THE PHANTOM OF SOHO (1964)

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Ontem me deparei com este petardo. THE PHANTOM OF SOHO faz parte do ciclo de filmes policial e mistério adaptados das obras do prolífico escritor britânico Edgar Wallace. E quem gostava bastante de realizar essas adaptações eram os alemães, no chamado Krimi, um subgênero muito popular, principalmente na década 60, no país do chucrute. Uma curiosidade que demonstra como esses alemães eram tão picaretas quanto os italianos ou os turcos na divulgação de seus filmes, é que na real THE PHANTOM não foi baseado em Wallace, mas sim no filho dele, o também escritor Bryan Edgar Wallace, o que permitia o uso do famoso nome “Edgar Wallace” sem se envolver em qualquer problema de direitos autorais…

Eu, particularmente, não sou nenhum especialista no estilo Krimi e esta foi a minha primeira aventura no subgênero. Só pra ter uma noção da minha ignorância, segundo consta nos altos o grandes Krimi alemães baseados em Edgar Wallace foram feitos pelos estúdios Rialto. Como não fazia ideia disso, acabei vendo uma produção do estúdio concorrente, a CCC… Sem contar o fato de não ser nem baseado no verdadeiro Wallace!!! Ou seja, tudo caminhava para um começo com o pé esquerdo.

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Mas seja lá por quais motivos, quis o destino que eu tivesse sorte e THE PHANTOM OF SOHO foi uma agradavel e divertida surpresa. O filme se passa numa esfumaçada Londres de estúdio e, como quase todas as histórias de mistérios, cheia de tramas enroladas e um amontoado de personagens, pode ser resumida em uma idéia muito simples: alguém está matando pessoas dentro e nos arredores de um cabaré no distrito de Soho em Londres, e a Scotland Yard precisa pegar o assassino.

Descobre-se, em determinado momento, que todos os assassinatos estão relacionados com o estranho naufrágio de um iate alguns anos antes. O caso atrai até mesmo a atenção de uma famosa escritora de livros policiais, Clarinda (Barbara Rütting), que passa a meter o bedelho ansiosa para mostrar que pode resolver o crime antes da polícia. Mas o protagonista é o competente inspetor Patton (Dieter Borsche), que junto com sargento Hallan, o alívio cômico do filme, tenta desvendar os crimes, visitando locais arriscados e interrogando todas figuras bizarras que entram em seus caminhos, antes que o assassino, chamado de Phantom, faça mais uma vítima.

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O enredo de THE PHANTOM pode não ser dos mais originais, mas até que é envolvente pelos ambientes atmosféricos e personagens que aparecem na trama. Me lembra um bocado os gialli italianos em alguns momentos, especialmente nas sequências de assassinato, onde vemos através do ponto de vista do assassino e só aparecem suas mãos com luvas empunhando uma faca. Na verdade, o que realmente chama a atenção é esse tipo de sacada visual que existe aqui aos montes e todo o trabalho estético do filme.

Franz Josef Gottlieb é o nome do diretor. Nos anos 70 descambou para produções, digamos, mais calientes… Nada contra, mas aqui demonstra total habilidade na direção, com bom trabalho de câmera, enquadramentos bem compostos, angulos tortos, bom uso do preto e branco. Aliás, a própria fotografia, resquício da estética do expressionismo alemão, é um deleite… Quero ver outras coisas do Gottlieb. Obviamente quero conferir certos filmes que fez na década seguinte… Mas curti bastante essa minha iniciação ao universo do Krimi alemão com THE PHANTOM OF SOHO, um desses subgêneros que deve valer a pena uma peregrinação de vez em quando. E que na próxima sejam ao menos baseados no verdadeiro Edgar Wallace.

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HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS (1988)

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Começando as atividades de 2017 com um dos filmes que me fez apaixonar pelo cinema B de uns caras como Jim Wynorski, Fred Olen Ray, Charles Band e outras figuras dessa mesma laia: HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS, de Fred Olen Ray! Um clássico do cinema exploitation oitentista divertidíssimo, curto e cheio de mulher pelada, filmado em cinco dias com um orçamento abaixo dos 50 mil dólares.

O filme já começa de forma sensacional, com esse aviso:

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Depois, temos a majestosa Michelle Bauer fazendo um strip tease e, totalmente nua, destroça um sujeito com uma motosserra! Os efeitos gore, se é que podemos chamar assim, são tão ridiculamente baratos que não podem ser levados a sério… Aliás, o filme inteiro não deve ser levado assim.

