CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO (1989) & SLINGER (2011)

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CYBORG vs SLINGER – Dois filmes em um

CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO foi um dos principais filmes de ação que me fez apaixonar incondicionalmente pelo gênero. Trata-se de mais uma variação do subgênero “pós-apocalíptico”, tão comuns nos anos 80 e 90, filmes em que vislumbramos o futuro da pior maneira possível, com suas grandes cidades destruídas por alguma catástrofe natural ou não, geralmente com um punhado de pessoas que já perderam a noção de humanidade tentando sobreviver ao caos, enfrentando as piores desgraças, agindo com violência, imoralidade e sem esperanças de uma vida melhor. No futuro de CYBORG, a “peste” devastou com a população mundial e a esperança do que resta da humanidade é a segurança de uma cyborg detentora da cura. Na trama, esta cyborg precisa chegar a Atlanta, único local com estrutura para trabalhar com o material que provavelmente vai restaurar a ordem no mundo.

Mas existem grupos anarquistas que preferem deixar tudo como está. É o caso da gangue do maquiavélico Fender, que faz de tudo para impedir que a moça de lata chegue ao seu destino. Aí é que entra o nosso herói, Gibson (sim, os nomes dos personagens são marcas de guitarras), na pele do belga Jean Claude Van Damme, um mercenário que se propõe a ajudar a indefesa cyborg, embora seja motivado por um instinto vingativo, rixa do passado entre ele e Fender, o qual é muito bem explorado nos flashbacks do protagonista.

Dirigido por um dos grandes mestres dos B movies, Albert Pyun nunca escondeu sua predileção pelo universo pós apocalíptico e cyber punk. No seu currículo podemos conferir umas maravilhas como NEMESIS, RADIOACTIVE DREAMS, KNIGHTS, VICIOUS LIPS e muitos outros… Portanto, deve ter adorado trabalhar com todos esses elementos neste que é considerado por muitos admiradores o seu melhor filme. Ou não… As histórias dos bastidores de CYBORG é tão insana quanto o próprio filme visto na tela. Pyun fora contradado pela Cannon Films em meados dos anos 80 para dirigir uma continuação de MESTRES DO UNIVERSO e um live-action do HOMEM ARANHA, que seriam filmados simultaneamente. Mas a produtora estava passando por problemas financeiros e cancelou seus acordos com a Mattel e Marvel, proprietárias dos direitos de He-Man e Homem-Aranha respectivamente, apesar de já terem gasto cerca de dois milhões de dólares com sets e figurinos.

Pyun teve a ideia de partir para algo novo, um filme totalmente diferente, se virando com o que tinham disponível, além de um orçamento de menos de quinhentos mil dólares, contando com o salário do astro Van Damme. O realizador escreveu o roteiro em uma semana e logo em seguida partiria para uma das filmagens mais caóticas de sua carreira. Em mais três semanas, o filme estava na lata, filmado, prontinho. A pós-produção também não se mostrou uma experiência confortável. Pyun se mostrava disposto a realizar um filme de gênero mais experimental, sombrio, violento e operático, homenageando aos filmes de samurai e faroestes que ele cresceu assistindo. Essa proposta não era vista com bons olhos pela Cannon e Van Damme, claro. Apesar dos pesares, o resultado é uma obra singular e visionária dentro do possível, limitada pelo baixo orçamento da produção. CYBORG, a versão de cinema, é um dos melhores filmes do diretor e um atestado do quanto pode ser prazeroso assistir a uma fita de orçamento restrito feito com paixão e criatividade. Uma curiosidade é que o filme chegou a ser promovido na TV americana carregando o nome MASTERS OF UNIVERSE 2: CYBORG!

CYBORG é bem curto, não chega a uma hora e meia, mas dispões de ação constante e muita atmosfera, um clima pós-apocaliptico desolador que não fica muito longe dos melhores filmes do subgênero, como MAD MAX 2. Difícil esquecer algumas cenas antológicas – Van Damme nos túneis dos esgotos, em espacate, esperando seu oponente passar debaixo para dar o bote é genial. Aliás, toda a sequência que antecede a crucificação do protagonista e a maneira em que o personagem se livra da cruz com toda a fúria sempre me marcou bastante. Hoje ainda reserva grande força para quem embarca na trama e neste tipo de diversão.

Além de Van Damme (cujo sotaque na época ainda era um problema para Pyun), que se sai muito bem em cena, vale destacar o desempenho do grande Vincent Klyn, o vilão Fender, que possui uma puta presença ameaçadora e poderia muito bem ter sido melhor aproveitado no cinema. A descoberta de Klyn é curiosa. Quando Pyun estava trabalhando no casting para a continuação de MESTRES DO UNIVERSO, o diretor foi ao Havaí procurar um ator que substituísse o Dolph Lundgren no papel de He-Man e acabou encontrando, no meio de vários surfistas, Vincent Klyn. Pyun se impressionou tanto com aquela figura, que quando os projetos se transformaram em CYBORG, Pyun exigiu que Klyn fosse o vilão do filme… Daquelas escolhas simplesmente perfeitas. Pra mim Fender é uma das mais insanas, impiedosas e assustadoras representações do mal no cinema de ação de todos os tempos!

Eu posso estar sendo um nostálgico exagerado, mas CYBORG é um grande filme. Ótimo veículo de ação para o Van Damme, de quem eu nutro uma enorme admiração desde pequeno, muito bem dirigido pelo Pyun, ótimos cenários, atmosfera, efeitos especiais old school que chutam a bunda de qualquer CGI atual, trilha sonora marcante, etc e tal, mesmo sabendo que para a nova geração tudo isso não passa de uma tranqueira sem qualquer interesse… Uma pena.

Passados pouco mais de vinte anos do lançamento de CYBORG, eis que Pyun aparece com SLINGER, a SUA versão de CYBORG! Explico: Apesar de ser um dos títulos mais lembrados de sua filmografia, Pyun sempre fez questão de deixar claro que a versão de CYBORG lançada nos cinemas em 1989 pela Cannon não era o filme que gostaria de ter lançado. O problema é que o grande nome do filme, Van Damme, odiou o corte de Pyun, o que fez o diretor sair do projeto e Sheldon Lettich (roteirista de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e diretor de DUPLO IMPACTO) entrar para trabalhar numa nova edição do filme, que se tornaria a versão de cinema. Mas e SLINGER? Bom, num belo dia qualquer lá por volta de 2010, o compositor e parceiro de Pyun, Tony Riparetti, estava limpando seu depósito e encontrou duas VHS com o último corte de Pyun antes de Van Damme e Lettich tomarem conta da produção!

Um detalhe importante é que o termo “director’s cut” não possui a mesma definição da qual estamos acostumados. Não é o trabalho de alguém que resolveu remontar o filme, nem pretende o relançamento comercial para substituir o “original”. SLINGER é uma versão de CYBORG praticamente em estado bruto, percebe-se até uma falta de acabamento em algumas cenas, formatos de tela diferentes, além da imagem ruim, de VHS, sendo destinada somente para os verdadeiros fãs do filme e de seu diretor.

SLINGER é a denominação utilizada para os personagens errantes do universo do filme, como é o caso de Gibson Rickenbacker, vivido pelo Van Damme. Nesta versão, não existe praga alguma devastando a população. Gibson persegue o vilão Fender (Vincent Klyn) por vingança, pura e simples, e nem se preocupa tanto com a tal cyborg sequestrada. Quanto a esta, a sua função no filme é carregar dados que vão ajudar a reestabelecer as redes elétricas deste futuro pós apocalíptico. Ao menos é o que ela diz, mas descobrimos no fim que ela e seus responsáveis possuem segundas intenções não muito amigáveis para o que resta da humanidade, dando ao filme um tom mais depressivo que já tinha.

Fender, na brilhante presença de Vincent Klyn, não muda muito. É a personificação do mal em todos os sentidos em ambas as versões, mas ganha um tom meio religioso aqui, como um enviado do diabo para trazer o caos, reforçado por uma narração em off que não havia na outra versão. Aliás, a director’s cut ganha uma narração que permeia quase todo o filme e as palavras de Gibson dão ao personagem um interessante viés de samurai, algo que Pyun sempre declarou ter buscado para o sujeito.

A trilha sonora é um dos elementos que mais se diferencia do original. Eu gosto bastante da trilha de Kevin Bassinson, com destaque para as melodias suaves e melancólicas das cenas de flashback. Mas a que temos aqui, composta por Tony Ripparetti, parceiro de Pyun até hoje, se encaixa perfeitamente à narrativa, não apenas acompanhando as imagens, mas realmente dá ritmo e eleva a obra num patamar mais operístico, que era a ideia inicial de Pyun.

Não há nada em SLINGER que eu não tenha gostado, mas existem alguns detalhes dos quais eu prefiro na versão anterior. As cenas de flashback na director’s cut são objetivas e surgem antes cronologicamente em relação à versão para cinema. Por exemplo, quando chega a grande sequência da crucificação de Gibson em SLINGER, já sabemos de toda a história entre ele e Fender. A própria cena da crucificação ficou mais curta, embora não menos brutal. Em CYBORG, a conclusão dos flashbacks vinha no momento em que Gibson estava pregado na cruz, prolongando ainda mais a cena, deixando-a com uma carga dramática muito maior. Outra grande diferença é na luta final entre Fender e Gibson. Ambas são excelentes, na minha opinião. Mas a desta aqui, apesar de possuir uma idéia mais visceral, sua execução fica um pouco a desejar, poupa o espectador de mostrar a morte horrível de Fender, deixando as coisas na imaginação, provavelmente pelo baixo orçamento, mas o fato é que entre as duas, prefiro a original, que é mais longa e mostra tudo o que tem que mostrar.

De uma forma geral, acho que esta director’s cut se encaixa mais ao estilo de Albert Pyun naquele período. É mais sombrio e dá ênfase às suas peculiaridades estéticas e influências (Sergio Leone e os filmes de samurai). Já a edição dos produtores deu a CYBORG um aspecto de filme de ação de baixo orçamento que tinha tudo pra ser um tradicional exemplar do período, mas acabou com o olhar peculiar e criativo de um realizador cheio de personalidade. Não é a toa que, de alguma forma, foi um dos filmes que mais me encantou durante a infância, justamente pelos vestígios deixados por Albert Pyun na versão para cinema.

