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THE VOID (2016)

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Pedi algumas sugestões de filmes da safra mais recente pela página do facebook do blog  que o leitor gostaria de ver por aqui e recebi uma enxurrada de títulos os quais aos poucos vou comentando. Alguns eu até já tinha assistido, como o filme novo do Paul Schrader, FIRST REFORMED, ou o terror indie THE INVITATION, e até mesmo THE VOID, de Jeremy Gillespie, Steven Kostanski, que é o primeiro que vou comentar.

THE VOID foi concebido através de um Kickstarter que conseguiu levantar um orçamento suficiente para a produção de um longa-metragem, cheio de efeitos especiais práticos à moda antiga de dar inveja a qualquer superprodução recheada de CGI e que tem suas influências bem definidas num encontro entre John Carpenter, Clive Baker, Lucio Fulci e H.P. Lovecraft. Na trama, o policial Daniel Carter (Aaron Poole) está quase finalizando seu turno quando vê um homem cambaleando e caindo para fora de uma floresta à beira da estrada. Ele pega o sujeito em sua viatura e dirige-se ao pronto-socorro mais próximo, que é justamente o único setor que ainda opera perfeitamente no hospital depois que um incêndio danificou severamente o prédio.

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Chegando no local, o inferno começa: figuras vestidas de branco, que se assemelham a uma seita, começam a brotar gradativamente em volta do hospital, cada vez mais cercando o local, e dois homens aparecem bastante empenhados em matar o sujeito que Carter ajudou… No entanto, podem acreditar, esses são os menores problemas enfrentados por aqui. O caldo realmente engrossa quando os personagens são forçados a se defender de uma ameaça sobrenatural que assola as profundezas do hospital.

Os diretores Jeremy Gillespie e Steven Kostanski são dois membros do coletivo canadense Astron 6, que realizou algumas obras interessantes que misturam ação/horror/sci-fi com boas doses de humor, sempre homenageando o cinema de gênero cultuado dos anos 70 e 80, como é o caso de FATHER’S DAY, MANBORG e o sensacional THE EDITOR. Em THE VOID eles deixam a faceta humorística de lado e se preocupam em fazer um horror atmosférico realmente aterrador, com boas doses de ação e momentos perturbadores que remetem a filmes como HELLRAISER, de Cliver Barker, e THE BEYOND, de Lucio Fulci.

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A fórmula não é nada original, é um básico “terror de cerco”, com personagens barricados num local fechado, lidando com ameaças internas e externas, sobrenaturais ou não, como nos clássicos de John Carpenter ASSALTO A 13º DISTRITO e PRÍNCIPE DAS TREVAS. Embora narrativamente frágil, da premissa muito vaga e um trabalho superficial com os personagens, THE VOID acaba investindo – e sendo bem melhor sucedido – em propiciar uma experiência de terror puro, um pesadelo filmado, sem se preocupar com o sentido das coisas, mas que compreende com inteligência o que torna o horror de Lovecraft tão inquietante. É um dos melhores filmes que captura a sensação desse estilo específico de horror lovecraftiano desde FROM BEYOND, de Stuart Gordon. THE VOID traz de volta o melhor do horror cósmico.

E eu sei que não é um boa maneira de elogiar um filme, mas uma das melhores coisas de THE VOID é a galeria de posters que o pessoal de marketing do filme desenvolveu. Dá vontade de pendurar tudo na parede. Seguem alguns:

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R.I.P BURT REYNOLDS (1936-2018)

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FILMOGRAFIA SELECIONADA:

NAVAJO JOE (1966), Sergio Corbucci
100 RIFLES (1969), Tom Gries
SHARK! (1969), Sam Fuller
AMARGO PESADELO (Deliverance, 1972), John Boorman
PAIXÃO PELO PERIGO (Shamus, 1973), Buzz Kulik

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AMOR FEITO DE ÓDIO (The Man Who Loved Cat Dancing, 1973), Richard C. Sarafian
CRIME E PAIXÃO (Hustle, 1975), Robert Aldrich
AGARRA-ME SE PUDERES (Smokey and Bandit, 1977), Hal Needhan
LADRÃO POR EXCELÊNCIA (Rough Cut, 1980), Don Siegel (Peter R. Hunt e Robert E. Miller)
CAÇADA EM ATLANTA (Sharky’s Machine, 1981), Burt Reynolds

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CIDADE ARDENTE (City Heat, 1984), Richard Benjamin
STICK (1985), Burt Reynolds
ENCURRALADO EM LAS VEGAS (Heat, 1986), Dick Richards
UM TIRA DE ALUGUEL (Rent-a-Cop, 1987)
MALONE – UM AGENTE IMPLACÁVEL (Malone, 1987), Harley Cokeliss

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DOGMA 95

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Há vinte anos surgiu o movimento DOGMA 95. Alguém ainda se lembra dessa joça? É engraçado que outro dia conversando com alguns amigos e relembrando esse movimento, até hoje percebo que as pessoas cometem equívocos como falar que BREAKING THE WAVES ou DANÇANDO NO ESCURO, ambos do Lars Von Trier, são exemplares do DOGMA. Sinto-lhes informar, mas não são… Acho que ninguém se importa com isso agora passados vinte anos, mas acho que vale uma explicação. O movimento DOGMA 95 surgiu do encontro entre Trier e outro cineasta dinamarquês, Thomas Vinterberg (mais tarde outros diretores dinamarqueses se juntaram como cabeças do movimento), em março de 95, como um manifesto contra os caríssimos enlatados americanos e sua falsidade imagética, celebrando uma linguagem mais pura do cinema, um resgate do cinema sem artifícios, que destacava o valor artístico de produções independentes… No entanto, evidente que se tratava de uma jogada de marketing que buscava dar visibilidade ao cinema independente europeu, especialmente o dinamarquês, na forma de uma provocação.

