SANGUE DE HERÓIS (Fort Apache, 1948); Classicline

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SANGUE DE HERÓIS é o primeiro filme da “trilogia da cavalaria” de John Ford – o segundo eu já comentei por aqui, LEGIÃO INVENCÍVEL – e é mais um dos grandes westerns do diretor e que veio em boa hora na sua carreira. Ford vinha de um desastre comercial com o belíssimo DOMÍNIO DOS BÁRBAROS, um de seus filmes mais intimistas, mas que o público não recebeu muito bem, e precisava agora desesperadamente de algum material que fosse resultar num sucesso comercial. E foi SANGUE DE HERÓIS que colocou Ford de volta ao topo.

Na trama, o tenente-coronel Owen Thursday (Henry Fonda) é um ilustre oficial da Guerra Civil que acaba tendo que assumir um posto em tempos de paz que não é lá muito da sua vontade. Para ser sincero, Thursday considera sua nomeação como o novo oficial comandante do Fort Apache, no Território do Arizona, como um insulto e deixa isso bem claro à todos ao seu redor.

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O território vive em problemas com os Apaches, cujo líder, Cochise, desenterrou a machadinha de guerra e leva seus guerreiros ao longo da fronteira com o México em protesto contra a corrupção de um agente indígena local que está mais interessado em vender uísque do que cobertores e comida decente. Como Thursday está ansioso para encontrar alguma maneira de conquistar a glória e sair daquele território o mais rápido possível, a missão de trazer Cochise e seu povo de volta à reserva o atrai.

Só que Thursday acaba se demonstrando um cabeça dura arrogante e um péssimo líder. Thursday não sabe nada sobre os Apaches e não está disposto a seguir o conselho de oficiais experientes, como por exemplo o Capitão Kirby York (John Wayne), e todos seus atos anunciam uma inevitável tragédia que se aproxima. Continuar lendo

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DVD REVIEW: LEGIÃO INVENCÍVEL (She Wore a Yellow Ribbon, 1949); Classicline

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No final dos anos 40 o diretor John Ford iniciara uma espécie de trilogia que celebrava as proezas da cavalaria do exército americano no imaginário do velho oeste. Ficou conhecida como a Trilogia da Cavalaria, todos estrelados por John Wayne. Começa em 1948 com SANGUE DE HERÓIS (1948) e terminava dois anos depois com RIO GRANDE (1950). Mas o mais peculiar dos três episódios só podia ser a peça do meio, LEGIÃO INVENCÍVEL, que assisti recentemente num belíssimo DVD lançado pela Classicline.

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Por que o mais peculiar? Primeiro, é preciso destacar a presença de Wayne, que foi o principal ator colaborador da carreira de Ford. Até esta altura, o diretor o utilizava como o habitual bravo cowboy icônico do faroeste americano, papéis que exigiam mais a presença física de Wayne do que uma construção mais profunda de seus personagens. Quando precisava de algo mais complexo, recorria a atores que julgava mais talentosos dramaticamente, como Henry Fonda em A MOCIDADE DE LINCOLN e PAIXÃO DOS FORTES. Continuar lendo

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.3 – MR. DENTON ON DOOMSDAY (1959)

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Uma das coisas mais legais de ALÉM DA IMAGINAÇÃO é o diálogo entre gêneros. Além do sci-fi, do horror e da fantasia, que são o básico da série, sempre teremos uns episódios mais dramáticos, outros mais cômicos, teremos policiais noir, guerra, aventura e até western. Este último é o caso de MR. DENTON ON DOOMSDAY, terceiro episódio da primeira temporada.

Em 1959, os filmes de bangue-bangue ainda dominavam os olhares do público. Mas não esperemos a linguagem básica do western totalmente presente aqui nessa curta história de redenção e destino. O protagonista, por exemplo, não é nenhum cowboy ou xerife durão, mas o retrato exato de um bêbado. A história se passa numa pequena cidade do velho oeste americano e o nosso “herói” é Al Denton, vivido por Dan Duryea, constantemente humilhado por um jovem pistoleiro chamado Dan Hotaling, interpretado pelo inigualável Martin Landau. Tudo o que Denton gostaria era de poder se redimir, de uma nova chance na vida, mas acaba sempre perdido em mais uma garrafa de uísque.

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O elemento fantástico da série vem na espécie de um anjo da guarda transvestido de um vendedor ambulante (Malcolm Atterbury), que chega à cidade e resolve misteriosamente se intrometer no destino de Denton. Agora o sujeito tem a sua segunda chance, se redescobre muito mais homem do que achava que ainda era. Mas será que vai aproveitá-la devidamente?

Novamente escrito pelo criador da série, Rod Serling, MR. DENTON ON DOOMSDAY é um dos episódios sobre “perdedores”, onde o personagem principal é um ferrado que está do lado errado da sorte. Em seguida, acontece algo “mágico”, algo inacreditável que invade a realidade infeliz do personagem, cujo efeito muda para sempre sua vida e sua visão sobre o futuro. Em cada uma dessas histórias, no entanto, há uma escolha fundamental que deve ser feita pelo personagem. O milagre nunca vem de graça e nunca sem a necessidade de uma ação humana como catalisador. MR. DENTON ON DOOMSDAY exemplifica exatamente esse tema, que ainda serão explorados em vários episódios da série.

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Enfim, é um episódio agradável. O cenário do Velho Oeste funciona bem como palco para esse jogo de moralidade. Vale dar ênfase ao elenco, no qual temos um ator gabaritado como Dan Duryea, que já tinha realizado, por exemplo, diversos filmes noir de Fritz Lang. Mas meu destaque vai para um jovem Martin Landau, demonstrando um talento incrível e indícios do grande e expressivo ator que seria futuramente, recebendo o Oscar de melhor ator coadjuvante em ED WOOD, de Tim Burton. Uma pena seu falecimento recente. Malcolm Atterbury tem uma participação menos expressiva, mas sua presença também chama a atenção. Fez uma carreira mais voltada para séries de TV, tendo recebido mais de 150 créditos como ator.

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A direção do episódio ficou por conta de Allen Reisner, prolífico diretor de séries, embora MR. DENTON ON DOOMSDAY seja seu único trabalho em ALÉM DA IMAGINAÇÃO.

O RIO DAS ALMAS PERDIDAS (River of No Return, 1954)

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O primeiro que enjoar das postagens com o Robert Mitchum vai ser a mulher do padre… Até porque depois que se mergulha de cabeça na obra deste estupendo ator fica difícil parar. É como um vício. Mas um dos bons, saudável, recomendável aos amantes de boas atuações. E, neste ofício, Mitchum foi um dos grandes… Quiçá o maior… Se cuida, Lee Marvin!

O RIO DAS ALMAS PERDIDAS foi o último que vi estrelado por Mitchum.

Dirigido pelo gênio Otto Preminger, o filme é um western de aventura que se passa durante a famigerada corrida do ouro do final do século IXX. O fazendeiro Matt Calder (Bob Mitchum), que vive em uma fazenda remota com seu jovem filho Mark, ajuda um casal que perde o controle de sua jangada num rio nas proximidades. Um deles é Harry Weston, um jogador profissional que está tentando chegar à cidade mais próxima o mais rápido possível para registrar uma reivindicação de uma mineiradora que ele alega ter ganho em um jogo de poker. Sem cavalo, achou que a melhor maneira era descer o perigoso rio de jangada… Junto dele, sua namorada, a bela Kay (Marilyn Monroe), uma cantora de salão.

Quando Calder se recusa a deixar Weston “pegar emprestado” seu único rifle e seu único cavalo para seguir viagem, o clima fica pesado entre os dois. O local é cercado de índios e é o rifle de Calder que protege ele e seu filho dos peles-vermelhas. Além disso, o cavalo é seu “instrumento” para arar a terra nas suas plantações… Mas, como sabemos, Weston precisa urgentemente chegar à cidade mais próxima. Demonstrando ser um grandessíssimo filho da puta, o jogador acerta a cabeça de Calder e parte montado no animal levando o rifle do protagonista embora. A trairagem foi tão grande que até Kay resolve ficar para trás.

