O RIO DAS ALMAS PERDIDAS (River of No Return, 1954)

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O primeiro que enjoar das postagens com o Robert Mitchum vai ser a mulher do padre… Até porque depois que se mergulha de cabeça na obra deste estupendo ator fica difícil parar. É como um vício. Mas um dos bons, saudável, recomendável aos amantes de boas atuações. E, neste ofício, Mitchum foi um dos grandes… Quiçá o maior… Se cuida, Lee Marvin!

O RIO DAS ALMAS PERDIDAS foi o último que vi estrelado por Mitchum.

Dirigido pelo gênio Otto Preminger, o filme é um western de aventura que se passa durante a famigerada corrida do ouro do final do século IXX. O fazendeiro Matt Calder (Bob Mitchum), que vive em uma fazenda remota com seu jovem filho Mark, ajuda um casal que perde o controle de sua jangada num rio nas proximidades. Um deles é Harry Weston, um jogador profissional que está tentando chegar à cidade mais próxima o mais rápido possível para registrar uma reivindicação de uma mineiradora que ele alega ter ganho em um jogo de poker. Sem cavalo, achou que a melhor maneira era descer o perigoso rio de jangada… Junto dele, sua namorada, a bela Kay (Marilyn Monroe), uma cantora de salão.

Quando Calder se recusa a deixar Weston “pegar emprestado” seu único rifle e seu único cavalo para seguir viagem, o clima fica pesado entre os dois. O local é cercado de índios e é o rifle de Calder que protege ele e seu filho dos peles-vermelhas. Além disso, o cavalo é seu “instrumento” para arar a terra nas suas plantações… Mas, como sabemos, Weston precisa urgentemente chegar à cidade mais próxima. Demonstrando ser um grandessíssimo filho da puta, o jogador acerta a cabeça de Calder e parte montado no animal levando o rifle do protagonista embora. A trairagem foi tão grande que até Kay resolve ficar para trás.

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Incapazes de se defender de um iminente ataque índio, Calder, seu filho e Kay só vêem na jangada e nas perigosas águas do rio o único meio de manterem a pele intácta. E assim, a aventura de O RIO DAS ALMAS PERDIDAS começa, com esse improvável trio tentando sobreviver às correntesas do rio com a jangada e aos eventuais ataques de índios. E só um pensamento que dá força a Calder nessa jornada: vingança.

Parece divertidão, não é? Uma montanha-russa em forma de filme de aventura. Pois é, o produtor do filme, Stanley Rubin, também achava que deveria ser assim. No entanto,  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS é bem mais complexo, intimista e reflexivo do que parece. E grande parte dessa lógica de aventura descompromissada se perde graças a Otto Preminger.

Na ocasião, Rubin achava que Preminger teria sido uma escolha equivocada. Queria alguém mais ligado a aventuras mais rotineiras, alguém que já tivesse dirigido western, algo que Preminger nunca tinha feito. Rubin queria mesmo o grande Raoul Walsh, que já era célebre por balancear filmes escapistas com um bocado de substância… Mas o chefão da Fox, o lendário Darryl F. Zanuck, precisava arranjar um projeto rápido para Preminger, porque já estava pagando um sálario astronômico na época de 2.500 dólares por semana com o sujeito trabalhando ou não. Preminger, a princípio, não queria saber muito de  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS, mas aceitou na boa após ler o roteiro e perceber que poderia explorar alguns conceitos, tanto estéticos quanto humanos com aqueles personagens. O que gerou certo desconforto entre Stanley Rubin e o diretor, que sempre teve fama de autoritário. Continuar lendo

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A MANCHA DE UM PASSADO (Going Home, 1971)

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Ah, o bom e velho cinema americano dos anos 70… Cada dia é uma nova descoberta. Hoje assisti A MANCHA DE UM PASSADO. Não fez muito sucesso na época do lançamento e hoje é praticamente esquecido entre os vários filmes americanos que marcaram esse período conhecido como “Nova Hollywood”. Eu mesmo não fazia a menor ideia da existência. Só acabei vendo porque ando numa onda de ver uns filmes do Robert Mitchum ❤ . E que agradável surpresa! Filme de drama forte, sombrio, com alguns momentos realmente densos sobre uma família que sofre os impactos de uma tragédia ocorrida mais de uma década atrás.

Mitchum interpreta um sujeito que numa noite qualquer enche a cara de cachaça, fica bebaço e mata sua esposa brutalmente cortando-lhe uma artéria do pescoço com a ponta de uma garrafa quebrada. A mulher ainda cambaleia sob o olhar do filho pequeno do casal e acaba perdendo a vida diante do menino. Treze anos mais tarde, Mitchum obtém liberdade condicional, vai morar num acampamento de trailers e se apaixona por uma moça (Brenda Vaccaro). E tem de lidar com a presença de seu filho (Jan-Michael Vincent), agora com dezoito anos.