Marketing ou não, o manifesto consistia num “voto de castidade” formulado em dez regrinhas que precisavam ser cumpridas na realização de um filme. São elas:

  1. As filmagens devem ser feitas em local. Não podem ser usados acessórios ou cenografia;
  2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena;
  3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos – ou a imobilidade – devidos aos movimentos do corpo. O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar;
  4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera);
  5. São proibidos os truques fotográficos e filtros;
  6. O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, etc. não podem ocorrer);
  7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual);
  8. São inaceitáveis os filmes de gênero;
  9. O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. (Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento);
  10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

Em 1998, os filmes começaram a pipocar no Festival de Cannes. Portanto, Vinterberg fez um único filme dentro do movimento, FESTA DE FAMÍLIA, que é o DOGMA #1 e o Lars Von Trier dirigiu seu único exemplar sob o crivo relativo das regrinhas, OS IDIOTAS, que é o DOGMA #2. Por favor, não me venham me falar que DANÇANDO NO ESCURO ou DOGVILLE fazem parte do DOGMA 95.

Nos anos seguintes vários filmes foram surgindo e todos que eram “aprovados” como DOGMA, recebiam um certificado que era colocado logo no início de cada filme:

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Certificado do DOGMA #28, OPEN HEARTS, de Susanne Bier

Toda essa introdução foi para dizer que há alguns dias eu andei revendo os três primeiros DOGMA’s, só pra ver como seria voltar a ter contato com esse tipo de material depois de tantos anos, um tipo de cinema que em determinado período da minha cinefilia se fez muito presente, numa época de descobertas e “atirando pra todo lado”… Até hoje o DOGMA 95 possui detratores que torcem o nariz, por preconceito, má vontade ou por realmente não fazer o gosto do freguês. Eu mesmo não consegui passar do terceiro filme e por muito tempo era um “estilo” que eu não tinha o menor interesse. Talvez ainda não tenha, mas preciso confessar que pelo menos os dois primeiros exemplares me surpreenderam extremamente nessa revisão.

Tanto FESTA DE FAMÍLIA quanto OS IDIOTAS são excelentes, especialmente em suas empáfias provocadoras e perturbadoras. O filme de Vinterberg talvez tenha uma construção narrativa mais interessante e elaborada, com uma trama que te prende do início ao fim, um rigor nas encenações e uma câmera ágil e nervosa que me deixou sem piscar durante toda a projeção. No aniversário de sessenta ano de um respeitado patriarca aristocrata, num casarão isolado no campo, reúne-se todos os parentes do velhote em ritmo de festa. O filho mais velho e distante resolve fazer um discurso, dá a tradicional batidinha na taça de champanhe e solta uma bomba, revelando todos os podres e depravações que seu pai acometera e que resultou no suicídio de uma das filhas do velho. Pensem nas consequências… A maneira como a história de FESTA DE FAMÍLIA vai se desenvolvendo a partir de então, adicionando uma carga de tensão e intensidade gradual, é de deixar mais apreensivo que um terrozão dos brabos…

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FESTA DE FAMÍLIA foi um grande sucesso no Festival de Cannes e ganhou o Prêmio do Júri, provando que fazer bons filmes não é realmente uma questão de dinheiro, mas de talento e, de vez em quando, uma boa dose de radicalismo.

Já no quesito provocação, OS IDIOTAS transforma FESTA DE FAMÍLIA em contos de fadas. Lars Von Trier criou uma das obras mais incômodas e subversivas do cinema contemporâneo ao mostrar um grupo de pessoas que estabelece uma comunidade no qual se realiza um experimento, que consiste em descobrir seus “idiotas interiores”. Ignorando todas as regras sociais, os personagens de OS IDIOTAS deixam suas famílias para viver juntas em uma casa, desfrutando de casos aleatórios e públicos enquanto se comportam como deficientes mentais. Embora esse modo de viver aparentemente lhes proporcione uma oportunidade de redescobrir a felicidade e um “lugar no mundo”, o espectador mais sensível termina o filme atormentado com as imagens ofensivas que Lars Von Trier, sem concessão alguma, apresenta e que colocam à prova a tolerância do público.

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Sequências como a visita de um grupo de portadores de síndrome de Down ou a que o líder do grupo deixa um dos membros nas mãos de uns brutamontes numa lanchonete são exemplos de que o choque em Von Trier nem sempre é leviano ou oportunista, como seus detratores proclamam, e vem sempre bem acompanhado de uma encenação digna, honesta e que mergulha a fundo no campo da reflexão.

Na época de seu lançamento, OS IDIOTAS não foi tão aclamado como FESTA DE FAMÍLIA, gerou reações ambíguas, obviamente pelo seu tom debochado, sua provocação ofensiva e até por conta de algumas cenas sexuais extremas e explícitas. Se FESTA DE FAMÍLIA e OS IDIOTAS tiveram sucesso no resgate de um cinema puro, aí já não sei… Até porque ambos mandam às favas as tais regrinhas do DOGMA e, por exemplo, em OS IDIOTAS temos até momentos com trilha sonora. O que não quer dizer muita coisa, já que o que importa é o resultado: filmes do caralho!

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Revi também o DOGMA #3, MIFUNE, de Søren Kragh-Jacobsen, lançado em 1999, e desta vez já não achei grandes coisas… Ou já fiquei de saco cheio já no terceiro dia consecutivo assistindo DOGMA’s… Ou talvez seja porque os dois primeiros exemplares sejam mais barra-pesada, enquanto MIFUNE mostra uma luz de esperança… O personagem central, após a morte de seu pai, retorna para a fazenda onde cresceu, em algum lugar na Dinamarca, para cuidar de seu irmão com deficiência mental, Rud (impressionante desempenho de Jeper Asholt). Ele contrata uma ex-prostituta, como empregada doméstica, e é até interessante o triângulo de relações humanas que se constitui. Mas a coisa não sai muito disso e lá pelas tantas percebi que o filme não ia chegar a lugar algum. Quando finalmente se estabelece com mais força os conflitos e segredos obscuros são revelados, era tarde de mais e já não tinha muito interesse pelos destinos dos personagens. Vale a pena conhecer MIFUNE, de qualquer forma, especialmente para quem tem curiosidade ou se interessou pelo movimento DOGMA 95.

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Se calhar, comento outros filmes do DOGMA 95, dependendo do interesse do leitor… Senão, paro por aqui. Pra mim tanto faz. Só espero agora que o novo filme do Lars Von Trier chegue logo por aqui, A CASA QUE JACK CONSTRUIU, que é um dos mais aguardados do blog este ano.

