TONIGHT FOR SURE (1962)

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Se você cavucar o início de carreira de algumas figuras consagradas do cinema, pode ser que encontre alguns esqueletos enterrados. O diretor Francis Ford Coppola é um desses casos e, pouca gente sabe, mas muito antes de se tornar um dos principais autores do cinema americano pós-anos 70, com obras-primas grandiosas como O PODEROSO CHEFÃO e APOCALIPSE NOW, o sujeito já tinha uma filmografia cheia de produções questionáveis do cinema exploitation, B-Movies esquecidos e hoje pouco comentados, trabalhou até como pupilo de Roger Corman (inclusive o filme que dá nome ao blog, o horror DEMENTIA 13, é um trabalho pouco lembrado de Coppola). Mas nada que o diretor tenha que se envergonhar também, TONIGHT FOR SURE por exemplo, é bem melhor que um YOUTH WITHOUT YOUTH ou JACK, trabalhos que Coppola realizou já tendo seu nome celebrado.

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TONIGHT FOR SURE é um típico “Nudie“, gênero do sexploitation que surgiu no fim dos anos 50 no cinema americano e cuja principal função era explorar corpos femininos em completa nudez. É evidente que na época devia fazer alguns marmanjos correrem atrás desse tipo de material, mas vistos hoje, são filmes bem ingênuos, a maioria filmadas em campo de nudismo ou boates de striptease, sem erotizar muito as situações. Pepecas e manjubas nunca eram mostradas e o que se via era predominantemente seios e bundas balançados em jogos de vôlei, à beira de piscinas ou em apresentações burlescas de striptease… Curioso que um dos principais representantes na direção do gênero era uma mulher, Doris Wishman, que realizou um bom número de exemplares, como NUDE ON THE MOON. E, pois é, pode acreditar, é esse o tipo de filme que o Coppola fez por aqui.

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A trama é sobre dois sujeitos moralistas que se encontram e decidem lutar contra a crescente onda de luxúria no mundo. Um deles é um caipira que entra na cidade em um burro atrapalhando o trânsito, o outro é um dândi engomadinho da cidade grande. Com a intenção de algum tipo de desordem que repercuta na pouca-vergonha que o mundo se encontra, eles entram num Club de striptease antes do show começar e, na surdina, prendem algo na caixa de rede elétrica, programada para detonar à meia-noite.

Enquanto esperam pela detonação, eles se sentam na boate e trocam histórias sobre os males do pecado e das mulheres lascivas (e claro, enquanto estão tagarelando, garotas burlescas estão se exibindo no palco atrás deles e gradativamente eles vão se aproximando, sentando em mesas mais perto das mulheres que se apresentam). O caubói relata como um amigo passou a ter ilusões “terríveis” em que todas as mulheres ao seu redor estavam nuas. O outro conta sua história, se revelando um devasso que prega a moralidade como uma desculpa para bancar de voyeur num estúdio de fotografia Pin-Up.

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Com apenas uma hora de projeção, TONIGHT FOR SURE não possui nenhuma sutileza, os homens são caricatos e idiotas e as mulheres são carne. A única pretensão de Coppola aqui é criar situações para mostrar alguns peitos de fora. Só isso. A direção de Coppola, então com pouco mais de vinte anos, é pesada, com um lampejo ou outro de criatividade num ângulo ousado ou movimento de câmera (a fotografia é do grande Jack Hill, futuro mestre do exploitation americano e que na época era colega de classe de Coppola na UCLA), mas ninguém poderia prever que o mesmo sujeito fosse virar referência de autorismo dez anos depois, que ganharia o Oscar de melhor diretor, que venceria Cannes!

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Os atores são horríveis, o humor do filme é pastelão da pior qualidade e a produção é bem pobre, mas até que dá pra tirar um sarro e se divertir um bocadinho. E mais um detalhe positivo, Coppola pelo menos encontrou alguns mulheres bem mais apetitosas que as habituais habitantes que povoam os Nudies.

Mas no fim das contas, TONIGHT FOR SURE é só mais um exemplar mediano do gênero que eu nunca teria sequer contato caso não fosse dirigido pelo Coppola. Vale pela curiosidade para conhecer as raízes capengas de um grande mestre.

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RACE WITH THE DEVIL (1975)

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Os prazeres da descoberta cinéfila são sempre renovadores, especialmente quando se trata de bons exemplares do exploitation americano setentista que hoje quase todo mundo não dá a mínima, como é o caso de RACE WITH THE DEVIL, de Jack Starrett. Um híbrido de ação com horror que é um filmaço. Na verdade, a “descoberta” deste filme específico vai ser de quem ainda não conferiu, porque eu pessoalmente já tive esse prazer há alguns bons anos, mas desde então me pego revendo essa pérola. Então para começar bem o fim de semana, a dica é RACE WITH THE DEVIL, que saiu aqui no Brasil como CORRIDA COM O DIABO.

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Na trama, os bons amigos Roger (Peter Fonda) e Frank (Warren Oates) planejam as melhores férias de suas vidas. Acompanhados pelas suas respectivas mulheres, Kelly (Lara Parker do seriado DARK SHADOWS) e Alice (Loretta Swit, “Hot Lips” do seriado MASH), os dois casais enchem o luxuoso trailer de Frank de cerveja e outros mantimentos e caem na estrada para uma viagem até o Colorado. Num trecho rural do Texas, eles acham um ponto para estacionar e descansar durante a noite. Sob a lua cheia os dois amigos vão à beira de um riacho, jogam conversa fora enquanto enchem o bucho de álcool, quando veem uma enorme fogueira sendo acesa do outro lado do rio.

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Observando a cena de forma, digamos, clandestina, Frank e Roger a princípio pensam que estão testemunhando uma boa e velha putaria de hippies libertinos; várias mulheres peladonas brincando em volta do fogo fazem com que os dois disputem jovialmente os binóculos. Só que a diversão se transforma em horror quando uma moça é esfaqueada por uma figura com uma máscara bizarra em algum tipo de sacrifício humano ritualístico. Os dois sujeitos borram nas calças, metaforicamente falando, e decidem tirar o trailer de lá antes que sejam vistos. Mas é tarde demais – um bando de adoradores do Diabo já está se espalhando pelo rio, correndo direto na direção da dupla.

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Depois da fuga, os casais vão até a delegacia de polícia mais próxima para relatar o que aconteceu. O amável Sheriff Taylor (veterano ator R.G. Armstrong) investiga devidamente o local, mas Frank começa a suspeitar de algo. A força policial local parece tranquila demais, até irreverente eu diria, sobre um possível assassinato de uma jovem numa floresta no meio da noite. O xerife sugere que hippies “fumaram umas cocaina”, estavam de brincadeira e que os dois amigos deve ter se confundido com alguma encenação… Mas aos poucos, vários sinais misteriosos vão sendo deixados aos casais protagonistas, que parecem indicar exatamente o contrário do que a polícia pensa. Não exatamente certo em que acreditar, o quarteto continua suas férias, deixando para trás a horrível experiência daquela noite. Mas parece que nem todo mundo quer “virar essa página”…

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RACE WITH THE DEVIL é uma miscelânea de temas e gêneros muito bem combinados. Temos uma pitada de horror rural do início dos anos 70, como DELIVERANCE, do John Boorman, ingredientes do horror satanista e um bocado de thriller/ação para dar um tempero mais excitante. Na verdade, é curioso pensar que toda a ideia do culto satânico poderia ser facilmente substituído por algum outro tipo de atividade nefasta – contrabando de drogas, escravidão humana, enfim, qualquer coisa – e pouco da trama precisaria ser alterado. Mas o toque de horror dessa mistura de gêneros vem com um gostinho especial, são vários momentos em que as convenções do terror deixam as coisas mais tensas de acompanhar…

A cena do ritual, por exemplo, é bem macabra e os figurantes eram compostos por membros reais de seitas, conforme afirma o diretor Jack Starrett em entrevistas. Se é verdade, eu não sei, só garanto que a coisa toda é uma experiência angustiante. Até porque, em vez de pegar em cheio na jugular, RACE WITH THE DEVIL toma o seu tempo em estabelecer o cenário, em construir os personagens e em aumentar gradualmente o suspense e a tensão.

