RAMPAGE (2009)

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Pouca gente consegue aceitar isso de forma natural, mas de alguma maneira o alemão maluco que atende pelo nome de Uwe Boll se tornou um bom diretor no final da década passada. Sim, o cara que já foi considerado um dos piores cineastas de todos os tempos tem talento, especialmente quando começou a fazer filmes que vomitavam seu desprezo pela raça humana, combinando dramas reais, medos coletivos, com exemplares de ação que muitas vezes são tão frontais em seus ataques que é difícil ficar indiferente ao ódio do diretor em propostas tão niilistas e inconsequentes. E por mais banal e inofensivo que Boll possa ser na dinâmica dos seus rasos discursos, sobrava filmes de gênero que ao menos empolgavam e divertiam.

RAMPAGE é um bom exemplar dessa safra. Tem como protagonista Bill Williamson (Brendan Fletcher), um sujeito acomodado, um zé ninguém que ainda vive com seus pais. Ele tem vinte e poucos anos e a vida é uma merda. Mas o que ninguém sabe é que sua acomodação e conformismo é apenas uma fachada enquanto planeja um manifesto. Um ato solitário, que envolve armamento pesado e um traje de kevlar à prova de balas.

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Quando chega a hora, armado até os dentes, Bill sai para as ruas de sua cidade e simplesmente começa a atirar em todas as pessoas que vê na frente. Mas que beleza de manifesto, heim? Por que ele faz isso? Bem, não temos muita clareza na sua revolta, porque ele simplesmente não parece se importar com nada. Ao mesmo tempo que seu discurso é contra o sistema vigente e a favor dos pobres inocente que vivem sob a égide das engrenagens capitalistas, essa mente caótica e perturbada não hesita em matar qualquer transeunte que vê pela frente. Continuar lendo

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AL CAPONE (1959); Classicline

Al Capone (1959)

directed by Richard Wilson

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AL CAPONE começa com o jovem personagem título chegando a Chicago, em 1919. O filme abre num longo plano sequência que apresenta o sujeito de modo magistral. A câmera se movimenta e passeia pela vastidão de um bar, entre figurantes bêbados, garçonetes, mesas e balcão, até que adentra no recinto Rod Steiger na pele do famigerado gangster, com o nome do filme preenchendo a tela, enquanto o plano continua por um bom tempo. Poderia durar até mais, poderia durar para sempre; desses momentos que provam que não estamos diante de um filme qualquer. Há, no mínimo, personalidade por parte dos realizadores de AL CAPONE.

Richard Wilson é o nome do diretor. Richard quem? Sim, um talento subestimado e desconhecido. Foi assistente de Orson Welles em CIDADÃO KANE e SOBERBA, dirigiu uma dezena de filmes, mas nunca teve o merecido reconhecimento, o que é uma pena, porque o sujeito tem bons trabalhos no curto currículo, como ARMADO ATÉ OS DENTES, CONVITE A UM PISTOLEIRO, PAGA OU MORRE e obviamente este aqui, que é cheio de detalhes e sacadas visuais, como a da abertura, que enriquece ainda mais a experiência.

Voltando, Al Capone chega ao local para trabalhar como guarda-costas para Johnny Torrio, um mafioso que age sob a batuta do seu tio, um velho capo de influência política, Big Jim Colosimo. O velho, com a administração de Johnny, dirige vários clubes onde jogo e prostituição rolam soltos. Quando a Proibição de álcool chega em 1920, Johnny e Big Jim entram para o contrabando de inebriantes e ficam ricos. Quando Big Jim se recusa a fazer um acordo com os líderes de outras gangues para decidir os direitos de distribuição de bebidas alcoólicas em Chicago, é Capone quem convence Johnny a esquecer os laços familiares e a tomar uma decisão, “puramente comercial”, de permitir que ele execute Big Jim. Continuar lendo

SANGUE DE HERÓIS (Fort Apache, 1948); Classicline

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SANGUE DE HERÓIS é o primeiro filme da “trilogia da cavalaria” de John Ford – o segundo eu já comentei por aqui, LEGIÃO INVENCÍVEL – e é mais um dos grandes westerns do diretor e que veio em boa hora na sua carreira. Ford vinha de um desastre comercial com o belíssimo DOMÍNIO DOS BÁRBAROS, um de seus filmes mais intimistas, mas que o público não recebeu muito bem, e precisava agora desesperadamente de algum material que fosse resultar num sucesso comercial. E foi SANGUE DE HERÓIS que colocou Ford de volta ao topo.