THE OTHER SIDE OF THE WIND – TRAILER

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Só pra deixar registrado, saiu o trailer do filme THE OTHER SIDE OF THE WIND, que mencionei aqui outro dia, o tal filme nunca completado dirigido pelo Orson Welles na década de 70 e só agora finalizado graças aos esforços de alguns indivíduos e da Netflix (que justifica sua existência só por ter contribuído com esse projeto).

E o trailer? EXCEPCIONAL!!! Se havia alguma dúvida de qual era o filme mais aguardado por mim este ano, agora já não há mais! Não vejo a hora de poder assistir THE OTHER SIDE OF THE WIND! ORSON WELLES VIVE!!!

 

LANÇAMENTOS CPC UMES FILMES

Os dois últimos lançamentos em DVD da CPC UMES Filmes estão imperdíveis. Em julho tivemos O DESTINO DE UM HOMEM (1959), de Serguei Bondarchuk, e que já estou com o DVD em mãos para conferir:

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SINOPSE: Convocado pelo Exército Vermelho para atuar como motorista de caminhão durante a Segunda Guerra, Andrei é capturado pelos alemães e jogado em um campo de concentração.

Quando retorna ao lar não encontra sua mulher e filhos, mortos pelos fascistas. O fantasma de uma vida sem propósito o atormenta, mas não abala seu espírito. Adaptação do romance homônimo de Mikhail Sholokhov, que ganharia o Prêmio Nobel de Literatura em 1965.

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Em breve comento algo a mais sobre O DESTINO DE UM HOMEM.

O Lançamento de Agosto é O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES (1987), de Alla Surikova.

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SINOPSE: Na alvorada do século 20, Mr. Johnny First chega ao Oeste Selvagem com um projetor e alguns rolos de filme. O título dessa deliciosa sátira ao western way of life é uma alusão ao Salão Indiano do Grand Café do Boulevard des Capucines, onde os Irmãos Lumière encantaram as plateias com sua maravilhosa invenção. O filme foi visto por mais de 60 milhões de espectadores na URSS.

Ambos os filmes já estão disponíveis (CAPUCINES ainda em pré-venda) na loja virtual da CPC UMES FILMES, uma distribuidora que vem fazendo um dos melhores trabalhos de curadoria home video, com filmes que realmente valem a pena ter na estante. E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e seus próximos lançamentos.

BUÑUEL #3: LAS HURDES (1933)

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Na época do lançamento de A IDADE DO OURO, Luis Buñuel foi convidado a ir à Hollywood como “observador”, portanto, não estava presente quando explodiu o escândalo de seu último trabalho, o choque entre a grã-finagem burguesa numa pré-estreia às portas fechadas na mansão do produtor (que não sabia do que se tratava o filme, deu total liberdade à Buñuel, que também não fazia questão nenhuma de lhe contar nada à respeito).

Em Hollywood, as aventuras de Buñuel, sempre rabugento e agressivo a tudo e a todos, duraram pouco tempo. Certo dia, o produtor da MGM Irving Thalberg pediu ao espanhol uma opinião a respeito de um filme falado em castelhano estrelado por uma atriz chamada Lili Damita, e Buñuel lhe respondeu: “Não quero ouvir putas“. Foi expulso de Hollywood e voltou para a Espanha.

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Na sua terra natal, Buñuel leu um livro sobre a região das Hurdes e percebeu material para um novo filme. O problema era arranjar grana depois da recepção de A IDADE DO OURO, nenhum produtor ia arriscar botar dinheiro nas mãos de um inconformado iconoclasta subversivo… O jeito foi ir atrás de alguns amigos e contar com a sorte. Muita sorte. Um desses amigos era um anarquista chamado Ramón Acin que se apaixonou pelo tema de LAS HURDES e disse a Buñuel: “Se eu ganhar na loteria, dou-te tudo para teu filme“. E ganhou! O valor não era exatamente uma fortuna, mas já era um começo. O diretor de cinema Yves Allegret também contribuiu, pagou o aluguel da câmera e Buñuel partiu para Hurdes com seus colaboradores para filmar.

LAS HURDES é um documentário sobre a tal região que dá nome ao filme, na qual Buñuel compreendia que a realidade já era bastante expressiva e surreal suficiente para ficar fantasiando na ficção. Trata-se de uma região remota da Espanha onde, ainda na década de 30, a civilização mal se desenvolveu e o filme mostra como os camponeses locais tentam sobreviver às duras penas nessa realidade. Buñuel consegue criar imagens impressionantes desse cotidiano e até encontra certa lógica surrealista que lhe é tanto peculiar…

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Obviamente é um filme forte para o período pela situação de degradação humana que Buñuel faz questão de mostrar sem qualquer concessão. Só que aí vem a pegadinha genial do diretor. Buñuel recria situações, cenas e “realidades” para enfatizar o todo. Exemplo: há um plano em que o narrador diz que as cabras da região caem com certa frequência do alto dos rochedos e morrem. Exatamente neste momento, o que aparece na tela é uma cabra despencando do alto de um rochedo… E no canto da tela uma fumaça que não fizeram nem questão de tentar esconder, provavelmente de uma espingarda, que alveja o animal e o faz cair morto.

Dessa maneira, LAS HURDES cria um choque de imagem-verdades, que é a essência do próprio cinema. “A câmera mente 24 vezes por segundo“, como diz Brian De Palma. Socialmente, aliás, é muito mais importante para Buñuel mostrar o que podemos chamar de imagem-inquisitório, para acordar o ímpeto de revolta dos espectadores, do que salvar um burro de um enxame de abelhas, uma das cenas que me vem à mente da galeria de “gags” trágicas da narrativa de LAS HURDES, ou evitar a ideia de atirar numa cabra no alto de um rochedo só para filmá-la caindo… Perturbador e fascinante, o documentário não deixa de ser a visão corrosiva de um surrealista.

LAS HURDES tem disponível no youtube, tem só 30 minutos de duração e vale a pena ser visto.