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A ação mais direta, mais  deflagradora mesmo, não entra em cena até os 15 minutos finais, em uma sequência de perseguição de tirar o fôlego, colocando o trailer dos protagonistas contra um bando de carros e caminhões dirigidos pelos membros da seita. Numa época em que nem se sonhavam nas possibilidades dos efeitos especiais de CGI, é revigorante ver os dublês se arriscando perigosamente ou pirotecnias geradas com explosivos reais em vez de pixels movidos à photoshop. Os carros trombando em alta velocidade no clímax é de encher os olhos e lembram muito o que George Miller faria no seu maravilhoso MAD MAX II, oito anos depois. Não ficaria surpreso se houvesse algum tipo de influência deste aqui sobre a obra do australiano.

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RACE WITH THE DEVIL era inicialmente para ser dirigido por Lee Frost, especialista em filmes baratos daquele período, mas acabou substituído pelo Starrett, que era outra figura que contribuiu bastante com o cinema exploitation. Frost chegou a receber crédito como roteirista, ao lado de Wes Bishop, mas todas as cenas que rodou foram refilmadas por Starrett. O sujeito tinha um estilo eficiente e direto de filmar, sem muita frescura, não se vê virtuosismo e beleza estética nos filmes do Starrett, embora ele consiga extrair sempre algo interessante do seu material. E RACE WITH THE DEVIL é um de seus momentos mais inspirados, sem duvida.

Para quem não sabe, o Starrett também era ator, participou de muita produção de baixo orçamento, mas é mais conhecido por ter vivido o policial sádico que acerta umas pancadas em John Rambo em RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR. O mesmo que cai do helicóptero, que balança quando Rambo acerta uma pedrada… Enfim, só uma curiosidade.

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Por último, vale destacar a presença de dois dos mais significativos nomes do cinema setentista encabeçando o elenco, Fonda e Oates, que estão excelentes como os amigos tranquilos, bem de vida, que só querem um pouco de paz e diversão em família e acabam metidos numa confusão macabra em que precisam chegar aos extremos, pegar em armas e atirar para matar. Já o lado feminino infelizmente acaba não tendo muito destaque, o que é estranho considerando que o movimento feminista estava em plena atividade na metade dos anos setenta; as esposas de Roger e Frank não passam de mulherzinhas completamente indefesas que se põem a gritar e a chorar a qualquer circunstância misteriosa.

Tirando isso, filmaço! RACE OF THE DEVIL Foi lançado em DVD por aqui, mas se não encontrar, procure nos torrents, foda-se, encontre alguma maneira de conhecer este clássico do cinema grindhouse.

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THE CUT-THROATS (1969)

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Mais um trabalho do diretor John Hayes, aquele de SWEET TRASH, que postei aqui logo no início do ano. O sujeito é simplesmente um mestre esquecido do exploitation americano. THE CUT THROATS é o filme da vez, um thriller fuleiro, mas muito divertido, de II Guerra Mundial. O plot básico, a princípio, se passa nos últimos dias da guerra numa versão de OS DOZE CONDENADOS da putaria: Um grupo de soldados americanos é reunido para uma missão suicida numa base nazista para roubar os planos de guerra do alemães.

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O filme não enrola muito pra começar, embora logo no início tenha uma sequência totalmente gratuita de um alemão estuprando uma moça que vaga pelo campo, que de tão desnecessária já torna a situação, no mínimo, curiosa. Até porque o “campo” parece mais algum fundo de estúdio na Califórnia… E até onde eu entendo de história, os nazistas não chegaram tão longe… Haha! Mas o planejamento e a execução da missão acontece bem cedo. Os soldados americanos atacam a base e fazem a limpa, eliminam praticamente todos os nazistas no local. Fácil. Só que estamos num exploitation do Hayes, então a missão ou os tais planos de guerra são as coisas que menos importa.

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O fato é que a base também é ocupada por um grupo de moças sapecas que fazem a alegria da moçada. E a narrativa acaba se construindo em blocos de situações dos soldados e seus envolvimentos sexuais com as mulheres, desde um show burlesco até as mais variadas possibilidades dentro de aposentos, numa noite bem agitada.

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Outra coisa que faz THE CUT THROATS andar é que o plano do líder do grupo americano não é exatamente o que ele contou a seu time. Planos de guerra? Porra nenhuma! o sujeito está realmente atrás é de uma fortuna em jóias roubadas e ouro que os nazistas acumularam durante a guerra. E ele não está muito interessado em compartilhar seus ganhos com qualquer um, nem mesmo com seus companheiros de guerra. Continuar lendo

SWEET TRASH (1970)

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Ando vendo alguns exploitation bem legais dos anos 60 e 70. Coisas realmente obscuras, bizarras e divertidas das quais nunca ouvi falar, mas que de vez em quando revelam descobertas raras e preciosas. Então para começar as atividades em 2018, um pouco de cinema de exploração por aqui, cinema underground, subversão, violência gráfica e peitos de fora para animar as coisas e espantar o politicamente correto que reinou no ano passado.

Uma das principais descobertas que fiz nesses últimos dias foi SWEET TRASH – uma mistura absurdamente maluca de gangster movie, sexploitation e sci-fi. E também o trabalho de seu diretor, John Hayes. O cara é simplesmente um mestre esquecido do exploitation americano, cuja carreira começa no início da década de 60 e vai até meados dos anos 80, trabalhado tanto na frente quanto atrás das câmeras, escrevendo, montando e dirigindo produções que variam do terror, como o infame GRAVE OF THE VAMPIRE (1972), à filmes sexo explícito.

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O primeiro dele que vi foi este SWEET TRASH, que eu não fazia a menor ideia do que se tratava e me deparei por acaso. Mas valeu a pena. O filme começa mostrando as docas de New York, depois as ruas, o trânsito, pessoas e finalmente um apartamento de carpete vermelho por onde a câmera passeia lentamente numa fluidez que me chamou a atenção… Num único plano a câmera percorre um corredor, adentra um quarto e revela um casal fazendo sexo até enquadrá-los no centro da tela. Geralmente, nessas produções grindhouse independentes um diretor já partiria, com perdão do meu francês, pra putaria, enquanto Hayes resolve dar uma de diretor e trabalha movimentos de câmera, enquadramento, com noção de paleta de cores… como dizia Charles Bukowski, “Nem tudo são garrafas vazias… Há a arte“. Continuar lendo

THE BIG DOLL HOUSE (1971)

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A ideia de realizar THE BIG DOLL HOUSE chegou até o diretor Jack Hill como uma tentativa de fazer um spinoff de 99 WOMEN (69), do espanhol Jess Franco, um dos primeiros filmes do subgênero Women in Prison. Hill achava que poderia haver um público para este tipo de produto, então, reuniu uma pequena equipe, escalou um grupo de belas atrizes, recebeu a benção do mentor Roger Corman e partiu para as Filipinas, berço de produções exploitations naquele período. Como bom pupilo de Corman, o diretor filmou com tanta economia que acabou saindo de lá com dois WIPs debaixo do braço: Tanto este THE BIG DOLL HOUSE quanto THE BIG BIRD CAGE (72).

Boa parte da carreira de Hill é dedicada ao universo feminino, destacando a força da mulher em situações que deixariam machões no chinelo. Portanto, o subgênero WIP é o típico prato cheio para que o roteiro explorasse ao máximo esse tipo de situação. O roteiro, aliás, não precisava nem ser exigente demais em tentar criar enredos intrincados e verossímeis, bastava colocar as personagens nuas em chuveiros coletivos ou brigando na lama para surtir reflexões filosóficas e garantir a dose de emoção necessária que o espectador precisava.

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THE BIG DOLL HOUSE preenche com facilidade todos os requisitos, até porque é aqui que Jack Hill define vários princípios que ficaram enraizados ao gênero. O filme começa com a bela ruiva Collier (Judy Brown) sendo transportada para uma prisão de mulheres nas selvas Filipinas. Passa por uma inspeção médica, com os seios à mostra, para variar, e logo, na sua cela, é apresentada a um elenco feminino cheio de beldades, incluindo a musa negra, Pam Grier, que estrelaria dois clássicos blaxploitation comandado por Hill, COFFY (73) e FOXY BROWN (74). A partir daí, o filme continua misturando todos os ingredientes que fazem um típico WIP funcionar.

