ESPECIAL DON SIEGEL #29: FUGA DE ALCATRAZ (Escape from Alcatraz, 1978)

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Antes que eu me esqueça (ou que algum dos meus cinco leitores comece a me cobrar), tenho o Especial Don Siegel para dar continuidade. E empaquei logo agora que estamos no finalzinho, justamente num dos maiores clássicos do homem, a sua última obra-prima! Mas vamos lá, FUGA DE ALCATRAZ. Quando o projeto foi parar nas mãos do Siegel o sujeito deve ter lido o roteiro de Richard Tuggle, baseado no livro de J. Campbell Bruce, sentido o momento e pensado: “Preciso fazer um filme foda pra caralho!“.

Pois bem, estamos praticamente no fim de um ciclo… Não, não é o último trabalho do Siegel, mas ele viria a fazer só mais um filme por inteiro (LADRÃO POR EXCELÊNCIA, com Burt Reynolds) e já no seguinte (JINXED) seria interrompido por problemas de saúde que o impediria de filmar até a sua morte no início dos anos 90. O filme acabou finalizado pelo Sam Peckinpah. Além disso, ALCATRAZ marca também o desfecho da parceria de cinco filmes com seu ator fetiche, Clint Eastwood. Portanto, com o material que tinha em mãos, Siegel deve ter buscado um último suspiro, aquela forcinha e inspiração a mais para deixar, de uma vez por todas, a sua marca na história do cinema… O resultado é simplesmente magistral, não só um dos melhores filmes de fuga de prisão, mas uma das grandes obras de uma filmografia cheia de preciosidades.

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FUGA DE ALCATRAZ é baseado numa autêntica escapada d’A Rocha, a cadeia de segurança máxima localizada na Baia de São Francisco, também conhecida como Alcatraz, e que sempre se gabou de ser totalmente à prova de fuga. Na verdade, vamos aos números. Desde sua fundação, o presídio registrou quatorze tentativas de fugas, computando 39 presidiários que tentaram a proeza. 26 acabaram capturados e encarcerados de volta, sete tiveram a carcaça perfurada à bala e três morreram afogados. Ficam faltando três que desapareceram completamente. Como nunca mais ouviram falar de nenhum deles, as autoridades acreditam que tenham se afogado, embora seus corpos nunca tenham sido encontrados. Uma maneira das autoridades, hipócritas como sempre, manterem a aparência. De qualquer maneira ou de outra, um ano depois dos acontecimentos, a prisão fechou suas portas, transformando-se numa atração turística.

FUGA DE ALCATRAZ é justamente sobre a escapulida desse trio. Um deles é Frank Morris, interpretado pelo Eastwood, então já sabemos de antemão quem é o badass fodão da parada. Além disso, o sujeito já chega na penitenciária trazendo na bagagem a reputação de especialista em fugas de prisões. E não demora muito, Morris começa a colocar em prática a elaboração de um plano de fuga, junto com outros prisoneiros, entre eles os irmãos Anglin (Fred Ward e Jack Thibeau) e acrescentar mais uma façanha no currículo, até porque a vida na prisão é dura para Frank e o filme já predispõe o espectador a odiar o sistema carcerário do local. Uma galeria de guardas sádicos e desumanos e um diretor de prisão filho da puta mesquinho que solta “Não criamos bons cidadão, mas criamos bons prisioneiros“, ajudam na ideia de simpatizar por criminosos. E é o que acontece de fato… Quando a tentativa de fuga finalmente começa, fica impossível não torcer pelos encarcerados, não importa o crime que cometeram para estarem ali…

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No entanto, em momento algum Siegel parece se preocupar em fazer julgamentos moralistas com os prisioneiros, muito menos interessa a ele debater profundamente sobre o sistema penitenciário, algo que já fizera com grande eloquência no clássico REBELIÃO NO PRESÍDIO. Don Siegel se interessa mesmo é nas relações humanas dentro daquele universo e, obviamente, importa a ele a emoção do suspense, os mínimos detalhes do desenvolvimento de um plano fuga e, especialmente, a ação.

Mas aqui a ação é um caso delicado. A elaboração do plano e execução dos preparativos para a fuga é bastante simples, daquele jeitinho Siegel de filmar, só o essencial, trazendo sempre um divertimento a mais à narrativa, preparando o espectador para o que está por vir. Agora, quem conhece o trabalho do Siegel sabe que não vai saborear os desdobramentos dessa preparação com uma fuga espetacular e explosiva. A tal grande FUGA DE ALCATRAZ é mais uma questão de corpos e espaços e tempos. São os personagens se espremendo em locais apertados, entrando em poços, buracos em paredes, subindo em lugares altos, percorrendo telhados na surdina, agachando quando o guarda se aproxima… Enfim, sem espetáculo, tudo rigorosamente filmado da forma mais simples e crua possível, numa maestria de encher os olhos e prender a respiração do início ao fim.