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PULSE (Kairo, 2001)

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Eu já tinha assistido a um filme ou outro do Kiyoshi Kurosawa (nenhuma relação com o outro diretor japonês Akira Kurosawa), cuja reputação sempre me chamou a atenção e o pouco que vi do seu trabalho reafirmava seu talento. Mas só este ano resolvi levar a filmografia do homem à sério e devo ter visto, entre março e maio deste ano, uns quinze filmes do diretor. Um dos que mais me surpreendeu foi PULSE, representativo exemplar da renovação do horror japonês, o chamado “J-Horror”, que ganhou força no final dos anos 90 e início dos anos 2000, com O CHAMADO, O GRITO, ÁGUA NEGRA e tal…

Mas conferindo um filme como PULSE é que se percebe porque Kurosawa é considerado um mestre superior do horror, o maior sopro de originalidade que aconteceu no cinema japonês dos últimos anos (ao lado de Takashi Miike) e que leva à sério a ideia de transformar horror em poesia. Não é a toa que é considerado o mais Tarkovskiniano dos japoneses. E no início dos anos 2000 até eu me rendi ao J-Horror, até porque quando começou a onda de remakes americanos desse tipo de produto eu queria estar antenado e sempre procurava assistir antes as versões originais. No caso de PULSE eu acabei vendo a produção americana e comi bola com o filme do Kurosawa.  Antes tarde do que nunca, filme conferido, erro corrigido.

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É interessantes como PULSE dialoga tão bem com o contexto do período, a expansão da internet e o início da solidão e alienação digital, mas embalado num horror arthouse, nada convencional, que se você assistir esperando tomar sustinhos, vai perder a beleza reflexiva da obra. O uso de metáfora no gênero do horror não é nenhuma novidade, mas no caso de Kurosawa a inserção da alegoria em meio à banalidade do cotidiano tange a transgressão. Em PULSE as linhas violentas do horror são traçadas pelo diretor como análise social: Duas histórias paralelas com personagens que se deparam com manifestações quase física de fantasmas, um surto absurdo de suicídios e desaparecimentos sem explicação da população.

Uma das protagonistas é Michi, cujo colega de trabalho se enforcou. Na casa do rapaz, encontram um disco com um vídeo estranho dele estático parado perto de seu computador. Na outra linha narrativa, seguimos Ryosuke, um jovem que está começando sua aventura em navegação na web, inserindo um CD para iniciar seu provedor de serviços de internet, algo banal que os mais jovens não vão se lembrar, e os mais veiacos como eu talvez sintam certa nostalgia… Quando tudo já está configurado, seu computador imediatamente acessa um site que pergunta “você quer conhecer um fantasma?“, e começam a aparecer vídeos estranhos, aparentemente ao vivo, de pessoas estáticas em ambientes escuros, imagens realmente perturbadoras, tão bizarras quanto o vídeo do colega de Michi.

À medida em que essas duas tramas paralelas vão se fundindo, Tóquio vai gradativamente sendo despovoada em segundo plano. O apocalipse em PULSE acontece de forma sutil, mas no final as ruas e estabelecimentos estão completamente desertos e no horizonte prédios desabitados e uma cidade decrépita como cenário… De vez em quando algum indivíduo se joga de um local muito alto para incrementar ainda mais a atmosfera de desolação.

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Kurosawa não perde tempo tentando explicar o que está acontecendo. Fantasmas, suicídios em massa, eventos que são precisos aceitar dentro do conceito de horror do filme. Durante a narrativa, tomamos conhecimento de alguns detalhes, sabemos que a internet é utilizada pelos espíritos para amenizar a solidão eterna. A reflexão sobre o isolamento e a separação auto-imposta que a tecnologia moderna traz é muito forte em PULSE, onde nos escondemos atrás de uma tela de computador e fazemos apenas as conexões mais superficiais uns com os outros. PULSE explora bem as questões de como a tecnologia e a internet pode nos manter separados em vez de unir. E os fantasmas em PULSE se conectam justamente com as pessoas que se sentem sozinhas e cuja a depressão coletiva possibilita a criação desse vínculo metafísico.

O filme também nunca tenta chocar ou fazer espetáculo a partir da tragédia, mas cria uma atmosfera de isolamento e desesperança com momentos realmente desconfortáveis. Algumas imagens são mais diretas, como a mulher que se joga de uma estrutura numa fábrica, numa das cenas de suicídio das mais realistas que eu já vi. Ou já perto do final, um plano envolvendo um avião em queda que é realmente aterrador. Mas são nos momentos de horror intimista e atmosférico que a coisa fica realmente angustiante. As manchas nas paredes onde as pessoas desapareceram ou se mataram, a maneira como Kurosawa usa a profundidade de campo, o trabalho de luz… A cada sombra ou lugar escuro na tela dá a impressão de estar escondendo uma entidade fantasma que se recusa a se revelar. Pequenos detalhes usados para gelar a espinha do espectador sem precisar apelar para sustos ou clichês do gênero, Kurosawa prefere conduzir o público a um passeio sombrio e angustiante que evidencia gradativa e lentamente as implicações “sociais” da trama.

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O filme foi o maior orçamento que Kurosawa havia trabalhado até então. Numa entrevista para a Fangoria na época, o sujeito disse que após anos desenvolvendo uma carreira relativamente dedicada ao horror durante os anos 90, finalmente teria a oportunidade de fazer algo grande, sem sair de seu estilo intimista. No arremate, ele disse que se o filme não tivesse o sucesso que ele esperava, ele desistiria do gênero. Bom, PULSE acabou mesmo sendo seu filme mais famoso, teve refilmagem nos EUA e Kurosawa não parou de fazer filmes de horror, então acho que a obra teve o resultado que ele queria. Pessoalmente, acho o filme sublime, é quase uma obra-prima do horror contemporâneo pra mim e dentro da filmografia do homem só perde para CURE (1997).

Se bobear, comento outros filmes que andei vendo do sujeito. Kurosawa é realmente essencial para quem curte o gênero e vale a pena acompanhar sua obra mais de perto.

OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU (1976) | CPC UMES FILMES

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Acho que nunca tinha visto um filme tão autêntico sobre ciganos, que faz tanto um estudo realista antropológico desse universo quanto extrai um lirismo, uma poesia imagética cheia de artificialidades e clichês a partir dessa cultura. E tudo funciona lindamente… Produzido pela Mosfilm e baseado no conto “Makar Chudra” (1892), a primeira obra literária publicada pelo escritor russo Maximo Gorky, OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU, de Emil Loteanu, romantiza esse universo habitado por figuras tão enigmáticas, marginalizadas e excêntricas, com uns bigodões de fazer o Tom Selleck morrer de inveja… Figuras sempre festivas, alegres, de espírito livre e aventureiro. Mas também melancólicas e trágicas por natureza.

