MOSCOU CONTRA 007 (From Russia with Love, 1963)

from-russia-with-love-191

Escrevi sobre 007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO ano passado e já me bateu saudade do espião britânico, encarnado aqui ainda por Sean Connery. MOSCOU CONTRA 007, o segundo capítulo da série, novamente dirigido pelo Terence Young, é um dos filmes do agente secreto que eu menos me recordava. Tirando a luta entre Bond e um assassino russo chamado Grant (Robert Shawn) dentro de um vagão de trem, eu tinha pouca coisa em mente da trama, dos personagens, de cenas… não lembrava de mais porra nenhuma! A revisão que fiz recentemente valeu, portanto, por dois motivos: primeiro pra redescobrí-lo, obviamente. Segundo, para notar que é um dos meus filmes favoritos de toda a série de James Bond.

MOSCOU CONTRA 007  é sério, inteligente, dramático, com a ação mais concentrada na caracterização e no clima de suspense, bem ao estilo mais clássico dos filmes de espionagem. Em comparação com o episódio anterior, é uma melhoria gigantesca sobre DR NO, com melhor ritmo e uma trama bem mais elaborada e interessante, na qual Bond tem a missão de capturar uma máquina de decodificação russa, sem saber que está sendo manipulado pela famigerada SPECTRE para causar um mal estar entre os governos britânicos e Russos e, em suma, foder os dois países.

from-russia-with-love-205

Quem acompanha os filmes do espião, deve ter percebido que à medida em que a série progrediu, houve uma tendência a focar mais na ação exacerbada, no espetáculo visual e até os enredos em alguns episódio eram voltadaos para isso. MOSCOU CONTRA 007, assim como DR. NO é a antítese dessa abordagem mais popular. Um filme que mantém o público em seus assentos com suspense e atmosfera ao invés de perseguições e explosões. Até mesmo o duelo entre Bond e Grant acontece na maior parte do tempo de maneira mais psicológica do que física, a não ser quando o confronto é inevitável no vagão do trem. Ambos são caras inteligentes e vê-los nessa peleja de uma forma lógica é uma das melhores coisas de um thriller de espionagem. É claro que o filme tem algumas pirotecnias, mas a cena de ação mais memorável é a já citada brutal e grosseira luta entre Bond e Grant nos apertados confins de um compartimento de trem. E que está a milhares de anos luz de uma batalha de armas lasers no espaço, como acontece com 007 CONTRA O FOGUETE DA MORTE.

from-russia-with-love-494

E antes que me entendam mal, não estou criticando filmes mais focados na ação e menos no fator humano, com tiroteios espetaculares, explosões e perseguições exagerados. Até porque adoro essas coisas. Estou apenas apontando que há essa diferença de tom entre os primeiros 007 com do final da década de 70, por exemplo, que era o auge do exagero “jamesbondiano“…

MOSCOU CONTRA 007 ostenta a estreia de dois elementos cruciais da série e que não haviam em DR. NO (além de ser o único filme da série que o protagonista não diz a sua famosa apresentação “Meu nome é Bond, James Bond“): possui a primeira sequência de pré-créditos e a aparição de Desmond Llewelyn como Q, aqui chamado por seu nome real, Major Boothroyd. A importância de Q para os filmes é óbvia para aqueles que, como nós, amam as engenhocas, as armas e equipamentos secretos que Bond utiliza para se safar…
Já a cena de pré-créditos é interessante saber que não era algo originalmente planejada. Foi o editor Peter Hunt (que mais tarde viria a se tornar diretor, e dos bons, tendo até realizado o meu 007 favorito, 007 A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE) veio com a idéia quando estava montando o filme. É nessas horas que percebo porque alguns dos melhores diretores veio da edição e como o trabalho de montagem pode ser tão criativo e crucial para um filme. Aliás, a sequência pré-título é genial, com Grant perseguindo e matando um sósia de Bond num grande jardim, deixando o público ciente da ameaça letal que o espião irá encarar.

Os produtores de MOSCOU CONTRA 007 estavam tão confiantes com o sucesso deste segundo filme que não hesitaram a anunciar já um terceiro exemplar nos créditos finais: “James Bond retornará no próximo thriller de Ian Fleming, GOLDFINGER“.

