DVD REVIEW: A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE (2014); A2 FILMES

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Tsui Hark é desses monumentos do cinema asiático que eu ainda estou descobrindo aos poucos. De uma filmografia de mais de quarenta obras devo ter visto cerca de uma dúzia. É pouco, mas suficiente pra dizer que o homem é um dos diretores mais interessantes em atividade, mesmo que seu trabalho atual não seja do mesmo nível de algumas coisas que fez nos anos 80 e 90. De todo modo, é um nome obrigatório a ser seguido. Por isso, imaginem a minha felicidade quando a A2 Filmes anunciou o lançamento em DVD de um dos melhores trabalhos recentes do sujeito, o espetáculo de guerra A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE

Trata-se de um épico chinês de ação e aventura que não economiza na panfletagem e glorificação do exército chinês, no heroísmo grandiloquente presente ao longo de um conto que celebra a criação das lendas, dos mitos e de como essas histórias permanecem vivas de gerações em gerações.

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O filme começa nos tempos atuais, quando um jovem chinês relembra a famosa Batalha na Montanha do Tigre enquanto viaja de Nova York até à China. História que deve ter sido contada e recontada pelos seus avós incontáveis vezes, e agora nos é mostrada como uma fábula de guerra repleta de exageros e prováveis impossibilidades. O que significa um intencional excesso de bravura visual por parte dos heróis numa overdose de tiros e explosões filmado como espetáculo vertiginoso.

A narrativa, portanto, volta no tempo, logo após a segunda guerra mundial. Os japoneses, rendidos, deixam a China, certos locais se transformam numa terra de ninguém, na qual bandidos enriquecem, juntam arsenais e estocam comida em bases militares de difícil acesso, enquanto pequenos vilarejos são dizimados pela miséria e fome. Na trama, um pequeno grupo do exército de libertação chinês resolve colocar um ponto final na nessa situação, encarando um gigantesco grupo de foras-da-lei, liderados pelo misterioso The Hawk (um irreconhecível Tony Leung carregado de maquiagem), que se esconde numa base secreta praticamente inacessível na famigerada Montanha do Tigre.

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Um dos grandes méritos de Hark sempre foi trabalhar bem o drama e aqui até consegue balancear a emoção da aventura com a tragédia dos soldados diante de uma terra arrasada, diante de um povo que sofre de fome, doenças e perdas. Mas a verdadeira razão para se apreciar uma obra como A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE é mesmo o espetáculo de ação que nos é proporcionado, com o máximo de eventos que podemos imaginar num cenário de guerra nas montanhas geladas da China: escaladas perigosas, avalanches, o fator homem vs natureza, perseguições de esqui, batalhas épicas e até uma sequência impressionante de um dos heróis encarando um imenso tigre feito de uma computação gráfica muito bem feita.

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Se levarmos em consideração ainda que o filme foi rodado em 3D, aí que a coisa vira um carnaval de fragmentos de explosões, sangue e balas em excesso sendo atirados em direção ao público, o que acaba dando um charme a mais. É o espetáculo de ação com seus exageros deliciosos e muito bem orquestrado que a gente sempre espera do Hark.

No final, o diretor escancara de vez suas intensões por trás de um filme de guerra patriótico, oferecendo uma reflexão sobre a criação das fábulas, das histórias contadas pelos antigos, histórias que o tempo, a distância ou mesmo a vontade de transmitir valores se transformaram em lendas, muitas vezes completamente malucas ou inacreditáveis, como a narrada em A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE, que até é inspirada em eventos reais, mas extremamente agradáveis de ouvir por toda a mitologia que as cercam​​.

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Recomendado aos fãs de um bom festival eletrizante e barulhento de ação, A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE já se encontra no acervo da A2 Filmes, através do selo Flashstar, e pode ser encontrado nas melhores lojas do ramo. O filme também se encontra disponível para ser assistido hoje mesmo em plataformas digitais como NOW e Looke. E curta a página de facebook da A2 Filmes para ficar por dentro das novidades.

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THE CUT-THROATS (1969)

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Mais um trabalho do diretor John Hayes, aquele de SWEET TRASH, que postei aqui logo no início do ano. O sujeito é simplesmente um mestre esquecido do exploitation americano. THE CUT THROATS é o filme da vez, um thriller fuleiro, mas muito divertido, de II Guerra Mundial. O plot básico, a princípio, se passa nos últimos dias da guerra numa versão de OS DOZE CONDENADOS da putaria: Um grupo de soldados americanos é reunido para uma missão suicida numa base nazista para roubar os planos de guerra do alemães.

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O filme não enrola muito pra começar, embora logo no início tenha uma sequência totalmente gratuita de um alemão estuprando uma moça que vaga pelo campo, que de tão desnecessária já torna a situação, no mínimo, curiosa. Até porque o “campo” parece mais algum fundo de estúdio na Califórnia… E até onde eu entendo de história, os nazistas não chegaram tão longe… Haha! Mas o planejamento e a execução da missão acontece bem cedo. Os soldados americanos atacam a base e fazem a limpa, eliminam praticamente todos os nazistas no local. Fácil. Só que estamos num exploitation do Hayes, então a missão ou os tais planos de guerra são as coisas que menos importa.

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O fato é que a base também é ocupada por um grupo de moças sapecas que fazem a alegria da moçada. E a narrativa acaba se construindo em blocos de situações dos soldados e seus envolvimentos sexuais com as mulheres, desde um show burlesco até as mais variadas possibilidades dentro de aposentos, numa noite bem agitada.