O filme se contextualiza no final do século XIX, na província austro-húngara da Bessarabia e tem como fio condutor uma história de amor: o ladrão de cavalos cigano Loiko Zobar (Grigore Grigoriu) – “Não há cavalo que Loiko não pudesse roubar e nenhuma garota que pudesse resistir a ele…” que se apaixona perdidamente pela clarividente e sedutora Radda (Svetlana Toma), cujo olhar seria capaz de parar uma manada de cavalos descontrolados. Como pano de fundo, uma região ocupada militarmente que enfatiza o tom opressivo dos poderosos em contraste com a linhagem libertária cigana.

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Sem prezar tanto por um rigor narrativo, é nos costumes culturais, no carnaval de cores, sons, na musicalidade e imagens que desfilam na tela que o diretor Loteanu foca suas atenções e reside o charme de OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU. Algumas de suas imagens grudam na memória e da paixão do ladrão de cavalos por Radda surgem momentos de pura poesia: Radda, de seios nus, tira as suas longas saias coloridas, uma após a outra, e há dezenas delas! Ou o último encontro do casal que termina de maneira digna das mais famosas tragédias de Shakespeare…

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Há também alguma ação, perseguições à cavalo, brigas de facas e situações de perigo… Se OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU tivesse inaugurado um gênero mais movimentado, eu chamaria de “gypsie western“…

Eu já havia ficado embasbacado com o outro filme do diretor moldávio Emil Loteanu, que foi uma dessas descobertas das mais interessantes que fiz nos últimos tempos. Descoberta graças ao lançamento em DVD da CPC UMES FILMES no final do ano passado de UM ACIDENTE DE CAÇA, que eu já comentei por aqui. Agora a distribuidora nos brinda com OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU, mais uma obra peculiar, de rara beleza poética, da coleção “Cinema Soviético” que todo mês a CPC UMES FILMES tem lançado.

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Para conhecer mais o trabalho da distribuidora, descobrir as maravilhas de seu acervo, comprar (que é o mais importante) e saber das novidades, não deixe de visitar a loja on line da distribuidora e também a página no Facebook (aliás, ainda não divulguei o próximo lançamento deles, o que farei ainda esta semana!).

CENTENÁRIO DE ROBERT ALDRICH

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I don’t think violence on film breeds violence in life. Violence in life breeds violence in films.

O ESSENCIAL DE ROBERT ALDRICH:

VERA CRUZ (54)
A MORTE NUM BEIJO (Kiss me Deadly, 55)
A GRANDE CHANTAGEM (The Big Knife, 55)

Angry Hills ,The 1959 b

MORTE SEM GLÓRIA (Attack, 56)
A 10 SEGUNDOS DO INFERNO (Ten Seconds to Hell, 59)
COLINAS DA IRA (Angry Hills, 59), especialmente por causa disso.

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O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (Whatever Happened to Baby Jane?, 62)
O VÔO DA FÊNIX (Flight of the Phoenix, 65)
OS DOZE CONDENADOS (The Dirty Dozen, 67)

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ASSIM NASCEM OS HERÓIS (Too Late the Hero, 70)
O RESGATE DE UMA VIDA (The Grissom Gang, 71)
A VINGANÇA DE ULZANA (Ulzana’s Raid, 72)

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O IMPERADOR DO NORTE (The Emperor of the North Pole, 73)
GOLPE BAIXO (The Mean Machine, 74)
CRIME E PAIXÃO (Hustle, 75)

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O ÚLTIMO BRILHO DO CREPÚSCULO (Twilight’s Last Gleaming,77)
OS RAPAZES DO CORO (The Choir Boys, 77)
O RABINO E O PISTOLEIRO (The Frisco Kid, 79)
GAROTAS DURAS NA QUEDA (…All the Marbles, 81)

* O restante ainda me falta ver ou não são lá tão essenciais…

THE OTHER SIDE OF THE WIND EM VENEZA

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Saiu na semana passada o line up do Festival de Veneza deste ano e, fora de competição, teremos THE OTHER SIDE OF THE WIND. Nunca ouviu falar? Então prepare-se: Trata-se do último filme do gigante Orson Welles nunca completado, talvez a mais lendária e não vista produção de todos os tempos.

Na época, Welles prometeu que THE OTHER SIDE OF THE WIND seria o seu grande retorno triunfal, reuniu um elenco de figurinhas carimbadas, como os diretores John Huston e Peter Bogdanovich, mas também Susan Strasberg, Lilli Palmer, Edmond O’Brien, Cameron Mitchell, Dennis Hopper e por aí vai… As filmagens aconteceram entre 1970 e 1976 e segundo Huston, em sua autobiografia, o set era dos mais pirados que ele já pisou e que Welles simplesmente não tinha roteiro definido, portanto uma desorganização criativa pairava no ar ao mesmo tempo em que andava de mãos dadas com a poesia fílmica de seu diretor. Mas as fontes independentes de financiamento eram diversas e não muito confiáveis, a produção do filme se arrastou por muitos anos e Welles ainda tentava completá-lo quando morreu em 1985.

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Rymsza inventariando os rolos de THE OTHER SIDE OF THE WIND

Com a ajuda da Netflix, ano passado houve um esforço de crowdfunding que arrecadou 400 mil dólares para concluir essa obra final de Welles. O gerente de produção original do filme, o produtor Frank Marshall, supervisionou a conclusão do projeto, trabalhando em conjunto com o cineasta Filip Jan Rymsza, que foi um dos principais nomes na captação de recursos para esta finalização. Peter Bogdanovich, que era amigo de Welles, trabalhou diligentemente por muitos anos para completar THE OTHER SIDE OF THE WIND, mas sempre encontrou obstáculos e agora serviu de consultor no projeto Netflix. As poucas pessoas que chegaram a ver alguns trechos que Welles conseguiu completar na época de sua morte, apresentaram opiniões contraditórias, alguns dizendo que é um filme estranho e desanimador, enquanto outros o proclamam uma obra de gênio.

THE OTHER SIDE OF THE WIND passa então em setembro no Festival de Veneza e logo depois deve entrar na grade do Netflix. E se não entrar no Netflix Brasil, pelo menos já teremos outros meios de conseguir… Provavelmente, a melhor notícia do ano.