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO (Dr. No, 1962)

Dr-No-090

A primeira vez que assisti a 007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO, de Terence Young, filme de estreia do agente secreto britânico mais famoso do cinema (e talvez da literatura também), eu devia ter meus onze ou doze anos e já estava bastante familiarizado com o personagem e com vários de seus filmes, especialmente os estrelados pelo Roger Moore em incansáveis reprises na Sessão da Tarde. Portanto eu me esbaldava com o lado pitoresco, divertido e extrovertido da série e lembro de ter achado DR. NO um bocado distante dessa lógica, com tom mais sério e narrativa lenta, apesar de não ter achado ruim. Mas foi um pouco decepcionante, devo confessar…

Evidentemente, ao longo dos anos e de várias revisões toda essa impressão ficou lá na infância. Hoje já considero DR. NO um dos grandes clássicos do período e um exemplar notável de spy movie cheio de cenas marcantes dentro da saga de James Bond, apesar de muitas características notadas naquela primeira olhada serem de fato verdadeiras. O filme realmente tem um tom mais verossímil e sisudo em vários sentidos do que qualquer outro exemplar da série, mas que não signifique que seja algo negativo…

Dr-No-238

O filme começa já com típica apresentação de créditos que todos os filmes do 007 possuem, mas sem grande elaboração visual, sem uma canção que tenha virado hit de algum músico ou banda… Na verdade, utilizam a própria canção tema de James Bond, depois muda para um som de ritmo latino e em seguida a famosa musiquinha dos três ratos cegos, onde a partir disso o filme começa em grande estilo, na Jamaica, na qual um agente secreto britânico é assassinado à balas por supostos três ceguinhos…

Depois vamos à Londres. A primeira aparição de Bond em DR. NO, interpretado pelo grande Sean Connery, só poderia ser mesmo jogando cartas com a aristocracia britânica. A câmera enquadra apenas mãos, cartas e uma bela mulher de vermelho que se apresenta como “Trench, Sylvia Trench”, ao que o agente secreto responde, agora com a câmera pela primeira vez enquadrada nele, acendendo um cigarro, “Bond, James Bond”. O sujeito é chamado às pressas ao escritório, mas arranja um tempinho para dar seu cartão à Senhorita Trench com segundas intenções. Ao chegar ao local, James joga seu chapéu no cabideiro, uma outra marca registrada de 007, assim como as brincadeiras sem vergonha com a secretária Moneypenny. Na reunião com seu superior, M, que lhe dá a missão de ir à Jamaica investigar o que anda rolando por lá, Bond tem sua arma substituída por uma Walther PPK, que se tornou conhecida como a clássica arma de James Bond. Achei legal que o protagonista comenta que estava usando sua Beretta por dez anos, ou seja, neste ponto, 007 já é agente MI6 por um tempinho considerável. Agora, eu sei que DR. NO não foi o primeiro romance do espião escrito pelo Ian Fleming (CASSINO ROYALE, no caso), por isso é interessante que já tenham escolhido um episódio mais à frente, para elaborar um personagem com certas características e relações já muito bem estabelecidas, o que contribui bastante para esse pontapé inicial que a série possui.

Dr-No-040

Na Jamaica, Bond encontra-se fazendo progressos, mas num ritmo devagar, quase parando… Como disse, DR. NO é muito mais vagaroso do que os filmes do agente secreto que viriam depois, mas ressalto que isso nem sempre é uma coisa ruim. É apenas diferente, com uma narrativa bem mais realista e sem os habituais exageros em sequências de ação mirabolantes. Mesmo assim, não faltam por aqui alguns momentos clássicos e espetaculares, guardando as devidas proporções, para entrar na galeria de feitos dos filmes de James Bond.