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Outra coisa que faz THE CUT THROATS andar é que o plano do líder do grupo americano não é exatamente o que ele contou a seu time. Planos de guerra? Porra nenhuma! o sujeito está realmente atrás é de uma fortuna em jóias roubadas e ouro que os nazistas acumularam durante a guerra. E ele não está muito interessado em compartilhar seus ganhos com qualquer um, nem mesmo com seus companheiros de guerra. Continuar lendo

DVD REVIEW: O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO (1956); CPC UMES FILMES

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Grigoriy Chukhray ganharia certa fama internacional em 1959 pelo clássico A BALADA DE UM SOLDADO, seu segundo trabalho. Mas já na sua estreia, com O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO, demonstra um talento ímpar pelos lados do cinema soviético, não apenas como esteta – suas composições visuais são simplesmente extraordinárias – mas também como alguém que entende de emoções humanas. O filme é sobre um romance envolvente e ideologicamente complicado entre duas figuras divididas pela guerra civil russa: uma atiradora de elite do exército vermelho, Maria (Izolda Izvitskaya), e um oficial do exército branco, o tenente aristocrata Vadim (Oleg Strizhenov), que fora capturado pelos primeiros.

Baseado nos escritos de Boris Lavrenyev, o “quadragésimo primeiro” do título refere-se ao número das vítimas deflagradas pelo rifle de Maria. Na verdade, ela matou quarenta e errou o tiro seguinte… Na trama, ela faz parte de unidade derrotada do Exército Vermelho, que vaga em retirada do deserto de Karakum onde, em determinado momento, captura Vadim, que por um acaso sobrevive à tal quadragésima primeira bala de Maria.

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Vadim é um prisioneiro importante. Carrega uma mensagem oral secreta destinada a um general do Exército Branco, então os Vermelhos o mantêm vivo, colocando-o sob a guarda de Maria. Quando finalmente chegam ao Mar de Aral, Maria e outros dois soldados são confiados para levar Vadim num pequeno barco até a sede em Kazaly. Mas o tempo tormentoso vira o barco e apenas Maria e Vadim sobrevivem, náufragos em uma ilha deserta. E o que seria uma situação de extremo desespero, acaba possibilitando o desabrochar do afeto mútuo e proibido que os consumia ao longo da jornada.

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Uma situação que os aproxima, não como inimigos, mas como duas almas apaixonadas, num parágrafo cintilante de uma vida de guerra e violência. Eles compartilham o tempo mais felizes de suas vidas na ilha, apesar da disparidade ideológica que vem à tona em alguns momentos, algo que os coloca em conflito e que devem ajustar e reconciliar por causa do amor.

Considerando o período em que O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO foi realizado, é interessante perceber como Chukhray vai um bocado contra a lógica da propaganda soviética vigente, humanizando a imagem de um oficial do Exército Branco, inspirando o público à simpatizar seu afeto genuíno por uma guerreira do exército vermelho. O desfecho até pode ser entendido como uma façanha heroica da lealdade aos Bolcheviques, quando um barco se aproxima para resgatá-los e Maria toma uma atitude espontânea que elimina qualquer possibilidade de final feliz quando a verdadeira identidade do barco é revelada. Mas não dá para descartar a ideia do fator prejudicial que é seguir um código radical com fanatismo. Na verdade, ao invés de escolher lados, o objeto de repúdio de Chukhray é a própria guerra, um ato diabólico disfarçado de patriotismo com resultados desastrosos.

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O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO foi lançado em DVD no Brasil, numa versão remasterizada belíssima, pela distribuidora CPC UMES filmes e está disponível para compra em sua loja virtual e nas melhores casas do ramo. A mesma distribuidora já lançou por aqui A VIDA É MARAVILHOSA, também do mesmo diretor, e já comentado aqui no blog. E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos. Um acervo obrigatório que vale a pena comprar.

DVD REVIEW: ALEXANDER NEVSKY (1938); CPC UMES FILMES

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Um dos filmes mais importantes do acervo da CPC UMES Filmes é, sem dúvida alguma, ALEXANDER NEVSKY, dirigido por um dos maiores patrimônios que o cinema já criou, o diretor russo Sergei Eisenstein. Embora o filme tenha sido inicialmente concebido como propaganda de guerra, acabou que seu conteúdo foi ofuscado pela técnica. Eisenstein aproveitou algumas de suas próprias habilidades cinematográficas inovadoras para criar uma das mais surpreendentes obras-primas do período e um das mais incríveis batalhas já filmadas.

Na época, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, o então líder soviético Joseph Stalin queria que fosse produzido um filme como ferramenta de propaganda a fim de alertar os cidadãos soviéticos para a crescente ameaça alemã. ALEXANDER NEVSKY surgiu com tais propósitos e conta a história do príncipe Alexander Vasilievich Nevsky que levou os russos a lutar contra o imperialismo teutônico germânico. O ano era 1242, e os Teutons já haviam conquistado uma grande parte do Império Russo, com ataques rápidos e pegando cidades de surpresa. A cidade de Pskov e toda a Rússia ocidental se renderam aos impotentes Teutons, que então colocaram seus olhos em Novgorod, o epítome do progresso da pátria russa no período.

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Os laços entre os alemães alemães do século XIII e a Alemanha nazista do início do século XX são claros, razão pela qual Stalin acabou proibindo ALEXANDER NEVSKY de ver a luz do dia após ter assinado o pacto de não agressão com Hitler. Pacto que foi quebrado em 1941 e Stalin acabou voltando para sua ideia original de apresentar o filme como propaganda de guerra. Era óbvio o quão poderoso o filme era, não só em termos da caracterização dos alemães como animais cruéis e invasores a serem combatidos com violência, que jogam crianças em fogueiras para serem queimadas vivas… Mas também em seu impacto geral como obra cinematográfica. Eisenstein era incapaz de fazer um filme que fosse apenas uma mensagem política e acabou criando uma verdadeira obra de arte.

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Grande parte das atenções de ALEXANDER NEVSKY se concentram na extraordinária sequência de 30 minutos da Batalha do Gelo, na qual o exército de Alexander enfrenta os alemães em um lago congelado. Segundo Eisenstein, em seu livro O sentido do Filme, que eu considero obrigatório, é nesta cena que “o aspecto audiovisual de Alexander Nevsky atinge sua fusão mais completa“. A batalha é um exemplo incrível de encenação, arquitetura da ação e como a combinação de imagem e música pode despertar emoções profundas. As composições visuais são cuidadosamente colocadas em compatibilidade com as notas musicais do compositor Sergei Prokofiev e o resultado é simplesmente magistral em todos os sentidos.

