um grande grupo de revolucionários mexicanos a uma base fortificada de interventores franceses no México (acho que nunca havia visto um filme com esse contexto histórico). Clint está do lado dos mexicanos, mandando para o saco todos os invasores da terra da “omelette du fromage”. Em determinado momento ele segura numa corda presa a um cavalo com uma mão e na outra acende uma dinamite. Ele toca o cavalo que avança arrastando Clint pelo chão, desviando das balas. O homem se solta, joga a dinamite num portão e depois de ter aberto a passagem corre enquanto balas ricocheteiam do seu lado. Coisa linda. Eu até tinha achado que tudo tinha acontecido no mesmo plano quando comecei a escrever mas depois voltei para rever a cena e notar os dois cortes rápidos.

Acho que aí podemos pensar um pouco sobre o que faz uma boa cena ou filme de ação já que em outros posts o Ronald ressaltou esse ponto da filmografia de Don Siegel, que eu não conhecia muito bem. Alguns pontos como trabalhar com uma profundidade de campo, planos abertos, respeitar os momentos dos cortes para que não interfiram com nosso interesse pela realidade do evento (coisas que André Bazin já falava em 1950 sobre NANOOK) são essenciais. Até gostaria de ficar falando mais sobre isso, mas já vi que ia enrolar demais. Quem sabe numa próxima. Mas o que fica de interessante sobre esse filme do Siegel é confirmar que toda cena de ação precisa ser construída e pensada para evoluir criativamente. Na maioria das vezes até dentro de um certo padrão. E é o tipo de coisa que raramente cansa os amantes do cinema de ação. A entrada furtiva, as explosões para confundir os inimigos, os tiroteios e no fim a trocação de sopapos e pontapés. Vários exemplares desse estilo seguem essa sequência e muitas vezes até nos decepcionamos se alguma coisa atrapalha o andar dessa carruagem. Siegel deixa ação fluir. Até há uma cena com uma metralhadora giratória que Clint usa para matar alguns soldados. E por pouco tempo, o que não deixa que esse artifício, por exemplo, canse pela repetição.

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Uma pausa para fazer propaganda de THE STRANGER AND THE GUNFIGHTER, com o Lee Van Cleef e Lo Lieh, um baita filme. Na sequência de ação final Cleef prende uma dessas gatling gun em dois cavalos e sai se arrastando enquanto gasta munição. A temática desse filme também lembra a de ABUTRES. Um sujeito estranho ao terreno hostil dos desertos do velho oeste é auxiliado por um cara durão e ambicioso para alcançar seu objetivo. Em THE STRANGER o peixe fora d’agua é um mestre do kung-fu que precisa ler pistas tatuadas em bundas de prostitutas em busca do tesouro do tio. Em ABUTRES o enredo não é tão interessante mas a dinâmica de Clint Eastwood com Shirley MacLaine, que interpreta uma freira simpática a causa dos Juaristas, é muito boa. O roteiro ajuda muito porque sempre coloca-os em várias situações de tensão. O primeiro encontro dos dois acontece quando a Sister Sara do título, personagem de MacLaine, está prestes a ser abusada por três canalhas. Hoogan, o personagem de Clint, resgata a moça seminua e depois descobre que ela é uma freira por suas roupas. Ela está sendo procurada por uma tropa de franceses por ajudar os revolucionários. Os dois fogem e depois, a noite, acabam percebendo que tem o mesmo interesse: acabar com o forte que comentei no início, ele pelos tesouros ali guardados e ela por raiva dos “colonizadores”.

Coincidências a parte, é na virada da personagem de Sara que a coisa fica um pouco confusa. Vou estragar a grande surpresa do filme. Sara na verdade não é uma freira mas uma prostituta. Ela matou um oficial e por isso odeia o regimento. Não há uma noção humanitária que a motiva em punir os opressores. Pelo que entendi era isso. Outro ponto é que no começo do filme ela mente dizendo que ia três vezes por semana “ensinar línguas” para os franceses como freira e por isso ela sabe tanto sobre a base. Então economicamente seria vantajoso para o prostíbulo a instalação vizinha com aquele bando de soldados. Ou não? Se ela só estava sendo procurada, poderia fugir e ponto. O desejo de destruir a base francesa faz até mais sentido para uma freira já que elas geralmente se envolvem em conflitos, assim como padres e afins. Quando vi A MISSÃO fiquei pensando nisso. Nossa noção de religiosidade é tão bombardeada com escândalos de lideres religiosos e doutrinas absurdas que hoje é difícil fazer um filme com uma personagem com uma perspectiva solidária sem parecer piegas ou inverossímil. Achei engraçado o lance dela, por fim, ser uma prostituta. E tem o fato de que ela e Clint “precisarem” ficar juntos no final. Mas ia achar interessante se o filme fosse um percursor do gênero freiras badass e do nunsploitation. Sara é uma personagem feminina forte pra caramba.

