O ALVO DA MORTE (Target, 1985)

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Mais um Hackman pintando por aqui. Achava que com esse O ALVO DA MORTE não teria erro depois de assistir a dois ótimos filmes desse período e estrelado pelo ator. Mais uma vez temos Hackman pagando de badass num thriller de ação dirigido pelo veterano Arthur Penn (BONNIE & CLYDE)… Então, imaginem a frustração, lá pelas tantas, quando descobri que já estava numa furada. Não que o filme seja horrível, a trama até que é interessante, mas não tem nada muito marcante, não consegui entrar muito no clima e algumas soluções me incomodaram bastante na maior parte do tempo.

Hackman é Walter Lloyd, um sujeito pacato de Dallas, administrando uma madeireira, mas que esconde um passado sombrio. O sujeito tem uma relação distante com seu filho (Matt Dillon) e o casamento já teve dias melhores, tanto que sua esposa (Gayle Hunnicutt) resolve tirar umas férias na Europa totalmente sozinha. Antes de viajar, no entanto, ela pede que Walter tente dar uma atenção ao filho, o que acaba acontecendo. São forçados a isso quando um telefonema acorda Walter no meio da noite com a informação de que sua mulher está desaparecida há mais de 48 horas.

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Pai e filho partem para a Europa e, não demora muito, descobrem que a mulher foi sequestrada. E aos poucos Walter vai revelando para o filho (e também para o espectador) detalhes do seu passado desconhecido, como por exemplo, ser um espião da CIA aposentado, que comandou várias operações especiais internacionais ultra-secretas durante a Guerra Fria. Tentando libertar sua esposa, Walter se vê num fogo cruzado entre os sequestradores de sua mulher, que por algum motivo querem encontrá-lo com vida, e outras pessoas que querem matá-lo antes que ele encontre os sequestradores.

Sim, a trama é, aparentemente, intrincada, mas que poderia fluir com mais leveza. Ao invés disso, a mão dos realizadores pesou e O ALVO DA MORTE acaba pecando por situações que não levam a lugar algum e diálogos maçantes que me fizeram soltar grandes bocejos. A química entre Hackman e Dillon não funciona como pai e filho, embora haja um grande esforço do filme em trabalhar o tema, e são poucas as sequências de ação que realmente empolgam.

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Hackman acaba por ser a grande virtude de O ALVO DA MORTE. É quem segura o filme e faz manter o interesse pela trama central. Infelizmente não me lembro de mais nada para elogiar. Algum momento e outro de tensão, talvez, como a cena do assassino que invade o quarto de Walter… Meia hora a menos já faria um bem danado ao ritmo do filme, poderia ter rendido um pequeno thriller divertido se fosse mais enxugado, com algumas doses de ação mais caprichadas, mas simplesmente desperdiçaram qualquer possibilidade disso acontecer.

Foi a última colaboração entre o diretor Arthur Penn com Hackman, que começou em BONNIE & CLYDE (67) e continuou em NIGHT MOVES (75). O diretor já não faria muitas coisas depois de O ALVO DA MORTE… Dois longas, alguns trabalhos para a TV. Mas teve uma carreira sólida, com alguns filmes realmente brilhantes que valem a pena conhecer. Morreu em 2010.

MICKEY ONE (1965), de Arthur Penn

UAU! Confesso que minhas espectativas estavam bem altas, afinal, temos direção de Athur Penn e Warren Beatty encabeçando o elenco (e isso é, basicamente, tudo que eu sabia sobre o filme), mas não esperava algo tão sensacional! O que me mais me surpreendeu é que MICKEY ONE rompe com a linha do tradicional americano e realiza um legítimo exemplar da Nouvelle Vague em toda a sua quintessência. É cinema marginal com muita liberdade criativa, delírios visuais, frescor narrativo e trilha sonora jazzística frenética, realizado totalmente nos Estados Unidos na metade dos anos 60!

Eu já havia apontado no meu texto sobre BONNIE & CLYDE, do mesmo diretor, que logo no início, quando Faye Dunaway se apresenta em cena, Penn presta uma pequena ode à Nouvelle Vague, obviamente inspirado pelo movimento francês. Mal sabia eu, ao me deparar com MICKEY ONE, que o diretor já havia realizado esta pequena obra prima totalmente construída às bases do cinema desenvolvido por Godard, Truffaut, Chabrol e sua turma.

Ao que parece, a produção do filme não está ligada a qualquer grande estúdio e foi realizado com o dinheiro do sucesso anterior do cineasta, O MILAGRE DE ANNIE SULLIVAN, segundo trabalho de Arthur Penn na direção. A trama gira em torno do personagem título, interpretado magnificamente pelo Warren Beatty – que se encaixou com perfeição ao estilo solto e inovador da linguagem nada convencional para o padrão americano da época.

A trama envolve gangsters e o submundo do crime, mas tudo isso fica em segundo plano, deixando apenas transparecer a figura do personagem de Mickey One, um comediante de cabaré que foge de sua cidade com medo de ser apagado após cometer alguns deslizes na organização em que trabalhava. Instalado nos subúrbios de Chicago, Mickey forma ao seu redor uma série de situações emblemáticas e personagens bizarros que mais parecem saídos de um sonho ou de uma viagem alucinatória para azucrinar a paranóia do protagonista.

Mas nada disso soa experimental nas mãos de Arthur Penn, que parece ter sob controle todos os elementos, por mais surrealísticos que sejam. O cinema deste diretor nunca retrocedeu, aparentemente. Além deste aqui, eu assisti a BONNIE & CLYDE e CAÇADA HUMANA, que são dois filmaços e de grande importância para as mudanças cinematográficas que ocorreram no cinema americano no fim dos anos 60. Mas creio que o diretor nunca tenha conseguido chegar novamente ao resultado tão formidável de MICKEY ONE, a de um cinema tão liberto, algo que poucos diretores americanos tiveram a proeza na época.