E pra ser totalmente franco com vocês, essa director’s cut não possui modificações gritantes em relação ao “original”, está bem longe de ser “outro filme”. E o grande lance é que o material bruto das filmagens de CYBORG, totalmente realizado por Pyun, é muito bom e é o que realmente faz toda a diferença! Todas as grandes cenas antológicas que transformaram esta obra num clássico permanecem aqui. Acho que se eu pegasse esse material e editasse a minha versão, seguindo a mesma trama, não tenho dúvidas de que seria capaz de fazer um bom filme! Mas são as mínimas nuances que diferenciam uma versão da outra que demonstram claramente a idéia mais autoral de Albert Pyun. E olha que CYBORG, do jeitinho que era antes, já era o meu filme preferido do diretor… essa versão chega apenas para definir não apenas essa minha opinião, mas para colocar CYBORG entre os meus favoritos do gênero.

Ao fim do filme, há uma menção sobre um futuro projeto que retornaria ao universo de CYBORG em uma nova produção. Talvez uma sequência ou uma pré-continuação… Pyun chegou a anunciar e até trabalhar nessas ideias nos últimos anos, mas nada de concreto foi lançado. Continuamos aguardando.

OBS: Como disse antes, Pyun nunca lançou SLINGER comercialmente. Tive o privilégio de conferir o filme há alguns anos, quando o próprio diretor me enviou uma cópia assinada, da qual me orgulho muito e guardo com carinho na prateleira.

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GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER (1964)

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Vi outro Godzilla. Tô ficando viciando nesses filmes de monstro japoneses, também conhecidos como filmes de monstros de roupa de borracha destruidores de maquetes. Tenho assistido aos poucos, devagar quase parando, os tempos atuais não me permitem assistir tudo de uma vez, mas tá bacana acompanhar essa franquia em sequência e perceber a progressão de cada produção, como cada obra se esforça para superar o filme anterior especialmente em termos de destruição e grandiosidade.

Em GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER, o diretor Ishiro Honda e sua turma chutaram o pau da barraca e colocaram quatro monstros no mesmo filme (um deles o Godzilla), que não apenas lutam entre si, mas também se unem para encarar um inimigo em comum, que neste caso é Ghidorah, o monstro espacial de três cabeças. E essa é uma fórmula que vai marcar a franquia para sempre, que passa a povoar cada filme da série com o maior número de monstros possíveis em alianças e tretas em escalas gigantescas.

bscap0184bscap0181A trama começa com uma chuva de meteoros que chamam a atenção da população que observa os céus maravilhado. Um meteorito específico cai numa região montanhosa e intriga os cientistas com suas propriedades magnéticas poderosas. Numa história paralela a essa, a princesa de uma pequena nação é misteriosamente poupada da morte, saltando instantes antes de seu avião explodir no ar. Quando a garota atordoada, que milagrosamente sobreviveu à queda devido a uma força alienígena, aparece em público, ela sofre de amnésia e fala para todos que veio de outro planeta. Além disso, a moça começa a fazer premonições, como a que Godzilla e Rodan irão ressurgir e causarão destruição mais uma vez.

Mas o verdadeiro problema é um monstro do espaço chamado Ghidorah, que ela alerta com mais ênfase, dizendo ser capaz de destruir toda a raça humana. Eventualmente, o tal meteorito ultra magnético que caiu nas montanhas se abre e liberta o grandioso Ghidorah.

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Em algum lugar no Japão, Godzilla e Rodan aparecem e começam a brigar. Mothra (que eu já apresentei aqui no blog) intervém na briga e pede aos outros dois monstros para que ajudem a defender a humanidade do monstro espacial de três cabeças. GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER marca portanto um importante ponto de virada na história da série Godzilla. Afinal, é aqui que o famoso monstro japonês se torna um defensor da raça humana… Claro, na cena em que surge ele explode um navio cheio de inocentes tripulantes, mas no decorrer da trama acaba convencido a virar a casaca… Então, no fim das contas temos Godzilla, Mothra e Rodan vs. Ghidorah. Parece covardia, mas Ghidorah é foda pra cacete e daria uma surra em qualquer um deles caso resolvesse bancar o fodão sozinho…

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A subtrama com os humanos também evolui e se desdobra num thriller de ação interessante com a descoberta de que o avião da princesa fora sabotado. Como ela ainda se contra viva, mesmo com amnésia, há toda uma conspiração para matá-la e assassinos profissionais são enviados com esse objetivo. Um policial resolve se meter à guarda-costas da moça, o que nos leva a algumas sequências rápidas de tiroteios em meio ao festival de destruição de cidades em miniatura causada pelos monstrengos.

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Godzilla e Mothra são duas figuras já conhecidas por aqui, embora este último só compareça em GHIDORAH na sua forma de larva, do jeito que termina o filme anterior, MOTHRA VS GODZILLA. Quem faz estreia na série é Rodan, que já havia estrelado seu próprio kaiju, RODAN (1956), também dirigido por Honda, e Ghidorah, que acaba por ser um dos mais poderosos vilões dentre os quais Godzilla e sua turma tiveram que encarar. Mesmo que demore um pouco para que todos os kaijus apareçam juntos na tela e comecem a esmagar as coisas e bater uns nos outros, ainda temos sempre alguns momentos absurdos proposto pelo roteiro que, apesar de risíveis e altamente questionáveis, é o que fazem a obra ser ainda mais divertida, como a sequência em que Mothra consegue interferir na batalha entre Godzilla e Rodan para convencê-los de encarar Ghidorah, enquanto as duas gêmeas em miniatura (sim, elas estão de volta!) narram o que os monstros estão falando… Desses momentos inacreditáveis que de tão constrangedor acaba por ser também hilário!

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No comando da coisa toda, Ishiro Honda manda bem novamente nas sequências de pancadaria de kaijus, abusando de efeitos especiais cada vez melhores e miniaturas cada vez mais realistas sendo destruídas enquanto os monstros trocam golpes e raios, com um trabalho de câmera bem legal, enquadramentos tortos, planos abertos, à distância, que dão noção da grandiosidade dessas batalhas…

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GODZILLA (1954) ainda pode ser o melhor exemplar, com sua seriedade e um contexto histórico relevante, e fica evidente que nenhuma das sequências são refinadas em termos de roteiro, narrativa e atuações, como o clássico que deu origem a isso tudo, mas isso não importa muito. Esses filmes são sobre monstros destruindo miniaturas e trocando socos entre si. E a esse respeito, GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER definitivamente não decepciona, especialmente por Honda acertar em cheio ao escalar vários monstros nipônicos para tretarem num único filme, o que acaba por ser um registro importante de uma época onde a imaginação e a inocência eram cruciais para encantar o público. Tá certo que tudo isso não passou de um ensaio para o que estaria por vir, já que em 1968, Honda ainda faria um compêndio de monstros ainda maior, em DESTROY ALL MONSTERS. Mas a gente ainda chega lá.

MOTHRA VS. GODZILLA (1964)

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Mothra é uma mariposa gigante criada pelo estúdio Toho em 1961 num filme que apresentava suas origens e levava seu nome no título, MOTHRA. Ao longo dos anos acabou se tornando um dos mais populares Daikaijus da Toho, perdendo apenas para Godzilla em seu número total de aparições em produções. E já em seu segundo filme, como o título indica, Mothra é colocado para tretar com o Rei dos Monstros em MOTHRA VS GODZILLA!

Se KING KONG VS GODZILLA já foi bizarro o suficiente, como comentei neste post, esperem só para ver a doidera que é MOTHRA VS GODZILLA. A trama é muito simples, mas recheada de elementos esquisitos que me faziam soltar um “pqp” em voz alta a cada revelação estranha que aparecia na tela…

Executivos capitalistas inescrupulosos estão à solta, construindo um resort à beira-mar em algum lugar qualquer do Japão. O filme abre com um tufão que atinge o local com toda a sua fúria e arrasa com os preparativos da inauguração do empreendimento. Quando as coisas se acalmam, um ovo gigantesco é encontrado em terra.

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Os capitalistas perversos não perdem a chance e compram o ovo dos aldeões que vivem na região com a intenção de torná-lo a principal atração do local. Surgem então duas criaturinhas do tamanho de um latão de Itaipava, duas moças minúsculas, que suplicam se poderiam por favor ter seu ovo de volta. Sim, são bem educadas. O repórter Ichiro Sakai (Akira Takarada), a fotógrafa Junko Nakanishi (Yuriko Hoshi) e o professor Miura (Hiroshi Koizumi) são simpáticos e fazem o melhor que podem para convencer aos devotos capitalistas a devolverem o gigantesco ovo. Mas não conseguem…

O artefato veio trazido pelo tufão de uma ilha misteriosa e logo descobrimos que é um ovo de Mothra, a mariposa gigante. A tal ilha tinha sido local de testes de bombas nucleares que naturalmente, ao longo dos anos, produziu todo tipo de coisas estranhas, como mariposas gigantescas e mocinhas em miniatura. Com isso, MOTHRA VS GODZILLA não ia perder a chance de cutucar os causadores de males humanitários, todo o filme é marcado por um monte de propaganda sobre os perigos dos testes atômicos, uma das paranoias recorrentes do período.

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Enquanto isso, do nada, de repente, Godzilla está de volta… Já nem me recordo qual foi o fim que lhe deram em seu último filme, KING KONG VS. GODZILLA, mas o fato é que ele sempre retorna, sempre procurando coisas para pisar e esmagar. O exército tenta de todos os meios possíveis, em vão, parar o réptil gigante jogando o que podem em cima dele, raios elétricos, tanques de guerra que não economizam chumbo, bombas lançadas pela força aérea e até redes gigantescas jogadas sobre o Daikaiju.

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Mas o trio protagonista percebe que apenas Mothra pode salvar a humanidade de Godzilla. E não demora muito, o monstrengo surge nos ares – não o do ovo, este continua quietinho – mas outro, um protetor da ilha radioativa, que encara Godzilla numa batalha daquelas que só o grande diretor especialista em Kaijus, Ishirô Honda, sabia filmar. Foi ele quem realizou o GODZILLA original e também o filme sobre a origem de Mothra… E é difícil imaginar como, em 1964, uma mariposa gigante seria retratada voando e lutando contra Godzilla, mas MOTHRA VS. GODZILLA não poderia estar em mãos melhores.