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Incapazes de se defender de um iminente ataque índio, Calder, seu filho e Kay só vêem na jangada e nas perigosas águas do rio o único meio de manterem a pele intácta. E assim, a aventura de O RIO DAS ALMAS PERDIDAS começa, com esse improvável trio tentando sobreviver às correntesas do rio com a jangada e aos eventuais ataques de índios. E só um pensamento que dá força a Calder nessa jornada: vingança.

Parece divertidão, não é? Uma montanha-russa em forma de filme de aventura. Pois é, o produtor do filme, Stanley Rubin, também achava que deveria ser assim. No entanto,  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS é bem mais complexo, intimista e reflexivo do que parece. E grande parte dessa lógica de aventura descompromissada se perde graças a Otto Preminger.

Na ocasião, Rubin achava que Preminger teria sido uma escolha equivocada. Queria alguém mais ligado a aventuras mais rotineiras, alguém que já tivesse dirigido western, algo que Preminger nunca tinha feito. Rubin queria mesmo o grande Raoul Walsh, que já era célebre por balancear filmes escapistas com um bocado de substância… Mas o chefão da Fox, o lendário Darryl F. Zanuck, precisava arranjar um projeto rápido para Preminger, porque já estava pagando um sálario astronômico na época de 2.500 dólares por semana com o sujeito trabalhando ou não. Preminger, a princípio, não queria saber muito de  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS, mas aceitou na boa após ler o roteiro e perceber que poderia explorar alguns conceitos, tanto estéticos quanto humanos com aqueles personagens. O que gerou certo desconforto entre Stanley Rubin e o diretor, que sempre teve fama de autoritário. Continuar lendo

ARMADO ATÉ OS DENTES (The Man With the Gun, 1955)

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Assisti a este western rotineiro que no Brasil ganhou o divertido título ARMADO ATÉ OS DENTES. Mas referir-se ao filme como rotineiro pode não parecer uma recomendação muito entusiástica. No entanto, como a década de 50 foi um período tão fértil para filmes excelentes do gênero, digamos que “rotina” pode ser tomada como algo positivo…

O filme possui muitos dos elementos padrões que eram populares na época: temos o solitário e misterioso pistoleiro, com um passado sombrio, que encara as forças do vilão sem escrúpulo numa cidade cuja população de homens tímidos e indefesos precisa contar com o estranho pistoleiro para salvá-los de serem explorados e enganados.

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Robert Mitchum, ainda começando a se tornar um astro, interpreta Clint Tollinger, um pistoleiro com uma reputação de “domar” cidades selvagens. E o local que chega tem um baita problemão. Um tal de Dade Holman (Joe Barry), um poderoso fazendeiro, tem usado seus consideráveis ​​recursos financeiros para comprar toda a terra circundante à sua e utiliza mercenários armados para aterrorizar ou matar qualquer pessoa que não ceder às suas propostas de compra.

E Tollinger entra na cidade para descobrir que sua reputação o precede. Ele acaba contratado pelo conselho local para frustrar os planos de Holman e seus lacaios, que também habitualmente têm perturbado a paz. Tollinger aceita o trabalho contanto que tenha controle total sobre os métodos que emprega, o que inclui a regra “sem armas na cidade” e também um toque de recolher. Em pouco tempo, os empresários que o contrataram estão reclamando que agora as coisas estão pacíficas demais e seus negócios vão de mal a pior.

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Enquanto isso, os pistoleiros de Holman não demoram muito para testar Tollinger, que prova ser rápido e certeiro o suficiente para se defender. Mesmo quando seus adversários estão maior número. O filme também investe bastante tempo na relação que Tollinger estabelece com um jovem casal prestes a se casar: a adorável Stella Atkins (Karen Sharpe) e seu noivo cabeça-dura Jeff Castle (John Lupton), que continua a desafiar os homens de Holman e acaba seriamente ferido por sua recusa em ceder suas terras.

Tollinger também encontra na cidade sua ex-mulher, Nelly (Jan Sterling), que administra o bordel local. Os dois não ficam lá muito felizes em se ver, e quando Nelly revela um segredo chocante sobre sua filha, Tollinger enfurecido resolver tocar o terror pra cima da bandidagem.

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ARMADO ATÉ OS DENTES sofre de um título original brando, sem muita inspiração e genérico (MAN WITH THE GUN). Mas o filme em si é bastante envolvente. Mitchum está ótimo como sempre, fazendo um personagem bem mais complexo que a impressão superficial sugere. E já nessa fase inicial da carreira havia evidências claras de um astro sendo lapidado. O elenco de apoio também é muito bom, especialmente alguns atores como Henry Hull (O LOBISOMEM DE LONDRES), Emile Meyer (OS BRUTOS TAMBÉM AMAM), James Westerfield (SINDICATO DE LADRÕES) e outros rostos familiares da época (incluindo um jovem Claude Akins). O filme, habilmente dirigido por Richard Wilson (talentoso assistente de Orson Welles), certamente não é nenhum clássico espetacular, mas por outro lado, é sólido, divertido e tem Robert Mitchum fazendo a alegria da moçada.

TOP 10 WESTERNS ANOS 90

O post anterior me inspirou a montar essa lista…

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10. O MASSACRE DE ROSEWOOD (Rosewood, 1997), de John Singleton

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09. JOVEM DEMAIS PARA MORRER (Young Guns 2, 1990), de Geoff Murphy

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08. MORTOS DE FOME (Ravenous, 1999), de Antonia Bird

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07. WYATT EARP (1994), de Lawrence Kasdan

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06. WILD BILL (1995), de Walter Hill

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05. DANÇA COM LOBOS (Dances with Wolves, 1990), de Kevin Costner

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04. GERÔNIMO (1993), de Walter Hill

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03. TOMBSTONE (1993), de George P. Cosmatos (Kurt Russell não creditado)

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02. DEAD MAN (1995), de Jim Jarmusch

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01. OS IMPERDOÁVEIS (Unforgiven, 1992), de Clint Eastwood

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Mais um daqueles filmes que faziam minha cabeça na pré-adolescência, no início anos 90, que devo ter visto na época umas duzentas vezes e que já fazia uns bons quinze anos que eu não revisitava e nem lembrava se era mesmo tão bom… Mas TOMBSTONE valeu muito a revisão que fiz esta semana. Baita western noventista com um dos elencos mais espetaculares que eu já vi! Curioso que já naquela época Hollywood lançava uns filmes em dose dupla sobre temas semelhantes quase ao mesmo tempo… E não tô falando de rip-offs picaretas e independentes, mas de super produções de grandes estúdios. Se hoje em dia temos um WHITE HOUSE DOWN e OLYMPUS HAS FALLEN lançados no mesmo ano, nos anos 90 tivemos ARMAGGEDON sendo lançado com IMPACTO PROFUNDO, ou VOLCANO e O INFERNO DE DANTE e até mesmo MARTE ATACA com INDEPENDENCE DAY… TOMBSTONE também não saiu ileso e quase teve que disputar bilheterias com WYATT EARP, lançado poucos meses depois.

Ambos os filmes tem como protagonista o lendário xerife Wyatt Earp, aqui interpretado por outra lenda, o grande Kurt Russell. Já WYATT EARP, dirigido pelo Lawrence Kasdan, tem Kevin Costner no papel do xerife e possui uma abordagem mais biográfica e historicamente enraizada, o que não quer dizer que não seja bom… Gosto dos dois, mas TOMBSTONE  é outra pegada, mais divertida, estilizada e com muito mais ação e um elenco de fazer cair o queixo. Numa comparação, digamos, esdrúxula, WYATT EARP seria um filme do John Ford, com um certo rigor e suntuosidade, enquanto TOMBSTONE é um equivalente aos descompromissados faroestes de matinée dos anos 40.