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Na trama, temos Jack Chandler (Jay Richardson), um detetive obviamente inspirado em Raymond Chandler, com direito a narração de Film Noir, cansado do mundo, sem dinheiro, fodido trabalha na procura de uma moça desaparecida, Samantha (a lindeza Linnea Quigley), nos arredores de Los Angeles.

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Enquanto ele segue as pistas da moça, a polícia local vem investigando uma bizarra série de assassinatos cujas vítimas são feitas picadinho por motosserras, como é mostrado na cena de abertura… Entre uma investigação e outra, Jack encontra um paralelo entre os assassinatos com a sua garota desaparecida, o que o leva a Mercedes, a prostituta interpretada por Bauer. Jack arranja um encontro com Mercedes num bar de strip tease e ao mesmo tempo em que investe na prostituta ele vê Samantha girando no palco. Pouco depois desta revelação Jack cai inconsciente por causa de uma droga que Mercedes colocou em sua bebida.

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Jack desperta para encontrar-se numa situação bem bizarra, amarrado e na presença de Mercedes, Samantha e um terceiro sujeito chamado de “The Master” numa espécie de seita misteriosa. E o filme vai ficando cada vez melhor. “The Master” (que é encarnado pelo próprio Leatherface do original O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, Gunnar Hansen) explica um bocado sobre a as propriedades sagradas da motosserra. WTF!!!

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O lance é que Samantha foi parar nesse culto da motosserra formado por prostitutas e stripers. O tal Mestre explica que a motosserra é a ligação cósmica que une todas as coisas no universo, num culto secreto que se originou há muito tempo no antigo Egito… Naturalmente! haha! Prestes a ser sacrificado e virar picadinho, Jack consegue escapar quando uma das serras fica sem gasolina e foge com Samantha.

De volta a seu escritório, os dois arranjam tempo para um pequeno romance, que serve também para preencher o tempo do filme, que já é breve demais. Logo, Samantha e Jack descobrem a localização secreta do templo cerimonial do culto de motosserra (ajuda muito que haja um cartaz de papelão apontando o caminho) e antes que você perceba, terá testemunhado um duelo de motosserras e o espetáculo cultural que é A Dança Virgem das Serras Elétricas Duplas!!!

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Dá pra perceber que o diretor e roteirista Fred Olen Ray não tem absolutamente nenhuma pretensão com HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS, a não ser nos divertir com essa historinha besta, uma boa dose de humor pastelão e de um elenco feminino lascivo que não tem receio de mostrar alguns pares de peitos, que é o grande e verdadeiro atrativo do filme. Os fãs das rainhas do VHS, como Michelle Bauer e Linnea Quigley, vão desfrutar bastante disso aqui. Principalmente quando estão com pouca roupa empunhando motosserras… Um fetiche estranho, mas que o filme entrega com perfeição.

FÚRIA MORTAL (Out for Justice, 1991)

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O ponto principal que favorece OUT OF JUSTCE é ter um dos grandes mestres do cinema americano de ação conduzindo a bagaça. Estou falando do John Flynn, diretor subestimado e esquecido de filmaços como THE OUTFIT, ROLLING THUNDER, BEST SELLER e CONDENAÇÃO BRUTAL, autênticas aulas de cinema que devem valer muito mais que alguns semestres de uma faculdade de cinema em qualquer instituição no Brasil. Aqui, acredite ou não, é a mesma coisa. Pode-se considerar um filme menor do diretor, que já trabalhou com Robert Ryan, Robert Duvall, Tommy Lee Jones, James Woods e vários outros, mas o pulso firme para orquestrar alguns momentos são dignos de antologia.

Sendo assim, OUT OF JUSTICE é o tipo de filme que seria bom independente de quem fosse o protagonista, especialmente com a quantidade de bons astros de ação do período (fico pensando seria se fosse estrelado por um Bruce Willis, Stallone ou até um Wesley Snipes), mas calhou de ser o Seagal. E afirmo isso mesmo correndo o risco de alguém contestar: “mas outro ator não saberia lutar como ele”. Ok, mas quantos outros filmes de ação têm ótimas sequências de pancadaria sem que os atores tenham, sequer, noção de como aplicar um golpe? O Seagal como protagonista é apenas um brinde pra quem gosta de artes marciais.

