AL CAPONE (1959); Classicline

Al Capone (1959)

directed by Richard Wilson

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AL CAPONE começa com o jovem personagem título chegando a Chicago, em 1919. O filme abre num longo plano sequência que apresenta o sujeito de modo magistral. A câmera se movimenta e passeia pela vastidão de um bar, entre figurantes bêbados, garçonetes, mesas e balcão, até que adentra no recinto Rod Steiger na pele do famigerado gangster, com o nome do filme preenchendo a tela, enquanto o plano continua por um bom tempo. Poderia durar até mais, poderia durar para sempre; desses momentos que provam que não estamos diante de um filme qualquer. Há, no mínimo, personalidade por parte dos realizadores de AL CAPONE.

Richard Wilson é o nome do diretor. Richard quem? Sim, um talento subestimado e desconhecido. Foi assistente de Orson Welles em CIDADÃO KANE e SOBERBA, dirigiu uma dezena de filmes, mas nunca teve o merecido reconhecimento, o que é uma pena, porque o sujeito tem bons trabalhos no curto currículo, como ARMADO ATÉ OS DENTES, CONVITE A UM PISTOLEIRO, PAGA OU MORRE e obviamente este aqui, que é cheio de detalhes e sacadas visuais, como a da abertura, que enriquece ainda mais a experiência.

Voltando, Al Capone chega ao local para trabalhar como guarda-costas para Johnny Torrio, um mafioso que age sob a batuta do seu tio, um velho capo de influência política, Big Jim Colosimo. O velho, com a administração de Johnny, dirige vários clubes onde jogo e prostituição rolam soltos. Quando a Proibição de álcool chega em 1920, Johnny e Big Jim entram para o contrabando de inebriantes e ficam ricos. Quando Big Jim se recusa a fazer um acordo com os líderes de outras gangues para decidir os direitos de distribuição de bebidas alcoólicas em Chicago, é Capone quem convence Johnny a esquecer os laços familiares e a tomar uma decisão, “puramente comercial”, de permitir que ele execute Big Jim. Continuar lendo

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INNOCENT BLOOD (1992)

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É uma pena que o LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES seja o único filme de horror do John Landis a ser mais lembrado. Até quem não faz ideia de quem seja o diretor geralmente conhece, ou pelo menos ouviu falar do filme. Quero dizer, é óbvio que possui todos os méritos, mas acho injusto hoje ninguém lembrar de INNOCENT BLOOD. Claro, é compreensível quando se trata de uma produção que foi muito mal nas bilheterias, como é o caso aqui, mas não deixa de ser um dos melhores trabalhos do Landis.

Temos aqui um filme de vampiro de premissa original, bem dirigido, com elenco finíssimo, efeitos especiais práticos, sangrentos e ótima maquiagem. Sem falar na trilha sonora jazzística que encaixa uns Frank Sinatra… E mesmo assim, veio o fracasso. Alguns distribuidores ainda tentaram desesperadamente aproveitar o sucesso do outro filme do Landis para atrair público, como na Austrália, onde o filme foi lançado como A FRENCH VAMPIRE IN AMERICA.

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Esse lance de títulos é algo sempre divertido. No Brasil foi chamado de INOCENTE MORDIDA. Até aí tudo bem, nada de mais. Só não chega aos pés dos nossos amigos de Portugal, onde foi lançado com um hilário NÃO HÁ PESCOÇO QUE AGUENTE, ou os nossos hermanos argentinos que colocaram TRANSILVANIA MI AMOR! 😀

Mas o filme realmente tem uma francesa, a Anne Parillaud (NIKITA), que interpreta Marie, uma bela e sexy vampira que só mata gente má do mundo do crime para saciar sua sede de sangue. Numa noite qualquer, ela arranca a garganta de um gangster italiano (Chazz Palminteri) e acaba se envolvendo com a mafia de Nova York. O grande Robert Loggia vive Sallie “The Shark”, o chefão do bando, que também acaba se tornando vítima de Marie. Só que depois de mordê-lo, nunca tem chance de matá-lo em definitivo. Depois, Marie descobre que Sallie se transformou num vampiro e agora cria um exército de mordedores de pescoço na mafia de Nova York! No meio dessa confusão, Anthony LaPaglia desempenha o papel de um policial infiltrado no grupo de Sallie, tendo que lidar com a bela vampira e com a máfia de chupadores de sangue!

