R.I.P. Billy Drago (1945 | 2019)

38af87d9cda0a6408b51d4ab9e84a3a4

Anúncios

CANNIBAL APOCALYPSE (1980)

bscap0297

Apesar do título, é no mínimo questionável classificar CANNIBAL APOCALYPSE dentro do subgênero cannibal, tão comum no final dos anos 70 e início dos 80 no cinema popular de exploração italiano. Caso seja classificado, que seja então como um representante bastante alternativo, não compartilha virtualmente quase nada em comum com os outros filmes do subgênero. Não é uma aventura na selva, com exploradores se metendo com tribos canibais, por exemplo. E, embora eu não tenha do que reclamar da brutalidade por aqui, o nível de violência não chega nem perto dos excessos de um CANNIBAL HOLOCAUSTO, CANNIBAL FEROX e outros similares. Mas há comedores de carne no filme, obviamente, só que eles são habitantes “civilizados” da cidade de Atlanta, infectados por um vírus que lhe despertam desejo de carne humana.

bscap0247

No entanto, CANNIBAL APOCALYPSE inicia realmente nas selvas do Vietnã, durante a guerra, quando o oficial das Forças Especiais do Exército dos EUA, Norman Hopper (John Saxon), lidera um pelotão de soldados em uma missão de busca num complexo de cavernas Vietcong onde são mantidos prisioneiros de guerra. Depois de eliminar o inimigo num espetáculo de tiros e explosões, eles descobrem um buraco onde estão dois americanos capturados, Charlie Bukowski (sim, podem acreditar que esse é o nome do personagem vivido por Giovanni Lombardo Radice) e Tommy (Tony King).

Hopper fica feliz de vê-los ainda com vida – até porque conhece os sujeitos, ambos são de sua cidade natal – mas ao mesmo tempo, acaba tendo a visão aterradora deles devorando avidamente a carne de uma guerrilheira inimiga que havia caído lá dentro. Então, num rosnado selvagem, Tommy salta e dá uma mordida no braço estendido de Hopper.

bscap0280bscap0277

Nesse ponto, Hopper acorda de um pesadelo febril, na cama com sua esposa Jane (Elizabeth Turner) em Atlanta, anos depois da guerra. A sequência de abertura do filme foi um flashback/sonho de Hopper no Vietnã revelando um incidente que realmente aconteceu. Hopper está preocupado com o sonho; ultimamente ele desenvolveu uma estranha atração pela carne crua. Lutar contra esse desejo torna-se cada vez mais difícil, colocando uma pressão até sobre o seu casamento (isso sem falar na vizinha adolescente que lhe “atormenta” a vida com visitas inusitadas…).

Enquanto isso, Bukowski é libertado de uma ala psiquiátrica local, onde está encarcerado desde o fim da guerra. Supostamente curado, em seu primeiro dia de liberdade ele entra em conflito com uma gangue de motoqueiros, ataca uma mulher em um cinema (morde um pedaço sangrento do pescoço), depois mata duas pessoas em um mercado e fica encurralado enquanto os policiais cercam o prédio. Fiquei com a impressão que o sujeito não estava tão curado assim…

MV5BYTg1MzY4NWUtODYwYi00YWVjLWFmOGQtZmIzZTFjMDIyZTM3XkEyXkFqcGdeQXVyNzAyMzQyNTk@._V1_

Daqui pra frente, CANNIBAL APOCALYPSE se transforma num festival de mordidas violentas! Ao saber da situação de Bukowski, Hopper aparece no local e consegue convencê-lo a se entregar. Mas Charlie morde um policial no momento de ser colocado pra dentro do camburão. Em vez da prisão, Bukowski é transportado de volta para o hospital psiquiátrico, onde ele se reúne novamente com seu companheiro de guerra, Tommy. Este, acaba mordendo a perna de uma enfermeira, que o deixa amarrado a uma maca ao lado de Charlie, na ala de alta segurança.

Os médicos determinam que ambos são portadores de um vírus misterioso que de alguma forma os transforma em canibais. Mais tarde Hopper aparece no hospital e resolve libertar Charlie e Tommy e fugir com eles sabe-se lá pra onde… A enfermeira infectada por Tommy se junta a eles depois de morder a língua de um médico excitado. O inusitado quarteto rouba uma ambulância e parte para a noite fazendo deixando algumas vítimas no caminho, enquanto a polícia, liderada pelo Capitão McCoy (Wallace Wilkenson), se engaja em uma caçada frenética para deter os canibais antes que eles possam espalhar ainda mais o suposto vírus.

Cannibal-Apocalypse

Pois é, CANNIBAL APOCALYPSE é essa loucura absurda, mas interessante e divertido exemplar que se beneficia bastante da direção imaginativa e segura de Margheriti, que eleva o filme um ou dois níveis acima do habitual do cinema de exploração, além das performances sólidas do elenco, com destaque para Saxon e Radici. O conceito de um vírus canibal também é certamente uma das melhores ideias do filme, a de um fenômeno social representado no canibalismo como uma doença contagiosa, que é algo bem mais, digamos, reflexivo do que as filmagens de mortes de animais reais usadas nos cannibal movies tradicionais.

Eu sei, os efeitos especiais de CANNIBAL APOCALYPSE são de Giannetto De Rossi, que possui no currículo obras contendo algumas das mais extremas imagens do cinema italiano de gênero. Portanto, não é que não existam cenas de extrema violência gratuita e muitos efeitos sanguinolentos por aqui, só acho que não é somente nisso que Margheriti estava interessado… Mas os fanáticos por tais elementos mais impactantes não precisam se preocupar e vão se esbaldar, especialmente na cena de morte do personagem de Radice, filmado em toda a sua glória visceral. Não é a toa, portanto, que CANNIBAL APOCALYPSE tenha sido marcado por um histórico de censura e cortes em lançamentos pelo mundo. No Reino Unido, por exemplo, até 2005 o filme estava banido, assim como em outros países. No Brasil, foi exibido sem cortes em 1981 sob o título OS CANIBAIS DO HOLOCAUSTO. 

cannibal_apocalypse_poster_01

O PÁSSARO DE PLUMAS DE CRISTAL (1970)

large_bird_crystal_plummage_01_blu-ray_

Revisão do primeiro trabalho do maestro italiano do horror, Dario Argento, como diretor. É também seu primeiro giallo, sub-gênero que o consagrou. Claro, Argento não inventou o giallo, mas é um dos maiores responsáveis, junto com Mario Bava e Sergio Martino, pela sua sofisticação estética e fundamentação de seus conceitos. Mas O PÁSSARO DE PLUMAS DE CRISTAL ainda é o começo de tudo para Argento, sem o abuso de suas composições simétricas, cenários estilizados e exuberância de cores, mas fica evidente que o sujeito já sabia muito bem o que fazer com os elementos estéticos do gênero e com formulações importantes dos gialli, como a ideia do “investigador casual”, geralmente alguém ligado às artes ou um jornalista, que pode ou não ter testemunhado os crimes cometidos pelo assassino da trama, e passa a investigar o caso. Na verdade, para quem conhece alguma coisa do Argento, é legal perceber como ele já mantinha algumas obsessões atrás das câmeras, a começar pelo assassinato brutal de mulheres, indo por detalhes da cena do crime vistos pelo olho humano, mas enganados pela memória, os traumas do passado reverberando no presente, a busca obsessiva e, consequentemente, a falsa revelação da verdade… 

