INNOCENT BLOOD (1992)

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É uma pena que o LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES seja o único filme de horror do John Landis a ser mais lembrado. Até quem não faz ideia de quem seja o diretor geralmente conhece, ou pelo menos ouviu falar do filme. Quero dizer, é óbvio que possui todos os méritos, mas acho injusto hoje ninguém lembrar de INNOCENT BLOOD. Claro, é compreensível quando se trata de uma produção que foi muito mal nas bilheterias, como é o caso aqui, mas não deixa de ser um dos melhores trabalhos do Landis.

Temos aqui um filme de vampiro de premissa original, bem dirigido, com elenco finíssimo, efeitos especiais práticos, sangrentos e ótima maquiagem. Sem falar na trilha sonora jazzística que encaixa uns Frank Sinatra… E mesmo assim, veio o fracasso. Alguns distribuidores ainda tentaram desesperadamente aproveitar o sucesso do outro filme do Landis para atrair público, como na Austrália, onde o filme foi lançado como A FRENCH VAMPIRE IN AMERICA.

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Esse lance de títulos é algo sempre divertido. No Brasil foi chamado de INOCENTE MORDIDA. Até aí tudo bem, nada de mais. Só não chega aos pés dos nossos amigos de Portugal, onde foi lançado com um hilário NÃO HÁ PESCOÇO QUE AGUENTE, ou os nossos hermanos argentinos que colocaram TRANSILVANIA MI AMOR! 😀

Mas o filme realmente tem uma francesa, a Anne Parillaud (NIKITA), que interpreta Marie, uma bela e sexy vampira que só mata gente má do mundo do crime para saciar sua sede de sangue. Numa noite qualquer, ela arranca a garganta de um gangster italiano (Chazz Palminteri) e acaba se envolvendo com a mafia de Nova York. O grande Robert Loggia vive Sallie “The Shark”, o chefão do bando, que também acaba se tornando vítima de Marie. Só que depois de mordê-lo, nunca tem chance de matá-lo em definitivo. Depois, Marie descobre que Sallie se transformou num vampiro e agora cria um exército de mordedores de pescoço na mafia de Nova York! No meio dessa confusão, Anthony LaPaglia desempenha o papel de um policial infiltrado no grupo de Sallie, tendo que lidar com a bela vampira e com a máfia de chupadores de sangue!

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A cena inicial de INNOCENT BLOOD mostra Anne Parillaud nua em pêlo, belissimamente iluminada. Claro, uma das melhores coisas do filme é o estilo de John Landis, um sujeito que nunca precisou demonstrar virtuosismos com a câmera, mas sabe compor enquadramentos com muito talento e é um mestre da mise en scène. O filme é um luxo nesse sentido e um dos melhores trabalhos de direção de Landis, junto com LOBISOMEM AMERICANO, OS IRMÃOS CARA DE PAU e UM ROMANCE PERIGOSO. Mesmo o lado cômico, que é sempre muito forte no trabalho Landis, funciona muito bem aqui.

Depois de dois terços do filme, o ritmo diminui um bocado, mas sempre com um detalhe ou outro para manter o interesse. E com o elenco que temos aqui, fica difícil desgrudar os olhos da tela. Parillaud está deslumbrante, mas quem rouba a cena é mesmo Robert Loggia. O elenco ainda conta com David Proval, Tony Sirico, Kim Coates, Luis Guzman e um hilário Don Rickles. E claro, uma das marcas registradas da Landis são as pequenas aparições de figuras cultuadas ou outros diretores em seus filmes, e aqui temos Frank Oz, Dario Argento, Sam Raimi em momentos bem divertidos. Também Tom Savini, Forrest J. Ackerman e até Linnea Quigley!

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Outra marca registrada de Landis é que não importa o gênero que seja o filme, se é comédia, ação, horror, enfim, qualquer trabalho de John Landis você pode esperar uma televisão ligada passando uma cena de um clássico do horror e monstros.