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A cena inicial de INNOCENT BLOOD mostra Anne Parillaud nua em pêlo, belissimamente iluminada. Claro, uma das melhores coisas do filme é o estilo de John Landis, um sujeito que nunca precisou demonstrar virtuosismos com a câmera, mas sabe compor enquadramentos com muito talento e é um mestre da mise en scène. O filme é um luxo nesse sentido e um dos melhores trabalhos de direção de Landis, junto com LOBISOMEM AMERICANO, OS IRMÃOS CARA DE PAU e UM ROMANCE PERIGOSO. Mesmo o lado cômico, que é sempre muito forte no trabalho Landis, funciona muito bem aqui.

Depois de dois terços do filme, o ritmo diminui um bocado, mas sempre com um detalhe ou outro para manter o interesse. E com o elenco que temos aqui, fica difícil desgrudar os olhos da tela. Parillaud está deslumbrante, mas quem rouba a cena é mesmo Robert Loggia. O elenco ainda conta com David Proval, Tony Sirico, Kim Coates, Luis Guzman e um hilário Don Rickles. E claro, uma das marcas registradas da Landis são as pequenas aparições de figuras cultuadas ou outros diretores em seus filmes, e aqui temos Frank Oz, Dario Argento, Sam Raimi em momentos bem divertidos. Também Tom Savini, Forrest J. Ackerman e até Linnea Quigley!

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Outra marca registrada de Landis é que não importa o gênero que seja o filme, se é comédia, ação, horror, enfim, qualquer trabalho de John Landis você pode esperar uma televisão ligada passando uma cena de um clássico do horror e monstros.

Não dá pra deixar de destacar também os maravilhosos efeitos especiais. Um dos melhores que eu já vi dos anos 90. Os efeitos de maquiagem de Steve Johnson são simplesmente incríveis e há uma cena quando um dos personagens se queima do sol que é deslumbrante – está quase no mesmo nível da transformação do lobisomem em UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES. O filme também não economiza em sangue e gore, e os fãs desse tipo de coisa não precisam se preocupar com isso. Já eu curto mais o lado erótico que Landis conseguia incluir, mesmo num filme mainstream.

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Uma curiosidade, o filme inicialmente seria dirigido pelo grande Jack Sholder (diretor subestimadíssimo), e teria Lara Flynn Boyle e Dennis Hopper. Quando Sholder pulou fora do projeto, Landis assumiu o lugar e substituiu, seja lá por qual motivo, os dois atores por Parillaud e Loggia. E apesar de amar o Loggia por aqui, daria tudo para ver uma versão surtada de um vampiro mafioso vivido por Dennis Hopper. Teria sido lindo!

Mas do jeitinho que é, mesmo com seus problemas, INNOCENT BLOOD ainda é um dos meus filmes de vampiros favoritos. Está lá junto com alguns exemplares da Hammer, o DRACULA de John Badham, MARTIN de George Romero, THE HUNGER de Tony Scott, DRÁCULA do Coppola e, claro, BLOOD FOR DRACULA, de Paul Morrissey.

BONNIE & CLYDE (1967)

A presepada na entrega do prêmio de melhor filme ontem, no Oscar, foi simplesmente linda! E a melhor maneira que encontrei para homenagear o casal que nos brindou com esses momentos de puro constrangimento, desorganização e magia foi republicar esse textinho de BONNIE & CLYDE direto do blog antigo.

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Dizem que o ator (e produtor do filme) Warren Beatty precisou implorar de joelhos perante a cúpula da Warner para levar às telas de cinema a vida de Bonnie e Clyde, o famoso casal que roubava bancos na época da depressão americana. Cabeças duras, como sempre, os executivos não tinham ideia de que BONNIE & CLYDE (no Brasil, UMA RAJADA DE BALAS) iria se tornar uma das obras mais influentes do cinema americano e mudaria totalmente a maneira de tratar a violência no cinema mainstream de Hollywood.

