ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.11: AND WHEN THE SKY WAS OPENED (1959)

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AND WHEN THE SKY WAS OPENED foi realizado quando a chamada corrida espacial estava à pleno vapor. O homem ainda não havia saído da estratosfera terrestre – algo que só viria a acontecer dois anos depois, em 1961, ironicamente com a Rússia saindo na frente com o astronauta Yuri Gagarin… Mas antes disso, os americanos ainda sonhavam em ser os primeiros a chegar tão longe. O que era um material fértil para a literatura sci-fi e filmes e séries de ficção científica. Óbvio que uma série como ALÉM DA IMAGINAÇÃO não ficaria de fora.

Quando o criador da série e principal roteirista, Rod Serling, escreveu o script de AND WHEN THE SKY WAS OPENED, ninguém poderia ter certeza do que aconteceria quando os homens se aventurassem no espaço. E toda a trama, que é intrigante e segura o espectador do início ao fim, gira em torno da exploração do pavor pelo desconhecido.

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Três astronautas retornam do primeiro vôo espacial realizado nos EUA. Major Gart (Jim Hutton) é hospitalizado com uma perna quebrada, mas os outros dois, Harrington (Charles Aidman) e Forbes (Rod Taylor), estão bem e resolvem comemorar a empreitada numa noitada num bar. No entanto, Harrington subitamente começa a ter um sentimento estranho. Ele vai a uma cabine telefônica e liga para seus pais, que atendem e dizem que eles não têm filhos. De repente, Harrington desaparece literalmente, sem que alguém lembrasse da sua existência, exceto Forbes.

Quando Forbes conta essa história a Gart no hospital, este último também diz que ele nunca ouviu falar na vida de um tal de Ed Harrington, o que deixa Forbes completamente devastado. De repente, Forbes tem uma sensação peculiar, como a de Harrington antes de desaparecer, e sai gritando pelos corredores do hospital. Gart chega ao corredor, mas já é tarde, Forbes também desapareceu e ninguém mais tem qualquer lembrança de sua existência, exceto Gart, que não demora muito, desaparece e, com ele, a nave que os levou pra fora da terra, limpando a última evidência da aventura.

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O roteiro de Serling para AND WHEN THE SKY WAS OPENED foi baseado no conto de Richard Matheson, “Disappearing Act” (que aparece na sua coletânea Third From the Sun), mas só mesmo uma ideia superficial foi utilizada por Serling no episódio. Na história original, temos um escritor sem sucesso que acha que as pessoas em sua vida, uma por uma, estão desaparecendo e só ele se lembra delas. Ele, em algum momento, também acaba por desaparecer. Ao comparar o episódio com o seu conto, Matheson dizia: “Meu  sentimento é idêntico ao que sinto sobre segunda versão do meu romance, I Am Legend (THE OMEGA MAN, com Charlton Heston): está tão distante que não há nada para se pensar.” Curiosamente, não demorou muito, Matherson se tornou um dos principais roteiristas da série.

AND WHEN THE SKY WAS OPENED marca a estréia de Douglas Heyes como diretor em ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Heyes também era músico, pintor, ator, roteirista e habilidoso romancista. Ele começou sua carreira nos estúdios da Disney onde aprendeu a pensar no cinema como uma forma de arte visual, fazendo storyboards de cenas, onde tomou noção como mover a câmera e onde cortar o filme na sala de edição. O movimento fluido da sua câmera se tornaria uma característica definidora de seu estilo como diretor.

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Neste primeiro episódio que realizou, no entanto, seu estilo é mais reservado do que a maioria de seus episódios, até porque o roteiro de Serling foca principalmente na deterioração psicológica de seus personagem, então Heyes simplesmente deixa os atores fazerem a maior parte do trabalho. Mas existem algumas cenas incomuns no episódio que demonstram o talento de Heyes em dar ênfase no mistério e no medo do desconhecido. O uso de alguns elementos visuais são importantes para a narrativa, como o jornal que é constantemente mostrado como prova física do desaparecimento dos personagens.

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Mas os atores são em grande parte o que torna AND WHEN THE SKY WAS OPENED memorável. Charles Aidman e James Hutton estão muito bem, mas Rod Taylor é o tour de force do episódio e o nome mais reconhecível do elenco. Taylor é lembrado por seus papéis em A MÁQUINA DO TEMPO (1960), de George Pal, e OS PÁSSAROS (1963), de Alfred Hitchcock. Sua atuação como Forbes é brilhante, com expressões faciais e maneirismos físicos expressivos, especialmente quando contracena com Hutton, que dão gosto de vê-lo atuar. Taylor manteve uma carreira relativamente bem sucedida no cinema e na televisão até o final da vida. Seu último papel foi como Winston Churchill em BASTARDOS INGLÓRIOS, de Quentin Tarantino. Morreu em 2015 aos 84 anos de idade.

