CEMITÉRIO MALDITO 2 (1992)

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Mesmo não tendo o mesmo nível de qualidade do seu antecessor, CEMITÉRIO MALDITO 2 é bem legal, tem muita coisa boa acontecendo para nos entreter. Edward Furlong, o eterno moleque de O EXTERMINADOR DO FUTURO 2, interpreta Jeff, o filho de uma atriz famosa que morre num acidente durante as filmagens de seu mais recente filme de terror. Para recomeçar uma vida nova, Jeff e seu pai, um veterinário vivido por Anthony Edwards, se mudam para a pequena cidade de Ludlow, no Maine, obviamente a mesma do primeiro filme. Não demora muito, Jeff já está interagindo com os habitantes da cidade, levando porrada dos bullies e se torna amigo de Drew, o enteado do xerife local, Gus Gilbert (Clancy Brown). Numa noite, Gus mata o cachorro de Drew e, claro, ele e Jeff vão para o cemitério de animais para enterrá-lo… E o inferno está de volta à cidade.

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Uma coisa que gosto em CEMITÉRIO MALDITO 2 é que não faz questão alguma de ser uma cópia do primeiro filme, que era mais reflexivo, atmosférico e tinha um cuidado a mais com os personagens. A construção de certos indivíduos aqui é unilateral, como o xerife malvado e completamente surtado de Clancy Brown. E as coisas vão acontecendo de forma atropelada, como a transformação do personagem de Furlong, que de uma hora pra outra fica obcecado pela sua mãe morta, sem muito desenvolvimento. Mas ao mesmo tempo, tudo aqui é mais exagerado e sangrento, bem ao estilo do horror noventista, o que garante uma certa dose de diversão ao mesmo tempo que expande de maneira imaginativa e direta a mitologia criada por Stephen King no livro que deu origem ao filme de 89.

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A violência é quase cartunesca, com uma boa dose de sangue sendo jorrada, com algumas perfurações, uma cabeça explodindo, e uma cena sensacional em que Clancy Brown usa o pneu de uma moto contra o rosto de um adolescente. Não dá pra ver muita coisa, mas a ideia e a forma como fazem é muito boa. A maioria das cenas mais sangrentas é de violência animal. Desde o ciclo de filmes canibais italianos que não vejo tanto animal morto na tela… Tudo falso, claro, efeitos especiais de primeira qualidade, mas ainda assim causa uma certa impressão.

A direção é da mesma Mary Lambert que realizou o primeiro filme. Em uma entrevista, ela comenta que resolveu voltar ao universo de CEMITÉRIO MALDITO para entender o que se passa na cabeça de um adolescente, porque eles fazem coisas estúpidas… Louis Creed, no filme anterior, enterra seu filho por causa de um desejo intenso, um sentimento de culpa pela morte do filho, mas e os adolescentes estúpidos de CEMITÉRIO MALDITO 2? O que levam a enterrar uma pessoa no cemitério amaldiçoado sabendo que ela vai voltar à vida?

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Gosto bastante do trabalho de Lambert no primeiro filme, mas não sei se ela conseguiu desenvolver bem suas ideias aqui e a coisa ficou mais puxado no “estilo” do que no “conteúdo”. Mas como disse, é o tipo de filme exagerado que acaba bem sucedido em propiciar uma experiência de terror sem se preocupar com a psicologia das coisas. E que compreende com inteligência o que torna o horror desse universo de Stephen King tão inquietante. Ou, pelo menos é o tipo de produto que não me deixa entediado em momento algum. E temos um elenco muito sólido, Furlong está fazendo o que ele faz de melhor, Jason McGuire é excelente como Drew e Clancy Brown como vilão é definitivamente a melhor coisa do filme… Enfim, é uma continuação sem grandes pretensões mas que de alguma forma consegue me divertir facilmente.

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CEMITÉRIO MALDITO (1989)

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Acho que a força de CEMITÉRIO MALDITO, uma certa grandeza que o coloca acima de boa parte dos filmes de horror nos anos oitenta, reside na maneira como o filme lida com a morte. Vidas são tiradas a todo instante no cinema de horror e o público, obviamente, torce para que isso aconteça. A morte é banalizada e se torna uma diversão, ninguém quer assistir a uma continuação de SEXTA-FEIRA 13 e ver o Jason saindo de mãos vazias, certo? Mas aqui a morte, a perda, tem um peso dramático muito forte e coloca o espectador em confronto com a situação trágica da morte de um filho de forma extrema e direta.

A própria ideia básica do filme, notória adaptação de Stephen King, é muito perturbadora. A trama gira em torno de uma família que se muda para uma nova casa em Ludlow, no Maine. É uma típica família feliz, recomeçando a vida, até que um caminhão em alta velocidade muda tudo isso. E a existência de um cemitério de animais de estimação amaldiçoado que reanima os mortos piora ainda mais a situação…

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É evidente que há muitas coisas boas típicas do horror, elementos fundamentais, em CEMITÉRIO MALDITO para acalentar o coração dos fãs do gênero. É um filme muito sombrio com uma atmosfera densa em alguns momentos, especialmente nas sequências das visitas ao tal cemitério; temos algumas mortes criativas, uma boa dose de sangue, um gato zumbi, sonhos bizarros, aparições de uma figura fantasmagórica, entre outras coisas… No entanto, acima de tudo, CEMITÉRIO MALDITO funciona por causa do drama central que se desenrola a partir da perda trágica de um ente querido.

A sequência do caminhão é um primor. Mesmo quem percebe na hora o que está prestes a acontecer, acaba chocado pela coragem do filme em realmente chegar nos finalmentes e fazer o que tinha que fazer… Até porque sempre existiu o tabu de se matar crianças nos filmes dessa maneira. Mas só é mostrado o essencial: o moleque indo para a rodovia, o caminhão desatento se aproximando, um sapatinho vazio que rola no asfalto. O suficiente para nos deixar sem chão e passarmos a sentir a dor do protagonista (interpretado por um Dale Midkiff). Algo que no universo de King acaba sendo bem mais aterrorizante que o horror tradicional.

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Por muito tempo, quem esteve à frente do projeto e meio que possibilitou sua existência foi o pai dos zombie movies, George A. Romero, que já era naquela altura grande amigo de Stephen King, já haviam trabalhado juntos em CREEPSHOW, e acabou comprando os direitos do livro. No contrato, duas condições: a primeira é que o filme deveria ser rodado no Maine. Depois, o próprio King deveria escrever o roteiro. E foi o que aconteceu. A dupla preparou o filme por bom tempo até que surgiram algumas atribulações entre o diretor e o estúdio, que convocou Romero no meio desse processo insistindo em refilmagens de algumas sequências de INSTINTO FATAL (Monkey Shines), que Romero havia dirigido pouco tempo antes. Para não deixar a produção parada, Romero acabou pulando fora de CEMITÉRIO MALDITO, sendo rapidamente substituído por Mary Lambert, uma diretora de video clipes que só havia feito um longa até então, SIESTA, de 87, mas que já era vista como um talento promissor.

E Lambert deu conta, conseguiu dar vida ao roteiro de King, ao universo sempre tão particular de seu criador, com muita precisão e criatividade visual. Claro, seria ótimo ver como CEMITÉRIO MALDITO seria sob a batuta de Romero, mas não aconteceu. E eu simplesmente não tenho do que reclamar desta versão, que se tornou um dos meus clássicos favoritos do horror oitentista.

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No elenco, vale destacar Brad Greenquist, a figura fantasmagórica que mostra ao protagonista o limite que não se deve ultrapassar no “semitério”; Fred Gwynne, o eterno Herman Munster, da série dos anos 60 OS MONSTROS (ou A FAMÍLIA MONSTRO); e Miko Hughes, o garotinho zumbi demoníaco com um bisturi afiado nas mãos empenhado a matar.

Aparentemente, CEMITÉRIO MALDITO é a adaptação da obra de King mais apreciada pelo próprio autor; Óbvio, considerando que ele mesmo escreveu o roteiro e que detesta, por exemplo, a adaptação de O ILUMINADO, do Kubrick, não é muito difícil o cara ter preferência por este aqui. King até faz uma breve participação como um reverendo. O filme teve uma continuação nos anos 90, dirigido pela mesma Mary Lambert, e que preciso rever, não lembro de quase nada. E aí sim, estarei devidamente preparado para encarar a nova versão que ainda não parei pra ver.

TÚMULO SINISTRO (1964)

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TÚMULO SINISTRO (Tomb of Ligeia) foi a última colaboração de Roger Corman com o ator Vincent Price, depois de uma série de adaptações da obra de Edgar Allan Poe (e um único que era baseado em Lovecraft, O CASTELO ASSOMBRADO) na primeira metade dos anos 1960, resultando numa parceria de sete filmes fundamentais na carreira de ambos e que qualquer interessado em horror deveria dar uma atenção.

O filme é sobre um cavalheiro inglês, Verden Fell, interpretado pelo Price, cuja morte de sua esposa, Lady Ligeia, lhe deixa um bocado transtornado, vivendo uma vida solitária em sua propriedade (exceto por seu mordomo e um misterioso gato preto), torturado, lamentando a morte de sua amada. Então ele conhece Lady Rowena, uma linda mulher que se parece com sua falecida esposa (ambas são interpretadas por Elizabeth Shepherd) e apesar do jeitão sinistro e melancólico ela é atraída por Verden, que se apaixona e acabam se casando.

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No início, a vida a dois entre Verden e Rowena é só alegria, com o casal viajando Europa à fora, conhecendo lugares distintos e sempre apaixonados. O problema é quando retornam à propriedade e a “presença” metafísica de Ligeia coloca tudo a perder. Verden passa a maior parte do tempo isolado em seus experimentos ou no cemitério nas ruínas de uma grande igreja onde está a tumba de sua primeira esposa, um tipo de obsessão mórbida sempre explorado neste ciclo Edgar Allan Poe.

Enquanto isso, Rowena passa a ter sonhos terríveis (que sãos algumas das melhores cenas do filme) e é perseguida pelo tal gato preto, que parece possuído. Aos poucos, Verden tem certeza de que está enlouquecendo – ou acredita que sua nova esposa está sendo dominada pelo espírito maligno e imortal de Ligeia. O que acontece a seguir é um típico final ao estilo Roger Corman nas suas adaptações de Poe: o mundo desaba, é consumido pelo fogo, pelo horror extremo e Vincent Price desempenhando sua dança da morte, num espetáculo de enquadramentos, efeitos especiais arcaicos e cores.