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O curioso é que o roteirista Kevin Jarre, que iniciou as filmagens também como diretor de TOMBSTONE, tinha planos bem mais ambiciosos para o filme. A sua ideia era fazer um estudo de personagem mais aprofundado, mas acabou despedido, seja lá por qual motivo, com um mês de trabalho e o filme tomou outros rumos. TOMBSTONE retrata o período em que Earp, seus irmãos (Bill Paxton e Sam Elliott) e suas mulheres se mudam para a cidade de Tombstone, no Arizona, para fazer uma nova vida e que não envolve o trabalho de xerife. O problema é que a cidade é encrenca e não demora muito Earp, seus irmãos e Doc Holliday (o grande e único Val Kilmer) marcham em slow motion rumo ao O.K. Corral para o provável mais famoso tiroteio da história americana… O filme ainda prossegue com a repercussão e as consequências explosivas desse fato, que trouxe algumas desgraças para Earp, mas também algum senso de ordem e justiça… Ou vingança… A eterna linha fina que separa as duas coisas.

O filme já seria totalmente assistível só pelos temas e a violência que surge a partir daí, mas temos ainda um elenco que é simplesmente de encher os olhos. Além de Russell, Paxton, Elliott e Kilmer, temos Powers Boothe, Michael Biehn, Charlton Heston, Stephen Lang, Thomas Haden Church, Billy Bob Thornton, Michael Rooker, Billy Zane e Frank Stallone! Além disso, Robert Mitchum é o narrador. Como não amar um filme desses?

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Mas o que torna TOMBSTONE realmente transcendental é a interação de Earp com o tuberculoso Doc Holliday. Qualquer momento em que esses dois cavalheiros dividem a tela é simplesmente sublime e engrandece a obra absurdamente. É quando se percebe o quão fascinantes e fortes são esses personagens… Tão opostos, ambos gigantes.

É facilmente o melhor desempenho da carreira de Kilmer e na minha opinião o melhor Doc Holliday do cinema, que me perdoem Victor Mature e Stacy Keach. Alguns dos melhores momentos de TOMBSTONE é marcado pela presença de Kilmer, seja abrindo a boca pra soltar alguma frase genial de efeito, seja em sequências como quando encara Michael Biehn pela primeira vez e demonstra sua agilidade com uma caneca de café, ou no duelo final entre eles. Mas especialmente nos seus últimos diálogos com Earp, que é capaz de fazer até o coração mais duro ficar amolecido… Mas é só inventar a velha desculpa do cisco no olho que ninguém vai se importar.

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Já Russell com seu Wyatt Earp não consegue chegar no mesmo nível de Kilmer, que está mesmo perfeito. Mas o sujeito também possui aqui alguns bons momentos e o bigode mais badass dos anos 90. Grande atuação do homem. É um casca-grossa total! Principalmente quando entra em ação e distribui tiros nas mais variadas formas, nos mais variados bandidos que entram em seu caminho.

Por falar em ação, eu poderia elogiar o trabalho do diretor George P. Cosmatos em algumas sequências, mas corro o risco de cometer injustiça. O Tiroteio no O.K. Corral ou o duelo entre Doc Holliday e Johnny Ringo (Biehn) são dignos de antologia do cinema de faroeste dos últimos trinta anos, mas quem realmente as dirigiu? Cosmatos é um diretor legal, fez RAMBO 2, COBRA, LEVIATHAN e ganhou os créditos por TOMBSTONE, mas em duas entrevistas não tão antigas, Kurt Russell afirma que assumiu a direção logo depois que Jarre foi demitido. Na verdade, em uma das ocasiões, Russell diz que dirigiu a grande maioria do filme e que o nome de Cosmatos nos créditos era apenas de fachada para fazer a produção correr bem… Enfim, puta trabalho do Russell como diretor, se for mesmo verdade…

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Eu havia citado Ford ali em cima. Sua versão de Wyatt Earp, com Henry Fonda vivendo o personagem, MY DARLING CLEMENTINE, é um belíssimo filme… O do Kasdan, como já disse, é outra adaptação que gosto bastante. Aliás, a história do famigerado xerife já foi para as telas diversas vezes. Até o Doc Holliday já ganhou filmes solos… No entanto, não tem jeito, tenho um carinho tão especial por TOMBSTONE que na minha opinião é o melhor exemplar tendo o velho Wyatt Earp como destaque… Pelo elenco magistral, especialmente a presença de Kilmer e Russell, pelas as cenas de ação incríveis, os diálogos afiados e o fator nostálgico, com os vários momentos marcantes que carrego desde a infância.

WESTWORLD (1973)

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Já faz uns bons anos que assisti a WESTWORLD, de Michael Crichton, mas como saiu agora essa série da HBO e muita gente tem elogiado (e eu ainda não parei pra ver), vale a pena relembrar essa pérola dos anos 70.

Há uns tempos atrás eu tinha um preconceito besta com o Crichton por causa das alterações que fez em O 13° GUERREIRO, que na minha cabeça teriam estragado a visão do John McTiernan, que era o diretor da parada e um dos poucos gênios do Studio System dos últimos trinta anos. Mas, quem sabe, o “filme do McT” já era ruim e o Crichton como produtor tentou consertar? Enfim… Acho que nunca vamos saber, é pouco provável que esse filme ganhe uma director’s cut. De todo modo, eu tinha a impressão de que o Crichton era um filho da puta sem talento querendo impor sua vontade nos filmes que produzia. Claro que isso foi mudando com o passar dos anos, fui descobrindo que o cara sempre foi um interessante escritor, roteirista e diretor, que deu uma contribuição ímpar para a fase cerebral do cinema de ficção científica nos anos 70… E tudo isso começou quando vi WESTWORLD.

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A ideia de parque-temático-que-dá-uma-merda-daquelas é algo que parece interessar ao Crichton. Uma de suas obras mais famosas, por exemplo é justamente JURASSIC PARK, que o Spielberg adaptou nos anos 90… Em WESTWORLD temos a Delos Corporation, uma empresa de entretenimento que cria um recinto definitivo para as férias num futuro não muito distante. Consiste em parques temáticos sofisticados que recriam épocas passadas – um mundo medieval, o império romano e um velho oeste, chamado Westworld. A graça da brincadeira é que o usuário encara essas realidades forjadas interagindo com robôs de altíssima geração. Cada um desses mundos é povoado por androides que são quase impossíveis de distinguir de pessoas e animais reais e os hóspedes podem fazer tudo o que desejam aos robôs. Qualquer coisa mesmo! Eles podem atirar neles. Eles podem fazer sexo com eles. Não há regras. E o principal, a tecnologia é tão avançada que é impossível para um robô causar algum dano em um ser humano. Então, nada pode dar errado, não é?

Grande parte da força de WESTWORLD é por essa visão ácida, satírica e consciente sobre a indústria do entretenimento. É como se Crichton já estivesse, há mais de 40 anos, prevendo a ambição das companhias em proporcionar o máximo de experiência interativa dos usuários, algo que hoje já é uma realidade. Cinema 3D, 4D, sei lá quantos D’s, óculos de realidade virtual, video-games hiper-realistas, escape rooms e simuladores com elementos de filmes, até mesmo parques temáticos que colocam o individuo em cenários cinematográficos já existem aos montes por aí. Só falta os robôs para chegarmos a WESTWORLD. Quero dizer, ainda falta também deixarem o moralismo hipócrita de lado e focar naquilo que realmente importa, a verdadeira atração da parada, que é oferecer violência e sexo de uma maneira segura e ilimitada, essa liberdade de regras que é a principal atração neste futuro distópico. Sexo e violência sem culpa.

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Esse subtexto é  tão atual e relevante que agora, mais de 40 anos depois, temos um seriado reformulando todas essas ideias. Bem, pelo menos espero que estejam…

Na trama, Peter Martin (Richard Benjamin) e John Blane (James Brolin, que tá a cara do Christian Bale) escolheram Westworld para suas férias. E simplesmente não conseguem acreditar como é tudo é tão real e agradável. Passada meia hora no local, Martin já está se divertindo por ter matado seu primeiro pistoleiro, o sinistro Black Bart, obviamente um robô, vivido pelo grande Yul Brynner. Depois é festejar no puteiro local. E as garotas podem ser artificiais, mas sabem exatamente como fazer a alegria de um homem… Uma das coisas que mais gosto em WESTWORLD é o fato de que os dois protagonistas não sejam lá muito simpáticos, isso acrescenta mais munição à sátira de Crichton. Eles não são rapazes inocentes e suas ideias do feriado ideal é gastar a metade de seu tempo disparando em robôs e a outra comendo putas de lata.