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A simplicidade do enredo sem muita frescura também contribui para a grandeza da obra. Claro que aquelas mensagens de bom moço do Seagal prevalecem algumas vezes, jogando na cara como ele é um sujeito integro, ético e bondoso com os animais, mesmo interpretando um policial casca-grossa em busca de vingança. Mas nada que perturbe a paz de quem está assistindo (contanto que ele não deixe de matar os caras maus com tiro na cara, não vejo problema algum). Seagal interpreta o policial nova-iorquino, descendente de italianos, Gino Felino (putz, mas que nomezinho cretino) que após a morte de seu parceiro, Bobby, resolve fazer justiça com as próprias mãos (pedindo ao seu superior apenas uma espingarda e um tempinho pra realizar a tarefa).

O cenário da jornada é o submundo do Brooklyn. Gino cresceu no local, rodeado de gangsters, e conhece todo mundo, inclusive o assassino de seu parceiro. O facínora é Richie, interpretado por William Forsythe com a máxima personificação do mal. O sujeito é tão impulsivo, que logo após matar Bobby à sangue frio, atira na cabeça de uma senhora em pleno trânsito lotado, pelo simples motivo que o carro dela estava congestionando a via… E se para o sucesso de um bom filme ação um dos elementos é a criação de um bom vilão, então temos aqui um exemplar de primeira qualidade. E Forsythe desempenha seu ofício com extrema perfeição.

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Só que Richie não conta com a ajuda de ninguém nas ruas, a não ser alguns capangas. O sujeito é drogado, maluco e quer entrar para o crime organizado, mas com as atitudes que eu citei ali em cima e até a suposição da policia de que já esteja ligado ao crime organizado, faz com que a máfia queira sua cabeça numa bandeja. Ainda há a própria policia comum que quer prendê-lo pelos crimes, com toda burocracia que envolve os processos de prisão, algo que Gino não quer de jeito algum.

Gino possui, portanto, dois problemas em sua missão:
1° Problema: Encontrar Richie antes da máfia e da policia, para que possa aplicar sua vingança com paz e tranquilidade, mas Richie encontra-se desaparecido e é meio complicado encontrá-lo. Pelo menos para quem está procurando, porque o sujeito está sempre nos lugares mais óbvios.
2° Problema: O roteiro ainda acrescenta novas idéias para deixar a jornada de Gino mais complexos que um um filme do Tarkovsky. Gino cresceu no mesmo bairro de Richie e considera o pai deste seu segundo pai, e isso gera um conflito psicológico que bota o herói para esquentar os miolos, embora Steven Seagal, que é ator de alto nível, consiga manter a pose sem modificar a expressão (talvez algum músculo da parte inferior do queixo tenha contraído com mais força quando a mãe de Ritchie pede para não matar o seu filho).

Atuação por atuação, vamos ficar com o Forsythe que entra para uma galeria de vilões mais malvados e interessantes do cinema dos anos 90. Forsythe é um puta ator expressivo e até hoje rouba a cena em qualquer filme ou série que aparece, nem que seja pra fazer uma pontinha. Sem dúvida alguma seu Ritchie merece um destaque.

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Assim como o Seagal não chega nem aos pés de Fosythe em termos de construção dramática, pelo menos se sai bem nas cenas de luta. Ah, nisso o cara é demais! E o John Flynn, magistral, se aproveita disso de forma magnífica. Especialmente em duas cenas: a primeira é uma perseguição de carro em alta velocidade que desemboca dentro de um açougue onde Gino arrebenta uns cinco sujeitos utilizando objetos dos mais inusitados – dos quais deve ter aprendido no aprofundamento de sua arte marcial no Japão – uma linguiça, por exemplo. Outro momento espetacular é a da briga num bar com as mesas de sinuca. Simplesmente A MELHOR sequências de luta que o Seagal protagonizou em toda a sua filmografia.

Não precisa nem ser fã de carteirinha de Steven Seagal para curtir OUT OF JUSTICE. Se você aprecia um bom filme de ação policial, então este aqui já está qualificado. Com uma história simples, curta, mas muita diversão garantida, boa dose de ação e violência, Seagal distribuindo tiros, porradas e frases politicamente corretas, além de contar com direção de John Flynn, é indiscutivelmente um filme imperdível. Se tivesse que eleger o melhor filme de Steven Seagal, sem dúvida seria este aqui.

