ESPECIAL DON SIEGEL #18: OS ASSASSINOS (The Killers,1964)

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por DANIEL VARGAS

A terceira adaptação do conto de Ernest Hemingway no cinema, (A primeira, um longa de 1946 de Robert Siodmak, e a segunda, o primeiro curta-metragem, de 1956, de Andrei Tarkovsky) esse OS ASSASSINOS de Don Siegel é, com certa facilidade, a melhor de todas. Originalmente era fruto para ser o primeiro de uma série de outros filmes para televisão chamada “Projeto 120”, mas foi considerado tão brutal que resolveram lançar para o cinema. O filme em momento algum tem medo de mostrar cenas gráficas de violência, contra mulheres inclusive. Chega a ser chocante até mesmo para quem o vê hoje. O fato do Siegel ter filmado em Scope também ajudou bastante.

O filme muda completamente o ponto de vista do original, colocando-o sob a perspectiva dos assassinos contratados para matar Johnny North (John Cassavetes), que chocados pela reação submissa diante à própria morte, não tentando escapar do seu destino por nenhum momento sequer, vão atrás da verdadeira história por trás daquele contrato. Eles acabam descobrindo que Johnny se envolveu em um roubo de 1 milhão de dólares, mas esse dinheiro acabou sumindo. Eles então vão atrás dos conhecidos do Johnny, um por um, para descobrirem de fato do porquê sua vítima não tentar fugir, quem os contratou para o serviço, e o paradeiro do dinheiro. Descobrem que Johnny se envolveu com Sheila Farr (Angie Dickinson), a namorada do mentor do plano, Jack Browling (Ronald Reagan, surpreendentemente bem).

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Vendo hoje, é quase impossível não enxergar a forte influência que esse filme exerceu sobre PULP FICTION. Toda a essência do filme em colocar a camaradagem (e química) entre os dois assassinos está lá. Enquanto Lee (Clu Gulager) faz a vez de Vincent Vega do Travolta, silencioso, intempestuoso, e sempre o mais disposto à atos violentos, Charlie Strom (Lee Marvin) fica com a essência do Jules, de Sam Jackson; o mais falante e intimidador, e realmente o cérebro da dupla, sempre pensando pelos dois. Sem falar que enquanto Lee parece estar no auge da sua “carreira” como criminoso, Charlie já tem um semblante amargo e esgotado, tentando justificar sua busca pelo dinheiro como sua “aposentadoria” garantida, e sair da vida de matança uma vez por todas.

O filme também parece tirar o melhor de cada integrante do elenco. Além de Ronald Reagan fazer a performance da sua vida (infelizmente iria se aposentar da carreira artística para se dedicar a política de vez logo depois), Angie Dickinson merece destaque exclusivo e está em seu esplendor como uma femme fatale (contra o tipo) que assim como todo o resto dos personagens, não parece ter qualidades redentoras nenhuma. Ela conhece e seduz o personagem do Cassavetes, e como uma boa e clássica femme fatale, o manipula com sexo e acaba com sua carreira como piloto de corrida, o obrigando a entrar no plano do assalto do seu igualmente inescrupuloso namorado. Sheila Farr é a perfeita Lady MacBeth, que demonstra simpatia para onde o vento estiver soprando. Cassavetes também está excelente como o pato arrogante da vez no gênero.

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OS ASSASSINOS é um grande “pulp” neo-noir, que parece sempre estar tentando se engrandecer, apesar do baixo custo de produção. Em um plano aéreo incrível vendo pessoas saindo de um hotel, descobrimos que estamos de fato diante de uma câmera subjetiva de um sniper que começa à atirar em seus alvos. Orçamentos à parte, é de fato, um grande filme. E o começo do melhor momento da carreira do Siegel.

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SEU ÚLTIMO REFÚGIO (High Sierra, 1941)

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Vi outro Raoul Walsh por esses dias, HIGH SIERRA, um filmaço com elementos noir e estrelado pelo Humphrey Bogart, talvez o maior ator que o gênero já teve. Cínico como sempre, mas fazendo um anti-herói, um habilidoso ladrão ao invés do habitual detetive que o consagrou em filmes como O FALCÃO MALTÊS e À BEIRA DO ABISMO, impressiona muito seu desempenho por aqui, na pele de Roy “Mad Dog” Earle. E, convenhamos, companhar um Bogart inspirado torna qualquer filme uma experiência única.