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E é do ponto de vita do moleque que acompanhamos A MANCHA DE UM PASSADO. No entanto, o filme se constrói mesmo em torno de Mitchum, que é gênio, engole as atenções. Um filme que parece tão disposto a confiar num ator, como se fosse um jogo de atração e ao mesmo tempo repulsa entre a incógnita personagem de Mitchum e o espectador.

Na cena inicial, a deste frame aí embaixo, o sujeito surge apenas com as cuecas e a garrafa quebrada com o corpo da mulher aos seus pés, uma dessas imagens que mostram o monumento que era Mitchum. Mas também o apresenta como um assassino psicótico de filme de terror. Depois, quando o filho reaparece para ele pela primeira vez, após de treze anos, e diz “Oi, pai“, chega a ser tocante ver a reação daquele monstro assassino embargar e adentrar seu trailer sem dizer uma palavra sequer, totalmente arrasado…

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Mas não pensem que tomamos simpatia pelo rapaz. O mundo é sórdido em A MANCHA DE UM PASSADO, há mais nobreza num velho bêbado assassino na condicional do que num rapaz inocente que tenta perdoar o pai pelos pecados do passado. E o filme aproveita-se disso para nos pregar umas peças. talvez seja por isso que várias críticas que li são negativas e reclamam da dificuldade de se identificar com os personagens… Mas é exatamente um dos principais motivos que me fez gostar do filme.

A direção é de Herbert B. Leonard, cuja carreira é mais ligada à produção para a televisão. Tem pouquíssimos longas como diretor. Aqui faz um bom trabalho, ousado na condução dos atores, com sequências pesadas, como a cena do galinheiro com os galos de briga, ou no climax, o provável último encontro dramático entre pai e filho. Tão singelo e brutal ao mesmo tempo.

Vale a pena conhecer A MANCHA DE UM PASSADO. Vale, acima de tudo, pela estupenda atuação de Mitchum.

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ARMADO ATÉ OS DENTES (The Man With the Gun, 1955)

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Assisti a este western rotineiro que no Brasil ganhou o divertido título ARMADO ATÉ OS DENTES. Mas referir-se ao filme como rotineiro pode não parecer uma recomendação muito entusiástica. No entanto, como a década de 50 foi um período tão fértil para filmes excelentes do gênero, digamos que “rotina” pode ser tomada como algo positivo…

O filme possui muitos dos elementos padrões que eram populares na época: temos o solitário e misterioso pistoleiro, com um passado sombrio, que encara as forças do vilão sem escrúpulo numa cidade cuja população de homens tímidos e indefesos precisa contar com o estranho pistoleiro para salvá-los de serem explorados e enganados.

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Robert Mitchum, ainda começando a se tornar um astro, interpreta Clint Tollinger, um pistoleiro com uma reputação de “domar” cidades selvagens. E o local que chega tem um baita problemão. Um tal de Dade Holman (Joe Barry), um poderoso fazendeiro, tem usado seus consideráveis ​​recursos financeiros para comprar toda a terra circundante à sua e utiliza mercenários armados para aterrorizar ou matar qualquer pessoa que não ceder às suas propostas de compra.

E Tollinger entra na cidade para descobrir que sua reputação o precede. Ele acaba contratado pelo conselho local para frustrar os planos de Holman e seus lacaios, que também habitualmente têm perturbado a paz. Tollinger aceita o trabalho contanto que tenha controle total sobre os métodos que emprega, o que inclui a regra “sem armas na cidade” e também um toque de recolher. Em pouco tempo, os empresários que o contrataram estão reclamando que agora as coisas estão pacíficas demais e seus negócios vão de mal a pior.

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Enquanto isso, os pistoleiros de Holman não demoram muito para testar Tollinger, que prova ser rápido e certeiro o suficiente para se defender. Mesmo quando seus adversários estão maior número. O filme também investe bastante tempo na relação que Tollinger estabelece com um jovem casal prestes a se casar: a adorável Stella Atkins (Karen Sharpe) e seu noivo cabeça-dura Jeff Castle (John Lupton), que continua a desafiar os homens de Holman e acaba seriamente ferido por sua recusa em ceder suas terras.

Tollinger também encontra na cidade sua ex-mulher, Nelly (Jan Sterling), que administra o bordel local. Os dois não ficam lá muito felizes em se ver, e quando Nelly revela um segredo chocante sobre sua filha, Tollinger enfurecido resolver tocar o terror pra cima da bandidagem.

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ARMADO ATÉ OS DENTES sofre de um título original brando, sem muita inspiração e genérico (MAN WITH THE GUN). Mas o filme em si é bastante envolvente. Mitchum está ótimo como sempre, fazendo um personagem bem mais complexo que a impressão superficial sugere. E já nessa fase inicial da carreira havia evidências claras de um astro sendo lapidado. O elenco de apoio também é muito bom, especialmente alguns atores como Henry Hull (O LOBISOMEM DE LONDRES), Emile Meyer (OS BRUTOS TAMBÉM AMAM), James Westerfield (SINDICATO DE LADRÕES) e outros rostos familiares da época (incluindo um jovem Claude Akins). O filme, habilmente dirigido por Richard Wilson (talentoso assistente de Orson Welles), certamente não é nenhum clássico espetacular, mas por outro lado, é sólido, divertido e tem Robert Mitchum fazendo a alegria da moçada.