Hollywood, claro! Porque violência, sangue e gore já existia há muito tempo no cinema americano (Herschell Gordon Lewis que o diga). Mas seria injusto desmerecer a maneira como a violência é abordada aqui. Tomemos por exemplo um dos primeiros assaltos, quando Michael J. Pollard estaciona o que deveria ser o carro de fuga. A situação vira uma cena cômica até que PIMBA! Soa um tiro na cabeça de um funcionário do banco, muito sangue é espalhado na tela e acaba a palhaçada!

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Não é preciso nem tocar no assunto do desfecho de BONNIE & CLYDE também, não é? Aquele brutal, sangrento, perturbador, chocante! Sam Peckinpah deve ter ficado com água na boca imaginando o que poderia fazer com seus próximos filmes, não é a toa que tivemos pouco tempo depois um WILD BUNCH e o cabra ficou conhecido como “poeta da violência”.

Também há a influencia da Nouvelle Vague francesa. As primeiras imagens que mostram Faye Dunaway nua em seu quarto parecem saídas de um filme do Truffaut. Por falar no realizador francês, a direção de BONNIE & CLYDE quase parou em suas mãos antes de ir para o excelente e subestimado Arthur Penn, que realizou por aqui um belíssimo trabalho. Simples, mas moderno, um novo frescor para um estilo de trabalho estético e de câmera que não era muito comum no período no cinema americano. O cara já havia demonstrado traços experimentais em filmes anteriores, especialmente MICKEY ONE, também com o Beatty, que é um autêntico filme de vanguarda.

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Além de Dunaway (que esté maravilhosamente linda), Beatty e Pollard, o filme conta com a presença de Gene Hackman e Estelle Parsons. Todos indicados ao Oscar, mas apenas esta última levou a estatueta pra casa, e merecida, embora todo o elenco esteja ótimo. Temos até uma pequena participação do Gene Wilder. A fotografia também merece destaque, há uma cena em que uma nuvem passa por cima dos atores tapando o sol que é uma coisa absurda de linda…

Assistir a BONNIE & CLYDE é recompensador, principalmente quando é a primeira vez, como foi o meu caso. Retirou um peso da minha consciência cinéfila…

Escrito originalmente em novembro de 2009.

BIG BAD MAMA (1974)

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Uma daquelas pérolas que os anos 70 nos deu. Estamos no período da depressão americana, temos a Lei Seca, assalto à bancos, tiroteios à rodo com Tommy Gun’s cuspindo fogo e Angie Dickinson peladona! Precisa de mais alguma coisa para BIG BAD MAMA ficar melhor? Ah, claro, a presença hilária de Dick Miller numa produção do grande Roger Corman.

Naquele período, Corman começava a fazer dinheiro com pequenos gangster movies e resolveu apostar na anti-heroína Wilma McClatchie, a tal Big Bad Mama do título, vivida por Dickinson, e suas duas filhas espirituosas e sapecas, que embarcam numa jornada no mundo do crime, no qual estão sempre envolvidas em roubos, sequestros, perseguições, tiroteios, num road movie alucinante de ação e com vários personagens interessantes cruzando o caminho das três protagonistas. Como o ladrão de bancos encarnado por Tom Skerritt, o romântico jogador compulsivo na pele de William Shatner e o policial durão vivido por Miller, com suas expressões impagáveis, definitivamente uma das melhores coisas de BIG BAD MAMA. Sempre que está prestes a concluir sua missão de capturar Big Mama, algo dá errado e suas reações são, no mínimo, de rachar o bico! Não tem como não ser fã desse eterno coadjuvante…

A direção é de Steve Carver, que no ano seguinte fez outro filme ótimo do gênero para Corman: CAPONE, com Ben Gazzara no papel título. Dirigiu depois Chuck Norris pelo menos duas vezes, como o McQUADE – O LOBO SOLITÁTIO, que eu acho um filmaço! BIG BAD MAMA é o seu primeiro longa e já demonstra boa habilidade trabalhando muitas sequências de ação, um senso de humor bem equilibrado, mantendo as coisas num ritmo ágil e divertido… é claro que a pulsão sexual e a quantidade de nudez também ajudam, especialmente com as personagens das filhas (Susan Sennett e Robbie Lee) bem à vontade e Angie Dickinson, nos seus 43 anos, expondo seus atributos de deixar muita mulher de vinte com inveja.

