DVD REVIEW: MORTOS VIVOS (The Burning Dead, 2015); A2 FILMES

volcano-zombies-the-burning-dead-danny-trejo-news

Um dos primeiros títulos originais que MORTOS VIVOS recebeu durante sua produção foi VOLCANO ZOMBIES. Mudaram depois para THE BURNING DEAD, provavelmente para aproveitar de alguma maneira o sucesso da série THE WALKING DEAD. Mas o título original provisório, VOLCANO ZOMBIES, era simplesmente perfeito porque sintetiza tudo o que um indivíduo poderia querer saber sobre a obra em apenas duas palavras. Temos um vulcão e temos zumbis, que são er… Literalmente cuspidos do vulcão em erupção!

Depois de saber disso, qualquer outro detalhe sobre MORTOS VIVOS torna-se irrelevante. Mas vamos lá… Um vulcão entra em erupção nos arredores de uma pequena cidade do norte dos EUA, causando alarde e a evacuação de sua população. Alguns tontos, no entanto, não querem deixar suas casas. É o caso do velho Ben, que acaba colocando sua filha e neta em risco por conta disso. Além deles, outros personagens acabam presos nos arredores do vulcão, como o xerife local e dois vulcanólogos que trabalham na região. Só que o que esse povo todo não sabe é que o vulcão é o menor dos seus problemas e uma maldição envolvendo mortos-vivos acada despertando juntamente com toda a estrutura geológica.    

maxresdefault (3)

Apesar da trama simplória, MORTOS VIVOS é bem sucedido em pelo menos uma coisa: não perde o humor. Quero dizer, a premissa e os efeitos especiais, por exemplo, são tão ridículos que é preciso ter muito bom humor da parte dos realizadores para mantê-los num filme que fizeram com tanto carinho. Temos aqui uma lista variada de elementos que, vistos com bom humor, vão te fazer soltar algumas boas risadas. Estou falando, obviamente, da lava de CGI mais falsa que nota de três reais; os intestinos das vítimas sendo puxados e mordiscados pelos zumbis; uma cena totalmente gratuita onde uma moça resolve fazer um topless do nada; e claro, o meu favorito, a horda de zumbis sendo arremessada de dentro do vulcão como foguetes rodeados de gosma verde. Uma coisa linda e neste exato momento estou rindo de mim mesmo enquanto escrevo isso só de lembrar.

Lin-The-Burning-Dead_763064

Enquanto não temos um roteiro decente, boas atuações, efeitos especiais de primeira qualidade, nem mesmo um clima pra ser chamado de filme de horror,  MORTOS VIVOS ainda assim possui seu charme, com um humor involuntário que não vai decepcionar.

E o Danny Trejo? Seu personagem aparece muito nas artes promocionais do filme, não é? Bem, na verdade, sua participação é mínima, como um índio Cherokee que conta histórias ao redor da fogueira sobre a maldição do vulcão. Seu trabalho é decente, de longe a melhor atuação, mas percebe-se claramente que a imagem do ator só foi utilizada para atrair os desavisados. Seu personagem realmente não participa de nada na ação.

DlX9Qe

Como um filme de horror ou catástrofe, MORTOS VIVOS precisaria de muito trabalho… É basicamente um filme amador nesse sentido. No entanto, não tem receio algum de ser ridículo e diverte tranquilamente os fãs que possuem um espaço no coração reservado para esse tipo de tralha.

MORTOS VIVOS foi lançado no Brasil pela A2 Filmes, através do selo Focus Filmes, que está disponível em DVD para aluguel ou compra, assim como em serviços ‘on demand’ como o Looke e o NOW.

c

Anúncios

A NOITE DOS MORTOS VIVOS (The Night of the Living Dead, 1968)

night3

Morreu George A. Romero. Talvez o público mais jovem não tenha ainda muita noção, mas a importância que esse homem teve para o cinema, não só para os filmes de zumbis, não só para o gênero horror, é para o CINEMA mesmo, é algo simplesmente extraordinário. Pessoalmente, o cara foi responsável por algumas obras fundamentais na minha formação cinéfila, como DIA DOS MORTOS, OS CAVALEIROS DA NOITE e, claro, A NOITE DOS MORTOS VIVOS, seu primeiro trabalho.

