HONEY BRITCHES, aka DEMENTED DEATH FARM MASSACRE… THE MOVIE (1971/1986)

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Filme totalmente deslocado na carreira do prolífico Fred Olen Ray, HONEY BRITCHES foi produzido no início da década de setenta quando o sujeito não tinha completado nem vinte anos de idade e, mesmo assim, é muitas vezes confundido como o seu primeiro trabalho como diretor. Mas calma lá que vou explicar, até porque se trata apenas de uma picaretagem usual desses diretores de filme B.

HONEY BRITCHES realmente foi filmado no início da década de 70, mas por um tal Donn Davidson, e foi muito mal lançado comercialmente pela Something Weird. Fred Olen Ray só entra na parada em meados dos anos 80, quando descobre a existência do filme e decide comprá-lo. O sujeito reeditou a porra toda, filmou e acrescentou algumas cenas do bom e velho John Carradine como o contador da história, dizendo-se o “Juiz do Inferno”, falando qualquer baboseira só pra ter um apelo comercial, colocou seu nome nos créditos como diretor e vendeu essa “nova obra” para a famigerada Troma, que o relançou com o tal título DEMENTED DEATH FARM MASSACRE… THE MOVIE.

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John Carradine com expressão de felicidade por estar participando desta maravilha

E se não fosse por tudo isso, talvez nunca assitiriamos a esta tralha. Até porque HONEY BRITCHES é uma porcaria de qualquer forma, então só mesmo o nome do Ray e Carradine nos créditos pra me fazer parar e conferir.

A trama é sobre quatro ladrões de jóias da cidade grande, dois casais que acabaram de cometer um roubo e tentam fugir pelas zonas rurais enquanto estão sendo procurados pela polícia local. O carro deles fica sem gasolina, decidem procurar abrigo para se esconder e acabam indo parar na cabana de um velho fazendeiro e sua jovem esposa sexy. Quando um dos ladrões começa a dar em cima da tal esposa, todo o plano para não serem descobertos começa a ruir, acarretando numa onda de violência e morte.

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Um dos grandes problemas que eu tive de cara com HONEY BRITCHES é com o ritmo. O filme é chato e lento pra cacete, apesar da curta duração que não chega a 90 minutos. Logo no início do filme é preciso ter paciência para acompanhar as loooongas e intermináveis cenas dos ladrões de joias andando por florestas… Faz sentido se é o Tarkovski filmando uma de suas obras de arte, mas por aqui… Não sei o que esse Donn Davidson tinha na cabeça. E não acontece muita coisa, afinal, ao longo do filme, mas se você for paciente vai ver uma moça sendo morta à pancadas na cabeça com um jarro, um tridente na garganta de um sujeito e um tiro na testa de outro já perto do fim… Tudo filmado ao melhor estilo Herschell Gordon Lewis: exagerado e com muita tinha vermelha, que parece tudo, menos sangue.

O elenco também não ajuda muito. Um dos ladrões, que tem todo o ar de intelectual, possui um sotaque britânico que é extremamente irritante. Mas é engraçado ver o velho Carradine, quase próximo à morte, sendo a voz incosciênte da narrativa num cenário totalmente fora do contexto do filme. A coisa é tão deslacada que suas cenas parecem filmadas no quintal da casa de Ray. E temos pelo menos Ashley Brookes, que faz a esposa sexy. Não é boa atriz, mas se esforça, além de ser a única que mostra seus atributos numa rápida ceninha.

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Enfim, HONEY BRITCHES é uma picaretagem indicada para fãs hardcore de exploitations setentistas de orçamento risível, apreciadores de Fred Olen Ray e pessoas que possuem um gosto duvidoso, como é o meu caso. Não que eu tenha curtido, mas que tem sua graça justamente por ser tão bagaceiro, ah isso tem…

Outros filmes do Fred comentados aqui no blog:
BIOHAZARD
RESPOSTA ARMADA
HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS

HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS (1988)

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Começando as atividades de 2017 com um dos filmes que me fez apaixonar pelo cinema B de uns caras como Jim Wynorski, Fred Olen Ray, Charles Band e outras figuras dessa mesma laia: HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS, de Fred Olen Ray! Um clássico do cinema exploitation oitentista divertidíssimo, curto e cheio de mulher pelada, filmado em cinco dias com um orçamento abaixo dos 50 mil dólares.

O filme já começa de forma sensacional, com esse aviso:

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Depois, temos a majestosa Michelle Bauer fazendo um strip tease e, totalmente nua, destroça um sujeito com uma motosserra! Os efeitos gore, se é que podemos chamar assim, são tão ridiculamente baratos que não podem ser levados a sério… Aliás, o filme inteiro não deve ser levado assim.

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Na trama, temos Jack Chandler (Jay Richardson), um detetive obviamente inspirado em Raymond Chandler, com direito a narração de Film Noir, cansado do mundo, sem dinheiro, fodido trabalha na procura de uma moça desaparecida, Samantha (a lindeza Linnea Quigley), nos arredores de Los Angeles.