Menos que um FUGINDO DO INFERNO e mais para um Bresson e seu UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU. O que caracteriza o cinema de ação de Siegel é justamente seu anti-clímax, o modo cru e seco pelo qual lida com momentos que poderiam ser deflagradores nas mãos de outros diretores. Siegel nunca trabalha cenas de ação ou violência apenas para brincar de esmagar bonequinhos – talvez na batalha final de OS ABUTRES TÊM FOME, mas é um filme que se assume num tom escapista. Geralmente, Siegel observa, ele analisa, desconstrói. É o que o torna um dos diretores de ação mais peculiares da história do cinema. O cunho “Intelectual da Ação” atribuído ao diretor não é a toa.

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ESPECIAL DON SIEGEL #28: O TELEFONE (Telefon, 1977)

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A essa altura do campeonato, Don Siegel já tinha dirigido John Wayne, Steve McQueen, Lee Marvin, Eli Wallach, Richard Widmark, entre outros grandes… Mas o encontro do diretor com um dos maiores astros do cinema badass setentista deveria ter causado uma explosão atômica em termos cinematográficos! Infelizmente não chegou nem perto de ser isso tudo. O que não significa que O TELEFONE, estrelado por Charles Bronson, seja ruim. Um trabalho menor, com certeza, longe dos holofotes de ambos indivíduos, mas que ainda possui imenso interesse como thriller de ação e espionagem. Convenhamos, um filme de ação menor dirigido pelo Siegel e estrelado pelo Bronson em plenos anos 70 ainda é melhor do que 90% do que é feito no gênero nos padrões atuais…

E olha que a ação aqui é mínima, simples e seca, mas se você aceitar a lógica do filme, é bem capaz de entrar num estado de tensão que mantém a diversão do início ao fim. Trata-se de um dos filmes de espionagem com a Guerra Fria de pano de fundo dos mais bizarros que eu já vi. A começar pelo Bronson interpretando um agente secreto soviético… Sim, um filme americano sobre espiões na guerra fria no qual um agente soviético, encarnado pelo Charles Bronson, é o herói…

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Na verdade, herói não seria o termo certo. O filme nunca define para quem devemos torcer, parece que todo mundo tá fazendo merda ou consertando merda de alguém. Mas a trama é um puta achado! A missão de Bronson ir até os Estados Unidos e matar Nicolai Dalchimsky (Donald Pleasence), um ex-KGB que roubou uma lista de nomes de agentes secretos russos infiltrados em várias cidades na terra do Tio Sam. O problema é que, e aí é que entra a graça do filme, esses tais agentes russos, na verdade, sofreram lavagem cerebral e não fazem a menor ideia de que são espiões. Inclusive pensam que são autênticos americanos. Mas basta dar-lhes um comando de voz, um código, para ativar o cérebro desses indivíduos e fazer com que cumpram a missão que lhes foram incumbidos, que basicamente se resume a ataques suicidas e explosivos em pontos militares estratégicos.

Outra questão é que este programa soviético de ataque, intitulado “Telefon”, foi desligado há quinze anos e os próprios alvos que deveriam ser destruídos já não possuem mais tanto valor… No entanto, Nicolai tem a lista de nomes de todos esses agentes, os números de seus telefones e, principalmente, o código de ativação da mente – um poema de Robert Frost – que faz os malucos explodirem coisas. E os russos já não têm intenção de iniciar uma terceira guerra mundial a essa altura, portanto, Bronson entra em cena pra tentar impedir que isso aconteça…

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A missão de Bronson é, naturalmente, Top Secret, uma vez que toda a ideia gira em torno de liquidar Nicolai antes dos americanos descobrirem o que está acontecendo, quem está praticando esses atentados – seria muito embaraçoso para os soviéticos ter que admitir que um programa como “Telefon” sequer existe. A coisa só piora para a KGB, uma vez que os caras nunca se preocuparam em informar o premier soviético de sua existência. E não informaram pelo motivo mais besta possível… Porque esqueceram.