Portanto, temos os planos de fugas, cenas de torturas praticadas pela carcereira chefe, lesbianismo, uma luta na lama entre Grier e Roberta Collins, corrida de baratas, muitos tiros e explosões num final cheio de ação. Um dos grandes destaques de THE BIG DOLL HOUSE é a presença do ator Sid Haig, roubando todas as cenas em que aparece, em especial quando contracena com Pam Grier. Haig se especializou em fazer tipos estranhos em fitas de exploração e também já havia trabalhado com Hill, no clássico SPIDER BABY (68) e até mesmo no seu curta-metragem de estreia THE HOST (63).

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THE BIG DOLL HOUSE é um desses exemplares essenciais para os apreciadores dos subgêneros obscuros que o cinema tem para oferecer. E Jack Hill é nome fundamental nesse sentido. Faz aqui um trabalho excepcional, com um orçamento baixíssimo, mas muita criatividade e boa vontade, criando um autêntico clássico da era grindhouse.

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HONEY BRITCHES, aka DEMENTED DEATH FARM MASSACRE… THE MOVIE (1971/1986)

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Filme totalmente deslocado na carreira do prolífico Fred Olen Ray, HONEY BRITCHES foi produzido no início da década de setenta quando o sujeito não tinha completado nem vinte anos de idade e, mesmo assim, é muitas vezes confundido como o seu primeiro trabalho como diretor. Mas calma lá que vou explicar, até porque se trata apenas de uma picaretagem usual desses diretores de filme B.

HONEY BRITCHES realmente foi filmado no início da década de 70, mas por um tal Donn Davidson, e foi muito mal lançado comercialmente pela Something Weird. Fred Olen Ray só entra na parada em meados dos anos 80, quando descobre a existência do filme e decide comprá-lo. O sujeito reeditou a porra toda, filmou e acrescentou algumas cenas do bom e velho John Carradine como o contador da história, dizendo-se o “Juiz do Inferno”, falando qualquer baboseira só pra ter um apelo comercial, colocou seu nome nos créditos como diretor e vendeu essa “nova obra” para a famigerada Troma, que o relançou com o tal título DEMENTED DEATH FARM MASSACRE… THE MOVIE.

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John Carradine com expressão de felicidade por estar participando desta maravilha

E se não fosse por tudo isso, talvez nunca assitiriamos a esta tralha. Até porque HONEY BRITCHES é uma porcaria de qualquer forma, então só mesmo o nome do Ray e Carradine nos créditos pra me fazer parar e conferir.

A trama é sobre quatro ladrões de jóias da cidade grande, dois casais que acabaram de cometer um roubo e tentam fugir pelas zonas rurais enquanto estão sendo procurados pela polícia local. O carro deles fica sem gasolina, decidem procurar abrigo para se esconder e acabam indo parar na cabana de um velho fazendeiro e sua jovem esposa sexy. Quando um dos ladrões começa a dar em cima da tal esposa, todo o plano para não serem descobertos começa a ruir, acarretando numa onda de violência e morte.

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Um dos grandes problemas que eu tive de cara com HONEY BRITCHES é com o ritmo. O filme é chato e lento pra cacete, apesar da curta duração que não chega a 90 minutos. Logo no início do filme é preciso ter paciência para acompanhar as loooongas e intermináveis cenas dos ladrões de joias andando por florestas… Faz sentido se é o Tarkovski filmando uma de suas obras de arte, mas por aqui… Não sei o que esse Donn Davidson tinha na cabeça. E não acontece muita coisa, afinal, ao longo do filme, mas se você for paciente vai ver uma moça sendo morta à pancadas na cabeça com um jarro, um tridente na garganta de um sujeito e um tiro na testa de outro já perto do fim… Tudo filmado ao melhor estilo Herschell Gordon Lewis: exagerado e com muita tinha vermelha, que parece tudo, menos sangue.

O elenco também não ajuda muito. Um dos ladrões, que tem todo o ar de intelectual, possui um sotaque britânico que é extremamente irritante. Mas é engraçado ver o velho Carradine, quase próximo à morte, sendo a voz incosciênte da narrativa num cenário totalmente fora do contexto do filme. A coisa é tão deslacada que suas cenas parecem filmadas no quintal da casa de Ray. E temos pelo menos Ashley Brookes, que faz a esposa sexy. Não é boa atriz, mas se esforça, além de ser a única que mostra seus atributos numa rápida ceninha.

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Enfim, HONEY BRITCHES é uma picaretagem indicada para fãs hardcore de exploitations setentistas de orçamento risível, apreciadores de Fred Olen Ray e pessoas que possuem um gosto duvidoso, como é o meu caso. Não que eu tenha curtido, mas que tem sua graça justamente por ser tão bagaceiro, ah isso tem…

Outros filmes do Fred comentados aqui no blog:
BIOHAZARD
RESPOSTA ARMADA
HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS

HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS (1988)

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Começando as atividades de 2017 com um dos filmes que me fez apaixonar pelo cinema B de uns caras como Jim Wynorski, Fred Olen Ray, Charles Band e outras figuras dessa mesma laia: HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS, de Fred Olen Ray! Um clássico do cinema exploitation oitentista divertidíssimo, curto e cheio de mulher pelada, filmado em cinco dias com um orçamento abaixo dos 50 mil dólares.

O filme já começa de forma sensacional, com esse aviso:

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Depois, temos a majestosa Michelle Bauer fazendo um strip tease e, totalmente nua, destroça um sujeito com uma motosserra! Os efeitos gore, se é que podemos chamar assim, são tão ridiculamente baratos que não podem ser levados a sério… Aliás, o filme inteiro não deve ser levado assim.

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Na trama, temos Jack Chandler (Jay Richardson), um detetive obviamente inspirado em Raymond Chandler, com direito a narração de Film Noir, cansado do mundo, sem dinheiro, fodido trabalha na procura de uma moça desaparecida, Samantha (a lindeza Linnea Quigley), nos arredores de Los Angeles.

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Enquanto ele segue as pistas da moça, a polícia local vem investigando uma bizarra série de assassinatos cujas vítimas são feitas picadinho por motosserras, como é mostrado na cena de abertura… Entre uma investigação e outra, Jack encontra um paralelo entre os assassinatos com a sua garota desaparecida, o que o leva a Mercedes, a prostituta interpretada por Bauer. Jack arranja um encontro com Mercedes num bar de strip tease e ao mesmo tempo em que investe na prostituta ele vê Samantha girando no palco. Pouco depois desta revelação Jack cai inconsciente por causa de uma droga que Mercedes colocou em sua bebida.

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Jack desperta para encontrar-se numa situação bem bizarra, amarrado e na presença de Mercedes, Samantha e um terceiro sujeito chamado de “The Master” numa espécie de seita misteriosa. E o filme vai ficando cada vez melhor. “The Master” (que é encarnado pelo próprio Leatherface do original O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, Gunnar Hansen) explica um bocado sobre a as propriedades sagradas da motosserra. WTF!!!

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O lance é que Samantha foi parar nesse culto da motosserra formado por prostitutas e stripers. O tal Mestre explica que a motosserra é a ligação cósmica que une todas as coisas no universo, num culto secreto que se originou há muito tempo no antigo Egito… Naturalmente! haha! Prestes a ser sacrificado e virar picadinho, Jack consegue escapar quando uma das serras fica sem gasolina e foge com Samantha.

De volta a seu escritório, os dois arranjam tempo para um pequeno romance, que serve também para preencher o tempo do filme, que já é breve demais. Logo, Samantha e Jack descobrem a localização secreta do templo cerimonial do culto de motosserra (ajuda muito que haja um cartaz de papelão apontando o caminho) e antes que você perceba, terá testemunhado um duelo de motosserras e o espetáculo cultural que é A Dança Virgem das Serras Elétricas Duplas!!!