Em O PÁSSARO DE PLUMAS DE CRISTAL, Sam (Tony Musante) é um escritor americano que vive em Roma. Certa noite, a caminho de casa depois de socializar com um amigo, e completamente por acaso, acaba testemunhando uma tentativa de homicídio envolvendo a bela esposa de um dono de uma galeria de arte.

birdr1_00728

Sam não consegue entrar no local para salvá-la, pois fica preso entre um conjunto de portas de vidro. Tudo o que o sujeito consegue é observar a mulher em agonia com o bucho perfurado por uma faca e esperar que alguém chame a polícia a tempo de salvá-la. A sequência é uma das mais inspiradas do filme, um trabalho de tensão e suspensão temporal – segundos que parecem horas – realizado com maestria.

Depois, Sam descobre que a mulher sobreviveu, e a polícia lhe diz que ela é apenas mais uma das poucas vítimas recentes de um serial killer que está operando na área. O assassino, um homem vestido com uma capa de chuva preta e, claro, um par de luvas de couro preto, sempre consegue escapulir antes que os policiais possam ser chamados e, para desgosto de Sam, continua à solta.

large_bird_crystal_plummage_02_blu-ray_.jpg

A força policial de Roma, liderada pelo inspetor Morosini (Enrico Maria Salerno), tem boas intenções, mas não consegue apresentar pistas sólidas sobre o caso. Isso inspira Sam, que teve seu passaporte confiscado pela polícia até que estejam cem por cento positivos de que ele não tem nada a ver com os assassinatos, a fazer um pequeno trabalho de detetive por conta própria. Ele espera poder limpar seu nome e levar o assassino à justiça, matando dois coelhos com uma cajadada só.

O protagonista logo começa uma busca pela verdade. E é por isso que o um dos principais conceitos do giallo é essa lógica do “investigador casual”. Esqueçam um bocado os elementos estéticos, que obviamente estão lá (as luvas pretas e as facas reluzentes), mas que as pessoas geralmente usam como definição do gênero. Lembremos que para Argento a genialidade do giallo está exatamente nesse ponto: na ambiguidade que surge nessa quebra de uma tradição cinematográfica no qual a figura do policial faz apenas seu trabalho, enquanto a “testemunha casual”, geralmente um artista, se sente mais compelido a ir atrás da verdade, que no fim das contas é a função do artista, seja lá por qual meio artístico ele se expresse, que é investigar verdades que sirva para si e para o seu público. É o que faz o artista no giallo desbravar e arriscar, tentando resolver o mistério.

birdr1_11446

Enquanto alguns de seus filmes posteriores são peças sublimes do horror surreal e bizarro, O PÁSSARO DE PLUMAS DE CRISTAL é um mistério de assassinato mais direto e, digamos, “realista”, que faz um bom ponto de partida para aqueles que não estão familiarizados com o trabalho de Argento ou até mesmo com o gênero. E fiquei impressionado até como o filme é bem mais intenso do que eu lembrava, com um estado de suspense que se mantem quase durante toda a narrativa. O filme ainda não possui muito do visual extravagante, como já disse antes, a exemplo de outros trabalhos de Argento, como SUSPIRIA e INFERNO, mas a cinematografia daqui é do grande Vittorio Storaro e tem muito estilo, o filme todo é lindamente fotografado, com muitos movimentos de câmera fluidos, então não deixa de ter momentos de deslumbre estético, que no fim das contas também faz parte da essência do giallo.

Há uma cena incrível, e particularmente sádica, em que a câmera assume o ponto de vista de uma das vítimas, acompanhando seu olhar, seus gestos, para revelar a figura do assassino imponente na porta de um quarto pronto para fazer mais um estrago. Não há aqui nenhuma grandiosa cenas de morte, como depois viriam as sequências operísticas de PROFONDO ROSSO, SUSPIRIA e TENEBRE, entre tantos mais. Ainda assim, o suspense é muito bem desenvolvido, a música de Ennio Morricone pontua com precisão, e soluções visuais discretas como essa citada são desses pequenos momentos de inventividade que Argento andava a experimentar e aqui já é digno de nota.

birdr1_03151

O filme é a primeira parte de uma espécie de “trilogia dos animais” que marcou o início de carreira de Argento, formado ainda por O GATO DE NOVE CAUDAS e 4 MOSCAS NO VELUDO CINZA, que já comentei por aqui há alguns bons anos. Adoro os três filmes, mas fica claro pra mim o critério de, não sei se “aprendizado” seria a palavra ideal, mas funcionam bem como rascunhos das obras geniais que Argento viria a fazer alguns anos depois e que já citei durante o texto. Mas é o belo início de carreira de um dos maiores nomes do cinema mundial.

SUSPIRIA (1977)

Suspiria-229

Vocês sabem, SUSPIRIA, o clássico absoluto do horror italiano do mestre Dario Argento, será lançado num remake dirigido por Luca Guadagnino, de ME CHAME PELO SEU NOME. Pra mim, remakes nem fedem nem cheiram, mas acabo assistindo. Se forem bons, elogio, se forem ruins, lamento a perda de tempo… Poderia ter visto coisa melhor. Mas mantenho sempre a ideia de que o original estará lá para ser visto e revisto independente de quantas refilmagens fizerem. No caso de SUSPIRIA, até acho que pode sair algo interessante. O cinema de horror atual anda num bom momento e acho o Guadagnino um sujeito com talento. É só não esperar nada no mesmo nível que é a maravilha do Argento que vou encarar de boa…

Sobre o filme do Argento, revi há poucos dias em DVD em casa mesmo. Uma belezura. Mas a melhor experiência que tive com o filme, foi mais ou menos há um ano quando SUSPIRIA passou remasterizado no Instituto Moreira Sales, da Paulista, onde tive a oportunidade de sentir o poder sensorial dessa obra-prima do horror em todo o seu esplendor. Quero dizer, aquela telona explodindo a exuberância de cores e o volume até o talo, ficou simplesmente impossível sair da sessão sem estar, no mínimo, atordoado.

Suspiria-018

Nem é o meu filme favorito do Argento, fico com INFERNO (1980) ou PROFONDO ROSSO (1975), mas SUSPIRIA tem um cantinho reservado no coração e revê-lo é uma experiência visual transcendental, seja numa tela de cinema, seja na TV em DVD. Sempre fico de queixo caído com sua narrativa onírica, a trilha sonora experimental do Goblin, o design de produção estilizado e as composições visuais meticulosamente trabalhadas em benefício do horror, de um universo de horror muito próprio, um mundo de beleza, mistério, oculto e violência… É um festival sensorial único, a síntese do filme de horror como arte.

