TODAS AS CORES DO MEDO (Tutti il colori del buio, 1972)

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Revi outro dia… Porra, Edwige Fenech, essa cocota do Eurocult é uma das mulheres mais sexy e belas da história do cinema. Nascida em 1948, esta estonteante franco-argelina apareceu em uma porrada de thrillers, gialli, filmes de terror e comédias eróticas a partir dos 19 anos de idade, e ainda estava boa o suficiente para aparecer nua na Playboy italiana no auge dos seus quarenta e tantos anos. Mas para provar que Edwige não é só beleza, mas também atriz de verdade, TODAS AS CORES DO MEDO tá aí, um elegante e singular giallo de Sergio Martino na qual Edwige é o centro das atenções ao encarnar uma jovem perturbada que pode, ou não, ser o alvo de um assassino misterioso.

Mas é um giallo diferentão, todo desconstruído… Vamos lá. A pobre Jane Harrison (Fenech) vem sofrendo de alguns pesadelos muito loucos, cheio de imagens piscodélicas e situações pertubadoras… Neles ela vê sua própria mãe – que foi assassinada por um desconhecido assaltante quando Jane era uma menina – sendo esfaqueada até a morte por um homem com olhos incrivelvente azuis e penetrantes (Ivan Rassimov).

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Esses pesadelos estão se tornando um transtorno na vida de Jane, afetando não apenas seu psicológico, mas também seu relacionamento com o marido, Richard (o grande George Hilton). Ele acredita que os pesadelos provêm de um aborto que Jane teve depois de um acidente de carro no ano anterior, só que o problema pra ele é ainda mais complexo, afinal desde então a mulher se tornou frígida e, bem, vocês sabem, dividir a cama com a Edwige Fenech e não poder fazer nada de vez em quando é algo realmente para abalar as estruturas de um casamento feliz…

O conselho da irmã mais velha de Jane é que ela comece a encarar um psiquiatra, afirmando que é a única maneira para que restaure a sua saúde mental. Algo que Richard insiste que se trata da mais pura besteira e charlatanismo, já que a tal irmã trabalha num consultório psiquiátrico. Enquanto tentam resolver esse impasse, Jane começa a ver o homem de olhos azuis de seus pesadelos, armado sempre com uma faca, com muito mais frequência, inclusive quando está acordada, em visões aterradoras!

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Temendo por sua própria sanidade, Jane não só concorda em ver o psiquiatra recomendado pela irmã, mas também opta por tratamentos menos convencionais que surgem por acaso. Como, por exemplo, dar ouvidos a uma misteriosa vizinha de seu prédio, que diz que Jane precisa encontrar-se com algumas pessoas que passaram por circunstâncias semelhantes. Mas só quando é tarde demais ela percebe, para seu horror, que sua simpática e prestativa vizinha é membro de um culto satânico!

Em uma mansão isolada, Jane é forçada a beber sangue e fazer sexo com o sacerdote do culto. Tudo fica muito embaralhado na cabeça da pobre Jane. O culto satanista era apenas uma alucinação, como ela também acredita ser as recentes aparições do homem de olhos azuis? Ou será que tudo era real?

O fato é que alguns dos melhores momentos de TODAS AS CORES DO MEDO são esses cultos satânicos, brilhantemente filmados acompanhados dos acordes melódicos de Bruno Nicolai. Claro, as ações do cultistas são tenebrosas para Jane, mas o cenário é bonito, bem aproveitado e evoca os bons tempos do horror gótico italiano dos anos 60. Julian Ugárte é o ator que faz o sacerdote. O cara rouba o filme facilmente por alguns minutos, expressivo e convincente como líder de um culto satânico, expondo dentes sangrentos e vorazmente envolvido num coito frenético com Jane, como seria de se esperar de um líder satanista que se preze.