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Nos bastidores do parque vemos a ação dos homens de casacos brancos, os técnicos que fazem a roda girar, apesar de muito do funcionamento do parque ser completamente automatizada, controlado por computadores poderosos. A tecnologia é tão complexa que os técnicos humanos não conseguem compreender totalmente a coisa toda – até porque muitos dos robôs e outras características do parque foram projetados pelos próprios computadores. Os técnicos humanos simplesmente encaixam peças de reposição nos robôs danificados.

Há algumas falhas ocasionais, mas estão dentro dos limites previstos. Mas quando começam a ser constantes sem nenhuma razão aparente os técnicos começam a observar que as ocorrências seguem o mesmo padrão de doenças infecciosas. É como se houvesse um vírus dentro do sistema infectando os robôs. E uma vez que eles estão lidando com máquinas projetadas por outras máquinas é extremamente difícil agir com esses problemas inesperados. Tudo isso pra enfatizar que quando a merda explode no ventilador, é melhor fugir pra bem longe o mais rápido possível, porque não há muito o que fazer… Uma cascavel de lata ferir um convidado ou uma prostituta medieval robótica rejeitar uma tentativa de sedução, são coisas aceitáveis dentro do programa, mas quando um dos hóspedes é assassinado à tiros num duelo por um pistoleiro androide, é porque já deu merda mesmo… Especialmente quando esse androide é o Yul Brynner, que está simplesmente impagável, totalmente fora de controle tocando o terror. Um pré-TERMINATOR que deixa um rastro de corpos por onde passa. Genial.

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WESTWORLD é este filmaço que aparenta ser. Inteligente, com substância, reflexão e ao mesmo tempo muito divertido. Faz parte de uma era de ouro da ficção científica quando o gênero possuía mais filmes sobre ideias do que sobre efeitos especiais (embora os daqui sejam ótimos para a época). E me fez fazer as pazes com o seu diretor, que manda bem por aqui. Um sujeito legal e bastante subestimado cuja obra precisa ser olhada com mais atenção. WESTWORLD ainda possui uma continuação, FUTUREWORLD (76), com o Peter Fonda e dirigido pelo Richard T. Hefron, outro cara foda que acabou no esquecimento. Nunca vi essa continuação…

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Os anos 70 nos brindou ainda com outra pérola inspirada em WESTWORLD, só que com um bocado de mais… digamos, sacanagem. Acho que deve valer a pena conhecer este aqui:

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SETE HOMENS E UM DESTINO (The Magnificent Seven, 1960)

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Não vi ainda, mas estreou a refilmagem de SETE HOMENS E UM DESTINO, de John Sturges, clássico absoluto do western americano, que afinal era também uma refilmagem de OS SETE SAMURAIS. Então tá tudo bem, não sou desses xiitas que já se opõe em tudo quanto é remake e décima sétima continuação. Se o filme for bom, vale tudo… E até o Akira Kurosawa se inspirou nos faroestes americanos de John Ford, Budd Boetticher, Delmer Daves, Howard Hawks e outros ao realizar o seu clássico samurai. Tudo gira em círculo. Por isso vou repostar este texto do blog antigo.

Assisti pela primeira vez a SETE HOMENS quando ainda era moleque e não achava grandes coisas. Revi há alguns anos e acabou se mostrando bem mais interessante por conta da maneira como o filme desmistifica um pouco a áurea dos heróis justiceiros do faroeste americano com reflexões sobre a solidão e o modo de vida desses indivíduos. Algo que eu não havia pescado na infância, interessado apenas em ver pessoas atirando uma nas outras…

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Outros westerns já haviam trabalhado esse assunto, portanto, nada de muita originalidade por aqui. Mas o fato é que SETE HOMENS E UM DESTINO deixa de ser apenas um bang-bang de aventura para ser, também, um excelente estudo de personagens. E estes são interpretados por um elenco dos mais notáveis, o que contribui muito para que o espectador não desgrude o olho da tela. SETE HOMENS E UM DESTINO ajudou a alavancar as carreiras de Steve McQueen, Charles Bronson, James Coburn e Robert Vaughn. Conta também com atores experientes, do calibre de Yul Brynner e Eli Wallach, o primeiro, já naquela altura, possuía status de celebridade.

Com toda essa turma reunida, são curiosas algumas, digamos, fofocas de bastidores. McQueen, por exemplo, ávido por mais presença, queria se tornar um astro o mais rápido possível e tentava roubar as cenas de Brynner fazendo coisas que chamassem a atenção para si quando contracenava com o careca. Já Brynner estava preocupado em aparecer bem mais alto que McQueen nos enquadramentos (os dois tinham praticamente a mesma altura). O sujeito chegou a fazer um montinho de terra para ficar em cima, mas McQueen chutava “sem querer querendo” toda vez que passava por ele…

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Confrontos de egos à parte, todos estão ótimos e cada um conseguiu transmitir com personalidade as características definidas particularmente para seus personagens. Coburn caladão, sempre na dele, Vaughn medroso traumático, Bronson durão de coração mole, e por aí vai… É bacana também as habilidades específicas de alguns deles, especialmente Bronson, que é um exímio atirador com o rifle, e Coburn, um perito em facas. A divisão na hora de editar as sequências de ação também concede a cada um algumas boas cenas. Nisso John Sturges era muito bom, algo que se comprovou em outros filmes, sobretudo em FUGINDO DO INFERNO (63), clássico que também tinha o trio Bronson, McQueen e Coburn no elenco. Além de uma porrada de outros atores.

Sturges é o que podemos chamar de bom artesão. Não se pode esperar a elegância e maestria de um John Ford ou Don Siegel, mas fazia o que tinha que fazer com muita eficiência. Nesse sentido, as sequências de ação acabam em segundo plano em SETE HOMENS. São filmadas de maneira correta, mas com poucos momentos de maior destaque. Uma das cenas que eu chamaria atenção é quando Robert Vaugh finalmente perde o medo e resolve entrar na ação invadindo uma casa cheia de bandidos.

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Mas perguntem a algum fã do filme se ele sente falta de tiroteios mais elaborados. A construção dos personagens, a maneira como interagem, como são desmitificados, até a trilha sonora de Elmer Bernstein, são elementos suficientes para transformar SETE HOMENS E UM DESTINO no autêntico clássico que é. E a história é fascinante. Com uma duração bem menor que a de OS SETE SAMURAIS, há quem diga que os realizadores pegaram somente as “partes boas” do filme do Kurosawa e transformaram nesta belezinha. Recomendo uma espiada em ambos para as devidas comparações e tirarem suas próprias conclusões. E agora,  uma conferida nessa refilmagem do Antoine Fuqua, que provavelmente não deve chegar aos pés do clássico, mas se conseguir ser divertido, já tá bom demais.

ESPECIAL DON SIEGEL #27: O ÚLTIMO PISTOLEIRO (The Shootist, 1976)

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Tinha convidado alguém pra escrever sobre O ÚLTIMO PISTOLEIRO, mas isso já faz mais de um ano, acabou que a pessoa não me enviou nada e eu também não lembro quem era, então tanto faz. O importante é dar prosseguimento à peregrinação do cinema de Don Siegel, que chega neste western que carrega, digamos, uma certa importância peculiar. O fato é que três anos depois de protagonizar O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o maior ícone do western americano, John Wayne, bateu as botas por conta de um câncer fodido no pulmão e estômago. Este filme aqui, portanto, acabou por ser sua derradeira performance. E não poderia ser mais melancólico que o último filme do “Duke” fosse sobre um velho pistoleiro em fim de carreira chamado J. B. Booker, que descobre que tem um câncer terminal.