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AND WHEN THE SKY WAS OPENED é um episódio sólido, intrigante e com ótimas performances e boa direção, algo já habitual na série, que sempre escala bons diretores e atores. E Serling, a grande mente por trás de ALÉM DA IMAGINAÇÃO, reconheceu na ficção de Matheson o tipo temático de fantasia que tanto lhe fascinava: o medo do obscuro. E aqui temos um bom exemplo disso.

CARTA BRANCA – ISMAIL XAVIER – IMS

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O Instituto Moreira Sales (IMS) tá com uma programação de filmes bacana que começa esta semana. Entre os dias 17 e 27 de maio, o Cinema do IMS Paulista apresenta um programa de nove filmes escolhidos pelo Ismail Xavier: seus clássicos pessoais, que o acompanharam ao longo de seus 70 anos. Ismail é professor emérito da USP, teórico e crítico de cinema.

Segue a programação:

UM CORPO QUE CAI
Alfred Hitchcock
EUA, 1958, 128 min., 14 anos, DCP
17/05 quinta-feira 19h30
23/05 quarta-feira 21h30

DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU SEI DELA
Jean-Luc Godard
França, 1966, 90 min., 14 anos, DCP
17/05 quinta-feira 22h
27/05 domingo 20h

O ANJO EXTERMINADOR
Luis Buñuel
Espanha, México, 1962, 95 min., 12 anos, DCP
18/05 sexta-feira 19h30
26/05 sábado 18h30

O ECLIPSE
Michelangelo Antonioni
França, Itália, 1962, 126 min., 14 anos, DCP
19/05 sábado 17h
25/05 sexta-feira 19h30

O CASAMENTO DE MARIA BRAUN
Rainer Werner Fassbinder
Alemanha, 1978, 120 min., 14 anos, DCP
19/05 sábado 21h
26/05 sábado 21h

HIROSHIMA MEU AMOR
Alain Resnais
França, Japão, 1959, 92 min., 12 anos, DCP
20/05 domingo 16h40
25/05 sexta-feira 22h

UM HOMEM COM UMA CÂMERA
Dziga Vertov
União Soviética, 1929, 68 min., 12 anos, DCP
20/05 domingo 18h30
23/05 quarta-feira 17h30

O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA
John Ford
EUA, 1962, 123 min., 12 anos, DCP
20/05 domingo 20h
23/05 quarta-feira 19h

MEMÓRIAS DO SUBDESENVOLVIMENTO
Tomás Gutiérrez Alea
Cuba, 1968, 97 min., 14 anos, DCP
22/05 terça-feira 19h20
27/05 domingo 18h

RACE WITH THE DEVIL (1975)

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Os prazeres da descoberta cinéfila são sempre renovadores, especialmente quando se trata de bons exemplares do exploitation americano setentista que hoje quase todo mundo não dá a mínima, como é o caso de RACE WITH THE DEVIL, de Jack Starrett. Um híbrido de ação com horror que é um filmaço. Na verdade, a “descoberta” deste filme específico vai ser de quem ainda não conferiu, porque eu pessoalmente já tive esse prazer há alguns bons anos, mas desde então me pego revendo essa pérola. Então para começar bem o fim de semana, a dica é RACE WITH THE DEVIL, que saiu aqui no Brasil como CORRIDA COM O DIABO.

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Na trama, os bons amigos Roger (Peter Fonda) e Frank (Warren Oates) planejam as melhores férias de suas vidas. Acompanhados pelas suas respectivas mulheres, Kelly (Lara Parker do seriado DARK SHADOWS) e Alice (Loretta Swit, “Hot Lips” do seriado MASH), os dois casais enchem o luxuoso trailer de Frank de cerveja e outros mantimentos e caem na estrada para uma viagem até o Colorado. Num trecho rural do Texas, eles acham um ponto para estacionar e descansar durante a noite. Sob a lua cheia os dois amigos vão à beira de um riacho, jogam conversa fora enquanto enchem o bucho de álcool, quando veem uma enorme fogueira sendo acesa do outro lado do rio.

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Observando a cena de forma, digamos, clandestina, Frank e Roger a princípio pensam que estão testemunhando uma boa e velha putaria de hippies libertinos; várias mulheres peladonas brincando em volta do fogo fazem com que os dois disputem jovialmente os binóculos. Só que a diversão se transforma em horror quando uma moça é esfaqueada por uma figura com uma máscara bizarra em algum tipo de sacrifício humano ritualístico. Os dois sujeitos borram nas calças, metaforicamente falando, e decidem tirar o trailer de lá antes que sejam vistos. Mas é tarde demais – um bando de adoradores do Diabo já está se espalhando pelo rio, correndo direto na direção da dupla.