Na trama, o tenente-coronel Owen Thursday (Henry Fonda) é um ilustre oficial da Guerra Civil que acaba tendo que assumir um posto em tempos de paz que não é lá muito da sua vontade. Para ser sincero, Thursday considera sua nomeação como o novo oficial comandante do Fort Apache, no Território do Arizona, como um insulto e deixa isso bem claro à todos ao seu redor.

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O território vive em problemas com os Apaches, cujo líder, Cochise, desenterrou a machadinha de guerra e leva seus guerreiros ao longo da fronteira com o México em protesto contra a corrupção de um agente indígena local que está mais interessado em vender uísque do que cobertores e comida decente. Como Thursday está ansioso para encontrar alguma maneira de conquistar a glória e sair daquele território o mais rápido possível, a missão de trazer Cochise e seu povo de volta à reserva o atrai.

Só que Thursday acaba se demonstrando um cabeça dura arrogante e um péssimo líder. Thursday não sabe nada sobre os Apaches e não está disposto a seguir o conselho de oficiais experientes, como por exemplo o Capitão Kirby York (John Wayne), e todos seus atos anunciam uma inevitável tragédia que se aproxima. Continuar lendo

THE LAST MOVIE (1971)

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THE LAST MOVIE foi uma bomba que explodiu na universal em 1971, o filme maldito de Dennis Hopper. Era uma daquelas obras que eu sempre morria de curiosidade, mas acabava adiando e adiando, especialmente depois do livro do Biskind, o maravilhoso “Como a Geração Sexo-drogas-e-rock’n’roll Salvou Hollywood“, cuja parte que fala do filme me deixou salivando.

As histórias que cercam a produção são simplesmente geniais e complementam a experiência de assistir de fato a obra. O filme em si é um trabalho realmente fascinante e conceitualmente forte na sua desconstrução estrutural, narrativa e formal, que reflete muita coisa do próprio cinema e, de certa forma, reverencia uma mística cinematográfica… Infelizmente, o público e crítica da época não conseguiu entrar na onda do Hopper, acabou sendo um fiasco e quase destruiu a carreira do homem como diretor. Ainda hoje não é uma tarefa muito fácil digerir THE LAST MOVIE, menos ainda escrever qualquer coisa a respeito, imagine então há quase cinco décadas… Mas vamos começar pelo começo.

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Após o sucesso do clássico SEM DESTINO, Hollywood estava em polvorosa com o Hopper e Peter Fonda, estava de lua-de-mel com uma turma de diretores cheios de novas ideias e com possibilidades de encher os bolsos dos grandes estúdios de dinheiro, que davam total liberdade para diretores como Francis Ford Coppola, Hal Ashby, Robert Altman, Bill Friedkin e muitos outros. A chamada “Nova Hollywood”, aparentemente, era um sucesso. E Hopper, então, era um dos mais cotados pelos estúdios a estourar como o grande nome dessa geração. Executivos brigavam para contratá-lo, não importa o projeto que o sujeito tivesse em mente, porque tinham certeza que iria fazer dinheiro, tendo em vista o que havia sido seu filme de estreia.

Mas já em EASY RIDER, Hopper havia demonstrado o tipo de artista difícil de lidar que era. As histórias de bastidores deste icônico filme são tão incríveis quanto as de THE LAST MOVIE. O fato é que os rumores sobre a falta de confiabilidade de Hopper, sem contar o seu apetite excessivo por drogas e álcool, se espalharam pelos quatro cantos de Hollywood, e o sujeito, cuja carreira estava em tão alta cota, de repente viu os estúdios retirarem suas ofertas. Mas foi nessa que a Universal resolveu fazer uma jogada arriscadíssima, apostando em Hopper, mesmo sabendo que estavam se metendo numa enrascada, dando a ele carta branca e um milhão de dólares para fazer THE LAST MOVIE.