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Em ALEXANDER NEVSKY, Eisenstein demonstra que ele poderia trazer sua visão de autor mesmo trabalhando dentro dos rígidos códigos do estalinismo. Embora ele tenha sido posteriormente humilhado e exilado. Eisenstein prova aqui que o seu brilho não podia ser esquecido tão cedo. E ainda hoje seu trabalho técnico impecável impressiona. É por isso que o filme faz parte do catálogo da CPC UMES Filmes e pode ser adquirido na loja virtual da distribuidora. E não deixe de curtir a página deles no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

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BAT*21 – MISSÃO NO INFERNO (1988)

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Voltando ao Gene Hackman casca-grossa dos anos 80. Recapitulando, já falamos aqui de DE VOLTA PARA O INFERNO, ENTREGA MORTAL e O ALVO DA MORTE. Ainda vou comentar mais uns três ou quatro, mas por enquanto vamos de BAT*21 – MISSÃO NO INFERNO.

Curioso é que em 2001 tivemos um filme – mediano, pelo que me lembre – chamado ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS, dirigido por John Moore, no qual Gene Hackman é um almirante que mantém comunicação com o personagem de Owen Wilson ajudando-o a encarar os desafios de estar sozinho literalmente em território inimigo numa guerra. Já este BAT*21, de Peter Markle (VEIA DE CAMPEÃO), é o Hackman quem passa uma situação difícil, vivendo um tenente coronel na Guerra do Vietnã que tem o seu avião abatido por um míssil e acaba sendo o único sobrevivente numa região repleta de soldados vietcongues.

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Hackman é Hambleton, um especialista em armas que tem informações que os vietcongues desejam, e eles sabem que o sujeito está vivo em suas florestas após abaterem seu avião. A coisa esquenta ainda mais, pois Hambleton sabe também que a área em que ele se encontra está prestes a ser bombardeada pelos americanos e por isso precisa sair dali urgentemente. Trabalhando com um piloto de reconhecimento da Força Aérea que sobrevoa o local, o capitão Bartholomew Clark (Danny Glover), eles mapeiam uma rota de fuga antes que seja capturado ou que vá pelos ares…

Baseado num livro de William C. Anderson, a partir de uma história verídica (embora um bocado diferente, já que na época das filmagens o fato ainda era classificado como confidencial), BAT*21 é eficiente ao mostrar um tenente coronel, cuja participação em guerra se dá mais em planejamentos atrás de uma mesa do que combatendo em campo, encalhado no meio da selva rodeado de inimigos. Ajuda muito, portanto, um ator de peso como Hackman em convencer a transformação do seu personagem, que acaba forçado a se defender – e a matar – para manter a pele intacta.

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E esse talvez seja o ponto mais notável de BAT*21, que não é um filme de guerra com ação exagerada e que nunca tenta glorificar soldados americanos no Vietnã. Em vez disso, mostra uma aventura de perspectiva mais humana, o que acaba sendo bem mais contundente quando se trata de perdas de vidas, do ato de matar, e como esse tratamento torna alguns momentos bem mais brutais. Como toda a sequência em que os vietcongs capturam dois pilotos de helicópteros que tinham objetivo de resgatar Hambleton. Mas quando os tiros precisam comer solto, o diretor Peter Markle manda bem em criar um espetáculo explosivo, classudo e truculento. Continuar lendo

DE VOLTA PARA O INFERNO (Uncommon Valor, 1983)

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Daqueles filmes que você para e dá aquela refletida… “Por que raios eu não assisti essa merda antes?”  DE VOLTA PARA O INFERNO é o típico de filme de ação/guerra dos anos 8o que eu já deveria ter visto e não sei porque ainda não o tinha feito. Possui uma história sólida, relevante, pessimista de um certo ponto de vista, ao mesmo tempo em que todos os elementos divertidos e exagerados que me fazem sorrir em filmes do tipo se materializam por aqui. É dirigido pelo Ted Kotcheff, um casca-grossa com muito talento e sensibilidade, e reúne alguns dos atores mais badasses do cinema testosterona oitentista! Entre eles o grande Gene Hackman encabeçando o elenco.

Em uma narrativa ao estilo “men in a mission“, DE VOLTA PARA O INFERNO centra-se em um coronel dos Estados Unidos aposentado, Jason Rhodes (Hackman), que acredita que seu filho, Frank, um soldado que esteve em ação no Vietnã, ainda está vivo e mantido prisioneiro no Laos, mesmo passados dez anos do fim da guerra. Depois de conseguir financiamento de um magnata do petróleo (Robert Stack), cujo filho também desapareceu na mesma guerra, Rhodes recruta um grupo de ex-militares e velhos companheiros de guerra de seu filho para retornar à região em busca do pobre rapaz, além de outros americanos vivendo em cativeiro. A equipe inclui Fred Ward, Randall “Tex” Cobb, Reb Brown (o Capitão América dos anos 70), o grande Tim Thomerson e Patrick Swayze, num de seus primeiros papeis para cinema. Se esse não é um dos elencos com um dos mais altos níveis de truculência desse período, então eu já não sei mais nada da vida.

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A primeira metade do filme é a reunião do grupo e o treinamento para colocar esses veteranos em forma antes de partir para a ação. Serve também para que o público se identifique com os personagens, com suas habilidades e trabalhe a química entre eles. Mas também pra mostrar o quão fodido é a vida de alguns indivíduos no pós-guerra, um bando de outsiders atormentados sem a mínima capacidade de se encaixar num convívio social decente. E vêem nessa oportunidade de retornar ao campo de batalha uma maneira de tentarem se reencontrar e dar sentido às suas vidas.

Dessa forma, DE VOLTA PARA O INFERNO serve de expansão ao universo do trabalho anterior de Kotcheff, um dos melhores filmes que existe na vida, que também trata de traumas do Vietnã, FIRST BLOOD, mais conhecido no Brasil como RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR, também conhecido como a obra-prima de Sylvester Stallone. Aliás, recomendo muito este texto sobre RAMBO, do amigo Lázaro Cassar, para o Action News. 