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Depois da fuga, os casais vão até a delegacia de polícia mais próxima para relatar o que aconteceu. O amável Sheriff Taylor (veterano ator R.G. Armstrong) investiga devidamente o local, mas Frank começa a suspeitar de algo. A força policial local parece tranquila demais, até irreverente eu diria, sobre um possível assassinato de uma jovem numa floresta no meio da noite. O xerife sugere que hippies “fumaram umas cocaina”, estavam de brincadeira e que os dois amigos deve ter se confundido com alguma encenação… Mas aos poucos, vários sinais misteriosos vão sendo deixados aos casais protagonistas, que parecem indicar exatamente o contrário do que a polícia pensa. Não exatamente certo em que acreditar, o quarteto continua suas férias, deixando para trás a horrível experiência daquela noite. Mas parece que nem todo mundo quer “virar essa página”…

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RACE WITH THE DEVIL é uma miscelânea de temas e gêneros muito bem combinados. Temos uma pitada de horror rural do início dos anos 70, como DELIVERANCE, do John Boorman, ingredientes do horror satanista e um bocado de thriller/ação para dar um tempero mais excitante. Na verdade, é curioso pensar que toda a ideia do culto satânico poderia ser facilmente substituído por algum outro tipo de atividade nefasta – contrabando de drogas, escravidão humana, enfim, qualquer coisa – e pouco da trama precisaria ser alterado. Mas o toque de horror dessa mistura de gêneros vem com um gostinho especial, são vários momentos em que as convenções do terror deixam as coisas mais tensas de acompanhar…

A cena do ritual, por exemplo, é bem macabra e os figurantes eram compostos por membros reais de seitas, conforme afirma o diretor Jack Starrett em entrevistas. Se é verdade, eu não sei, só garanto que a coisa toda é uma experiência angustiante. Até porque, em vez de pegar em cheio na jugular, RACE WITH THE DEVIL toma o seu tempo em estabelecer o cenário, em construir os personagens e em aumentar gradualmente o suspense e a tensão.

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A ação mais direta, mais  deflagradora mesmo, não entra em cena até os 15 minutos finais, em uma sequência de perseguição de tirar o fôlego, colocando o trailer dos protagonistas contra um bando de carros e caminhões dirigidos pelos membros da seita. Numa época em que nem se sonhavam nas possibilidades dos efeitos especiais de CGI, é revigorante ver os dublês se arriscando perigosamente ou pirotecnias geradas com explosivos reais em vez de pixels movidos à photoshop. Os carros trombando em alta velocidade no clímax é de encher os olhos e lembram muito o que George Miller faria no seu maravilhoso MAD MAX II, oito anos depois. Não ficaria surpreso se houvesse algum tipo de influência deste aqui sobre a obra do australiano.

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RACE WITH THE DEVIL era inicialmente para ser dirigido por Lee Frost, especialista em filmes baratos daquele período, mas acabou substituído pelo Starrett, que era outra figura que contribuiu bastante com o cinema exploitation. Frost chegou a receber crédito como roteirista, ao lado de Wes Bishop, mas todas as cenas que rodou foram refilmadas por Starrett. O sujeito tinha um estilo eficiente e direto de filmar, sem muita frescura, não se vê virtuosismo e beleza estética nos filmes do Starrett, embora ele consiga extrair sempre algo interessante do seu material. E RACE WITH THE DEVIL é um de seus momentos mais inspirados, sem duvida.

Para quem não sabe, o Starrett também era ator, participou de muita produção de baixo orçamento, mas é mais conhecido por ter vivido o policial sádico que acerta umas pancadas em John Rambo em RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR. O mesmo que cai do helicóptero, que balança quando Rambo acerta uma pedrada… Enfim, só uma curiosidade.

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Por último, vale destacar a presença de dois dos mais significativos nomes do cinema setentista encabeçando o elenco, Fonda e Oates, que estão excelentes como os amigos tranquilos, bem de vida, que só querem um pouco de paz e diversão em família e acabam metidos numa confusão macabra em que precisam chegar aos extremos, pegar em armas e atirar para matar. Já o lado feminino infelizmente acaba não tendo muito destaque, o que é estranho considerando que o movimento feminista estava em plena atividade na metade dos anos setenta; as esposas de Roger e Frank não passam de mulherzinhas completamente indefesas que se põem a gritar e a chorar a qualquer circunstância misteriosa.

Tirando isso, filmaço! RACE OF THE DEVIL Foi lançado em DVD por aqui, mas se não encontrar, procure nos torrents, foda-se, encontre alguma maneira de conhecer este clássico do cinema grindhouse.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.10: JUDGMENT NIGHT (1959)

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Em JUDGMENT NIGHT, um sujeito chamado Carl Lanser (Nehemiah Persoff) se vê de repente num navio percorrendo o oceano Atlântico. Estamos em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, e o sujeito não sabe direito quem é, quem são as pessoas ele encontra – embora tenha a sensação de tê-los conhecido antes – e nem como chegou ali. No decorrer da trama, as coisas vão ficando cada vez mais misteriosas, até porque Lanser, de alguma maneira, tem a certeza de que um submarino nazista está perseguindo o navio e, pela sua premonição, algo vai acontecer à 1h15 da madrugada.