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Em TÚMULO SINISTRO, Corman faz um esforço consciente para se afastar da aparência estética de seus filmes anteriores do ciclo Poe. Em vez de filmar quase inteiramente em estúdio (como havia sido seu habitual até então), o sujeito optou por muitas externas, confiando menos em nevoeiros pesados e cores vibrantes, e mais nas paisagens naturais as quais explora com uma câmera exuberante: as ruínas, o campo, a cena em que o casal visita Stonehenge, enfim, muitas das cenas acontecem sob a luz do sol. Provavelmente o filme menos dark do ciclo, embora o tom e a construção da obra ainda sejam de um terror clássico, apenas menos estilizado e atmosférico em relação ao que Corman havia feito antes.

Mas ainda assim é um filme que enche os olhos. O visual não deixa de ser deslumbrante, de qualquer forma, especialmente com o trabalho cromático. O uso do vermelho como elemento dramático, por exemplo, cria sensações bem interessantes no decorrer do filme.

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Price sempre inspirado, oferece aqui mais uma performance expressiva, digna de antologia nessas adaptações de Edgar Allan Poe, fazendo um personagem muito no seu habitual, mas ao mesmo tempo sutilmente destoa de outros que interpretou: assustador e imponente, mas frágil, torturado e com toques bem, digamos, perturbadores… Há uma situação que pode passar despercebido e ficar muito à imaginação do espectador, mas nada tira da minha cabeça que claramente seu personagem pratica necrofilia, algo que obviamente não poderia ser explorado às claras no período, mas que Corman dá um jeitinho de insinuar e subverter.

O roteiro de TÚMULO SINISTRO foi escrito por Robert Towne, um dos pupilos de Corman no período – seu primeiro script foi escrito para o diretor, LAST WOMAN ON EARTH (60). Dez anos depois, o sujeito ganharia o Oscar com seu roteiro para CHINATOWN, de Roman Polanski.

Outros filmes do ciclo Edgar Allan Poe que já comentei por aqui:
O SOLAR MALDITO
O POÇO E O PÊNDULO
OBSESSÃO MACABRA

[CAGESPLOITATION] MANDY (2018)

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Da primeira vez que assisti a MANDY, de Panos Cosmatos, foi impossível não pensar numa lógica estético-narrativa que torna visual o mundo interior de um homem destroçado pela perda. Só que ao mesmo tempo, o filme nunca entra no campo de “Ah! era tudo uma alucinação, era uma bad trip do protagonista” o que tornaria tudo muito óbvio.

Resolvi ver MANDY de novo, já que é um dos meus favoritos do ano passado, e desta vez ficou mais forte, já sabendo de antemão o que o filme tem para oferecer, a impressão de estar diante de uma daquelas revistas em quadrinhos Heavy Metal que a gente lia nos anos 90, com um tipo de fantasia sci-fi bizarra muito peculiar que essas publicações forneciam. Então, bad trip porra nenhuma, isso aqui é um puta universo alternativo pra lá de surtado que o Cosmatos criou para desembocar sua fábula macabra e, como cereja do bolo, com um Nicolas Cage maravilhosamente insano nos guiando nessa viagem pirada de imagens carregadas de cores, simbolismos e violência.

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O negócio é que MANDY é um filme para ser contemplado, Cosmatos utiliza-se de elementos muito básicos para causar a imersão do espectador num projeto cuja estética e seus significados simbólicos importam mais do que uma trama convencional. Na verdade, a narrativa segue uma linha reta muito bem traçada, mas com um fiapo de roteiro, que Cosmatos usa para deixar o espectador hipnotizado na sua à abordagem visual e atmosférica.

Temos uma primeira metade que apresenta o casal, Red (Cage) e Mandy (Andrea Riseborough), que leva uma existência tranquila, amorosa e pacífica numa versão alternativa do ano de 1983 e este lugar perfeito e seguro é selvagemente invadido e destruído. Depois, a segunda metade de MANDY: Red se lança numa jornada de vingança sangrenta contra os mais diversos habitantes desse universo insólito.

Seguir essa trama é um convite à uma experiência sensorial fascinante.

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Dizem que o filme anterior de Cosmatos, filho do grande George P. Cosmatos (diretor de RAMBO II, COBRA e TOMBSTONE), segue essa mesma tendência de cinema contemplativo e sensorial. Chama-se BEYOND THE BLACK RAINBOW, mas eu acabei não vendo. Devo assistir agora que conheço MANDY. O sujeito manda bem dentro da proposta de uma espécie de slow “exploitation” cinema, que constrói um mundo tão peculiar e onírico, povoado por criaturas que parecem uma mistura dos cenobitas, de HELLRAISER, com os motoqueiros pós-apocalípticos saídos de MAD MAX 2, com atmosfera carregada em tons que parece uma névoa envolvendo os personagens… É o que dá à paisagem uma sensação sobrenatural, uma versão da realidade como conhecemos, mas encharcada em neons roxos e avermelhados.

Cosmatos também não deixa a peteca cair nem quando a coisa toda explode em violência, fazendo homenagens à clássicos como EVIL DEAD 2, NIGHTBREED, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2… É o tipo de filme no qual veremos Nicolas Cage cortando a garganta de uma criatura que tem uma faca no lugar do pênis e logo depois põe-se a rir histericamente enquanto o sangue encharca seu rosto. Temos Cage decapitando um sujeito com um enorme machado de batalha forjado e depois acendendo um cigarro da cabeça decepada em chamas. Ou no eletrizante e sangrento duelo de motosserras… Enfim, MANDY é brutal, debochado, insano… Pura poesia.

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Obviamente, um dos grandes prazeres de MANDY é poder ver Nicolas Cage em estado de graça sendo bem dirigido e muito bem aproveitado. Há uma cena que é um verdadeiro milagre de encenação e dramaturgia, um tour de force ininterrupto e sem cortes, quando Cage vai ao banheiro, de cuecas, enxugando uma garrafa de Vodka inteira, tentando se aliviar do choque depois de vivenciar um verdadeiro inferno, numa aula de expressão corporal e presença de ocupação física de um espaço, um daqueles momentos que dá vontade de aplaudir e agradecer aos deuses do cinema a existência de um ator tão sublime quanto… NICOLAS CAGE. Aliás, muita gente acha que eu brinco quando falo que, atualmente, em atividade, o maior ator do mundo é Nicolas Cage. Podem apostar, eu falo sério.

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A única coisa que não se justifica em MANDY são suas duas horas de duração. Poderia ser bem mais enxuto… Mas não tenho do que reclamar, porque toda hora Cosmatos traz algo bonito/bizarro para nossa contemplação: os inter-títulos com fontes de capa de disco de Black Metal; Cage forjando no fogo seu instrumento de vingança; o anúncio do “Cheddar Gobling”; os enquadramentos milimetricamente simétricos do templo, o filme inteiro é recheado de imagens que parecem as páginas das revistas Heavy Metal que ganharam vida, numa atmosfera única que é encontrada em todos os quadros do filme, em cada gesto de um personagem, a cada mudança narrativa…

Vale destacar também alguns nomes do elenco, como a pequena aparição do grande Bill Duke, mas especialmente Linus Roach, como líder da seita que desgraça a vida do protagonista, numa performance espetacular.

MANDY é um filme especial. Se não viu ainda, veja. De preferência numa tela bem grande.

SUSPIRIA (1977)

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Vocês sabem, SUSPIRIA, o clássico absoluto do horror italiano do mestre Dario Argento, será lançado num remake dirigido por Luca Guadagnino, de ME CHAME PELO SEU NOME. Pra mim, remakes nem fedem nem cheiram, mas acabo assistindo. Se forem bons, elogio, se forem ruins, lamento a perda de tempo… Poderia ter visto coisa melhor. Mas mantenho sempre a ideia de que o original estará lá para ser visto e revisto independente de quantas refilmagens fizerem. No caso de SUSPIRIA, até acho que pode sair algo interessante. O cinema de horror atual anda num bom momento e acho o Guadagnino um sujeito com talento. É só não esperar nada no mesmo nível que é a maravilha do Argento que vou encarar de boa…

Sobre o filme do Argento, revi há poucos dias em DVD em casa mesmo. Uma belezura. Mas a melhor experiência que tive com o filme, foi mais ou menos há um ano quando SUSPIRIA passou remasterizado no Instituto Moreira Sales, da Paulista, onde tive a oportunidade de sentir o poder sensorial dessa obra-prima do horror em todo o seu esplendor. Quero dizer, aquela telona explodindo a exuberância de cores e o volume até o talo, ficou simplesmente impossível sair da sessão sem estar, no mínimo, atordoado.

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Nem é o meu filme favorito do Argento, fico com INFERNO (1980) ou PROFONDO ROSSO (1975), mas SUSPIRIA tem um cantinho reservado no coração e revê-lo é uma experiência visual transcendental, seja numa tela de cinema, seja na TV em DVD. Sempre fico de queixo caído com sua narrativa onírica, a trilha sonora experimental do Goblin, o design de produção estilizado e as composições visuais meticulosamente trabalhadas em benefício do horror, de um universo de horror muito próprio, um mundo de beleza, mistério, oculto e violência… É um festival sensorial único, a síntese do filme de horror como arte.

A sinopse é bem simples: uma estudante americana de balé, Suzy Banyon (Jessica Harper), chega numa noite tempestuosa em Freiburg, na Alemanha, para estudar numa prestigiosa academia de dança. Quando um táxi a deixa na entrada do local, ela vê uma jovem na porta agindo de modo estranho antes de sair para a noite, correndo pela floresta encharcada e escura. No dia seguinte, quando Suzy se estabelece na escola, descobre que a garota que viu na noite anterior foi brutalmente assassinada. A partir daí, Suzy começa a perceber que há algo nitidamente bizarro, ocorrências estranhas vão rolando na escola e com seu corpo docente, e ela resolve meter o nariz para descobrir…

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Qualquer coisa além disso já não tem tanta importância. Quero dizer, para ser sincero, a trama e seus dispositivos narrativos, construção de personagens e etc, não são exatamente o que mais interessam ao Argento, ainda que integrem o universo formal do diretor como contador de história de terror. O fato é que Argento chega a um ponto da carreira no qual o enredo e personagens se tornam completamente subservientes ao visual, à atmosfera, à música. O que realmente importa em SUSPIRIA, portanto, é a lógica de pesadelo que motiva os personagens a agirem de forma absurda em cenários barrocos onde a violência é bela. São exatamente os momentos em que o trabalho visual se destaca que SUSPIRIA se revela tão magistral e original. A sequência do primeiro assassinato é uma das minhas favoritas, digna de antologia: a violência, o sangue, a faca entrando no coração exposto e os últimos e trágicos enquadramentos (alguns dos mais icônicos do horror italiano)… O que se vê na tela é pura poesia.