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Óbvio que não chega no nível do confronto entre King Kong e Godzilla, no filme anterior, também dirigido por Honda, mas é interessante ver como o diretor se vira para tornar a coisa divertida, com uso de stop motion, bom trabalho de câmera, planos sempre abertos, mostrando tudo o que tinha direito e aproveitando ao máximo dos poderes dos dois monstrengos.

Desta vez, Tóquio não é atingida pelo caos e destruição que esses monstros causam quando resolvem trocar desaforos. Mas ainda há estrago suficiente para alegrar os corações dos fãs de filmes de monstros gigantes. Cidades costeiras são devastadas, um complexo industrial é esmagado por Godzilla e o caos generalizado habitual acontece de forma linda. E tudo é muito bem feito, os efeitos especiais são muito bons para o período e o uso de maquete é aquela coisa incrível de sempre.

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E o tal ovo? Bom, lá pelas tantas saem de dentro duas larvas de Mothra que cospem uma teia e ajudam a derrotar Godzilla. Mas a essa altura, a gente já se acostumou com as bizarrices do filme… Ou não…

Aparentemente, há uma versão americana de MOTHRA VS GODZILLA que elimina algumas cenas e acrescentam outras. A que eu assisti é a japonesa mesmo, que é altamente recomendável. Filminho de monstro divertido, bobo mas cheio de momentos memoráveis para os fãs de Daikaiju.

A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water, 2017)

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Eu já vinha elogiando o novo filme de Guillermo Del Toro, A FORMA DA ÁGUA, antes mesmo de assistir. Por que? Porque Del Toro é um sujeito legal e eu gosto de praticamente toda a sua filmografia, exceto, talvez, alguns momentos bestas de PACIFIC RIM e o primeiro HELLBOY, mas que são divertidos de qualquer forma.

O negócio é que Del Toro é um bom contador de histórias de horror e sabe criar “contos de fadas” sombrias para adultos como poucos atualmente. É tudo o que o Tim Burton deveria estar fazendo antes de se perder no meio do caminho… Enfim, premiado no Globo de Ouro e outros eventos, indicado à vários Oscars, é admirável que um diretor que sempre esteve ligado a cinema de gênero esteja tendo este reconhecido com um filme que é, basicamente, de monstro. E agora que assisti A FORMA DA ÁGUA posso afirmar que o material é dos bons.

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Não vou entrar na polêmica recente dos indícios de que A FORMA DA ÁGUA seja um plágio de um curta holandês realizado em 2015 por estudantes de cinema. Até acredito que tenha plagiado mesmo, mas foda-se. Não diminui a minha admiração pela obra do mexicano. Só acho que não teria mal algum assumir de boas as fontes de inspiração. A FORMA DA ÁGUA não deixa de ter a assinatura autoral de Del Toro com todo seu imaginário fantástico. O filme segue a mesma linha de um LABIRINTO DO FAUNO, a obra-prima do homem, ou seja, é uma fábula realista ou uma crônica fantasiosa, você escolhe… No caso deste aqui, um dos elementos principais é a descoberta do amor nas mais inesperadas circunstâncias. E o fato do par romântico da protagonista ser uma criatura híbrida metade homem, metade peixe, demonstra que, no universo de Del toro, o amor é cego.

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E pelo visto, também é mudo. Como Elisa (Sally Hawkins), a nossa heroína. Ela trabalha como faxineira num laboratório governamental extremamente secreto por volta da década de 50 em plena paranoia comunista e tensão da Guerra Fria. Um dia, um humanoide anfíbio é trazido ao local para observação e experimentação. E o responsável pelo laboratório, Strickland (Michael Shannon) mantém a criatura de forma dura, sempre com um prazer sádico em dar-lhe umas eletrocutadas com seu bastão de choque sempre que pode. Elisa demonstra bondade pela criatura e até desenvolve uma, er… queda por ele. Quando descobre que Strickland pretende matar o monstro, ela convence um um vizinho (Richard Jenkins) a elaborar um plano para tirar a criatura do local. Naturalmente, isso coloca Strickland em maus lençóis e ele não vai parar enquanto não colocar as mãos na criatura.

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A FORMA DA ÁGUA é uma mistura sem qualquer vestígio de costura que Del Toro joga na receita. Filmes de monstro, história de amor proibida, conto de fadas, e funciona em cada uma dessas convenções com uma narrativa fluída, uma direção inspirada com uma câmera que se move de forma graciosa e emoldura quadros belíssimos realçados por um décor bonitão e colorido. A direção do homem tá mesmo de encher os olhos e não foi a toa que Del Toro recebeu prêmios pelo seu trabalho.

A maneira como Del Toro constrói os personagens me agrada bastante, como faz com Elisa logo no início, mostrando sua rotina masturbatória… Você tem que respeitar uma mulher que toca uma siririca antes de sair para o trabalho. É exatamente o tipo de detalhe que me faz apaixonar por um personagem e que, neste caso, a torna tão humana e acessível ao público. Uma coisa que adoro, também, é o tratamento sem julgamento infantil de Del Toro com a relação que se estabelece entre Elisa e o monstro. Quero dizer, não fica nos olhares, nas insinuações, no “disse-me-disse”, a coisa vai realmente pro sexual. A mulher quer dar pro monstro e isso é lindo. E faz de tudo pra viver essa paixão… Claro, era mais fácil ter arranjado um labrador.

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Hawkins está ótima e Doug Jones, que veste a fantasia do anfíbio, entrega um desempenho de expressão corporal incrível – aliás, nem preciso comentar o trabalho de maquiagem, não é? Simplesmente genial. Richard Jenkins e Michael Stuhlbarg são desses caras que nunca decepcionam, seus personagens são encantadores. E Octavia Spencer é muito carismática. Agora, o grande destaque só poderia ser Michael Shannon, que domina a tela em cada segundo em cena. Ele já tinha feito papeis de pessoas maldosas e assustadoras antes, mas esta merda aqui é um passo à frente, o sujeito nunca esteve tão maníaco e repugnante e nos coloca a refletir sobre a natureza de ser um monstro. Impossível tirar os olhos da tela com sua presença…

Eu tenho o péssimo costume de escrever sobre alguns filmes como se fossem o último biscoito do pacote… Apesar da rasgação de elogios, A FORMA DA ÁGUA não chega nem perto de ser uma obra-prima e O LABIRINTO DO FAUNO continua sendo meu trabalho favorito do Del Toro… Mas é uma fita que merce alguns elogios, e é sempre uma experiência prazerosa poder ver um trabalho do Del Toro em sua melhor forma. Por enquanto, é o filme que tem a minha torcida para o Oscar…

KING KONG VS GODZILLA (1962)

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Parecia uma ideia absurda, reunir os dois monstros gigantes mais famosos do cinema, King Kong e Godzilla, num mesmo filme, só para vê-los brigar e destruir coisas… Mas aconteceu, KING KONG VS. GODZILLA é um fato. Tudo por causa de Willis O’Brien, que tinha feito os efeitos especiais para o KING KONG original lá de 1933. No final da década de 50, ainda nos Estados Unidos, O’Brien tentou levar adiante um projeto que seria intitulado KING KONG vs. FRANKENSTEIN, em que “Frankenstein” seria um monstro gigante criado de diferentes animais. Mas nenhum estúdio americano se interessou, exceto um produtor, John Beck, que acabou oferecendo o projeto para produtora japonesa Toho, que substituiu Frankenstein por Godzilla e voilá, o resultado foi este petardo.

Na trama, eventos meteorológicos misteriosos no Ártico estão causando preocupação suficiente para a ONU enviar um submarino para investigar. Não demora muito, Godzilla aparece no local. emergindo de um enorme iceberg. Lembrando que no desfecho de GODZILLA RAIDS AGAIN, o segundo filme da série, o lagartão é soterrado por pedras de gelo numa ilha misteriosa… Como foi parar no Ártico eu já não sei e o filme, dessa vez, não faz questão alguma de explicar.

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Enquanto isso, uma empresa farmacêutica japonesa envia um cientista para uma remota ilha do Pacífico para garantir suprimentos de uma nova droga que é encontrada apenas nesta ilha. A empresa também está procurando uma grande atração publicitária, então os relatos de um gigante gorila no local torna a ilha ainda mais interessante para eles: o monstro poderia ser uma ótima jogada de marketing e vendas. Continuar lendo

DVD REVIEW: FLASHES – DEIXE A REALIDADE PARA TRÁS (2015); A2 FILMES

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Nessas andanças pelo cinema de orçamento mixuruca que alguns malucos da cinefilia ainda encaram (como eu e o Osvaldo Neto, do blog Vá e Veja), de vez em quando é possível se deparar com algumas coisas interessantes que obviamente vão causar náuseas aos adoradores de Iñarritu’s e Nolan’s da vida por conta da qualidade duvidosa e precariedade das produções, que mais parecem vídeos amadores…

Nada contra o Nolan e Iñarritu, mas se tu não for desse tipo de cinéfilo elitista metido à besta e não tiver preconceito com produções de baixíssimo orçamento, talvez FLASHES – DEIXE A REALIDADE PARA TRÁS, de Amir Valinia, seja uma boa pedida. Trata-se de um pequeno sci-fi de boas ideias que aborda alguns conceitos curiosos sobre teoria das cordas, mecânica quântica, dimensões paralelas, enfim, essas coisas da física que eu não entendo bulhufas, mas que sempre achei ótimos pontos de partida para histórias de ficção científica.

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A trama é sobre um jovem arquiteto bem-sucedido, John Rotit* (Donny Boaz), que está vendo o mundo desmoronar ao seu redor por conta de uns flashes perturbadores que passou a ter após um acidente e que, curiosamente, o envia para outras existências, em dimensões paralelas… Um troço muito louco! Continuar lendo

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.8: TIME ENOUGH AT LAST (1959)

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Hey! Já fazia um tempinho que não postava sobre algum episódio da série ALÉM DA IMAGINAÇÃO por aqui. Ainda estamos na primeira temporada e chegamos a um dos episódios mais divertidos e, ao mesmo tempo, cruéis de todo o seriado. TIME ENOUGH AT LAST é o nome do episódio que traz o grande Burgess Meredith no papel de Henry Bemis, um sujeito que não quer nada na vida além de um lugar calmo e tempo para apreciar as palavras de uma página… Sejam livros, revistas, jornais, se deixar, é capaz de ler até a bula de remédios. O cara só quer ler.