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Dá pra perceber que o diretor e roteirista Fred Olen Ray não tem absolutamente nenhuma pretensão com HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS, a não ser nos divertir com essa historinha besta, uma boa dose de humor pastelão e de um elenco feminino lascivo que não tem receio de mostrar alguns pares de peitos, que é o grande e verdadeiro atrativo do filme. Os fãs das rainhas do VHS, como Michelle Bauer e Linnea Quigley, vão desfrutar bastante disso aqui. Principalmente quando estão com pouca roupa empunhando motosserras… Um fetiche estranho, mas que o filme entrega com perfeição.

THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK (1980)

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THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK, do Ruggero Deodato, é considerado uma, entre tantas, versão “italiana” do THE LAST HOUSE ON THE LEFT, do Wes Craven, que, por sua vez, é uma refilmagem exploitation de A FONTE DA DONZELA, de Ingmar Bergman. De fato, há algumas semelhanças óbvias entre o filme do Deodato com o do Craven, mas o que realmente define a ligação entre as duas obras é a presença do ator David Hess, essa figura simpática aí em cima, que encarnana personagens extremamente parecidos em ambas produções. Hess morreu há alguns anos e deixou sua marca como uma lenda do gênero e eu escrevi esse textinho no blog antigo na época em sua homenagem, e republico agora.

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A sequência inicial dos créditos é  uma maravilha, demonstrando o que podemos esperar de Alex, o mecânico desempenhado por Hess. Dirigindo pelas ruas da cidade à noite, o sujeito não perde a chance de paquerar a gatinha do carro ao lado, o problema é que o cara é um maluco psicótico e a diversão termina com estupro seguido de assassinato. Na trama, Alex e seu comparsa Ricky (Giovanni Lombardo Radice), por algum motivo obscuro, acabam convidados para uma festa particular na casa de umas figuras da alta sociedade e decidem apimentar o evento tomando os anfitriões e convidados como reféns, submetendo-os a uma longa noite de torturas e humilhações.

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Pra quem nunca viu o filme, mas já conhece a reputação do diretor Ruggero Deodato, notório pelo clássico CANNIBAL HOLOCAUST e pela violência gráfica de seus trabalhos, um projeto como THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK pode gerar uma expectativa equivocada. Não são poucas as resenhas espalhadas pela internet colocando o filme pra baixo, por causa, talvez, de um esperado banho de sangue espirrando na tela, muito gore e vísceras e etc… Ok, temos algumas sequências sangrentas, perturbadoras e sádicas, como não poderia deixar de haver, mas nada que chame a atenção, com exceção da cena em que Hess desfere alguns cortes de navalha no corpo de uma jovem, cantarolando “Cindy, Oh, Cindy”.

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Talvez o estigma de filme barra pesada se deva também às censuras e cortes que sofreu na época, colocando-o na famosa lista dos video nasties. Mas em termos de visual, é bem leve, Deodato preferiu trabalhar mais um elaborado e lento jogo de tensão psicológica com os personagens do que o grotesco visual. Particularmente, aprecio o filme. Não acho uma obra-prima, mas adoro as escolhas do diretor, especialmente por seguir o caminho das tensões sexuais, explorando a nudez das atrizes em situações extremas. Também é impossível ficar indiferente em relação às performances de Hess e Radice, ambas geniais. E nem mesmo a reviravolta exageradamente forçada que o roteiro criou para justificar toda essa sandice ao final compromete o restante… aliás, este é um dos principais pontos dos detratores para falar mal do filme.

Há alguns anos surgiu uns boatos de que Deodato estaria preparando uma continuação de THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK, mas isso já fazem uns cinco ou seis anos. Não vai acontecer, obviamente. Na época mesmo eu já suspeitava… Mas fica a dica deste clássico exploitation italiano para ver e rever.

PANIC BEATS (1983)

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O prólogo de PANIC BEATS é uma das coisas mais absurdamente geniais que existe no cinema exploitation europeu! Uma sequência antológica e perturbadora, digna de um Lucio Fulci ou Jean Rollin, na qual um cavaleiro de armadura medieval, interpretado pelo grande Paul Naschy, persegue uma mulher completamente nua desesperada e gritando através de uma floresta nebulosa. A perseguição termina quando mulher cai por terra e é brutalmente espancada até a morte pelo cavaleiro com uma maça “estrela da manhã”. Aí vem os créditos iniciais e o resto do filme, que nunca chega ao nível do prólogo, mas que ainda possui algumas cartas na manga e vários bons momentos digno do cinema euro cult.

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Somos transportados para a moderna Paris, onde o bem-sucedido arquiteto Paul de Marnac (também interpretado por Naschy) recebe um diagnóstico médico de sua esposa,  Geneviève. Um coração fraco e doente torna imperativo que ela receba um longo descanso e evite grandes emoções. Paul sugere uma estadia prolongada em sua casa de campo, herdada de sua família, longe da cidade movimentada. Antes mesmo de chegar no local, no entanto, o casal já enfrenta algumas perturbações quando o carro fica sem gasolina e são atacados por um par de ladrões. Paul encara os vândalos numa situação meio bizarra e consegue afugentá-los e Geneviève consegue se controlar.

Finalmente o filme estabelece a ação na casa de campo. O local é cuidado por uma velha senhora, Maville, e sua jovem sobrinha fogosa Julie. E os de Marnac podem concentrar suas energias na recuperação de Geneviève e até mesmo tentar reavivar seu amor. Mas para Geneviève a paz e a tranquilidade são ilusórias. Ela acaba sempre se perturbando pela horrível lenda do antepassado de Paul, Alaric de Marnac, um cavaleiro do século XVI que assassinou sua esposa infiel e se tornou um devoto satanista, o mesmo sujeito do magnífico prólogo, obviamente…

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E aí vem o lado sobrenatural da coisa. Enterrado no cemitério local, a lenda diz que Alaric sai do túmulo a cada 100 anos para uma vingança sangrenta em qualquer noiva Marnac que não consegue cumprir os seus padrões. Uma noite, enquanto Paul está em Paris a negócios, Geneviève desmaia e quase morre de susto quando vê o fantasma de Alaric, de armadura e tudo mais, surgindo no local. Será que a lenda é real ou apenas ilusão provocada dos já desgastados nervos de Geneviève? Ou será que tem outras coisas bem mais complexas por trás de tudo?

Ainda sou um bocado neófito em termos de Paul Naschy. Assisti a pouca coisa que o sujeito fez, mas já deu pra notar porque foi um dos maiores atores do cinema exploitation. E, pelo visto, um grande diretor também. É o próprio Naschy quem dirige o ótimo PANIC BEATS e é o primeiro trabalho na função que eu parei para conferi. Naschy também escreveu o roteiro usando seu nome nome verdadeiro, Jacinto Molina, e demonstra que tem uma sólida ideia de como trabalhar com elementos estéticos e narrativos do horror gótico.

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Se não fosse pela quantidade de nudez e pelos assassinatos sangrentos que ocorrem ao longo do filme, poderia até se passar como um bom exemplar de thriller de horror old school que os italianos faziam nos anos 60, mas a violência gráfica e peitos de fora garante o toque preferencial de Naschy pelo excesso, pelo choque, pelo cinema de exploração, que particularmente eu aprecio mais… E Naschy é definitivamente um cara esperto, escrevendo um script para si mesmo em que garante uma série de cenas de pegação com mulheres nuas. Hehe!

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Obviamente PANIC BEATS é recomendado a quem já possui um certo gosto pelo exploitation europeu e sabe apreciar esse tipo de material. Temos um elenco bem afiado na medida do possível, especialmente Naschy, que é sempre um prazer poder vê-lo atuando, e que dirige habilmente a obra, sabe bem como extrair aquilo que é preciso para encher os olhos mesmo com um orçamento limitado. As sequências de tensão e suspense e até mesmo onde a violência explode na tela são muito bem cuidadas.

O filme, no entanto, tem lá seus problemas, tropeça em algumas ocasiões quando tenta se explicar demais, exagera nos diálogos expositórios e algumas sequências desnecessárias acabam por ser muito longas, quando poderiam ter simplesmente sido deixadas na sala de edição. Em suma, PANIC BEATS se arrasta em alguns momentos…

Ainda bem que os pontos positivos superam facilmente os negativos. E temos o prólogo… Só isso já vale o filme inteiro.