Antes de A NOITE DOS MORTOS VIVOS, os zumbis eram trazidos à vida nos filmes, em sua grande maioria, em cerimônias voodoo como peões para seguir as ordens de seus mestres. De vez em quando alguns exemplares faziam algo diferente e mostravam mortos-vivos agindo em hordas bem parecidos com o que Romero viria a fazer, como em MORTOS QUE MATAM (64) ou O PARQUE MACABRO (62). Mas tudo mudou mesmo em 1968, com A NOITE DOS MORTOS VIVOS, quando Romero entra em cena e transforma a figura do zumbi numa metáfora político-social do indivíduo moderno. Além de injetar nessas criaturas um terror mais visual. Uma criatura putrefata que se levanta do túmulo para devorar as tripas dos vivos não era algo tão comum nos anos 60.

High-Def-Digest-highdefdigest.com-Blu-ray-Review-Night-of-the-Living-Dead-1968-Japan-Import-George-Romero_2_

O primeiro zumbi de Romero

Romero também estabeleceu as regras básicas para o milhares de zombie movies que viriam a seguir, como por exemplo a maneira de matar um morto-vivo… Como você pode matar algo que já está morto? Fácil! Atire na cabeça! Outra regra: Se você for mordido por um zumbi, você se transformará em zumbi! As causas e origens dos mortos voltarem à vida, no entanto, nunca são claramente explicadas nos filmes de Romero. Mas quem se importa?

A NOITE DOS MORTOS VIVOS começa com Barbra (Judith O’Dea) e Johnny (Russell Streiner), dois irmãos que chegam a um cemitério para colocar flores no túmulo do pai e se deparam com um zumbi lhes aporrinhando. Depois de matar Johnny, o morto-vivo persegue Barbra, que procura abrigo em uma fazenda aparentemente abandonada. Mas, não demora muito, Ben (Duane Jones) chega ao local fugindo desse inesperado horror e ajuda Barbra a bloquear a casa do iminente ataque de zumbis. As tensões aumentam também dentro da casa, quando uma família escondida no porão é revelada e instaura outros tipos de conflitos dentro desse pequeno universo particular, num complexo estudo do comportamento humano em situações extremas. Não é a toa que Romero escolhe o gênero terror para expressar sua desilusão no ser humano e mostrar pela imagem a que ponto podemos chegar na ânsia de nos devorar. No caso dos zumbis, o ato de devorar o outro é literal, mas por trás disso há uma grande metáfora de passar por cima, de engolir o próximo em nome dos interesses pessoais. Continuar lendo

RATOS E ZUMBIS: DOBRADINHA MATTEI/FRAGASSO

4bxmu4Y

Anunciaram essa semana que vão lançar em breve um blu-ray com dois filmes da dupla Bruno Mattei e Claudio Fragasso, RATS – NOTTE DI TERRORE (84) e VIRUS – L’INFERNO DEI MORTI VIVENTI, aka HELL OF THE LIVING DEAD (80). Claro que a qualidade de imagem em alta definição não vai fazer muita diferença para quem já considerava esse tipo de produção puro lixo cinematográfico. Não vai transformá-los em obras-primas do horror oitentista. Mas para quem, como eu, sabe admirar essas tralhas italianas (ou seja, tem um puta mau gosto), será uma delícia poder rever essas belezinhas numa resolução mais adequada. Se é que vão mesmo fazer um bom trabalho de restauração. Esperamos que sim.