Uma atividade saudável, certo? Não para Bemis, que é tão obcecado pela leitura que prejudica seu convívio social, sua mulher lhe proíbe de ler, escondendo ou hachurando livros, interfere até no seu desempenho no trabalho como caixa de banco, sempre com um romance de Dickens escondido na gaveta para dar umas lidas ao mesmo tempo em que precisa atender as pessoas na fila, deixando seu chefe furioso. A única coisa que o sujeito gosta de fazer é ler, e é a única coisa que não lhe deixam fazer.

Como um dos temas habituais da série (e de vários outros veículos de ficção científica do período) é a paranoia da corrida atômica, Guerra Fria e bombas nucleares, o episódio avança justamente quando uma grande bomba finalmente acaba com toda a vida no planeta. Menos Bemis, que estava na sua pausa para o almoço e resolveu se esconder no cofre do banco para ler um pouquinho… Ao sair do local, descobre uma nova realidade, a de que ele é o único ser vivo vagando pela terra devastada.

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O nosso herói até tenta levar numa boa, mas a solidão que lhe angustia lhe faz pensar em acabar também com a sua própria vida. Tudo muda quando ele encontra uma biblioteca cujos livros milagrosamente sobreviveram intactos à explosão. Milhares e milhares de livros lhe esperando e todo o tempo do mundo para ler… Um verdadeiro paraíso para Bemis. Seria terrível se algo acontecesse para evitar que ele finalmente desfrutasse de uma paz literária, não é? Hehe!

Escrito pelo criador da série, Rod Serling (baseado num conto de Lynn Venable) TIME ENOUGH AT LAST é um episódio mais leve e divertido na maior parte do tempo, mas muito efetivo na sua “mensagem”, alertando para um contexto desesperador. Uma leveza que se contrapõe perto da complexidade de sentimentos que o episódio desperta, mas por isso mesmo tão interessante.

É o tipo de exemplar que vai se perdendo ao longo do seriado, que vai ficando cada vez mais sério e sombrio nas abordagens dos temas a cada episódio. Mas aqui, como estamos ainda no início, era possível ter um contexto sério num episódio bem humorado, embora em determinado momento a situação de Bemis fique mais dramática e o desfecho seja um soco muito bem dado na fuça do espectador. Mas TIME ENOUGH AT LAST é notável devido à astúcia do enredo, o final irônico e cruel é simplesmente inesquecível e a performance de Burgess Meredith, uma das mais marcantes de ALÉM DA IMAGINAÇÃO.

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Outro destaque de TIME ENOUGH AT LAST é o design de produção deslumbrante do cenário pós-apocalíptico, muito efetivo em sua desolação e bem utilizado pelo diretor John Brahm, que faz aqui sua estreia na série. Brahm foi um dos cineastas mais requisitados de ALÉM DA IMAGINAÇÃO, trabalhando em doze episódios ao longo do seriado. Nascido na Alemanha, o sujeito seguiu os passos de vários profissionais do cinema daquele país, que deram no pé quando Hitler assumiu o poder no início da década de trinta. Possui uma filmografia bem interessante, apesar de hoje não ser muito lembrado, e dedicou grande parte da carreira a fazer seriados.

Já o ator principal de TIME ENOUGH AT LAST, Burgess Meredith, apareceu em um total de quatro episódios de ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Mas sem dúvida alguma foi aqui que fez seu desempenho mais conhecido da série, como o infeliz, abatido e ávido leitor Henry Bemis, numa atuação cativante. Os fãs da série de filmes ROCKY vão se lembrar dele como Mickey, o treinador de Rocky Balboa.

Se você não viu este episódio, dê uma conferida. deve ter no youtube. Mesmo que não vá assistir a série inteira, pelo menos TIME ENOUGH AT LAST é diversão garantida, uma pequena joia da ficção científica televisiva que não vai decepcionar.

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.7: THE LONELY (1959)

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Mais um ALÉM DA IMAGINAÇÃO pra moçada bonita que acompanha o blog! É evidente que só vou conseguir definir os melhores e piores episódios quando terminar de assistir a essa primeira temporada por completo. Mas uma coisa pelo menos já posso confirmar: THE LONELY, sétimo episódio, corre sérios riscos de ser um dos meus favoritos. É bem simples e trata de um dos temas mais frequentes da série – o isolamento humano, como o título do capítulo já indica – mas a premissa é simplesmente genial e teria potencial para algo bem mais ambicioso.

James A. Corry (Jack Warden) é um prisioneiro que vive completamente sozinho num asteroide vagando no espaço, que consiste num novo e particularmente cruel, tipo de prisão. Sim, os condenados são jogados num asteroide no espaço e cumprem suas penas por lá! Isso é fantástico! Óbvio que o que realmente pega para Corry é a solidão, já que passa meses sem viva alma para interagir, jogar xadrez ou beber uma cerveja. Situação que o deixa completamente louco. De tempos em tempos, um foguete pousa no local para lhe trazer mantimentos, entre outras coisas. São esses mínimos contatos que mantêm a cabeça do sujeito no lugar. Mas depois de tanto tempo, nem isso basta.

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Felizmente, o gentil capitão Allenby (John Dehner) trouxe uma caixa a mais na sua última visita. Dentro, um robô chamado Alicia (Jean Marsh), que foi construída com características muito humanas. Incluindo sentimentos. Ela pode sentir dor e solidão, assim como Corry. Embora a rejeite num primeiro momento, o protagonista não está mais sozinho e se entrega à necessidade de uma companhia. Na próxima visita, Allenbe chega com boas notícias. Corry foi perdoado, o sistema de prisão espacial em asteroides foi cancelado e todos os prisioneiros estão voltando para a terra. O problema é que há espaço suficiente no foguete apenas para Corry, Alicia precisa ser deixada para trás.

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Dirigido por Jack Smight, e escrito pelo criador da série, Rod Serling, THE LONELY peca apenas por ser tão urgente, deixa um gostinho de “quero mais” e, talvez, não chegue a fundo no seu estudo sobre o homem em isolamento, nem na ideia de suprir essa necessidade numa relação com um robô. No entanto, a história é tão bem contada nesses vinte e poucos minutos, reduzindo toda a sua potencialidade à essência, que o episódio acaba passando seu recado de forma contundente e divertido às pampas.

Algumas cenas chaves são fantásticas nesse sentido, como quando Corry conhece Alicia e a rejeita porque ela não é uma pessoa real, apenas uma imitação. Mais tarde, ele se deixa consumir pela fantasia, não porque esteja apaixonado por um robô, mas porque ele precisa de algo tangível para se relacionar. No final, quando Allenby atira no rosto de Alicia, revelando nada mais do que fios em curto-circuito, Corry é imediatamente lembrado de quão perto ele chegou de perder a noção de realidade.

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Um dos destaque de THE LONELY é a solução que encontraram para a geografia do asteroide. Foi filmado principalmente no Parque Nacional do Vale da Morte, um lugar que serviria de cenários para muitos episódios da série que se passam em algum planeta distante. O deserto vazio e sem vida proporciona ao espectador a sensação de solidão perturbadora que os personagens encaram. É um oceano de nada. Quando Allenby e seus homens chegam ao local, são um lembrete para Corry que ainda há esperança, mas quando vão-se embora, não importa onde o protagonista vá, em qualquer direção que ele olhe sempre vai haver o vazio.

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Para quem não se lembra, Jack Warden é o jurado # 7 no clássico de Sidney Lumet, DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA. Ator prolífico, marcou presença em várias produções de peso nas três décadas seguintes. E é notória sua participação em THE LONELY, numa atuação expressiva e convencendo como sujeito desesperado pela solidão. O diretor americano Jack Smight é um dos mais interessantes a pintar na série e manda bem na direção, com muito frescor e originalidade. É um sujeito que já fez de tudo um pouco: estudou psicologia, lutou na guerra, dirigiu teatro e até foi Disc-Jockey. No cinema, demonstrou grande talento, mas acabou sendo engolido pelos estúdios e relegado mais à televisão. Mas tem vários bons filmes no currículo. Voltou à ALÉM DA IMAGINAÇÃO mais três vezes: THE LATERNESS OF THE HOUR (1960), THE NIGHT OF THE MEEK (1960) e TWENTY TWO (1961), todos na segunda temporada.

GODZILLA RAIDS AGAIN (1955)

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Primeira continuação de GODZILLA, que já comentei aqui no blog no no início de 2017. Não é melhor que seu antecessor, mas para quem curte esses clássicos filmes de Daikaiju (monstro gigante), GODZILLA RAIDS AGAIN é um prato cheio, até porque já aqui ele tem um outro monstro como oponente, o espinhoso Anguirus, para deixar as coisas mais hiperbólicas e divertidas. Só acho que perde para o anterior pelo tom muito sério e uma falta de refinamento, um certo cuidado visual e dramático que não vejo por aqui e que GODZILLA esbanjava. Obviamente a troca na direção, do genial Ishirō Honda, por Motoyoshi Oda tenha um bocado a ver com isso…

Na trama, temos Kobayashi, um piloto que durante um vôo precisa fazer um pouso de emergência em uma ilha. Só que não é uma ilha qualquer, e não demora muito o sujeito avista dois grandes monstrengos trocando desaforos numa batalha épica. Um piloto colega consegue resgatar Kobayashi em algum momento e eles sobrevoam a ilha e percebem que confronto é entre Anguirus e Godzilla. Todo mundo fica encucado quando ouvem que Godzilla foi avistado numa ilha em algum lugar do Pacífico.

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O que é estranho, já que Godzilla havia morrido por um dispositivo de destruição em massa no filme anterior… Mas GODZILLA RAIDS AGAIN não se preocupa muito em explicar seu retorno, e eu não faço questão em saber. Só quero ver monstros lutado, quebrando e explodindo coisas!