Booker só quer viver seus últimos dias da melhor maneira possível. Para confirmar a suspeita sobre sua saúde, visita um velho amigo médico, Dr. Hosteler, interpretado por por outro gigante, James Stewart, e obtém o diagnóstico que confirma seu câncer incurável. Em seguida, aluga um quarto em uma pensão administrada por uma viúva (Lauren Bacall) e seu filho adolescente (vivido por um jovem Ron Howard). Uma vez que Booker é reconhecido pela sua fama, as notícias se espalham pela pequena cidade de Carson City, incluindo sobre a doença, e percebe que não vai conseguir viver o pouco tempo que  lhe resta tão pacificamente como gostaria. Há tanto pessoas que tentam tirar proveito da presença do sujeito, como o agente funerário (John Carradine) que pretende embalsamar seu corpo, ou o jornalista que quer publicar um livro sobre suas façanhas, quanto, obviamente, outros pistoleiros desfrutando da situação para ganhar fama num possível duelo com Booker. Como o sujeito não quer “partir dessa para uma melhor” em agonia, deitado numa cama, a ideia de morrer trocando tiros com quem quer que seja até que não é tão ruim…

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John Wayne, como não poderia ser diferente, é o tour de force de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, está simplesmente sensacional. O sujeito reúne toda a essência da persona que desenvolveu ao longo da carreira vivendo centenas de personagens para transcender em Booker, o cowboy em fim de carreira definitivo. Wayne nunca esteve tão carismático e singelo como aqui, sem perder o jeito durão que o transformou num dos maiores casca-grossas do velho oeste. Mas são os momentos bucólicos e simples que dão força ao filme: os diálogos entre Wayne e Bacall, a relação fraternal que surge entre o protagonista e o jovem Ron Howard e principalmente Wayne contracenando com James Stewart, num desses momentos dignos de antologia.

Don Siegel aproveita todo esse material humano da melhor maneira possível, sem nunca soar piegas pelos temas delicados e nem cair na tentação de transformar a coisa toda num dramalhão sentimental. O filme é até bastante leve e divertido, embora não tenha a energia de outros trabalhos do homem, que foca mais nas performances do elenco. E apesar de atores talentosos, que é realmente o melhor de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o filme não deixa de ter alguns problemas. Depois de um começo sólido, que te cativa, o ritmo começa a cair um bocado, enrola demais e me peguei bocejando lá pelas tantas.

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Rola algumas histórias de que Siegel e Wayne não teriam se dado muito bem durante as filmagens e era comum o ator tentar querer dirigir o filme, atravessando Siegel, reclamando que o projeto merecia um tom mais épico, totalmente fora do estilo mais seco do diretor. Inclusive chegou a queixar e palpitar no tiroteio final, dizendo que seu personagem nunca poderia atirar em alguém pelas costas, que  nunca tinha feito isso na vida, e esse tipo de baboseira. Acho que o “Duke” já estava perdendo a noção, mas O ÚLTIMO PISTOLEIRO volta a melhorar justamente perto do final, quando Books parte na iminência de encarar os seus inimigos à base de chumbo-grosso. E ação do clímax talvez não seja das melhores sequências de tiroteio que o Siegel já filmou na vida, mas é classuda, tensa e sangrenta suficiente pra prender a respiração.

De qualquer forma, o saldo final é muito positivo. O ÚLTIMO PISTOLEIRO pode não ser a melhor despedida, mas não deixa de ser um bom reflexo da mudança dos tempos para um pistoleiro old school adentrando no século XX, e um interessante estudo sobre a aproximação da morte. E vale muito a pena aproveitar o “Duke” numa atuação daquelas!

ESPECIAL DON SIEGEL #23: O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (The Beguiled, 1971)

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por MARCELO NARDI

Em 1971, independentemente do que viria no futuro, Clint Eastwood já tinha o seu nome assegurado como um ícone do cinema. O “Estranho Sem Nome” dos filmes de Sergio Leone já havia garantido o seu status para a eternidade. Nos faroestes, os personagens os quais ele se acostumou a interpretar, já haviam enfrentado sádicos bandidos, queimaduras no sol do deserto e surras monumentais, mas nunca antes um personagem do homem havia sofrido tanto quanto nas mãos das mulheres do filme mais perverso e estranho que Don Siegel dirigiu. Terceira parceria entre ator e diretor, THE BEGUILED baseado em uma adaptação literária do gênero sulista/rural americano, foi também, segundo Siegel, a sua própria realização preferida. E isso quer dizer muito, aliás, uma das curiosidades é que durante as filmagens Eastwood conduziu um documentário sobre os bastidores do filme intitulado “The storyteller”. Isto demonstra que na época o ator e iniciante diretor já era um devoto de Don Siegel, provando o seu respeito com essa produção documentária que abordava a visão criativa do artista. Em 1992 Clint Eastwood viria a dedicar sua obra-prima máxima OS IMPERDOÁVEIS para o próprio Siegel. Até poderíamos apontar alguns paralelos entre os dois filmes, como por exemplo a mola propulsora das tramas girarem ao redor de articulados e hierárquicos grupos de mulheres com lideranças bem definidas.

Nos meses finais da guerra civil americana, Clint é John, um soldado Yankee que nos é apresentado logo de cara ferido, sozinho, perdido em território inimigo e semi-inconsciente no meio de uma floresta no sul dos Estados Unidos. Ele tem a sorte (ou azar, difícil decidir) de ser encontrado por uma jovem garota que saltitando, colhe cogumelos na floresta como se no primeiro momento tivesse saído diretamente de algum filme completamente diferente.  Na primeira das muitas controversas cenas do filme, John lasca um beijo na menina apenas para confundir uma caravana de soldados locais que rapidamente passam por eles. “Livre do perigo”, aos trancos e barrancos o soldado a beira da morte é conduzido por ela até o portão de ferro de uma escola para mulheres, com ares de convento, onde ela mora junto a uma dezena de moças e uma diretora. A tradicional escola é um casarão colonial isolado no meio da floresta com um grande terreno cercado por enormes portões de ferro.

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Dividida entre acolher o inimigo ferido ou entregá-lo as autoridades militares conterrâneas, a diretora Mrs Martha (Geraldine Page) opta por “ajuda-lo” momentaneamente, o escondendo em um quarto improvisado e tratando todos os seus machucados. A presença de um homem entre elas, depois de muito tempo isoladas de companhia masculina, impacta de forma considerável a rotina das mulheres da casa. Entre elas está Edwina (Elizabeth Hartman) uma professora virgem de 22 anos que fica encarregada da chave do quarto de John. Relutante e tímida no inicio ela logo acaba apaixonada pelo camarada. Mesmo sem o peculiar charuto no canto da boca, aqui Clint encontra-se tão canastrão e persuasivo quanto nos faroestes da trilogia dos dólares e logo no início ele percebe na paixonite da professora uma alternativa para sair livre do lugar caso o perigo bater na porta, afinal a qualquer momento poderia adentrar um soldado local e o leva-lo preso ou até mesmo abatido dali.

Mas no seu primeiro momento desperto e bem alimentado, já com consideráveis mordomias e mesmo com boas possibilidades de sair facilmente portão afora, John não parece com muita pressa e aproveita as tardes livres trovando as garotas, a diretora e até mesmo a cozinheira da escola (sim até mesmo a cozinheira!). Entre as garotas maiores de idade também está a nem um pouco tímida e estonteantemente loira e linda Carol (Jo Ann Harris) que fazendo justiça ao soldado, foi a primeira a se oferecer aos braços do camarada. Curiosamente a atriz e Eastwood iniciaram um caso de amor que durou até alguns anos após a produção.