A trama de HIGH SIERRA começa quando Earle sai da cadeia e já tenta emendar um novo golpe: um assalto a um hotel cheio de milionários. Contando com a ajuda de dois cúmplices inexperientes e uma dançarina que se apaixona por ele (Ida Lupino), Earle aguarda instruções em uma cabana nas montanhas, planejando se endireitar após este último assalto. É interessante olhar para Earle, perceber a sua complexidade e peculiaridades. Apesar da “profissão”, o sujeito não é um mal intencionado – embora utilize violência quando precisa. O passado sugere que Earle seja vítima do sistema e por isso se vê obrigado a ajudar uma família que passa necessidades, após perder tudo e tentar a sorte na cidade grande. Um reflexo da própria vida do protagonista, uma maneira de se reconectar com o que realmente gostaria de ser. O filme é sobre Earle tentando aceitar sua identidade, aceitar o fato de que é um bandido e tentar mudar isso é impossível. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #13: O SÁDICO SELVAGEM (The Lineup, 1958)

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Dez anos antes de estrelar o melhor filme que existe no universo (TRÊS HOMENS EM CONFLITO, de Sergio Leone), Eli Wallach estreava na tela grande com BABY DOLL, de Elia Kazan. O ego inflou, o sucesso lhe subiu a cabeça, e quando foi contratado para viver o gangster psicopata Dancer, em THE LINEUP, ficou aborrecido por seu segundo filme ser um crime movie aparentemente rotineiro, um passo atrás em relação ao seu prestigioso debut. No entanto, estamos tratando de um filme de Don Siegel e talvez Wallach não soubesse do que o homem era capaz de fazer. O fato é que aos poucos, enquanto as filmagens iam acontecendo, o ator percebeu a profundidade e complexidade do personagem que estava compondo e passou a ficar mais simpático ao projeto. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #12: BABY FACE NELSON (1957)

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E eis que Don Siegel resolve fazer um filme meio biográfico de uma das figuras criminosas mais fascinantes da história americana, Lester J. Gillis, mais conhecido por seu apelido, Baby Face Nelson. Tal fascínio é menos por uma eventual identificação do personagem com o público – o cara era um psicopata desprezível – e mais pelas possibilidades de um estudo de personagem cheio de características dramáticas e psicológicas e pelo momento histórico rico em detalhes. E a visão de Siegel sobre o sujeito em BABY FACE NELSON não poderia ser diferente: crua, revisionista e extremamente brutal. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #11: A RUA DO CRIME (Crime in the Streets, 1956)

É interessante um filme como A RUA DO CRIME na filmografia de Don Siegel logo após um clássico como VAMPIROS DE ALMAS. A história é “menor”, o orçamento continua curto, mas percebe-se claramente um sujeito bem mais maduro como diretor no trabalho visual, na decupagem, na direção dos atores, na dosagem do drama e até mesmo metendo o bedelho no roteiro. Foi escrito por Reggie Rose, que também é o autor da peça na qual o filme se baseia. Siegel conta em entrevista que fez várias modificações no material de Rose, colocando em risco a relação entre eles, mas que eram, de acordo com ele, “absolutamente necessárias do ponto de vista cinematográfico.Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #5: MEDO QUE CONDENA (Count the Hours, 1953)

A primeira lacuna do Especial Don Siegel é o filme NO TIME FOR FLOWERS, conhecido no Brasil como ADORÁVEL TENTAÇÃO, de 1952, e que não foi possível localizar em lugar algum… Se alguém souber onde achar, é só falar que eu gostaria de dar uma conferida. Trata-se de uma comédia com a então esposa do diretor, Viveca Lindfors, apesar de não aparentar um exemplar muito expressivo na filmografia do homem, portanto, sem choro caso fique de fora. Sigamos em frente com  MEDO QUE CONDENA que veio logo a seguir. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #3: O CAIS DA MALDIÇÃO (The Big Steal, 1949)