DEATHSTALKER (1983)

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DEATHSTALKER é uma típica aventura Sword and Sorcerer oitentista, realizada para ganhar dinheiro durante o aumento da popularidade do gênero estimulado em grande parte pelo sucesso comercial de CONAN – O BÁRBARO (81), de John Milius. O que se viu realmente foi o surgimento de uma safra de exemplares que variavam tanto em qualidade quanto em orçamento. E no caso deste aqui, coitado, a coisa fica complicada em ambos contextos…  Mas quando era moleque, meu pai apareceu com o VHS de DEATHSTALKER em casa para assistirmos, embora eu tenha total convicção de que ele não fazia ideia do conteúdo da obra. Provavelmente foi enganado pela capa, que tem a belíssima arte do Boris Vallejo, ou deve ter pensado que era do nível de um CONAN, GUERREIROS DO FOGO, BEASTMASTER ou alguma outra das boas aventura Sword and Sorcerer da época… Enfim, o negócio é que o filme é uma tralha das mais vagabundas do gênero, com uma violência grotesca, bizarrices doentias e absurdas e muita, mas muita mulher pelada balançando a bunda na tela… Não era mesmo muito recomendável para um moleque na minha idade.

Mas assisti. E apesar de toda estranheza do mundo, adorei! Acabou que, de alguma forma, DEATHSTALKER, um filme praticamente esquecido atualmente, fez parte fundamental da minha formação cinéfila (a quantidade de vezes que assisti aquele VHS só pra ver tetas de fora não é brincadeira). É curioso retornar ao filme depois de tanto tempo, quase vinte anos, acompanhar novamente a jornada do anti-herói, o guerreiro aventureiro apresentado como Deathstalker (Rick Hill), que lhe é encarregado a missão de resgatar uma princesa no castelo de um perigoso feiticeiro conhecido como Munkar (Bernard Erhard). E o melhor de tudo é notar como essa porcaria continua divertidíssima!

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Mas vamos conhecer um pouco melhor quem diabos é esse tal de Deathstalker. A cena em que o sujeito nos é apresentado é bastante emblemática e resume bem toda a construção psicológica do personagem. O filme começa com um indivíduo que sequestrou uma garota e a levou para umas ruínas no meio de uma floresta, mas acaba cercado por um bando de trolls. Surge então um guerreiro de cabelos louros e braços fortes, ui!, para salvar o dia. Agora, vejamos:
1. Primeiro, o guerreiro derrota sozinho o bando inteiro de trolls. Ou seja, ele é fodão.
2. Não satisfeito, ele mata também o sequestrador de mulheres que acabou de salvar a vida. É um homem íntegro.
3. Mas ao invés de libertar a moça, agora livre dos trolls e de quem a capturou, nosso herói tenta a sorte em… Er… ele arranca a roupa da moça e começa a apalpá-la esperando uma recompensa. No seu subconsciente de paladino da justiça, não ia matar esse monte de gente por nada, ora pois…  Bem, o sujeito não é tão íntegro assim, afinal, mas tá aí o Deathstalker e já deu pra perceber o nível do “herói” que temos aqui.

Por sorte, a tentativa de Deathstalker em fazer “amor medieval” é interrompida por um velho empata-foda que o convoca numa audiência na presença do Rei local, que lhe relata uns problemas. Seu trono foi usurpado pelo tal feiticeiro Munkar e sua filha é mantida prisioneira no castelo. Então, o Rei precisa de um bravo guerreiro corajoso suficiente para encarar o usurpador e matá-lo. Simples assim. E o homem que fizer esse feito será bem recompensado. Mas, Deathstalker não está muito interessado, como demonstra no diálogo que se segue:

Um homem corajoso poderia entrar no castelo e matar Munkar! – Especula o Rei.
Você precisa de um tolo. – Responde Deathstalker.
Não! Preciso de um herói!
Heróis e tolos são a mesma coisa…

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É, Deathstalker não tem nada a ver com isso e tá cagando pro Rei, pro trono e pra filha dele – mesmo sendo interpretada pela cocota Barbi Benton, uma playmate do período. Quero dizer, o período aqui é os anos 80, não o período que o filme se passa… Acho que ainda não havia revista de mulher pelada nos tempos de DEATHSTALKER. Enfim, o sujeito sobe no cavalo, dá de ombros ao Rei e vai embora… No entanto, o filme entra num momento um bocado confuso. Deathstalker visita uma bruxa velha que lhe fala dos Três Poderes da Criação. São três artefatos que juntos podem tornar uma pessoa poderosa. Munkar já possui dois deles, o Amuleto da Vida e o Cálice da Magia. Mas ele não tem a Espada do Julgamento. A bruxa afirma que sabe onde está e propõe que o herói tente encontrá-la. “Você vai ser o poder!“, afirma a velha, seja lá o que isso significa, mas parece ser algo bom para Deathstalker… Logo depois, o sujeito se enfia numa caverna apertada onde encontra a tal espada sob a guarda de um pequeno troll, que mais parece um fantoche feito em escola primária, mas ok… O fantoche, quero dizer, o troll lhe diz que a única maneira de obter a espada mágica é libertando a si de sua maldição, transformando-o em homem de novo. “Mas eu só posso ser liberto por um menino que não é menino.” Oi?! Que porra é essa, mano? Mas antes que possamos parar pra refletir sobre essa questão transcendental que o filme propõe, Deathstalker já está no corpo de um menino, com a espada na mão, levando o pequeno troll para fora da caverna. Começo a entender melhor as raízes do meu mau gosto por filmes.

Deathstalker volta para seu corpo habitual e o troll se transforma num velhote que agora passa a acompanhá-lo. Assim, armado com essa espada com poderes misteriosos, o herói inicia sua jornada em direção ao castelo de Munkar e… Mas peralá, Deathstalker não havia recusado a missão do Rei, era contra desfiar Munkar e que os heróis eram tolos e tal? Então, de repente ele mudou de ideia, simples assim? Pelo visto é isso mesmo e ajuda muito a belíssima performance de Rick Hill para esclarecer as coisas, já que o sujeito atuando e uma porta de madeira não têm diferença alguma…

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Reunido com um ajudante velhote e inútil, que nem para alívio cômico serve, embora há essa tentativa, Deathstalker encontra ainda mais dois aventureiros para segui-lo em sua missão. Oghris (Richard Brooker, mais conhecido por ser o Jason em SEXTA-FEIRA 13 – PARTE III) e Kaira (Lana Clarkson), uma guerreira que aborda o grupo como uma figura encapuzada. Uma luta é travada, mas logo interrompida depois que se descobre que por debaixo da capa há uma guerreira com seios nus. Uma guerreira com peitos de fora! Não dá pra enfrentar um oponente com armas tão mortais! Com uma integrante feminina no grupo, a equipe está formada, como um bom e velho Sword and Sorcerer tem que ser. Se bem que o trabalho em equipe naquela noite é só entre Deathstalker e Kaira, por debaixo da capa da moça, só pra aliviar a tensão…

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Enfim, Oghris informa a Deathstalker que Munkar está realizando um torneio de lutas especial para coroar o maior guerreiro de seu reino. E Deathstalker vê nessa situação uma oportunidade de se infiltrar no castelo, libertar a princesa, matar Munkar e obter do feiticeiro os dois itens mágicos restantes, para se tornar o poder!

Assim como o filme, não sei nem se esse texto ainda está fazendo algum sentido, mas vamos lá. Corta para Munkar, um sujeito muito mau. Só pra ter uma noção, ele captura princesas alheias, permite que sejam abusadas sexualmente em seu harém, destrona reis, comanda seus guardas e alimenta seu monstrinho de estimação com globos oculares fresquinhos de seus criados e ainda por cima faz a vítima assistir o processo de alimentação com o outro olho que restou… O sujeito é muito mau! Mas é óbvio, com o “herói” que temos aqui, o vilão precisava ser o diabo em pessoa.