Dica para quem não conhece o trabalho dos realizadores e que serve também para uma porrada de outros nomes. Primeiro, Bruno Mattei e Claudio Fragasso (que não foi creditado em nenhum dos dois filmes) são considerados alguns dos piores diretores de todos os tempos pela crítica “séria” e cinéfilos coxinhas. Tendo isso em mente, já conhecendo o terreno no qual estamos pisando, ninguém vai sentar para assistir a um filme desses caras achando que vai ver encontrar algo do nível de um Mario Bava ou Dario Argento, certo? Esqueça qualquer tipo de virtuose cinematográfica. Segundo: arranje algumas bebidas, uns petiscos, chame uns dois amigos que tenham bom humor e que gostem pelo menos um pouco de filmes de terror sem grandes pretensões e pronto, não tem como não errar.

ratsnot7
Rxv80UV

Foi exatamente assim que me deparei com RATS há alguns anos. A diversão é garantida e foi impossível não ficar tirando sarro das situações absurdas, as atuações ridículas de todo o elenco e do trabalho técnico da produção que parecia não ter dinheiro nem pra bancar um lanchinho para a equipe nos intervalos das filmagens. A trama se passa num futuro pós-apocalíptico, quando um grupo de figuras simpáticas, que parecem saídos dos filmes MAD MAX, chega numa cidade devastada e abandonada onde resolve passar a noite. Mas algo terrível acontece: eles são atacados por perigosos e terríveis ratos!

E entre alguns momentos bizarros e outros que só servem para encher linguiça e dar sono, dá-lhe baldes de ratinhos de borracha pra cima dos atores! Ok, eu entendo que o Bruno Mattei não queria que sua obra virasse motivo de chacota, mas é bem melhor que tenha se tornado essa comédia involuntária divertidíssima que realmente é do que uma simples porcaria sem degustação que não serve para nada. E a revelação final é um dos momentos mais SUBLIMES de toda a história do cinema eurocult!

bscap0002

VIRUS é outra peça de rara beleza da  sétima arte. Eu vi mais recentemente e não foi exatamente nas condições que eu alertei ali em cima. Claro, havia um inebriante para acompanhar, mas assisti sozinho. Não sei se posso me chamar de experiente nesse universo, o que importa é que mesmo assim eu curti pra cacete essa tosqueira do Mattei. Eu falo que é do Mattei porque ele é mesmo o diretor, o Fragasso dirigiu algumas poucas cenas e chegou a ser creditado como assistente de direção.

Na trama, um experimento numa fábrica, em um país subdesenvolvido qualquer, dá errado e espalha um gás pelo resto do mundo! Um gás que transforma os mortos em zumbis, diga-se de passagem. Uma equipe da SWAT (!?), cujos uniformes são idênticos aos dos personagens de DAWN OF THE DEAD, do George A. Romero, é enviado até a tal fábrica para recolher alguns documentos e vestígios que possam ser úteis para esclarecer que raios aconteceu ali. No caminho, resgatam uma antropóloga (Margit Evelyn Newton) e seu cinegrafista, e enfrentam os perigos de uma região infestadas por zumbis.

hotld_shot2l

VIRUS é uma das maiores provas “vivas” da picaretagem desses italianos. Como grande parte da história se passa numa selva, Mattei/Fragasso e companhia utilizaram cenas de documentários para contribuir na ambientação, para não precisar viajar e levar equipe de filmagens e registrar a fauna, flora e tribos indígenas de outros continentes, afinal, o orçamento não era dos melhores. Uma prática comum, na verdade, em filmes como CANNIBAL HOLOCAUST, por exemplo, percebe-se várias cenas recicladas de stock footage retiradas de um National Geographic qualquer e tal, mas aqui a coisa é bizonha!

A título de curiosidade, utilizaram cenas de um documentário chamado NUOVA GUINEA, L’ISOLA DEI CANNIBALI (74) e também o doc clássico francês DES MORTS (79), mas é muito provável que tenha mais coisas por aí…

2dOePkd

Em determinado momento vemos elefantes africanos na tela, em outros instantes, tribos indígenas e animais silvestres da fauna da Nova Guiné, e por aí vai… Em que mundo se passa o filme? Os caras perderam totalmente a noção. E a maneira exagerada que essas imagens são colocadas e abusadas no meio da narrativa é impressionante, são cenas inteiras que “dialogam” de maneira esquisita com a película do filme, seja pelo o aspecto dessas imagens, que é totalmente diferente em termos de granulação, iluminação, cores, seja porque simplesmente a coisa não cola… E é por isso que eu amo esse cinema!