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Dizem que Daria Nicolodi, atriz e roteirista italiana que era casada com Argento e que escreveu o roteiro de SUSPIRIA, baseou-se nas experiências de sua avó, que frequentou uma escola de atores onde os professores também ensinavam magia negra aos alunos… Vai saber se isso é verdade. Em outras declarações, ela diz que a ideia de SUSPIRIA teria surgido de um sonho que teve. O que faz mais sentido. A sensação parece ser mesmo a de um pesadelo estruturado num conto de fadas macabro, com os personagens falando coisas sem sentido e percorrendo os corredores sinistros e ricamente decorados da Academia de Dança. É como se Suzie entrasse numa espécie de buraco do coelho, como em Alice no País das Maravilhas, só que o mundo paralelo aqui é mais peculiar ao pesadelo, ao horror. SUSPIRIA me mostrou o quão aterrador, poético e sofisticado o cinema de horror italiano pode ser (e não só o Argento, mas também Fulci, Bava, Soavi, Freda, etc).

Então, que venha o remake, mesmo tendo consciência de que vai ser praticamente impossível superar este aqui. Mas se for bom, já tá valendo.

Ah, e só pra lembrar, SUSPIRIA é o primeiro exemplar de uma trilogia unida a partir da ideia das “Três Mães”, um triunvirato de bruxas ancestrais e maléficas cuja magia poderosa lhes permite manipular eventos mundiais em escala global. Os outros filmes são o já citado INFERNO e THE MOTHER OF TEARS.

BRUISER (2000)

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BRUISER é um comentário ácido de George A. Romero sobre o processo de degradação social e despersonalização do indivíduo contemporâneo. Numa espécie de fábula macabra, a trama é sobre Henry Creedlow (Jason Flemyng), um homem que é um autêntico bunda-mole, com pouca identidade autêntica; as pessoas o pisoteiam, seu melhor amigo lhe passa a perna, sua mulher lhe abusa e pula cerca com seu chefe escrotaço (vivido por um Peter Stormare em modo insano), e ele calmamente se deixa levar pela insignificância, pela falta de atitude e conformismo. Numa festa na mansão de seu chefe, onde as pessoas estão pintando máscaras que refletem suas personalidades, Henry deixa a sua completamente em branco. Quando acorda no dia seguinte, a máscara se torna literalmente integrante de seu corpo, da sua face (bem à maneira de Kafka). E a partir daí, o sujeito começa a mudar sua postura, se tornando mais agressivo até virar uma máquina de matar, especialmente aqueles que se aproveitavam de sua ingenuidade e inércia, em uma tentativa de reafirmar sua existência. Quanto mais ele mata, mais decora sua máscara com as cores da carne e do sangue.

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A conexão com Kafka é até meio óbvia: a ideia do homem banal sem qualquer tipo de identidade distinta jogado em situações improváveis e absurdas, num processo de reconstrução existencial, mas aqui agregado ao interesse de Romero pelo horror e suspense e sua habilidade para a sátira social. Jason Flemyng, que quase nunca tem oportunidade de brilhar, está ótimo como protagonista, num papel desafiador, cuja presença em grande parte da projeção é usando a tal máscara branca e vazia de expressões. Ainda temos Peter Stormare em modo selvagem, misógino, repugnante; Tom Atkins como policial que investiga a matança desenfreada de Henry; a direção espetacular de Romero, que ainda era mestre em criar sequências recheadas de tensão, atmosfera e assassinatos bem elaborados; e um gran finale arrasador num cenário fabuloso com direito a um show do Misfits.

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Me surpreende o fato de que no período no qual BRUISER fora realizado, Romero já era um dos nomes mais fortes do horror americano, já tinha realizado a trilogia definitiva dos zumbis no cinema, era considerado um mestre do horror, um autêntico auteur, e mesmo assim sofria as duras penas para levar adiante os seus projetos… O último trabalho do homem antes deste aqui havia sido THE DARK HALF, lançado em 1993, adaptação de uma obra de Stephen King, e durante todo esse hiato tivemos este consagrado mestre do horror ralando para conseguir financiamento, sem conseguir filmar um caralho! O jeito foi pegar dinheiro na França e no Canadá e provar para os estúdios americanos que ainda tinha bala na agulha. E o filho da puta consegue, porque BRUISER é extraordinário!

Uma pena, portanto, que o filme nunca tenha encontrado o seu público e na época acabou amargando um lançamento direto no mercado de VHS e DVDs. O que temos aqui é uma ideia totalmente original, ousada e permanece até hoje atual, mas acabou parando no limbo porque não era o filme de zumbis pelo qual os fãs esperavam ansiosamente. O que só aconteceu em 2005, com TERRA DOS MORTOS, que teve boa recepção por parte da crítica e do publico, com todos os méritos, obviamente, mas que, de alguma forma, empurrou BRUISER de vez no obscurantismo… mas para quem for realmente fã do Romero, vale a conferida.

THE VOID (2016)

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Pedi algumas sugestões de filmes da safra mais recente pela página do facebook do blog  que o leitor gostaria de ver por aqui e recebi uma enxurrada de títulos os quais aos poucos vou comentando. Alguns eu até já tinha assistido, como o filme novo do Paul Schrader, FIRST REFORMED, ou o terror indie THE INVITATION, e até mesmo THE VOID, de Jeremy Gillespie, Steven Kostanski, que é o primeiro que vou comentar.

THE VOID foi concebido através de um Kickstarter que conseguiu levantar um orçamento suficiente para a produção de um longa-metragem, cheio de efeitos especiais práticos à moda antiga de dar inveja a qualquer superprodução recheada de CGI e que tem suas influências bem definidas num encontro entre John Carpenter, Clive Baker, Lucio Fulci e H.P. Lovecraft. Na trama, o policial Daniel Carter (Aaron Poole) está quase finalizando seu turno quando vê um homem cambaleando e caindo para fora de uma floresta à beira da estrada. Ele pega o sujeito em sua viatura e dirige-se ao pronto-socorro mais próximo, que é justamente o único setor que ainda opera perfeitamente no hospital depois que um incêndio danificou severamente o prédio.

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Chegando no local, o inferno começa: figuras vestidas de branco, que se assemelham a uma seita, começam a brotar gradativamente em volta do hospital, cada vez mais cercando o local, e dois homens aparecem bastante empenhados em matar o sujeito que Carter ajudou… No entanto, podem acreditar, esses são os menores problemas enfrentados por aqui. O caldo realmente engrossa quando os personagens são forçados a se defender de uma ameaça sobrenatural que assola as profundezas do hospital.

Os diretores Jeremy Gillespie e Steven Kostanski são dois membros do coletivo canadense Astron 6, que realizou algumas obras interessantes que misturam ação/horror/sci-fi com boas doses de humor, sempre homenageando o cinema de gênero cultuado dos anos 70 e 80, como é o caso de FATHER’S DAY, MANBORG e o sensacional THE EDITOR. Em THE VOID eles deixam a faceta humorística de lado e se preocupam em fazer um horror atmosférico realmente aterrador, com boas doses de ação e momentos perturbadores que remetem a filmes como HELLRAISER, de Cliver Barker, e THE BEYOND, de Lucio Fulci.

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A fórmula não é nada original, é um básico “terror de cerco”, com personagens barricados num local fechado, lidando com ameaças internas e externas, sobrenaturais ou não, como nos clássicos de John Carpenter ASSALTO A 13º DISTRITO e PRÍNCIPE DAS TREVAS. Embora narrativamente frágil, da premissa muito vaga e um trabalho superficial com os personagens, THE VOID acaba investindo – e sendo bem melhor sucedido – em propiciar uma experiência de terror puro, um pesadelo filmado, sem se preocupar com o sentido das coisas, mas que compreende com inteligência o que torna o horror de Lovecraft tão inquietante. É um dos melhores filmes que captura a sensação desse estilo específico de horror lovecraftiano desde FROM BEYOND, de Stuart Gordon. THE VOID traz de volta o melhor do horror cósmico.

E eu sei que não é um boa maneira de elogiar um filme, mas uma das melhores coisas de THE VOID é a galeria de posters que o pessoal de marketing do filme desenvolveu. Dá vontade de pendurar tudo na parede. Seguem alguns:

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PULSE (Kairo, 2001)

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Eu já tinha assistido a um filme ou outro do Kiyoshi Kurosawa (nenhuma relação com o outro diretor japonês Akira Kurosawa), cuja reputação sempre me chamou a atenção e o pouco que vi do seu trabalho reafirmava seu talento. Mas só este ano resolvi levar a filmografia do homem à sério e devo ter visto, entre março e maio deste ano, uns quinze filmes do diretor. Um dos que mais me surpreendeu foi PULSE, representativo exemplar da renovação do horror japonês, o chamado “J-Horror”, que ganhou força no final dos anos 90 e início dos anos 2000, com O CHAMADO, O GRITO, ÁGUA NEGRA e tal…

Mas conferindo um filme como PULSE é que se percebe porque Kurosawa é considerado um mestre superior do horror, o maior sopro de originalidade que aconteceu no cinema japonês dos últimos anos (ao lado de Takashi Miike) e que leva à sério a ideia de transformar horror em poesia. Não é a toa que é considerado o mais Tarkovskiniano dos japoneses. E no início dos anos 2000 até eu me rendi ao J-Horror, até porque quando começou a onda de remakes americanos desse tipo de produto eu queria estar antenado e sempre procurava assistir antes as versões originais. No caso de PULSE eu acabei vendo a produção americana e comi bola com o filme do Kurosawa.  Antes tarde do que nunca, filme conferido, erro corrigido.