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A segunda metade do filme é tiro, porrada e bomba, como diz minha mulher… Mas sem a previsibilidade habitual. Por exemplo, todo o planejamento para a ação de resgate termina numa furada e grande parte da missão acaba acontecendo na base do improviso – o armamento de Rhodes é confiscado pela polícia local e precisa arranjar armas velhas no mercado negro; os helicópteros de resgate não estão onde deveriam e acabam roubando de uma base militar Vietcong; um dos personagens é mordido por uma cobra ao adentrar um túnel que dá no campo de concentração… E por aí vai. Quando a ação começa pra valer é de arregaçar! Kotcheff manda muito bem  em criar um espetáculo de balas e explosões, com domínio de ritmo, de coreografia e de exageros típicos do cinema de ação/guerra oitentista. A ação final é ao mesmo tempo frenética, divertida, classuda e sem frescuras, mas também melancólica… Como em OS STE SAMURAIS, de Kurosawa, ou SETE HOMENS E UM DESTINO, de john Sturges, o filme não tem muito receio em terminar com algumas baixas de personagens importantes. Personagens que passamos metade do filme criando uma relação… Continuar lendo

RED SCORPION (1988)

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RED SCORPION é algo um tanto extraordinário. É um típico escapismo de ação oitentista, de ótima qualidade por sinal, mas que, acreditem, serve também de base para um interessante estudo de personagem, com transformações bem construídas e uma forte intensidade emocional. Nada muito profundo, obviamente, mas fora do comum em relação a outros exemplares do gênero.

Vejamos: Dolph Lundgren interpreta um assassino soviético altamente treinado, uma verdadeira máquina de matar, enviado à África para eliminar um líder rebelde em um país comunista dominado por Cuba, mas acaba falhando em sua missão e é jurado de morte pelo seu próprio país. Foge pelo deserto onde passa por uma experiência transcendental filosófica com um nativo africano que lhe mostra a essência da vida. Ele retorna para os rebeldes agora com o objetivo de unir-se a eles, arranja uma metralhadora bem grande e detona o maior número de carcaça soviética num final explosivo!!! Não é de chorar?

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Há o lado político de RED SCORPION, que é uma das propagandas mais bobas que eu já vi. Um russo que muda de lado e extermina comunista?! Pffff, tinha que ser coisa do produtor Jack Abramoff, famigerado lobista de Washinghton que foi preso há alguns anos condenado por corrupção e fraudes… dizem que hoje trabalha numa pizzaria. Mas houve um tempo em que suas visões políticas eram colocadas nos filmes que produzia, como este aqui.

Mas o que vale mesmo é a atuação de Dolph Lundgren e as transformações, não políticas, mas universais e humanas, que seu personagem sofre no decorrer do filme. No elenco ainda temos Brion James, também fazendo sotaque russo, e M. Emmet Walsh vivendo um jornalista americano preconceituoso que detesta o Dolph, mas deve ser porque é velho, barrigudo e acabado, enquanto Dolph é aquela montanha de músculos e no calor africano, usa pouquíssimas roupas, para alegria da mulherada (ou de alguns rapazes que jogam no outro time… nada contra).

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Outro destaque vai para as sequências de ação, dirigidas pelo grande Joseph Zito, o mesmo cara que fez BRADDOCK e a obra-prima INVASÃO USA, ambos com o Chuck Norris! Então já dá pra confiar, o cara é da pesada e filma ação com uma truculência absurda e RED SCORPION deve ter mais testosterona que a urina do Mike Tyson! É explosão que não acaba mais, armamento pesado cuspindo fogo freneticamente, há uma perseguição no meio do deserto que lembra INDIANA JONES, com Dolph pulando de um caminhão pra uma motocicleta e, depois, de volta para o caminhão, tudo em movimento e trocando balas com seus perseguidores. O final é um espetáculo pirotécnico que só o bom cinema de ação dos anos 80/90 sabia promover.

E vale ressaltar que a direção de Zito não é apenas notável nas cenas de ação. O sujeito realmente sabe tirar proveito das belezas naturais dos cenários africanos, principalmente nas sequências em que Dolph encara o deserto ao lado do nativo e participa do ritual do escorpião, ganhando uma tatuagem e o título de “Red Scorpion”. O visual do filme impressiona e no fim das contas estamos diante de um místico action movie casca-grossa.

RED SCORPION ganhou uma continuação durante os anos 90, sem o Dolph, que acabei não assistindo ainda.

ESPECIAL DON SIEGEL #17: O INFERNO É PARA OS HERÓIS (Hell is for Heroes, 1962)

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por DANIEL VARGAS

“Eu nunca farei um filme sobre guerra a não ser que seja extremamente anti-guerra. Lado nenhum ganha uma guerra. É muita hipocrisia nações que entram em guerra, todos com seus padres e ministros rezando pelo mesmo Deus por vitória. Guerra é fútil e sem sentido. É verdade que o inferno é para os heróis. E também é verdade que o inferno é o único lugar para “heróis”.

E depois de dizer essas palavras que Don Siegel realiza aqui seu único filme de guerra, e também a única parceria dele com Steve McQueen, esse que colhia os frutos do recente sucesso de Sete Homens E um Destino, retoma o papel do durão em combate, novamente se vendo em uma situação de desvantagem, como um sargento rebaixado para posição de soldado por problemas com bebida e de comportamento. Anti-social e com graves problemas com autoridade (ou mesmo psicológicos, ou com a guerra em si), ele se junta a um grupo de soldados em Montigny, França, em 1944, à uma área próxima a perigosa Siegfried Line.