A sinopse é bem simples: uma estudante americana de balé, Suzy Banyon (Jessica Harper), chega numa noite tempestuosa em Freiburg, na Alemanha, para estudar numa prestigiosa academia de dança. Quando um táxi a deixa na entrada do local, ela vê uma jovem na porta agindo de modo estranho antes de sair para a noite, correndo pela floresta encharcada e escura. No dia seguinte, quando Suzy se estabelece na escola, descobre que a garota que viu na noite anterior foi brutalmente assassinada. A partir daí, Suzy começa a perceber que há algo nitidamente bizarro, ocorrências estranhas vão rolando na escola e com seu corpo docente, e ela resolve meter o nariz para descobrir…

Suspiria-122

Qualquer coisa além disso já não tem tanta importância. Quero dizer, para ser sincero, a trama e seus dispositivos narrativos, construção de personagens e etc, não são exatamente o que mais interessam ao Argento, ainda que integrem o universo formal do diretor como contador de história de terror. O fato é que Argento chega a um ponto da carreira no qual o enredo e personagens se tornam completamente subservientes ao visual, à atmosfera, à música. O que realmente importa em SUSPIRIA, portanto, é a lógica de pesadelo que motiva os personagens a agirem de forma absurda em cenários barrocos onde a violência é bela. São exatamente os momentos em que o trabalho visual se destaca que SUSPIRIA se revela tão magistral e original. A sequência do primeiro assassinato é uma das minhas favoritas, digna de antologia: a violência, o sangue, a faca entrando no coração exposto e os últimos e trágicos enquadramentos (alguns dos mais icônicos do horror italiano)… O que se vê na tela é pura poesia.

Suspiria-051Suspiria-056

Dizem que Daria Nicolodi, atriz e roteirista italiana que era casada com Argento e que escreveu o roteiro de SUSPIRIA, baseou-se nas experiências de sua avó, que frequentou uma escola de atores onde os professores também ensinavam magia negra aos alunos… Vai saber se isso é verdade. Em outras declarações, ela diz que a ideia de SUSPIRIA teria surgido de um sonho que teve. O que faz mais sentido. A sensação parece ser mesmo a de um pesadelo estruturado num conto de fadas macabro, com os personagens falando coisas sem sentido e percorrendo os corredores sinistros e ricamente decorados da Academia de Dança. É como se Suzie entrasse numa espécie de buraco do coelho, como em Alice no País das Maravilhas, só que o mundo paralelo aqui é mais peculiar ao pesadelo, ao horror. SUSPIRIA me mostrou o quão aterrador, poético e sofisticado o cinema de horror italiano pode ser (e não só o Argento, mas também Fulci, Bava, Soavi, Freda, etc).

Então, que venha o remake, mesmo tendo consciência de que vai ser praticamente impossível superar este aqui. Mas se for bom, já tá valendo.

Ah, e só pra lembrar, SUSPIRIA é o primeiro exemplar de uma trilogia unida a partir da ideia das “Três Mães”, um triunvirato de bruxas ancestrais e maléficas cuja magia poderosa lhes permite manipular eventos mundiais em escala global. Os outros filmes são o já citado INFERNO e THE MOTHER OF TEARS.

ESPECIAL HALLOWEEN 2013 #4: THE BURNING MOON (1997)

Sempre fui fanático por antologias de horror, filmes compostos por várias pequenas histórias de medo e mistério, como CREEPSHOW (83), de George A. Romero, ou os clássicos da Amicus, como ASILO SINISTRO (72), de Roy Ward Baker. Para incrementar o mês especial de Halloween aqui no blog, resolvi conferir THE BURNING MOON, produção alemã de orçamento minúsculo dirigido pelo mago dos efeitos especiais do cinema extremo Olaf Ittenbach e que tem no currículo alguns exemplares adorados pelos fãs de splatter movies recheado de muito gore. E, não por acaso, este aqui é uma antologia.

São apenas três historinhas em THE BURNING MOON. A primeira é a que serve de base para as outras duas e mostra o dia de um jovem pagando de rebelde, com calças rasgadas no joelho e cabelo bagunçado, vivido pelo próprio diretor. Começando com uma entrevista de emprego na qual não faz a mínima questão de passar, depois, o sujeito se mete numa violenta briga de gangues e, logo, chega em casa tocando o terror pra cima de seus pais, que já não sabem o que fazer. Por fim, o mancebo resolve injetar na veia alguma substância saudável e vai ao quarto da irmã mais nova contar algumas histórias de ninar para fazê-la dormir…

Assim, surgem os dois episódios seguintes. Mas não se preocupem. Não teremos pôneis ou fadas por aqui. A primeira história contada pelo rapaz (ou a segunda do filme, seguindo a ordem) é JULIA’S LOVE, sobre um psicopata apaixonado que até chegar à sua amada vai deixando um rastro de corpos estraçalhados pelo caminho. E quando a encontra, decide passar a faca na família da moça também. A trama se desenrola de maneira boba, mas a quantidade de nojeira, sanguinolência e mutilações – no mais puro gore old school – farão o deleite do espectador. Inclusive com alguns planos bem criativos, como uma barriga sendo perfurada visto de dentro do corpo; um olho enfiado garganta abaixo sob o ponto de vista da goela, e por aí vai. Ao final, um policial chega ao local metendo bala, chateado porque uma cabeça decepada foi jogada em seu carro pelo assassino… Hahaha!

O último segmento de THE BURNING MOON é bem melhor. Chama-se THE PURITY e a premissa é sobre um padre num pequeno vilarejo que costuma realizar a missa ao dia, mas durante as noites resolve estuprar e assassinar aleatoriamente. A culpa cai pra cima de um jovem agricultor que não tem nada a ver com os assassinatos, mas os moradores da região decidem contratar um jagunço para matá-lo. O negócio é que após ser brutalmente assassinado, o sujeito volta do mundo dos mortos para se vingar, levando seus desafetos ao inferno.

É aí que temos a famosa sequência que justifica a reputação e a existência de THE BURNING MOON. São quase dez minutos no inferno de Olaf Ittenbach, um espetáculo visual de brutalidade desenfreada com violência explicitamente detalhada, exagerada e sem qualquer remorso com o espectador. E tudo realizado com os efeitos especiais de fundo de quintal, mas com uma perturbadora eficiência que me deixou hipnotizado. Um final perfeito para esta tranqueira divetidíssima do cinema extremo alemão, que não tenta empurrar lições de moral, nem trata de temas edificantes e filosóficos. Mas também não tem vergonha de se assumir como produto de um sujeito apaixonado por cinema e que descobriu que poderia transformar sangue falso e efeitos hardcore de maquiagem em subversão visual cinematográfica.