Não dá pra deixar de destacar também os maravilhosos efeitos especiais. Um dos melhores que eu já vi dos anos 90. Os efeitos de maquiagem de Steve Johnson são simplesmente incríveis e há uma cena quando um dos personagens se queima do sol que é deslumbrante – está quase no mesmo nível da transformação do lobisomem em UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES. O filme também não economiza em sangue e gore, e os fãs desse tipo de coisa não precisam se preocupar com isso. Já eu curto mais o lado erótico que Landis conseguia incluir, mesmo num filme mainstream.

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Uma curiosidade, o filme inicialmente seria dirigido pelo grande Jack Sholder (diretor subestimadíssimo), e teria Lara Flynn Boyle e Dennis Hopper. Quando Sholder pulou fora do projeto, Landis assumiu o lugar e substituiu, seja lá por qual motivo, os dois atores por Parillaud e Loggia. E apesar de amar o Loggia por aqui, daria tudo para ver uma versão surtada de um vampiro mafioso vivido por Dennis Hopper. Teria sido lindo!

Mas do jeitinho que é, mesmo com seus problemas, INNOCENT BLOOD ainda é um dos meus filmes de vampiros favoritos. Está lá junto com alguns exemplares da Hammer, o DRACULA de John Badham, MARTIN de George Romero, THE HUNGER de Tony Scott, DRÁCULA do Coppola e, claro, BLOOD FOR DRACULA, de Paul Morrissey.

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DVD REVIEW: O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO (1956); CPC UMES FILMES

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Grigoriy Chukhray ganharia certa fama internacional em 1959 pelo clássico A BALADA DE UM SOLDADO, seu segundo trabalho. Mas já na sua estreia, com O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO, demonstra um talento ímpar pelos lados do cinema soviético, não apenas como esteta – suas composições visuais são simplesmente extraordinárias – mas também como alguém que entende de emoções humanas. O filme é sobre um romance envolvente e ideologicamente complicado entre duas figuras divididas pela guerra civil russa: uma atiradora de elite do exército vermelho, Maria (Izolda Izvitskaya), e um oficial do exército branco, o tenente aristocrata Vadim (Oleg Strizhenov), que fora capturado pelos primeiros.

Baseado nos escritos de Boris Lavrenyev, o “quadragésimo primeiro” do título refere-se ao número das vítimas deflagradas pelo rifle de Maria. Na verdade, ela matou quarenta e errou o tiro seguinte… Na trama, ela faz parte de unidade derrotada do Exército Vermelho, que vaga em retirada do deserto de Karakum onde, em determinado momento, captura Vadim, que por um acaso sobrevive à tal quadragésima primeira bala de Maria.

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Vadim é um prisioneiro importante. Carrega uma mensagem oral secreta destinada a um general do Exército Branco, então os Vermelhos o mantêm vivo, colocando-o sob a guarda de Maria. Quando finalmente chegam ao Mar de Aral, Maria e outros dois soldados são confiados para levar Vadim num pequeno barco até a sede em Kazaly. Mas o tempo tormentoso vira o barco e apenas Maria e Vadim sobrevivem, náufragos em uma ilha deserta. E o que seria uma situação de extremo desespero, acaba possibilitando o desabrochar do afeto mútuo e proibido que os consumia ao longo da jornada.

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Uma situação que os aproxima, não como inimigos, mas como duas almas apaixonadas, num parágrafo cintilante de uma vida de guerra e violência. Eles compartilham o tempo mais felizes de suas vidas na ilha, apesar da disparidade ideológica que vem à tona em alguns momentos, algo que os coloca em conflito e que devem ajustar e reconciliar por causa do amor.

Considerando o período em que O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO foi realizado, é interessante perceber como Chukhray vai um bocado contra a lógica da propaganda soviética vigente, humanizando a imagem de um oficial do Exército Branco, inspirando o público à simpatizar seu afeto genuíno por uma guerreira do exército vermelho. O desfecho até pode ser entendido como uma façanha heroica da lealdade aos Bolcheviques, quando um barco se aproxima para resgatá-los e Maria toma uma atitude espontânea que elimina qualquer possibilidade de final feliz quando a verdadeira identidade do barco é revelada. Mas não dá para descartar a ideia do fator prejudicial que é seguir um código radical com fanatismo. Na verdade, ao invés de escolher lados, o objeto de repúdio de Chukhray é a própria guerra, um ato diabólico disfarçado de patriotismo com resultados desastrosos.

