THRILLER – A CRUEL PICTURE (1974)

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Aproveitando o post anterior, republico este texto do blog antigo, caso alguém ainda não tenha lido. THRILLER – A CRUEL PICTURE é simplesmente maravilhoso e nunca é demais relembrar e celebrar sua existência e a jornada da ingênua garota muda que se transforma numa das vingadoras mais implacáveis da história do cinema.

Se fosse há quinze anos, certamente estaria falando de uma famigerada raridade muito mais discutida do que realmente vista na sua versão integral. Mas depois de sua redescoberta e o lançamento em DVD há tempos no exterior, falar de THRILLER é chover no molhado… Mas é um filme que causa certo fascínio e eu precisava escrever sobre ele por aqui no Dementia¹³. Trata-se de um dos exploitations mais famosos dos anos setenta, bastante lembrando também por ter sido uma das principais inspirações do Tarantino ao escrever a saga da Noiva em KILL BILL, além de ser um dos pontos de partida para qualquer cinéfilo maluco que queira iniciar-se no universo do cinema extremo.

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Produção sueca, assinada pelo diretor, produtor e roteirista Bo Arne Vibenius, que foi assistente de direção de Ingmar Bergman em PERSONA, THRILLER surgiu como uma tentativa de recuperar o dinheiro gasto no primeiro filme de Vibenius, uma aventura de fantasia infantil que ninguém viu e que foi um desastre de bilheteria. Segundo ele, este aqui seria apenas um “commercial-as-hell crap-film”. Então não sei onde foi que ele “errou”, mas ao realizar este rape and revenge movie literalmente cruel, como o título adianta, uma autêntica obra de exploração abusando de doses cavalares de violência gráfica e sexo explícito, o sujeito acabou criando um clássico da subversão cultuado em todo mundo!

Todo o enredo de THRILLER é voltado para esses dois elementos básicos: violência e sexo. Logo no início, uma menina é estuprada por um velho louco e por consequência do trauma, ficou muda. Certo dia, ao perder o ônibus que a levaria de volta pra casa, a moça, agora jovem e interpretada pela musa Christina Lindberg, aceita carona de um sujeito que pela cara percebe-se que não possui as melhores intenções. Ingênua de tudo, ele a leva para jantar e depois para sua casa, onde a garota é drogada com heroína até ficar viciada e ser obrigada a se prostituir para “viver”.

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O primeiro cliente que aparece a pobrezinha o ataca ferozmente! Como castigo, uma pequena lição para não esquecer, o gigolô lhe perfura um olho com um bisturi, numa das imagens mais chocantes do cinema “grind house”. A coisa fica ainda mais repugnante quando ficamos sabendo dos bastidores dessa sequência e que o olho que assistimos ser cortado pela lâmina sem qualquer edição era de um cadáver real de uma garota que havia morrido há pouco tempo. Brrr!

Ao descobrir que seus pais cometeram suicídio por causa das cartas injustas e maldosas que o gigolô enviava à eles com a assinatura dela, a garota inicia um longo processo de vingança que consiste num aprendizado de artes marciais, tiro ao alvo e habilidades ao volante, para depois partir para o ataque brutal contra todos que lhe fizeram algum tipo de mal.

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Vibenius quis demonstrar que vingança é um “prato que se come frio” de forma literal. Além da narrativa construida sem pressa alguma, quase todas as cenas de ação foram estilizadas ao máximo, mostradas num super slow motion incômodo, beeeeeeem leeeeeeeeento, mas ao mesmo tempo surreal, violento e dramático.

Outro detalhe que faz o espectador levantar a sobrancelha são as pontuais cenas de sexo explícito inseridas na edição. Nenhuma delas foram filmadas com a Lindberg que, na trama, protagoniza as cenas em questão. Mas causam um estranhamento danado… Em determinado momento vemos a protagonista treinando karatê, praticando tiro ao alvo e logo em seguida um plano fechado “daquilo” entrando “naquilo”.