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Com o passar dos dias essas regalias femininas ao redor de John vão se acumulando em sentimentos de medo, atração, desejo, ciúmes, mágoa e até mesmo ódio e o filme lentamente e depois explosivamente vai ganhando formas mais perversas que colocam John em extremos maus lençóis.  O resultado é uma espécie de conto de fadas as avessas em crescente tensão (imaginem o que aconteceria se o lobo mau fosse mantido em cativeiro pela chapeuzinho vermelho e pela sua vovozinha ou algo parecido).

Don Siegel conduz muito bem essa atmosfera toda e coloca o espectador masculino a roer unhas e se contorcer na cadeira, com um desenrolar realmente muito pesado e em certas partes nauseante para o nosso ponto de vista. Esse é o filme de terror psicológico do grande diretor que escolhe a dedo um herói do cinema de gênero e o atira no meio de um furacão feminino de emoções suprimidas. Siegel deveria saber por isso que o filme não funcionaria com outro ator, que não tivesse um apelo popular tão grande.

No ápice de sua carreira Don Siegel não abriu mão da sua objetividade característica para conduzir um dos seus filmes mais embriagantes, ele mantém a direção concisa e com pés no chão seguindo uma narração linear e se utilizando apenas de breves flashbacks, um sonho e preciosos zoons nos rostos dos personagens para enfatizar a situação claustrofóbica vivida por John. Outro dos ingredientes brilhantes do filme é a canção de soldado entoada provavelmente por uma das meninas da escola, que abre e fecha os créditos contando como paisagem de fundo a parte externa do casarão, cheio do verde das árvores que é eficientemente capturado pela deslumbrante fotografia do filme. Nas sequências ao ar livre alguns enquadramentos remetem a um faroeste e o espectador que cair de paraquedas na sessão deve facilmente imaginar que a qualquer momento Clint Eastwood pode e vai se envolver em algum tiroteio ou algo parecido.

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Meses depois ainda em 1971, Don Siegel estaria lançando nos cinemas DIRTY HARRY e retomaria o seu curso no gênero policial e de ação com filmes empolgantes e populares, mas essa sua incursão nos bastidores da guerra civil (afinal o que diabos transcorre em uma escola para mulheres durante a guerra enquanto a bala come solta e os homens se matam do lado de fora?) ainda permanece como um dos seus filmes mais singulares e marcantes, além de representar uma rica contribuição do diretor a escola de cinema da Nova Hollywood, período no qual estúdios como a Universal, responsável por tornar possível THE BEGUILED estariam propensos e mais dispostos a lançar filmes controversos, autorais e livres de grandes censuras. Isto no papel, porque na prática o diretor e o seu ator principal tiveram que brigar bastante com os executivos da Universal para conseguir manter o final que eles idealizaram.

ESPECIAL DON SIEGEL #22: OS ABUTRES TÊM FOME (Two Mules for Sister Sara, 1970)

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por GABRIEL LISBOA

Se quando falei sobre MADIGAN foquei no início do filme, acho melhor começar pelo fim com essa análise e por isso esse texto tem vários spoilers. Começo com a sequência final de OS ABUTRES TÊM FOME e mais pra frente conto direito a estória. Enfim. Estamos no meio de uma invasão de um grande grupo de revolucionários mexicanos a uma base fortificada de interventores franceses no México (acho que nunca havia visto um filme com esse contexto histórico). Clint está do lado dos mexicanos, mandando para o saco todos os invasores da terra da “omelette du fromage”. Em determinado momento ele segura numa corda presa a um cavalo com uma mão e na outra acende uma dinamite. Ele toca o cavalo que avança arrastando Clint pelo chão, desviando das balas. O homem se solta, joga a dinamite num portão e depois de ter aberto a passagem corre enquanto balas ricocheteiam do seu lado. Coisa linda. Eu até tinha achado que tudo tinha acontecido no mesmo plano quando comecei a escrever mas depois voltei para rever a cena e notar os dois cortes rápidos.

Acho que aí podemos pensar um pouco sobre o que faz uma boa cena ou filme de ação já que em outros posts o Ronald ressaltou esse ponto da filmografia de Don Siegel, que eu não conhecia muito bem. Alguns pontos como trabalhar com uma profundidade de campo, planos abertos, respeitar os momentos dos cortes para que não interfiram com nosso interesse pela realidade do evento (coisas que André Bazin já falava em 1950 sobre NANOOK) são essenciais. Até gostaria de ficar falando mais sobre isso, mas já vi que ia enrolar demais. Quem sabe numa próxima. Mas o que fica de interessante sobre esse filme do Siegel é confirmar que toda cena de ação precisa ser construída e pensada para evoluir criativamente. Na maioria das vezes até dentro de um certo padrão. E é o tipo de coisa que raramente cansa os amantes do cinema de ação. A entrada furtiva, as explosões para confundir os inimigos, os tiroteios e no fim a trocação de sopapos e pontapés. Vários exemplares desse estilo seguem essa sequência e muitas vezes até nos decepcionamos se alguma coisa atrapalha o andar dessa carruagem. Siegel deixa ação fluir. Até há uma cena com uma metralhadora giratória que Clint usa para matar alguns soldados. E por pouco tempo, o que não deixa que esse artifício, por exemplo, canse pela repetição.

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Uma pausa para fazer propaganda de THE STRANGER AND THE GUNFIGHTER, com o Lee Van Cleef e Lo Lieh, um baita filme. Na sequência de ação final Cleef prende uma dessas gatling gun em dois cavalos e sai se arrastando enquanto gasta munição. A temática desse filme também lembra a de ABUTRES. Um sujeito estranho ao terreno hostil dos desertos do velho oeste é auxiliado por um cara durão e ambicioso para alcançar seu objetivo. Em THE STRANGER o peixe fora d’agua é um mestre do kung-fu que precisa ler pistas tatuadas em bundas de prostitutas em busca do tesouro do tio. Em ABUTRES o enredo não é tão interessante mas a dinâmica de Clint Eastwood com Shirley MacLaine, que interpreta uma freira simpática a causa dos Juaristas, é muito boa. O roteiro ajuda muito porque sempre coloca-os em várias situações de tensão. O primeiro encontro dos dois acontece quando a Sister Sara do título, personagem de MacLaine, está prestes a ser abusada por três canalhas. Hoogan, o personagem de Clint, resgata a moça seminua e depois descobre que ela é uma freira por suas roupas. Ela está sendo procurada por uma tropa de franceses por ajudar os revolucionários. Os dois fogem e depois, a noite, acabam percebendo que tem o mesmo interesse: acabar com o forte que comentei no início, ele pelos tesouros ali guardados e ela por raiva dos “colonizadores”.

Coincidências a parte, é na virada da personagem de Sara que a coisa fica um pouco confusa. Vou estragar a grande surpresa do filme. Sara na verdade não é uma freira mas uma prostituta. Ela matou um oficial e por isso odeia o regimento. Não há uma noção humanitária que a motiva em punir os opressores. Pelo que entendi era isso. Outro ponto é que no começo do filme ela mente dizendo que ia três vezes por semana “ensinar línguas” para os franceses como freira e por isso ela sabe tanto sobre a base. Então economicamente seria vantajoso para o prostíbulo a instalação vizinha com aquele bando de soldados. Ou não? Se ela só estava sendo procurada, poderia fugir e ponto. O desejo de destruir a base francesa faz até mais sentido para uma freira já que elas geralmente se envolvem em conflitos, assim como padres e afins. Quando vi A MISSÃO fiquei pensando nisso. Nossa noção de religiosidade é tão bombardeada com escândalos de lideres religiosos e doutrinas absurdas que hoje é difícil fazer um filme com uma personagem com uma perspectiva solidária sem parecer piegas ou inverossímil. Achei engraçado o lance dela, por fim, ser uma prostituta. E tem o fato de que ela e Clint “precisarem” ficar juntos no final. Mas ia achar interessante se o filme fosse um percursor do gênero freiras badass e do nunsploitation. Sara é uma personagem feminina forte pra caramba.