BIG BAD MAMA recebeu o título A MULHER DA METRALHADORA aqui no Brasil e ganhou uma continuação nos anos 80, dirigido por outro pupilo de Corman, Jim Wynorski.

SEU ÚLTIMO REFÚGIO (High Sierra, 1941)

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Vi outro Raoul Walsh por esses dias, HIGH SIERRA, um filmaço com elementos noir e estrelado pelo Humphrey Bogart, talvez o maior ator que o gênero já teve. Cínico como sempre, mas fazendo um anti-herói, um habilidoso ladrão ao invés do habitual detetive que o consagrou em filmes como O FALCÃO MALTÊS e À BEIRA DO ABISMO, impressiona muito seu desempenho por aqui, na pele de Roy “Mad Dog” Earle. E, convenhamos, companhar um Bogart inspirado torna qualquer filme uma experiência única.

A trama de HIGH SIERRA começa quando Earle sai da cadeia e já tenta emendar um novo golpe: um assalto a um hotel cheio de milionários. Contando com a ajuda de dois cúmplices inexperientes e uma dançarina que se apaixona por ele (Ida Lupino), Earle aguarda instruções em uma cabana nas montanhas, planejando se endireitar após este último assalto. É interessante olhar para Earle, perceber a sua complexidade e peculiaridades. Apesar da “profissão”, o sujeito não é um mal intencionado – embora utilize violência quando precisa. O passado sugere que Earle seja vítima do sistema e por isso se vê obrigado a ajudar uma família que passa necessidades, após perder tudo e tentar a sorte na cidade grande. Um reflexo da própria vida do protagonista, uma maneira de se reconectar com o que realmente gostaria de ser. O filme é sobre Earle tentando aceitar sua identidade, aceitar o fato de que é um bandido e tentar mudar isso é impossível. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #13: O SÁDICO SELVAGEM (The Lineup, 1958)

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Dez anos antes de estrelar o melhor filme que existe no universo (TRÊS HOMENS EM CONFLITO, de Sergio Leone), Eli Wallach estreava na tela grande com BABY DOLL, de Elia Kazan. O ego inflou, o sucesso lhe subiu a cabeça, e quando foi contratado para viver o gangster psicopata Dancer, em THE LINEUP, ficou aborrecido por seu segundo filme ser um crime movie aparentemente rotineiro, um passo atrás em relação ao seu prestigioso debut. No entanto, estamos tratando de um filme de Don Siegel e talvez Wallach não soubesse do que o homem era capaz de fazer. O fato é que aos poucos, enquanto as filmagens iam acontecendo, o ator percebeu a profundidade e complexidade do personagem que estava compondo e passou a ficar mais simpático ao projeto. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #12: BABY FACE NELSON (1957)

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E eis que Don Siegel resolve fazer um filme meio biográfico de uma das figuras criminosas mais fascinantes da história americana, Lester J. Gillis, mais conhecido por seu apelido, Baby Face Nelson. Tal fascínio é menos por uma eventual identificação do personagem com o público – o cara era um psicopata desprezível – e mais pelas possibilidades de um estudo de personagem cheio de características dramáticas e psicológicas e pelo momento histórico rico em detalhes. E a visão de Siegel sobre o sujeito em BABY FACE NELSON não poderia ser diferente: crua, revisionista e extremamente brutal. Continuar lendo

AJUSTE FINAL (Miller’s Crossing, 1990)

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É interessante perceber as mudanças das próprias opiniões. Revi recentemente O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ, um dos filmes que me fez gostar dos Irmãos Coen e já não vi muita graça… Por outro lado, reencontrei-me com AJUSTE FINAL. O primeiro contato que tivemos, no meio dos anos noventa passou em branco, sem relevância alguma. Muito Stallone e Schwarzenegger na cabeça, eu acho. Passados quase vinte anos, continuo com Stallone’s e Schwarzenegger’s na cabeça, mas que surpresa agradável! Seja lá o que tenha acontecido foi como assistir a outro filme. E é, sem dúvida alguma, um dos melhores trabalhos dos irmãos Coen.