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Antes do início do torneio, é natural rolar uma festinha. Vamos conferir algumas atrações: Anões? Confere! Escravas nuas? Confere! Briga de mulheres na lama? Claro que sim! Além disso, temos uma ótima galeria de convidados, como os nossos quatro heróis e várias figuras estranhas que vão participar do torneio, como um sujeito musculoso com a cabeça porco. E não pode faltar a Barbi Benton, com um vestido todo transparente, acorrentada à uma rocha e com o sujeito de cabeça de porco lhe aliciando. De repente eu me lembrei de novo que vi esse filme com uns doze anos de idade… É um troço meio perturbador, até para os meus padrões. Uma das cenas mais marcantes nesse sentido é a que Munkar tenta assassinar Deathstalker transformando seu capanga, um homem todo machão, na princesa Codille (Benton), toda gostosa em trajes mínimos, para seduzir o nosso herói antes de matá-lo… Surreal do nível de um Luis Buñuel…

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No restante de DEATHSTALKER rola o tal torneio, numa montagem ao estilo OPERAÇÃO DRAGÃO, com batalhas violentíssimas, além do confronto final entre o protagonista, com sua espada mágica, e o poderoso feiticeiro Munkar. Tudo muito tosco, pra manter a coerência com o resto do filme, mas também pra fechar com chave de ouro uma tralha das mais divertidas do gênero.

O filme foi dirigido por James Sbardellati, que trabalhava como assistente de direção em produções do Roger Corman. DEATHSTALKER (que também tem o dedo de Corman) é a sua primeira tentativa de assumir o comando e infelizmente não é dos pontos mais elogiáveis do filme, que poderia ter resultados melhores com um diretor mais talentoso. Mas também não compromete o roteiro de Howard R. Cohen, este sim, o grande responsável pelas qualidades que temos aqui, por todo esse universo que criou e os detalhes absurdos e involuntariamente engraçados.

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Uma pena, no entanto, que DEATHSTALKER seja um daqueles filmes em que a grande maioria vai dizer que a melhor coisa sobre ele é a arte do cartaz. O orçamento baixíssimo não permite grandes cenários e efeitos especiais de ponta, as atuações são péssimas e as cenas de ação são toscas ao extremo. Sim, o “público normal” vai achar uma coisa terrível…

Mas isso não significa que não seja divertido. Especialmente por aqueles cinéfilos de “paladar refinado” que sabe apreciar uma bela tralha. No meu caso, é evidente que os elogios que faço e o grau de divertimento que DEATHSTALKER me proporciona estão muito enraizado na minha relação nostálgica com o filme. Quando era moleque eu já percebia que estava diante de uma obra torta e estranha, e até de má qualidade, mas que de alguma maneira me fascinava e ainda me causa esse efeito. Claro que a quantidade de nudez ajudava bastante naqueles tempos, mas o filme não é só isso. É uma obra que possui ideias, fantasias pessoais de um roteirista e que um sujeito como Roger Corman resolveu bancar e transformar em película. Acabaram criando um universo tosco, de mau gosto, que logo se tornou obscuro, mas que ainda possui sua mágica.

DEATHSTALKER acabou tendo três continuações. Não vi nenhuma ainda e vou corrigir isso em breve. Bagaceiras eu tenho certeza que são (o segundo é dirigido pelo Jim Wynorski), mas só espero que sejam tão divertidos quanto este aqui.

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CAGED HEAT (1974)

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Já estava planejando postar sobre esse filme qualquer hora dessas, mas como hoje é aniversário do diretor Jonathan Demme, resolvi escrever qualquer coisa de uma vez. Há pouco tempo falei sobre os dois trabalhos de estreia do sujeito, na produção e roteiro de ANGELS HARD AS THEY COME e THE HOT BOX, ambos dirigidos por Joe Viola e com Roger Corman também na produção, mas CAGED HEAT entra de fato na filmografia de Demme como seu primeiro trabalho como diretor meeesmo.

Não custa repetir que estamos falando do Jonathan Demme que quase duas décadas mais tarde ganhou o Oscar de melhor diretor por O SILÊNCIO DOS INOCENTES, produção que também abocanhou o prêmio de melhor filme. Mas o cara começou mesmo fazendo filme na zona, exploitations violentos e cheio de mulheres com peitos de fora. E nada melhor que um WIP (Women in Prison) para explorar todas essas possibilidades filosóficas… É por isso que CAGED HEAT começa num assalto que termina muito mal, com dois bandidos cravados de balas pela polícia e a única mulher do grupo, Jaqueline (Erica Gavin) é presa e enviada para uma prisão feminina. E não demora muito para um médico da prisão confessar: “Girls, this isn’t something I enjoy either but I need you to get undressed…” Oh! Yeah!

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E os fãs de cinema grindhouse vão surtar com o material humano que temos aqui. Jaqueline aos poucos vai conhecendo outras garotas na prisão, formando um elenco dos mais interessantes do gênero, incluindo Roberta Collins, Juanita Brown e Cheryl Smith – que é apresentada numa sequência de sonho, sendo bolinada por um misterioso estranho entre as grades de sua cela. A diretora da prisão é ninguém menos que a musa do horror gótico dos anos 60, Barbara Steele. Apesar de sádica, sua personagem, a superintendente McQueen, é confinada à uma cadeira de rodas e, retraída sexualmente, fica ofendida a qualquer insinuação erótica de suas prisioneiras, como na cena da apresentação teatral. Não pensa duas vezes antes punir qualquer garota que lhe cause desconforto por conta de sua condição, trancando quem quer que seja na solitária, mas sem antes, obviamente, lhes arrancar as roupas para que o espectador mantenha a atenção no filme…

Jaqueline entra em apuros com Maggie (Brown), que é a durona do pedaço, e as duas “puxam o cabelo” uma da outra… Ao invés de irem para solitária, McQueen as colocam num tratamento de choque com o taradão Dr. Randolph, o mesmo da frase do início do filme, que se aproveita das pobres moças sedadas para, basicamente, tirar as roupas das meninas, colocar a mão onde não deve, tirar umas fotos de polaroide, coisas dessa natureza… Mas durante um dia de trabalho agrícola forçado nos pomares aos arredores da prisão, Jaqueline e Maggie, agora amiguinhas, conseguem escapulir, roubando um caminhão da prisão. As duas decidem esquecer suas diferenças, unem forças, arrumam armamento pesado e voltam para prisão para acabar, à base de tiro, com a tirania de McQueen e com a situação ultraje e imprópria com a qual as prisioneiras são tratadas.

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Jonathan Demme pode ter deixado sua essência exploitation de lado ao longo da carreira, mas aqui no seu debut como diretor não faz a mínima questão de inventar algo novo ao gênero. CAGED HEAT é praticamente um filme padrão do WIP, com todos os ingredientes que o estilo pede: cenas de chuveiro, briga de garotas, guardas sádicas e reprimidas sexualmente e um final mais explosivo, cheio de ação. Em alguns pequenos e singelos detalhes vê-se um esforço, uma tentativa de dar alguma personalidade, lançar algum olhar pessoal e artístico por parte de Demme. Mas não adianta, aqui é exploitation até o talo. Longe até de ser dos melhores filmes do gênero, mas divertido, sexy e bem humorado como tem que ser.

Assim como os primeiros trabalhos de Demme, CAGED HEAT também foi produzido pelo Corman e chegou a ter algumas continuações vagabundas nos anos 90, como CAGED HEAT II – STRIPPED OF FREEDOM, que não servem pra muita coisa a não ser para ver mais peitos de fora… Ou seja, sempre vale umas conferidas.Cjuve

THE HOT BOX, aka HELL CATS (1972)

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Há poucos dias postei sobre ANGELS HARD AS THEY COME (1971), primeira investida do diretor Jonathan Demme no cinema, ainda sob a batuta do Roger Corman e tendo seu parceiro de produção publicitária, Joe Viola, na direção. Aqui em THE HOT BOX a coisa se repete. Neste período, Corman entrava numa de enviar seus pupilos às Filipinas onde várias produções exploitation estava aparecendo – Jack Hill, por exemplo, filmou no local THE BIG DOLL HOUSE e THE BIG BIRD CAGE, dois belos exemplares de WIP (Women in Prison) na selva – e a dupla Demme e Viola não perderia a oportunidade. Meteram-se nas Filipinas para fazer também um WIP.