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Bom, não preciso nem dizer que nada disso ajuda muito a resolver o problema da ragazza… E a moça não pode nem confiar muito no próprio marido – a quem ela não conta nada do que teria acontecido no tal culto satânico – até porque, mesmo com todos os problemas que ela passa, Richard deixa Jane frequentemente sozinha e isolada em seu apartamento enquanto ele, um vendedor de uma empresa farmacêutica, está sempre fora à negócios. À medida que Jane se aproxima da total decomposição mental, a coisa evolui para um lado metafísico e ela começa a ter estranhas visões de eventos que no fim das contas, acabam se tornando realidade…

É curioso como a paranóia de Jane é exemplificada por um puta trabalho de tensão pontual que prevalece sempre que ela se encontra sozinha e que geralmente segue com uma temporária sensação de alívio quando está em torno de outras pessoas. Por exemplo, quando Jane deixa o consultório de seu psicanalista, ela fica sozinha em uma estação de metrô, e só esse fato já é suficiente para gelar a espinha do espectador com a trilha sonora angustiante de Nicolai e a câmera que cria uma atmosfera inquietante. Depois que o metrô chega, uma sensação de conforto e segurança prevalece, com a multidão invadindo o ambiente solitário. Não demora muito para que a tensão volte a subir quando ela se encontra sozinha novamente…

Quem já tem certa familiaridade com o gênero, já percebe até aqui que TODAS AS CORES DO MEDO é um giallo bem incomum. São vários elementos visuais e narrativos característicos associados com o giallo que são deixados de lado: Não há nenhum assassino sem rosto, mascarado, de luvas negras, já que vemos Rassimov desde o início como um stalker com faca na mão; na trama, ao invés de nos apresentar um típico mistério de “descobrir o assassino“,  aqui é se o homem dos olhos azuis e outras situações são mesmo reais ou se não são criações da mente perturbada de Jane…

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A contagem de corpos também é relativamente baixa para um giallo e as mortes nunca são realmente violentas e sangrentas. Com exceção do sonho da mãe de Jane sendo morta logo no início do filme, não há outros assassinatos até o terceiro ato. Além disso, o aspecto sobrenatural do culto satânico e as premonições de Jane adicionam um sabor de fantasia que não é tipicamente encontrado no gênero.

Até mesmo se levarmos em consideração o fator depravado e erótico habitual do giallo  é comparativamente moderado em TODAS AS CORES DO MEDO, e as cenas de nudez de Fenech são de bom gosto, não muito vulgares. Claro, ter a Fenech em cena é quase sinônimo de um topless… Mas, por exemplo, logo na introdução de Jane no filme, vemos ela acordar de seu pesadelo e depois ela vai para o chuveiro ainda de camisola. Uma tentativa simbólica do desespero de Jane ou é apenas uma oportunidade para Fenech ficar molhadinha em frente à câmera? Eu diria que ambos, mas é um dos detalhes que torna TODAS AS CORES DO MEDO tão agradável. Nada é vazio e vulgar por aqui, nudez e violência servem ao filme como forma de expressão.

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Edwige mostrando sua expressão

Como disse no início, TODAS AS CORES DO MEDO é um giallo refinado, com direção de classe de Sergio Martino, um dos principais especialistas do gênero, e sem dúvida alguma tem aqui um dos seus melhores resultados. Dirigiu de tudo, na verdade, western, aventura, comédias, ação, isso aqui, mas é no giallo que o cara parece estar mais consciente. Martino tem bom olho para composição dos quadros, tira muita vantagem da tela larga e sua câmera raramente fica estática, mesmo de forma sutil, impedindo até que cenas de diálogo de rotina se tornem sem graça. As sacadas visuais empregadas para a transição da realidade para a fantasia e vice-versa são tão simples, mas ao mesmo tempo muito eficazes, sempre a serviço do enredo e nunca apenas para exibicionismos.

O sujeito também manda bem na construção do suspense, que é o componente essencial para qualquer thriller de sucesso. A cena que tem Jane é perseguida e se apressa para entrar no seu carro e, obviamente, não consegue fazer a ignição pegar já vimos em milhares de outros filme, mas é só um dos exemplos da finesse de Martino, que faz o espectador ficar com as mãos suando de tensão, apesar de todo o clichê. Na verdade, o filme inteiro possui uma atmosfera bem trabalhada, como já disse anteriormente, apoiada num belíssimo e requintado visual, na trilha de Nicolai e no roteiro bem amarrado (embora guarde um traço de ambiguidade no final).