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10 ANOS NA TELA

O blog DEMENTIA 13 chega ao seu décimo aniversário hoje. Cansado, desanimado, sem tempo para atualizações mais frequentes e conformado de que a batalha está perdida. O facebook e redes sociais acabaram com este formato de blog, ninguém mais se interessa e é preciso reformular a coisa, se reinventar para ser notado, para conseguir acessos, para ter mais de cinco ou seis leitores.

Há vários meses venho refletindo se este aqui não seria o último post do DEMENTIA 13. Porque não tenho tempo nem ânimo para me reinventar. Mas depois cheguei a conclusão de que ainda vale a pena manter o reduto, meu último refúgio, um cantinho legal que criei ao longo desses dez anos para expressar minha paixão pelo cinema e vai continuar sendo por um bom tempo ainda… Eu acho. Mesmo desse jeito, retrô e ultrapassado, sem grandes atrativos e de conteúdo torpe.

O que posso fazer é tentar renovar as forças, tentar voltar as origens do blog, com a ideia intransigente de compartilhar um painel de prospecção do cinema desconhecido e esquecido, conservando o espírito de confraria e trazer à tona algumas pepitas que valem a pena propagar. Obras, diretores, artistas e atores transgressores e subestimados que sempre tenho encontrado por aí nesse abismo de obscuridades… Enfim, recomeçar os próximos dez anos com o pé direito.

Para vocês, cinco ou seis leitores que ainda me acompanham, espero não decepcioná-los. Para quem chegou agora, seja bem-vindo.

Ronald Perrone
Editor

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ENCONTRARAM UM ROTEIRO PERDIDO DE STANLEY KUBRICK

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Não sei bem o que vão fazer com isso agora, mas um roteiro perdido escrito pelo diretor Stanley Kubrick e pelo romancista Calder Willingham, em 1956, foi descoberto pelo escritor Nathan Abrams, enquanto pesquisava e colhia material para um livro que está elaborando sobre a produção do último filme de Kubrick, DE OLHOS BEM FECHADOS. De acordo com Abrams, o tal roteiro foi baseado em “Burning Secret“, um romance de 1913, do escritor austríaco Stefan Zweig, e Kubrick e Willingham adaptaram-no à sociedade americana contemporânea dos anos 50. Só que o roteiro lidava com temas espinhosos e controversos demais para o período: um homem de 30 anos faz amizade com um garoto pré-adolescente com a intenção de usá-lo para ter acesso à sua mãe casada, na esperança de se tornar seu amante. O projeto surgiu num momento em que Kubrick estava começando a carreira como diretor e ainda não tinha a reputação aclamada que teve posteriormente, nem tinha influência nos estúdios. BURNING SECRET chegou a ser considerado pela MGM, mas a produção nunca ganhou sinal verde, possivelmente por causa da sensibilidade do tema em 1956.

Uma versão do romance de Zweig, baseada em outro roteiro, diferente da que fora escrita pelo diretor de LARANJA MECÂNICA, chegou a ser filmada em 1988 pelo ex-assistente de Kubrick, Andrew Birkin. No Brasil chama-se O SEGREDO DE UM HOMEM e tem Klaus Maria Brandauer e Faye Dunaway no elenco.

RIO GRANDE (1950)

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RIO GRANDE fecha a “Trilogia da Cavalaria” de John Ford, formada por outros dois filmes que já comentei por aqui: SANGUE DE HERÓIS (1948) e LEGIÃO INVENCÍVEL (1949). Todos estrelados por John Wayne. Aliás, Wayne reprisa o mesmo personagem do filme de 48, Kirby York, um tenente da cavalaria dos Estados Unidos, que dirige um posto na luta contra os Apaches ao redor do Rio Grande, que faz a fronteira entre EUA e México.

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Em meio às tensões da guerra contra os índios, o filho de York de 16 anos, Jeff, o qual ele não via desde que era um bebê, aparece no posto como um dos novos recrutas. O que dá uma balançada no duro coração do sujeito, dividido entre a devoção e o dever de um Tenente e o desejo proibido de se reaproximar do filho. E as coisas ficam ainda mais complicadas quando a ex-mulher de York, Kathleen (Maureen O’hara), retorna para levar seu filho para casa.

O argumento de RIO GRANDE é muitas vezes apontado como uma metáfora do conflito na Coreia que rolava na época (Ford até viria a fazer um documentário sobre o tema pouco depois, chamado THIS IS KOREA!) e acaba sendo, dos filmes da trilogia, o que lida mais diretamente com a ação, com sequências de batalhas, ataques dos índios, no tom de aventura e diversão.

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As sequências do ataque noturno ao acampamento e, depois, à caravana são desses momentos primorosos que demonstram a genialidade de Ford em filmar cenas de ação. Mas assim como os filmes anteriores (na verdade, toda a filmografia de Ford), a ação acaba sendo bem menos importante do que outras possibilidades que parecem interessar ao diretor, como a relação de York com seu filho e principalmente de York com sua ex-mulher, um retrato maduro de um casal que se ama em silêncio, mas que já não pode viver sua união.

E aí Ford deita e rola nessa situação, com alguns dos momentos mais tocantes do filme. Gosto especialmente da sequência da serenata, os soldados cantando “I Will Take You Home, Kathleen“… de deixar qualquer um marmanjo com os olhos marejados. Ou a cena em que York lasca um beijo desajeitado em Kathleen dentro de sua tenda, e logo depois pede desculpas…

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Alguns personagens secundários também se destacam, como Tyree, vivido por Ben Johnson, um procurado pelos xerifes da região que acabou se alistando, mas por ser um ás na montaria e com um revolver na mão, acaba ganhando as graças de York. E quando o sujeito salva Jeff das mãos dos índios, abatendo três de forma ágil, percebe-se que o sujeito não tá para brincadeiras. É um dos pontos altos das sequências de ação em RIO GRANDE. No elenco, ainda temos Harry Carey Jr. e o habitual colaborador de Ford, Victor McLaglen, sempre fazendo o alívio cômico.