O exército japonês é convocado para reuniões de emergência para discutir a situação dos monstros. A oportunidade perfeita para apagarem as luzes e Takashi Kimura, um dos protagonistas do antecessor, levante e comece a falar da ameaça que estão lidando, além de mostrar “filmes caseiros” sobre Godzilla. O que nada mais é que cenas do primeiro filme, quando o espectador que já assistiu a GODZILLA tem a oportunidade de tirar um cochilo enquanto os realizadores resolvem resumir e reviver tudo o que aconteceu no filme de 1954.

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O sujeito disserta como Godzilla é um monstro fodão, praticamente indestrutível, arrasou cidades inteiras e como só foi possível pará-lo com um dispositivo destruidor de oxigênio. O problema é que o cara que criou tal arma está morto e levou consigo o segredo da fórmula para o túmulo. A apresentação do cara continua e continua, só faltou um power point, mas pelo menos temos as imagens do primeiro filme com Godzilla causando a maior destruição…

Eventualmente, Godzilla e Anguirus aparecem em alguma cidade japonesa e acabam numa refinaria de petróleo, como se fossem dois elefantes numa loja de cristal, explodindo tudo que vêem pela frente, num trabalho de efeitos especiais de maquetes sensacional como é o habitual dessas produções japonesas.

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Após quebrar a cara de Anguirus, Godzilla resolve bater em retirada e os militares tentam rastreá-lo para não perdê-lo de vista. Mas perdem. Como você perde uma lagartixa de trinta andares que está fodendo com a vida dos japoneses? Talvez seja porque seu rastreamento envolve pessoas escrevendo em tabuletas de giz, empurrando pequenos barcos modelo em mapas de mesas e enviando barquinhos de pesca para procurá-lo.

Mas o bom e velho Kobayashi finalmente localiza Godzilla na mesma ilha que havia realizado o pouso forçado no início do filme. O que leva a uma das cenas mais absurdas de todo o filme – Godzilla sendo derrotado, enterrado em uma avalanche (causada por Kobayashi), que mais parecem ser um monte de cubos de gelo, com seus bracinhos acenando freneticamente no ar! E pronto. Fácil assim. A arma de hidrogênio não foi capaz de matar Godzilla como todos esperavam, mas enterrá-lo em uma avalanche de neve e gelo é a solução perfeita! Esperem só até a chegada da primavera pra ver o que acontece…

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Apesar dessa galhofa toda no final, GODZILLA RAIDS AGAIN possui uma pegada mais séria do que deveria, o que os próximos filmes vão deixando de lado. Quero dizer, se você quer assistir a filmes do Godzilla pela gozação, este aqui não deve funcionar. Tirando os momentos mais insanos, o filme é bem paradão e mesmo assim não chega ao nível do tratamento de GODZILA, cuja história é realmente impactante sobre o alvorecer da era atômica. Mas, também não deixa de ser uma continuação digna do grande clássico que é o filme de 1954.

A MORTE NOS SONHOS (Dreamscape, 1984)

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Não sei porque nunca havia conferido DREAMSCAPE antes. Devo ter tido azar na infância, nunca peguei passando na TV, não lembro de ter visto nas locadoras. E embora soubesse da sua existência quando já não era mais moleque, acabava empurrando pra frente. Pensei até que DREAMSCAPE fosse mais um rip-off de Indiana Jones por algum motivo e isso me desanimava. Não que eu não goste de rip-off de Indiana Jones, mas nunca tava no clima pra encarar este aqui. Na verdade, o verdadeiro motivo que me fazia pensar tal coisa era o cartaz maldito deste filme, que toda vez que via me parecia uma cópia descarada de OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA. Não estou zoando, podem comparar e tirar suas próprias conclusões:

Enfim, DREAMSCAPE foi um dos filmes mais legais que assisti nos últimos dias. E não! Não tem NADA A VER com qualquer aventura de Indiana Jones. Na verdade é uma ficção científica divertidíssima, bem movimentada e aterrorizante que lembra mais um outro filme, atual, de um certo Christopher Nolan… DREAMSCAPE explora algumas noções fascinantes envolvendo a natureza dos sonhos e o desejo de poder controlá-los. Em seguida, dá um passo adiante com a hipótese de ser capaz de entrar nos sonhos de outras pessoas e salvá-los de algum tormento, pesadelo ou até mesmo matar o indivíduo que sonha.

Dennis Quaid interpreta Alex Gardner, um jovem com poderes mentais extraordinários, que é recrutado por Max Von Sydow para se juntar a um projeto experimental secreto que permite que uma pessoa se torne um participante ativo dos sonhos de outrem. Alex é um bocado cético quanto a sua finalidade, mas começa a acreditar na potencialidade do projeto depois de entrar no universo dos sonhos de algumas cobaias. Por exemplo, os pesadelos de um menino onde ele ajuda a combater um sinistro monstro, metade homem, metade cobra, que tormenta as noites do pobre garoto.

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Christopher Plummer, que vive um engravatado do governo, planeja usar tal tecnologia para enviar um assassino (o sempre excelente David Patrick Kelly) para dentro dos sonhos do presidente dos Estados Unidos (Edward Albert). No calor do último ato, Alex entra no sonho do presidente para salvá-lo de Kelly, que domina o universo dos sonhos como ninguém, podendo lutar como Bruce Lee, se transformar no homem-cobra e fazer suas unhas se tornarem grandes e afiadas como facas (como Freddie Krueger, outro personagem de unhas letais que ataca nos sonhos de suas vítimas… Coincidência? Ambos filmes, este aqui e A HORA DO PESADELO, foram lançados no mesmo ano).

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Algumas sequências são impressionantes e não vão sair da memória tão cedo. Especialmente as que acontecem nos sonhos: há uma incrível que se passa no alto de um arranha-céu; o garotinho cortando a cabeça do “homem-cobra”; o sonho “molhado” da secretária do projeto, interpretada pela Senhora Spielberg, Kate Capshaw; e o grande final, com Alex dentro do sonho do presidente, encarando uma horda de zumbis num mundo pós-apocalíptico. Continuar lendo

THE TWILIGHT ZONE: THE MOVIE (1983)

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Aproveitando a maratona ALÉM DA IMAGINAÇÃO, que comecei esses dias, vamos falar então da atualização que este clássico da televisão, criado pelo grande Rod Serling, recebeu nos anos 80. Mas estou falando do filme, THE TWILIGHT ZONE – THE MOVIE, e não da própria série de TV que retornou nos anos 80 e que teve três temporadas entre 1985 e 1989.

Em 1983, Steven Spielberg produziu e co-dirigiu THE TWILIGHT ZONE – THE MOVIE, versão cinematográfica do seriado. A ideia era reunir alguns dos nomes mais interessantes do cinema de fantasia e horror do período e compilar no formato de antologia um longa que fizesse uma homenagem aos clássicos episódios de ALÉM DA IMAGINAÇÃO, mas também aproveitar dos novos recursos e tecnologias que os anos 80 possuíam em relação ao período em que o seriado clássico fora produzido.

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Além do próprio Spielberg na direção, temos Joe Dante (GREMLINS), George Miller (série MAD MAX) e o grande John Landis (UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES), que é um sujeito que eu tenho dado uma atenção especial aqui no blog recentemente. E obviamente não poderia deixar de citar  THE TWILIGHT ZONE – THE MOVIE como um dos seus principais trabalhos. Não apenas pelo seu talento envolvido nesse projeto, mas por ter acontecido aqui, exatamente aqui, sob a sua direção, a maior TRAGÉDIA já ocorrida e filmada na história do cinema. Mas já vamos falar sobre isso…

Antes, é preciso ressaltar que Landis é o único dos quatro diretores que teve um trabalho extra em THE TWILIGHT ZONE – THE MOVIE e realizou também o prólogo. Esta introdução é uma história bem curtinha, no qual temos os astros Dan Aykroyd e Albert Brooks num carro ao longo de uma estrada no meio da noite. Entediado, eles começam a fazer joguinhos para passar o tempo, como tentar adivinhar temas de programas de TV, discutem a série ALÉM DA IMAGINAÇÃO clássica e até que ponto era assustador e tal…. O diálogo é ótimo e eu poderia ver duas horas de filme só com esses dois papeando! Até que em determinado momento, Aykroyd decide mostrar a Brooks algo REALMENTE assustador…

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É uma boa maneira de começar as coisas. Mantém o público ligado porque desconfiamos que alguma coisa vai acontecer, mas não se sabe o que… E configura de forma eficiente o clima do que está por vir em THE TWILIGHT ZONE – THE MOVIE. Aykroyd e Brooks têm uma química excelente e é uma pena que nunca tenham trabalhado juntos de novo. Esse pequeno segmento é um dos mais memoráveis de todo o filme – se não for uma das melhores cenas de abertura de qualquer filme de qualquer gênero, de qualquer época…

É de John Landis também o primeiro episódio da antologia. Chama-se TIME OUT e é um típico conto clássico de ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Estrelado por Vic Morrow, vivendo um sujeito preconceituoso, que entra em um bar e insulta todas as minorias possíveis. Quando sai do local, ele simplesmente volta no tempo e se encontra na Segunda Guerra Mundial, na Alemanha, e todos os nazistas pensam que ele é judeu. Então o prendem e tentam levá-lo para um campo de concentração. Mas então outras viagens temporais entram inexplicavelmente na sua jornada. É, por exemplo, confundido pela KKK, que pensam que ele negro e tentam pendurá-lo pelo pescoço, ou logo depois, quando termina no Vietnã em mais situações em que se vê confrontado pela sua raça ou cor de pele…

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Mas para além da “lição de moral” que o episódio passa, fica um gosto amargo assisti-lo depois de saber que foi  durante as filmagens deste pequeno segmento que Vic Morrow morreu tragicamente num acidente. Mas a coisa foi bem mais desagradável. A cena do episódio é a seguinte: Morrow carregava duas crianças em seu colo enquanto um helicóptero sobrevoava para resgatá-los. E agora já não é mais ficção, é a realidade: O helicóptero deu pane por conta das explosões no cenário, caiu e sua hélice em movimento simplesmente decapitou Morrow E AS DUAS CRIANÇAS. E as câmeras filmaram tudo isso. Apesar de não dar para ver muita coisa (a cena acontece num lago e quando a hélice bate nas vítimas, vê-se mais água do que alguma possível violência), não vou postar o video aqui, mas é fácil de encontrar no youtube.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.1 (The Twilight Zone, 1959)

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Os mais saudosistas vão curtir essa. ALÉM DA IMAGINAÇÃO é uma das séries mais cultuadas da televisão americana e uma das minhas favoritas de todos os tempos e não é de agora que eu tenho planos de escrever sobre essa belezinha aqui no blog, episódio por episódio. Mas sempre acabo adiando… Como finalmente animei rever tudo de novo, vou tentar não perder a chance novamente.