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Rejeitando qualquer interação social com os outros soldados, antipático e de poucas palavras, vira quase uma pária em um grupo que já se preparava para voltar para casa, quando uma nova missão é enviada para seu comandante: tentar segurar tropas alemãs de continuar avançando na região. O único problema é que os nazistas detêm mais dados, maior quantidade de tropas, e maior quantidade de fogo. E a única coisa que os impede de passar por cima do pequeno grupo de aliados é não saber o quão forte é o task-force inimigo. Aí que entra as habilidades do soldado Reese (McQueen), que convence seu sargento superior (Harry Guardino) a bolar um plano mirabolante para fazer eles parecerem que estão em maior número e com maior poder de fogo do que parece. De falsas conversas no telefone com quartel-general (eles descobrem uma escuta alemã em seu bunker) até tentar fazer o barulho de um Jeep parecer com um de tanque, eles precisam quebrar a cabeça para redefinir a arte da ilusão.

Em uma produção obviamente de baixo orçamento, Siegel faz o que pode para construir cenas impactantes (algumas cenas dos soldados morrendo em campos minados são angustiantes), mas o que o filme tem de melhor mesmo é se livrar dos clichês  sobre irmandade entre soldados na guerra. O filme vai construindo sua tensão até o final brutal (obscuro e pessimista, um frescor audacioso para esse tipo de tema). Pena que seu desenvolvimento e narrativa truncada não ajudem muito. O elenco mal aproveitado conta também com James Coburn (que também vinha de Sete Homens) fazendo pouco mais que uma participação, sem desenvolver um personagem realmente forte. Quando lançado, foi visto como o filme de guerra genérico que é, mas com o passar do tempo, e com a popularidade do Siegel, acabou virando “cult”.

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Semelhante à seu personagem, McQueen teve vários problemas com a “autoridade”. De executivos do estúdio até Robert Pirosh, o roteirista e diretor inicial do longa, que logo foi substituído por Siegel e nunca perdoou McQueen por ter tirado seu “bebê” dele. Quando Siegel assumiu, inicialmente também não foi muito lá recebido pelo ator rebelde, mas logo os dois entraram no mesmo ritmo e, aparentemente, terminaram amigos até o resto de suas vidas!  Não foi o caso de Bobby Darin, outro que se desentedia constantemente com o astro. Muito se disse que o comportamento foi uma espécie de “método” que o McQueen estava usando para se manter no personagem, mas logo se percebeu que era apenas uma desculpa esfarrapada para ele continuar sendo um cretino com todos à sua volta. Havia inclusive uma máxima de todos na produção, sobre o protagonista do filme dizendo que “o pior inimigo de Steve McQueen, era ele mesmo”. Certa vez um colunista veio visitar os sets de filmagem e após também testemunhar o comportamento “errático” de McQueen, teria dito a mesma frase para alguém ao lado. Darin, que estava por perto e acabou ouvindo, logo tratou de interromper a conversar e afirmar enfaticamente: “Não enquanto eu estiver por perto!”

BATTLE CRY (1955)

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Um dos primeiros filmes que assisti este ano foi BATTLE CRY, de um senhor chamado Raoul Walsh, que na verdade é um dos meus diretores americanos favoritos, embora eu tenha muita coisa dele pra ver ainda… Acho que vai ser uma boa maneira iniciar as atividades deste ano com essa belezinha porque segue um bocado da tônica que quero dar ao blog, explorando um tipo de cinema que há tempos eu queria tratar por aqui. Do próprio Walsh mesmo eu nunca comentei nada e o sujeito tem vários exemplares excelentes e badasses de cinema de gênero, fez muito ação, policial, noir, westerns

BATTLE CRY, por exemplo, é um filme de guerra. Só que trata-se de um produto do gênero pouco comum para o período, que aliás, lançou várias obras espetaculares nas mãos de mestres como Samuel Fuller, Allan Dwan, Don Siegel, Robert Aldrich e do próprio Walsh, que abusavam de sequências de ação, explosões e muito tiro de metralhadora. Mas o contraste de BATTLE CRY com seus concorrentes surge por não ter praticamente nenhuma cena de batalha, nada que empolgue o espectador nesses termos.

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É muito mais um novelão mexicano à Hollywood, abarrotado de personagens, do que um filme de ação, apesar de toda a narrativa se desenrolar durante a Segunda Guerra Mundial. Mas em se tratando de Walsh, o dramalhão é sólido e bem construído e os personagens cuidadosamente elaborados e interessantes, portanto, estamos numa boa com e acaba sendo daqueles filmes de dar gosto! Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #9: DOIS CORAÇÕES E UMA ALMA (An Annapolis Story, 1955)

Quando escrevi sobre NOITE APÓS NOITE, segunda publicação deste especial Don Siegel, iniciei o texto dizendo que o filme corria o risco de ser o trabalho mais fraco do homem. Enganei-me completamente. Não corria risco algum, mas também não tinha como eu adivinhar que DOIS CORAÇÕES E UMA ALMA seria tão ruim. Como tenho feito em quase todos os posts, passo a palavra ao diretor: “Certamente não é um bom filme“, disse Siegel a Peter Bogdanovich. Preciso acrescentar alguma coisa? Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #6: AVENTURA NA CHINA (China Venture, 1953)

Don Siegel fala muito “bem” sobre CHINA VENTURE: “Mas, como sempre, a praga parece me perseguir – e, em última análise, a culpa deve ser minha – a história era fraca”. Ok, o roteiro não era mesmo dos melhores, o orçamento não ajuda muito e o elenco – com exceção de três ou quatro nomes mais famosos – não deve ter pesado nos bolsos dos produtores, mas, de qualquer forma, reserva bons momentos, especialmente quando se trata de sequências de ação. Percebam que venho batendo nessa tecla a cada filme comentado neste especial, em como Siegel evolui na construção da ação e, bem, se estamos falando sobre um filme de guerra, não poderia faltar uns tiros e explosões, e aqui temos pelo menos três sequências excelentes que provam o talento do homem no assunto. Continuar lendo

HOMEM DE GUERRA (1994)

Falta pouco mais de um mês para a estréia de OS MERCENÁRIOS 2 no Brasil, e confesso que estou bastante ansioso. Então, para ir entrando no clima, vamos com HOMEM DE GUERRA, um desses filmes de mercenários bem casca grossa dos anos noventa. Além disso, aproveito para matar a saudade do Dolph Lundgren, um dos meus action heroes favoritos, que não pinta por aqui há alguns meses e também estará no filme “do” Stallone.