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Já o personagem do Clint é uma cópia do Estranho-Sem-Nome dos filmes do Leone. Não sei se posso chamar de cópia já que se trata do mesmo ator, mas gostaria de ver um pouco de variação num papel como esse interpretado por ele, um tempero que deixaria o personagem mais interessante. Sempre com a cara feita de pedra. Quem sabe um dia assisto PAINT YOUR WAGON para ver como ele e o Lee Marvin se saem num musical. Duas outras semelhanças com os westerns de Leone são as filmagens fora do lugar-comum do oeste americano e a trilha de Ennio Morricone. O filme foi gravado no México e vários membros da equipe são mexicanos. Quando li um pouco sobre esse tipo de realização bilíngue, no caso dos westerns italianos, fiquei interessado em entender um pouco mais como eram realizadas as filmagens. É algo que seria muito interessante de ver se naquela época os produtores se preocupassem com extras do DVD. Quanto a trilha de Morricone, assim como em qualquer filme em que compõe sua música, fica difícil não se empolgar com as variações e sons incomuns presentes nos temas e o uso dos leitmotivs. Tenho mais vontade de assistir EXORCISTA 2 por “Magic and Ecstasy” do que pelo próprio filme. Era alguém que merecia um documentário por décadas de trabalho.

Não me lembro de ter lido sobre esse filme em lugar algum, mas me surpreendi e gostei bastante. Talvez o filme não tenha um reconhecimento maior porque usa de várias fórmulas batidas de westerns e screwball comedies. Mas é tão bem encaixado, com bom ritmo e diálogos que a diversão é garantida. É o caso de 007. Eu acho que deveriam parar de fazer filmes de James Bond. Vinte e quatro filmes é muita coisa! Confundo as cenas e as tramas de vários deles (dá-lhe cena de esqui e mergulho). Mas bastou ver o trailer de SPECTRE para me empolgar. Amor e ódio a Hollywood. Agora, só não me venham refilmar AVENTUREIROS DO BAIRRO PROIBIDO, seus sanguessugas!

Gabriel Lisboa, além de eventualmente colaborar por aqui, edita o excelente blog Cine Bigode.

ESPECIAL DON SIEGEL #21: MORTE DE UM PISTOLEITO (Death of a Gunfighter, 1969)

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Assisti finalmente, para dar continuidade ao eterno Especial Don Siegel, o faroeste humanista MORTE DE UM PISTOLEIRO, que acabou renegado pelo diretor por alguns motivos que explico mais adiante, até porque trata-se de um belíssimo exemplar de western, com personagens interessantes e um contexto histórico reflexivo. Portanto não é pelo resultado que Siegel  não quis seu nome nos créditos.

A premissa, pra começar, é excelente. À beira do século XX, a pequena cidade de Cottownwood Springs, no Texas, está determinada a modernizar-se, deixar para trás o ultrapassado e arcaico sistema do velho oeste. O problema é o xerife do local, Frank Patch, vivido pelo grande Richard Widmark, um homem da lei brutão, à moda antiga, que coleciona no currículo uma variedade de mortos em tiroteios questionáveis. Quando mata em legítima defesa o bêbado Luke numa noite qualquer, os líderes da cidade decidem, após uma calorosa reunião, tomar uma drástica decisão: é hora de mudar seu representante da lei.

Até aí tudo bem. Eles pedem educadamente a Frank que renuncie seu cargo, mas o sujeito casca-grossa se recusa, lembrando que quando foi contratado foi-lhe prometido que ficaria no trabalho de xerife o tempo que quisesse, e dane-se o resto. A coisa poderia ir para um tribunal, o problema é que Frank, além de tudo, conhece profundamente cada um dos segredos sujos e repugnantes da cidade e de seus líderes, o que não seria nada agradável vir à tona… Decidem então agir como o próprio Frank, à moda antiga, usando a violência como última alternativa para tirar o indesejável xerife do caminho.

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Já vimos alguns faroestes com a temática do moderno x arcaico, as transformações que interfeririam na vida de pistoleiros e cowboys do velho oeste com a virada do século, como MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, de Sam Peckinpah, ou  OS ÚLTIMOS MACHÕES, de Andrew V. McLaglen, e vários outros. E é legal notar como MORTE DE UM PISTOLEIRO entra no meio desse conjunto de obras reforçando de maneira singular o tema, trabalhando o anacronismo de um xerife que ainda acredita na honra e em fazer seu trabalho da maneira que tem que fazer, ou morrer tentando. Numa das melhores performances de Richard Widmark que eu já vi, o grande destaque do filme.