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O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO foi lançado em DVD no Brasil, numa versão remasterizada belíssima, pela distribuidora CPC UMES filmes e está disponível para compra em sua loja virtual e nas melhores casas do ramo. A mesma distribuidora já lançou por aqui A VIDA É MARAVILHOSA, também do mesmo diretor, e já comentado aqui no blog. E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos. Um acervo obrigatório que vale a pena comprar.

DVD REVIEW: PARAÍSO (2016); A2 FILMES

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A A2 Filmes acerta mais uma vez com o lançamento, no mês passado, de PARAÍSO, de Andrei Konchalovsky. Para quem não conhece, o sujeito possui uma carreira sólida, especialmente na Europa, mas teve breve passagem em Hollywood nos anos 80. Dentre alguns trabalhos, destaco dois que me marcaram mais. Primeiro, um dos melhores filmes produzidos pela Cannon Films, o maravilhoso EXPRESSO PARA O INFERNO, com Jon Voight e Eric Roberts. O segundo é o filme que reuniu os astros de ação Sylvester Stallone e Kurt Russell, TANGO E CASH. Só por esses filmes na conta, o cara já tem meu respeito.

Mas nem todo diretor europeu consegue se firmar em Hollywood, e Konchalovsky voltou para Rússia nos anos 90, onde continuou realizando filmes, mas sem receber tanto destaque. Até que veio PARAÍSO, no ano passado, e também a consagração inesperada, com o prêmio de melhor diretor no Festival de Veneza.

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PARAÍSO é uma ambiciosa tentativa de ilustrar as atrocidades do Holocausto. São três histórias de personagens distintos que se cruzam no período da Segunda Guerra. Temos o policial burguês Jules (Christian Duquesne), que atende as ordens da Gestapo numa Paris ocupada; um jovem oficial da SS, Helmut (Christian Clauss), que fiscaliza campos de concentração para descobrir falcatruas e corrupção de oficiais nazistas; e à caráter de ligação entre estas duas partes, temos a nobre russa Olga (Julia Vysotskaya), que é pega enquanto abrigava dois meninos judeus e, mais tarde, enviada para o campo de concentração, onde é reconhecida por Helmut, com quem teve um caso passageiro numas férias na Itália.

Konchalowski dosa bem o tom de tragédia e horror da guerra com uma direção segura e bem elaborada esteticamente, com enquadramentos bem compostos no quadro 4:3, formato pelo qual o filme é capturado. E com um dos melhores usos de preto e branco que vi nos últimos anos no cinema recente. Além de saber manter a distância entre a lente e personagens, criando momentos em que a câmera espreita de longe, nunca deixando o filme cair num dramalhão forçado.

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Se por esses detalhes o filme ganha força – e percebe-se porque deram o prêmio para o diretor – por outro, essa força é frequentemente quebrada com o recurso brechtiniano de colocar os três personagens principais verbalizando seus pensamentos interiores enquanto são entrevistados separadamente em uma sala.

Aos poucos, percebe-se o contexto em que essas entrevistas se dão, um conceito até interessante, mas que Konchalovsky esgota até o ponto de tornar a coisa toda numa distração que quebra um bocado o ritmo, impede de criar um vínculo mais forte com os personagens. Mas não chega a ser um problema grave, até porque os momentos convencionais seguram bem o filme com uma história forte, bem contada e com grandes atuações. Como experiência estética, então, é uma obra-prima.

PARAÍSO é um belo filme, lançado no Brasil, como já disse e reforço, pela A2 Filmes, através do selo Mares. Você encontra disponível em DVD nas locadoras e nas melhores lojas do ramo.

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