A trama, no entanto, se passa em algum país da América Latina, onde um grupo de enfermeiras americanas fazem um trabalho de socorro no local que vive em guerra, dominado por um tirano qualquer e com revolucionários querendo derrubar o poder. O problema começa quando os tais revolucionários sequestram essas enfermeiras e as obriga a ensinarem técnicas de primeiro socorros aos guerrilheiros. Apesar disso, as moças conseguem simpatizar pelos ideais de seus captores e até mesmo acabam lutando com armas em punho pela causa…

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Não, THE HOT BOX não é um bom filme como aparenta. Mas eu gosto. Gosto de tralha cinematográfica de mau gosto, portanto gosto de THE HOT BOX. Principalmente porque ele possui todos os elementos que eu aprecio num bom WIP. Tá certo que o plot é um bocado diferente dos tradicionais filmes do gênero, mas toda vez que alguma das moças sai da linha, acaba enviada a uma cela para sofrer as consequências, o que inclui alguns itens básicos do gênero, como o excesso gratuito de humilhação feminina* e grande dose de peitos de fora.

O que realmente atrapalha um pouco THE HOT BOX é que apesar da pouca duração, o filme consegue ser lento e chato em alguns momentos e nunca conseguimos criar identificação suficiente com alguns personagens para acompanhá-los com a devida animação, nem entre as enfermeiras, que esperamos apenas que tirem a roupa, e muito menos com os revolucionários. O filme termina com uma bela sequência de batalha, o que deixa as coisas mais interessantes. Destaque para a presença de Charles Dierkop, que já havia me chamado a atenção em ANGELS HARD AS THEY COME, e aqui novamente surpreende na pele de um comandante do exército local que faz jogo duplo para acabar com guerrilheiros.

* Antes que eu seja acusado de machista e misógino, quero deixar claro que tenho tendências ideológicas feministas e sou totalmente contra a qualquer tipo de violência contra a mulher.

ANGELS HARD AS THEY COME (1971)

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Jonathan Demme é mais lembrado por algumas obras de peso em Hollywood no início dos anos 90. No entanto, sua estreia no cinema foi mesmo com exploitations vagabundos de baixo orçamento. E o responsável por colocá-lo nessa posição não poderia ser ninguém exceto o mestre Roger Corman. Demme trabalhava com produção de filmes publicitários e acabou se encontrando com o Rei dos B Movies, que não quis perder muito tempo e lhe perguntou:

Ei, garoto, gostas de filmes de motocicleta?
Sim, Roger. Particularmente, gosto muito do seu THE WILD ANGELS (66) – respondeu Demme.
Ok, ótimo! Por que você não escreve um roteiro para um filme de motocicleta pra mim?

Bem, talvez não tenha sido com essas palavras exatas, mas segundo depoimentos do próprio Demme a coisa funcionou mais ou menos desse modo. O futuro diretor tinha então vinte e quatro anos e um parceiro, Joe Viola, que dirigia os filmes publicitários que produzia. Demme e Viola se reuniram e escreveram uma ideia que a princípio seria uma versão motorizada de RASHOMON, mas com muitas cenas de sexo e violência, algo que agradou bastante o Corman. Depois de escrito, a dupla sentou num café em Londres com o velho produtor e este leu cada uma das oitenta páginas do roteiro enquanto Demme e Viola esperavam em sua frente. Quando acabou, disse apenas “Humm… Isso aqui é muito bom! Acho que podemos fazer. Joe, você já é diretor de comerciais, e Jonathan, você é quem os produz. Por que vocês não vão à L.A. daqui a dois meses e realizam o filme?”. E foi assim que tudo começou para Demme. Vinte anos depois, o sujeito ganharia o Oscar de melhor diretor por O SILÊNCIO DOS INOCENTES.

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E o resultado é este ANGELS HARD AS THEY COME, que foi realmente dirigido pelo Viola enquanto Demme ocupou da produção. E no fim das contas, tem pouco, muito pouco a ver com o filme do Kurosawa que teoricamente fora inspirado. Mas cumpre o que promete, trata-se de um filme de gangues motocicletas com bastante sangue, muita pancadaria e vários peitinhos de fora… E embora eu ainda tenha uma porrada de exemplares para conferir, sempre tive uma queda por Biker Movies desse período. Até os filmes ruins acabam sendo divertidos. Não sei, são muitos atrativos juntos pra se ver… Personagens sujos e bêbados em festas, mijando uns nos outros, apostando corridas, arrastando pessoas amarradas em suas motos, mulheres desavergonhadas, enfim, todas essas coisas boas. E ANGELS HARD AS THEY COME acaba por ter tudo isso ao nosso dispor. Continuar lendo

MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND (1968)

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Como suspeitei no post anterior, MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND, o segundo exemplar da série Blood Island, não possui qualquer ligação com BRIDES OF BLOOD. Mas também não faz qualquer esforço para alterar a fórmula do seu “antecessor”, utilizando dos mesmos elementos visuais e narrativos, reciclando cenários e o elenco, como é o caso do americano John Ashley, que marca presença novamente encarando os monstros absurdamente toscos e mal feitos das Filipinas.

Dirigido novamente pela dupla Eddie Romero e Gerardo De Leon, MAD DOCTOR inicia inesperadamente com uma sequência promocional, na qual incita o público a tomar um líquido verde a fim de evitar uma transformação em monstro gosmento com cara de alface e sangue verde. Na verdade, tratava-se de mais uma campanha de marketing em que eram distribuídos esse líquido aos espectadores na entrada dos cinemas e drive in para que fosse ingerido durante determinado momento do filme. Seja lá qual o fosse o sabor, a ideia é simplesmente genial. Continuar lendo

BRIDES OF BLOOD (1968)

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BRIDES OF BLOOD é o primeiro exemplar de uma trilogia bizarra realizada nas Filipinas pelo produtor e diretor de filmes B local, Eddie Romero, em parceria com Gerardo DeLeon. Pelo que entendi, os três filmes não têm qualquer ligação narrativa (ainda não assisti aos outros, MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND e BEAST OF BLOOD), mas como possuem essa ambientação pitoresca em comum e foram realizados praticamente num curto espaço de tempo pelos mesmos diretores, acabaram interligados e conhecidos como Blood Island Films.

Na verdade, apesar de não fazer parte “oficialmente” desses filmes, Romero já havia rodado um exemplar de horror ambientado no mesmo local, quase dez anos antes de BRIDES OF BLOOD. O filme era TERROR IS A MAN, de 1959, também conhecido como BLOOD CREATURE e que de certa forma é o precursor da série Blood Island. Pelo visto um local propício para contar histórias de horror bem antes do que se imagina. Continuar lendo

MOMENTO JESS FRANCO: VIRGIN REPORT (Jungfrauen-Report, 1972)

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A virgindade sempre foi tema de interesse na obra de Jess Franco. Vez ou outra aparece uma virgem como elemento de reflexões filosóficas e… ok, quem eu tô tentando enganar? O fato é que Franco resolveu realizar VIRGIN REPORT, o pseudo-documentário definitivo sobre o assunto, para dar vazão à uma de suas obsessões, examinar a questão da virgindade em diversas culturas diferenciadas ao logo dos séculos e em vários locais ao redor do planeta. Obviamente, tudo uma mera desculpa para filmar mulheres nuas. Continuar lendo

SHE MOB (1968)

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A Something Weird Video é uma famigerada distribuidora americana especializada em bagaceiras undergroundtrash, exploitations, responsável por lançar petardos dirigidos por Herschell Gordon Lewis, Doris Wishman e diversos outros diretores. Um bom exemplo é SHE MOB, uma tralha que só mesmo a SWV teria a cara de pau de distribuir. É um verdadeiro achado, mas tenho o dever de avisar que só vai prestar mesmo para os trashmaniacos profissionais, é o típico filme que de tão mal feito, tão horrível em diversos aspectos, acaba sendo genial. Ou como diz um sujeito no imdb: “its incompetently made, but it has that special and rare sort of ineptitude that crosses the line over into surrealism“. Continuar lendo

MOMENTO JESS FRANCO: O EXORCISTA DIABÓLICO (Exorcism, 1974)

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A primeira coisa que me chamou a atenção nesta obra do grande mestre espanhol do exploitation europeu, Jesús Franco, foi a presença e atuação do próprio diretor no papel principal. Eu já vi muitos filmes do Franco em que ele se coloca em pequenos papeis, personagens sem muita importância, para compor elenco, mas aqui em O EXORCISTA DIABÓLICO é a primeira vez que o vejo numa tentativa de criar um personagem com um maior destaque dramático e o resultado me impressionou muito. Continuar lendo

WEREWOLF IN A WOMEN’S PRISON (2006)

09Mais um filme de lobisomem do Jeff Leroy produzido com um orçamento minúsculo, da mesma maneira que EYES OF WEREWOLF (1999), do post anterior. Aliás, recomendo uma olhada no post deste último antes de ler sobre WEREWOLF IN A WOMEN’S PRISON, para ter uma noção do que é o universo microbudget e o que esperar dos filmes de um realizador do naipe de Jeff Leroy. Só não pensem que o tema principal do sujeito se resuma ao famigerado monstro que se transforma nas noites de lua cheia. Leroy já atirou para todos os tipos de gêneros e se há um denominador comum no seu cinema é a quantidade de sangue e peitos na tela.

