A ARTE DE ENZO SCIOTTI

Muito antes dos cartazes “photoshopados” habituais dos dias de hoje, haviam artistas que realizavam verdadeiras obras de arte de maneira artesanal para criar os cartazes dos filmes. Para quem se interessa por cinema de gênero italiano, é muito provável que já tenha se deparado com vários trabalhos de um deles: Enzo Sciotti. Trata-se de um desenhista e pintor italiano bastante prolífico que dedicou uma parte de sua carreira nos anos 80 a fazer cartazes cinematográficos, de diretores do calibre de Lucio Fulci, Dario Argento e Joe D’Amato (que o contratou para a sua produtora, a Filmirage), além de versões italianas de peças gráficas de produções de outros países, como VELUDO AZUL e ARMY OF DARKNESS. O trabalho do sujeito é simplesmente fantástico e, de vez em quando, até melhor que o próprio filme.

Aqui vai uma pequena degustação (clique nas imagens para aumentar):

INVENTÁRIO EUROCULT – O RETORNO

Há alguns anos, aqui mesmo no blog, resolvi convidar leitores e amigos para participarem da elaboração de um inventário de filmes “cult” europeus. Pedi que me enviassem listas pessoais de filmes favoritos e fui compilando essas relações de dez ou quinze filmes cada, repletas de exemplares essenciais e obscuros desse universo tão extenso e fascinante. Um guia perfeito para qualquer iniciante que desejasse enveredar por essas estranhas paragens do cinema. No total foram quinze listas de convidados especiais e, passados, sei lá, uns três anos, me dei conta agora, graças ao Edu Aguilar (também participou do projeto), que até hoje eu nunca havia publicado a MINHA lista! Como acho que nunca é tarde, estamos aí…

O que eu quero dizer com cinema Eurocult? Nem eu sei responder direito… Mas na época queria contemplar mais filme europeus de gêneros populares “de qualquer qualidade. Do horror ao peplum, do giallo ao Spaghetti Western, das tranqueiras do Bruno Mattei e Andrea Bianchi à elegância de um Mario Bava e Dario Argento”, como disse no primeiro post da série.

A relação que fiz contém 25 filmes e está em ordem cronológica. Decidi por colocar apenas um título por diretor, porque só o Fulci, Argento e Bava já formavam a lista inteira. Resolvi não incluir diretores mais famosinhos (como Fellini, Bergman, Buñuel ou Leone, por exemplo, embora tenham feito cinema de gênero e TRÊS HOMENS EM CONFLITO seja o melhor filme da galáxia). Não se trata realmente de uma lista fechada e absoluta, tem prazo de validade, dependendo do meu humor e das novas descobertas que fazemos todos os dias. Mas hoje ela seria assim:

nov_ercole

O grande Hércules encara uma taruíra gigante no filme de Cottafavi

nancy-and-jan

MALPERTUIS, um filme de belas composições

beyond

THE BEYOND e um dos desfechos mais aterradores do cinema

OS OLHOS SEM ROSTO (Les Yeux sans visage, Fra, Ita, 1960), de Georges Franju
ERCOLE ALLA CONQUISTA DI ATLANTIDE (Ita, Fra, 1961), de Vittorio Cottafavi
THE WHIP AND THE BODY (La frusta e il corpo, Fra, Ita, 1963), de Mario Bava
UMA BALA PARA O GENERAL (Quién sabe?, Itália 1966), de Damiano Damiani
UN ANGELO PER SARTANA (Itália, 1966), de Camillo Mastrocinque
O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE (L’armata Brancaleone, França, Espanha, Itália, 1966), de Mario Monicelli
FACCIA A FACCIA (Itália, Espanha, 1967), de Sergio Sollima
IL GRANDE SILENZIO (França, Itália, 1968), de Sergio Corbucci
SUCCUBUS (Alemanha, 1968), de Jess Franco
MALPERTUIS (Bélgica, França, Alemanha, 1971), de Harry Kumel
MILANO CALIBRO 9 (Itália, 1972), de Fernando Di Leo
TUTTI I COLORI DEL BUIO (Itália, Espanha, 1972), de Sergio Martino
EXPRESSO DO HORROR (Horror Express, Espanha/Inglaterra, 1972)
THRILLER – A CRUEL PICTURE (Suécia, 1973), de Bo Arne Vibenius
LES DÉMONIAQUES (Bélgica, França, 1973), de Jean Rollin
LA CASA DALLE FINESTRE CHE RIDONO (Itália, 1976), de Pupi Avati
EMANUELLE IN AMERICA (Itália, 1977), de Joe D’Amato
INFERNO (Itália, 1980), de Dario Argento
CANNIBAL HOLOCAUST (Itália, 1980), de Ruggero Deodato
NIGHTMARE CITY (Incubo sulla città contaminata, Esp, Ita, 1980), de Umberto Lenzi
THE BEYOND (…E tu vivrai nel terrore! L’aldilà, Itália, 1981), de Lucio Fulci
POSSESSION (Alemanha, França, 1981), de Andrzej Zulawski
ESCAPE FROM THE BRONX (Fuga dal Bronx, Itália, 1983), de Enzo G. Castellari
DEMONS (Itália, 1986), de Lamberto bava
DELLAMORTE DELLAMORE (França, Alemanha, Itália, 1994), de Michele Soavi

Queria ter colocado STARCRASH, do Luigi Cozzi, mas tem dinheiro americano envolvido, então decidi não considerá-lo… E também quis dar preferência a produções de países que não falam inglês, por isso a ausência de filmes da Inglaterra. Mas fica a observação.