Chegando aos Estados Unidos, Bronson conta com a ajuda da espiã Barbara, encarnada por Lee Remick, a qual o sujeito não pode revelar muitas informações sobre sua missão, e conta apenas o mínimo que ela precisa saber para ajudá-lo. O que ele não sabe é que Barbara também esconde alguns segredos, como pro exemplo, matar o pobre Bronson assim que ele cumprir sua missão…

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O fato de interpretar um espião soviético não parece fazer muita diferença a Bronson, que não faz mais que sua  figura habitual , caladão, carrancudo, mas ao mesmo tempo simpático e muito à vontade. É o tipo de coisa que admiro no sujeito e ele fez tão bem, desempenhando um personagem frio e inexpressivo, mas com uns momentos de ruptura inesperada, com algumas piscadelas, um sorriso de “eu sou foda” e um brilho nos olhos.

Lee Remick também faz sua graça, com uma atuação mais alto astral, como se estivesse numa comédia romântica… O que funciona muito bem como um contraste do protagonista, embora também passe por uma fria assassina quando necessário. Já Donald Pleasence não tem muito tempo pra desenvolver um vilão interessante, apesar de sua presença em cena ser sempre marcante, mesmo usando uma peruca à Elton John de vez em quando… Culpa do roteiro (que tem Peter Hyams como um dos responsáveis), que fica mais preocupado em avançar com a história do que dar atenção ao vilão, mas acaba funcionando nas mãos de Siegel, que consegue dar ritmo a O TELEFONE com habilidade de um mestre, sem muita enrolação, mantendo o filme, de um modo geral, divertido.

O TELEFONE pode não ser lá um filme perfeito e não é todo mundo que consegue entrar no clima, mas tem essa trama maluca, boas atuações e o Charles Bronson interpretando um russo, ou seja, curioso o suficiente para entrar nas listas tanto dos fãs do Siegel quanto do Bronson.

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ESPECIAL DON SIEGEL #27: O ÚLTIMO PISTOLEIRO (The Shootist, 1976)

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Tinha convidado alguém pra escrever sobre O ÚLTIMO PISTOLEIRO, mas isso já faz mais de um ano, acabou que a pessoa não me enviou nada e eu também não lembro quem era, então tanto faz. O importante é dar prosseguimento à peregrinação do cinema de Don Siegel, que chega neste western que carrega, digamos, uma certa importância peculiar. O fato é que três anos depois de protagonizar O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o maior ícone do western americano, John Wayne, bateu as botas por conta de um câncer fodido no pulmão e estômago. Este filme aqui, portanto, acabou por ser sua derradeira performance. E não poderia ser mais melancólico que o último filme do “Duke” fosse sobre um velho pistoleiro em fim de carreira chamado J. B. Booker, que descobre que tem um câncer terminal.

Booker só quer viver seus últimos dias da melhor maneira possível. Para confirmar a suspeita sobre sua saúde, visita um velho amigo médico, Dr. Hosteler, interpretado por por outro gigante, James Stewart, e obtém o diagnóstico que confirma seu câncer incurável. Em seguida, aluga um quarto em uma pensão administrada por uma viúva (Lauren Bacall) e seu filho adolescente (vivido por um jovem Ron Howard). Uma vez que Booker é reconhecido pela sua fama, as notícias se espalham pela pequena cidade de Carson City, incluindo sobre a doença, e percebe que não vai conseguir viver o pouco tempo que  lhe resta tão pacificamente como gostaria. Há tanto pessoas que tentam tirar proveito da presença do sujeito, como o agente funerário (John Carradine) que pretende embalsamar seu corpo, ou o jornalista que quer publicar um livro sobre suas façanhas, quanto, obviamente, outros pistoleiros desfrutando da situação para ganhar fama num possível duelo com Booker. Como o sujeito não quer “partir dessa para uma melhor” em agonia, deitado numa cama, a ideia de morrer trocando tiros com quem quer que seja até que não é tão ruim…

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John Wayne, como não poderia ser diferente, é o tour de force de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, está simplesmente sensacional. O sujeito reúne toda a essência da persona que desenvolveu ao longo da carreira vivendo centenas de personagens para transcender em Booker, o cowboy em fim de carreira definitivo. Wayne nunca esteve tão carismático e singelo como aqui, sem perder o jeito durão que o transformou num dos maiores casca-grossas do velho oeste. Mas são os momentos bucólicos e simples que dão força ao filme: os diálogos entre Wayne e Bacall, a relação fraternal que surge entre o protagonista e o jovem Ron Howard e principalmente Wayne contracenando com James Stewart, num desses momentos dignos de antologia.

Don Siegel aproveita todo esse material humano da melhor maneira possível, sem nunca soar piegas pelos temas delicados e nem cair na tentação de transformar a coisa toda num dramalhão sentimental. O filme é até bastante leve e divertido, embora não tenha a energia de outros trabalhos do homem, que foca mais nas performances do elenco. E apesar de atores talentosos, que é realmente o melhor de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o filme não deixa de ter alguns problemas. Depois de um começo sólido, que te cativa, o ritmo começa a cair um bocado, enrola demais e me peguei bocejando lá pelas tantas.