Antes de entrar no primeiro episódio, acho que vale a pena uma ligeira introdução para quem não viu ou nem conhece a série entender a importância da coisa. Criada pelo escritor e roteirista Rod Serling, ALÉM DA IMAGINAÇÃO encantou os ávidos fãs de sci-fi, horror e fantasia durante cinco temporadas, entre 1959 e 1964, em dramas e situações que lidam com o sobrenatural, com a psicologia, com conceitos kafkanianos, resultando em episódios que vão do incomum e insólito até o aterrorizante e perturbador. Devido a grande variedade de temas e abordagens da série, não poderia ser diferente: acabou por ser uma das mais influentes fontes de inspiração de praticamente tudo relacionado a ficção científica no cinema, televisão, literatura e games pós-anos 60.

A série também é notável pela presença de alguns atores gabaritados do período (Dana Andrews, Art Carney, Buster Keaton, Burgess Meredith, etc…) e por apresentar algumas figuras mais jovens em início de carreira e que se tornariam famosos mais tarde, como Charles Bronson, Robert Duvall, Peter Falk, Dennis Hopper, Leonard Nimoy, Robert Redford, e tantos outros… Vale destacar também alguns diretores e roteiristas que contribuíram com seu talento em alguns episódios, como Don Siegel, Richard C. Sarafian, Ida Lupino, Jacques Tourneur, Christian Nyby, Richard Donner, Buzz Kulik, Richard Matherson, Ray Bradbury, Reginald Rose, etc.

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Enfim, hoje assisti ao primeiríssimo episódio da primeiríssima temporada, que se chama WHERE IS EVERYBODY?.  Já dá pra ter uma boa noção do que esperar da série só pela trama deste aqui. Um sujeito, vivido por Earl Holliman, chega a uma pequena cidade, sem saber quem é, de onde veio e como chegou ali, e encontra o local desprovido de qualquer pessoa. A cidade inteira está deserta. O moço passa então a vagar de um lado a outro, de estabelecimento a outro, sempre proferindo um monólogo constante, vivendo situações solitárias. Quase fica preso em uma cabine telefônica, toma sorvete, ouve música, vai ao cinema e sempre encontra evidências de que pessoas estiveram ali recentemente: um charuto aceso num cinzeiro, uma cafeteira assobiando… Mas não encontra uma alma viva.

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Escrito pelo próprio Rod Serling, já é possível identificar por aqui um dos principais temas da primeira temporada de ALÉM DA IMAGINAÇÃO: os efeitos da solidão humana. Desse modo, WHERE IS EVERYBODY? é um episódio que depende muito do desempenho de seu ator principal. E Earl Holliman consegue ser convincente e eficaz como o amnésico perdido nessa situação totalmente insólita. Seu papel não é tão fácil, considerando que seu personagem praticamente não contracena com ninguém e, mesmo assim, consegue manter a atenção de forma expressiva, falando em voz alta – uma maneira de fornecer alguma satisfação ao público.

Outras grandes atuações deste ator praticamente desconhecido hoje pelo público podem ser conferidas em filme como PLANETA PROIBIDO, ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE e LÁGRIMAS DO CÉU (56), pelo qual ganhou o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante.

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WHERE IS EVERYBODY? também deve muito ao diretor Robert Stevens, cujos movimentos de câmera e enquadramentos ousados em alguns momentos dão energia a uma história que poderia resultar num tédio. Há algumas sacadas visuais geniais aqui, uma delas é quando Holliman desce correndo pelas escadas no cinema e se choca contra um espelho estraçalhando-o, causando um efeito bem interessante.

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Stevens fez sua carreira mais voltada para a televisão, realizando um grande número dos mais variados seriados. Apesar de ter dirigido este episódio de estreia, o sujeito só viria a dirigir mais um capítulo de ALÉM DA IMAGINAÇÃO, chamado WALKING DISTANCE, ainda na primeira temporada. Hoje, ele seria mais lembrado por seu prolífico trabalho na série HITCHCOCK PRESENTS e THE ALFRED HITCHCOCK HOUR, onde dirigiu quase cinquenta episódios entre os dois programas de TV.

WHERE IS EVERYBODY? é um ótimo começo para ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Não chega nem perto de ser o melhor episódio, ainda vamos chegar lá, mas até hoje continua divertido e mantém com segurança o peso da responsabilidade por começar um dos programas de TV mais celebrados e, por isso, tem a sua importância distinta para a série.

GODZILLA (Gojira, 1954)

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Revendo o primeiro GODZILLA, de Ishiro Honda. Uma metáfora pesada dos horrores provenientes de armas nucleares. É um filme que carrega ressonância alegórica muito séria… Quero dizer, deve ser o único filme dentre os mais de trinta que compõe a série GODZILLA que até mesmo um “crítico sério” poderia admitir ter gostado sem medo de ter sua credibilidade revogada. Bem, no meu caso não sou nem crítico nem sou sério, portanto curto até as bagaceiras divertidas e exageradas que são as continuações… Não vi todos ainda, vou aos poucos. Mas este aqui é um clássico obrigatório.

A sequência do ataque à Tóquio é um dos momentos mais marcantes. Claro, quem se propõe a ver GODZILLA espera mesmo ver o caos causado pelo monstro em todo seu esplendor. Mesmo assim a coisa surpreende, as cenas de destruição são um espetáculo de primeira. O reinado de terror de Gojira é brutal, deixando Tóquio às migalhas, em chamas, com seus hospitais abarrotados de mortos e feridos. Mas entre todas as imagens, precisamente criadas a partir de efeitos especiais, há uma que me assombra sempre que me lembro do filme. Em meio a destruição, um plano de uma mãe que abraça e consola seus filhos, prometendo que logo todos estariam junto com o pai deles, provavelmente morto também pelo monstrão. Não consigo imaginar o quão tocante e assustador deve ter sido ver uma cena dessas no Japão em 1954…

Outro momento que não dá pra esquecer é essa cena da imagem aí debaixo, quando Gojira aparece pela primeira vez e ecoa o rugido mais amedrontador da história do cinema. É de arrepiar!

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Aparentemente, a única maneira de destruir Gojira é utilizando o “Oxygen Destroyer“, do Dr. Serizawa, uma arma tão terrível que seu seu inventor hesita em relação ao seu uso. É mexer com um poder que está além do seu alcance, da mesma forma quando experimentamos armas nucleares, adverte o filme. A princípio, Serizawa recusa, dizendo que a arma seria usada em última instância para o mal. Quando a televisão transmite um coro de crianças cantando uma oração pela destruição de Gojira, Serizawa finalmente cede e concorda em usar seu dispositivo. Junto com Ogata, um dos protagonistas da trama, ele desce às profundezas do oceano e enfrenta Gojira com o seu “Oxygen Destroyer“. Mas Serizawa também sabe que o segredo de sua invenção deve morrer junto com o monstro

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Os efeitos especiais de GODZILLA até hoje impressionam. São eficazes para o seu período, Honda soube aproveitar bem e combinado com a fotografia em preto e branco o resultado é ainda mais dramático. Se eles tivessem filmado em cores acho que não teria o mesmo efeito. Claro, visto hoje GODZILLA não é perfeito nesses quesitos, percebe-se os “truques” facilmente… Mas quando se pensa nessas cenas como algo seminal, o primeiro filme de sua espécie na indústria de cinema japonesa, é preciso reconhecer o talento de um sujeito como Eiji Tsuburaya, o diretor de efeitos especiais, e toda a sua equipe.

Tsuburaya era influenciado pelo stop-motion, mas o curto tempo que teve para trabalhar em GODZILLA tornou impossível o uso desse tipo de efeito. Imaginem só, uma única sequência pode levar várias semanas para se filmar em stop-motion. Em vez disso, Tsuburaya optou por construir um traje de monstro, que seria operado por um sujeito dentro. Acabou que deu certo, Gojira é imponente, um monumento, consegue ter certo realismo na medida do possível, e o visual ficou famoso no mundo todo.

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GODZILLA até hoje se mantém fascinante como um filme sci-fi catástrofe, mas também é uma obra-prima que serve de reflexo ao seu tempo, produzido ainda na ressaca do pós-guerra, aproximadamente 10 anos depois que as bombas atômicas cairam no Japão. O impacto cultural do filme é enorme, Gojira é um ícone! E seu legado, mais de 30 filmes, é simplesmente notável. Curioso que dois anos depois, foi lançado no mercado americano com um corte totalmente diferente e o título GODZILLA – KING OF THE MONSTERS, que omite referências à bomba atômica com receio de chatear o público norte-americano. Nessa versão também filmaram outras cenas e incluiram a participação de um repórter americano que acaba entrando na aventura… Nunca vi essa versão, mas vale ressaltar sua existência.

FAREWELL TERMINATOR (1987)

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FAREWELL TERMINATOR é o primeiro filme de Isaac Florentine, realizado ainda em seu país natal, Israel, uma mistura de ficção científica pós-apocalíptica com ação e artes marciais, e que não chega a 30 minutos de duração.

O clima lembra os filmes do gênero daquele período, os rip-off de MAD MAX, principalmente os produzidos pelos italianos e também as tralhas do Cirio H. Santiago e gente dessa laia, mas já demonstra um modesto talento e estilo próprio de Florentine em coduzir cenas de ação e pancadaria. Além da capacidade de trabalhar com pouquíssimo recurso, mas muita criatividade, utilizando como cenário uns entulhos de concreto e sujeira, ruinas de prédios e carros batidos para compor uma atmosfera que funciona muito bem.

A história não é nada de mais. Mas não era intenção do Florentine, que escreveu o roteiro junto com Yehuda Bar-Shalom, gastar fosfato em um roteiro mais elaborado que serviria apenas de veículo para que o próprio Florentine explorasse seus interesses intelectuais e filosóficos… como tiros e pontapés na cara, por exemplo.