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Era um projeto antigo de Hopper, mais de uma década tentando realizar. Como era muito jovem e não havia nenhuma experiência à frente de uma produção, era impossível alguém bancar o intento do sujeito, que já no papel devia ser totalmente indescritível e absurdamente maluco. No entanto, tendo EASY RIDER no currículo, cedo ou tarde iria aparecer algum trouxa para financiar seu projeto. Continuar lendo

LOOKING GLASS (2018)

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Estamos ainda em março e LOOKING GLASS já é o segundo lançamento do incansável Nicolas Cage no ano (o primeiro foi o excelente MOM AND DAD, que comentei aqui outro dia). Trata-se de um pequeno thriller lançado direto no mercado de home video e que se sai bem cumprindo a sua proposta de ser um suspense intrigante e divertido. Na trama, basicamente, temos um casal em crise depois da perda da filha pequena, arrendando um pequeno motel à beira de estrada para manter a cabeça ocupada, respirar novos ares e mudar de vida. Só que misteriosos assassinatos do passado que aconteceram no local “voltam” para atormentar a vida do protagonista vivido por Cage.

O roteiro em si não tem nenhuma novidade, é bem convencional e até mesmo previsível, não vão faltar por aqui situações curiosas, personagens estranhos, assim como os típicos clichês dos filmes de Motel à beira da estrada… Mas LOOKING GLASS tem a vantagem de ser bem curtinho e o diretor Tim Hunter (mais conhecido para quem acompanha os seriados da atualidade) não deixa muito espaço para encheção de linguiça, usando a figura de Cage para atrair a atenção durante todo o filme. Um Cage mais contido, mas sempre com muita presença em cena e alguns bons momentos para suas surtadas habituais… O elenco de apoio também é bom, com Robin Tunney, Marc Blucas e o bom e velho Ernie Lively. Bill Bolender faz uma pequena participação. O filme é simples, rápido e eficiente, exatamente o tipo que aprecio quando quero matar um tempinho. Vale assisti-lo num sábado à noite para reviver os bons tempos dos Supercine na Globo nos anos 90.

DVD REVIEW: A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE (2014); A2 FILMES

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Tsui Hark é desses monumentos do cinema asiático que eu ainda estou descobrindo aos poucos. De uma filmografia de mais de quarenta obras devo ter visto cerca de uma dúzia. É pouco, mas suficiente pra dizer que o homem é um dos diretores mais interessantes em atividade, mesmo que seu trabalho atual não seja do mesmo nível de algumas coisas que fez nos anos 80 e 90. De todo modo, é um nome obrigatório a ser seguido. Por isso, imaginem a minha felicidade quando a A2 Filmes anunciou o lançamento em DVD de um dos melhores trabalhos recentes do sujeito, o espetáculo de guerra A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE

Trata-se de um épico chinês de ação e aventura que não economiza na panfletagem e glorificação do exército chinês, no heroísmo grandiloquente presente ao longo de um conto que celebra a criação das lendas, dos mitos e de como essas histórias permanecem vivas de gerações em gerações.

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O filme começa nos tempos atuais, quando um jovem chinês relembra a famosa Batalha na Montanha do Tigre enquanto viaja de Nova York até à China. História que deve ter sido contada e recontada pelos seus avós incontáveis vezes, e agora nos é mostrada como uma fábula de guerra repleta de exageros e prováveis impossibilidades. O que significa um intencional excesso de bravura visual por parte dos heróis numa overdose de tiros e explosões filmado como espetáculo vertiginoso.

A narrativa, portanto, volta no tempo, logo após a segunda guerra mundial. Os japoneses, rendidos, deixam a China, certos locais se transformam numa terra de ninguém, na qual bandidos enriquecem, juntam arsenais e estocam comida em bases militares de difícil acesso, enquanto pequenos vilarejos são dizimados pela miséria e fome. Na trama, um pequeno grupo do exército de libertação chinês resolve colocar um ponto final na nessa situação, encarando um gigantesco grupo de foras-da-lei, liderados pelo misterioso The Hawk (um irreconhecível Tony Leung carregado de maquiagem), que se esconde numa base secreta praticamente inacessível na famigerada Montanha do Tigre.

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Um dos grandes méritos de Hark sempre foi trabalhar bem o drama e aqui até consegue balancear a emoção da aventura com a tragédia dos soldados diante de uma terra arrasada, diante de um povo que sofre de fome, doenças e perdas. Mas a verdadeira razão para se apreciar uma obra como A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE é mesmo o espetáculo de ação que nos é proporcionado, com o máximo de eventos que podemos imaginar num cenário de guerra nas montanhas geladas da China: escaladas perigosas, avalanches, o fator homem vs natureza, perseguições de esqui, batalhas épicas e até uma sequência impressionante de um dos heróis encarando um imenso tigre feito de uma computação gráfica muito bem feita.