IN THE LINE OF DUTY 4 (1989) & TIGER CAGE 2 (1990)

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por GABRIEL LISBOA

Quando me propus a escrever sobre TIGER CAGE 2, imaginei que já havia visto o filme há bastante tempo, que seria bom revê-lo e de quebra ver o primeiro. Como o Luiz Alexandre disse em sua crítica, o segundo talvez seja mais lembrado mesmo entre os fãs do estilo e eu achei que era o que havia gravado com o Nero num DVD há uma década atrás. Mas quando começo a ver o primeiro TIGER CAGE percebo que não era este o filme que conhecia e fiquei perdido. Uma grata surpresa até. O que descobri depois é que Yuen Woo Ping, Donnie Yen e Michael Woods (o diretor e os dois únicos atores recorrentes) realizaram uma espécie de trilogia sem nenhuma relação entre os filmes nos anos de 88, 89 e 90 com TIGER CAGE, IN THE LINE OF DUTY 4 e TIGER CAGE 2 (que do primeiro só leva o nome para a distribuição internacional e tem o título literal de “DIRTY MONEY LAUNDERING). As três histórias, filmadas no auge da era de ouro dos filmes ação de Hong Kong, se situam no mundo caótico da virada dos anos 80 para os 90 de policiais corruptos, lavagem de dinheiro e contrabando de pessoas e drogas, mas o tom dos filmes é bem diferente um do outro.

O primeiro é um filme mais próximo do heroic bloodshed consagrado por John Woo, estilo de tiroteios elaborados, câmera lenta, amizade romantizada, códigos de honra e redenção pelo sangue. É o mais ácido dos três filmes, com um final de encher o coração de raiva até o momento de ver o vilão, interpretado por Simon Yan, levando uma chave de metal de guardar bicicletas no peito e na cara. O filme é bem brutal e até os policiais abusam da violência para conseguir resolver a confusão de traição e corrupção instalada dentro do departamento de narcóticos. Até quando Carol Cheng luta numa fábrica com uma capanga gwailo (expressão para os personagens gringos nos filmes de HK), a cena termina com Carol enforcando a vilã loira com arame enfarpado. Minha cena favorita é com Jacky Cheung e Michael Woods tapando o nariz enquanto lutam para não respirar o gás de cozinha que toma o apartamento de um dos policiais corruptos. Um pouco mais exagerada e cômica que o resto do filme, pode ser vista como um ponto fraco para quem não está acostumado com a mistura de gêneros dos filmes de ação comum no estilo da época e que se acentua bastante nos dois filmes seguintes. Outro coisa interessante é o tema recorrente da fuga de Hong Kong, um desejo dos policiais, bandidos e até do trabalhador Luk de IN THE LINE OF DUTY 4, que tem como bem mais precioso seu visto americano.

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Pelo que eu li no livro de Hammond e Wilkins, Sex and Zen & A Bullet in the Head, isto fato se deve ao medo que muitos tinham da indexação do território de Hong Kong à China Continental, sob regime comunista, marcada para o ano de 1997. Hong Kong era uma ilha de domínio inglês desde o fim da Guerra do Ópio em 1842, com um pacto de controle de 99 anos sobre o território em 1898. Hong Kong depois se expandiu para algumas ilhas vizinhas e um pedaço peninsular se transformando numa das cidades mais importantes para o comércio do Pacífico, sempre a sombra do gigante comunista ao seu lado. Mesmo o acordo firmado em 1984 entre Reino Unido e a República Popular da China, garantindo que Hong Kong se tornaria uma região administrativa especial, mantendo o sistema capitalista, não foi suficiente para que muitos artistas, como produtores e diretores, se acalmassem com a mudança de domínio, ainda mas com o massacre na Praça da Paz Celestial em 1989. Tudo isso acrescentava à temática de tensão e caos presente em alguns filmes de crime do período. Parece pra mim que “contribuição” estrangeira era vista com desconfiança, como se a região estivesse sendo entregue de bandeja para o regime comunista depois de anos de exploração por americanos e ingleses (vide o corpo sobre a bandeira americana no fim de ITLOD 4).