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E, finalmente, temos a deliciosa Deusa do Eurocult, Edwige Fenech. Todo o elenco de TODAS AS CORES DO MEDO é notável e contribui para o show, especialmente Hilton, Rassimov e a pequena participação de Ugárte, mas é Edwige que é a atração principal. Eu já vi algumas de suas comédias eróticas e acho que posso dizer com confiança que a moça tem aqui um dos melhores desempenhos. E sem precisar mostrar os peitos a cada dez minutos, completamente convincente como a assustada, vulnerável e confusa Jane… Fenech é um espetáculo! Não preciso dizer mais nada, apenas recomendo a qualquer amante do horror europeu.

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DELIRIUM (Le Foto di Gioia, 1987)

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Já disse por aqui que Lamberto Bava deveria ter investido seu talento mais em produções de ação, como o filmaço BLASTFIGHTER, do que tentar seguir os passos do papai Mario Bava em produções de horror… Claro, Bava filho tem seus bons exemplares do gênero no currículo, em especial quando se juntava a outro gênio, Dario Argento, e saia umas belezinhas como DEMONS, mas de uma forma geral nunca conseguiu chegar no nível de maestria dos grandes realizadores do horror italiano.

Isso ficou ainda mais claro depois que vi essa semana DELIRIUM. Quero dizer, não é um trabalho ruim, não tô falando que o Bavinha não deveria realizá-lo, mas percebe-se que o material tinha mais potencial nas mãos de um Argento, Lucio Fulci, Michele Soavi… Acaba resultando num filme sem tanta energia, sem inspiração – exceto nas sequências de tensão e assassinato mostrando a visão de um assassino perturbado. Mas na maior parte do tempo, Bava é bem burocrático com a câmera, pra não dizer preguiçoso…

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Mas pra falar a verdade, confesso que até que gostei do filme. E um dos principais motivos é o elenco. Temos a beldade Serena Grandi como protagonista, que surpreende interpretando uma editora famosa de uma revista masculina chamada Pussycat e que passa maus bocados quando um assassino à solta começa a deixar corpos de modelos espalhados no seu caminho. Serena é quem carrega o filme, com bastante presença (um mulherão desses… ai, ai), carisma e sem vergonha alguma de tirar a roupa, o que é importante… Aliás, o que faz DELIRIUM não perder o pique é justamente a boa dose de nudez, suficiente pra segurar a atenção. O que inclui outras figuras interessantes balançando os peitos na tela, como a cantora Sabrina Salerno. Tanto a cena do seu ensaio fotográfico, com as múmias se esfregando nela, quanto a sequência que é atacada por um enxame de abelhas são de encher os olhos; Daria Nicolodi e o grande George Eastman são sempre legais de se ver e estão realmente bem por aqui, mas não são os papéis pelos quais serão lembrados…

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Outro aspecto que gosto em DELIRIUM são os tais momentos de suspense e de assassinato, quando Bavinha mostra o ponto de vista doentio do serial killer, estilizando os cenários, emulando um Dario Argento na manipulação da fotografia, das cores, e mostrando as vítimas como criaturas híbridas, com cabeças monstruosas ou de inseto… Ideias inventivas que surgem no meio de uma direção que mais parece de telenovela na maior parte do tempo. O que é uma pena, porque nas cenas de suspense, Bava filho manda muito bem. Há um plano sequência no clímax que é de cair o queixo… Acaba sendo divertido de qualquer forma, pelo elenco, pela quantidade de nudez, a trama de giallo oitentista  – fazendo de tudo pra esconder a identidade do assassino do público – com uma pitada excitante de erotismo e surrealismo… Enfim, apesar de problemático, vale uma conferida. Continuar lendo

AMUCK! (Alla ricerca del piacere, 1972)

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Apesar de não conter alguns dos elementos visuais que ajudam a fundamentar o gênero giallo, AMUCK!, de Silvio Amandi, não deixa de ser um belo exemplar. É um suspense bem construído, com alta dose de erotismo e duas das grandes musas do cinema de gênero europeu bem à vontade para nossa contemplação. Portanto, independente de rótulos, há motivos de sobra para conferir essa pequena jóia.