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Se levarmos em consideração ainda que o filme foi rodado em 3D, aí que a coisa vira um carnaval de fragmentos de explosões, sangue e balas em excesso sendo atirados em direção ao público, o que acaba dando um charme a mais. É o espetáculo de ação com seus exageros deliciosos e muito bem orquestrado que a gente sempre espera do Hark.

No final, o diretor escancara de vez suas intensões por trás de um filme de guerra patriótico, oferecendo uma reflexão sobre a criação das fábulas, das histórias contadas pelos antigos, histórias que o tempo, a distância ou mesmo a vontade de transmitir valores se transformaram em lendas, muitas vezes completamente malucas ou inacreditáveis, como a narrada em A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE, que até é inspirada em eventos reais, mas extremamente agradáveis de ouvir por toda a mitologia que as cercam​​.

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Recomendado aos fãs de um bom festival eletrizante e barulhento de ação, A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE já se encontra no acervo da A2 Filmes, através do selo Flashstar, e pode ser encontrado nas melhores lojas do ramo. O filme também se encontra disponível para ser assistido hoje mesmo em plataformas digitais como NOW e Looke. E curta a página de facebook da A2 Filmes para ficar por dentro das novidades.

O ANO DO DRAGÃO (The Year of the Dragon, 1985)

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Republicando um post do blog antigo pra movimentar as coisas por aqui. Este texto foi o único que já escrevei sobre um filme do Michael Cimino… devia ter republicado em 2016, quando o sujeito morreu, como homenagem, mas não lembrei. Me peguei relendo hoje e, bom, antes tarde do que nunca…

Na época só havia assistido a O ANO DO DRAGÃO uma única vez e já fazia muitos tempo. Mas desde então ficara marcado na minha memória como um dos grandes exemplares do gênero policial dos anos 80. Revisitei depois para escrever este textinho e me descobri diante de algo muito maior, uma obra cinematográfica poderosíssima em todos os sentidos possíveis. Já imaginava que isso fosse acontecer. O cinema de Cimino é grande e, numa revisão, O ANO DO DRAGÃO só poderia resultar em mais de duas horas de encantamento cinéfilo. Quem ainda tem dúvidas de que Cimino foi um dos maiores cineastas americanos da história precisa olhar seu trabalho mais de perto…

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A excelência do roteiro do próprio Cimino (em parceria com Oliver Stone) em O ANO DO DRAGÃO é inegável e possui muito do repertório temático presente na carreira do homem, como a América traumatizada pela tragédia que foi o Vietnã, a obsessão precisa por celebrações, o cuidado nos mínimos detalhes com os personagens, como o protagonista, por exemplo, o capitão da polícia Stanley White, encarnado por Mickey Rourke. Um ex-combatente do Vietnã que transforma as ruas de Chinatown num autêntico campo de guerra contra a máfia chinesa. O papel foi oferecido para Nick Nolte e Jeff Bridges, mas após assistir a THE POPE OF GREENWICH VILLAGE, Cimino achou o ator perfeito para seu filme (Já havia trabalhado com ele numa pequena participação em O PORTAL DO PARAÍSO).

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E é realmente difícil enxergar outro sujeito no lugar de Rourke, que conseguiu compor um retrato complexo e expressivo para o seu personagem. Um herói com profundas convicções em relação ao seu trabalho, mas bruto no trato com a bandidagem, capaz de ultrapassar os limites da ética profissional quando a missão é prender meliantes, além de ser um tremendo canalha com as pessoas ao seu redor. Não tenho receio em dizer que se trata do grande desempenho da carreira de Rourke. O elenco ainda tem John Lone, como a principal pedra no sapato do protagonista, Victor Wong, Raymond J. Barry e Ariane, uma modelo de traços orientais que tentou virar atriz… Ela é fraca, mas sua atuação não compromete. Alguns anos depois tentou novamente e apareceu em O REI DE NOVA YORK (90), do Abel Ferrara.