O ano de 1990 foi bom para os filmes de gangsters, não? Scorsese lançou OS BONS COMPANHEIROS e o Coppola fechou sua famosa trilogia com a obra-prima O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III (que me perdoem os fãs, é o melhor filme da série). Neste contexto que surge AJUSTE FINAL, uma obra menor diante destes dois colossos cinematográficos daquele período, mas que não deixa de ter encanto e personalidade. Sua proposta é um pouco diferente também. Enquanto os filmes de Scorsese e Coppola são épicos que trabalham seus personagens e universos de forma densa, detalhista e dramática, o filme dos Coen’s se revela mais como uma elegante diversão e conta com o roteiro perspicaz, diálogos afiados e o humor característico da dupla, além de uma boa dose de violência estilizada.

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A trama me lembra um pouco YOJIMBO, de Akira Kurosawa. Gabriel Byrne é Tom Reagan, o braço direito de Leo (Albert Finney), o grande chefão do crime na cidade. Tom cuida muito bem dos negócios do chefe, com muita lealdade, mas por trás mantém um romance com a noiva (Marcia Gay Harden pagando de femme fatale) do seu patrão. Quando a sacanagem é finalmente descoberta, Tom acaba banido da organização e passa a trabalhar para a facção rival, embora nunca se saiba ao certo de que lado o sujeito está jogando… Mas é aqui que AJUSTE FINAL concentra uma série de confrontos entre os personagens e situações tensas que me deixou vidrado até o último segundo.

Outro detalhe que não vai deixar o espectador tirar os olhos da tela é o elenco. Além dos já citados, temos John Polito, que tem alguns dos melhores momentos do filme como o chefe da organização rival; o excelente J. E. Freeman; o grandalhão Mike Starr; e os habituais colaboradores dos Coen’s, Steve Buscemi e John Turturro. E há uma pontinha ótima do diretor Sam Raimi. É preciso destacar a performance de Albert Finney, pelo menos na sequência mais impressionante de AJUSTE FINAL, o ataque que seu personagem sofre em sua casa e a maneira como reage com uma tommy gun cospe-fogo atirando freneticamente pra cima dos adversários. Mais badass impossível. No entanto, é Gabriel Byrne quem carrega o filme com uma atuação refinada e cheia de sutilezas.

Digno de nota também é o trabalho de fotografia e direção de arte, que colabora muito para a criação do universo de AJUSTE FINAL, que não tem a ambição pretensiosa de seus “concorrentes” do período, mas acabou se revelando numa pequena jóia do gênero que eu havia esquecido lá no início dos anos noventa.

OS INTOCÁVEIS, aka The Untouchables (1987)

Assisti a uns filmes bem legais esta semana para comentar aqui no blog, mas não tive tempo ainda para escrever. E não, ainda não vi outro Castellari, mas fiquem tranquilos que em breve eu posto mais do italiano. Hoje revi este filmaço do Brian De Palma e decidi arriscar algumas palavras. De Palma é um dos meus diretores americanos preferidos ainda em atividade e é sempre interessante dissertar sobre seus filmes – se é que o sujeito ainda está realmente em atividade, só acredito nisso quando PASSION, seu próximo filme anunciado, estiver em fase de pós produção.

Enquanto isso, ficamos com as maravilhas que já realizou durante a carreira, como é o caso de OS INTOCÁVEIS, sobre o incorruptível agente do Tesouro, Eliot Ness, que trava uma batalha contra o execrável gangster Al Capone durante a Lei Seca americana e blá, blá, blá…

O enredo é bastante conhecido por todo mundo e já foi diversas vezes explorado em filmes e séries, mas não significa que tenha deixado de ser interessante. Além do belo roteiro, escrito por David Mamet, a grande proeza de OS INTOCÁVEIS está na eloquente e estilosa direção de De Palma, além da colaboração de alguns monstros da atuação, como Robert De Niro e Sean Connery e os jovens Kevin Costner, Andy Garcia e até Billy Drago. Trilha sonora marcante de Ennio Morricone, impecável direção de arte e fotografia, não poderia sair nada menos que um autêntico clássico daqui!

O Capone de Robert De Niro é algo simplesmente extraordinário. Bons tempos quando o ator podia fazer apenas umas cinco ou seis aparições num filme e ainda assim surpreender a cada cena. O sujeito leu todas as biografias de Capone, viu todos os filmes sobre o cara e conferiu ainda documentários da época para compor o personagem.