O filme tem a estonteante Barbara Bouchet como protagonista. Ela interpreta Greta, uma secretária contratada por um escritor ricaço, Richard Stuart (Farley Granger), para datilografar seus escritos. O sujeito tem um casarão em uma ilha aos arredores de Veneza e vive com sua esposa Eleonora (a também deliciosa Rosalba Neri), ambiente perfeito para um autor de livros e muito propício para um suspense all’italiana. O problema é que Greta não está exatamente no local por causa do trabalho. Sua melhor amiga e amante Sally (Patrizia Viotti) trabalhou para Richard anteriormente e desapareceu em circunstâncias misteriosas, sem deixar rastros. E Greta quer meter o nariz para descobrir o que se passou. Não demora muito para perceber que o casal Richard e Eleonora vive uma vida sexual open-minded, com festinhas de swing, orgias e tudo mais… É numa dessas que Greta vê Sally num porn movie caseiro e entende que está muito próxima de desvendar o mistério ou acabar por fazer parte dele.

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AMUCK! é um exemplo perfeito de um enredo simples, mas muito eficaz. O roteiro do próprio Amandi é engenhoso ao contar a história sob a dialética do que é verdade ou ficção, o que é ameaça ou paranóia, trabalhando flashbacks e devaneios da protagonista. Como quando Greta desconfia, após acordar, se colocou ou não a “aranha pra brigar” com Leonora na noite anterior, ou se tudo foi apenas um sonho… Nós, espectadores, ao menos ficamos agraciado pelas duas musas trocando carícias.

E é mesmo por esse lado que o filme caminha, mais erótico do que sangrento. A contagem de corpos é mínima em comparação com outros thrillers italianos do período, especialmente no auge do giallo, mas a quantidade de cenas calientes compensam a falta de qualquer outra coisa, assim como a maneira como a história é contada é tão boa que não sentimos falta de sangue derramado. Os personagens são interessantes, os cenários ajudam a compor o clima (é basicamente os três atores principais num jogo de mistérios no casarão e arredores durante quase todo o filme) e o uso inteligente da tal dialética torna a coisa mais fácil de prender a atenção. Outro destaque é a banda sonora de Teo Uselli, que não é um Morricone, mas seu trabalho é fantástico na construção atmosférica, uma sonoridade que beneficia o tom erótico e onírico do filme.

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Farley Granger, para quem não se lembra, é um dos protagonistas do clássico PACTO SINISTRO (51), de Hitchcock, e acabou tendo uma carreira em filmes de gênero na Europa, como vários outros atores americanos também tiveram. Tem aqui em AMUCK! uma oportunidade para mostrar seu talento acompanhado das duas beldades, Bouchet e Neri. Ambas atrizes, além de belíssimas, estão bem em seus papéis, especialmente Neri, com uma certa ambiguidade nas suas intenções, na relação com outros homens/mulheres, em especial com Greta, que embora esteja numa corajosa “missão”, demonstra uma fragilidade adorável.

Gosto bastante de como AMUCK! é tão simples, tão pequeno, mas ao mesmo tempo cheio de detalhes e personagens interessantes, combinando um bom suspense com nudez e erotismo – uma mistura que quase nunca falha. Altamente recomendado aos admiradores do cinema eurocult.

4 MOSCAS NO VELUDO CINZA (4 mosche di velluto grigio, 1971)

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4 MOSCAS NO VELUDO CINZA é a terceira parte da famosa “trilogia dos animais” que marcou o início da carreira de Dario Argento como diretor. Os outros filmes são O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL e O GATO DE NOVE CAUDAS, todos os três estruturados no subgênero que Argento cristalizou, aquele dos assassinatos misteriosos, dos matadores de luvas pretas, cujas vítimas quase sempre são moças indefesas ou coadjuvantes desavisados e o principal suspeito, geralmente, é o herói que precisa correr contra o tempo para desvendar os mistérios e provar sua inocência. Yeah, estamos falando do giallo, o subgênero mais elegante do cinema popular europeu!