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O ANO DO DRAGÃO é o primeiro filme de Cimino após o fiasco comercial de O PORTAL DO PARAÍSO, que resultou na falência da produtora United Artists, mas que gerou uma das mais impressionantes obras primas que o cinema foi capaz de criar. Aparentemente, este aqui possui pretensões mais modestas, preso às convenções do gênero policial, mas acompanhar o desenrolar da trama e a evolução do personagem de Rourke é contemplar a visão de mundo de um artista subestimado, mas simplesmente genial, e sua fascinação pela técnica cinematográfica, mantendo o filme num nível de qualidade altíssimo.

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Basta ao espectador ficar observando a composição dos inúmeros planos, a gestão dos espaços cênicos e a maneira virtuosa como Cimino movimenta a câmera durante todo o filme para ficar hipnotizado – vale destacar que o filme inteiro foi rodado em estúdio -, além de se ter a medida exata do talento sobrepujante do último dos mavericks. Nisso inclui, claro, belas e violentas sequências de ação. Ainda prefiro VIVER E MORRER EM LA, de William Friedkin, como o grande filme policial daquele período. Mas O ANO DO DRAGÃO é um páreo duríssimo e não fica muito atrás.

DVD REVIEW: CIDADE DOS VENTOS (2007); CPC UMES FILMES

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Estou super atrasado, mas no último feriadão de carnaval eu finalmente parei para assistir ao lançamento em DVD de Dezembro da CPC UMES FILMES, CIDADE DOS VENTOS, um filme russo nostálgico, com tons autobiográficos inspirados nas memórias juvenis do seu diretor, Karen Shakhnazarov.

O cenário é a Moscou de 1973 e a trama gira em torno de Sergei (Aleksandr Lyapin), um jovem estudante de 18 anos, que se auto declara dissidente diante das características políticas do país, ambicioso por parecer cool, comprando calças jeans e discos de rock dos Rolling Stones e Deep Purple no mercado negro. E pelas atitude do rapaz, a faculdade é apenas um lugar para pegar garotas que se impressionam com sua habilidade de andar na moda ou conseguir coisas difíceis, como ingressos grátis para teatro ou um disco de uma banda famosa que acabou de ser lançado.

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Enquanto isso, a União Soviética tenta se manter dentro de sua ideologia, firme e forte, mesmo que os jovens já comecem a se interessar mais pela cultura de outros países. Como o título original em russo indica, é o início do desaparecimento de um império. Continuar lendo

MOM AND DAD (2017)

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Brian Taylor e Mark Neveldine são os diretores que formaram uma das parcerias mais interessantes do cinema recente. Há quem não goste, claro, mas eu acho animal o estilo de câmera frenético e montagem nervosa dos caras, que entrava em perfeita harmonia caótica com o tipo de histórias que queriam contar em obras como CRANK, CRANK 2 e GAMER. Um cinema cheio de influências pop de gosto duvidoso, mas que de alguma maneira acabou dando certo. O último filme da parceria foi MOTOQUEIRO FANTASMA 2 – O ESPÍRITO DA VINGANÇA, que eu nunca vi, e logo depois, não sei dizer os motivos, cada um seguiu seu caminho… Neveldine fez um terror, EXORCISTAS DO VATICANO, em 2015, e Taylor lança agora seu primeiro trabalho solo, MOM AND DAD, com Nicolas Cage (que já tinha trabalhado com ele em MOTOQUEIRO) e Selma Blair.

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E é assim que a gente acaba descobrindo o lado talentoso da dupla. Quero dizer, eu não vi ainda EXORCISTA DO VATICANO, mas MOM AND DAD possui tanta consonância com os outros filmes que Taylor esteve envolvido, com todas as características convulsivas dos seus trabalhos anteriores, que não dá pra imaginar o Neveldine fazendo algo parecido… A trama niilista, politicamente incorreta e ridiculamente exagerada, brinca da forma mais cruel possível com a ideia de uma histeria psicótica em massa de origem desconhecida que faz com que os pais se voltem violentamente para seus próprios filhos, sem que o filme lhe dê qualquer explicação dos motivos que tenham causado isso. Alguma estática aleatória aparece dos aparelhos eletrônicos que precedem esse comportamento, mas nunca diz o que é ou como isso parece afetar esses pais. Nicolas Cage e Selma Blair são um casal e têm dois filhos, uma adolescente e um menino lá pelos seus dez anos. O filme mexe com todo um simbolismo da figura paterna/materna, dialética pais x filho, toda a essência que envolve ser pai/mãe e as transformações da vida diante do nascimento de um filho, questões que obviamente Taylor não tem nada de profundo para dizer… E não é este o ponto.