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Já o personagem do Clint é uma cópia do Estranho-Sem-Nome dos filmes do Leone. Não sei se posso chamar de cópia já que se trata do mesmo ator, mas gostaria de ver um pouco de variação num papel como esse interpretado por ele, um tempero que deixaria o personagem mais interessante. Sempre com a cara feita de pedra. Quem sabe um dia assisto PAINT YOUR WAGON para ver como ele e o Lee Marvin se saem num musical. Duas outras semelhanças com os westerns de Leone são as filmagens fora do lugar-comum do oeste americano e a trilha de Ennio Morricone. O filme foi gravado no México e vários membros da equipe são mexicanos. Quando li um pouco sobre esse tipo de realização bilíngue, no caso dos westerns italianos, fiquei interessado em entender um pouco mais como eram realizadas as filmagens. É algo que seria muito interessante de ver se naquela época os produtores se preocupassem com extras do DVD. Quanto a trilha de Morricone, assim como em qualquer filme em que compõe sua música, fica difícil não se empolgar com as variações e sons incomuns presentes nos temas e o uso dos leitmotivs. Tenho mais vontade de assistir EXORCISTA 2 por “Magic and Ecstasy” do que pelo próprio filme. Era alguém que merecia um documentário por décadas de trabalho.

Não me lembro de ter lido sobre esse filme em lugar algum, mas me surpreendi e gostei bastante. Talvez o filme não tenha um reconhecimento maior porque usa de várias fórmulas batidas de westerns e screwball comedies. Mas é tão bem encaixado, com bom ritmo e diálogos que a diversão é garantida. É o caso de 007. Eu acho que deveriam parar de fazer filmes de James Bond. Vinte e quatro filmes é muita coisa! Confundo as cenas e as tramas de vários deles (dá-lhe cena de esqui e mergulho). Mas bastou ver o trailer de SPECTRE para me empolgar. Amor e ódio a Hollywood. Agora, só não me venham refilmar AVENTUREIROS DO BAIRRO PROIBIDO, seus sanguessugas!

Gabriel Lisboa, além de eventualmente colaborar por aqui, edita o excelente blog Cine Bigode.

ESPECIAL DON SIEGEL #21: MORTE DE UM PISTOLEITO (Death of a Gunfighter, 1969)

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Assisti finalmente, para dar continuidade ao eterno Especial Don Siegel, o faroeste humanista MORTE DE UM PISTOLEIRO, que acabou renegado pelo diretor por alguns motivos que explico mais adiante, até porque trata-se de um belíssimo exemplar de western, com personagens interessantes e um contexto histórico reflexivo. Portanto não é pelo resultado que Siegel  não quis seu nome nos créditos.

A premissa, pra começar, é excelente. À beira do século XX, a pequena cidade de Cottownwood Springs, no Texas, está determinada a modernizar-se, deixar para trás o ultrapassado e arcaico sistema do velho oeste. O problema é o xerife do local, Frank Patch, vivido pelo grande Richard Widmark, um homem da lei brutão, à moda antiga, que coleciona no currículo uma variedade de mortos em tiroteios questionáveis. Quando mata em legítima defesa o bêbado Luke numa noite qualquer, os líderes da cidade decidem, após uma calorosa reunião, tomar uma drástica decisão: é hora de mudar seu representante da lei.

Até aí tudo bem. Eles pedem educadamente a Frank que renuncie seu cargo, mas o sujeito casca-grossa se recusa, lembrando que quando foi contratado foi-lhe prometido que ficaria no trabalho de xerife o tempo que quisesse, e dane-se o resto. A coisa poderia ir para um tribunal, o problema é que Frank, além de tudo, conhece profundamente cada um dos segredos sujos e repugnantes da cidade e de seus líderes, o que não seria nada agradável vir à tona… Decidem então agir como o próprio Frank, à moda antiga, usando a violência como última alternativa para tirar o indesejável xerife do caminho.

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Já vimos alguns faroestes com a temática do moderno x arcaico, as transformações que interfeririam na vida de pistoleiros e cowboys do velho oeste com a virada do século, como MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, de Sam Peckinpah, ou  OS ÚLTIMOS MACHÕES, de Andrew V. McLaglen, e vários outros. E é legal notar como MORTE DE UM PISTOLEIRO entra no meio desse conjunto de obras reforçando de maneira singular o tema, trabalhando o anacronismo de um xerife que ainda acredita na honra e em fazer seu trabalho da maneira que tem que fazer, ou morrer tentando. Numa das melhores performances de Richard Widmark que eu já vi, o grande destaque do filme.

Civilização é uma coisa incrível“, diz o personagem de John Saxon – que faz aqui uma ótima participação – depois dos tais “homens de bem”, os líderes da cidade que querem progredir a qualquer custo, decidem matar o xerife covardemente. Ao mesmo tempo, é interessante como o filme cria uma identificação do público com o xerife Frank, torcemos por ele até os últimos minutos, mas começamos nós mesmo a perceber que a única maneira dele alcançar sua redenção é realmente parando a sete palmos debaixo da terra, numa sequência final das mais emocionantes e corajosas que Siegel já filmou. Mais um para entrar na galeria dos seus finais fortes, sem concessões e niilistas.

E que viva o cinema transgressor de Don Siegel como  MORTE DE UM PISTOLEIRO e abaixo o cinema bunda-mole atual! 

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Por falar no Siegel, o filme entra no seu Especial aqui no blog, porque evidentemente percebe-se a mão do diretor em vários momentos, como o já citado desfecho, mas também nas cenas de tiroteio, com seu estilo cru e seco, filmando apenas o essencial com a segurança e habilidade que lhe é atribuída.

Mas a verdade é que a maior parte de MORTE DE UM PISTOLEIRO foi dirigido por Robert Totten, que pelas constantes “diferenças artísticas” com  Widmark acabou afastado após vinte e cinco dias de filmagens. Siegel chegou depois e finalizou o filme em apenas nove dias. Como não era totalmente o diretor, não quis levar o crédito, ao mesmo tempo, Widmark não queria o nome de Totten na direção, consequentemente utilizaram o nome Allen Smithee para compor o letreiro de créditos.

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MORTE DE UM PISTOLEIRO, além de um baita faroeste, entra na lista de filmes curiosos por ter aberto o precedente, para o cinema, da utilização do nome “Alan Smithee” (ou Alain Smithee, ou Allan Smithee, ou Allen, enfim, variações…) toda vez que um diretor renega seu filme. A filmografia de Smithee é até bem extensa se forem conferir no imdb e vários diretores de peso já o utilizaram, como Richard C. Sarafian, Dennis Hopper, John Frankenheimer, Stuart Rosenberg e Kevin Yagher…

MAIS FORTE QUE A VINGANÇA (Jeremiah Johnson, 1972)

E continua a onda de westerns de aventura setentistas por aqui. No último post, esqueci de citar o belo MAIS FORTE QUE A VINGANÇA. Então republico aqui o que escrevi há uns três anos no blog antigo.

O que dizem os escritos sobre o verdeiro Jeremiah Johnson, um sujeito que decidiu abdicar-se do mundo civilizado para descobrir os mistérios da vida na natureza, caçando animais e enfrentando índios, frio e solidão, é que acabou se tornando um bárbaro assassino comedor de fígados de peles-vermelhas… Lenda ou não, daria um bom exploitation que explorasse essa característica. Ou, nas mãos de um poeta da violência como Peckinpah, poderia render uma obra, digamos, diferenciada. E, de fato, o diretor de STRAW DOGS realmente foi cotado para dirigir MAIS FORTE QUE A VINGANÇA, cujo roteiro é do grande John Milius e teria Clint Eastwood no papel de Johnson.

Provavelmente por conta do álcool e outros entorpecentes, Bloody Sam acabou de lado – como vários outros projetos que o mestre não conseguiu se firmar – e Sydney Pollack ocupou a cadeira de diretor. Robert Redford, no fim das contas, foi quem encarnou o personagem do título original. O roteiro de Milius se manteve, mas aposto que o filme acabou suavizado… Não que isso seja um problema. MAIS FORTE QUE A VINGANÇA segue outra linha. É uma aventura contemplativa e reflexiva, um belíssimo western histórico que conta com um personagem magnífico, cuja vida retratada aqui, independente do grau de violência mostrada na tela, é simplesmente fascinante.