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A trama de 4 MOSCAS é centrada no baterista de uma banda de rock, interpretado por Michael Brandon, que se vê envolvido numa enrascada quando acaba matando acidentalmente um sujeito desconhecido que o seguia. O problema é que uma figura estranha, mascarada, fotografou o crime e começa a fazer chantagens com o pobre músico. Durante sua jornada, cheia de conflitos psicológicos, tentativa de resolver o caso e se segurar para não ir à policia e se entregar, o rapaz conta com a ajuda de vários indivíduos interessantes, como o personagem vivido pelo grande Carlo Pedersoli, mais conhecido como Budd Spencer, que fazia a alegria da moçada na Sessão da Tarde, e um detetive gay interpretado por Jean-Pierre Marielle.

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É curioso como o filme tem um caráter bem mais experimental que os dois gialli anteriores. É como um divisor de águas na carreira do italiano. PÁSSARO é um bom filme de estreia, mas que nunca me empolgou muito, GATO já consegue resultados bem mais expressivos, mas é aqui em 4 MOSCAS que Argento começa a subverter certos padrões visuais para se tornar o gênio que foi. É, DRACULA 3D demonstra sérios sinais de que ele perdeu aquela genialidade…

Ainda bem que temos um 4 MOSCAS pra poder rever. Na minha opinião é o mais interessante dessa trilogia inicial, mesmo sendo considerado um esboço de PROFONDO ROSSO em alguns quesitos, principalmente no que confere aos procedimentos técnicos, na forma como Argento trabalha sua câmera, na criação da atmosfera de suspense. O assassinato no parque, por exemplo, é uma belíssima demonstração de manipulação de cenários, tempo, clima, coisas que Argento aperfeiçoaria mais tarde. Vários outros instantes são de encher os olhos, como a perseguição no metrô, além da sequência que rola a grande revelação do caso, por mais absurda que seja, parece plausível e muito bem resolvida visualmente.

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Em conversa com o Felipe M. Guerra, ele me conta que a tal ideia absurda partiu do Luigi Cozzi, que foi co-roteirista de 4 MOSCAS. Não vou revelar detalhes, mas Argento relutou em aceitar por achar muito fantasioso, mas, nas palavras do próprio Felipe, “Cozzi arrumou um artigo retirado de uma dessas revistas sensacionalistas e sem nenhuma fundamentação científica. (…) Ele mostrou o recorte e o Argento se convenceu“. Ainda bem!

Outro destaque óbvio é a trilha sonora do mestre Ennio Morricone, ingrediente fundamental em algumas cenas chaves, como no impactante desfecho, quando o belo e o brutal entram em perfeita sintonia como poucas vezes se vê por aí. 4 MOSCAS NO VELUDO CINZA é Argento em sua melhor forma, por isso mesmo obrigatório!

GLI OCCHI FREDDI DELLA PAURA (1971)

 

Já que me cobraram para continuar com textos do ciclo Castellari, vamos voltar às atividades com o homem! Apenas justificando a parada, já disse algumas vezes que sou tremendamente desorganizado com essas peregrinações de diretores. Então, podem me cobrar, caso eu abandone o italiano de novo. Outro motivo deve ter sido porque eu não achei GLI OCCHI FREDDI DELLA PAURA grandes coisas, o que me desanimou um bocado pra escrever algo e acabei esquecendo.

Sempre li que era um giallo, mas no fim das contas é um filme de “invasão de casa com reféns”, estilo HORAS DE DESESPERO, clássico com o Bogart, ou então a refilmagem do Cimino, com o Mickey Rourke. Claro que pensar que era uma coisa e na verdade ser outra não foi o motivo de não ter me agradado tanto. O filme começa brincando com os elementos do giallo, com uma mulher indefesa sendo molestada por um sujeito apontando-lhe uma faca… mas fica só na brincadeira mesmo. Trata-se de uma apresentação teatral. A cena é interessante, Castellari demonstra jeito pra esse tipo de atmosfera, a trilha do Morricone também contribui. É uma bela homenagem ao gênero, de qualquer modo…

Mas o restante do filme é a trama de um advogado e uma prostituta submetidos como reféns por um casal homossexual de bandidos. O problema é que Castellari não consegue extrair muita coisa interessante dessa situação. Pra ser honesto, eu achei o filme chato pra cacete em determinados momentos, diferente de um THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK, do Ruggero Deodato, que consegue manter a tensão do início ao fim tendo a mesma situação que este aqui. Mas vá lá, o elenco até que manda bem (Frank Wolff, Gianni Garko, Fernando Rey, etc) e nem tudo no filme é de se jogar fora. Mas no geral, fiquei um pouco decepcionado.