ESPECIAL HALLOWEEN 2013 #03: LA LLAMADA DEL VAMPIRO (1972)

Não poderia faltar um Eurohorror obscuro neste especial de Halloween. LA LLAMADA DEL VAMPIRO, dirigido por José María Elorrieta, é uma produção espanhola do período áureo do exploitation daquele país e que combina com muita desenvoltura algumas doses de sexo com o universo dos chupadores de sangue. O filme até pode não ser uma maravilha, uma obra prima do horror (e não é mesmo), mas sexo e vampiros são dois elementos perfeitamente compatíveis quando misturados.

Após uma introdução na qual uma loura vampira tenta atacar um velhote num castelo e tem o peito cravado por uma estaca, somos apresentados a uma jovem doutora e sua bela assistente que chegam a um vilarejo espanhol para substituir o médico local, que acabara de bater as botas. Logo, são instaladas num antigo castelo local para ficarem à disposição especial do Barão que vive por lá, um ancião muito doente, que por coincidência trata-se do mesmo velho e do mesmo castelo do início do filme.

O problema é que uma onda de mortes tem acontecido na região. Os corpos estão sempre secos, sem sangue, e com dois furinhos no pescoço. No diário do falecido médico surge a palavra vampirismo, uma besteira para a cética médica, que tem seus conceitos baseados na ciência e acaba confrontando com as superstições do vilarejo, sem imaginar que a verdade pode não ser aquilo que acredita.

E diferente de outros exemplares do gênero, até que LA LLAMADA DEL VAMPIRO tenta explorar de alguma maneira o mistério das crenças e do ceticismo de alguns personagens. E por isso a trama acaba tendo momentos parados, só de conversa fiada, e isso prejudica o ritmo… Mas não impede de ter também os ingredientes que o tornam um típico exploitation, como a violência, que abusa do sangue fake avermelhado, e umas sequências de, digamos, putaria: espanholas em trajes mínimos, peitos gratuitos, sexo lésbico, essas coisas…

Claro, se você nunca tiver assistido a um Eurotrash na vida, não conhece Jess Franco, Jean Rollin, Joe D’Amato, José Ramon Larraz, não há sangue e mulher pelada que te ajude. A minha recomendação é distância de LA LLAMADA DEL VAMPIRO! Agora, para quem já está familiarizado, vai desfrutar tranquilamente do que o filme tem a oferecer. O visual, por exemplo, não possui a mesma sofisticação de um Mario Bava ou as produções da Hammer, mas há uma certa atmosfera e soluções estéticas interessantes; há pelo menos um detalhe tosquíssimo para servir de humor involuntário: o tal vampiro do título, vivido por Nicholas Ney, que é extremamente ridículo! E nunca é demais lembrar que temos algumas espanholas bem à vontade…

Confesso que não conhecia o realizador José María Elorrieta até por os olhos em LA LLAMADA DEL VAMPIRO. Descobri no imdb que o sujeito já era um veterano na época que dirigiu este aqui e já possuía um currículo de mais de três décadas, incluindo vários exemplares de horror. Talvez algum dia eu explore um pouco mais a filmografia do homem. Este aqui, garanto, foi uma boa surpresa dentro do gênero.

FEMALE VAMPIRE (1973)

A abertura de FEMALE VAMPIRE é uma beleza! Lina Romay se revela através de uma densa bruma vestindo apenas uma capa preta, com os seios à mostra, vagando lentamente em direção ao público, hipnotizado pela sua formosura. A câmera do diretor Jess Franco aproveita para dar alguns dos seus zoons característicos, mostrando em planos detalhes os dotes íntimos e robustos da vestal que continua seu trajeto diretamente para a câmera até a imagem escurecer.

É uma bela homenagem do Franco à exuberância de sua atriz, esposa, musa inspiradora, Lina Romay, que faleceu recentemente, vítima de câncer, aos 58 anos… E aqui prestamos a nossa singela homenagem à ela, pelo amor e dedicação que sempre teve ao cinema extremo e por ter inspirado esse prolífico cineasta a fazer mais de 200 obras!

FEMALE VAMPIRE é um dos filmes ideais para homenageá-la, embora não seja um dos meus favoritos do Franco. Na verdade, trata-se uma dessas produções mais discretas do diretor, realizado com pouquíssimo recurso, talvez filmado em três dias no máximo, com várias cenas claramente improvisadas e sem foco (da câmera mesmo!), sem roteiro, sem sentido algum. No entanto, a presença de Romay é um espetáculo. Nunca a considerei uma grande atriz, tecnicamente falando, mas para uma beldade que se vestia apenas quando o roteiro pedisse e praticava felaccios não simulados para as câmeras do marido, o talento pode ficar em segundo plano, não tem problema… hehe! Ela era perfeita naquilo que fazia.

Se há uma trama para ser descrita aqui, seria algo parecido com isso: Lina Romay é uma vampira muda que ao invés de utilizar os convencionais caninos para perfurar o pescoço e chupar o sangue de suas vítimas, prefere fazer um sexo mortal, cujo orgasmo leva o parceiro(a) à morte. E o filme inteiro segue nessa linha, só na sacanagem e mais sacanagem. Mas tanta sacanagem também cansa e é muito comum o Franco perder totalmente a noção de ritmo. Por outro lado, é justamente nesse tipo de filme que Franco ia às favas com a lógica ou a opinião pública, aproveitava de sua liberdade criativa, botava seu lado safado pra funcionar e ainda criava praticamente do nada uma espécie de narrativa de sonho, cheio de imagens oníricas… Talvez não funcione para o espectador comum, mas o autêntico fã de Jess Franco é igual ao sujeito que adora comer jiló, ninguém convence de que aquilo é ruim de doer!

O filme possui três cortes diferentes com graus de erotismo que variam de um para o outro, todas editadas pelo próprio Franco, utilizando pseudônimos. Na versão que eu vi, conhecida como FEMALE VAMPIRE, não há sexo explícito, apesar de uma ceninha rápida na qual Romay se empolga e abocanha o pinto do ator que contracenava. Mas se querem ver a versão mais quente, se não estou enganado, o título é EROTIKILL. Há ainda uma versão que acredito ser mais branda cujo título é LES AVALEUSES.
Eu não como jiló, mas sou fã de Jess Franco e por mais que FEMALE VAMPIRE tenha seus problemas, é um belo conto erótico sobre vampirismo que cresce a cada revisão, graças, especialmente, ao brilho da musa Lina Romay. Requiescat in pace, bella…

LA RAGAZZA CHE SAPEVA TROPPO, aka The Girl Who Knew Too Much (1963), de Mario Bava

Mario Bava dirgiu tantos filmes sem receber o devido crédito como diretor que só mesmo tendo em mãos o livro do Tim Lucas pra ter certeza o que ele realmente realizou ou não (e eu não tenho), mas é provável que este aqui seja o primeiro filme contemporâneo do diretor. Bava foi um gênio de grande influência no cinema italiano e até então só havia recriado outras épocas em seus filmes, como o terror gótico LA MASCHERA DEL DEMONIO e o peplum ERCOLE AL CENTRO DELLA TERRA.
O roteiro escrito pelo próprio Bava e outras cinco pessoas (!) para LA RAGAZZA CHE SAPEVA TROPPO é bem simples, mas consegue segurar o espectador até o último minuto com um suspense de primeira qualidade. Conta a estória de Nora Davis (Letícia Román), uma jovem america que viaja à Roma e fica hospedada na casa de uma senhora doente. Em certa noite chuvosa, após ter sua bolsa furtada, Nora bate a cabeça no chão e ainda atordoada testemunha (ou não) o assassinato de uma mulher. Com a ajuda do Dr. Marcello (John Saxon), ela tenta investigar por conta própria o mistério, sem ter a certeza se tudo não passou de uma simples ilusão, o que é mais provável para todos ao redor.