Seus temores acabam se confirmando e exatamente no horário esperado surge um submarino alemão numa ofensiva contra a sua embarcação. Olhando através de binóculos, Lanser tem uma visão aterradora ao perceber a identidade do capitão do submarino… Seu navio afunda, a tripulação é metralhada ainda tentando sobreviver na água, e a consequência de todas essas ações trágicas e sádicas resulta num dos mais perturbadores infernos que a série poderia nos proporcionar.

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O roteiro de Rod Serling para JUDGMENT NIGHT provavelmente foi inspirado no mito do Holandês Voador, a famigerada lenda do navio fantasma cuja tripulação é condenada a vagar pelos mares por toda a eternidade. A diferença aqui é que o tal inferno consiste na sentença de Lanser em reviver o naufrágio daquele navio infinitamente. Noite após noite, o sujeito de repente se vê na mesma situação, sem saber como chegou ali, mas tendo certeza de que à 1h15, vai dar merda…

A direção do episódio ficou por conta de John Brahm, que já havia realizado um dos meus episódios favoritos até aqui, TIME ENOUGH AT LAST, e ainda viria a contribuir pelo menos uma dezena de vezes. Seu trabalho não é tão ousado como a de Robert Stevens (WHERE IS EVERYBODY?, WALKING DISTANCE), com seus enquadramentos entortados, Brahm geralmente era mais sutil e apostava mais no visual sombrio e atmosfera carregada. De fato, JUDGMENT NIGHT parece um pesadelo e por um bom tempo a impressão é que o protagonista vai acordar a qualquer momento.

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Um nevoeiro sempre presente nas externas e o uso de imagens desfocadas contribuem bastante para impressão confusa de Lanser da situação. Brahm usou imagens semelhantes em 1944 para retratar as ruas cobertas de neblina da Londres vitoriana na sua refilmagem de THE LODGER, de Alfred Hitchcock. A sequência do ataque no final também é muito bem conduzida, com explosões e efeitos especiais cuidadosamente utilizados e sem receio algum de chocar o público da época mostrando inocentes passageiros, incluindo mulheres e crianças, sendo destroçados pelo ataque submarino.

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Embora possa ser um pouco previsível, JUDGMENT NIGHT ainda é um ótimo episódio com um roteiro intrigante de Serling, uma performance maravilhosa de Nehemiah Persoff (que ainda está vivo, aos 98 anos), e um momento inspirado do diretor John Brahm. Sem dúvida um dos pontos altos da primeira temporada.

THE BLACK PANTHER (1977)

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Donald Neilson ficou conhecido como o Black Panther. Ele era um cidadão britânico que em meados dos anos 60 resolveu invadir, armado e com uma máscara negra, casas e postos dos correios para praticar roubos, o que ao longo do tempo acabou causando algumas mortes e um notório sequestro de uma garota na metade dos anos 70. Essa história é real e THE BLACK PANTHER, de Ian Merrick, narra com precisão esses eventos.

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A trama faz um retrato perfeito de Neilson, um sujeito obcecado pelo militarismo, colecionador de um verdadeiro arsenal, um ex-soldado que havia lutado em uma guerra na África em que a Inglaterra acabou se envolvendo. A Grã-Bretanha do período foi marcada por desempregos, greves e perspectivas sombrias para os cidadãos, e aqui estava um homem que tentou resolver as coisas por conta própria para poder colocar comida em casa. O filme se estrutura como um estudo de personagem, ainda que raso, sem se aprofundar muito na psicopatia do protagonista, e nos vários assaltos que Neilson cometeu.

Meticuloso, o sujeito realmente acreditava ser um mestre do crime, mas como THE BLACK PANTHER mostra, a realidade era muito diferente. Neilson era um atrapalhado e todos os seus atos terminavam em tragédia mais por conta da sua ineptidão do que por maldade. É até um milagre que seus assaltos tenham durado anos sem que fosse capturado. Se não houvessem tantas mortes em suas mãos, ele seria quase uma figura cômica. Foi uma combinação de erros por parte de Neilson, da interferência da imprensa e de uma força policial muito mal preparada para lidar com a situação que culminou com o assassinato de Lesley Whittle, uma garota herdeira de uma fortuna, que Neilson sequestrou e trancou num poço de drenagem de um local chamado Bathpool Park. Neilson só foi capturado dois meses depois por pura coincidência, em vez de um esforço concentrado por parte da polícia.