LA RAGAZZA CHE SAPEVA TROPPO, aka The Girl Who Knew Too Much (1963), de Mario Bava

Mario Bava dirgiu tantos filmes sem receber o devido crédito como diretor que só mesmo tendo em mãos o livro do Tim Lucas pra ter certeza o que ele realmente realizou ou não (e eu não tenho), mas é provável que este aqui seja o primeiro filme contemporâneo do diretor. Bava foi um gênio de grande influência no cinema italiano e até então só havia recriado outras épocas em seus filmes, como o terror gótico LA MASCHERA DEL DEMONIO e o peplum ERCOLE AL CENTRO DELLA TERRA.
O roteiro escrito pelo próprio Bava e outras cinco pessoas (!) para LA RAGAZZA CHE SAPEVA TROPPO é bem simples, mas consegue segurar o espectador até o último minuto com um suspense de primeira qualidade. Conta a estória de Nora Davis (Letícia Román), uma jovem america que viaja à Roma e fica hospedada na casa de uma senhora doente. Em certa noite chuvosa, após ter sua bolsa furtada, Nora bate a cabeça no chão e ainda atordoada testemunha (ou não) o assassinato de uma mulher. Com a ajuda do Dr. Marcello (John Saxon), ela tenta investigar por conta própria o mistério, sem ter a certeza se tudo não passou de uma simples ilusão, o que é mais provável para todos ao redor.

Mesmo trabalhando com algo mais próximo da realidade, LA RAGAZZA CHE SAPEVA TROPPO carrega todas as características que marcaram o cinema de Bava. É um filme que apresenta, especialmente, grande poder visual. Emoldurado por um preto e branco expressionista e de atmosfera densa, o diretor abusa de grande inventividade nos movimentos de câmera, esbanja criatividade no uso da luz e cria vários elementos que serviram de matéria prima para a criação do famigerado subgênero conhecido como giallo. Algo que seria amadurecido no ano seguinte em seu SEI DONNE PER L’ASSASSINO.

A cena em que Nora testemunha o assassinato possui uma sutileza experimental muito interessante, com a câmera distorcida e ótima edição, mostrando o delírio visual da protagonista interpretada de forma bastante segura pela bela italiana Letícia Román. Outro destaque do elenco é o grande ator americano John Saxon, sujeito subestimado em seu país e que fez mais sucesso em território europeu.

O título original e em inglês faz referência ao clássico de Alfred Hitchcock, O HOMEM QUE SABIA DEMAIS. No Brasil ficou conhecido como OLHOS DIABÓLICOS.

O ESTRANHO SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS (Non si sevizia un paperino, 1972), de Lucio Fulci

Antes de viajar, mais um textinho de lambuja. Revi O ESTRANHO SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS, um dos maiores filmes do genial Lucio Fulci, o qual é sempre um prazer poder ver e rever grande parte da sua obra. Carrego boas lembranças de seus filmes e este aqui é especial porque acumula algumas das cenas mais memoráveis e impressionantes que o homem já filmou, a começar pela belíssima e mórbida sequência de abertura, o plano nas mãos da brasileira Florinda Bolkan desenterrando o esqueleto de uma criança pequena… muito arrepiante!

No entanto, fica difícil distinguir de fato um gênero para o filme. É um exercício de terror, sem dúvida, com alguns elementos dos gialli, acompanhado de um comentário político. Mas não importa, o que vale no fim das contas é a experiência de ver um gênio em atividade em uma de suas ocasiões mais inspiradas. E Fulci chuta o balde e já subverte na premissa: numa pequena cidade do interior italiano, as crianças é que são alvos de um serial killer. Suspeitos é que não faltam no local para fazer a polícia botar a cuca para funcionar e o diretor trabalhe o suspense, já que os filma como se todos realmente fossem o assassino de crianças.