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Rola algumas histórias de que Siegel e Wayne não teriam se dado muito bem durante as filmagens e era comum o ator tentar querer dirigir o filme, atravessando Siegel, reclamando que o projeto merecia um tom mais épico, totalmente fora do estilo mais seco do diretor. Inclusive chegou a queixar e palpitar no tiroteio final, dizendo que seu personagem nunca poderia atirar em alguém pelas costas, que  nunca tinha feito isso na vida, e esse tipo de baboseira. Acho que o “Duke” já estava perdendo a noção, mas O ÚLTIMO PISTOLEIRO volta a melhorar justamente perto do final, quando Books parte na iminência de encarar os seus inimigos à base de chumbo-grosso. E ação do clímax talvez não seja das melhores sequências de tiroteio que o Siegel já filmou na vida, mas é classuda, tensa e sangrenta suficiente pra prender a respiração.

De qualquer forma, o saldo final é muito positivo. O ÚLTIMO PISTOLEIRO pode não ser a melhor despedida, mas não deixa de ser um bom reflexo da mudança dos tempos para um pistoleiro old school adentrando no século XX, e um interessante estudo sobre a aproximação da morte. E vale muito a pena aproveitar o “Duke” numa atuação daquelas!

ESPECIAL DON SIEGEL #26: O MOINHO NEGRO (The Black Windmill, 1974)

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Assisti outro dia a O MOINHO NEGRO pela primeira vez para adiantar este especial eterno aqui no blog. Trata-se de um thriller de espionagem que o Siegel fez lá pelos lados da Europa e meio que sumiu dos radares entre os filmaços que o homem fez nos anos 70, pós DIRTY HARRY e CHARLEY VARRICK. Andei lendo algumas críticas da época e outras que saíram já na era da internet e é curioso como a grande maioria desdenha da obra, que realmente não está a altura dos melhores filmes do sujeito, mas é legal, não deixa de ser interessante, tem vários momentos ótimos. E tem um Michael Caine encabeçando o elenco (que é fantástico e conta com a presença do grande Donald Pleasence), além do climão de policial europeu que de alguma forma dá um charme a mais ao filme e faz uma boa combinação com o estilo secão do Siegel.

John Tarrant (Caine), um agente MI6, serviço secreto britânico, descobre que seu filho, David, foi sequestrado por uma quadrilha chefiada por um sujeito carrancudo, McKee (John Vernon), e seu resgate deverá ser pago com uma certa quantia de diamantes que seu departamento secretamente obteve para uma operação qualquer, ou então o moleque vai sofrer as consequências… Para piorar a situação, os bandidos ainda forjam várias situações que incriminam Tarrant, fazendo parecer que ele faz parte do esquema, algo que seus superiores acabam acreditando, incluindo o desajeitado Cedric (Pleasence). E é nessa situação “Hitchcockiana” e com uma face dura como uma pedra, sem demonstrar qualquer sentimento – “Fomos treinados para isso” – que Tarrant resolve agir por conta própria para ter seu filho de volta.

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Uma dessas ações é justamente roubar os diamantes de seus chefes, que recusaram a negociar com os sequestradores, e levar sozinho à Paris para rastrear os facínoras. Ao final, toda a investigação o leva ao moinho negro do título, onde descobre-se os motivos do sequestro e quem realmente está por trás de todo o esquema, com direito a uma troca de tiros de metralhadora filmada do jeitinho classudo e cru do Siegel, bem diferente da ação dos filmes na época do espião britânico mais famoso, James Bond. Aliás, Caine é um espião do tipo intuitivo que usa mais cérebro que músculos, o que pode ser uma das razões do fracasso de crítica e bilheteria… Apesar da cena típica de um 007, com o herói sendo apresentado a uma arma secreta, uma maleta que dispara tiros.

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O fato é que O MOINHO NEGRO é bem paradão na sua primeira metade, meio enrolado e demora mais que o necessário para engrenar, além de uns furos de roteiro muito mal explicados… Mas Siegel consegue manter as coisas no lugar com uma boa atmosfera britânica e química entre os personagens. Nas mãos de algum diretor mais convencional, por exemplo, a relação de Tarrant e sua esposa, que o culpa a princípio, pelo sequestro do filho, poderia soar piegas e dramático demais, algo que não acontece… Enfim, mesmo com alguns probleminhas, O MOINHO NEGRO não deixa de interessar e até mesmo empolgar os amantes de um bom thriller setentista e também aos fãs do bom e velho Don Siegel.