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O curioso é que no ano da produção de THE BLACK PANTHER, estes trágicos eventos ainda estavam muito frescos na memória pública. O roteiro foi baseado em relatórios policiais, declarações escritas e transcrições de julgamento, o que confere ao filme um grau de realismo interessante. Se levar em consideração a direção seca e crua de Merrick e o fato da produção utilizar muitos dos locais reais dos eventos, incluindo o Dudley Zoo, onde o criminoso utilizava a cabine telefônica para tentar obter o dinheiro do resgate, e Bathpool Park em Kidsgrove, local onde manteve Whittle em cativeiro, reforça ainda mais uma uma sensação quase documental da obra.

Neilson foi interpretado por Donald Sumpter, hoje conhecido principalmente por seu trabalho na TV, como por exemplo o velho Maester Luwin de Game of Thrones. É uma performance incrível, no que deve ter sido um papel difícil de encarnar, dada a notoriedade de seu personagem na época. E não são poucas as sequências em que a ação acontece sem qualquer diálogo, com Sumpter comunicando as emoções de Neilson puramente no visual.

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Infelizmente, o público escolheu ignorar o filme na época. Seu lançamento foi controverso e muitos cinemas em todo o Reino Unido se recusaram a exibi-lo. Dada a acusação implícita do filme de que a imprensa era em parte culpada pela morte de Whittle, não surpreende que a mídia também tivessem uma antipatia especial pela obra e a crítica caiu matando. Hoje, THE BLACK PANTHER possui excelentes cópias lançadas em DVD e Blu-Ray pelo mundo afora. Uma bela maneira de redescobrir esta pequena gema do cinema britânico.

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RAPTADO (Kidnapped, 1971)

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O célebre romance de Robert Louis Stevenson, Kidnapped – inicialmente publicado como uma série de histórias em jornais antes de ser lançado num único volume em 1886 – foi adaptado várias vezes para cinema e televisão, as principais sendo em 1948, estrelado por Dan O’Herlihy e Roddy McDowell, e em 1959 com Peter Finch e James McArthur. Nunca assisti a estas versões e por melhores que possam ser, RAPTADO, do diretor Delbert Mann, de 1971, me parece a mais agradável entre as adaptações, já que tem a presença de um desses atores que basta uma pequena participação para me deixar com sorriso no rosto, e no caso deste aqui o ator é Michael Caine encabeçando o elenco…

Durante a eterna guerra entre escoceses e ingleses no século XVIII, no qual as forças escocesas estão sendo aniquiladas por tropas do governo inglês, um rapaz que perdeu o pai, David Balfour (Lawrence Douglas), chega à casa de seu tio Ebenezer (Donald Pleasence) para reivindicar sua herança. No entanto, com a intenção de ter os bens para si mesmo, o velho resolve raptar David e vendê-lo como escravo.

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Prisioneiro em alto mar, o rapaz se vê numa situação complicada. Quando a embarcação se depara com o notório rebelde escocês Alan Breck (Caine), David aproveita a oportunidade para se aliar a Breck e fugir. Eles chegam de volta à costa e buscam refúgio com os parentes do famigerado rebelde, o tio James Stewart (Jack Watson) e a prima, Catriona (Vivien Heilbron). Mas a aventura deles está apenas começando…

Embora entre todas as histórias de Robert Louis Stevenson A Ilha do Tesouro continue sendo sua principal aventura, Kidnapped parece ter sua graça. O roteiro de Jack Pulman para esta adaptação de 1971, no entanto, não se baseia apenas nessa história, mas também em trechos da sua sequência, lançado em 1893, Catriona. E, independente do fato do filme terminar de uma maneira brusca e um bocado pessimista, ainda é uma peça divertida e cuja recriação contextualiza bem o momento histórico que a aventura transcorre.

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Delbert Mann, que recebeu o Oscar de melhor diretor com seu filmes de estreia, MARTY, talvez não fosse o sujeito mais preparado para narrar as peripécias da dupla protagonista, as cenas de ação não empolgam muito e nas mãos de um Richard Fleischer ou John Huston renderiam uma emoção a mais. No entanto, Mann dirige bem os atores, e com o elenco que temos aqui, a diversão é garantida.

Michael Caine está em excelente forma com seu carisma e inesgotável brio de “tough guy“. Há uma sequência em que Caine resolve executar sozinho dois soldados ingleses após se deparar com uma família inteira massacrada. É um dos momentos altos do filme, e se a encenação da luta não é lá grandes coisas, pelo menos o ator demonstra muita presença em cena, matando seus inimigos à sangue frio. Caine certamente ofusca o jovem Lawrence Douglas, cujo papel que faz, David, é um pouco insosso; Donald Pleasence é outro gigante que sempre merece destaque e está genial como o viscoso e dúbio Ebenezer. O elenco ainda conta com o grande Trevor Howard.