Civilização é uma coisa incrível“, diz o personagem de John Saxon – que faz aqui uma ótima participação – depois dos tais “homens de bem”, os líderes da cidade que querem progredir a qualquer custo, decidem matar o xerife covardemente. Ao mesmo tempo, é interessante como o filme cria uma identificação do público com o xerife Frank, torcemos por ele até os últimos minutos, mas começamos nós mesmo a perceber que a única maneira dele alcançar sua redenção é realmente parando a sete palmos debaixo da terra, numa sequência final das mais emocionantes e corajosas que Siegel já filmou. Mais um para entrar na galeria dos seus finais fortes, sem concessões e niilistas.

E que viva o cinema transgressor de Don Siegel como  MORTE DE UM PISTOLEIRO e abaixo o cinema bunda-mole atual! 

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Por falar no Siegel, o filme entra no seu Especial aqui no blog, porque evidentemente percebe-se a mão do diretor em vários momentos, como o já citado desfecho, mas também nas cenas de tiroteio, com seu estilo cru e seco, filmando apenas o essencial com a segurança e habilidade que lhe é atribuída.

Mas a verdade é que a maior parte de MORTE DE UM PISTOLEIRO foi dirigido por Robert Totten, que pelas constantes “diferenças artísticas” com  Widmark acabou afastado após vinte e cinco dias de filmagens. Siegel chegou depois e finalizou o filme em apenas nove dias. Como não era totalmente o diretor, não quis levar o crédito, ao mesmo tempo, Widmark não queria o nome de Totten na direção, consequentemente utilizaram o nome Allen Smithee para compor o letreiro de créditos.

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MORTE DE UM PISTOLEIRO, além de um baita faroeste, entra na lista de filmes curiosos por ter aberto o precedente, para o cinema, da utilização do nome “Alan Smithee” (ou Alain Smithee, ou Allan Smithee, ou Allen, enfim, variações…) toda vez que um diretor renega seu filme. A filmografia de Smithee é até bem extensa se forem conferir no imdb e vários diretores de peso já o utilizaram, como Richard C. Sarafian, Dennis Hopper, John Frankenheimer, Stuart Rosenberg e Kevin Yagher…

ESPECIAL DON SIEGEL #20: MEU NOME É COOGAN (Coogan’s Bluff, 1968)

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Depois de quatro faroestes altamente lucrativos (a Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone, e A MARCA DA FORCA), MEU NOME É COOGAN coloca Clint Eastwood a viver novas aventuras agora no “mundo moderno”. O filme também dá início a uma das parcerias mais significativas do cinema badass, entre o diretor Don Siegel e o seu pupilo e ator principal, Eastwood, resultando cinco grandes obras que marcam essa reta final da carreira do diretor: além deste aqui, temos OS ABUTRES TÊM FOME, THE BEGUILED, DIRTY HARRY e o espetacular FUGA DE ALCATRAZ. Mas acalmem-se, ainda vamos chegar nesses exemplares, porque antes temos MEU NOME É COOGAN pela frente.

A transição do homem do velho oeste para o homem contemporâneo, no caso de Clint Eastwood, aconteceu de forma gradativa. Seu “homem moderno” não é tão moderno assim. Na verdade, é como se pegasse o cowboy mais matuto e reacionário do final do século IXX e o colocasse numa máquina do tempo para o final dos anos 60 e o soltasse em plenas ruas de Nova York. O resultado não seria muito diferente. Portanto, tirando o fato que Coogan surge em cena no início do filme dirigindo um jipe ao invés de montar um cavalo, a composição de seu personagem não é tão distinta do que tinha feito até então. A abertura de MEU NOME É COOGAN é todo faroeste, com Coogan, um assistente de xerife, buscando rastros no deserto do Arizona para capturar um índio que matara uma mulher.

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Após algumas desavenças com seu superior, Coogan recebe uma missão atípica. É despachado até a grande cidade de Nova York para extraditar um assassino, Ringerman (Don Stroud), de volta ao Arizona. E aí que a coisa fica ainda melhor. O sujeito dá de cara com os longos trâmites do processo de extradição e a espera da boa vontade de juízes em assinar papeladas sem fim, ou seja, com a boa e velha burocracia. O tipo de coisa que não entra na cabeça do nosso amigo anacrônico. Logo, Coogan se vê burlando algumas etapas, consegue a liberação do prisioneiro, mas acaba emboscado no aeroporto, leva uma pancada na cabeça, e o bandido foge sem deixar rastros.

Em maus lençóis com a polícia local, especialmente com o chefe McElroy, vivido em estado de graça por Lee J. Cobb, Coogan agora se encontra totalmente fora da sua zona de conforto, vestindo um suntuoso chapéu de cowboy e grandes botinas em plena Nova York, tendo que responder a todo mundo que veio do Arizona quando lhe perguntam se ele é do Texas. E ainda tem um criminoso a recuperar… Mas isso acaba sendo apenas o MacGuffin, como diria Hitchcock, é o que menos importa. O que realmente faz MEU NOME É COOGAN um grande filme é esse estudo de choque cultural, é colocar essa figura pictórica, que é Coogan, fora do seu “habitat natural”, solto nas áreas urbanas da cidade grande. Não apenas a ideia do xerife fora do seu território, mas a de um sujeito totalmente anacrônico que não está nada familiarizado com o estilo de vida agitada da cidade grande, a cultura lisérgica hippie, a atmosfera do final dos anos 1960 e a descoberta desse universo da pior maneira possível.