O resultado está na tela em cada gesto, cada olhar, cada sorriso, já vi esse filme umas quinze vezes e toda vez fico espantado com o desempenho do De Niro. Ao mesmo tempo que inspira simpatia, fazendo seus “capachos” rirem com suas piadas, o sujeito é totalmente brutal, como na impactante cena da explosão de ódio com um taco de baseboll na mão. Deve ser o Capone definitvo do cinema, não?

O fato é que Capone é um total contraponto do bem absoluto personificado no Eliot Ness de Kevin Costner, que não é ator que guardo muita admiração, mas até que se sai bem como o herói bonzinho. Já o velho Sean Connery é outro nível e mereceu o seu Oscar de coadjuvante pelo seu trabalho impecável em OS INTOCÁVEIS.

O sujeito faz o papel de Jim Malone, um correto guarda de rua prestes a se aposentar e por isso, a princípio, não aceita fazer parte do grupo. Mas depois se encarrega de fazer o “trabalho sujo” e ações mais violentas contra Capone. “Ele puxa uma faca, você saca o revólver. Ele manda um dos seus para o hospital, você manda um deles para o necrotério. Essa é a Lei de Chicago”. Uma aula de interpretação.

Malone ajuda Ness a escolher a dedo um cadete, que ainda não foi comprado por Capone, e entra em cena um jovem Andy Garcia. O quarto Intocável é o desajeitado, mas decidido, fiscal de rendas, vivido por Charles Martin Smith, que não hesita quando Malone lhe oferece uma escopeta para entrar em ação.

 

E o que não poderia faltar em OS INTOCÁVEIS são boas sequências de tiroteios em que o quarteto se envolve, estraçalhando os inimigos com chumbo grosso, como na parte que se passa na fronteira com o Canadá, quando interceptam um carregamento de bebidas. A dose de violência também não vai deixar na mão os amantes de uma sangreira, como o assassinato no elevador. Noutra cena, logo no início, De Palma explode uma garotinha segurando uma bomba numa maleta… se fosse filmado hoje, nesta “maravilha” de mundo politicamente correto que vivemos, o filme teria vários problemas… Temos até Brian De Palma brincando de Dario Argento, com o ponto de vista subjetivo na cena do meliante que tenta entrar na casa de Malone. Um puta trabalho de câmera!

Mas o ponto máximo de OS INTOCÁVEIS foi a cena da escadaria da Union Station, um misto de suspense e ação de cortar a respiração. Ness tenta capturar uma testemunha chave para o julgamento de Capone. O cerco armado. Uma mulher que acaba de chegar de viagem aparece com um carrinho de bebê e, com muita dificuldade, resolve subir a escadaria enquanto o local vai se enchendo de figuras ameaçadoras. Basta esses simples elementos em jogo para que De Palma bote para arregaçar num tiroteio desenfreado, cuidadosamente esculpido e editado, para servir tanto de atrativo para o público, demonstrando as façanhas dos Intocávais, quanto homenagem à uma das cenas mais famosas do cinema mudo, o massacre na escadaria do filme russo O ENCOURAÇADO DE POTENKIM, de Sergei Eisenstein.

Numa época em que eu não fazia idéia de quem era Brian De Palma, lá pelos meus dez anos, no início dos anos 90, tive contato com OS INTOCÁVEIS enquanto passava numa madrugada no Corujão da Globo e como não era sempre que eu podia dormir tão tarde, gravei em VHS. Aquela fita ficou até gasta de tantas vezes que passava no velho vídeo cassete quatro cabeças do meu velho. O filme não é nem o meu favorito do De Palma, mas acabo tendo uma ligação bem maior por conta da nostalgia, por ser um dos vários exemplares responsáveis por me fazer amar tanto o cinema.