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É interessantes como PULSE dialoga tão bem com o contexto do período, a expansão da internet e o início da solidão e alienação digital, mas embalado num horror arthouse, nada convencional, que se você assistir esperando tomar sustinhos, vai perder a beleza reflexiva da obra. O uso de metáfora no gênero do horror não é nenhuma novidade, mas no caso de Kurosawa a inserção da alegoria em meio à banalidade do cotidiano tange a transgressão. Em PULSE as linhas violentas do horror são traçadas pelo diretor como análise social: Duas histórias paralelas com personagens que se deparam com manifestações quase física de fantasmas, um surto absurdo de suicídios e desaparecimentos sem explicação da população.

Uma das protagonistas é Michi, cujo colega de trabalho se enforcou. Na casa do rapaz, encontram um disco com um vídeo estranho dele estático parado perto de seu computador. Na outra linha narrativa, seguimos Ryosuke, um jovem que está começando sua aventura em navegação na web, inserindo um CD para iniciar seu provedor de serviços de internet, algo banal que os mais jovens não vão se lembrar, e os mais veiacos como eu talvez sintam certa nostalgia… Quando tudo já está configurado, seu computador imediatamente acessa um site que pergunta “você quer conhecer um fantasma?“, e começam a aparecer vídeos estranhos, aparentemente ao vivo, de pessoas estáticas em ambientes escuros, imagens realmente perturbadoras, tão bizarras quanto o vídeo do colega de Michi.

À medida em que essas duas tramas paralelas vão se fundindo, Tóquio vai gradativamente sendo despovoada em segundo plano. O apocalipse em PULSE acontece de forma sutil, mas no final as ruas e estabelecimentos estão completamente desertos e no horizonte prédios desabitados e uma cidade decrépita como cenário… De vez em quando algum indivíduo se joga de um local muito alto para incrementar ainda mais a atmosfera de desolação.

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Kurosawa não perde tempo tentando explicar o que está acontecendo. Fantasmas, suicídios em massa, eventos que são precisos aceitar dentro do conceito de horror do filme. Durante a narrativa, tomamos conhecimento de alguns detalhes, sabemos que a internet é utilizada pelos espíritos para amenizar a solidão eterna. A reflexão sobre o isolamento e a separação auto-imposta que a tecnologia moderna traz é muito forte em PULSE, onde nos escondemos atrás de uma tela de computador e fazemos apenas as conexões mais superficiais uns com os outros. PULSE explora bem as questões de como a tecnologia e a internet pode nos manter separados em vez de unir. E os fantasmas em PULSE se conectam justamente com as pessoas que se sentem sozinhas e cuja a depressão coletiva possibilita a criação desse vínculo metafísico.

O filme também nunca tenta chocar ou fazer espetáculo a partir da tragédia, mas cria uma atmosfera de isolamento e desesperança com momentos realmente desconfortáveis. Algumas imagens são mais diretas, como a mulher que se joga de uma estrutura numa fábrica, numa das cenas de suicídio das mais realistas que eu já vi. Ou já perto do final, um plano envolvendo um avião em queda que é realmente aterrador. Mas são nos momentos de horror intimista e atmosférico que a coisa fica realmente angustiante. As manchas nas paredes onde as pessoas desapareceram ou se mataram, a maneira como Kurosawa usa a profundidade de campo, o trabalho de luz… A cada sombra ou lugar escuro na tela dá a impressão de estar escondendo uma entidade fantasma que se recusa a se revelar. Pequenos detalhes usados para gelar a espinha do espectador sem precisar apelar para sustos ou clichês do gênero, Kurosawa prefere conduzir o público a um passeio sombrio e angustiante que evidencia gradativa e lentamente as implicações “sociais” da trama.

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O filme foi o maior orçamento que Kurosawa havia trabalhado até então. Numa entrevista para a Fangoria na época, o sujeito disse que após anos desenvolvendo uma carreira relativamente dedicada ao horror durante os anos 90, finalmente teria a oportunidade de fazer algo grande, sem sair de seu estilo intimista. No arremate, ele disse que se o filme não tivesse o sucesso que ele esperava, ele desistiria do gênero. Bom, PULSE acabou mesmo sendo seu filme mais famoso, teve refilmagem nos EUA e Kurosawa não parou de fazer filmes de horror, então acho que a obra teve o resultado que ele queria. Pessoalmente, acho o filme sublime, é quase uma obra-prima do horror contemporâneo pra mim e dentro da filmografia do homem só perde para CURE (1997).

Se bobear, comento outros filmes que andei vendo do sujeito. Kurosawa é realmente essencial para quem curte o gênero e vale a pena acompanhar sua obra mais de perto.

HEREDITÁRIO (2018)

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Tenho visto e revisto um monte de coisa, filmes novos e velharias, mas e tempo pra escrever? Às vezes parece fazer mais sentido não escrever nada… E o blog vai sendo empurrado… Mas essa semana fui ao cinema e assisti a esse tal HEREDITÁRIO, do estreante Ari Aster, e acho que vale um pequeno comentário. É a nova sensação do horror que, embora eu tenha conseguido evitar saber qualquer coisa para ir “virgem” à sala de cinema, deixar-me surpreender, acompanhei as reações calorosas – algumas nem tanto – de amigos e que mexeram um bocado com a minha expectativa. Sabem como é, não é preciso muita coisa para alegrar este pobre coração, especialmente com um filme de horror. Mas HEREDITÁRIO é fantástico e não consegui desgrudar os olhos da tela durante toda a sessão.

Aster dirige bem para um estreante, é bom ficar de olho no sujeito. Tem noção de como trabalhar o tempo, os enquadramentos, como usar a trilha sonora, mas também o silêncio, e constrói uma atmosfera perturbadora em HEREDITÁRIO que me fascina. Gosto como o horror vai evoluindo dentro da trama de maneira gradual, subvertendo as expectativas, a partir de um drama familiar pesado que já é aterrorizante por natureza, com seu tom de tragédia, numa parábola sobre perda e degradação, cuja intensidade já deixaria vários filmes do gênero no chinelo. Isso até chegar num ponto em que a coisa descamba de vez para um horror mais explícito, mais hardcore. O ato final é de gelar a espinha.

Não é nenhuma obra-pima como alguns apontaram – compararam até com A BRUXA, que acho bem superior a este aqui e até tem algumas coisas no final que remetem um filme ao outro – mas não tenho muito o que reclamar, é uma obra redonda, muito bem pensada nos detalhes e alguns momentos são realmente memoráveis. A cena do acidente de carro, por exemplo, é irresistível, as aparições sutis, os sonhos… Gosto muito também da sequência na qual a mãe, interpretada pela Toni Collette, resolve fazer uma DR na mesa de jantar. Collette, aliás, está monstruosa e grande parte da força de HEREDITÁRIO é por causa da sua entrega apaixonada pela personagem. Seria pedir muito, à essa altura, uma indicação ao Oscar? De qualquer forma, recomendo. Um dos melhores filmes que vi este ano até o momento.

A PROFECIA III – O CONFLITO FINAL (1981)

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Um dos aspectos mais interessantes dos dois primeiros filmes da série A PROFECIA é que o diabo se personificava na forma de um garotinho, no caso do filme de 76, e um adolescente na continuação, fazendo com que o personagem sempre tivesse um ar de ingenuidade e ambiguidade, sem deixar de ser o Anticristo, causando o mal a todos ao seu redor. Em A PROFECIA III – O CONFLITO FINAL, Damien cresceu e virou o Sam Neill, e isso meio que tira um pouco da graça da figura. Não que o ator seja o problema, mas o personagem, o Anticristo que nos quer levar ao Armagedon, não passa de um adulto chato, mimado e virjão…

Neste terceiro capítulo, Damien herda tudo de todos que morreram pelo mal que irradia dele, administra o maior conglomerado do planeta e se torna o embaixador americano na Inglaterra, assim como seu “pai” no primeiro filme. Ou seja, o sujeito se torna um dos homens mais poderosos do mundo. Mas seu plano para dominar os homens segundo a tradição, digamos, bíblica da porra toda, nunca é claramente explicado, então a coisa funciona praticamente como qualquer outro político no cargo… Tipo um Trump ou qualquer outro imbecil que só quer ter o poder nas mãos.

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Enquanto isso, um bando de monges italianos conseguem se apoderar das famigeradas adagas sagradas que – sabemos desde o primeiro filme – são as únicas armas capazes de matar Damien. E assim, os monges planejam seu assassinato. Só que as tentativas de atentados contra o Anticristo é uma pior que a outra. Os planejamentos são péssimos, sempre tentando encurralar o sujeito para furar-lhe as costas com uma adaga. E sempre dá errado, porque esses monges são tão competentes quanto Os Três Patetas e acabam queimados vivos, atingidos por um raio e durante a tentativa mais lamentável, durante uma caçada às raposas, um deles é mortos por um bando de beegles.

Enquanto isso, a trama de A PROFECIA III tenta jogar no balaio o alinhamento de estrelas que traz a segunda vinda de Cristo, portanto Damien ordena que seu secretário pessoal, Don Gordon, mate todos os bebês nascidos na noite do alinhamento celestial. Isso leva a um monte de cenas bizarras envolvendo crianças sendo atropeladas por carros, afogadas e sufocadas. Para apimentar ainda mais a trama, um dos bebês suspeitos de ser o Nazareno é o recém-nascido do próprio Gordon, mas o filme nunca trabalha essa subtrama potencialmente interessante e acaba resolvendo a coisa de qualquer jeito…

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Outro detalhe que diminui A PROFECIA III em relação aos anteriores é que ficamos acostumados com um grande elenco, com rostos famosos. Aqui não temos ninguém de interessante no elenco, e apenas um bando de monges idiotas italianos. As cenas de mortes memoráveis pontuando a trama nos filmes anteriores também não rola muito por aqui. A maioria das mortes dos monges são bem sem graça. Pra não dizer que tudo é horrível nesse departamento, o suicídio de um embaixador no início do filme é um primor!