A fotografia que retorna ao preto e branco por aqui – depois de Ford realizar uma pintura cromática em LEGIÃO INVENCÍVEL – é tão bela quanto a de SANGUE DE HERÓIS e reforça as palavras do crítico de cinema Tag Gallagher, talvez o maior especialista em Ford, de que RIO GRANDE seja o básico do básico do diretor – tão óbvio tecnicamente, mas tão bem sucedido, tão essencial dentro de uma filmografia autoral como a de Ford, que talvez seja um dos melhores exemplares de inicialização, ou seja, para ter um contato inicial com a obra do diretor.

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RIO GRANDE está disponível no Brasil em DVD pela Classicline.

DVD REVIEW: A CRIADA (2016); A2 FILMES

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Eu gosto pra cacete do diretor coreano Park Chan-Wook. Vocês não? Só que parece que ele nunca mais vai fazer algo do nível de um OLDBOY (03) ou SYMPATHY FOR MR. VENGEANCE (04), obras que colocaram o sujeito no mapa. Mas isso não quer dizer que Park deixou de fazer bons filmes e obviamente recomendo a apreciação de seus trabalhos posteriores… com algumas exceções. Mas para quem já é fã do homem, vai aí uma dica: A CRIADA, último filme de Park, foi lançado em DVD no Brasil pela A2 Filmes, através do selo Mares.

A CRIADA é um thriller com viés feminista baseado no romance de estilo vitoriano Na Ponta dos Dedos, de Sarah Waters, só que transferido para a Coreia ocupada pelos japoneses na década de 30.

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A belezinha Kim Min-hee da foto acima interpreta a herdeira Lady Hideko, que vive isolada e dominada por seu tio cruel, Kouzuki (Cho Jin-woong), que cobiça sua herança. A moça nunca sai da propriedade da família e seu único contato com pessoas de fora é numa série de leitura semanal de literatura erótica para convidados exclusivos, que é forçada a participar pelo seu tio.

Entonces, as coisas mudam um bocado quando entra em cena um casal de vigaristas que elaboram um esquema para botar as mãos nos dotes da moça. Kim Tae-ri interpreta uma ladra talentosa que é contratada como criada da mansão e Ha Jung-woo é um vigarista esperto que se finge Conde. O esquema é fazer com que Hideko se apaixone pelo falso conde e assim meter a mão na grana.

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Só que as coisas não saem exatamente como planejado e ao invés de se apaixonar pelo vigarista, o jogo de sedução acaba rolando entre as duas moças… A falsa criada começa a pensar duas vezes sobre o esquema enquanto cresce sua relação com Hideko, e a curiosidade de Hideko sobre o amor/sexo logo resulta nas duas mulheres compartilhando uma cama em sequências muy calientes. Logo, a farsa toma novos contornos numa intrincada narrativa de pontos de vistas e reviravoltas mirabolantes.

O que se segue é um filme sobre essas duas personagens femininas, que lutam contra os homens numa cultura tão dominadora, para se livrar de suas correntes e reivindicar seu próprio destino.

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A única coisa que me incomoda um pouco em A CRIADA é lá pelas tantas perceber que Park exagera um pouco na duração e uma sutil enxugada daria mais ritmo à narrativa, que já é lenta pela natureza do estilo do diretor – o que não é uma crítica, a câmera, os planos, tudo tem uma lentidão poética que faz muito bem ao filme – mas uns 15 minutos a menos teriam ajudado. Mas é preciso destacar algumas coisas que compensam esse pequeno incômodo: a intricada trama nunca deixa de ter interesse, as atuações, o trio de protagonistas funciona maravilhosamente bem e as duas atrizes tem muita química, especialmente nas cenas de sexo. Fazia tempo que não via no cinema mainstream recente cenas de lesbianismo tão excitantes. A fotografia é impecável, a direção de Park demonstra o trabalho de um artista consciente, que sabe contar uma história e ainda agradar aos olhos. E chega, today let’s keep it short, baby.

Como disse antes, a A2 Filmes lançou A CRIADA em DVD por aqui. Podem procurar que vão encontrar nas melhores lojas do ramo. Vale a pena ter um desses na coleção. Park Chan-Wook é sempre obrigatório. Não deixe de curtir também a página da distribuidora no Facebook para ficar por dentro das novidades.

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TONIGHT FOR SURE (1962)

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Se você cavucar o início de carreira de algumas figuras consagradas do cinema, pode ser que encontre alguns esqueletos enterrados. O diretor Francis Ford Coppola é um desses casos e, pouca gente sabe, mas muito antes de se tornar um dos principais autores do cinema americano pós-anos 70, com obras-primas grandiosas como O PODEROSO CHEFÃO e APOCALIPSE NOW, o sujeito já tinha uma filmografia cheia de produções questionáveis do cinema exploitation, B-Movies esquecidos e hoje pouco comentados, trabalhou até como pupilo de Roger Corman (inclusive o filme que dá nome ao blog, o horror DEMENTIA 13, é um trabalho pouco lembrado de Coppola). Mas nada que o diretor tenha que se envergonhar também, TONIGHT FOR SURE por exemplo, é bem melhor que um YOUTH WITHOUT YOUTH ou JACK, trabalhos que Coppola realizou já tendo seu nome celebrado.

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TONIGHT FOR SURE é um típico “Nudie“, gênero do sexploitation que surgiu no fim dos anos 50 no cinema americano e cuja principal função era explorar corpos femininos em completa nudez. É evidente que na época devia fazer alguns marmanjos correrem atrás desse tipo de material, mas vistos hoje, são filmes bem ingênuos, a maioria filmadas em campo de nudismo ou boates de striptease, sem erotizar muito as situações. Pepecas e manjubas nunca eram mostradas e o que se via era predominantemente seios e bundas balançados em jogos de vôlei, à beira de piscinas ou em apresentações burlescas de striptease… Curioso que um dos principais representantes na direção do gênero era uma mulher, Doris Wishman, que realizou um bom número de exemplares, como NUDE ON THE MOON. E, pois é, pode acreditar, é esse o tipo de filme que o Coppola fez por aqui.

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A trama é sobre dois sujeitos moralistas que se encontram e decidem lutar contra a crescente onda de luxúria no mundo. Um deles é um caipira que entra na cidade em um burro atrapalhando o trânsito, o outro é um dândi engomadinho da cidade grande. Com a intenção de algum tipo de desordem que repercuta na pouca-vergonha que o mundo se encontra, eles entram num Club de striptease antes do show começar e, na surdina, prendem algo na caixa de rede elétrica, programada para detonar à meia-noite.