Se alguém estiver interessado, segue as outras listas:
#1 #2 #3 #4 #5 #6 #7 #8 #9 #10 #11 #12 #13 #14 #15

E se alguém quiser ainda quiser contribuir com o inventário, é só me enviar sua lista de Eurocult favoritos.

THE PHANTOM OF SOHO (1964)

2313634qck_6ibokb3vnlvlcpxry8rfg7jffdcrnz5vvif2txwsp2irij8rqabsmwx0blw91lzdx5nreq8dksqp4_vtq

Ontem me deparei com este petardo. THE PHANTOM OF SOHO faz parte do ciclo de filmes policial e mistério adaptados das obras do prolífico escritor britânico Edgar Wallace. E quem gostava bastante de realizar essas adaptações eram os alemães, no chamado Krimi, um subgênero muito popular, principalmente na década 60, no país do chucrute. Uma curiosidade que demonstra como esses alemães eram tão picaretas quanto os italianos ou os turcos na divulgação de seus filmes, é que na real THE PHANTOM não foi baseado em Wallace, mas sim no filho dele, o também escritor Bryan Edgar Wallace, o que permitia o uso do famoso nome “Edgar Wallace” sem se envolver em qualquer problema de direitos autorais…

Eu, particularmente, não sou nenhum especialista no estilo Krimi e esta foi a minha primeira aventura no subgênero. Só pra ter uma noção da minha ignorância, segundo consta nos altos o grandes Krimi alemães baseados em Edgar Wallace foram feitos pelos estúdios Rialto. Como não fazia ideia disso, acabei vendo uma produção do estúdio concorrente, a CCC… Sem contar o fato de não ser nem baseado no verdadeiro Wallace!!! Ou seja, tudo caminhava para um começo com o pé esquerdo.

das-phantom-von-soho-1964-afterhours-sleaze-and-dignity-3

Mas seja lá por quais motivos, quis o destino que eu tivesse sorte e THE PHANTOM OF SOHO foi uma agradavel e divertida surpresa. O filme se passa numa esfumaçada Londres de estúdio e, como quase todas as histórias de mistérios, cheia de tramas enroladas e um amontoado de personagens, pode ser resumida em uma idéia muito simples: alguém está matando pessoas dentro e nos arredores de um cabaré no distrito de Soho em Londres, e a Scotland Yard precisa pegar o assassino.

Descobre-se, em determinado momento, que todos os assassinatos estão relacionados com o estranho naufrágio de um iate alguns anos antes. O caso atrai até mesmo a atenção de uma famosa escritora de livros policiais, Clarinda (Barbara Rütting), que passa a meter o bedelho ansiosa para mostrar que pode resolver o crime antes da polícia. Mas o protagonista é o competente inspetor Patton (Dieter Borsche), que junto com sargento Hallan, o alívio cômico do filme, tenta desvendar os crimes, visitando locais arriscados e interrogando todas figuras bizarras que entram em seus caminhos, antes que o assassino, chamado de Phantom, faça mais uma vítima.

edgar_wallace_das_phantom_von_

O enredo de THE PHANTOM pode não ser dos mais originais, mas até que é envolvente pelos ambientes atmosféricos e personagens que aparecem na trama. Me lembra um bocado os gialli italianos em alguns momentos, especialmente nas sequências de assassinato, onde vemos através do ponto de vista do assassino e só aparecem suas mãos com luvas empunhando uma faca. Na verdade, o que realmente chama a atenção é esse tipo de sacada visual que existe aqui aos montes e todo o trabalho estético do filme.

Franz Josef Gottlieb é o nome do diretor. Nos anos 70 descambou para produções, digamos, mais calientes… Nada contra, mas aqui demonstra total habilidade na direção, com bom trabalho de câmera, enquadramentos bem compostos, angulos tortos, bom uso do preto e branco. Aliás, a própria fotografia, resquício da estética do expressionismo alemão, é um deleite… Quero ver outras coisas do Gottlieb. Obviamente quero conferir certos filmes que fez na década seguinte… Mas curti bastante essa minha iniciação ao universo do Krimi alemão com THE PHANTOM OF SOHO, um desses subgêneros que deve valer a pena uma peregrinação de vez em quando. E que na próxima sejam ao menos baseados no verdadeiro Edgar Wallace.

1bib5uby