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Nunca sabemos os motivos que levaram Johnson a abandonar tudo. Sabemos apenas que foi soldado e há indícios de desilusões com o ser humano, mas seu passado é misterioso. Acompanhamos o protagonista a partir do momento que decide encarar a hostilidade da natureza. Mas seus primeiros passos como homem das montanhas não é fácil e é interessante vê-lo passando maus bocados em situações que dialogam com os clássicos embates “homem vs natureza”, na qual diretores como Werner Herzog transformariam em temas fundamentais. Continuar lendo

FÚRIA SELVAGEM (Man in the Wilderness, 1971)

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Ainda na toada de O REGRESSO resolvi rever MAN IN THE WILDERNESS, de Richard C. Sarafian pra ver o que dava. Que filme sensacional! É muito melhor do que eu lembrava e bem diferente do filme do Iñarritu… Mas numa estúpida comparação das versões, este aqui ganharia de lavada. O filme me fez pensar um bocado na carreira de Sarafian, diretor de talento gigante mas extremamente subestimado e pouco lembrado. E quando o fazem é por VANISHING POINT, lançado no mesmo ano deste aqui. É um baita filmaço que ganhou seu status de filme cult com merecimento, mas não consigo ver lógica para que MAN IN THE WILDERNESS não tenha virado um clássico entre os westerns de aventura setentistas, ao lado de O PEQUENO GRANDE HOMEM, O HOMEM CHAMADO CAVALO, O GRANDE BUFALO BRANCO, e outros…

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E Sarafian estava em estado de graça quando filmou a história de Zach Bass, vivido por Richard Harris, num de seus melhores desempenhos, um desbravador do velho oeste que, após ser atacado por um urso selvagem, é deixado para morrer no meio do nada. Recupera-se dos ferimentos e parte para se vingar dos antigos companheiros, entre eles o diretor John Huston. Como disse no texto de O REGRESSO, o plot do filme de Iñarritu é exatamente a mesma coisa, mas os desdobramentos a partir desses eventos é que distanciam uma obra da outra. A começar pelo lado alegórico que contempla a obra de Sarafian, e que é justamente a parte piegas do filme de Iñarritu. Na verdade, não tinha intenção de ficar fazendo comparações, mas é difícil num momento em que O REGRESSO está tão em voga e tão fresco na cabeça… Vocês sabem, gosto dessa nova versão como um grande filme de aventura, mas está longe de ser a jornada mística e espiritual que Iñarritu gostaria que fosse em comparação com o que Sarafian realiza em MAN IN THE WILDERNESS. O processo de ressurreição e transformação, tanto na recuperação física, quanto psicológica, de Harris é arrebatador na sua perfeita comunhão com a natureza, na sua busca pela sobrevivência, encarando fome, frio, animais e o caralho e transcendendo seu desejo de vingança à outro nível espiritual… Continuar lendo

THE HOST (1960)

Já tinha escrito sobre esse curta no blog antigo, mas como me deu saudade do Jack Hill, resolvi republicar. Hill já havia  dirigido algumas cenas de THE WASP WOMAN (59), que já comentei por aqui, para o seu mentor, Roger Corman, quando este precisou prolongar a duração do filme. O futuro diretor de SPIDER BABY nem chegou a ser creditado. A produção que marca a estreia oficial de Hill na direção é THE HOST, este curta metragem em preto e branco realizado quando ainda era estudante da UCLA e bem antes de se tornar um dos grandes mestres do cinema grindhouse americano.

Um fugitivo da lei encontra no México uma cidade antiga aparentemente abandonada. Entra para beber água e quase leva um tiro. Descobre que existe uma pequena população vivendo por lá e um espanhol que achou um tesouro no local e precisa roubar um cavalo para fugir. Persuadido por uma bela habitante, o fugitivo acaba matando o espanhol e se torna um deus. Quando descobre, também, onde o tesouro se encontra, decide ir embora levando tudo consigo. Mas é tarde. Já levaram seu cavalo. I Don’t want to be a god!!! – grita desesperado o sujeito nas últimas palavras ecoadas no filme. Continuar lendo

O REGRESSO (The Revenant, 2015)

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2016, o ano em que gostei de um filme de Alejandro Gonzales Iñarritu. E gostei mesmo. Não que eu ache o sujeito dos piores diretores da atualidade, até tenho boas lembranças de 21 GRAMAS, por exemplo… Mas acho que AMORES BRUTOS não se segura numa revisão e BABEL e BIUTIFUL não fedem nem cheiram, na minha opinião. Meu problema era mais com BIRDMAN, uma punhetagem visual e egocêntrica pra lá de chata, que quase me causou úlcera no estômago… Não fosse a bela atuação do Michael Keaton, eu teria me jogado pela janela do meu apartamento… Ainda bem que moro no primeiro andar… Enfim, um ano depois, ou seja, agora, Iñarritu me aparece com O REGRESSO, um filme de aventura que, pelo trailer, já me enchia os olhos. A impressão que dava é que todo o estilo, ou seja, a masturbação visual, de BIRDMAN poderia trazer algo interessante à uma narrativa mais estimulante, como um filme de aventura, por exemplo. E de certa forma isso acabou acontecendo. 

O REGRESSO foi inspirado na mesma obra que deu origem a MAN IN THE WILDERNESS (1971), de Richard C. Sarafian, com Richard Harris interpretando um membro de um grupo de desbravadores do velho oeste que é deixado para morrer depois de ser atacado por um urso selvagem. Recupera-se dos ferimentos e parte para se vingar dos antigos companheiros. O plot do filme de Iñarritu, é exatamente a mesma coisa. Troca-se alguns detalhes, Harris por DiCaprio e a tecnologia atual que permite Iñarritu trabalhar um visual dentro daquilo que é sua verdadeira intenção com o filme. O fato é que O REGRESSO, assim como BIRDMAN, não deixa de ser mais uma demonstração de exibicionismo do diretor, que chega e diz “Olha, mamãe, o que sei fazer!” e começa a punhetagem e fazer acrobacias com a câmera para ser chamado de gênio e logo depois colocar a mão em mais um Oscar. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #16: FLAMING STAR (1960)

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Elvis Presley pode ter sido o Rei do Rock, mas no cinema seu trabalho se resume a um punhado de bobagens ingênuas em veículos para o sujeito entoar suas canções e beijar garotas. Nada contra, mas também nada muito estimulante. Mas aí vem um diretor badass da estirpe de um Don Siegel, se metendo a dirigir um western que não se priva de tratar de temas delicados, não se esquiva de cenas de extrema violência (em comparação com as produções do período), e lhe é exigido que Elvis, o ator/cantor mimado e mais preocupado com sua imagem do que na qualidade de seus filmes, seja o protagonista.

Para a nossa sorte, prevaleceu o lado mais interessante dessa história. E o resultado do encontro Siegel x Elvis não poderia ser diferente: FLAMING STAR é considerado a obra-prima e o “filme sério” de Elvis Presley, mas mais do que isso, o filme é uma das mais perfeitas demonstrações de como Siegel era um diretor talentoso em vários aspectos. E já que estamos de volta com o especial do homem, nada melhor ressaltar sua grandeza defronte de uma produção como essa, que poderia ter sido mais um exemplar banal de Elvis usando um chapéu e tocando violão, mas que acaba por ser uma joia, um dos grandes westerns do período e maior do que tudo que Siegel havia feito até então.

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Sim, e me me refiro em comparação com VAMPIROS DE ALMAS e THE LINE UP, seus grandes trabalhos até aqui. E Siegel até permite, logo no início da fita, que Elvis pegue um violão e toque e cante para seus familiares, num clima leve de faroeste matinée. Mas esse clima logo se dissipa quando um personagem leva uma machadada na cabeça num ataque índio e o diretor não nos poupa de toda brutalidade. E ele deixa bem claro: estamos diante de um filme de Don Siegel e não de Elvis Presley. Continuar lendo