Ainda assim, a trama não deixa de ser interessante: no futuro, o governo utiliza uma espécie de polícia especial, conhecida como Terminators, para eliminar os rebeldes. Acompanhamos Dror, um policial que está prestes a se aposentar e ganhar passe livre para sair do país. Em seu último dia de trabalho, precisa enfrentar Schneider (o próprio Florentine), um ex Terminator que trocou de lado. Ainda na trama, Dror descobre que está com sua cabeça a prêmio e que a polícia está por trás disso. É uma boa premissa… com menos de meia hora de duração então, dá pra se divertir um bocado.

E o foco fica mesmo na ação e nas cenas de luta. Não são perfeitas, tão bem montadas e coreografadas como os filmes posteriores do diretor, como NINJA e UNDISPUTED III. No entanto, percebe-se claramente porque o cara conseguiu emprego rapidinho em solo americano, a princípio fazendo alguns B Movies e episódios de Power Ranges (Argh!)… depois voltou a se dedicar a fazer B Movies, mas com um pouco mais de grana, com atores conhecidos, como Van Damme, Dolph Lundgren, Gary Daniels e seu ator habitual, Scott Adkins.

FAREWELL TERMINATOR não é tão fácil de encontrar, eu suponho, mas se você tiver a oportunidade, não perca. Vale muito como curiosidade para quem já é fã de filmes de ação de baixo orçamento, especialmente do trabalho do Isaac Florentine, e também para os fanáticos por obras obscuras de ficção pós-apocalíptica dos anos 80.

ALIEN³ (1992)

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Alguns dos meus últimos posts do ano passado aqui no blog foram sobre os dois primeiros filmes da franquia ALIEN, então não vejo porque não continuar… Até porque revi o terceiro episódio da série mais um vez por esses dias e vale a pena tecer uns breves comentários.

ALIEN³ é o primeríssimo trabalho de David Fincher como diretor, que era técnico de efeitos especiais e diretor de video clipes. O sujeito só aceitou a função de comandar a coisa aqui após alguns nomes (Renny Harlin, Walter Hill, que é o produtor) abandonarem o barco durante a pré-produção. Aliás, é um filme que até hoje possui uma carga de polêmicas de bastidores. Problemas com o roteiro (que fora reescrito trocentas vezes), interferências dos executivos dos estúdios pra cima do Fincher, diretor de primeira viagem, e o resultado final foi muito questionado na época. Por muito tempo ALIEN³ foi considerado a ovelha negra da série, até, é claro, surgir o quarto filme, dirigido pelo francês Jean-Pierre Jeunet, que assumiu esse posto…

Hoje, tenho certeza de que ALIEN³ é uma obra equivocadamente subestimada. Tá certo que não chega a ser melhor que os dois filmes anteriores, dirigidos pelo Ridley Scott e James Cameron, respectivamente, mas basta as sequências da baratona alienígena perseguindo os personagens pelos corredores apertados de uma prisão num planeta qualquer para colocá-lo entre os melhores filmes de horror dos anos noventa. É uma autêntica aula de tensão e horror atmosférico, que se aproxima bastante do filme de 78, embora este aqui seja o mais sombrio, melancólico e dramático exemplar da série. 

O final deve ter feito muitos fãs ferrenhos deixarem as salas de cinema da época xingando a mãe do diretor, mas eu adoro e acho que fecha a trilogia de maneira sublime. Mas, inventaram de fazer um quarto filme… Agora preciso rever também antes de crucificar o francês maluco que dirigiu.

Leia também:

ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO (1979)

ALIENS (1986)

SHOPPING (1994)

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Entrei numa de redescobrir a carreira do Paul W.S. Anderson… Acho que é por causa do fechamento da saga RESIDENT EVIL no final do mês, uma franquia das atualidades que me interessa muito e do qual quatro filmes são dirigidos pelo homem. Sempre gostei dos filmes do Anderson, mas nunca parei pra pensar no sujeito como diretor de talento, um sujeito que possui uma visão tão rara dentro do cinema de ação atual, com estilo próprio, inventivo e até mesmo poético sobre o espetáculo popular e gêneros subestimados pelos cinéfilos acadêmicos (da mesma forma que eu penso sobre um Michael Bay e os caras da franquia VELOZES E FURIOSOS). Estilo que às vezes pode passar batido. É só reparar: Boa parte da crítica séria o despreza, a maioria dos cinéfilos o ignora, e o cara fica jogado de lado entre os realizadores genéricos. Quando não é bem assim.

Resolvi assistir ao SHOPPING, que é o filme de estreia de Anderson, um trabalho quase experimental, tão estilizado quanto existencialista, de baixo orçamento feito ainda na Inglaterra, e me surpreendi positivamente de todas as formas possíveis. O filme é fantástico, principalmente quando se percebe o quanto o cara saca pra cacete de mise en scène e trabalho de câmera. Me peguei pensando se os filmes seguintes, já sob a batuta dos grandes estúdios ele mantinha essa assinatura autoral. Lá atrás, ainda nos anos 90, Anderson fez uma das primeiras adaptações de Video Game realmente interessante, MORTAL KOMBAT, e realizou um dos filmes de horror espacial mais atmosféricos e arrepiantes daquela década, O ENIGMA DO HORIZONTE. Pelo menos é a impressão que eu guardo… Preciso rever e avaliar esses exemplos e até mesmo o que ele dirigiu em RESIDENT EVIL – apesar do quarto, AFTERLIFE, estar bem fresco ainda, acho um puta filmaço – pra confirmar essa tese. Por enquanto, SHOPPING foi uma descoberta das boas!

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Na época em que foi realizado, havia uma preocupação das autoridades britânicas em relação a um fenômeno marginal no qual jovens roubavam carros e dirigiam-se contra vitrines de lojas. Apesar do propósito ser claramente o roubo, descobriu-se que a ideia era mais pela diversão do que lucro. SHOPPING pega esse fenômeno e o transporta para uma cidade futurista, dark e estilizada, onde temos Billy (Jude Law fazendo sua estreia em longas), um jovem viciado em adrenalina, em carros e velocidade, que é praticante assíduo desses roubos. O rapaz começa o filme saindo da prisão e deixa bem claro que não tem intenção alguma de se ajustar, mesmo com a persuasão ineficaz do delegado (Jonathan Pryce). Uma relação fracassada com seu pai, mostrada posteriormente, deu a Billy uma total falta de respeito por qualquer autoridade.

A única influência boa que poderia surtir algum efeito em Billy é Jo (Sadie Frost), sua parceira no crime, que ocasionalmente o incita a sair dessa vida e oferece a possibilidade de algum tipo de relacionamento mais maduro. Mas Billy tem a mentalidade de um adolescente petulante, niilista, cujas energias hormonais são canalizadas para a busca de adrenalina em perseguições de carro com a polícia e um comportamento anti-social sem objetivo. Não é difícil ver que nada disso vai acabar bem.

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Mas enquanto o filme é infundido pela imaturidade do protagonista, não dá pra dizer o mesmo sobre Paul W.S. Anderson e suas habilidades no comando desse seu debut. O cara dirige com uma energia do caralho! É impressionante como a câmera simplesmente não pára em constantes travellings, panorâmicas elaboradas, ângulos dinâmicos, cenas de ação alucinantes habilmente encenadas, tirando leite de pedra do orçamento minúsculo. Além disso, consegue extrair excelentes desempenhos de seu elenco, tanto dos novatos (Law, Frost) quanto dos atores mais experientes (há uma breve participação de Sean Bean). E tem ainda um olho fantástico para a luz, a textura, os espaços, transformando paisagens industriais e áreas abandonadas de Londres em uma cidade apocalíptica desprovida de qualquer tipo de calor ou esperança humana.

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Na época, o filme foi uma reação à indústria cinematográfica britânica do início dos anos 90, a hegemonia das adaptações literárias dos James Ivory da vida e dramas realistas sociais em detrimento do cinema “entretenimento”, dos filmes que despertam os prazeres visuais e narrativos de gênero, como ação, thriller, etc. Em outras palavras, SHOPPING era o manifesto rebelde de Anderson dentro da industria britânica. Menos de um ano depois do lançamento,  Danny Boyle aparece com COVA RASA e logo, TRANSPOTTING. Não estou querendo dizer que Anderson reinventou o cinema britânico com SHOPPING, mas não dá pra negar que ao menos dentro de um contexto do cinema comercial, Anderson e Boyle estiveram trabalhando na vanguarda de uma nova onda no cinema britânico.

Paul W.S. Anderson pode até não ser um cineasta sofisticado, mas é inegável seu notável senso estético e formal, e espero encontrar esse estilo único mesmo nos seus blockbusters de Hollywood atuais. Já SHOPPING é meu novo “queridinho” dos anos 90, uma bela descoberta que ainda pretendo revisitar algumas vezes.

ALIENS – O RESGATE (Aliens, 1986)

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James Cameron é fã de carteirinha de ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO (1979), de Ridley Scott, e precisou colocar em prova sua capacidade e talento – que não eram tão claros naquele período, – para ter seu nome escrito na cadeira de diretor desta continuação. Ainda estamos em 1980, passado apenas um ano do lançamento do original, os produtores já começam a viabilizar a idéia de uma sequência. O problema maior é encontrar um script que justificasse mais um filme.

Os produtores David Giler e Walter Hill chegaram ao pobre Cameron através do projeto de O EXTERMINADOR DO FUTURO (que ainda não havia sido realizado) e resolveram marcar um encontro para trocar idéias. Lá pelas tantas, depois de algumas doses de whisky, comentaram o desejo de realizar a continuação de ALIEN e Cameron se interessou subitamente. O tempo foi passando e, pós vários roteiros recusados, Cameron, que mal havia dirigido PIRANHA 2 e trabalhou apenas na parte técnica de algumas produções de ficção científica de baixo orçamento, conseguiu colocar na mesa dos executivos uma história que finalmente chamou-lhes a atenção. O roteiro ainda não estava pronto (e muita coisa foi mudada com outras pessoas metendo o bedelho), mas já era meio caminho andado; a base desse script eram idéias que o diretor estava desenvolvendo para um filme chamado MOTHER.