Sam Neill está bem como Anticristo… Quero dizer, ele se esforça pra fazer bem o que o roteiro exige, é convincente em interpretar o mal encarnado, fazendo preces para o diabo e blasfemando diante de uma cruz. Só que esse Anticristo que o filme o transformou é que não contribui muito para o filme. Basta ver a relação que ele cria com uma reporter pra notar que é um virjão, as tentativas de conquista dele são simplesmente constrangedoras. E o grande final de A PROFECIA III é um reflexo do que se tornou essa figura do Anticristo, com o tal “conflito final” do título se resumindo a Damien correndo por aí nas ruinas de um mosteiro gritando “Venha Nazareno!” até que lhe enfiam a adaga nas costas na maior facilidade… Então Jesus aparece por uns cinco segundos e depois aparecem uma citações bíblicas. E fim. Acabou…

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O diretor de A PROFECIA, Richard Donner, foi o produtor executivo deste aqui, que acabou não sendo mesmo o “Conflito Final”, já que nos anos 90 resolveram fazer mais uma sequência…

DAMIEN: A PROFECIA II (Damien: Omen 2, 1978)

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Com o sucesso de A PROFECIA, era óbvio que os produtores não iriam perder a chance de fazer uma continuação. Só que o diretor do original, Richard Donner, estava muito ocupado fazendo SUPERMAN. Chamaram o britânico Mike Hodges (GET CARTER), que por diferenças criativas acabou sendo demitido e substituído por Don Taylor, que nunca passou de um diretor bate-estaca de estúdio, sem muita personalidade. O roteirista que havia concebido o primeiro filme, David Seltzer, não quis se meter numa continuação, e é muito provável que as pessoas que o substituíram não tivessem na mesma vibe… O resultado de DAMIEN: A PROFECIA II está bem abaixo do anterior. Longe de ser ruim, é verdade, e não faz feio como uma continuação, mas me parece que falta uma certa classe e a sobriedade que faz o primeiro ser aquela maravilha que é.

De qualquer modo, valeu a pena rever DAMIEN: A PROFECIA II para refrescar a memória. E não se preocupem, este texto será bem menor que o anterior…Hehe!

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Damien (Jonathan Scott-Taylor), agora um adolescente, vive com seus tios e um inseparável primo, e não parece se lembrar dos acontecimentos trágicos que ocorreram em A PROFECIA. Ele é enviado para estudar numa escola militar, o que me parece um bom local para colocar o Anticristo, afinal, qualquer ambiente que envolva militares deve ser literalmente o inferno na terra…

O grande William Holden interpreta o irmão de Gregory Peck, que é agora o guardião legal de Damien e dono de um rico conglomerado empresarial. Como no primeiro filme, aos poucos coisas malignas e mortes misteriosas começam a cercar a família do sujeito, que demora a acreditar que possui o filho do demo dentro de casa.

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Desta vez Damien tem um corvo de estimação que faz com que uma tia velhota (interpretada pela grande Sylvia Sydney) tenha um ataque cardíaco e arranca os globos oculares de uma repórter intrometida, que é atropelada por um caminhão (numa das piores cenas de atropelamento que eu já vi…). Há também uma boa sequência de afogamento num lago gelado, onde um sujeito fica preso debaixo do gelo… Todas essas cenas ainda dão impressão de acidentes e a ambiguidade que havia em A PROFECIA. Mas só até determinado ponto. Depois, A PROFECIA II abre as pernas para o sobrenatural e deixa claro que uma força diabólica é que está eliminando os desafetos do garoto. A sequência mais marcante é quando um médico é cortado ao meio pelo cabo de um elevador. A cena do trem também é bem tensa e explicita o mal de Damien e o final, mais uma vez niilista, é especialmente memorável.

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Uma das coisas que gosto em A PROFECIA II é que é mais focado em Damien, e é interessante acompanhá-lo nas descobertas de sua verdadeira natureza. Mas me parece que o filme não consegue desenvolver completamente a complexidade desse processo em todo o seu potencial, já que Damien basicamente aceita que ele é o Anticristo muito fácil, sem afetar muito sua vida adolescente. O grito perturbador na cena em que ele derrete o cérebro de seu primo é a única sequência que trabalham um pouco isso. Um outro problema é que por mais focado em Damien, A PROFECIA II apresenta personagens demais, alguns totalmente desnecessários para o que realmente interessa na trama… Até mesmo o Holden acaba sendo pouco aproveitado, longe de ter a força que Peck teve no filme anterior.

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Mas ainda temos a brilhante trilha de Jerry Goldsmith pontuando alguns momentos, e o elenco mais uma vez merece destaque. Lee Grant faz a tia defensora de Damien. O grande Lance Henriksen também faz um bom trabalho na sua participação, Scott-Taylor se sai bem como Damien adolescente – com certas expressões faciais de dar calafrios – e, bom, William Holden dispensa apresentações. Como disse no texto do primeiro filme, Holden recusou o papel que acabou parando nas mãos de Peck porque aparentemente não gosta de filmes de horror e não queria trabalhar em um. Ainda bem, não dá pra pensar em A PROFECIA sem o Peck. Mas como o original foi um enorme sucesso, resolveu encarar a continuação. Valeu também, entrega um ótimo trabalho, mas merecia um roteiro melhorzinho.

Sem a carga atmosférica aterradora, a elegância da direção de Donner, fica difícil comparar os dois filmes. A PROFECIA II perde feio. Mas ainda é um bom horror, com algumas boas atuações e momentos de tensão e mortes que fazem a sessão não virar um desperdício. Veremos como vai ser o terceiro agora…

A PROFECIA (The Omen, 1976)

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Revi depois de séculos A PROFECIA. Filmaço demais… Elenco de primeira, produção impecável, a trilha sonora de Jerry Goldsmith, sequências aterrorizantes antológicas… Além de ser um filme que possui todas as características de um horror específico de classe e elegância no qual havia começado a surgir em meados dos anos 60, quando o gênero finalmente foi levado à sério pelos grandes estúdios após o sucesso de obras como O BEBÊ DE ROSEMARY e O EXORCISTA.

E foi depois de assistir ao clássico de William Friedkin que o produtor Harvey Bernhardt teve a ideia de realizar uma obra de horror com bases religiosas, mas que pudesse bater de frente com O EXORCISTA. Sim, o cara não queria apenas aproveitar o sucesso do horror de Friedkin, mas produzir uma obra que tivesse a mesma importância no gênero.

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Quando Bernhardt se aproximou do roteirista David Seltzer (A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE) com a ideia de fazer um horror religioso, o roteirista ficou relutante porque sequer havia lido a Bíblia na vida. Mas foi exatamente por aí que ele começou sua pesquisa, um material pelo qual acabou se tornando fã. Seltzer ficou fascinado especialmente pelo livro de Apocalipse, as passagens que falam do surgimento do Anticristo, o contexto pelo qual ele nasceria, que tipo de família teria, o número da besta, 666, e assim o roteiro de A PROFECIA foi tomando forma.

Demorou seis semanas para Seltzer terminar o script. Bernhardt finalmente pode andar pelos estúdios com o projeto debaixo do braço, mas era sempre recusado com o consenso de que o material era muito assustador… Acabou parando na Warner ainda em 1974, mas quando O EXORCISTA II: O HEREGE entrou no radar da produtora, acharam que A PROFECIA era muito similar e acabou sendo engavetado por um ano, período que se a produtora não começasse os trabalhos, o roteiro ficava livre novamente. E foi o que aconteceu. Curioso que a continuação d’O EXORCISTA só acabou lançado em 1977, um ano depois de A PROFECIA.

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O diretor Richard Donner papeando com o grande Gregory Peck

É que os caras agiram rápido. O próximo movimento foi enviar o roteiro à Richard Donner, que viu potencial na coisa e botou na cabeça que queria dirigir o projeto de qualquer maneira. Donner já era um veterano da televisão na época, mas em produções para cinema ainda não tinha feito nada relevante (o sujeito depois se tornaria um dos grandes artesões de Hollywood, com SUPERMAN e a série MÁQUINA MORTÍFERA no currículo), mas ele e o produtor Alan Ladd Jr. acabaram assumindo à frente da produção de A PROFECIA, sob a batuta da Fox.

Como todo bom e velho set de produção de filmes de horror demoníaco, a coisa parecia meio amaldiçoada e alguns eventos sinistros começaram a ocorrer com membros da equipe e atores durante as filmagens. Vale a pena listar como curiosidade: Gregory Peck e Seltzer, por exemplo, pegaram aviões separados para ir as filmagens na Inglaterra e ambos os aviões foram atingidos por um raio. O mesmo quase aconteceu com Bernhard, que estava em Roma, quando um raio por pouco não lhe atinge a cabeça. Os rottweilers contratados para o filme atacaram seus treinadores. Um hotel no qual Donner estava hospedado foi bombardeado pelo IRA! E o sujeito também foi atingido por um carro enquanto atravessava a rua. Depois que Peck cancelou um vôo para Israel, o avião que ele viajaria caiu, matando todos a bordo…Brrrr Dentre outras coisas do tipo.

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Bom, vamos ao filme. Na trama de A PROFECIA, o filho do embaixador americano, Robert Thorn (Gregory Peck) morre no parto. Para evitar o sofrimento da mulher (Lee Remick), ele acaba adotando ilegalmente um menino de um padre que estava no local, e lhe dá o nome de Damien (Harvey Stephens) para criar como seu próprio filho. O único problema é que o moleque, na verdade, é o filho do Demo, o Anticristo em carne e osso…

Claro que o embaixador não vai acreditar nisso de primeira. Mas então, no aniversário de Damien, sua babá se pendura pelo pescoço na frente de uma infinidade de crianças, um padre que tentava alertar a Thorn que seu filho é o Ziza acaba empalado por um pára-raios, sua esposa quase quebra o pescoço ao “cair acidentalmente”, a cabeça de um fotógrafo que ajuda Thorn é cortada por uma folha de vidro e, por fim, o protagonista encontra um 666 marcado no couro cabeludo do moleque. Aí sim, Thorn finalmente está convencido de que seu filho é o Anticristo.

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E uma ideia que gosto neste primeiro filme da série A PROFECIA é que Damien é muito novo para entender sua essência maligna, que ele é o Anticristo, o terrível mal que causa às pessoas. Ele é simplesmente controlado por uma força diabólica e inocentemente não sabe. O que faz do personagem de Peck ainda mais complexo, por carregar o peso da culpa em tentar fazer algo bom para sua esposa, mas que se torna também o seu principal pecado.