Na verdade, eu conferi HOMEM DE GUERRA no início do ano, quando estava numa onda braba em assistir a exemplares do Dolph. Então, devo ter esquecido alguns detalhes, mas vou lembrando de algumas coisas à medida que vou escrevendo…

A trama, por exemplo. Dolph lidera uma equipe de soldados venais cuja missão é ir a uma ilha tropical asiática para “convencer” os habitantes locais a assinarem a venda do território para uma grande corporação americana, que quer extrair as riquezas naturais da região. Caso rejeitem a oferta, o couro vai comer. O negócio é que ao chegar ao local, a equipe de mercenários é tão bem recebida, tão bem cuidada pelos nativos, querendo apenas viver suas vidinhas simples, que chega ao ponto em que Dolph e sua turma decidem deixar a missão de lado, começam a se sentir humanos novamente, após anos de matança e violência…

É claro que alguns membros do grupo não concordam, querem realizar o trabalho e receber a grana a todo custo. E no fim, uma inevitável e épica batalha acontece, com Dolph, seus mercenários remanescentes e os nativos lutando contra um exército inteiro enviado pela poderosa corporação.

Pode parecer estranho, mas uma primeira versão do roteiro de HOMEM DE GUERRA foi escrita pelo renomado John Sayles, autor de vários filme do cenário independente americano e não sei como, diabos, surgiu este aqui na sua filmografia. Talvez sua versão fosse mais poética, mais elegante, seria dirigido pelo John Frankenheimer e provavelmente não teriam escalado o Dolph como protagonista. Acabou virando mesmo um truculento filme de ação nas mãos do diretor Perry Lang, mas é possível notar uns alguns lapsos humanos, filosóficos e introspectivos que restaram do roteiro de Sayles, com Dolph se apaixonando pela nativa interpretada por Charlotte Lewis, e as transformações que seu personagem sofre no âmago de seu ser… Ui!

Bah, mas o que estou falando? O que realmente importa aqui é ação, as frase de efeitos, alguns peitinhos asiáticos e Trevor Goddard alucinado fazendo um dos vilões mais afetados e ridículos que já vi. É como se o sujeito tivesse cheirado em tempo recorde todo estoque de pó reservado para produção inteira antes de entrar em cena! O elenco que temos aqui também é destaque, umas figuras simpáticas como BD Wong, Don Harvey, o grandalhão Tommy “Tiny” Lister, o veterano Aldo Sambrell e outros. O velho Dolph, com seu carisma de sempre, se sobressai, mas Goddard rouba a cena com seus exageros constrangedores. É tão ruim que chega a ser bom!

HOMEM DE GUERRA possui, relativamente, poucas sequências de ação. A narrativa é lenta e toma seu tempo antes de explodir com tudo nos últimos vinte minutos, quando ocorre a batalha brutal que já se espera de antemão. E Perry Lang não decepciona o fãs de cinema de ação de baixo orçamento com seu estilo grosseiro e old school, boas doses de explosão, tiroteios frenéticos, muitos dublês trabalhando pesado, contagem de corpos altíssima, violência sem frescura, do jeito que tem que ser. E sobra tempo ainda para uma trocação de porradas entre Dolph e Goddard, que é o paroxismo da truculência no cinema de ação. E tudo isso num belíssimo pano de fundo, as paisagens tropicais muito bem utilizada pelo diretor de fotografia Ron Schmidt (O NEVOEIRO).

Uma dica: encontrei o DVD de HOMEM DE GUERRA dando sopa numa Americanas daqui por uns 5 mangos. Apesar de estar fullscreen e a imagem não ser das melhores, valeu a compra.

THE INGLORIOUS BASTARDS, aka Quel Maledeto Treno Blindato (1978)

Para quem queria mais Castellari no blog, chegou a hora de THE INGLORIOUS BASTARDS! Não faz muitos anos que assisti pela primeira vez. Na verdade, foi logo quando Tarantino começou a possível “refilmagem” deste exemplar italiano e para não ficar pra trás acabei conferindo de uma vez. Na época, até comentei em poucas palavras por aqui. BASTARDOS INGLÓRIOS, do Tarantino, acabou não sendo refilmagem de nada, resultou em algo totalmente diferente (como era de se esperar), uma homenagem aos filmes de guerra, da mesma forma que BASTARDS já era, naquela época, um belo retorno aos filmes americanos do gênero, embora muito bem acompanhado ao estilo engajado de Enzo G. Castellari de filmar ação. Revi esses dias para poder comentar novamente essa maravilha e dar continuidade à peregrinação pelo cinema do diretor.

A trama é ambientada na França ocupada pelos nazistas em plena Segunda Guerra Mundial. Um grupo de soldados aliados, todos eles presos por crimes em serviço, precisam ser transportados para prestarem contas à corte marcial, mas durante o trajeto, o comboio é atacado e cinco condenados conseguem escapar. O filme é sobre a jornada desses desertores, os tais bastardos sem glória, tentando chegar à Suíça, atravessando um território cheio de nazistas, até se meterem sem querer numa missão altamente secreta cujo objetivo é sabotar um trem fortemente protegido. Uma aventura e tanto, especialmente nas mãos de um diretor cujo nome é sinônimo de ação.

E é exatamente a isso que BASTARDS se resume: rápidas sequências de ação, uma atrás da outra, sem muita enrolação, até chegar ao final explosivo no qual Castellari demonstra mais uma vez porque está entre os grandes mestres do gênero. Há uma abundância de tiroteios, explosões, situações de tensão, belo trabalho de dublês, centenas de corpos alvejados em grande estilo e em câmera lenta, lembrando outro certo diretor que fazia miséria com slow motion em cenas de ação: Sam Peckinpah. Mas a influência do diretor americano já é notória e eu já comentei aqui diversas vezes. E se o orçamento não permite explodir um trem de verdade, que explodam uma maquete e um trem em miniatura… o efeito é tosco, mas dá aquele charme estimulante que só o cinema classe B old school conseguia proporcionar.