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THE BIG STEAL começa aos 45 minutos do segundo tempo, quando somos colocados no meio de uma trama onde todos os acontecimentos da premissa já ocorreram. “Colocados” seria muito leve. Somos arremessados no olho do furacão, com o Robert Mitchum trocando socos com um sujeito, escapando, perseguindo, a pé, de carro, trocando tiros, mais socos… Se o filme fosse mostrar sua história desde o início, o recorte que assistimos aqui seria a sequência de ação final. E acho que isso define bem o que é THE BIG STEAL: uma grande sequência de ação/perseguição, dilatada ao máximo, que fecha uma trama que nem chegamos a acompanhar. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #01: ABERTA A TEMPORADA + JUSTIÇA TARDIA (The Verdict, 1946)

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Os filmes de Donald Siegel nunca são o que aparentam ser. Caminham juntos, sem perder de vista, tanto o lado divertido da coisa quanto a reflexão que reverbera dos temas e personagens de sua obra. O estigma de “diretor de ação” se transforma em “intelectual da ação” e alguns de seus feitos fazem juz a alcunha. E é exatamente isso que vamos conferir a partir de hoje aqui no DEMENTIA¹³, num especial que vai peregrinar a filmografia do homem, descobrindo e redescobrindo filme a filme a trajetória desse senhor que, em quase meio século de serviços prestados à arte cinematográfica, pode ser perfeitamente considerado um dos mais marcantes e audazes realizadores do cinema americano. Continuar lendo

CILADA MORTÍFERA, aka Murder by Contract (1958)

É nessas horas que eu percebo que não é apenas de tralhas de ação casca grossa dos anos 80 e 90 que um sujeito consegue viver. É óbvio que nunca vou abandonar essas bagaças, sou viciado nessas belezinhas, mas preciso urgentemente dar mais atenção aos precussores do cinema badass (nesse post eu disse que faria isso e acabei não fazendo), cujos personagens eram tão truculentos quanto John Matrix e Matt Hunter juntos, como é o caso de Claude. Alguém conhece o Claude? Pois é, deveriam…

Trata-se de um dos assassinos profissionais mais interessantes que eu já vi. Na verdade, pouca gente se lembra ou assitiu MURDER BY CONTRACT, apesar do diretor Martin Scorsese sempre falar da sua admiração pelo filme, da importância que teve sobre sua obra e como o influênciou especialmente em MEAN STREETS e TAXI DRIVER. Eu mesmo nunca tinha prestado muita atenção até o amigo Marcelo Valletta me fazer uma baita propaganda e finalmente parei pra ver.

E é uma coisa espantosa! Com 80 minutos de duração, o filme é de uma simplicidade, de uma economia na direção, na decupagem que deveria fazer os cineastas atuais sentirem vergonha de pisar num set de cinema. Só os dez minutos inciais, que fazem a apresentação do protagonista, são uma verdadeira aula de sofisticação e economia. Em tempos de Michael Bay, o trabalho do diretor Irving Lerner dá prazer aos olhos.

Filmado em apenas sete dias, MURDER BY CONTRACT é sobre esse assassino implacável e eficiente, que segue a mesma linha dos famosos matadores de aluguel que conhecemos hoje, como Jef Costello (Alain Delon, de O SAMURAI), Arthur Bishop (Bronson em THE MECHANIC), Ghost Dog (Forrest Withaker, de GHOST DOG), etc e tal… homens metódicos, que vivem sob suas próprias regras de sobrevivência, arquitetando com precisão a morte de seus alvos, mal sabia eu que, na verdade, todos esses caras são “filhos” de Claude, vivido brilhantemente por Vince Edward.

The only type of killing that’s safe is when a Stranger kills a Stranger”. Claude sempre demonstra-se como um homem frio e sem emoções, nunca carrega uma arma e aproveita dos hábitos próprios de suas vítimas para saber o momento de agir. Na trama, a série de serviços bem feitos, assassinando sem remorsos os homens pelos quais foi pago para matar, vai por água abaixo no instante que descobre que seu próximo alvo é bem diferente do que está acostumado…

O final antológico e anticlimático pode desagradar o espectador mais urgente, esperando algo mais espetacular… mas é perfeito na minha opinião, condiz muito bem com o clima de film noir existencialista que subverte certas expectativas. É um filme inventivo e subestimado, realizado liberto das amarras dos grandes estúdios, utilizando locações reais, etc… Com uma trilha sonora cativante e inusitada, visual sempre interessante, ótimo desempenho do elenco, MURDER BY CONTRACT entra fácil numa lista de melhores filmes sobre assassinos sob contrato. Um verdadeiro achado.