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O que gera momentos impagáveis, desde a primeira vez que entra num táxi até entrar num club noturno movido a LSD. Mas como estamos diante de um filme policial e, principalmente, dirigido pelo Don Siegel, é óbvio que teremos algumas cenas de ação que servem muito bem à narrativa. Até porque Coogan não economiza pancadas para tentar encontrar seu algoz, inclusive enfrentando um grupo de mal encarados num bar entre mesas de sinuca, e até batendo em mulher… tudo filmado com a secura habitual que marca o estilo do diretor. A maneira como utiliza o cenário na cena da briga no bar é coisa de mestre. O que leva à sequência final, uma perseguição de moto em alta velocidade que é de uma inventividade absurda. Siegel já tinha chegado ao seu ponto máximo como gênio do cinema badass aqui e basta ver MEU NOME É COOGAN pra confirmar.

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Enfim, pra finalizar, Clint Eastwood está muito à vontade, com a língua afiada e engraçado no papel de Coogan (o filme tem uma leveza cômica típica de um Blake Edwards ou Jerry Lewis, e algumas situações que o personagem se coloca são mesmo hilárias), as cenas de ação são da melhor qualidade e a trilha sonora de Lalo Schifrin é ótima e muito bem explorada. Mas o que vale mesmo é ficar atento aos detalhes desses estudo de choque cultural, que torna o filme tão interessante. Acabou gerando um seriado nos anos 70, chamado McCLOUD, estrelado por Dennis Weaver, e criado por Herman Miller, que foi quem escreveu o primeiro tratamento de MEU NOME É COOGAN, já pensando num piloto para a TV, antes de cair nas mãos de Don Siegel e se transformar neste filmaço.

Acho que inicia-se agora a fase mais interessante do Especial Don Siegel. Não exatamente pela qualidade dos filmes, vários já comentados estão entre os melhores da carreira do homem, como VAMPIROS DE ALMAS, THE LINE UP, FLAMING STAR, THE KILLERS, OS IMPIEDOSOS, todos esses entrariam no meu Top 10 facilmente. Obviamente falta aparecer também algumas obras-primas, como THE BEGUILED e CHARLEY VARRICK. Mas aqui começa a aparecer os filmes mais conhecidos do público, os mais comerciais, os exemplares que caíram na graça da moçada, digamos assim… Portanto, stay tunned!

ESPECIAL DON SIEGEL #19: OS IMPIEDOSOS (Madigan, 1968)

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por GABRIEL LISBOA

Quando possível prefiro assistir a qualquer filme sem nenhuma informação sobre sua trama. Nem a sinopse eu procuro ler. Algumas vezes é recompensador se surpreender com algo tão básico como o próprio enredo do filme. Fui ver MADIGAN, assim, só pelo pôster. Não reconheci nem o protagonista do filme, Richard Widmark (a cara de Peter Weller em NAKED LUNCH) já que só havia visto ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE dos filmes em que atua e há muito tempo. Então achei que a batida no apartamento de um suspeito por uma dupla de detetives era mesmo somente uma introdução ao ambiente, quem sabe uma cena para apresentar algum personagem secundário. Foi uma boa surpresa.

O filme abre com uma sequência de créditos composta por imagens de Manhathan; prédios, ruas, carros e trens, enquanto a noite vira dia e a cidade acorda. Enquanto isso, a música que acompanha os takes da cidade parece vir da abertura de uma série de TV da época, num tom alegre e empolgante. Parecia que ia assistir o piloto de Law and Order dos anos 1960. A câmera segue um trem até enquadrar na dupla de policias já mencionada. Como só havíamos visto até então partes da cidade, o movimento contínuo da câmera leva até a entender que os policiais portanto são parte das ruas, indissociáveis de seus problemas e conflitos, não há fronteiras entre a vida profissional e pessoal. Esta é a espinha do filme.

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Mas vamos voltar a cena inicial. Os policiais sobem um prédio de apartamentos e arrombam a porta do suspeito sem dar muitas chances para o mesmo atender a porta. O homem está deitado na cama com uma mulher e os policiais dizem que ele precisa ir até uma “entrevista” de rotina. Barney, o suspeito, pede para ver o mandato, sem entender porque aqueles policiais vieram lhe perturbar. Ele até pede para que um dos detetives tome cuidado para não quebrar os seus óculos que estavam no chão. Mais um coitado nas mãos de policiais truculentos. Mas é só a dupla de policiais se distraírem com a donzela nua no quarto para que Barney saque sua arma e faça os policiais de bobos. De vítima ele se revela um homicida ensandecido (“e de costumes sexuais peculiares”) em poucos segundos. Ele foge deixando os dois com um baita problema logo cedo. Essa confusão fisgaria qualquer espectador casual do Corujão.