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RIP ROGER MOORE (1927-2017)

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TWIN PEAKS – PRIMEIRAS IMPRESSÕES DA NOVA TEMPORADA

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No último episódio da segunda temporada, Laura Palmer (Sheryl Lee) diz ao agente Cooper (Kyle MacLachlan) que dentro de 25 anos eles se veriam novamente. E ontem, finalmente, isso aconteceu. Fui surpreendido ao assistir aos episódios 1 e 2 da nova temporada de TWIN PEAKS. Mas quem não foi? Eu imaginava que seria um “retorno” ao mesmo universo da série como uma espécie de “soft reboot“, esperando talvez um apanhado do que já vimos antes, mostrando aquele mesmo mundinho fascinante da cidade do título na atualidade, com seus novos mistérios, mas com os mesmos personagens envelhecidos. No entanto, David Lynch e Mark Frost  resolveram foder com a mente de todo mundo com algo totalmente novo. Os caras romperam as fronteiras da pequena Twin Peaks e todos os seus mistérios bizarros, surreais e sobrenaturais já não cabem dentro da pequena cidade.

Logo no primeiro episódio somos levados à Nova York, no alto de um prédio muito bem protegido por sistemas de segurança e guardas, onde Sam (Ben Rosenfield) mantém  várias câmeras gravando uma grande caixa de vidro vazia selada. No Black Lodge, um distúrbio está desequilibrando a estabilidade dessa célula espiritual onde o Agente Especial Dale Cooper se encontra preso durante todos esses 25 anos. Já o Cooper “do mal” – agora possuído por BOB, como confirmado no último episódio da segunda temporada, quando Cooper bate a cabeça contra a parede, lembram? – viaja pela América recrutando ou acompanhado de pessoas que me parecem estar possuídos pelos mesmos espíritos que habitavam os entornos de Twin Peaks. Chamado de Mr. C no episódio 1, o sujeito se envolve com personagens esquisitos, assassinatos e busca por misteriosas coordenadas… Ou seja, é o personagem mais foda até agora, mesmo sem entender muito bem suas motivações.

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Além disso, um assassinato hediondo põe uma pequena cidadezinha em estado de choque e o diretor da escola (Matthew Lillard) atrás das grades, mesmo jurando não ter cometido tais crimes. Apesar de ter sonhado com o fato…

Acho que já dá pra perceber que a trama do novo TWIN PEAKS afasta-se do estilo “novelesco” que marcava as temporadas anteriores. Agora, Lynch e Frost parecem mais ligados aos dramas policiais da atualidade (CSI, TRUE DETECTIVE), mas com o estilo bizarro e surreal de Lynch, além do sobrenatural que sempre fluiu à série. Vai ser interessante ver como esses elementos se reúnem em TWIN PEAKS 2017 e ver como eles coagulam dentro da querida cidade de Twin Peaks.

Há uma quantidade considerável cenas e imagens intrigantes, excêntricas e aparentemente soltas e deslocadas da trama, que sempre marcaram o estilo de Lynch. Ele e Frost deixam as coisas sempre abertas, vão soltando pistas visuais e apontando pra elementos que a princípio é só mais uma maluquice da mente dos criadores. Mas que depois se revelam essenciais. É uma série que vai precisar da sua plena atenção.

É curioso também ver os crueis efeitos do tempo nos atores. Parece que estamos reencontrando velhos amigos, mas ao mesmo temo bate certa melancolia, como por exemplo, ao ver a senhora do tronco (Catherine Coulson), já tão frágil. É de estraçalhar o coração sabendo que a atriz se foi pouco tempo depois… Várias outras figuras da série original são as caras por aqui e ainda não dá pra saber a importância de cada um deles nessa expansão.

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Enfim, TWIM PEAKS está de volta com seu universo ampliado, com novos e velhos rostos e muito mais macabro e sombrio. Nem os episódios mais sombrios das duas primeiras temporadas chegam no nível de terror que, por exemplo, a sequência da caixa de vidro do primeiro episódio deste aqui. Não quer dizer que seja melhor, ou pior, é apenas uma característica que vale a pena destacar.

Atualmente, eu não tenho acompanhado série alguma. Mas parei tudo pra poder acompanhar TWIN PEAKS e estou bem feliz pelo resultado até agora. E mais feliz ainda pelo retorno de David Lynch atrás das câmeras, nem que seja numa série. Já que declarou que nunca mais faria filmes de novo, pode ser que seja a oportunidade de ver a obra final de um diretor que sempre admirei.

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