Uma das suspeitas é Maciara (Florinda Bolkan), uma bruxa que mexe com vodu. Em determinado momento ela vai presa, mas após verificarem sua inocência, ela é solta pela polícia, mas os pais de algumas crianças mortas não acreditam na decisão das autoridades e tomam a atitude medieval de espancá-la até a morte. Embora brutal e muito violenta, a sequência consegue também atingir um tom poético pela maneira como Fulci a realiza, ao som de Ornela Vanoni… a cena belíssima, digna de qualquer antologia do cinema mundial.

Florinda nasceu no Ceará e foi para Itália em 68 onde teve um papel importante no filme de Luchino Visconti OS DEUSES MALDITOS. Atuou em mais de quarenta filmes, mas dizem que em suas entrevistas nunca cita nomes de diretores como Fulci e Elio Petri, com os quais já trabalhou, apenas se vangloria por ter trabalhado com Visconti e Vittorio de Sica, que realmente é uma honra, mas é curioso pois Visconti não gostou de trabalhar com ela e disse que um dos piores erros de sua vida foi tê-la escalado num papel importante em seu filme. Enfim, aqui ela está sensacional e a cena na delegacia comprova o seu talento e demonstra porque essa brasileira conseguiu tanto trabalho no cinema italiano.

Outra suspeita na trama é Patrizia, interpretada pela musa Barbara Bouchet. Fulci a apresenta na cena onde o garotinho leva o suco pra ela e a encontra estirada, bem à vontade, da maneira em que ela veio ao mundo. A personagem vive no local a mando de seu pai, pelo seu envolvimento num escândalo com drogas e o cenário de sua casa parece um universo paralelo, com a decoração psicodélica setentista em contraste com o estilo rústico do vilarejo. E como se já não tivéssemos ótimas atrizes o suficiente, Fulci ainda coloca a grega Irene Papas vivendo a mãe do padre local.

Mas o assassino mesmo não chega a ser uma surpresa e lá pelas tantas já dá pra ter uma noção, principalmente levando em consideração à opinião do diretor sobre religião e o catolicismo. Não foi a toa que Fulci foi excomungado por este filme. O legal é que O ESTRANHO SEGREDO não assume um ponto de vista definido em momento algum entre os personagens. Acompanhamos as crianças, o jornalista (Tomas Milian), mas principalmente a polícia (na verdade, vários oficiais). Na maior parte do tempo, a narrativa se resume em investigações, interrogatórios com os suspeitos, etc… Mas o filme se beneficia muito do talento de Fulci mesmo nessas sequências, e o final é mais uma prova de sua genialidade, com o assassino despencando e se arrebentando nas pedras do precipício. Poético e brutal, O ESTRANHO SEGREDO é um grande exemplar do cinema italiano que precisa ser visto pelas novas gerações (como seu fosse muito velho…).

A DOPPIA FACCIA (1969), de Riccardo Freda

Primeiro filme do Riccardo Freda que assisto. Não sei se era o mais adequado pra iniciar a filmografia do cara, mas devo confessar que comecei muito bem! A DOPPIA FACCIA é um belíssimo e sofisticado giallo, subgênero que eu não havia tratado aqui no blog ainda. Preciso ver e rever alguns bons, porque o Dementia 13 está carente deste estilo que eu tanto adoro.

A DOPPIA FACCIA é baseado numa obra de Edgar Wallace e trata de um sujeito recém casado com uma milionária que acaba surpreendido quando ela pede um divórcio prematuro e logo depois morre num acidente de carro. O ex-marido é logo apontado como o principal suspeito, após a policia descobrir que o carro havia sido sabotado.

O marido em questão é interpretado pelo Klaus Kinski, que é sempre uma presença marcante em qualquer coisa que faça. E ele está muito bem no papel do sujeito amargurado por ter perdido a esposa ao mesmo tempo em que se vê acusado; e pior, acaba descobrindo que, possivelmente, ela ainda está viva, após uma jornada psicodélica numa festa onde assiste a um filme erótico cuja “atriz” possui algumas características que pertenciam a sua mulher.

É praticamente uma versão giallo de VERTIGO, de Alfred Hitchcock, e isso fica ainda mais evidente no desfecho. Mas esse tipo de alusão não tira o brilho de A DOPPIA FACCIA, que é uma aula de construção atmosférica, embora algumas cenas com efeitos especiais e miniaturas sejam bem toscos, mas não deixa de ser um charme a mais.