Além disso, apesar de ir direto ao ponto no quesito ação, Castellari é inteligente o bastante para arranjar tempo para desenvolver cada um de seus persoangens, uma característica importante e comumente ignorado em filmes de guerra com vários personagens. E se no elenco não temos um Lee Marvin ou Charles Bronson, como em OS DOZE CONDENADOS – uma das principais influências de BASTARDS – ao menos conta com atores do calibre de Bo Svenson, Fred Williamson, Michael Pergolani, Raimund Harmstorf, Ian Bannen, etc, e pequenas participações de Joshua Sinclair e Donald O’Brien, que rouba a cena como um oficial nazista. Não é um elenco de se jogar fora e todos parecem se divertir enquanto brincam de fazer cinema.

 

Meu personagem favorito é o de Fred Williamson, apesar de adorar o Bo Svenson. Eu sempre me pego rindo da cena da cachoeira, onde várias alemãs tomam banho beeeem à vontade. Como os heróis estão disfarçados de nazistas, eles resolvem “chegar junto” e pulam na água pra “brincar” com as alemãs sapecas. O problema é que Williamson tem a pele um “pouco” mais escura que seus companheiros e logo elas percebem que se tratam de americanos e, assustadas, começam a atirar com metralhadoras totalmente nuas! Momento impagável deste maravilhoso clássico! Sem dúvida, um dos meus favoritos do Castellari.

Eu só não entendo até agora porque essa belezinha não foi lançada em DVD por aqui. Deveria sair com uma edição caprichada! Eu seria o primeiro da fila pra comprar. No Brasil, foi lançado na época do VHS, com o título de ASSALTO AO TREM BLINDADO.

RED SCORPION (1988)

Não vamos perder tempo! Começando as atividades em 2012 com este filmaço estrelado pelo Dolph Lundgren. No mês passado eu assisti a, pelo menos, uns seis ou sete filmes do sueco e acabei não comentando nada por aqui. Como Dolph é um dos action heores favoritos do blog, preparem os corações, pois teremos muito “Drago” pelas próximas semanas!

A história de RED SCORPION é algo um tanto extraordinário. Típico escapismo de ação oitentista, de ótima qualidade por sinal, que serve também de base para um interessante estudo de personagem, com transformações bem construídas e uma forte intensidade emocional. Nada muito profundo, obviamente, mas fora do comum em relação a outros exemplares do gênero.

Vejamos: Dolph Lundgren interpreta um assassino soviético altamente treinado, uma verdadeira máquina de matar, enviado à África para eliminar um líder rebelde em um país comunista dominado por Cuba, mas acaba falhando em sua missão e é jurado de morte pelo seu próprio país. Foge pelo deserto onde passa por uma experiência transcendental filosófica com um nativo africano que lhe mostra a essência da vida. Ele retorna para os rebeldes agora com o objetivo de unir-se a eles, arranja uma metralhadora e detorna o maior número de carcaça soviética num final explosivo!!!

Não é de chorar?

Há o lado político de RED SCORPION, que é uma das propagandas mais bobas que eu já vi. Um russo que muda de lado e extermina comunista?! Pffff, tinha que ser coisa do produtor Jack Abramoff, famigerado lobista de Washinghton que foi preso há alguns anos condenado por corrupção e fraudes… dizem que hoje trabalha numa pizzaria. Mas houve um tempo em que suas visões políticas eram colocadas nos filmes que produzia, como este aqui.

Mas o que vale mesmo é a atuação de Dolph Lundgren e as transformações, não políticas, mas universais, que seu personagem sofre no decorrer do filme. No elenco ainda temos Brion James, também fazendo sotaque russo, e M. Emmet Walsh vivendo um jornalista americano preconceituoso que detesta o Dolph, mas deve ser porque é velho, barrigudo e acabado, enquanto Dolph é aquela montanha de músculos e no calor africano, usa pouquíssimas roupas, para alegria da mulherada (ou de alguns rapazes que jogam no outro time. Nada contra).

Outro destaque vai para as sequências de ação, dirigidas pelo grande Joseph Zito, o mesmo cara que fez a obra prima INVASÃO USA, com o CHUCK! Então já dá pra confiar, o cara é da pesada e filma ação com uma truculência absurda e RED SCORPION deve ter mais testosterona que a urina do Mike Tyson! É explosão que não acaba mais, armamento pesado cuspindo fogo freneticamente, há uma perseguição no meio do deserto que lembra INDIANA JONES, com Dolph pulando de um caminhão pra uma motocicleta e, depois, de volta para o caminhão, tudo em movimento e trocando balas com seus perseguidores. O final é um espetáculo pirotécnico que só o bom cinema de ação dos anos 80/90 sabia promover.

E vale ressaltar que a direção de Zito não é apenas notável nas cenas de ação. O sujeito realmente soube tirar proveito das belezas naturais dos cenários africanos, principalmente nas sequências em que Dolph encara o deserto ao lado do nativo e participa do ritual do escorpião, ganhando uma tatuagem e o título de “red scorpion”. O visual impressiona e no fim das contas estamos diante de um místico action movie casca grossa.

RED SCORPION ganhou uma continuação durante os anos 90, sem o Dolph, que não vi ainda.

EAGLES OVER LONDON (1969)

aka O ESQUDRÃO DAS ÁGUIAS
direção: Enzo G. Castellari
roteiro: Tito Carpi, Vincenzo Flamini, José Luis Martínez Mollá, Guilles Morris Dumoulin, Enzo G. Castellari

Depois de orquestrar batalhas épicas no divertido MATE TODOS ELES E VOLTE SÓ, o primeiríssimo trabalho de Enzo G. Castellari fora do gênero Spaghetti Western só poderia ser um grandioso filme de guerra! À princípio, O ESQUADRÃO DAS ÁGUIAS seria dirigido por Alberto de Martino e Castellari seria responsável apenas pelas cenas de montagens com o efeito de split screen utilizando imagens reais da Segunda Guerra – sendo que o sujeito nem sabia o que era isso, obrigando os produtores a lhe mostrarem filmes como CROWN, O MAGNÍFICO e O HOMEM QUE ODIAVA AS MULHERES. O trabalho do homem ficou tão bom, que acabou sendo contratado pra dirigir o filme inteiro!