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O que vale são sequências como a de Cage destruindo uma mesa de bilhar, usando uma camisa do Misfits, enquanto canta Pokey Hockey e depois recita um monólogo surtadíssimo sobre crise da meia idade… Ah, Nicolas Cage finalmente livre e solto para ser tudo que o Cage pode ser em todo seus excessos e resplendor. Obrigado, Brian Taylor, por ser uma alma tão demente. O plano num hospital onde vários pais observam seus recém-nascidos e não vêem a hora de colocar as mãos nas crianças e, sei lá, destroçá-las… Também é um pequeno aperitivo do humor perverso de Taylor nessa crônica sobre relações paternas… E claro que uma das coisas mais geniais que veremos este ano é quando surge o velho Lance Henriksen em cena, empunhando uma faca, querendo matar seu filho, que é o personagem de Cage. MOM AND DAD é divertido pra cacete, só tem 83 minutos, um fiapo de trama, mas várias situações, gags e incidentes que fica difícil tirar os olhos da tela. E, obviamente, qualquer um que seja fã de Cage sendo Cage vai tirar muito proveito disso aqui.

THE CUT-THROATS (1969)

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Mais um trabalho do diretor John Hayes, aquele de SWEET TRASH, que postei aqui logo no início do ano. O sujeito é simplesmente um mestre esquecido do exploitation americano. THE CUT THROATS é o filme da vez, um thriller fuleiro, mas muito divertido, de II Guerra Mundial. O plot básico, a princípio, se passa nos últimos dias da guerra numa versão de OS DOZE CONDENADOS da putaria: Um grupo de soldados americanos é reunido para uma missão suicida numa base nazista para roubar os planos de guerra do alemães.

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O filme não enrola muito pra começar, embora logo no início tenha uma sequência totalmente gratuita de um alemão estuprando uma moça que vaga pelo campo, que de tão desnecessária já torna a situação, no mínimo, curiosa. Até porque o “campo” parece mais algum fundo de estúdio na Califórnia… E até onde eu entendo de história, os nazistas não chegaram tão longe… Haha! Mas o planejamento e a execução da missão acontece bem cedo. Os soldados americanos atacam a base e fazem a limpa, eliminam praticamente todos os nazistas no local. Fácil. Só que estamos num exploitation do Hayes, então a missão ou os tais planos de guerra são as coisas que menos importa.

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O fato é que a base também é ocupada por um grupo de moças sapecas que fazem a alegria da moçada. E a narrativa acaba se construindo em blocos de situações dos soldados e seus envolvimentos sexuais com as mulheres, desde um show burlesco até as mais variadas possibilidades dentro de aposentos, numa noite bem agitada.

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Outra coisa que faz THE CUT THROATS andar é que o plano do líder do grupo americano não é exatamente o que ele contou a seu time. Planos de guerra? Porra nenhuma! o sujeito está realmente atrás é de uma fortuna em jóias roubadas e ouro que os nazistas acumularam durante a guerra. E ele não está muito interessado em compartilhar seus ganhos com qualquer um, nem mesmo com seus companheiros de guerra. Continuar lendo

AVENTURA À CHINESA EM DVD – A2 FILMES

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Aportou por aqui em DVD um dos filmes mais esperados dentre os lançamentos dos últimos meses da A2 FILMES, a aventura A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE, dirigido por TSUI HARK, um dos maiores mestres do cinema oriental.

Agora é botar o disco na agulha e aproveitar a sessão. Depois trago as minhas impressões, mas sendo Hark é praticamente impossível ser ruim.

O filme já se encontra disponível em DVD, através do selo Flashstar para venda nas melhores lojas, mas também já pode ser conferido em plataformas digitais, como Now e Look. Não dá pra perder essa. Confira o trailer:

E curta a página de facebook da A2 Filmes para ficar por dentro das novidades.

DVD REVIEW: LEGIÃO INVENCÍVEL (She Wore a Yellow Ribbon, 1949); Classicline

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No final dos anos 40 o diretor John Ford iniciara uma espécie de trilogia que celebrava as proezas da cavalaria do exército americano no imaginário do velho oeste. Ficou conhecida como a Trilogia da Cavalaria, todos estrelados por John Wayne. Começa em 1948 com SANGUE DE HERÓIS (1948) e terminava dois anos depois com RIO GRANDE (1950). Mas o mais peculiar dos três episódios só podia ser a peça do meio, LEGIÃO INVENCÍVEL, que assisti recentemente num belíssimo DVD lançado pela Classicline.