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Voltando aos filmes de Yuen Woo Ping, que dirigiu em 1989 IN THE LINE OF DUTY 4 com parte da equipe do trabalho anterior e que não segue uma narrativa contínua com outros filmes que ganharam o mesmo nome. Os dois primeiros filmes da série na verdade são YES, MADAM e ROYAL WARRIORS, estrelados por Michelle Yeoh. O nome IN THE LINE OF DUTY começa já do número 3 quando o papel que une os filmes, o de uma policial durona passou para Cynthia Khan (a nova aposta da produtora D&B depois que Michelle se casou e abandonou o cinema até seu divórcio e retorno triunfante com SUPERCOP de 93). Na trama do filme Luk (interpretado por Yuen Yat-Choh que lembra o Ken Jeong de SE BEBER NÃO CASE) é um trabalhador nas docas de Seattle e testemunha um crime envolvendo agentes da CIA com tráfico de drogas. Um dos policiais da equipe de Cynthia Khan, trabalhando com os americanos, entrega ao estivador os negativos de fotografias que podem incriminar os envolvidos, mas no meio da confusão Luk acaba perdendo a evidencia. Ele fica então num fogo cruzado entre a polícia, que acha que ele está envolvido no esquema e os bandidos que querem recuperar os negativos. Até a metade do filme é bem interessante acompanhar o personagem de Luk, mas depois ele acaba sumindo e foco fica divido entre Donnie Yen e Cynthia Khan tentando desbaratinar toda a confusão gerada pelo negativo desaparecido e tentando descobrir quem é o agente duplo que está frustrando os planos dos dois para prender os traficantes.

O engraçado é que fica difícil entender qual é o método de procedimento policial que eles usam porque sempre sabem onde os bandidos estão (e vice-versa) e resolvem tudo na porrada. Não que isso seja um defeito é claro é só que eu realmente estava interessado no personagem de Luk, que dava um bom equilíbrio para Donnie e Cynthia, os durões. Eu gosto das situações particulares dos filmes de Hong Kong em que é colocada uma situação dramática ou engraçada, exagerada ou pouco plausível dentro do contexto de um filme teoricamente mais sério de crime. Há uma cena em que Luk pede para que possa ver sua mãe antes de ser extraditado à Inspetora Madam Yeung (Cynthia Khan). Ela aceita o pedido mas chegando ao apartamento da senhora, Donnie (sempre o “babacão” impulsivo nos três filmes) algema Luk à Madam Yeung e os dois têm que fingir que são namorados para não deixar que a mãe saiba que o filho estava sendo preso. Eu leio algumas críticas onde o pessoal fala que esse tipo de cena é besta e que quebra com ritmo de ação frenético dos filmes. Eu mesmo quando mais novo poderia até achar isso também, mas o mais divertido de ver um filme oriental, seja chinês ou japonês é ter contato com uma outra maneira de se contar uma história, ver como outro cinema vê as relações entre os personagens. Mesmo que seja mais sentimentalista. E eu consigo me envolver e abrir um sorriso sincero, talvez por esses momentos serem puros e ingênuos.

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ITLOD 4 é o filme mais redondinho dos três. É um filme de ação mais voltado para as lutas, mas com um tiroteio e um momento cômico aqui e ali. Um filme mais previsível e talvez seja por isso que foi o que eu menos gostei. Mas é o filme que pode facilmente agradar qualquer fã de Jackie Chan já de cara, alguém menos propenso a entrar nos exageros de outros filmes (como GOD OF GAMBLERS, o campeão da mistura de gêneros para mim até hoje). As lutas são muito boas com destaque para a luta de Cynthia Khan e Fairlie Ruth Kordick (atriz gwalio que nem aparece nos créditos) numa escada de concreto e depois num poço de elevador, sempre com o risco de cair e se esborrachar no chão. Para entrar numa lista de melhores confrontos femininos de todos os tempos. Já a luta de Donnie Yen contra Michael Woods neste filme é a mais demorada dentre os três filmes, mas não chegar a ser excelente. Engraçado como me chamou a atenção alguns contornos homoeróticos, com Woods segurando a mão de Yen com seu peitoral ou admirando o bíceps do adversário enquanto este lhe dá um mata-leão. É comum um certo despir de roupas em cenas de lutas em filmes de ação. O protagonista muitas vezes acaba sem camisa, com seu próprio adversário por lhe arrancar a roupa. Algo recorrente mas pouco explorado em termos de erotismo mais óbvio como acontece com beldades de seios fartos. Talvez o ator que mais use isso a seu favor seja o Van Damme que adora aparecer de bunda de fora em seus filmes.