Depois da perseguição sem sucesso para recapturar o bandido somos apresentados ao personagem de Henry Fonda, o velho e cansado comissário de polícia Anthony X. Russel, com outros problemas para resolver durante os três dias pelos quais esse o filme se desenrola. Eu até preferia o título original, FRIDAY, SATURDAY, SUNDAY que estampava o roteiro, em vez de levar somente o sobrenome do detetive, Daniel Madigan, já que o filme realmente acompanha duas tramas paralelas. Russel tem lidar com a notícia de que seu melhor amigo, também policial, foi pego num grampo telefônico combinando um encontro com um criminoso, para acertar uma dívida. Além disso precisa resolver um caso de denúncia de abuso de dois policiais contra um jovem negro. O próprio pai, um padre, aparece na sala do comissário, para interceder pelo filho.

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Por isso acho que cabe analisar este como um filme de transição. Siegel antecipa alguns elementos de OPERAÇÃO FRANÇA e um de seus trabalhos mais conhecidos, DIRTY HARRY, ambos de 1971. O modus operandi seco e violento da dupla de policiais na rua, o modo como tentam levar adiante um casamento fadado ao fracasso, e vendo como amigos os tipos que tem de lidar no dia a dia. O próprio Madigan diz: “Para ele (Russel) existe o certo e o errado, não há meio termo”. É nesse ambiente cinza que habita a maioria dos policias da próxima geração, a do início dos anos 1970, no cinema americano. Russel seria o policial a moda antiga: firme, incorruptível, mas de coração mole. Dá a cara a tapa sem pedir atenção ou reclamar dos seus problemas para ninguém, mas precisa do conforto de sua amante e do respeito de seus companheiros. Isso fica evidente no desabafo da mulher de Madigan para Russel no fim do filme. É quando as duas linhas do filme se encontram. Seja nas ruas ou no serviço público é difícil ser valorizado quando você será sempre visto como corrupto ou truculento pela sociedade. E é assim que tem que ser como indica o fim do filme. Amanhã é só mais um dia de trabalho.

O tom do filme é meio estranho. A maioria das cenas que mostravam a intimidade dos policiais parecia desacelerar e fugir da urgência da trama. É difícil encaixar esse tipo de situação nesses filmes sem que pareçam somente uma maneira humanizar os policias. No caso de Madigan é até estranho como que um policial azarado e pobretão como ele tenha esposa e uma amante (mesmo que ela apareça só como uma amiga), lindas e bem de vida. No caso de Russel é até mais crível seu affair, já com uma colega de trabalho. Parece que essas cenas seriam para tentar interessar também o público feminino da época, já que o filme explora bastante esses conflitos de relacionamentos, lembrando ainda mais seriado que, por fim, se tornaria em 1972. A trilha musical reforça essa sensação. As vezes melodramática às vezes grandiloquente. Há um pequeno trecho em que a trilha usa de um mickeymousing com um jovem policial que carrega coletes a prova de balas, em que os cellos (eu acho) acompanham seus passos. Algo que nenhum compositor usaria hoje em dia para um filme policial. É um detalhe, mas acho interessante porque a música é o principal fio condutor das emoções de um filme.

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O tiroteio no final, dentro do apartamento me lembrou uma cena em ALVO DUPLO 2 em que Chow Yun Fat e seu rival trocam tiros com uma arma em cada mão, frente a frente caindo pelo batente das portas. Infelizmente o clima meio televisivo do filme não deu muito espaço para que Don Siegel aproveitasse completamente seu talento cinematográfico. A maioria das cenas é de internas (inclusive cenas dos personagens dentro dos carros são gravadas em estúdio). Um ambiente totalmente diferente de OS ABUTRES TÊM FOME, que inclusive conferi antes desse e que vou comentar depois de DEATH OF A GUNFIGHTER.

PS: Um pequeno comentário. Um dos lances que acho mais bacana de assistir filmes policiais dessa época são os figuras que os policiais têm de interrogar; seus informantes, agiotas ou gigolôs. Geralmente personagens caricatos e que algumas vezes roubam a cena em que aparecem, seja em blaxploitations até poliziotteschi. Em MADIGAN, o anão trambiqueiro Castiglione e o adolescente de 30 anos Hughie, entram para o Hall da Fama Elisha Cook Jr.