Enquanto esperam pela detonação, eles se sentam na boate e trocam histórias sobre os males do pecado e das mulheres lascivas (e claro, enquanto estão tagarelando, garotas burlescas estão se exibindo no palco atrás deles e gradativamente eles vão se aproximando, sentando em mesas mais perto das mulheres que se apresentam). O caubói relata como um amigo passou a ter ilusões “terríveis” em que todas as mulheres ao seu redor estavam nuas. O outro conta sua história, se revelando um devasso que prega a moralidade como uma desculpa para bancar de voyeur num estúdio de fotografia Pin-Up.

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Com apenas uma hora de projeção, TONIGHT FOR SURE não possui nenhuma sutileza, os homens são caricatos e idiotas e as mulheres são carne. A única pretensão de Coppola aqui é criar situações para mostrar alguns peitos de fora. Só isso. A direção de Coppola, então com pouco mais de vinte anos, é pesada, com um lampejo ou outro de criatividade num ângulo ousado ou movimento de câmera (a fotografia é do grande Jack Hill, futuro mestre do exploitation americano e que na época era colega de classe de Coppola na UCLA), mas ninguém poderia prever que o mesmo sujeito fosse virar referência de autorismo dez anos depois, que ganharia o Oscar de melhor diretor, que venceria Cannes!

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Os atores são horríveis, o humor do filme é pastelão da pior qualidade e a produção é bem pobre, mas até que dá pra tirar um sarro e se divertir um bocadinho. E mais um detalhe positivo, Coppola pelo menos encontrou alguns mulheres bem mais apetitosas que as habituais habitantes que povoam os Nudies.

Mas no fim das contas, TONIGHT FOR SURE é só mais um exemplar mediano do gênero que eu nunca teria sequer contato caso não fosse dirigido pelo Coppola. Vale pela curiosidade para conhecer as raízes capengas de um grande mestre.

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THRILLER – UM TOP 10

Tava de papo com uns amigos e surgiu o assunto sobre o gênero conhecido como “thriller“. A princípio, por definição, um thriller seria um “suspense”, ou o suspense que não dá medo suficiente pra virar um filme de horror e nem movimentado o suficiente pra virar um filme ação. Mas acho que a melhor maneira de definir a coisa seria fazendo uma lista com o que eu chamo de thriller puro para entender a essência do gênero.

Para essa lista, com o thriller mais afunilado e específico, filmes que considero policiais/crime/neo-noir/ação, como DIRTY HARRY, GET CARTER e THE DRIVER deixei de fora, assim como suspenses com um pezinho no horror, tipo TUBARÃO, DELIVERANCE ou PLAY MISTY FOR ME. Não tô dizendo que não são thrillers, apenas não quero abranger tudo que as convenções consideram thriller.

Partindo disso tudo, meu top 10 thrillers seria mais ou menos isso aí… Ou seja lá o que eu quero dizer com isso tudo e com esse post.

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UM TIRO NA NOITE (Brian De Palma, 1981)

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O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (Fritz Lang, 1941)

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UM CORPO QUE CAI (Alfred Hitchcock, 1958)

01.UM TIRO NA NOITE (Blow Out), Brian de Palma
02.O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (Man Hunt), Fritz Lang
03.UM CORPO QUE CAI (Vertigo) ou JANELA INDISCRETA (Rear Window), Alfred Hitchcock
04.PROFISSÃO: REPÓRTER (Professione: Reporter) ou BLOW UP, Michelangelo Antonioni
05.A CONVERSAÇÃO (The Conversation), Francis Ford Coppola
06.O AMIGO AMERICANO (Der amerikanische Freund), Wim Wenders
07.O TERCEIRO HOMEM (The Third Man), Carol Reed
08.BUSCA FRENÉTICA (Frantic), Roman Polanski
09.ESPECIAIS EFEITOS (Special Effects), Larry Cohen
10.HARDCORE, Paul Schrader

HEREDITÁRIO (2018)

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Tenho visto e revisto um monte de coisa, filmes novos e velharias, mas e tempo pra escrever? Às vezes parece fazer mais sentido não escrever nada… E o blog vai sendo empurrado… Mas essa semana fui ao cinema e assisti a esse tal HEREDITÁRIO, do estreante Ari Aster, e acho que vale um pequeno comentário. É a nova sensação do horror que, embora eu tenha conseguido evitar saber qualquer coisa para ir “virgem” à sala de cinema, deixar-me surpreender, acompanhei as reações calorosas – algumas nem tanto – de amigos e que mexeram um bocado com a minha expectativa. Sabem como é, não é preciso muita coisa para alegrar este pobre coração, especialmente com um filme de horror. Mas HEREDITÁRIO é fantástico e não consegui desgrudar os olhos da tela durante toda a sessão.

Aster dirige bem para um estreante, é bom ficar de olho no sujeito. Tem noção de como trabalhar o tempo, os enquadramentos, como usar a trilha sonora, mas também o silêncio, e constrói uma atmosfera perturbadora em HEREDITÁRIO que me fascina. Gosto como o horror vai evoluindo dentro da trama de maneira gradual, subvertendo as expectativas, a partir de um drama familiar pesado que já é aterrorizante por natureza, com seu tom de tragédia, numa parábola sobre perda e degradação, cuja intensidade já deixaria vários filmes do gênero no chinelo. Isso até chegar num ponto em que a coisa descamba de vez para um horror mais explícito, mais hardcore. O ato final é de gelar a espinha.

Não é nenhuma obra-pima como alguns apontaram – compararam até com A BRUXA, que acho bem superior a este aqui e até tem algumas coisas no final que remetem um filme ao outro – mas não tenho muito o que reclamar, é uma obra redonda, muito bem pensada nos detalhes e alguns momentos são realmente memoráveis. A cena do acidente de carro, por exemplo, é irresistível, as aparições sutis, os sonhos… Gosto muito também da sequência na qual a mãe, interpretada pela Toni Collette, resolve fazer uma DR na mesa de jantar. Collette, aliás, está monstruosa e grande parte da força de HEREDITÁRIO é por causa da sua entrega apaixonada pela personagem. Seria pedir muito, à essa altura, uma indicação ao Oscar? De qualquer forma, recomendo. Um dos melhores filmes que vi este ano até o momento.