15A trama de WEREWOLF IN A WOMEN’S PRISON é bem simples e faz uma mistura muito louca entre filmes de lobisomem com Women in Prison, gênero no qual mulheres prisioneiras são protagonistas. Sarah (Victoria de Mare, que não chega aos pés da Stephanie Beaton, mas dá pro gasto) sai para acampar com seu namorado quando ambos são atacados por um lobisomem. A moça acaba sobrevivendo, mas acorda numa estranha prisão e descobre que seu namorado foi morto pela criatura. O problema é que Sarah foi mordida pelo lobisomem e, bom, todos nós sabemos o que isso significa. Leroy abusa de todos os clichês que se espera num werewolf movie, mas também dos filmes de prisão feminina: briga de detentas, lesbianismo, guardas sádicos, nudez gratuita… O fator lobisomem entra no conjunto acrescentando um sabor a mais: doses cavalares e explícitas de gore.

17Não custa ressaltar novamente que se trata de uma produção extremamente pobre e só é recomendado para paladares finos. É preciso muita boa vontade por parte do espectador para aceitar o péssimo desempenho do elenco (se bem que com a abundância de peitos, atuação não faz muita diferença), os cenários modestos que parecem tudo, menos uma prisão, e os efeitos especiais toscos, mas eficientes e criativos, levando em conta o orçamento humilde da produção… Finalizo citando o amigo Osvaldo Neto quando diz que o charme de WEREWOLF IN A WOMEN’S PRISON “reside no roteiro cheio de referência e amor ao cinema exploitation e na mais completa cara de pau do seu realizador e equipe fazerem de tudo para o longa ser um espetáculo de sanguinolência e putaria do início ao fim.” Eu não poderia concordar mais.

O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER (The Brain that Wouldn’t Die, 1962)

snapshot20101009192829O título desse filme é daqueles que fazem qualquer amante do cinema classe B ficar mais excitado que Testemunha de Jeová na seção de portas de loja de construção. O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER… É simplesmente muita tentação para os ouvidos. Mas até que me segurei por muito tempo! Sim, meus caros, há anos que tenho por aqui e só agora resolvi encarar essa tralha, dirigida por um tal Joseph Green, que de tão ruim, tão mal feita, tanto mau gosto reunido em película, é impossível não se divertir!

Com seus 82 minutos de duração, o enredo de O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER é facilmente resumido. Jason Evers – aqui creditado como Herb Evers – é o Dr. Bill Cortner, um cirurgião com métodos nada ortodoxos na prática de sua profissão e que nas horas vagas dedica-se, juntamente com um assistente com um braço deformado – o tradicional cúmplice que não pode faltar nesse tipo de produção – à pesquisa de um soro que tornaria possível o transplante perfeito de membros humanos. A natureza deste trabalho fica ainda mais evidente quando a noiva do sujeito, Jan (Virginia Leith), é decapitada num acidente de carro e o devotado noivo e “brilhante” cientista, mantém viva a cabeça de sua amada até que possa ser enxertada em um novo corpo.

Seguindo a cartilha dos cientistas de filmes B, Cortner inicia uma árdua jornada para encontrar o corpo ideal para Jan, o que significa visitar clubes de strip e concursos de biquinis, locais perfeitos para possíveis “doadoras”. No entanto, pela cara de safado malicioso do sujeito, mostrado em vários closes acompanhado de música jazz bem animada, fica difícil entender se há uma confusão nas intenções do filme, na direção de atores, na construção do personagem ou se Cortner está mesmo pouco se lixando e só quer ver moças desfilando em trajes mínimos.

Brain8O fato é que tanto Evers quanto o diretor Joseph Green parecem mais à vontade criando esse tipo de sequência, em locais vulgares com mulheres desinibidas, do que trabalhando o material sci-fi/horror com a tal cabeça viva falante, apesar destes elementos serem o foco. Pessoalmente, acho isso sensacional… E até ousado pra sua época, tanto que o filme acabou enfrentando diversos problemas com a censura, sendo lançado em 1962, três anos após as suas filmagens. Se formos parar para pensar, no final da década de 50 a mentalidade de certas figuras “do bem” talvez não estivesse muito confortável com a temática de O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER. E, para complicar ainda mais, trazia ainda cenas que o público não estava acostumado a ver na tela grande, nem mesmo quem fosse aficcionado por filmes de terror naquela altura. E estamos falando de uma produção que, por mais ridículo que hoje possa parecer, se levava bastante a sério (o que dá ainda mais motivos para dar boas risadas). Algumas imagens deveriam ter causado fortes emoções, como as cenas com a cabeça viva, falando naturalmente; ou o monstro mutante formado por vários membros alheios, fruto de experiências do Dr. Cortner que não dera muito certo; e até mesmo a cena incrível onde o braço de um dos personagens é arrancado violentamente, com bastante sangue escorrendo para todos os lados…

Sobre a cabeça falante, é preciso destacar a trucagem, por mais óbvia e tosca que fosse, e todo o aparato visual que fazem a absurda ideia da cabeça viva funcionar sem o corpo. Não é a toa que a imagem de Jen, com sua cabeça em cima de um tabuleiro de metal e os tubos e suportes acoplados à sua volta, acabou tornando-se um ícone na cultura pop do horror ao longo dos anos. A atuação de Virginia Leith também merece ser salientada, consegue dar alguma dignidade à sua “cabeça viva”, apesar da situação ridícula que se meteu…

brain4Ao contrário do que o título nacional indica, entretanto, o desejo do cérebro (ou da cabeça) era morrer sim. Jan fica puta da vida quando descobre que apenas lhe restou do pescoço pra cima e que o noivo é um baita maluco psicopata desumano para ter feito uma barbaridade científica dessas com ela ao invés de deixá-la morrer naturalmente. “Deixe-me morrer!“, é o que grita numa determinada cena. Portanto, ela planeja vingança. Mas o que uma cabeça pode fazer? Falar no ouvido do cara até ele morrer? Morder o nariz do sujeito? Felizmente, o tal monstro mutante, trancado numa sala – e também puto pra cacete – resolve ajudar a moça quebrando tudo num final épico.

Filmado em grande parte no porão da casa de alguém, O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER é um dos grande clássicos de quinta categoria do autêntico cinema trash americano. Fruto da imaginação de seu diretor, Joseph Green, que dirige da forma mais simples e econômica possível, e do produtor Rex Carlton, ambos escreveram o roteiro, genial e edificante, desta obra-prima da tosquice… Carlton cometeu suicídio alguns anos mais tarde. Mas não por causa deste filme ou de seus outros trabalhos da mesma laia, como BLOOD OF DRACULA’S CASTLE, de Al Adamson, o que seria até um motivo aceitável, mas por supostamente estar atolado em dívidas com a máfia… O filme foi lançado no Brasil num DVD duplo de uma coleção chamada Sessão da Meia-Noite, que trazia diversos clássicos B dos anos 50 e 60. A BESTA DA CAVERNA ASSOMBRADA, primeiro filme de Monte Hellman e produzido por Roger Corman, faz dupla com este aqui.