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Por que o mais peculiar? Primeiro, é preciso destacar a presença de Wayne, que foi o principal ator colaborador da carreira de Ford. Até esta altura, o diretor o utilizava como o habitual bravo cowboy icônico do faroeste americano, papéis que exigiam mais a presença física de Wayne do que uma construção mais profunda de seus personagens. Quando precisava de algo mais complexo, recorria a atores que julgava mais talentosos dramaticamente, como Henry Fonda em A MOCIDADE DE LINCOLN e PAIXÃO DOS FORTES. Continuar lendo

JOHNNY WADD (1971)

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Para a humilhação do caro leitor, o astro pornô John Holmes possuía um instrumento de trabalho que chegava, quando “pronto pra guerra”, a 33 centímetros. Com um dote desse fica fácil, bastou Holmes conhecer pessoas ligadas à industria – que tomaram conhecimento da extensão da sua manjuba – e quando se deu conta, já estava num set de filmagem trepando com milhares de pessoas (de ambos os sexos)… Um pouco de sua história e de como entrou neste universo pode ser conferida no filme BOOGIE NIGHTS (97), de Paul Thomas Anderson, que romantiza a vida de Holmes, interpretado por Mark Whalberg.

Mas voltando no início da década de 70, o diretor de filmes pornográficos Bob Chinn resolveu apostar em Holmes num projeto que misturava sexo explícito e filme policial. Com apenas 750,00 dólares de orçamento e um único dia de filmagem, Chinn produziu, escreveu (três páginas) e dirigiu JOHNNY WADD, estrelando o novo astro no papel do detetive cujo nome era o título do filme. Como definiu o grande Renzo Mora, em seu blog, o personagem de Holmes era uma mistura de Philip Marlowe, Sam Spade e o obelisco do Ibirapuera… O estrondoso sucesso de JOHNNY WADD gerou uma série de filmes ao longo da década de 70 e fez de Holmes um ícone da cultura pop… Aliás, bons tempos em que tínhamos um ator pornô como ícone.

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Neste primeiro filme, Wadd está num caso de uma garota desaparecida. Mas não é o tipo de detetive que sai às ruas para investigar. O filme se passa praticamente na sala da casa do sujeito, onde pessoas ligadas à moça vão até o local para que Wadd as interrogue, ou coisas do tipo, não importa… Acabam sempre fazendo sexo com ele. E o paradeiro da moça fica pra depois. Continuar lendo

NOVIDADE DE FEVEREIRO – A2 FILMES

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A A2 Filmes nos brinda em fevereiro com um dos meus filmes favoritos de 2017, o drama misterioso THELMA, do norueguês Joachim Trier (REPRISE, OSLO).

A trama é sobre uma garota, Thelma (Eili Harboe), que sai da casa dos pais religiosos no interior da Noruega e muda para a cidade grande, sozinha, para cursar a faculdade. É quando ela começa a enxergar o mundo e sofrer algumas crises pessoais, como se apaixonar por uma colega de faculdade, além de descobrir habilidades sobrenaturais inexplicáveis ​​e, na maior parte do tempo, muito perigosas.

THELMA chega ao mercado em DVD, através do selo Mares Filmes, a partir do dia 21 de fevereiro.

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A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water, 2017)

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Eu já vinha elogiando o novo filme de Guillermo Del Toro, A FORMA DA ÁGUA, antes mesmo de assistir. Por que? Porque Del Toro é um sujeito legal e eu gosto de praticamente toda a sua filmografia, exceto, talvez, alguns momentos bestas de PACIFIC RIM e o primeiro HELLBOY, mas que são divertidos de qualquer forma.

O negócio é que Del Toro é um bom contador de histórias de horror e sabe criar “contos de fadas” sombrias para adultos como poucos atualmente. É tudo o que o Tim Burton deveria estar fazendo antes de se perder no meio do caminho… Enfim, premiado no Globo de Ouro e outros eventos, indicado à vários Oscars, é admirável que um diretor que sempre esteve ligado a cinema de gênero esteja tendo este reconhecido com um filme que é, basicamente, de monstro. E agora que assisti A FORMA DA ÁGUA posso afirmar que o material é dos bons.