Originalmente, o roteiro de Seltzer era bem mais explícito no tom sobrenatural, com direito à criaturas demoníacas aparecendo na tela. Mas decidiram que o roteiro precisava de uma pequena “podada” e chegaram à conclusão de que o filme deveria ser o mais realista possível, que o horror deveria vir da paranoia de um pai em relação ao filho e todos os eventos aterrorizantes deveriam ter uma ambiguidade. A PROFECIA se constrói de modo a encorajar a dúvida no espectador… Será que foi um acidente, uma coincidência, ou foi mesmo obra do tinhoso? Até que se chegasse no limite… É meio que uma recusa, no bom sentido e para benefício do filme, do uso de elementos sobrenaturais para deixar o espectador decidir se o protagonista está louco ou se há realmente algo demoníaco no garoto. Todas as mortes do filme podem ser plausivelmente explicadas e nunca se escancara para o fantástico. As continuações não tiveram a mesma sensibilidade e eliminam qualquer vestígio de ambiguidade.

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Mas nada impede de termos alguns momentos aterrorizantes, como o ataque dos babuínos no carro da senhora Thorn; a sequência que Thorn e o fotógrafo vão num cemitério e acabam rodeados de rottweilers; ou toda a sequência final em que Thorn precisa tirar Damien de casa e sacrificá-lo numa igreja, mas não sem antes encarar a babá (Billie Whitelaw), uma adoradora do Diabo que morreria antes de deixar que Thorn faça qualquer mal à criança…São alguns exemplos de gelar a espinha.

No elenco, depois que Charlton Heston, William Holden (que ironicamente estrelou a continuação em 1978, DAMIEN: THE OMEN II) e Roy Scheider recusaram o papel, Gregory Peck achou que seria uma boa aceitar fazer um pequeno filme de terror e tentar se libertar de um trauma pessoal que estava vivendo depois do suicídio de seu filho. E Peck é absolutamente vital para o impacto de A PROFECIA. É um astro de longa data mais conhecido por sua interpretação de figuras de autoridade reconfortantes, como o advogado em O SOL É PARA TODOS e agora o vemos aqui, precisando empunhar uma adaga mística para matar o Anticristo, que por um acaso é um moleque que ele criou… À medida que seu personagem passa por uma transformação gradual de sólida integridade à crescente paranoia e medo, o filme se aprofunda num arrepio palpável. É impossível imaginar o mesmo impacto com outro ator.

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Todo o elenco merece destaque. A adorável Lee Remick (ANATOMIA DE UM CRIME) é a escolha perfeita como a esposa de Peck, e embora seu papel não permita tanto tempo de tela, ela interpreta a desintegração mental gradual da personagem muito bem. David Warner (STRAW DOGS) tem uma boa participação como um fotógrafo que se depara com um fenômeno estranho e resolve ajudar o protagonista. Acrescenta muito a um personagem que certamente não teria muito peso na trama, mas acaba tendo uma química forte com Peck. Billie Whitelaw está absurdamente sinistra como a babá do Inferno, enquanto Patrick Troughton chama a atenção como o padre perturbado que avisa Thorn sobre o perigo iminente. Leo McKern e Martin Benson também brilham em pequenos papéis.

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Um dos mais memoráveis, no entanto, é o pequeno Harvey Stephens como Damien. É um belo retrato da inocência e da malevolência num rosto angelical, e ele se mostra muito hábil em lidar com as diferentes facetas de seu personagem.

A longa experiência de Richard Donner na televisão deu a ele as condições que ele precisava para trazer substância para o projeto, mas também mostra um tremendo talento para o artesanato visual, fazendo uso inspirado da tela larga. Sua abordagem sensata à história, mais focada no clima e na tensão atmosférica impede também que o filme se torne grosseiro ou descambe para o exploitation, e até mesmo as célebres cenas das mortes, como o empalamento do padre e a decapitação do fotógrafo em câmera lenta ao estilo Peckinpah, são tratadas com bom gosto e moderação.

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Donner também demonstra muita noção de ritmo e conduz o filme num compasso lento mas sem excessos, sem tirar o ânimo do espectador em momento algum ou perder o foco da tensão da trama. E não dá pra terminar este texto sem mencionar a maravilhosa trilha sonora de Jerry Goldsmith, que acabou levando o Oscar daquele ano, desbancando Bernard Herrmann com sua trilha para Taxi Driver. Um canto coral apocalíptico arrepiante e poderoso que se encaixa perfeitamente no tom do filme. E Donner soube como fazer tudo funcionar lindamente.

O filme teve três continuações, as duas primeiras, DAMIEN: A PROFECIA 2 e A PROFECIA III: CONFLITO FINAL foram parar no cinema, e uma última, mais obscura, OMEN IV: THE AWAKENING foi feita para a TV já nos anos 90. Preciso rever a parte II e III para emitir qualquer opinião, mas essa quarta parte nunca encontrei para ver e me parece um produto bem picareta tentando resgatar a série… Mas só vendo mesmo pra saber.

Recentemente, A PROFECIA passou na tela grande, nesses clássicos que a rede Cinemark exibe mensalmente. Eu acabei perdendo, vê-lo no cinema provavelmente teria um impacto ainda maior. Mas fica a recomendação de um grande filme de horror dramático e apocalíptico que merece sempre ser visto e revisto.

RACE WITH THE DEVIL (1975)

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Os prazeres da descoberta cinéfila são sempre renovadores, especialmente quando se trata de bons exemplares do exploitation americano setentista que hoje quase todo mundo não dá a mínima, como é o caso de RACE WITH THE DEVIL, de Jack Starrett. Um híbrido de ação com horror que é um filmaço. Na verdade, a “descoberta” deste filme específico vai ser de quem ainda não conferiu, porque eu pessoalmente já tive esse prazer há alguns bons anos, mas desde então me pego revendo essa pérola. Então para começar bem o fim de semana, a dica é RACE WITH THE DEVIL, que saiu aqui no Brasil como CORRIDA COM O DIABO.

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Na trama, os bons amigos Roger (Peter Fonda) e Frank (Warren Oates) planejam as melhores férias de suas vidas. Acompanhados pelas suas respectivas mulheres, Kelly (Lara Parker do seriado DARK SHADOWS) e Alice (Loretta Swit, “Hot Lips” do seriado MASH), os dois casais enchem o luxuoso trailer de Frank de cerveja e outros mantimentos e caem na estrada para uma viagem até o Colorado. Num trecho rural do Texas, eles acham um ponto para estacionar e descansar durante a noite. Sob a lua cheia os dois amigos vão à beira de um riacho, jogam conversa fora enquanto enchem o bucho de álcool, quando veem uma enorme fogueira sendo acesa do outro lado do rio.

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Observando a cena de forma, digamos, clandestina, Frank e Roger a princípio pensam que estão testemunhando uma boa e velha putaria de hippies libertinos; várias mulheres peladonas brincando em volta do fogo fazem com que os dois disputem jovialmente os binóculos. Só que a diversão se transforma em horror quando uma moça é esfaqueada por uma figura com uma máscara bizarra em algum tipo de sacrifício humano ritualístico. Os dois sujeitos borram nas calças, metaforicamente falando, e decidem tirar o trailer de lá antes que sejam vistos. Mas é tarde demais – um bando de adoradores do Diabo já está se espalhando pelo rio, correndo direto na direção da dupla.

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Depois da fuga, os casais vão até a delegacia de polícia mais próxima para relatar o que aconteceu. O amável Sheriff Taylor (veterano ator R.G. Armstrong) investiga devidamente o local, mas Frank começa a suspeitar de algo. A força policial local parece tranquila demais, até irreverente eu diria, sobre um possível assassinato de uma jovem numa floresta no meio da noite. O xerife sugere que hippies “fumaram umas cocaina”, estavam de brincadeira e que os dois amigos deve ter se confundido com alguma encenação… Mas aos poucos, vários sinais misteriosos vão sendo deixados aos casais protagonistas, que parecem indicar exatamente o contrário do que a polícia pensa. Não exatamente certo em que acreditar, o quarteto continua suas férias, deixando para trás a horrível experiência daquela noite. Mas parece que nem todo mundo quer “virar essa página”…

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RACE WITH THE DEVIL é uma miscelânea de temas e gêneros muito bem combinados. Temos uma pitada de horror rural do início dos anos 70, como DELIVERANCE, do John Boorman, ingredientes do horror satanista e um bocado de thriller/ação para dar um tempero mais excitante. Na verdade, é curioso pensar que toda a ideia do culto satânico poderia ser facilmente substituído por algum outro tipo de atividade nefasta – contrabando de drogas, escravidão humana, enfim, qualquer coisa – e pouco da trama precisaria ser alterado. Mas o toque de horror dessa mistura de gêneros vem com um gostinho especial, são vários momentos em que as convenções do terror deixam as coisas mais tensas de acompanhar…

A cena do ritual, por exemplo, é bem macabra e os figurantes eram compostos por membros reais de seitas, conforme afirma o diretor Jack Starrett em entrevistas. Se é verdade, eu não sei, só garanto que a coisa toda é uma experiência angustiante. Até porque, em vez de pegar em cheio na jugular, RACE WITH THE DEVIL toma o seu tempo em estabelecer o cenário, em construir os personagens e em aumentar gradualmente o suspense e a tensão.

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A ação mais direta, mais  deflagradora mesmo, não entra em cena até os 15 minutos finais, em uma sequência de perseguição de tirar o fôlego, colocando o trailer dos protagonistas contra um bando de carros e caminhões dirigidos pelos membros da seita. Numa época em que nem se sonhavam nas possibilidades dos efeitos especiais de CGI, é revigorante ver os dublês se arriscando perigosamente ou pirotecnias geradas com explosivos reais em vez de pixels movidos à photoshop. Os carros trombando em alta velocidade no clímax é de encher os olhos e lembram muito o que George Miller faria no seu maravilhoso MAD MAX II, oito anos depois. Não ficaria surpreso se houvesse algum tipo de influência deste aqui sobre a obra do australiano.