O ASSASSINO DE SHANTUNG (The Boxer from Shantung, 1972)

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Comprei bastante DVD’s visitando as lojas e sebos no centro de São Paulo nesta última viagem. Estava na companhia do Takeo, que ficava fazendo suas recomendações. Acabei tendo que comprar uma mala só pra carregar pra casa a quantidade de DVD’s que adquiri. Então já sabem, tenho muitas pérolas pra ver e comentar aqui no blog (falo como se antes eu não tivesse… Esse vício de acumular filmes me consome)! Hoje conferi O ASSASSINO DE SHANTUNG, um dos maiores clássicos da Shaw Brothers, dirigido pelo genial Chang Cheh, e que o Herax já havia me recomendado há mais de um ano. É, demorei muito pra assistir, mas até que valeu a pena esperar para ter o DVD nacional em mãos, lançado pela China Vídeo. É simplesmente um puta filmaço!

Tendo em mente que se trata de uma espécie de SCARFACE das artes marciais, dá pra ter uma noção do que o enredo tem para oferecer. A trama aborda a típica história do sujeito do interior que vai à cidade grande em busca de uma vida melhor, acaba se envolvendo com o submundo da máfia e etc, e se torna um chefão do crime organizado. Mas como se trata de um filme de luta da Shaw Bros., temos aqui um jovem lutador de kung fu, Ma Yongzhen (Chen Kuan-tai), que vai a Xangai tentar a sorte. Envolve-se com as gangues locais e como é lutador extremamente habilidoso, forte pra burro, Ma constrói sua ascensão à base da porrada, até chegar ao topo!

Ma-in-ActionO ASSASSINO DE SHANTUNG até ensaia algum discurso social sobre o tema, mas o que sobra mesmo são os momentos de pancadaria. As lutas não possuem o alto nível de coreografia como em futuras produções e Chen Kuan-tai não é exatamente um Bruce Lee, mas até que são muito boas, principalmente porque Chang Cheh tem muita noção do que precisa para criar cenas de impacto visual, seja na forma como a câmera se movimenta no acompanhamento dos personagens, ou no apelativo uso da violência e tinta vermelha como sangue. Ter Lau Kar Leung como responsável pela coreografia também deve ter ajudado bastante! A sequência final é de uma brutalidade impressionante! Cheh é um mestre em criar finais violentíssimos e este aqui é um de seus mais sangrentos!

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Ainda sobre esse desfecho, achei muito semelhante alguns detalhes entre os finais de O ASSASSINO DE SHANTUNG e a versão dos anos 80 de SCARFACE, dirigido por Brian De Palma. Vou soltar alguns SPOILERS, estejam avisados. Nos dois filmes os personagens continuam pelejando mesmo feridos. Ma com uma machadinha enfiada na barriga continua lutando contra vários oponentes e Al Pacino sendo alvejado por todos os lados permanece de pé atirando. Os dois também são pegos por trás, de surpresa, e ambos caem de uma certa altura sem vida. Será que estou divagando ou não passa de coincidência? Não tenho a informação de que De Palma tenha assistido a este aqui para se inspirar…

Independente de ter inspirado ou não o diretor americano, O ASSASSINO DE SHANTUNG é, com toda certeza, uma obra de grande influencia para o cinema de artes marciais dos anos 70! Recomendo fortemente essa belezinha com o padrão Chang Cheh de qualidade!

MACHINE GUN KELLY (1958)

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Já devo ter comentado sobre o Roger Corman num dos primeiros posts do blog, mas vale a pena relembrar. Corman foi um dos grandes mestres do cinema B americano, prolífico produtor e diretor de cinema fantástico, western, policial e exploitation de todas as espécies, além de ter revelado vários cineasta como Scorsese, Coppola, Monte Hellman, Joe Dante, e uma lista infindável. Uma de suas principais características é a velocidade na qual realiza suas produções. MACHINE GUN KELLY, por exemplo, teve apenas oito dias de filmagens e faz parte de uma série de gangster movies que realizou na época.

O filme é livremente inspirado na vida de George Kelly – conhecido como Machine Gun Kelly pelo fetiche que tem por sua metralhadora – um perigoso bandido da década de 30, que foi impulsionado pela mulher ambiciosa a trilhar o caminho do crime. Quem encarna o sujeito é ninguém menos que Charles Bronson; e quem pensa que ele era um iniciante naquela época está enganado. MACHINE GUN KELLY era seu vigésimo segundo filme (embora tenha sido seu primeiro com maior importância) e sua interpretação está entre as melhores que o ator já compôs, principalmente no que se refere aos detalhes da construção de personagem, como a fobia pela morte, por exemplo.