ESPECIAL DON SIEGEL #18: OS ASSASSINOS (The Killers,1964)

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por DANIEL VARGAS

A terceira adaptação do conto de Ernest Hemingway no cinema, (A primeira, um longa de 1946 de Robert Siodmak, e a segunda, o primeiro curta-metragem, de 1956, de Andrei Tarkovsky) esse OS ASSASSINOS de Don Siegel é, com certa facilidade, a melhor de todas. Originalmente era fruto para ser o primeiro de uma série de outros filmes para televisão chamada “Projeto 120”, mas foi considerado tão brutal que resolveram lançar para o cinema. O filme em momento algum tem medo de mostrar cenas gráficas de violência, contra mulheres inclusive. Chega a ser chocante até mesmo para quem o vê hoje. O fato do Siegel ter filmado em Scope também ajudou bastante.

O filme muda completamente o ponto de vista do original, colocando-o sob a perspectiva dos assassinos contratados para matar Johnny North (John Cassavetes), que chocados pela reação submissa diante à própria morte, não tentando escapar do seu destino por nenhum momento sequer, vão atrás da verdadeira história por trás daquele contrato. Eles acabam descobrindo que Johnny se envolveu em um roubo de 1 milhão de dólares, mas esse dinheiro acabou sumindo. Eles então vão atrás dos conhecidos do Johnny, um por um, para descobrirem de fato do porquê sua vítima não tentar fugir, quem os contratou para o serviço, e o paradeiro do dinheiro. Descobrem que Johnny se envolveu com Sheila Farr (Angie Dickinson), a namorada do mentor do plano, Jack Browling (Ronald Reagan, surpreendentemente bem).

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Vendo hoje, é quase impossível não enxergar a forte influência que esse filme exerceu sobre PULP FICTION. Toda a essência do filme em colocar a camaradagem (e química) entre os dois assassinos está lá. Enquanto Lee (Clu Gulager) faz a vez de Vincent Vega do Travolta, silencioso, intempestuoso, e sempre o mais disposto à atos violentos, Charlie Strom (Lee Marvin) fica com a essência do Jules, de Sam Jackson; o mais falante e intimidador, e realmente o cérebro da dupla, sempre pensando pelos dois. Sem falar que enquanto Lee parece estar no auge da sua “carreira” como criminoso, Charlie já tem um semblante amargo e esgotado, tentando justificar sua busca pelo dinheiro como sua “aposentadoria” garantida, e sair da vida de matança uma vez por todas.

O filme também parece tirar o melhor de cada integrante do elenco. Além de Ronald Reagan fazer a performance da sua vida (infelizmente iria se aposentar da carreira artística para se dedicar a política de vez logo depois), Angie Dickinson merece destaque exclusivo e está em seu esplendor como uma femme fatale (contra o tipo) que assim como todo o resto dos personagens, não parece ter qualidades redentoras nenhuma. Ela conhece e seduz o personagem do Cassavetes, e como uma boa e clássica femme fatale, o manipula com sexo e acaba com sua carreira como piloto de corrida, o obrigando a entrar no plano do assalto do seu igualmente inescrupuloso namorado. Sheila Farr é a perfeita Lady MacBeth, que demonstra simpatia para onde o vento estiver soprando. Cassavetes também está excelente como o pato arrogante da vez no gênero.

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OS ASSASSINOS é um grande “pulp” neo-noir, que parece sempre estar tentando se engrandecer, apesar do baixo custo de produção. Em um plano aéreo incrível vendo pessoas saindo de um hotel, descobrimos que estamos de fato diante de uma câmera subjetiva de um sniper que começa à atirar em seus alvos. Orçamentos à parte, é de fato, um grande filme. E o começo do melhor momento da carreira do Siegel.

ESPECIAL DON SIEGEL #17: O INFERNO É PARA OS HERÓIS (Hell is for Heroes, 1962)

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por DANIEL VARGAS

“Eu nunca farei um filme sobre guerra a não ser que seja extremamente anti-guerra. Lado nenhum ganha uma guerra. É muita hipocrisia nações que entram em guerra, todos com seus padres e ministros rezando pelo mesmo Deus por vitória. Guerra é fútil e sem sentido. É verdade que o inferno é para os heróis. E também é verdade que o inferno é o único lugar para “heróis”.

E depois de dizer essas palavras que Don Siegel realiza aqui seu único filme de guerra, e também a única parceria dele com Steve McQueen, esse que colhia os frutos do recente sucesso de Sete Homens E um Destino, retoma o papel do durão em combate, novamente se vendo em uma situação de desvantagem, como um sargento rebaixado para posição de soldado por problemas com bebida e de comportamento. Anti-social e com graves problemas com autoridade (ou mesmo psicológicos, ou com a guerra em si), ele se junta a um grupo de soldados em Montigny, França, em 1944, à uma área próxima a perigosa Siegfried Line.