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O filme acabou banido da Suécia e por muito tempo pensou-se que fora o primeiro exemplar a cometer essa “proeza” por lá (na verdade, o primeiro filme proibido no país foi THE GARDENER, de Victor Sjostrom, em 1912). THRILLER foi tão multilado na época para poder chegar aos cinemas ao redor do mundo (e mesmo assim com muita dificuldade) que faço confusão com tantas versões existentes. A cópia lançada nos Estados Unidos, recebeu o título sensacional de THEY CALL HER ONE EYE, e existem relatos de que o filme passou no SBT com o título ELES A CHAMAM DE CAOLHA!!!

No entanto, apesar de toda essa áurea subversiva e doentia, de ser assumidamente um produto de exploração, com seu enredo repulsivo, cenas grotescas de violência escancarada e sexo explícito, um dos aspectos que sempre me impressionou muito em THRILLER é como o filme é lindo visualmente! Vibenius tinha muita noção de enquadramentos e surpreende com momentos de grande força estética, sublinhadas por composições que buscam trabalhar o fetiche semiótico, imagens que se transformaram em ícones do universo exploitation. A pequena Christina Linderg com o tapa olho (que muda de cor dependendo da ocasião, genial!), o sobretudo preto, carregando a pesada escopeta nas mãos é um exemplo claro disso

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Vibenius realizou apenas mais um filme após este aqui, BREAKING POINT (75), mais uma mistura controversa entre horror, thriller e sexo explícito. Infelizmente foi seu último trabalho e confesso que nunca vi. Pretendo corrigir este detalhe em breve. Lindberg já era musa do exploitation quando fez THRILLER no início dos anos 70 e sua beleza é incontestável. Além disso, o papel que faz aqui é exatamente o ideal para ela, pois suas características físicas naturais faz com que pareça muito mais jovem do que sua verdadeira idade. Sem contar que a atriz não precisa abrir a boca para soltar uma frase sequer, então só lhe restou utilizar de seus belos atributos físicos e se impor como um anjo da vingança. Saiu-se perfeitamente bem.

SEX & FURY (1973), de Norifumi Suzuki

Ocho (Reiko Ike) toma banho tranquilamente numa banheira e de repente precisa defender-se de um grupo de bandidos que a ataca com espadas. Ela se levanta e começa a lutar e o fato de estar completamente nua não parece fazer muita diferença para os seus adversários (mas para nós, meros espectadores, faz) que vão caindo um a um a seus pés, nem sempre inteiros. A luta é levada para um cenário coberto de neve e aos poucos, a nudez e a neve ficam manchadas de sangue criando um efeito estético muito interessante.

Mas o visual neve e sangue remete a outro grande clássico do cinema exploitation Japonês: LADY SNOWBLOOD, de Toshiya Fujita, que fora lançado no mesmo ano que SEX & FURY. Mas enquanto o primeiro é um exploitation em seu estado puro, o segundo é um belo exemplar do subgênero Pink Violence, e se você ainda não conhece ou não sabe que tipo de filme verá neste estilo, a antológica cena citada no primeiro parágrafo define muito bem a sua essência.

Então não importa se a protagonista está em busca de vingança (da mesma forma que no filme de Fujita), mas sim os detalhes e os elementos que o diretor Norifumi Suzuki trabalha para enfatizar a violência e o tom erótico da bagaça.

Um fator que ajuda em muito nestes quesitos é o desempenho de Reiko Ike como a protagonista sexy e vingativa, que se entrega à personagem de maneira formidável. Outra presença ilustre é a da sueca Christina Lindberg, famosa pela sua interpretação em THRILLER – A CRUEL PICTURE (precisando de uma revisão para eu escrever algumas linhas sobre ele), um verdadeiro clássico do cinema físico!

Christina Lindberg não poderia ficar de fora da ação!

Suzuki era um mestre dos filmes de ação japonês e as cenas de luta em SEX & FURY são bem violentas e sangrentas, ainda mais com a beleza e sensualidade de Reiko Ike que não se importa de pagar peitinho enquanto perfura ou rasga seus oponentes sem piedade, como na seqüência final. Chega a ser poético!

OBS: Uma perguntinha básica: vocês preferem que os posts tenham muitas ou poucas imagens? (e quando eu digo muitas, seria este post um exemplo; e poucas é o que eu venho fazendo regularmente)