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Enquanto ele segue as pistas da moça, a polícia local vem investigando uma bizarra série de assassinatos cujas vítimas são feitas picadinho por motosserras, como é mostrado na cena de abertura… Entre uma investigação e outra, Jack encontra um paralelo entre os assassinatos com a sua garota desaparecida, o que o leva a Mercedes, a prostituta interpretada por Bauer. Jack arranja um encontro com Mercedes num bar de strip tease e ao mesmo tempo em que investe na prostituta ele vê Samantha girando no palco. Pouco depois desta revelação Jack cai inconsciente por causa de uma droga que Mercedes colocou em sua bebida.

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Jack desperta para encontrar-se numa situação bem bizarra, amarrado e na presença de Mercedes, Samantha e um terceiro sujeito chamado de “The Master” numa espécie de seita misteriosa. E o filme vai ficando cada vez melhor. “The Master” (que é encarnado pelo próprio Leatherface do original O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, Gunnar Hansen) explica um bocado sobre a as propriedades sagradas da motosserra. WTF!!!

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O lance é que Samantha foi parar nesse culto da motosserra formado por prostitutas e stripers. O tal Mestre explica que a motosserra é a ligação cósmica que une todas as coisas no universo, num culto secreto que se originou há muito tempo no antigo Egito… Naturalmente! haha! Prestes a ser sacrificado e virar picadinho, Jack consegue escapar quando uma das serras fica sem gasolina e foge com Samantha.

De volta a seu escritório, os dois arranjam tempo para um pequeno romance, que serve também para preencher o tempo do filme, que já é breve demais. Logo, Samantha e Jack descobrem a localização secreta do templo cerimonial do culto de motosserra (ajuda muito que haja um cartaz de papelão apontando o caminho) e antes que você perceba, terá testemunhado um duelo de motosserras e o espetáculo cultural que é A Dança Virgem das Serras Elétricas Duplas!!!

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Dá pra perceber que o diretor e roteirista Fred Olen Ray não tem absolutamente nenhuma pretensão com HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS, a não ser nos divertir com essa historinha besta, uma boa dose de humor pastelão e de um elenco feminino lascivo que não tem receio de mostrar alguns pares de peitos, que é o grande e verdadeiro atrativo do filme. Os fãs das rainhas do VHS, como Michelle Bauer e Linnea Quigley, vão desfrutar bastante disso aqui. Principalmente quando estão com pouca roupa empunhando motosserras… Um fetiche estranho, mas que o filme entrega com perfeição.

THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK (1980)

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THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK, do Ruggero Deodato, é considerado uma, entre tantas, versão “italiana” do THE LAST HOUSE ON THE LEFT, do Wes Craven, que, por sua vez, é uma refilmagem exploitation de A FONTE DA DONZELA, de Ingmar Bergman. De fato, há algumas semelhanças óbvias entre o filme do Deodato com o do Craven, mas o que realmente define a ligação entre as duas obras é a presença do ator David Hess, essa figura simpática aí em cima, que encarnana personagens extremamente parecidos em ambas produções. Hess morreu há alguns anos e deixou sua marca como uma lenda do gênero e eu escrevi esse textinho no blog antigo na época em sua homenagem, e republico agora.

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A sequência inicial dos créditos é  uma maravilha, demonstrando o que podemos esperar de Alex, o mecânico desempenhado por Hess. Dirigindo pelas ruas da cidade à noite, o sujeito não perde a chance de paquerar a gatinha do carro ao lado, o problema é que o cara é um maluco psicótico e a diversão termina com estupro seguido de assassinato. Na trama, Alex e seu comparsa Ricky (Giovanni Lombardo Radice), por algum motivo obscuro, acabam convidados para uma festa particular na casa de umas figuras da alta sociedade e decidem apimentar o evento tomando os anfitriões e convidados como reféns, submetendo-os a uma longa noite de torturas e humilhações.

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Pra quem nunca viu o filme, mas já conhece a reputação do diretor Ruggero Deodato, notório pelo clássico CANNIBAL HOLOCAUST e pela violência gráfica de seus trabalhos, um projeto como THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK pode gerar uma expectativa equivocada. Não são poucas as resenhas espalhadas pela internet colocando o filme pra baixo, por causa, talvez, de um esperado banho de sangue espirrando na tela, muito gore e vísceras e etc… Ok, temos algumas sequências sangrentas, perturbadoras e sádicas, como não poderia deixar de haver, mas nada que chame a atenção, com exceção da cena em que Hess desfere alguns cortes de navalha no corpo de uma jovem, cantarolando “Cindy, Oh, Cindy”.

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Talvez o estigma de filme barra pesada se deva também às censuras e cortes que sofreu na época, colocando-o na famosa lista dos video nasties. Mas em termos de visual, é bem leve, Deodato preferiu trabalhar mais um elaborado e lento jogo de tensão psicológica com os personagens do que o grotesco visual. Particularmente, aprecio o filme. Não acho uma obra-prima, mas adoro as escolhas do diretor, especialmente por seguir o caminho das tensões sexuais, explorando a nudez das atrizes em situações extremas. Também é impossível ficar indiferente em relação às performances de Hess e Radice, ambas geniais. E nem mesmo a reviravolta exageradamente forçada que o roteiro criou para justificar toda essa sandice ao final compromete o restante… aliás, este é um dos principais pontos dos detratores para falar mal do filme.