O filme tem um final satisfatório mas o interessante é que uma legenda conta o epilogo da história depois que a luta final termina, um jeito de amarrar as pontas soltas deixadas pelo filme. Algo que o filme seguinte não se preocupa muito. Se IN THE LINE OF DUTY 4 era mais voltado para a correria e pouco desenvolvimento da história, TIGER CAGE 2 volta a centrar mais nos personagens, mas dessa vez sem “maldade” do primeiro, num tom bem cômico e por isso a trama fica em segundo plano. Saem os policiais corruptos mas continua o mote de alguém-certo-na-hora-errada para se livrar tanto da polícia quanto da triade. No filme Rosamund Kwan e Donnie Yen presenciam um confronto entre duas gangues com a tentativa de roubo de uma maleta cheia de dinheiro e depois ainda são suspeitos de um assassinato. O interessante é que a personagem de Kwan, Mandy, é advogada responsável pelo recente divórcio de Donnie, agora um ex-policial mas que mais uma vez interpreta um redimable asshole (aquele personagem ignorante que vai dando valor as pessoas a sua volta até o fim do filme). É de se esperar então que os dois comecem se odiando para depois se apaixonar. Mas no meio dos dois aparece David Wu para transformar a relação num triângulo amoroso. David era responsável pela segurança da maleta e no começa tenta tirar a informação dos dois, que não sabem onde está o dinheiro, para depois se tornar um amigo e se sacrificar pelo casal.

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A cena em que os três estão bêbados e apaixonados num karaokê é de uma breguice sem tamanho mas que para mim funciona. Talvez porque tenho o coração mole para esse tipo de coisa, mas também tenho que dizer que essa relação dos personagens é muito melhor do que qualquer filme do Jackie Chan, que nunca convence numa cena romântica (em Gorgeous talvez?). Não só esses três personagens são bacanas mas ainda temos Cynthia Khan voltando com a Inspetora Yeung em duas pontas breves (eufemismo para personagem aleatório na trama), Gary Chow como o amigo coringa de Donnie e a galeria de vilões composta por Robin “Mortal Kombat” Shou, John Salvitti (voltando também de ITLOD 4) e Michael Woods, todos bem caricatos. Como já havia dito é o mais cômico dos três mas isso não significa pouca pancadaria e violência. Detalhe para a tortura envolvendo uma bicicleta ergométrica raspando o peito de Donnie (a tortura do enforcamento na pedra de gelo de ITLOD 4 também era bem criativa).

As cenas de ação no geral são boas mas a cena de luta mais memorável do filme (e talvez de toda a trilogia) seja a luta de espadas gigantes na fábrica-de-vapor-abandonada entre Donnie e John Salvitti. Não que seja tecnicamente incrível ou muito criativa, mas tem algo em toda aquela fotografia berrante, fumaça, arames, grades e um ventilador aleatório que criam uma áurea mágica de filme de pancadaria de início dos anos 90. Posso dizer que, particularmente, até prefiro o confronto final na fábrica-de-caixas-empilhadas, que começa com Donnie e Tak saindo do maleiro de um ônibus, os dois com uma pistola em cada mão alvejando capangas, até o confronto final de Donnie e Shou. Mais uma vez a luta de Donnie e Michael Woods, que acontece no ínterim dessas duas cenas que comentei agora, mais uma vez não é nada espetacular e me desculpem os fãs, agora posso afirmar que é um ator tão ruim ao ponto de isso atrapalhar a luta em si! Mas Donnie e Michael eram bons amigos e ainda lutaram mais duas vezes no cinema e amizade é o que importa. Como os três filmes são tão diferentes entre si é difícil até fazer um balanço da evolução de Donnie e Yuen Woo Ping no gênero de ação mista de tiros e socos. No fim fica a sensação de como foi mágica essa época de filmes repletos de ação física, trabalhos de dublês impressionantes. Deveria ter visto mais destes filmes em vez de inventar moda e querer alugar O PACIENTE INGLÊS com 15 anos de idade…

Gabriel Lisboa, além de eventualmente colaborar por aqui, edita o excelente blog Cine Bigode.