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Rejeitando qualquer interação social com os outros soldados, antipático e de poucas palavras, vira quase uma pária em um grupo que já se preparava para voltar para casa, quando uma nova missão é enviada para seu comandante: tentar segurar tropas alemãs de continuar avançando na região. O único problema é que os nazistas detêm mais dados, maior quantidade de tropas, e maior quantidade de fogo. E a única coisa que os impede de passar por cima do pequeno grupo de aliados é não saber o quão forte é o task-force inimigo. Aí que entra as habilidades do soldado Reese (McQueen), que convence seu sargento superior (Harry Guardino) a bolar um plano mirabolante para fazer eles parecerem que estão em maior número e com maior poder de fogo do que parece. De falsas conversas no telefone com quartel-general (eles descobrem uma escuta alemã em seu bunker) até tentar fazer o barulho de um Jeep parecer com um de tanque, eles precisam quebrar a cabeça para redefinir a arte da ilusão.

Em uma produção obviamente de baixo orçamento, Siegel faz o que pode para construir cenas impactantes (algumas cenas dos soldados morrendo em campos minados são angustiantes), mas o que o filme tem de melhor mesmo é se livrar dos clichês  sobre irmandade entre soldados na guerra. O filme vai construindo sua tensão até o final brutal (obscuro e pessimista, um frescor audacioso para esse tipo de tema). Pena que seu desenvolvimento e narrativa truncada não ajudem muito. O elenco mal aproveitado conta também com James Coburn (que também vinha de Sete Homens) fazendo pouco mais que uma participação, sem desenvolver um personagem realmente forte. Quando lançado, foi visto como o filme de guerra genérico que é, mas com o passar do tempo, e com a popularidade do Siegel, acabou virando “cult”.

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Semelhante à seu personagem, McQueen teve vários problemas com a “autoridade”. De executivos do estúdio até Robert Pirosh, o roteirista e diretor inicial do longa, que logo foi substituído por Siegel e nunca perdoou McQueen por ter tirado seu “bebê” dele. Quando Siegel assumiu, inicialmente também não foi muito lá recebido pelo ator rebelde, mas logo os dois entraram no mesmo ritmo e, aparentemente, terminaram amigos até o resto de suas vidas!  Não foi o caso de Bobby Darin, outro que se desentedia constantemente com o astro. Muito se disse que o comportamento foi uma espécie de “método” que o McQueen estava usando para se manter no personagem, mas logo se percebeu que era apenas uma desculpa esfarrapada para ele continuar sendo um cretino com todos à sua volta. Havia inclusive uma máxima de todos na produção, sobre o protagonista do filme dizendo que “o pior inimigo de Steve McQueen, era ele mesmo”. Certa vez um colunista veio visitar os sets de filmagem e após também testemunhar o comportamento “errático” de McQueen, teria dito a mesma frase para alguém ao lado. Darin, que estava por perto e acabou ouvindo, logo tratou de interromper a conversar e afirmar enfaticamente: “Não enquanto eu estiver por perto!”

ESPECIAL DON SIEGEL #16: FLAMING STAR (1960)

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Elvis Presley pode ter sido o Rei do Rock, mas no cinema seu trabalho se resume a um punhado de bobagens ingênuas em veículos para o sujeito entoar suas canções e beijar garotas. Nada contra, mas também nada muito estimulante. Mas aí vem um diretor badass da estirpe de um Don Siegel, se metendo a dirigir um western que não se priva de tratar de temas delicados, não se esquiva de cenas de extrema violência (em comparação com as produções do período), e lhe é exigido que Elvis, o ator/cantor mimado e mais preocupado com sua imagem do que na qualidade de seus filmes, seja o protagonista.

Para a nossa sorte, prevaleceu o lado mais interessante dessa história. E o resultado do encontro Siegel x Elvis não poderia ser diferente: FLAMING STAR é considerado a obra-prima e o “filme sério” de Elvis Presley, mas mais do que isso, o filme é uma das mais perfeitas demonstrações de como Siegel era um diretor talentoso em vários aspectos. E já que estamos de volta com o especial do homem, nada melhor ressaltar sua grandeza defronte de uma produção como essa, que poderia ter sido mais um exemplar banal de Elvis usando um chapéu e tocando violão, mas que acaba por ser uma joia, um dos grandes westerns do período e maior do que tudo que Siegel havia feito até então.