No entanto, era um risco colocar nas mãos de James Cameron a direção de um filme que exigia muito investimento, muita estrutura, muita coisa que aquele sujeitinho ainda não havia provado que sabia fazer. Ninguém podia assegurar que ele era realmente capaz de administrar todo o aparato que seria colocado em suas mãos. A prova de fogo foi o filme que Cameron estava realizando, ainda em fase de pré-produção. Se conseguisse ser bem sucedido, teria o emprego na continuação de ALIEN. Bem, todos nós sabemos que O EXTERMINADOR DO FUTURO foi um sucesso, então…

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ALIENS recebeu este título (e não ALIEN 2) porque em 1980, um italiano chamado Ciro Ippolito produziu, escreveu e dirigiu uma “sequência picareta” de ALIEN chamado ALIEN 2, com a trama se passando na terra. Mas ALIENS é um nome que se encaixa perfeitamente ao filme de Cameron, pois uma das principais diferenças do original é que, desta vez, Ripley (Sigourney Weaver) encara um exército de baratas espaciais ao invés de um único como no primeiro filme.

Sendo assim, o diretor de AVATAR tomou um caminho diferente ao de Ridley Scott. O primeiro filme da série era um exercício de claustrofobia, atmosférico ao extremo e trabalha muito bem o suspense. Sem dúvidas é um dos filmes contemporâneos mais eficazes nesse sentido e até hoje impressiona. Já o filme de James Cameron segue uma proposta que impõe um ritmo mais frenético à narrativa, com bastante ação, longos tiroteios, explosões, correrias, muita carnificina, etc (Cameron estava trabalhando também no roteiro de RAMBO 2 antes de começar este aqui, talvez estivesse muito focado nesses elementos…). O mais impressionante disso é que o respeito de Cameron pelo original é fundamental para balancear o tom entre os dois filmes. ALIENS possui atmosfera de horror suficiente para permanecer ao lado de ALIEN como clássico do gênero espacial e possui ação de tirar o fôlego suficiente para garantir a proposta de Cameron.

A trama de ALIENS se passa 57 anos após os acontecimentos do primeiro filme. Ripley desperta do seu sono criogênico depois de ter sua nave encontrada pela companhia na qual trabalhava; toma conhecimento de que toda sua família morreu; mal se recupera e já é persuadida para retornar ao planeta alienígena do primeiro filme numa missão para averiguar a situação dos colonos que agora habitam o local, já que a comunicação com eles fora interrompida. Ela se faz de difícil, etc, mas acaba aceitando e desta vez terá ajuda de um grupo de fuzileiros carregando um grande poder de fogo.

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O que se segue a partir daí é suspense intenso da melhor qualidade com altas doses de ação em cenários de ficção científica e atmosfera dark inspirados nas artes de H. R. Giger e intensificados pela ótima trilha sonora de James Horner; a contagem de corpos é altíssima, muitos fuzileiros matando aliens, sendo mortos também pra dar uma balanceada, embora o número de aliens seja bem maior, até chegar a um ponto em que Sigourney Weaver questiona James Cameron sobre o filme estar muito violento, ter muitas mortes e armas cuspindo fogo, e essas baboseiras, mas a resposta do diretor já demonstrava um sujeito que não se deixa levar por frescuras de ator: “Então vamos fazer uma cena que um Alien lhe ataca e você tenta bater um papinho com ele”.

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Além de Weaver, que recebeu uma indicação ao Oscar pela sua atuação, o restante do elenco merece uma atenção à parte. Temos Michael Biehn voltando a trabalhar com o diretor, Lance Henriksen fazendo um andróide para o desespero de Ripley (quem não se lembra de Ian Holm no primeiro filme?), Bill Paxton como alívio cômico involuntário, Paul Reiser, William Hope, Jenette Goldstein e outras feras que compõem um excelente time. E é curioso como grande parte deles são subestimados atualmente.

A versão que revi e recomendo fortemente é a estendida, na qual James Cameron realiza um estudo humano muito interessante com a personagem de Sigourney Weaver e ajuda bastante na compreensão de seus atos, no instinto materno com o qual ela acolhe e protege a garotinha, única sobrevivente dos colonos, enxergando a oportunidade de ter uma família novamente, já que a verdadeira se perdeu ao longo dos 57 anos. O confronto final entre Ripley e a alien rainha toma proporções épicas visto dessa forma. A protagonista tentando proteger sua “filha” e a criatura também com um instinto de proteção pelos seus ovos.

Get away from her, you bitch!

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Sobre a rainha e seu aspecto visual impressionante, vale destacar os incríveis efeitos especiais da equipe comandada pelo genial Stan Winston. É um troço realmente assustador! Não só ela, mas todos os aliens aparentam bem mais flexibilidade, agilidade e realismo em relação ao alien solitário do primeiro filme, embora o conceito de Giger ainda permaneça intacto. É a prova de que o talento manual de um verdadeiro gênio dos efeitos especiais sempre vai superar o resultado de um CGI.

Aliens é um filme inovador nos quesitos técnicos, afirmativa que pode ser reaproveitada em qualquer texto sobre os filmes dirigido pelo Cameron. Todas as suas obras seguintes revolucionaram o cinemão americano comercial de alguma maneira, seja nos efeitos especiais, sonoros ou até mesmo na forma como contar uma história, transformando seus trabalhos em experiências únicas para o público. Este aqui não foge à regra. É um espetáculo em todos os sentidos.

Feliz 2017 parra todos!

TEASER DE BLADE RUNNER 2049 + TRAILER DE ALIEN COVENANT + ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO (1979)

Primeiro, vamos ao teaser de BLADE RUNNER 2049:

Sou grande admirador de BLADE RUNNER – um dos trabalhos visuais mais colossais e deslumbrantes da ficção científica – e todo o universo que o rodeia, curto até a bagunça das variadas versões que o filme possui… Não sei bem o que pensar, entretanto, dessa continuação. Me parece boa, respeitosa, com o Ridley Scott comandando o barco na produção. E o Dennis Villeneuve é uma escolha interessante. Não sou grande fã de alguns de seus trabalhos, como OS SUSPEITOS, mas acho SICARIO muito bom. Não vi ainda ARRIVAL, uma incursão do diretor no sci-fi, mas pelas imagens do teaser dá pra criar boa expectativa, especialmente pela presença de Deckard (Ford) em cena. Na torcida por algo legal…

Agora, o trailer de ALIEN: COVENANT:

Ok, ainda é uma incógnita pra mim. Acho o retorno do Scott ao universo ALIEN, com PROMETHEUS, uma coisa linda. Portanto, meio que confio que COVENANT esteja em boas mãos e deva sair algo instigante, claustrofóbico e tenso pra caralho, espero… Claro que não deve chegar nos pés deste aqui:

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O que esse trailer, na verdade, me causou foi vontade de rever ALIEN – O 8° PASSAGEIRO pela milésima vez. Foi o que eu fiz e resolvi republicar esse textinho que escrevi no blog antigo.

É sempre bom relembrar o surgimento dessa belezinha. Em 1974, o jovem Dan O’Bannon escrevia um roteiro de ficção científica que acabou sendo DARK STAR, dirigido pelo então marinheiro de primeira viagem, John Carpenter. Eu adoro o filme, mas O’Bannon parece não ter ficado muito satisfeito com o resultado. A trama, entre outras coisas, é sobre a tripulação de uma pequena nave atormentada por um alien feito de bola de praia… sim, é tão genial e ridículo ao mesmo tempo.

Então o sujeito resolveu pegar alguns elementos de DARK STAR, buscou inspiração de alguns outros clássicos da ficção científica, como O PLANETA DOS VAMPIROS, para escrever um novo roteiro. Além disso, O’Bannon aproveitou sua aproximação com o artista H.R. Giger, da época em que estavam preparando a adaptação de DUNA, que teria a direção de Alejandro Jodorowski, para trabalhar na concepção visual desse novo projeto. Ainda teve o dedo de Walter Hill na produção e a direção de Ridley Scott… Então qualquer coisa que saísse dessa combinação de talentos seria, no mínimo, interessante. Calhou de sair ALIEN – O 8° PASSAGEIRO, ou seja, um dos maiores clássicos do horror espacial.

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Ao contrário de vários cinéfilos que conheço, não compartilho do mesmo desprezo pelo Ridley Scott. Não é um mestre, mas quando acerta demonstra que realmente sabe o que faz. Especialmente no início de carreira o sujeito estava em estado de graça! OS DUELISTAS, BLADE RUNNER e este aqui são obras de grande vigor cinematográfico… o problema é que quando erra, demonstra uma incompetência absurda. Basta lembrar de coisas como ATÉ O LIMITE DA HONRA ou sua versão de ROBIN HOOD.

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Em ALIEN a coisa é diferente. Scott aproveita da melhor maneira possível da força visual, do primor estético concebido por Giger, dos efeitos especiais, trilha sonora, para trabalhar o tenso climão claustrofóbico dos corredores escuros e cenários fechados da nave Nostromo em um crescente suspense. Sei que todo mundo está careca de saber sobre tudo isso, mas até hoje me encanta os detalhes e escolhas que Scott faz para a construção do horror. Todas as cenas dos ataques do alien, por exemplo, se baseiam muito mais na atmosfera do que a brutalidade. Se existe um filme que transcende o sentido de horror atmosférico é este aqui.

Dessa forma temos várias cenas brilhantes, como a que o personagem de Tom Skerritt, Dallas, adentra os apertados dutos de ventilação em busca do invasor indesejado. É tudo questão de manutenção de luz, sombras e noção de como utilizar os cenários… A criatura mesmo mal aparece durante todo o filme e mesmo assim, Scott tem nas mãos o suficiente para fazer a platéia gelar a espinha. Até hoje, já perdi as contas de quantas vezes já assisti ao filme, sei cada cena de cor e ainda assim me mantém vidrado. De fazer inveja a muito filmezinho de terror da atualidade.

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Algumas sequências são célebres. A visita de parte da tripulação à nave alienígena abandonada cheio dos famigerados ovos estranhos e o pobre John Hurt curioso botando a cara a “ver melhor”; Ian Holm se revelando após a violenta pancada na cabeça desferida por Yaphet Kotto; Sigourney Weaver de calcinha se preparando para a peleja final; e claro, o sensacional parto de John Hurt, dando à luz a uma lombriga de dentes afiados. Sem contar o aspecto incrível do monstro espacial, que me deixava arrepiado quando era criança e até hoje impressiona.