Uma das coisas que mais me surpreendeu nessa revisão é a maneira como são mostradas as mortes causadas por Bond. Na maioria dos seus filmes, a matança acontece desenfreada com capangas aleatórios sem rosto definido na tela, o que é legal. Mas em DR. NO a morte é tratada de forma mais pesada, não por serem sangrentas ou brutais, mas acontecem em situações mais realistas, causando mais impacto. Há uma cena em que Bond cria uma armadilha (o clássico travesseiro debaixo das cobertas) e quando um sujeito chega para assassinar o herói, Bond lhe surpreende. 007 coloca o sujeito sentado a uma cadeira, faz-lhe algumas perguntas e então atira no homem à queima roupa…

Dr-No-299

Outra cena que ficou na minha cabeça é quando um dos capangas do Dr. No procura por Bond e este lhe pega de surpresa por trás com uma faca, perfurando o sujeito sem apresentar remorso algum. Mel (Ursula Andress) ainda lhe pergunta “Por que?” e ele responde “Porque eu tive que fazer”… E é interessante esse diálogo porque mostra um pouco da personalidade de Bond nesse quesito. Ele não apresenta remorso, mas matar não lhe dá prazer. Apenas tem consciência de que é algo que faz parte do seu trabalho e precisa ser feito. Qualquer vacilo nesse sentido é caixão pra ele…

E já que citei a musa Ursula Andress, o que é a cena da sua clássica aparição? Isso sim é um espetáculo! Excelente maneira de apresentar a primeira Bond Girl, embora só entre em cena mesmo depois de uma hora de projeção, quando Bond já havia traçado duas mulheres antes dela durante o filme… Mas, acontece, né? Ela não parece ser muito ciumenta mesmo.

Dr-No-321

Dr-No-322

Outro personagem fascinante é o próprio Dr. No. É legal a ideia de não lhe mostrarem a cara durante a maior parte do filme, apenas deixar ouvir sua voz, o que acrescenta aquele tom de mistério agradável ao vilão, algo que sempre tentaram fazer em vários outros capítulos da série, às vezes com sucesso, outras nem tanto… E James Bond tem boa química com o personagem, uma boa química com seu nêmesis, que é outro detalhe habitual da franquia.

Dr-No-520

Para finalizar, temos um Sean Connery que parece ter nascido para ser James Bond, muito à vontade no papel do sofisticado agente à serviço secreto de sua majestade, sendo o galanteador pegador de mulheres ou o bruto frio que mata sem piedade os meliantes quando precisa.

DR. NO sempre me pareceu um grande filme e a cada revisão foi ficando ainda melhor. Não é exatamente o que se espera de um “filme de James Bond” habitual depois de perceber o que a série se tornou, repleta de exageros sem noção, mas que me diverte à beça, mas como um filme de espionagem sério e realista é possível desfrutar desta belezinha aqui.

QUANTUM OF SOLACE (2008)

quantum-of-solace1

Bem mais ou menos este novo filme do espião James Bond, QUANTUM OF SOLACE, e acho que a falha principal foi a escolha de Marc Foster na direção. O sujeito simplesmente não sabe dirigir ação. Foi um bom diretor do cinema independente americano, trabalhou razoavelmente em algumas produções maiores e até estava curioso pra ver como ele se sairia neste aqui, principalmente por ser um novo filme de um dos meus personagens favoritos, 007 é um ícone do cinema e dá sempre pra esperar uma boa dose de tiros, explosões exageradas e bastante vagabundo saindo de olho roxo.

Isto tudo de fato acontece sem reclamações. O problema da maioria destas sequências é cair na mesma situação de Chris Nolan em seu Batman Begins. Em vários momentos é impossível acompanhar o que se passa dentro do quadro com a câmera inquieta, Foster parece perder totalmente a noção de espaço e mise en scène para porradaria, tiroteios e perseguições. E olha que eu não sou nem um pouco radical com câmeras treme-treme e Paul Greengrass já provou que se pode realizar boas sequências deste tipo. Marc Foster tem muito que amadurecer neste aspecto.

Mas o que sobra ainda dá pra se divertir tranquilamente e não são todas as cenas de ação que são incompetentes. Daniel Craig demonstra-se mais uma vez à vontade no papel de James Bond, Mathieu Amalric é um vilão interessante com objetivos maléficos que convencem. Até mesmo a temática ambientalista inserida na aventura é bem aproveitada. O roteiro segue uma linha diferente do filme anterior, CASSINO ROYALE. QUANTUM OF SOLACE é muito mais movimentado e quase todas as cenas levam à situações de ação, mas sobre este assunto, bom, infelizmente já comentei…