Mesmo trabalhando com algo mais próximo da realidade, LA RAGAZZA CHE SAPEVA TROPPO carrega todas as características que marcaram o cinema de Bava. É um filme que apresenta, especialmente, grande poder visual. Emoldurado por um preto e branco expressionista e de atmosfera densa, o diretor abusa de grande inventividade nos movimentos de câmera, esbanja criatividade no uso da luz e cria vários elementos que serviram de matéria prima para a criação do famigerado subgênero conhecido como giallo. Algo que seria amadurecido no ano seguinte em seu SEI DONNE PER L’ASSASSINO.

A cena em que Nora testemunha o assassinato possui uma sutileza experimental muito interessante, com a câmera distorcida e ótima edição, mostrando o delírio visual da protagonista interpretada de forma bastante segura pela bela italiana Letícia Román. Outro destaque do elenco é o grande ator americano John Saxon, sujeito subestimado em seu país e que fez mais sucesso em território europeu.

O título original e em inglês faz referência ao clássico de Alfred Hitchcock, O HOMEM QUE SABIA DEMAIS. No Brasil ficou conhecido como OLHOS DIABÓLICOS.

BURIAL GROUND (Le Notti del Terrore, 1981)

Esse é o tipo de filme para o qual o cinema eurotrash foi criado.

Dos filmes do fim de semana, um dos mais legais foi este clássico zombie movie carcamano, BURIAL GROUND, dirigido por Andrea Biachi, considerado um dos piores profissionais em sua área ao lado de Bruno Mattei… Mas não se preocupem com essas classificações, os verdadeiros fãs das bagaceiras à italiana vão adorar este aqui, nem que seja para dar boas risadas das situações que acabam gerando humor involuntário.

BURIAL GROUND é uma coisa linda, já está entre os meus zombie movies favoritos! A estória é bem tola, sobre três casais e um adolescente que visitam um cientista que trabalha em sua propriedade escavando e estudando alguma coisa que, pra falar a verdade, nem me recordo o que era… Só lembro que no início ele diz algo como “Sou o único que conhece o segredo!”. Mas acho que este detalhe não chega a ser muito importante na trama, já que 2 minutos depois, de volta às suas escavações, o cientista é atacado por um bando de zumbis e o tal segredo nunca é revelado no decorrer da estória . Enfim, seus convidados chegam ao local e sem muita enrolação (a não ser pra mostrar algumas cenas de sexo, o que eu chamo de uma boa enrolação) os zumbis põem-se a perseguir os personagens.

Claramente inspirado em ZOMBIE 2 de Lucio Fulci, o filme acabou recebendo o título ZOMBIE 3 em alguns lugares da Europa. Tirando várias cenas que o Bianchi chupou sem vergonha alguma do filme de Fulci, os dois filmes não possuem qualquer ligação. Inclusive, alguns anos mais tarde, o próprio Fulci deu inicio às filmagens do verdadeiro ZOMBIE 3, mas acabou finalizado pelo Bruno Mattei.

Dois detalhes geniais sobre BURIAL GROUND: primeiro, os zumbis, que possuem as maquiagens mais bizarras e mal feitas que eu já vi em algum filme do gênero. Claro que isso concede um charme muito legal ao filme, principalmente porque Bianchi faz questão de filmar com orgulho os seus zumbis em closes de uma maneira de fazer inveja ao Sergio Leone, acentuando todas as falhas das maquiagens. É bem engraçado. Os zumbis de Bianchi seguem a mesma linha de locomoção das criaturas de George Romero e Lucio Fulci, lentos e fáceis de escapar, mas possuem um nível de inteligência um pouco acima. São capazes de usar ferramentas, subir em lugares difíceis para conseguir “alimento” e em certo momento um zumbi utiliza um prego como se fosse uma arma ninja! Coisa de louco…

Apesar de tudo isso, o segundo detalhe é o que mais chama atenção em termos de bizarrice! E não tem nada a ver com os pobres zumbis. Estamos falando do adolescente do filme. Pra começar, o relacionamento no qual mantém com sua mãe é um tanto estranho, já que não é todo dia que vemos alguém com 14 anos querendo tomar leitinho quente direto do peito da mãe. Depois, o ator que interpreta o papel é Pietro Barcella (creditado aqui como Peter Bark), um sujeito muito estranho, meio anão, na época com seus 25 anos, dando a impressão de que alguém colocou a cabeça de um homem no corpo de um adolescente de 14 anos. Somando a isso a coisa do incesto, temos aí algo tão peculiar quanto os próprios zumbis do filme…

E é por essas e outras que fica impossível não adorar o cinema popular italiano!

A NOITE DO TERROR CEGO (La Noche del Terror Ciego, 1971), de Amando de Ossorio

Com o novo padrão estético e narrativo dos filmes de zumbis (e por que não, do terror de um modo geral?) definido por George Romero em A NOITE DOS MORTOS VIVOS, o diretor espanhol Amando de Ossorio resolveu deixar sua autêntica contribuição ao subgênero com este A NOITE DO TERROR CEGO, colocando cavaleiros templários como zumbis que saem das tumbas para fazerem suas vítimas…
A mitologia desses zumbis, na qual rendeu uma saga que ainda possui mais três filmes além deste aqui, narra que os tais cavaleiros templários, ainda na idade média, foram condenados por heresia e tiveram seus olhos arrancados, mas por possuírem um conhecimento secreto de magia negra, conseguiram perpetuar seus corpos ao longo do tempo, escondidos nas ruínas onde no passado foram condenados.

Betty (Lone Fleming) e Virginia (Helen Harp) são duas amigas dos tempos de colégio que se reencontram, após muitos anos, na piscina de um hotel. Virgínia está há dias tentando conquistar Roger (César Burner), mas quando este põe os olhos em Betty já percebemos que a coisa vai esquentar neste triangulo de emoções. Mas claro que isso não chega a ser tão explorado pelo diretor, que precisa se concentrar no lance dos zumbis sem olhos.

Então, em uma excursão de trem, quando rapidamente fica claro que as intenções carnais de Roger estão pendendo pro lado de Betty, Virginia tem um ataque de nervos do nível de uma adolescente de 14 anos e salta do trem emburrada. Um pouco antes disso, porém, um flashback mostra o tipo de relação que as duas amigas haviam tido no colégio: aquela em que se colocam as aranhas para brigar, se é que me entendem. Esse simples flashback é uma das cenas mais sofisticadas do filme, com uma atmosfera de sonho, e o som do trem que permanece constante de background… o resultado é bem interessante.