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A direção de Corman é inspirada. Com uma simples cena ele resume toda a essência do personagem de Bronson, aquela em que o ator brinca de bater palma com a criança sequestrada. Além disso, a criatividade do diretor para driblar o baixo orçamento é absurda, como no primeiro assalto logo no início, onde mostra apenas a sombra do policial que é baleado pela metralhadora de Kelly numa solução bem simples e muito funcional; isso sem contar os diálogos muito bem colocados no roteiro de R. Wright Campbell (roteirista de várias produções do Corman e de HELLS ANGELS ON WHEELS, de Richard Rush).

Mas MACHINE GUN KELLY possui algumas irregularidades narrativas que decorrem por causa da pressa da produção, do baixo orçamento, o que afeta o ritmo. O filme começa muito bem, mas tem suas decaídas, não preza muito por cenas de ação e tudo isso não permite que o filme saia do limbo preconceituoso que a crítica “séria” tem com os filmes B, pois na verdade nenhum destes detalhes atrapalha a diversão. O fato é que é um ótimo filme e a forma como Corman trata psicologicamente seu personagem é digna de um cinema inventivo muito além de seu tempo.

WISE GUYS (1986)

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Para quem está acostumado com os filmes de Brian De Palma, sempre carregados de tramas violentas, homenagens à Hitchcock e suspenses elaborados por uma câmera virtuosa, vai se surpreender com o diretor no comando de WISE GUYS. Uma comédia leve e divertida que o diretor aceitou fazer a convite do produtor Aaron Russo, após realizar DUBLÊ DE CORPO (84). O início da carreira de De Palma é marcada por algumas comédias que satirizavam politicamente o modo de vida americano da época, como GREETINGS (68) e HI, MOM! (70), ambos estrelados por um jovem Robert de Niro antes de iniciar sua parceria com o diretor Martin Scorsese. Ou seja, De Palma já havia provado antes o talento do ator.

Mas vamos ao WISE GUYS cuja história gira em torno de dois membros atrapalhados da máfia de New Jersey, interpretados por Danny De Vito e Joe Piscopo. O filme remete aos trabalhos do Scorsese mostrando a uma máfia de baixa categoria e sem o glamour de Tony Montana do filme SCARFACE (83), que De Palma havia dirigido alguns anos antes. Os dois sujeitos, na verdade, recebem sempre os trabalhos mais pífios e são ridicularizados pelos outros membros. Ao receberem a “grande missão” de apostarem num cavalo de corrida, acabam colocando o dinheiro em outro cavalo, achando que o favorito de seu chefe perderia, o que não acontece. Os dois são marcados como traidores, mas ao invés de matá-los subitamente, Tony Castelo (Dan Hedaya), o chefão da parada, coloca-os com a missão de matar um ao outro.

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WISE GUYS é um ótimo exercício de direção para De Palma que, apesar de não realizar nenhuma acrobacia com sua câmera, deixa seus atores brilharem livremente no gênero que já estão à vontade. Danny De Vito surpreende com um dos papéis mais engraçados de sua carreira e Joe Piscopo demonstra toda sua expressividade cômica. O elenco ainda é formado com Frank Vincent, Harvey Keitel e Lou Albano (talvez o personagem mais divertido). O filme não foi muito bem de bilheteria nos Estados Unidos e acabou sendo esquecido automaticamente, infelizmente. Mas realmente não é nenhuma maravilha. Algumas situações do roteiro poderiam ser melhor exploradas e o final é um tanto forçado e preguiçoso.

No Brasil recebeu o título cretino de QUEM TUDO QUER, TUDO PERDE, o que contribuiu ainda mais para o esquecimento por aqui. Além disso, o estúdio resolveu meter o dedo no material final contra a vontade de De Palma. Mas nada que estrague a diversão, principalmente nos dois primeiros atos, quando a história é conduzida de maneira simples com ótimos momentos, como a cena em que De Vito recebe a ordem de ligar o carro de seu chefe, uma aula de montagem e tensão cômica. Ou o assassinato na igreja, praticamente uma mistura genial do pastelão com o rigor intrigante do suspense de De Palma.