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Não vou entrar na polêmica recente dos indícios de que A FORMA DA ÁGUA seja um plágio de um curta holandês realizado em 2015 por estudantes de cinema. Até acredito que tenha plagiado mesmo, mas foda-se. Não diminui a minha admiração pela obra do mexicano. Só acho que não teria mal algum assumir de boas as fontes de inspiração. A FORMA DA ÁGUA não deixa de ter a assinatura autoral de Del Toro com todo seu imaginário fantástico. O filme segue a mesma linha de um LABIRINTO DO FAUNO, a obra-prima do homem, ou seja, é uma fábula realista ou uma crônica fantasiosa, você escolhe… No caso deste aqui, um dos elementos principais é a descoberta do amor nas mais inesperadas circunstâncias. E o fato do par romântico da protagonista ser uma criatura híbrida metade homem, metade peixe, demonstra que, no universo de Del toro, o amor é cego.

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E pelo visto, também é mudo. Como Elisa (Sally Hawkins), a nossa heroína. Ela trabalha como faxineira num laboratório governamental extremamente secreto por volta da década de 50 em plena paranoia comunista e tensão da Guerra Fria. Um dia, um humanoide anfíbio é trazido ao local para observação e experimentação. E o responsável pelo laboratório, Strickland (Michael Shannon) mantém a criatura de forma dura, sempre com um prazer sádico em dar-lhe umas eletrocutadas com seu bastão de choque sempre que pode. Elisa demonstra bondade pela criatura e até desenvolve uma, er… queda por ele. Quando descobre que Strickland pretende matar o monstro, ela convence um um vizinho (Richard Jenkins) a elaborar um plano para tirar a criatura do local. Naturalmente, isso coloca Strickland em maus lençóis e ele não vai parar enquanto não colocar as mãos na criatura.

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A FORMA DA ÁGUA é uma mistura sem qualquer vestígio de costura que Del Toro joga na receita. Filmes de monstro, história de amor proibida, conto de fadas, e funciona em cada uma dessas convenções com uma narrativa fluída, uma direção inspirada com uma câmera que se move de forma graciosa e emoldura quadros belíssimos realçados por um décor bonitão e colorido. A direção do homem tá mesmo de encher os olhos e não foi a toa que Del Toro recebeu prêmios pelo seu trabalho.

A maneira como Del Toro constrói os personagens me agrada bastante, como faz com Elisa logo no início, mostrando sua rotina masturbatória… Você tem que respeitar uma mulher que toca uma siririca antes de sair para o trabalho. É exatamente o tipo de detalhe que me faz apaixonar por um personagem e que, neste caso, a torna tão humana e acessível ao público. Uma coisa que adoro, também, é o tratamento sem julgamento infantil de Del Toro com a relação que se estabelece entre Elisa e o monstro. Quero dizer, não fica nos olhares, nas insinuações, no “disse-me-disse”, a coisa vai realmente pro sexual. A mulher quer dar pro monstro e isso é lindo. E faz de tudo pra viver essa paixão… Claro, era mais fácil ter arranjado um labrador.

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Hawkins está ótima e Doug Jones, que veste a fantasia do anfíbio, entrega um desempenho de expressão corporal incrível – aliás, nem preciso comentar o trabalho de maquiagem, não é? Simplesmente genial. Richard Jenkins e Michael Stuhlbarg são desses caras que nunca decepcionam, seus personagens são encantadores. E Octavia Spencer é muito carismática. Agora, o grande destaque só poderia ser Michael Shannon, que domina a tela em cada segundo em cena. Ele já tinha feito papeis de pessoas maldosas e assustadoras antes, mas esta merda aqui é um passo à frente, o sujeito nunca esteve tão maníaco e repugnante e nos coloca a refletir sobre a natureza de ser um monstro. Impossível tirar os olhos da tela com sua presença…

Eu tenho o péssimo costume de escrever sobre alguns filmes como se fossem o último biscoito do pacote… Apesar da rasgação de elogios, A FORMA DA ÁGUA não chega nem perto de ser uma obra-prima e O LABIRINTO DO FAUNO continua sendo meu trabalho favorito do Del Toro… Mas é uma fita que merce alguns elogios, e é sempre uma experiência prazerosa poder ver um trabalho do Del Toro em sua melhor forma. Por enquanto, é o filme que tem a minha torcida para o Oscar…