Bom, Virgínia fora do trem, no meio do nada, completamente sozinha, acaba indo parar justamente num lugar onde ninguém conseguiria imaginar! As ruínas dos cavaleiros templários zumbis sem olhos!!! Ainda durante o dia, ela fica apenas andando pra lá e pra cá pelo local sem muito que fazer (e neste momento agradeço por terem inventado o controle remoto), mas a noite, temos a clássica sequência dos mortos vivos saindo de suas tumbas com sede de sangue, cavalgando em câmera lenta (só não me pergunte de onde saíram os cavalos). Ossorio deve ter achado a cena dos zumbis saindo do jazigo tão boa, mas tão boa, que acabou repetindo a mesma cena nos filmes seguintes. Enfim, Virgínia acaba sendo a primeira vítima dos zumbis…

É nesta sequência que podemos contemplar os cavaleiros pela primeira vez, com suas roupas medievais de soldados templários já bem envelhecidas pelo tempo e o crânio sinistro protuberante no lugar da face. A produção de A NOITE DO TERROR CEGO é bem independente, com baixíssimo orçamento, e um dos grandes trunfos do filme é fazer acontecer sabendo evitar os problemas de recursos com bastante criatividade. Outros momentos bacanas que demonstram isso é a cena do necrotério e, em especial, o ataque à casa de moda, com um uso de cores, luzes e espaço, cercado de manequins, que remete a atmosfera de SEI DONNE PER L’ASSASSINO, do mestre Mario Bava.

Com o sucesso deste primeiro filme, Amando de Ossorio se sentiu obrigado a continuar contando a saga dos zumbis sem olhos, dos quais não tive ainda a oportunidade de assistir, mas espero que sejam, no mínimo, uma boa diversão como este aqui.

O ESTRANHO SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS (Non si sevizia un paperino, 1972), de Lucio Fulci

Antes de viajar, mais um textinho de lambuja. Revi O ESTRANHO SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS, um dos maiores filmes do genial Lucio Fulci, o qual é sempre um prazer poder ver e rever grande parte da sua obra. Carrego boas lembranças de seus filmes e este aqui é especial porque acumula algumas das cenas mais memoráveis e impressionantes que o homem já filmou, a começar pela belíssima e mórbida sequência de abertura, o plano nas mãos da brasileira Florinda Bolkan desenterrando o esqueleto de uma criança pequena… muito arrepiante!

No entanto, fica difícil distinguir de fato um gênero para o filme. É um exercício de terror, sem dúvida, com alguns elementos dos gialli, acompanhado de um comentário político. Mas não importa, o que vale no fim das contas é a experiência de ver um gênio em atividade em uma de suas ocasiões mais inspiradas. E Fulci chuta o balde e já subverte na premissa: numa pequena cidade do interior italiano, as crianças é que são alvos de um serial killer. Suspeitos é que não faltam no local para fazer a polícia botar a cuca para funcionar e o diretor trabalhe o suspense, já que os filma como se todos realmente fossem o assassino de crianças.

Uma das suspeitas é Maciara (Florinda Bolkan), uma bruxa que mexe com vodu. Em determinado momento ela vai presa, mas após verificarem sua inocência, ela é solta pela polícia, mas os pais de algumas crianças mortas não acreditam na decisão das autoridades e tomam a atitude medieval de espancá-la até a morte. Embora brutal e muito violenta, a sequência consegue também atingir um tom poético pela maneira como Fulci a realiza, ao som de Ornela Vanoni… a cena belíssima, digna de qualquer antologia do cinema mundial.

Florinda nasceu no Ceará e foi para Itália em 68 onde teve um papel importante no filme de Luchino Visconti OS DEUSES MALDITOS. Atuou em mais de quarenta filmes, mas dizem que em suas entrevistas nunca cita nomes de diretores como Fulci e Elio Petri, com os quais já trabalhou, apenas se vangloria por ter trabalhado com Visconti e Vittorio de Sica, que realmente é uma honra, mas é curioso pois Visconti não gostou de trabalhar com ela e disse que um dos piores erros de sua vida foi tê-la escalado num papel importante em seu filme. Enfim, aqui ela está sensacional e a cena na delegacia comprova o seu talento e demonstra porque essa brasileira conseguiu tanto trabalho no cinema italiano.

Outra suspeita na trama é Patrizia, interpretada pela musa Barbara Bouchet. Fulci a apresenta na cena onde o garotinho leva o suco pra ela e a encontra estirada, bem à vontade, da maneira em que ela veio ao mundo. A personagem vive no local a mando de seu pai, pelo seu envolvimento num escândalo com drogas e o cenário de sua casa parece um universo paralelo, com a decoração psicodélica setentista em contraste com o estilo rústico do vilarejo. E como se já não tivéssemos ótimas atrizes o suficiente, Fulci ainda coloca a grega Irene Papas vivendo a mãe do padre local.

Mas o assassino mesmo não chega a ser uma surpresa e lá pelas tantas já dá pra ter uma noção, principalmente levando em consideração à opinião do diretor sobre religião e o catolicismo. Não foi a toa que Fulci foi excomungado por este filme. O legal é que O ESTRANHO SEGREDO não assume um ponto de vista definido em momento algum entre os personagens. Acompanhamos as crianças, o jornalista (Tomas Milian), mas principalmente a polícia (na verdade, vários oficiais). Na maior parte do tempo, a narrativa se resume em investigações, interrogatórios com os suspeitos, etc… Mas o filme se beneficia muito do talento de Fulci mesmo nessas sequências, e o final é mais uma prova de sua genialidade, com o assassino despencando e se arrebentando nas pedras do precipício. Poético e brutal, O ESTRANHO SEGREDO é um grande exemplar do cinema italiano que precisa ser visto pelas novas gerações (como seu fosse muito velho…).

LISA AND THE DEVIL (Lisa e il diavolo, 1974), de Mario Bava

LISA AND THE DEVIL é uma entre tantas obras primas de um dos meus diretores favoritos. Mas antes de entrar nos detalhes do filme e descobrir porque este delirante trabalho de Mario Bava é tão bom, é interessante conhecer um pouco sobre as duas versões que rolam por aí.

Uma delas, o produtor Alfredo Leone, numa tentativa de picaretagem habitual desses italianos, tentou aproveitar o sucesso do recém lançado O EXORCISTA, de William Friedkin, e resolveu inserir por conta própria algumas cenas de um padre (interpretado por Robert Alda) realizando a tarefa de tirar o tinhoso do corpo de alguma personagem (não sei exatamente qual, porque eu não vi esta versão).