Só por esses detalhes já valeria a pena dar uma olhada em VIRUS. O roteiro de Fragasso garante, ainda, outros vários momentos da mais pura elegância narrativa. Mesmo nas partes chatas, há sempre algo que te surpreende, uma frase que te deixa feliz. Uma das minhas cenas favoritas é quando a personagem da Newton precisa entrar numa tribo antes dos demais, pois conhece os costumes do local e não quer correr riscos de algum tipo de confronto. Ela diz  “Eu vou na frente… E sozinha“, pra logo em seguida começar a arrancar a roupa na maior seriedade do mundo, sob o olhar dos outros personagens, apenas para o filme ganhar um pouco de nudez gratuita.

VirusCannibale6

Ah, esses italianos… Destaque também para a trilha sonora do Goblin, que se não é das mais inspiradas do grupo, pelo menos funciona para o tipo de filme que temos aqui. E a violência, claro, também chama a atenção, com muito sangue e efeitos de maquiagens caseiros, mas até que bem feitos. Não faltam cabeças alvejadas e esmagadas, mordidas que arrancam pedaços, personagens morrendo da maneira mais estúpida possível, enfim, tem de tudo e mais um pouco para toda a família. São todos ingredientes e ideias que Mattei e Fragasso conseguiram aproveitar de outros filmes de zumbis da época – chamam isso de inspiração – e que fazem de VIRUS um dos mais divertidos zombie movies do país da bota.

[REC] (2007) & [REC]² (2009)

MV5BNzg1Njc4YzItMjJkOC00MzhiLTk1NzItMGJhNzlkZTAxOWU1XkEyXkFqcGdeQXVyMjgyNjk3MzE@._V1_

[REC], de Jaume Balagueró e Paco Plaza é um Zombie Movie espanhol que inicia quando uma repórter de TV, Ângela, e seu cameraman, Pablo, visitam um departamento de bombeiros para realizar uma matéria sobre esta profissão. Quando soa o alarme, os dois acompanham os bombeiros responsáveis pela chamada até um prédio onde a polícia já se encontra em cena e quase todos os moradores estão na portaria.

A coisa fica feia quando uma mulher em um apartamento ataca um dos policiais enquanto Pablo e Ângela gravam tudo. Na tentativa de sair do prédio para levar o ferido, eles são impedidos e o edifício fica bloqueado prendendo todos os residentes, os repórteres, policiais e os bombeiros do lado de dentro sem qualquer explicação.

O filme todo é acompanhado pela câmera subjetiva de Pablo. É a linguagem found footage que estava em voga no momento, principalmente para filmes de terror, como foi em CLOVERFIELD e o DIÁRIO DOS MORTOS, de George Romero. Embora este tipo de montagem renuncie elementos que poderiam fornecer uma atmosfera mais densa, é uma forma interessante de narrar os fatos absurdos com certo realismo e veracidade. Não chega a ser um filmaço surpreendente de outro mundo, mas está acima da média, assim como sua continuação, que é muito boa e consegue manter o nível.

REC² inicia 15 minutos após o desfecho do primeiro filme, agora com a câmera de um esquadrão da polícia servindo como ponto de vista para que o espectador acompanhe cada momento dentro do mesmo prédio do filme anterior. A sacada do roteiro foi acrescentar um outro elemento de terror na trama. Não vou contar pra não estragar o vislumbre, mas o final do primeiro criava essa possibilidade. A direção de atores continua excelente e o elenco corresponde muito bem às situações aterradoras da trama com ótimas encenações, muita criatividade e veracidade. Quem curtiu REC vai gostar de revisitar o velho prédio do centro de Barcelona recheado de zumbis.