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Sim, e me me refiro em comparação com VAMPIROS DE ALMAS e THE LINE UP, seus grandes trabalhos até aqui. E Siegel até permite, logo no início da fita, que Elvis pegue um violão e toque e cante para seus familiares, num clima leve de faroeste matinée. Mas esse clima logo se dissipa quando um personagem leva uma machadada na cabeça num ataque índio e o diretor não nos poupa de toda brutalidade. E ele deixa bem claro: estamos diante de um filme de Don Siegel e não de Elvis Presley. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #15: COVIL DA MORTE (Edge of Eternity, 1959)

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Há uma sequência já no final de COVIL DA MORTE em que o protagonista, o xerife vivido por Cornel Wilde, troca sopapos com o vilão da trama num carrinho suspenso, parecido com um bondinho, por sobre o Grand Canyon a quase 800 metros de altura. É o clímax do filme, no que o diretor Don Siegel chamou de “sequência mais aterrorizante e horrenda” que já filmou em sua carreira. Obviamente os planos detalhes e os closes nos atores foram realizados com projeção ao fundo, mas há várias tomadas em planos abertos que é coisa de louco, realmente tensa e mostra a situação que os dublês se meteram. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #14: CONTRABANDO DE ARMAS (The Gun Runners, 1958)

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CONTRABANDO DE ARMAS é baseado no mesmo conto do bom e velho Ernest Hemingway que Howard Hawks usou para realizar UMA AVENTURA NA MARTINICA (To Have and Have Not, 1944) e Michael Curtiz em REDENÇÃO SANGRENTA (The Breaking Point, 1950). Chega a ser constrangedor da minha parte (especialmente sendo um grande admirador de Hawks), mas nunca assisti a nenhum dos dois, ao contrário do diretor Don Siegel antes de dirigir este aqui: “Me arrependi muito de tê-los assistidos, porque percebi como era totalmente absurdo que eu fizesse (mais uma versão)”. 

Siegel ainda completa: “(…) ambos contaram com elencos melhores, argumentos melhores, mais dinheiro e mais tempo.” Bom, Siegel sempre conseguiu se sair bem com pouco tempo e orçamentos apertados. Agora, sobre argumentos, não tenho como comparar, mas mesmo não tendo assistido às versões anteriores, deve ser difícil não concordar com o sujeito sobre o seu elenco. Especialmente em se tratando do protagonista, o herói do filme, a não ser que alguém aí seja fã do Audie Murphy… Herói de guerra que acabou virando ator, Murphy conseguiu relativo sucesso nos anos 50. Tanto que CONTRABANDO é o segundo filme que estrelou sob a direção de Siegel. O primeiro foi o western ONDE IMPERA A TRAIÇÃO, já comentado aqui no blog.

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O fato é que Murphy nunca foi lá um dos meus atores de ação favoritos desse período. Longe disso, aliás… Seu rostinho de bom moço não se encaixa bem aos papeis durões que tentava fazer. E comparando com as outras versões do conto de Hemingway, temos um John Garfield, na versão de Curtiz, e Hawks tinha a sua disposição ninguém menos que o gigante Humphrey Bogart. Quem é Murphy perto de Bogart? Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #13: O SÁDICO SELVAGEM (The Lineup, 1958)

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Dez anos antes de estrelar o melhor filme que existe no universo (TRÊS HOMENS EM CONFLITO, de Sergio Leone), Eli Wallach estreava na tela grande com BABY DOLL, de Elia Kazan. O ego inflou, o sucesso lhe subiu a cabeça, e quando foi contratado para viver o gangster psicopata Dancer, em THE LINEUP, ficou aborrecido por seu segundo filme ser um crime movie aparentemente rotineiro, um passo atrás em relação ao seu prestigioso debut. No entanto, estamos tratando de um filme de Don Siegel e talvez Wallach não soubesse do que o homem era capaz de fazer. O fato é que aos poucos, enquanto as filmagens iam acontecendo, o ator percebeu a profundidade e complexidade do personagem que estava compondo e passou a ficar mais simpático ao projeto. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #12: BABY FACE NELSON (1957)

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E eis que Don Siegel resolve fazer um filme meio biográfico de uma das figuras criminosas mais fascinantes da história americana, Lester J. Gillis, mais conhecido por seu apelido, Baby Face Nelson. Tal fascínio é menos por uma eventual identificação do personagem com o público – o cara era um psicopata desprezível – e mais pelas possibilidades de um estudo de personagem cheio de características dramáticas e psicológicas e pelo momento histórico rico em detalhes. E a visão de Siegel sobre o sujeito em BABY FACE NELSON não poderia ser diferente: crua, revisionista e extremamente brutal. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #11: A RUA DO CRIME (Crime in the Streets, 1956)

É interessante um filme como A RUA DO CRIME na filmografia de Don Siegel logo após um clássico como VAMPIROS DE ALMAS. A história é “menor”, o orçamento continua curto, mas percebe-se claramente um sujeito bem mais maduro como diretor no trabalho visual, na decupagem, na direção dos atores, na dosagem do drama e até mesmo metendo o bedelho no roteiro. Foi escrito por Reggie Rose, que também é o autor da peça na qual o filme se baseia. Siegel conta em entrevista que fez várias modificações no material de Rose, colocando em risco a relação entre eles, mas que eram, de acordo com ele, “absolutamente necessárias do ponto de vista cinematográfico.Continuar lendo