Parece que aproximadamente 15 minutos do original dirigido pelo Bava haviam sido cortados para as novas cenas se encaixarem. Acredito que essa profanação à obra do diretor de RABID DOGS não tenha resultado em algo melhor que a versão integralmente dirigida por ele, e é esta a versão vista por mim e que irei comentar adiante. Quem quiser se aventurar pela outra versão, recomendo dar uma conferida antes neste aqui…

O filme segue Lisa (Elke Sommers), uma turista em visita a uma antiga cidade européia, onde dá de cara com um afresco com a representação do coisa-ruim. Logo depois, vagando pelas ruelas da cidade, como se estivesse tendo uma atração sobrenatural, ela entra numa oficina de manequins, encontrando um estranho sujeito cujo rosto é idêntico ao do “cão” representado no afresco.

A partir daí, a moça acaba se perdendo e a narrativa toma forma de sonho – no caso da protagonista, um tom de pesadelo! Depois de conseguir uma carona com um casal, vai parar numa mansão onde transcorre o restante da trama, que se resume numa somatória de temas do imaginário onírico de Mario Bava, como a morbidez e a necrofilia…

Somos melhor apresentados ao estranho personagem visto na oficina no início, o mordomo Leandro, interpretado pelo magnífico Telly Savalas, sempre chupando um pirulito e com uma estranha força em cena, não é a toa que no final alegórico, quando se descobre a verdadeira identidade do sujeito, não chega a ser uma grande surpresa.

E que maravilha é Elke Sommers dando vida à sua personagem, tragando o espectador pra dentro de sua fantasia… além de estar muito bela. Os outros personagens são apenas bonecos que estão ali para baterem as botas, derramarem sangue e divertir o público.

A excelência de Bava na direção se faz presente em cada enquadramento, movimento de câmeras, e até nos zoons que acabou se tornando um bom artifício para o diretor nos anos 70, quando passou a trabalhar com orçamentos mais modestos em comparação aos seus trabalhos dos anos 60. Até existe uma diferença discreta na utilização das cores como elemento de horror. Se em seus filmes da década anterior Bava carregava na matiz de seus filmes dando o efeito alucinógeno desejado, na década de 70 as tonalidades permitiam um visual mais realista, sem deixar de ter um tratamento fotográfico de primeira!

Bava era um excelente fotógrafo, e ele mesmo iluminava seus próprios filmes, ou pelo menos tinha grande participação. Em LISA AND THE DEVIL, o diretor filmou alguns de seus melhores momentos da carreira, como o assassinato da Condessa cega, interpretada pela grande atriz italiana Alida Valli; quase todas as cenas de homicídios são de uma beleza poética e brutal impressionante! Percebe-se claramente de onde Dario Argento foi se inspirar antes de realizar SUSPÍRIA. Também o bizarro ménage à trois entre Lisa, seu “amante” e Elsa (um cadáver em avançado estado de decomposição)…

São tantos outros detalhes que fazem de LISA AND THE DEVIL um verdadeiro clássico do horror italiano, que prefiro parar por aqui para não estragar eventuais surpresas. Acho um filme essencial para os admiradores de Mario Bava, embora eu não recomende aos iniciantes. BLOOD AND BLACK LACE, KILL BABY KILL e WHIP AND THE BODY são bons exemplares para começar e amar o sujeito pra sempre, ou então odiá-lo de uma vez…

A DOPPIA FACCIA (1969)

img101_2015_cap224

Primeiro filme do Riccardo Freda que assisto. Não sei se era o mais adequado pra iniciar a filmografia do cara, mas devo confessar que valeu a pena. A DOPPIA FACCIA é um belíssimo e sofisticado giallo, baseado numa obra do mestre da literatura policial, Edgar Wallace.

O filme é sobre um sujeito recém casado com uma milionária que acaba surpreendido quando ela pede um divórcio prematuro e, logo a seguir, morre num acidente de carro. O ex-marido é logo apontado como o principal suspeito, após a policia descobrir que o carro havia sido sabotado. O marido em questão é interpretado pelo Klaus Kinski, que é sempre uma presença marcante em qualquer coisa que faça. E ele está muito bem no papel do sujeito amargurado por ter perdido a mulher amada ao mesmo tempo em que se vê acusado; e pior, acaba descobrindo que, possivelmente, ela ainda está viva. A provável revelação acontece numa jornada psicodélica durante uma festa onde o protagonista assiste a um filme erótico cuja “atriz” possui algumas características que pertenciam a sua mulher.

É praticamente uma versão giallo de VERTIGO, de Alfred Hitchcock, e isso fica ainda mais evidente no desfecho. Mas esse tipo de alusão não tira o brilho de A DOPPIA FACCIA, que é uma aula de construção atmosférica, embora algumas cenas com efeitos especiais e miniaturas sejam bem toscos, o que não deixa de ser um charme a mais.

PORNO HOLOCAUST (1981)

110hwlj

No início da década de oitenta, o italiano Joe D’Amato teve uma fase, digamos, caribenha, realizando alguns filmes sob o sol do arquipélago, financiado pelo próprio governo como forma de atrair turistas. Mas estamos falando do D’Amato, portanto, não esperem filmes turísticos… Como sempre, a “agenda lotada” do diretor fez com que ele filmasse vários filmes ao mesmo tempo, seguindo a risca o lema “quanto mais, melhor” e com PORNO HOLOCAUST não foi diferente. Realizado junto com EROTIC NIGHT OF LIVING DEADS, D’Amato aproveita-se do mesmo elenco, das mesmas locações e quase o mesmo tema para criar uma obra que mistura sexo explícito com horror.

snapshot109

Mas o roteiro e temas não importam tanto. A trama é risível e provavelmente só existe porque D’Amato ainda não queria se dedicar ao pornô absoluto, como fez nos anos 90. Ele sempre queria contar uma história que pudesse intercalar uma cena de sexo com outra, especialmente se tivesse elementos de horror, sci-fi, etc… Sendo assim, o filme trata de um grupo de cientistas (um deles interpretado pelo grande George Eastman) que acaba numa ilha para estudar os danos causados por uma radiação, e eis que surge um mutante deformado meio zumbi que é a principal causa de uma onda de mortes na tal ilha, e que serve apenas para criar esse elemento de horror entre as cenas de sexo explícito. Mas acaba gerando não mais que gargalhadas.