Há alguns anos surgiu uns boatos de que Deodato estaria preparando uma continuação de THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK, mas isso já fazem uns cinco ou seis anos. Não vai acontecer, obviamente. Na época mesmo eu já suspeitava… Mas fica a dica deste clássico exploitation italiano para ver e rever.

PANIC BEATS (1983)

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O prólogo de PANIC BEATS é uma das coisas mais absurdamente geniais que existe no cinema exploitation europeu! Uma sequência antológica e perturbadora, digna de um Lucio Fulci ou Jean Rollin, na qual um cavaleiro de armadura medieval, interpretado pelo grande Paul Naschy, persegue uma mulher completamente nua desesperada e gritando através de uma floresta nebulosa. A perseguição termina quando mulher cai por terra e é brutalmente espancada até a morte pelo cavaleiro com uma maça “estrela da manhã”. Aí vem os créditos iniciais e o resto do filme, que nunca chega ao nível do prólogo, mas que ainda possui algumas cartas na manga e vários bons momentos digno do cinema euro cult.

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Somos transportados para a moderna Paris, onde o bem-sucedido arquiteto Paul de Marnac (também interpretado por Naschy) recebe um diagnóstico médico de sua esposa,  Geneviève. Um coração fraco e doente torna imperativo que ela receba um longo descanso e evite grandes emoções. Paul sugere uma estadia prolongada em sua casa de campo, herdada de sua família, longe da cidade movimentada. Antes mesmo de chegar no local, no entanto, o casal já enfrenta algumas perturbações quando o carro fica sem gasolina e são atacados por um par de ladrões. Paul encara os vândalos numa situação meio bizarra e consegue afugentá-los e Geneviève consegue se controlar.

Finalmente o filme estabelece a ação na casa de campo. O local é cuidado por uma velha senhora, Maville, e sua jovem sobrinha fogosa Julie. E os de Marnac podem concentrar suas energias na recuperação de Geneviève e até mesmo tentar reavivar seu amor. Mas para Geneviève a paz e a tranquilidade são ilusórias. Ela acaba sempre se perturbando pela horrível lenda do antepassado de Paul, Alaric de Marnac, um cavaleiro do século XVI que assassinou sua esposa infiel e se tornou um devoto satanista, o mesmo sujeito do magnífico prólogo, obviamente…

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E aí vem o lado sobrenatural da coisa. Enterrado no cemitério local, a lenda diz que Alaric sai do túmulo a cada 100 anos para uma vingança sangrenta em qualquer noiva Marnac que não consegue cumprir os seus padrões. Uma noite, enquanto Paul está em Paris a negócios, Geneviève desmaia e quase morre de susto quando vê o fantasma de Alaric, de armadura e tudo mais, surgindo no local. Será que a lenda é real ou apenas ilusão provocada dos já desgastados nervos de Geneviève? Ou será que tem outras coisas bem mais complexas por trás de tudo?

Ainda sou um bocado neófito em termos de Paul Naschy. Assisti a pouca coisa que o sujeito fez, mas já deu pra notar porque foi um dos maiores atores do cinema exploitation. E, pelo visto, um grande diretor também. É o próprio Naschy quem dirige o ótimo PANIC BEATS e é o primeiro trabalho na função que eu parei para conferi. Naschy também escreveu o roteiro usando seu nome nome verdadeiro, Jacinto Molina, e demonstra que tem uma sólida ideia de como trabalhar com elementos estéticos e narrativos do horror gótico.

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Se não fosse pela quantidade de nudez e pelos assassinatos sangrentos que ocorrem ao longo do filme, poderia até se passar como um bom exemplar de thriller de horror old school que os italianos faziam nos anos 60, mas a violência gráfica e peitos de fora garante o toque preferencial de Naschy pelo excesso, pelo choque, pelo cinema de exploração, que particularmente eu aprecio mais… E Naschy é definitivamente um cara esperto, escrevendo um script para si mesmo em que garante uma série de cenas de pegação com mulheres nuas. Hehe!

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Obviamente PANIC BEATS é recomendado a quem já possui um certo gosto pelo exploitation europeu e sabe apreciar esse tipo de material. Temos um elenco bem afiado na medida do possível, especialmente Naschy, que é sempre um prazer poder vê-lo atuando, e que dirige habilmente a obra, sabe bem como extrair aquilo que é preciso para encher os olhos mesmo com um orçamento limitado. As sequências de tensão e suspense e até mesmo onde a violência explode na tela são muito bem cuidadas.

O filme, no entanto, tem lá seus problemas, tropeça em algumas ocasiões quando tenta se explicar demais, exagera nos diálogos expositórios e algumas sequências desnecessárias acabam por ser muito longas, quando poderiam ter simplesmente sido deixadas na sala de edição. Em suma, PANIC BEATS se arrasta em alguns momentos…

Ainda bem que os pontos positivos superam facilmente os negativos. E temos o prólogo… Só isso já vale o filme inteiro.