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RACE WITH THE DEVIL era inicialmente para ser dirigido por Lee Frost, especialista em filmes baratos daquele período, mas acabou substituído pelo Starrett, que era outra figura que contribuiu bastante com o cinema exploitation. Frost chegou a receber crédito como roteirista, ao lado de Wes Bishop, mas todas as cenas que rodou foram refilmadas por Starrett. O sujeito tinha um estilo eficiente e direto de filmar, sem muita frescura, não se vê virtuosismo e beleza estética nos filmes do Starrett, embora ele consiga extrair sempre algo interessante do seu material. E RACE WITH THE DEVIL é um de seus momentos mais inspirados, sem duvida.

Para quem não sabe, o Starrett também era ator, participou de muita produção de baixo orçamento, mas é mais conhecido por ter vivido o policial sádico que acerta umas pancadas em John Rambo em RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR. O mesmo que cai do helicóptero, que balança quando Rambo acerta uma pedrada… Enfim, só uma curiosidade.

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Por último, vale destacar a presença de dois dos mais significativos nomes do cinema setentista encabeçando o elenco, Fonda e Oates, que estão excelentes como os amigos tranquilos, bem de vida, que só querem um pouco de paz e diversão em família e acabam metidos numa confusão macabra em que precisam chegar aos extremos, pegar em armas e atirar para matar. Já o lado feminino infelizmente acaba não tendo muito destaque, o que é estranho considerando que o movimento feminista estava em plena atividade na metade dos anos setenta; as esposas de Roger e Frank não passam de mulherzinhas completamente indefesas que se põem a gritar e a chorar a qualquer circunstância misteriosa.

Tirando isso, filmaço! RACE OF THE DEVIL Foi lançado em DVD por aqui, mas se não encontrar, procure nos torrents, foda-se, encontre alguma maneira de conhecer este clássico do cinema grindhouse.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.9: PERCHANCE TO DREAM (1959)

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Primeiro episódio da série ALÉM DA IMAGINAÇÃO que não foi escrito pelo seu criador, Rod Serling. Charles Beaumont, que viria a escrever algumas obras em parceria com Roger Corman, como ORGIA DA MORTE e THE INTRUDER, ficou responsável por PERCHANCE TO DREAM, que conta a história de Edward Hall (Richard Conte), um sujeito que está acordado há mais de 80 horas quando o episódio começa. Diagnosticado ainda muito jovem com uma doença cardíaca degenerativa, ele tem medo de adormecer e que um pesadelo recorrente envolvendo um cenário surreal e uma mulher misteriosa (Suzanne Lloyd) seja suficientemente chocante para fazer seu coração parar.

O capítulo começa com Hall procurando ajuda de um psiquiatra, o Dr. Eliot Rathmann (John Larch), a quem ele conta sua história. E a partir disso já não sabemos o que é relato, o que é sonho, o que é realidade, mas ao mesmo tempo temos uma das sequências visuais das mais impressionantes de toda a série.

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PERCHANCE TO DREAM foi uma produção agraciada com as pessoas certas em seus devidos lugares. Complementando a história psicologicamente aterrorizante escrita por Beaumont, havia um grupo de atores perfeitamente adequados para dar vida a este pequeno conto. O pequeno elenco incluiu três excelentes nomes, com Richard Conte, mais conhecido como o mafioso Barzini em O PODEROSO CHEFÃO, entregando uma performance especialmente angustiante como o condenado Edward Hall. John Larch, que viria aparecer em outros episódios da série, como DUST e IT’S A GOOD LIFE, tem uma atuação sutil num personagem muitas vezes estereotipado. E a atriz canadense Suzanne Lloyd que captura a essência da sedutora misteriosa que perturba os sonhos de Hall.

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O diretor do episódio, Robert Florey, não era nenhum estranho no gênero de mistério e horror, tendo co-roteirizado FRANKENSTEIN, de 1931, dirigido por James Whale (inicialmente Florey era cotado para dirigir), além de ter adaptado e dirigido OS ASSASSINATOS DA RUA MORGUE, de Edgar Allan Poe, com o o Bela Lugosi, e que eu já comentei por aqui. Florey faz um trabalho maravilhoso em PERCHANCE TO DREAM, conferindo à sequência do cenário alucinatório de pesadelo e imagens oníricas uma verossimilhança que consegue manter a atenção do espectador ao longo do ritmo acelerado e curto do episódio. É como se estivéssemos diante de alguns dos maiores pesadelos filmados do Expressionismo Alemão.

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E temos a estreia de um roteirista para dar uma nova cara à esta primeira temporada. Talvez o aspecto mais importante que Beaumont trouxe para a série tenha sido a propensão à fantasia sombria, às histórias de horror, quase sempre de natureza psicológica, que exploravam o aspecto mais sombrio da mente humana. Enquanto Serling trabalhava em grande parte dentro dos limites reconhecíveis da fantasia (robôs, viagens no tempo, medos coletivos, como a solidão, etc.), Beaumont chegou com um tratamento singular da fantasia e do horror psicológico. Com exceção de Serling, Beaumont foi o mais ativo roteirista de ALÉM DA IMAGINAÇÃO, tendo assinado 22 scripts ao longo das temporadas. E PERCHANCE TO DREAM é um dos melhores exemplos do processo imaginativo único de Beaumont.

[CAGESPLOITATION] MOM AND DAD (2017)

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Brian Taylor e Mark Neveldine são os diretores que formaram uma das parcerias mais interessantes do cinema recente. Há quem não goste, claro, mas eu acho animal o estilo de câmera frenético e montagem nervosa dos caras, que entrava em perfeita harmonia caótica com o tipo de histórias que queriam contar em obras como CRANK, CRANK 2 e GAMER. Um cinema cheio de influências pop de gosto duvidoso, mas que de alguma maneira acabou dando certo. O último filme da parceria foi MOTOQUEIRO FANTASMA 2 – O ESPÍRITO DA VINGANÇA, que eu nunca vi, e logo depois, não sei dizer os motivos, cada um seguiu seu caminho… Neveldine fez um terror, EXORCISTAS DO VATICANO, em 2015, e Taylor lança agora seu primeiro trabalho solo, MOM AND DAD, com Nicolas Cage (que já tinha trabalhado com ele em MOTOQUEIRO) e Selma Blair.

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E é assim que a gente acaba descobrindo o lado talentoso da dupla. Quero dizer, eu não vi ainda EXORCISTA DO VATICANO, mas MOM AND DAD possui tanta consonância com os outros filmes que Taylor esteve envolvido, com todas as características convulsivas dos seus trabalhos anteriores, que não dá pra imaginar o Neveldine fazendo algo parecido… A trama niilista, politicamente incorreta e ridiculamente exagerada, brinca da forma mais cruel possível com a ideia de uma histeria psicótica em massa de origem desconhecida que faz com que os pais se voltem violentamente para seus próprios filhos, sem que o filme lhe dê qualquer explicação dos motivos que tenham causado isso. Alguma estática aleatória aparece dos aparelhos eletrônicos que precedem esse comportamento, mas nunca diz o que é ou como isso parece afetar esses pais. Nicolas Cage e Selma Blair são um casal e têm dois filhos, uma adolescente e um menino lá pelos seus dez anos. O filme mexe com todo um simbolismo da figura paterna/materna, dialética pais x filho, toda a essência que envolve ser pai/mãe e as transformações da vida diante do nascimento de um filho, questões que obviamente Taylor não tem nada de profundo para dizer… E não é este o ponto.

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O que vale são sequências como a de Cage destruindo uma mesa de bilhar, usando uma camisa do Misfits, enquanto canta Pokey Hockey e depois recita um monólogo surtadíssimo sobre crise da meia idade… Ah, Nicolas Cage finalmente livre e solto para ser tudo que o Cage pode ser em todo seus excessos e resplendor. Obrigado, Brian Taylor, por ser uma alma tão demente. O plano num hospital onde vários pais observam seus recém-nascidos e não vêem a hora de colocar as mãos nas crianças e, sei lá, destroçá-las… Também é um pequeno aperitivo do humor perverso de Taylor nessa crônica sobre relações paternas… E claro que uma das coisas mais geniais que veremos este ano é quando surge o velho Lance Henriksen em cena, empunhando uma faca, querendo matar seu filho, que é o personagem de Cage. MOM AND DAD é divertido pra cacete, só tem 83 minutos, um fiapo de trama, mas várias situações, gags e incidentes que fica difícil tirar os olhos da tela. E, obviamente, qualquer um que seja fã de Cage sendo Cage vai tirar muito proveito disso aqui.

A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water, 2017)

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Eu já vinha elogiando o novo filme de Guillermo Del Toro, A FORMA DA ÁGUA, antes mesmo de assistir. Por que? Porque Del Toro é um sujeito legal e eu gosto de praticamente toda a sua filmografia, exceto, talvez, alguns momentos bestas de PACIFIC RIM e o primeiro HELLBOY, mas que são divertidos de qualquer forma.

O negócio é que Del Toro é um bom contador de histórias de horror e sabe criar “contos de fadas” sombrias para adultos como poucos atualmente. É tudo o que o Tim Burton deveria estar fazendo antes de se perder no meio do caminho… Enfim, premiado no Globo de Ouro e outros eventos, indicado à vários Oscars, é admirável que um diretor que sempre esteve ligado a cinema de gênero esteja tendo este reconhecido com um filme que é, basicamente, de monstro. E agora que assisti A FORMA DA ÁGUA posso afirmar que o material é dos bons.

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Não vou entrar na polêmica recente dos indícios de que A FORMA DA ÁGUA seja um plágio de um curta holandês realizado em 2015 por estudantes de cinema. Até acredito que tenha plagiado mesmo, mas foda-se. Não diminui a minha admiração pela obra do mexicano. Só acho que não teria mal algum assumir de boas as fontes de inspiração. A FORMA DA ÁGUA não deixa de ter a assinatura autoral de Del Toro com todo seu imaginário fantástico. O filme segue a mesma linha de um LABIRINTO DO FAUNO, a obra-prima do homem, ou seja, é uma fábula realista ou uma crônica fantasiosa, você escolhe… No caso deste aqui, um dos elementos principais é a descoberta do amor nas mais inesperadas circunstâncias. E o fato do par romântico da protagonista ser uma criatura híbrida metade homem, metade peixe, demonstra que, no universo de Del toro, o amor é cego.