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Um dos elementos que mais impressiona em RAPTADO é a bela fotografia de Paul Beeson, que aproveita muito bem as paisagens da Escócia (deixo umas imagens aí em baixo para apreciação). E também as partituras de Roy Budd – junto com a balada romântica de encerramento interpretada por Mary Hopkin. Simplesmente memorável e contribui imensamente para tornar o filme, que está longe de ser uma maravilha, numa adaptação respeitável da obra de Stevenson.

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MOTHRA VS. GODZILLA (1964)

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Mothra é uma mariposa gigante criada pelo estúdio Toho em 1961 num filme que apresentava suas origens e levava seu nome no título, MOTHRA. Ao longo dos anos acabou se tornando um dos mais populares Daikaijus da Toho, perdendo apenas para Godzilla em seu número total de aparições em produções. E já em seu segundo filme, como o título indica, Mothra é colocado para tretar com o Rei dos Monstros em MOTHRA VS GODZILLA!

Se KING KONG VS GODZILLA já foi bizarro o suficiente, como comentei neste post, esperem só para ver a doidera que é MOTHRA VS GODZILLA. A trama é muito simples, mas recheada de elementos esquisitos que me faziam soltar um “pqp” em voz alta a cada revelação estranha que aparecia na tela…

Executivos capitalistas inescrupulosos estão à solta, construindo um resort à beira-mar em algum lugar qualquer do Japão. O filme abre com um tufão que atinge o local com toda a sua fúria e arrasa com os preparativos da inauguração do empreendimento. Quando as coisas se acalmam, um ovo gigantesco é encontrado em terra.

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Os capitalistas perversos não perdem a chance e compram o ovo dos aldeões que vivem na região com a intenção de torná-lo a principal atração do local. Surgem então duas criaturinhas do tamanho de um latão de Itaipava, duas moças minúsculas, que suplicam se poderiam por favor ter seu ovo de volta. Sim, são bem educadas. O repórter Ichiro Sakai (Akira Takarada), a fotógrafa Junko Nakanishi (Yuriko Hoshi) e o professor Miura (Hiroshi Koizumi) são simpáticos e fazem o melhor que podem para convencer aos devotos capitalistas a devolverem o gigantesco ovo. Mas não conseguem…

O artefato veio trazido pelo tufão de uma ilha misteriosa e logo descobrimos que é um ovo de Mothra, a mariposa gigante. A tal ilha tinha sido local de testes de bombas nucleares que naturalmente, ao longo dos anos, produziu todo tipo de coisas estranhas, como mariposas gigantescas e mocinhas em miniatura. Com isso, MOTHRA VS GODZILLA não ia perder a chance de cutucar os causadores de males humanitários, todo o filme é marcado por um monte de propaganda sobre os perigos dos testes atômicos, uma das paranoias recorrentes do período.

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Enquanto isso, do nada, de repente, Godzilla está de volta… Já nem me recordo qual foi o fim que lhe deram em seu último filme, KING KONG VS. GODZILLA, mas o fato é que ele sempre retorna, sempre procurando coisas para pisar e esmagar. O exército tenta de todos os meios possíveis, em vão, parar o réptil gigante jogando o que podem em cima dele, raios elétricos, tanques de guerra que não economizam chumbo, bombas lançadas pela força aérea e até redes gigantescas jogadas sobre o Daikaiju.

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Mas o trio protagonista percebe que apenas Mothra pode salvar a humanidade de Godzilla. E não demora muito, o monstrengo surge nos ares – não o do ovo, este continua quietinho – mas outro, um protetor da ilha radioativa, que encara Godzilla numa batalha daquelas que só o grande diretor especialista em Kaijus, Ishirô Honda, sabia filmar. Foi ele quem realizou o GODZILLA original e também o filme sobre a origem de Mothra… E é difícil imaginar como, em 1964, uma mariposa gigante seria retratada voando e lutando contra Godzilla, mas MOTHRA VS. GODZILLA não poderia estar em mãos melhores.

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Óbvio que não chega no nível do confronto entre King Kong e Godzilla, no filme anterior, também dirigido por Honda, mas é interessante ver como o diretor se vira para tornar a coisa divertida, com uso de stop motion, bom trabalho de câmera, planos sempre abertos, mostrando tudo o que tinha direito e aproveitando ao máximo dos poderes dos dois monstrengos.

Desta vez, Tóquio não é atingida pelo caos e destruição que esses monstros causam quando resolvem trocar desaforos. Mas ainda há estrago suficiente para alegrar os corações dos fãs de filmes de monstros gigantes. Cidades costeiras são devastadas, um complexo industrial é esmagado por Godzilla e o caos generalizado habitual acontece de forma linda. E tudo é muito bem feito, os efeitos especiais são muito bons para o período e o uso de maquete é aquela coisa incrível de sempre.