É claro que a primeira coisa que fez foi pegar um dos roteiristas e transformar o dramalhão que era a história original em um filme de ação! É por isso que eu amo esse diretor! Mas não quer dizer que o filme não tenha seu lado dramático e burocrático. As subtramas, que devem ter sido impossíveis de alterar, deixam o filme com um tom meloso de novela, em determinados momentos. Basicamente, a premissa envolve um grupo de espiões nazistas infiltrados no exército inglês em plena capital britânica e os esforços de um capitão, vivido por Frederick Stafford, em desmascarar a operação dos alemães em seu próprio país. O ponto de vista se desenrola em ambos os lados, mas um detalhe que o roteiro explora é uma espécie de amizade entre o nazista interpretado por Francisco Rabal e o capitão britânico, que desconhece a nacionalidade de seu novo “amigo”.

Utilizando dinheiro americano, a grandiosidade de O ESQUADRÃO DAS ÁGUIAS, em termos técnicos, é percebida já nas primeiras sequências de batalhas, com explosões de todo tipo de escalas, milhares de figurantes, efeitos especiais, aviões fazendo perigosas acrobacias, navios, etc. As cenas de ação seguintes, nuncam chegam no mesmo nível da inicial, mas pontuam um filme que, à princípio, poderia ser muito chato. A direção sempre firme e criatica de Castellari é um grande destaque, com seus enquadramentos e movimentos de câmera inusitados, especialmente nas várias cenas de ação. O elenco também é ótimo, além de Stafford e Rabal, temos grandes nomes como Van Johnson e Luigi Pistilli, figurinha carimbada no cinema popular italiano.

Comparações podem ser evitadas, mas Castellari retornaria à segunda guerra alguns anos depois no clássico “ASSALTO AO TREM BLINDADO”, que é muito superior a este aqui. No entanto, a importância de O ESQUADRÃO DAS ÁGUIAS no currículo do diretor é evidente, e se não é uma obra prima, pelo menos não deixa de ser um sólido filme de guerra e com certeza tem grande valor para o gênero “Macaroni Combat”!

TORNADO (1983)

TORNADO1

Últimos dias da Guerra do Vietnã. Um capitão americano sem coração (Tony Marsina) envia seus soldados do grupo de elite “Boinas Verdes” em missões de alto risco além das linhas inimigas. O sargento Maggio (Giancarlo Prete, aka Timothy Brent) não concorda muito com essas incumbências suicidas e sem sentido. Logo no inicio de TORNADO, durante uma destas missões, um soldado se fere e Maggio retorna para buscá-lo. O capitão ordena aos helicópteros que partam imediatamente, sem esperar o sargento que carrega bravamente seu amigo ferido.

Deixado para trás, Maggio utiliza-se de todas as suas técnicas especiais de combate e sobrevivência na selva para conseguir retornar ao posto americano. E consegue, levando o soldado – e a si próprio – com vida. Isso tudo em apenas 20 minutos de filme, dando uma verdadeira noção do que esperar de TORNADO.

Depois de uma tragédia, finalmente Maggio decide bater de frente com o capitão (e bater de frente significa um murro bem dado na cara do seu superior). Maggio é preso e escoltado para a corte marcial, mas consegue escapar e agora se encontra em pleno território inimigo tentando chegar à zona neutra, mas não sem antes enfrentar os vietcongs e os próprios soldados americanos! Não é de lascar uma trama como essa?

O script de TORNADO é cortesia de Tito Capri e Gianfranco Couyoumdjian (cujos currículos são repletos de pérolas do cinema popular de gênero), apesar da falta de originalidade, conseguem desenrolar um roteiro que bebe da fonte (leia-se: copia na cara dura) de vários filmes de ação e guerra que foram grandes sucessos e influenciaram dezenas de tralhas como esta aqui. O FRANCO ATIRADOR, APOCALYPSE NOW e RAMBO são os principais títulos que vêm em mente enquanto se assiste a TORNADO.

Algo absolutamente normal. Na década de 80, o cinema popular italiano entrava em decadência na mesma intensidade que a picaretagem dos produtores, roteiristas e diretores carcamanos aumentava. Margheriti, que era prolífico, foi um dos que mais se aproveitaram de reciclar boas idéias, retiradas de produções de sucesso, para transformá-las em filmes de baixo orçamento filmados onde Judas perdeu as botas. Isso, claro, muitos anos depois de ser respeitado como um dos grandes nomes do horror gótico italiano (embora tenha passado por praticamente todos os gêneros do cinema popular de seu país).

Embora TORNADO seja assumidamente barato e apresente os defeitos que este tipo de produção possui, o filme consegue passar a sua mensagem anti-bélica com muita clareza e autenticidade, ao invés de simplesmente explorar a violência da guerra sem qualquer tipo de reflexão. E isso fica evidente na presença do repórter vivido por Luciano Pigozzi, que tenta a qualquer custo investigar e denunciar os abusos cometidos pelo capitão.

TORNADO fecha uma espécie de trilogia da guerra do Vietnã que Margheriti realizou no inicio dos anos 80, composta também por THE LAST HUNTER e TIGER JOE, todos rodados nas Filipinas, local que serviu de cenário para centenas de produções italianas naquela época. O trabalho de direção de Margheriti aqui é bem típico ao específico cinema que estava fazendo, rodado às pressas, com orçamento risível, tentando ao máximo usar a criatividade (algo que nem sempre consegue), aproveitando atores, locações, objetos cenográficos e até mesmo sequências inteiras utilizadas em outros filmes. Várias cenas de ação que aparecem em TORNADO foram, inicialmente, filmadas para THE LAST HUNTER, mas com uma boa edição e muita cara de pau, isso se torna apenas mais um detalhe curioso e um charme a mais para os fãs de tosqueiras divertidas como esta aqui.