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E pelo visto, também é mudo. Como Elisa (Sally Hawkins), a nossa heroína. Ela trabalha como faxineira num laboratório governamental extremamente secreto por volta da década de 50 em plena paranoia comunista e tensão da Guerra Fria. Um dia, um humanoide anfíbio é trazido ao local para observação e experimentação. E o responsável pelo laboratório, Strickland (Michael Shannon) mantém a criatura de forma dura, sempre com um prazer sádico em dar-lhe umas eletrocutadas com seu bastão de choque sempre que pode. Elisa demonstra bondade pela criatura e até desenvolve uma, er… queda por ele. Quando descobre que Strickland pretende matar o monstro, ela convence um um vizinho (Richard Jenkins) a elaborar um plano para tirar a criatura do local. Naturalmente, isso coloca Strickland em maus lençóis e ele não vai parar enquanto não colocar as mãos na criatura.

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A FORMA DA ÁGUA é uma mistura sem qualquer vestígio de costura que Del Toro joga na receita. Filmes de monstro, história de amor proibida, conto de fadas, e funciona em cada uma dessas convenções com uma narrativa fluída, uma direção inspirada com uma câmera que se move de forma graciosa e emoldura quadros belíssimos realçados por um décor bonitão e colorido. A direção do homem tá mesmo de encher os olhos e não foi a toa que Del Toro recebeu prêmios pelo seu trabalho.

A maneira como Del Toro constrói os personagens me agrada bastante, como faz com Elisa logo no início, mostrando sua rotina masturbatória… Você tem que respeitar uma mulher que toca uma siririca antes de sair para o trabalho. É exatamente o tipo de detalhe que me faz apaixonar por um personagem e que, neste caso, a torna tão humana e acessível ao público. Uma coisa que adoro, também, é o tratamento sem julgamento infantil de Del Toro com a relação que se estabelece entre Elisa e o monstro. Quero dizer, não fica nos olhares, nas insinuações, no “disse-me-disse”, a coisa vai realmente pro sexual. A mulher quer dar pro monstro e isso é lindo. E faz de tudo pra viver essa paixão… Claro, era mais fácil ter arranjado um labrador.

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Hawkins está ótima e Doug Jones, que veste a fantasia do anfíbio, entrega um desempenho de expressão corporal incrível – aliás, nem preciso comentar o trabalho de maquiagem, não é? Simplesmente genial. Richard Jenkins e Michael Stuhlbarg são desses caras que nunca decepcionam, seus personagens são encantadores. E Octavia Spencer é muito carismática. Agora, o grande destaque só poderia ser Michael Shannon, que domina a tela em cada segundo em cena. Ele já tinha feito papeis de pessoas maldosas e assustadoras antes, mas esta merda aqui é um passo à frente, o sujeito nunca esteve tão maníaco e repugnante e nos coloca a refletir sobre a natureza de ser um monstro. Impossível tirar os olhos da tela com sua presença…

Eu tenho o péssimo costume de escrever sobre alguns filmes como se fossem o último biscoito do pacote… Apesar da rasgação de elogios, A FORMA DA ÁGUA não chega nem perto de ser uma obra-prima e O LABIRINTO DO FAUNO continua sendo meu trabalho favorito do Del Toro… Mas é uma fita que merce alguns elogios, e é sempre uma experiência prazerosa poder ver um trabalho do Del Toro em sua melhor forma. Por enquanto, é o filme que tem a minha torcida para o Oscar…

DOLPH LUNDGREN EM VOD – A2 FILMES

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Chegou esta semana nas plataformas digitais pela A2 FILMES, um dos filmes mais divertidos que o bom e velho Dolph Lundgren protagonizou nos últimos anos: CAÇADOR DE DEMÔNIOS, de Mike Mendez, um divertido híbrido que mistura horror com ação e boa dose de humor.

Como apreciador assumido do trabalho do sueco, é preciso confessar que tem sido uma jornada árdua acompanhar os lançamentos do sujeito ultimamente. A cada cinco filmes, quatro são lixos completos. E o pior é que Dolph resolveu, a essa altura da carreira, acompanhar a frequência de um Eric Roberts da vida. O cara é incansável. São vários projetos para serem lançados nos próximos meses e nos resta apenas torcer para que não sejam horrendos. Para nossa sorte, de vez em quando aparece um CAÇADOR DE DEMÔNIOS e nossas esperanças são renovadas.

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Nos últimos dois anos, CAÇADOR DE DEMÔNIOS recebeu vários elogios em festivais de terror nos EUA. Portanto, nesse mar de variedades de filmes do velho Dolph, este definitivamente era o que mais me chamou a atenção na época. Primeiro, Dolph não fez muitos filmes de horror em sua carreira, muito menos comédias (apesar de um de seus filmes recentes ser UM TIRA NO JARDIM DE INFÂNCIA 2, um desastre, mas que demonstra que Dolph leva jeito num lado cômico). Em segundo lugar, gostei do conceito de CAÇADOR DE DEMÔNIOS. Lundgren desempenha a função indicada no título nacional, um excêntrico caçador de demônios enfrentando um ser que salta de corpo a corpo quando morto. No caso, se você matar a pessoa possuída, então você acaba possuído.

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Na trama, um mal antigo é desencadeado em uma pequena cidade do Alasca, deixando uma trilha de morte e destruição à medida em que esse espírito do passa de hospedeiro a outro. A única esperança é o caçador de demônios Jebediah Woodley (Dolph) que já havia enfrentado esse mesmo terror antes. Continuar lendo

BLOOD FOR DRACULA (1974)

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O multi-artista visual Andy Warhol é mais conhecido pelos quadros das latas de sopa Campbell’s e de outros trabalhos que se tornaram ícones do movimento Pop Art. Mas muita gente esquece que o sujeito investiu boa parte de sua carreira artística como diretor e produtor de cinema. Claro, os filmes que dirigia eram obras conceituais e experimentais, algumas realmente realizadas para serem exibidas em galerias de arte, como SLEEP, por exemplo, que tem umas cinco horas de duração e que mostra um homem dormindo e nada mais.

No entanto, como produtor Warhol associou-se ao talento de alguns diretores que estavam na onda do cinema underground, em especial um sujeito chamado Paul Morrissey, que foi responsável por criar, junto com Warhol, uma boa safra de filmes da contracultura americana dos anos 70, como a trilogia TRASH, FLESH e HEAT. Mas uma das coisas que mais gosto dessa parceria são as releituras bizarras de clássicos do horror, de histórias protagonizadas por monstros ícones. São duas belezinhas que valem a pena conhecer: FLESH FOR FRANKENSTEIN e o meu filme favorito de Drácula, BLOOD FOR DRACULA, que revi agora no início do ano.

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BLOOD FOR DRACULA é uma variação bem atípica da criação de Bram Stoker. O filme inicia na Romênia por volta de 1920 com Udo Kier vivendo um Conde Drácula exótico, moribundo, fraco e necessitado de sangue de virgens, já que não consegue arranjar mais moças puras para chupar o cangote. É, então, convencido pelo seu criado, Anton, encarnado pelo esquisito Arno Juerging, para ir à Itália, país religioso que preza pelo cabaço de suas filhas, onde, teoricamente, seria mais fácil de arranjar o “alimento”, bem diferente da Romênia, onde a virgindade é escassa e Dracula já está visado como perigo para jovens distraídas. Continuar lendo

DVD REVIEW: KRAMPUS – O JUSTICEIRO DO MAL (2013); A2 Filmes

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E vem chegando o natal, aquele momento bonito de celebrar uma data tão especial, reunindo a família em volta da árvore de bolinhas (que você vai ter uma puta preguiça de desmontar depois), mastigar um pedaço de peru assado com uma taça de champanha e assistir aquele filme temático enquanto o espírito natalino invade os ambientes…

Agora, se quiserem que as coisas sejam um bocado diferente este ano, num clima de mau gosto e também de ódio e malevolência (já que o restante de sua família vai desejar sua cabeça numa estaca), a dica é arrumar o DVD de KRAMPUS – O JUSTICEIRO DO MAL! Você não vai se arrepender! 😀

Pode ser que aqui no Brasil a figura mitológica de Krampus não seja tão conhecida, mas em várias partes do mundo faz parte do folclore natalino. Em suma, trata-se do irmão malvado do Papai Noel, uma criatura que, na época de Natal, sequestra e pune as crianças que se comportaram mal durante o ano, em oposição ao bom velhinho, que dá presente às crianças que foram boas, fizeram o dever de casa e obedeceram aos pais.

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Nos últimos anos tem saído vários exemplares de horror que tem Krampus como figura central, uma autêntica onda de krampusploitation! KRAMPUS – O JUSTICEIRO DO MAL foi um dos primeiros dessa leva recente. Só que, ao contrário de alguns concorrentes, digamos que a produção não é das mais abastadas. Na verdade, estamos diante de um autêntico filme de micro orçamento (custou em torno de vinte mil dólares), o que significa muita coisa… Claro, quem me acompanha há mais tempo sabe que eu adoro esses filmes mixurucas produzidos em fundo de quintal, cujas imagens estão no mesmo nível de vídeo caseiro de festinha de quinze anos dos anos 90… E é nesse sentido que o filme pode arruinar seu natal, não é para todos os gostos, mas os “privilegiados” por um certo apreço por este tipo de tralha vão se deliciar. Continuar lendo

LEATHERFACE (2017)

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Alexandre Bustillo e Julien Maury, a dupla francesa por trás de À L’INTÉRIEUR, um dos melhores filmes do chamado new french extremity, que surpreendeu os fãs de horror na década passada, e de LIVIDE, uma aterrorizante e atmosférica releitura do conceito de “casa mal assombrada”, são definitivamente dois talentos do gênero para se acompanhar de perto. Este ano eles lançaram LEATHERFACE, uma produção americana que explora o universo d’O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA e se você for fã do trabalho dos caras, vai querer ver isso…

Mesmo que o filme não chegue nem perto de ser uma obra-prima, certamente não fosse nem necessário existir – um prequel que mostra as origens do famigerado assassino que Tobe Hooper nos apresentou em seu clássico de 1974, um dos maiores ícones do gênero – mas é legal, surpreende pela visão brutal do horror da dupla francesa, que conduz com segurança um filme agressivo, violento, macabro (a cena de sexo com o cadáver é um troço bizarro), com bons personagens e performances fortes (Stephen Dorff e Lily Taylor estão muito bem), excelentes efeitos de gore práticos, belo clima e até mesmo uma história convincente com uma origem bem tratada e respeitosa ao personagem do título.

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