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E o tal ovo? Bom, lá pelas tantas saem de dentro duas larvas de Mothra que cospem uma teia e ajudam a derrotar Godzilla. Mas a essa altura, a gente já se acostumou com as bizarrices do filme… Ou não…

Aparentemente, há uma versão americana de MOTHRA VS GODZILLA que elimina algumas cenas e acrescentam outras. A que eu assisti é a japonesa mesmo, que é altamente recomendável. Filminho de monstro divertido, bobo mas cheio de momentos memoráveis para os fãs de Daikaiju.

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.9: PERCHANCE TO DREAM (1959)

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Primeiro episódio da série ALÉM DA IMAGINAÇÃO que não foi escrito pelo seu criador, Rod Serling. Charles Beaumont, que viria a escrever algumas obras em parceria com Roger Corman, como ORGIA DA MORTE e THE INTRUDER, ficou responsável por PERCHANCE TO DREAM, que conta a história de Edward Hall (Richard Conte), um sujeito que está acordado há mais de 80 horas quando o episódio começa. Diagnosticado ainda muito jovem com uma doença cardíaca degenerativa, ele tem medo de adormecer e que um pesadelo recorrente envolvendo um cenário surreal e uma mulher misteriosa (Suzanne Lloyd) seja suficientemente chocante para fazer seu coração parar.

O capítulo começa com Hall procurando ajuda de um psiquiatra, o Dr. Eliot Rathmann (John Larch), a quem ele conta sua história. E a partir disso já não sabemos o que é relato, o que é sonho, o que é realidade, mas ao mesmo tempo temos uma das sequências visuais das mais impressionantes de toda a série.

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PERCHANCE TO DREAM foi uma produção agraciada com as pessoas certas em seus devidos lugares. Complementando a história psicologicamente aterrorizante escrita por Beaumont, havia um grupo de atores perfeitamente adequados para dar vida a este pequeno conto. O pequeno elenco incluiu três excelentes nomes, com Richard Conte, mais conhecido como o mafioso Barzini em O PODEROSO CHEFÃO, entregando uma performance especialmente angustiante como o condenado Edward Hall. John Larch, que viria aparecer em outros episódios da série, como DUST e IT’S A GOOD LIFE, tem uma atuação sutil num personagem muitas vezes estereotipado. E a atriz canadense Suzanne Lloyd que captura a essência da sedutora misteriosa que perturba os sonhos de Hall.

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O diretor do episódio, Robert Florey, não era nenhum estranho no gênero de mistério e horror, tendo co-roteirizado FRANKENSTEIN, de 1931, dirigido por James Whale (inicialmente Florey era cotado para dirigir), além de ter adaptado e dirigido OS ASSASSINATOS DA RUA MORGUE, de Edgar Allan Poe, com o o Bela Lugosi, e que eu já comentei por aqui. Florey faz um trabalho maravilhoso em PERCHANCE TO DREAM, conferindo à sequência do cenário alucinatório de pesadelo e imagens oníricas uma verossimilhança que consegue manter a atenção do espectador ao longo do ritmo acelerado e curto do episódio. É como se estivéssemos diante de alguns dos maiores pesadelos filmados do Expressionismo Alemão.

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E temos a estreia de um roteirista para dar uma nova cara à esta primeira temporada. Talvez o aspecto mais importante que Beaumont trouxe para a série tenha sido a propensão à fantasia sombria, às histórias de horror, quase sempre de natureza psicológica, que exploravam o aspecto mais sombrio da mente humana. Enquanto Serling trabalhava em grande parte dentro dos limites reconhecíveis da fantasia (robôs, viagens no tempo, medos coletivos, como a solidão, etc.), Beaumont chegou com um tratamento singular da fantasia e do horror psicológico. Com exceção de Serling, Beaumont foi o mais ativo roteirista de ALÉM DA IMAGINAÇÃO, tendo assinado 22 scripts ao longo das temporadas. E PERCHANCE TO DREAM é um dos melhores exemplos do processo imaginativo único de Beaumont.

DVD REVIEW: RAMPAGE 2 – A PUNIÇÃO (Rampage: Capital Punishment, 2014); A2 Filmes

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Uwe Boll ataca novamente neste segundo capítulo da jornada de Bill Williamson (Brendan Fletcher), o exército de um homem só, fortemente armado e blindado, que saiu atirando contra tudo e contra todos em RAMPAGE (2009), como vocês puderam conhecer no post anterior. Sim, esse cara está de volta e mais chateado do que nunca… E a A2 Filmes nos brindou lançando RAMPAGE 2 – A PUNIÇÃO no mercado de home video nacional.