PH14

É que não dá pra levar a sério um mutante com uma maquiagem como essa aí de cima. Mas até que é divertido acompanhar seus ataques repentinos que permitem boas doses de gore, além de seus ataques tarados contra as mulheres. Mas a diversão não para por aí, ainda temos as tórridas cenas de sexo explícito e que, ironicamente, é onde a direção de D’Amato se sai melhor em PORNO HOLOCAUST, como a que uma das protagonista faz sexo com dois negrões. Ou a cena onde duas mulheres colocam as aranhas pra brigar num tronco à beira da praia, que é extremamente bem filmada aproveitando-se da iluminação natural e da beleza das praias caribenhas. D’Amato é foda.

preview_t.mp4

A MORTE SORRIU PARA O ASSASSINO (1973)

RILLER 1973] La Morte Ha Sorriso all'Assassino (Joe D'Amato, Ewa Aulin, Klaus Kinski, Angela Bo, Sergio Doria)_avi_snapshot_00_01_36_[2010_05_15_06_43_07]

Mais um belo exemplar do puro e simples cinema do grande diretor, embora subestimado pela maioria, Joe D’Amato, em um filme de início de carreira (pra quem realizou mais de 190 filmes, o sexto ou sétimo filme ainda é início de carreira, não?). D’Amato, até então, havia realizado apenas westerns, algumas comédias e um filme de guerra, se não estou enganado. Não cheguei nem perto de ver nenhum deles ainda, infelizmente, mas um dia chego lá. A MORTE SORRIU PARA O ASSASSINO é o primeiro filme de terror que D’Amato dirigiu e trata, basicamente, de uma mulher que chega a uma mansão com amnésia após sofrer um acidente com a carruagem que a conduzia. Logo, vários assassinatos misteriosos se iniciam na mansão e seus arredores.

dvFyBePFnGQzIqI6mzSqk8bH2bQ

O roteiro do próprio D’Amato (juntamente com Claudio Bernabei e Romano Scandariato) não se contenta em apenas explorar uma vertente do horror e acaba fazendo uma mistureba muito louca com vários elementos que tangem o sobrenatural e o real, onde temos uma mulher que volta a vida, embora seu organismo esteja fisicamente morto. E temos ainda o espírito dessa mesma mulher vagando e assustando as pessoas, tudo jogado em cena sem qualquer coesão ou preocupação temporal.

vlcsnap-2013-02-26-09h12m01s20_zps59289f00

Ainda temos Klaus Kinski de corpo presente interpretando um médico que “descobre demais” e acaba tendo vida curta dentro do filme. Mas sua presença é marcante com aquele rosto expressivo. É um dos meus atores favoritos, principalmente porque, além de ser excelente em tudo que faz, não tinha frescura, trabalhava com diretores do nível de um Herzog, mas não deixava de atuar em bagaceiras de Jess Franco.

Com sua experiência na direção de fotografia (e trabalhar como tal aqui também, mas creditado com seu nome de nascença, Aristides Massaccesi) e ter um estilo próprio já desenvolvido, D’Amato conseguiu construir um de seus filmes mais atmosféricos e bem acabado visualmente mesmo que ainda não recorra de todos os elementos que o tornaria famoso, como as temáticas ousadas e o forte apelo sexual (na verdade, o filme é bem ousada pra época, mas D’Amato faria coisas muito mais subversivas em trabalhos seguintes, e não faltam cenas de nudez por aqui).

Death.Smiles.on.a.Murder[(114105)20-33-05]

Mas o que não se pode reclamar é da violência. O filme possui várias sequências onde o gore reina supremo e, em algumas delas, D’Amato se aproveita esteticamente para dar um tom mais artístico à sua obra, como no frame acima. Ok, a grande maioria vai achar A MORTE SORRIU PARA O ASSASSINO uma bela merda, mas eu adoro. Foda-se.

ABSURD, aka ROSSO SANGUE, aka ANTROPOPHAGUS 2 (1981)

vlcsnap-14997548

Depois da “apresentação” que fiz há alguns posts sobre o diretor Joe D’amato, finalmente vamos tratar de um filme dirigido por ele. Dos mais de 190 filmes que o sujeito realizou, ABSURD não faz parte daquela listinha de 20 a 25 filmes de boa categoria que o diretor conseguiu realizar ao longo de sua extensa carreira, ou seja, é lixo dos brabos, feito às pressas, provavelmente ao mesmo tempo com outra produção, roteiro risível e atores que parecem nem saber que tipo de filme estavam fazendo. Isso significa que teremos diversão garantida!

Antes de entrar no filme, um curioso fato desta produção é o número de títulos que recebeu pelo mundo afora. Dependendo do lugar e dos cortes da censura, o título mudava drasticamente. ABSURD é o que eu mais gosto, mas também tem ROSSO SABGUE, HORRIBLE, ZOMBIE 6 (!) e até mesmo ANTROPOPHAGUS 2, com a picaretagem de tentar relacioná-lo com a história do canibal grego do filme ANTROPOPHAGUS, que D’Amato dirigira 2 anos antes.

Enfim, esses italianos são demais! O roteiro de ABSURD é de Luigi Montefiore. Para quem não sabe, é o nome verdadeiro de George Eastman, ator fetiche de D’Amato. e que interpreta por aqui novamente um grego (aí está a relação com ANTROPOPHAGUS, já que Eastman também é um assassino grego neste outro) que aparece logo na primeira sequência fugindo de um padre (Edmund Purdom). Após tentar pular a cerca de uma mansão, acaba com a barriga perfurada pela ponta de uma lança da cerca e caminha para dentro da mansão com as tripas pra fora.

vlcsnap-2015-01-14-11h31m59s170

O sujeito vai parar no hospital e logo descobrimos que ele é praticamente imortal. Suas células se regeneram numa velocidade surpreendente. Sabemos um pouco do seu passado através do padre que veio da Grécia atrás do sujeito que desapareceu no mar ainda na Europa e foi parar lá no Estados Unidos! Calma, não procure entender os “porquês”. Esse tipo de rombo tem aos montes no decorrer do filme. O fato é que o sujeito acorda de uma hora pra outra e por onde passa deixa um rastro de sangue.

George Eastman foi um dos atores mais subestimados do cinema italiano. Em qualquer produção que estivesse sua presença era marcante (e não é só por causa da altura!), até mesmo numa tralha como esta aqui sua atuação surpreende. Em termos de técnica, seu trabalho está acima do próprio filme em que participa. Suas expressões completamente insanas funcionam principalmente quando a violência rola solta e nisso não temos do que reclamar em Absurd.

vlcsnap-14996835

Até que a atmosfera de suspense não é tão ruim com a fotografia do próprio D’Amato creditado com seu nome verdadeiro: Aristide Massaccesi. Mas a trilha sonora não ajuda em nada! Enche o saco e chega uma hora que fica irritante, apesar do filme possuir várias sequências antológicas que proporcionam um impacto visual de violência extrema que agradam os fãs tranquilamente, como a cena em que Eastman ataca uma enfermeira perfurando sua cabeça com uma furadeira cirúrgica, ou quando um pobre açougueiro perde o escalpo com uma serra de cortar carne e claro, a seqüência onde o louco varrido coloca uma mulher dentro do fogão para assá-la viva!

vlcsnap-14997075

ChGAWkl

O roteiro sem sentido e pobre resume-se apenas na proposta de D’Amato e Eastman em juntar algumas idéias sádicas e de violência com o objetivo de divertir seus fãs. Tenho a certeza que nas mãos de um diretor mais cuidadoso e um roteirista profissional, ABSURD renderia um filme com um acabamento muito superior e uma narrativa com um sentido coeso dentro do possível, com outros personagens e uma trama mais desenvolvida, mas perderia toda a vulgaridade da direção de D’Amato, que possui um charme singular. A cena final com a menina ensanguentada segurando a cabeça é pra entrar para a história como uma das mais antológicas do cinema de horror europeu.