Como não conseguiram pegar o rapaz no primeiro filme, Bill mais uma vez sai pelas ruas com seu traje de kevlar e artilharia suficiente para armar um pequeno batalhão depois de ficar um ano escondido. Mas neste novo capítulo da série RAMPAGE, Bill tem um plano definido, não é só matança desenfreada. Ele invade uma estação de notícias local, coloca um grupo de pessoas como refém e obriga a transmitir ao vivo em rede nacional seu discurso anti-sistema. Claro que quem entra em seu caminho eventualmente acaba levando uma dose de chumbo…

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Inclusive, o filme abre com uma situação bem bizarra. Num beco qualquer da cidade, Bill senta numa cadeira, fuma um cigarro e tranquilamente espera uma pessoa qualquer passar. Atira. Depois de acertar um desavisado, ele levanta, arrasta o corpo para ficar fora da vista, senta-se na cadeira e repete o processo até acumular uma boa quantidade de corpos, sem que ninguém faça nada, ou que a polícia seja acionada… Dessas cenas que só poderia sair da mente perturbada do alemão maluco. Continuar lendo

RAMPAGE (2009)

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Pouca gente consegue aceitar isso de forma natural, mas de alguma maneira o alemão maluco que atende pelo nome de Uwe Boll se tornou um bom diretor no final da década passada. Sim, o cara que já foi considerado um dos piores cineastas de todos os tempos tem talento, especialmente quando começou a fazer filmes que vomitavam seu desprezo pela raça humana, combinando dramas reais, medos coletivos, com exemplares de ação que muitas vezes são tão frontais em seus ataques que é difícil ficar indiferente ao ódio do diretor em propostas tão niilistas e inconsequentes. E por mais banal e inofensivo que Boll possa ser na dinâmica dos seus rasos discursos, sobrava filmes de gênero que ao menos empolgavam e divertiam.

RAMPAGE é um bom exemplar dessa safra. Tem como protagonista Bill Williamson (Brendan Fletcher), um sujeito acomodado, um zé ninguém que ainda vive com seus pais. Ele tem vinte e poucos anos e a vida é uma merda. Mas o que ninguém sabe é que sua acomodação e conformismo é apenas uma fachada enquanto planeja um manifesto. Um ato solitário, que envolve armamento pesado e um traje de kevlar à prova de balas.

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Quando chega a hora, armado até os dentes, Bill sai para as ruas de sua cidade e simplesmente começa a atirar em todas as pessoas que vê na frente. Mas que beleza de manifesto, heim? Por que ele faz isso? Bem, não temos muita clareza na sua revolta, porque ele simplesmente não parece se importar com nada. Ao mesmo tempo que seu discurso é contra o sistema vigente e a favor dos pobres inocente que vivem sob a égide das engrenagens capitalistas, essa mente caótica e perturbada não hesita em matar qualquer transeunte que vê pela frente. Continuar lendo

AL CAPONE (1959); Classicline

Al Capone (1959)

directed by Richard Wilson

shown: Rod Steiger

AL CAPONE começa com o jovem personagem título chegando a Chicago, em 1919. O filme abre num longo plano sequência que apresenta o sujeito de modo magistral. A câmera se movimenta e passeia pela vastidão de um bar, entre figurantes bêbados, garçonetes, mesas e balcão, até que adentra no recinto Rod Steiger na pele do famigerado gangster, com o nome do filme preenchendo a tela, enquanto o plano continua por um bom tempo. Poderia durar até mais, poderia durar para sempre; desses momentos que provam que não estamos diante de um filme qualquer. Há, no mínimo, personalidade por parte dos realizadores de AL CAPONE.

Richard Wilson é o nome do diretor. Richard quem? Sim, um talento subestimado e desconhecido. Foi assistente de Orson Welles em CIDADÃO KANE e SOBERBA, dirigiu uma dezena de filmes, mas nunca teve o merecido reconhecimento, o que é uma pena, porque o sujeito tem bons trabalhos no curto currículo, como ARMADO ATÉ OS DENTES, CONVITE A UM PISTOLEIRO, PAGA OU MORRE e obviamente este aqui, que é cheio de detalhes e sacadas visuais, como a da abertura, que enriquece ainda mais a experiência.

Voltando, Al Capone chega ao local para trabalhar como guarda-costas para Johnny Torrio, um mafioso que age sob a batuta do seu tio, um velho capo de influência política, Big Jim Colosimo. O velho, com a administração de Johnny, dirige vários clubes onde jogo e prostituição rolam soltos. Quando a Proibição de álcool chega em 1920, Johnny e Big Jim entram para o contrabando de inebriantes e ficam ricos. Quando Big Jim se recusa a fazer um acordo com os líderes de outras gangues para decidir os direitos de distribuição de bebidas alcoólicas em Chicago, é Capone quem convence Johnny a esquecer os laços familiares e a tomar uma decisão, “puramente comercial”, de permitir que ele execute Big Jim. Continuar lendo