THE BLACK PANTHER (1977)

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Donald Neilson ficou conhecido como o Black Panther. Ele era um cidadão britânico que em meados dos anos 60 resolveu invadir, armado e com uma máscara negra, casas e postos dos correios para praticar roubos, o que ao longo do tempo acabou causando algumas mortes e um notório sequestro de uma garota na metade dos anos 70. Essa história é real e THE BLACK PANTHER, de Ian Merrick, narra com precisão esses eventos.

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A trama faz um retrato perfeito de Neilson, um sujeito obcecado pelo militarismo, colecionador de um verdadeiro arsenal, um ex-soldado que havia lutado em uma guerra na África em que a Inglaterra acabou se envolvendo. A Grã-Bretanha do período foi marcada por desempregos, greves e perspectivas sombrias para os cidadãos, e aqui estava um homem que tentou resolver as coisas por conta própria para poder colocar comida em casa. O filme se estrutura como um estudo de personagem, ainda que raso, sem se aprofundar muito na psicopatia do protagonista, e nos vários assaltos que Neilson cometeu.

Meticuloso, o sujeito realmente acreditava ser um mestre do crime, mas como THE BLACK PANTHER mostra, a realidade era muito diferente. Neilson era um atrapalhado e todos os seus atos terminavam em tragédia mais por conta da sua ineptidão do que por maldade. É até um milagre que seus assaltos tenham durado anos sem que fosse capturado. Se não houvessem tantas mortes em suas mãos, ele seria quase uma figura cômica. Foi uma combinação de erros por parte de Neilson, da interferência da imprensa e de uma força policial muito mal preparada para lidar com a situação que culminou com o assassinato de Lesley Whittle, uma garota herdeira de uma fortuna, que Neilson sequestrou e trancou num poço de drenagem de um local chamado Bathpool Park. Neilson só foi capturado dois meses depois por pura coincidência, em vez de um esforço concentrado por parte da polícia.

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O curioso é que no ano da produção de THE BLACK PANTHER, estes trágicos eventos ainda estavam muito frescos na memória pública. O roteiro foi baseado em relatórios policiais, declarações escritas e transcrições de julgamento, o que confere ao filme um grau de realismo interessante. Se levar em consideração a direção seca e crua de Merrick e o fato da produção utilizar muitos dos locais reais dos eventos, incluindo o Dudley Zoo, onde o criminoso utilizava a cabine telefônica para tentar obter o dinheiro do resgate, e Bathpool Park em Kidsgrove, local onde manteve Whittle em cativeiro, reforça ainda mais uma uma sensação quase documental da obra.

Neilson foi interpretado por Donald Sumpter, hoje conhecido principalmente por seu trabalho na TV, como por exemplo o velho Maester Luwin de Game of Thrones. É uma performance incrível, no que deve ter sido um papel difícil de encarnar, dada a notoriedade de seu personagem na época. E não são poucas as sequências em que a ação acontece sem qualquer diálogo, com Sumpter comunicando as emoções de Neilson puramente no visual.

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Infelizmente, o público escolheu ignorar o filme na época. Seu lançamento foi controverso e muitos cinemas em todo o Reino Unido se recusaram a exibi-lo. Dada a acusação implícita do filme de que a imprensa era em parte culpada pela morte de Whittle, não surpreende que a mídia também tivessem uma antipatia especial pela obra e a crítica caiu matando. Hoje, THE BLACK PANTHER possui excelentes cópias lançadas em DVD e Blu-Ray pelo mundo afora. Uma bela maneira de redescobrir esta pequena gema do cinema britânico.

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DERSU UZALA (1975)

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Sobre a sessão de ontem de DERSU UZALA, de Akira Kurosawa, na Cinemateca, na 4º Mostra Mosfilm de Cinema Soviético e Russo, foi uma experiência daquelas assistir a esta belíssima obra na tela grande, à céu aberto, com direito à barraquinhas com bebidas e comidas típicas da Rússia. A mostra vai até hoje e é uma trabalho incrível da CPC UMES Filmes, que os mais habituados aqui do blog já conhecem.

Mas peralá, um filme de Akira Kurosawa, um dos mais reverenciados diretores japoneses, numa mostra de cinema russo? Vamos com calma. Para quem não conhece, DERSU UZALA é uma produção russa, dirigida pelo mestre japonês, o único longa do diretor realizado fora de seu país e talvez o mais importante de sua carreira, representando um renascimento criativo após um tempo sombrio na vida do cineasta. Kurosawa vivia maus momentos no final da década de 60, com o fracasso comercial de DODESKADEN e a falta de financiamento dos produtores para futuros projetos. Isso abalou até a vida pessoal do diretor, que caiu numa profunda depressão que culminou numa tentativa de suicídio no início dos anos 70. Foi com o convite da grande produtora russa, Mosfilm, que DERSU UZALA foi possível.

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Na verdade, o projeto de DERSU UZALA vinha de longa data. Kurosawa tinha planos já na década de 50 para sua produção, mas teve dificuldade em adaptar a história a um cenário japonês, sem imaginar que um dia ele poderia realmente filmá-la na Rússia, com atores russos. O filme é baseado em um livro autobiográfico de Vladimir Arsenev, que narra as suas aventuras explorando territórios selvagens de seu país para realizar um trabalho topográfico na região. Nas mãos de Kurosawa, a aventura ganha o status de poesia existencialista, com um estudo de caráter abordando o impacto que um primitivo de bela alma tem em um sujeito do mundo civilizado. Continuar lendo

JEAN-PIERRE MELVILLE NO IMS

MELVILLE, JEAN-PIERRE

Tá rolando uma mostra do Jean-Pierre Melville, o mestre do cinema “polar” (como é conhecido o policial francês), no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, e resolvi dar uma averiguada. Já tinha ido na sala de cinema do IMS pra ver SUSPIRIA, do Dario Argento, numa cópia fenomenal. A sala é boa, confortável, o som é alto, mas achei a tela pequena e posicionada um pouco acima do necessário. Mas nada que estrague a experiência, vale muito a pena visitar e acompanhar a programação do local.

Mas voltando ao Melville, ontem vi O EXÉRCITO DAS SOMBRAS (L’Armée des Ombres, 1969). Já tinha assistido há uns mil anos, mesmo assim me deixou atordoado. Não lembrava o quão sinistro e poderoso é essa merda, uma das obras mais perturbadoras e melancólicas de Melville… Acho que ainda prefiro O CÍRCULO VERMELHO, que assisti hoje, mais pela minha identificação particular com o cinema policial, porém os dois ficam no mesmo patamar em excelência.

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A trama se passa durante a Segunda Guerra Mundial e acompanha a rotina de vários membros da resistência numa França ocupada. O protagonista é Phillipe Gerbier, interpretado por Lino Ventura, um engenheiro civil que se revela um dos principais líderes da resistência e que vai gradualmente descobrindo que ele e seus companheiros devem trair a sua humanidade em prol de seus ideais. No final, niilista até o talo, os seus esforços são essencialmente inúteis e desesperançosos. O modo com que o diretor opera o psicológico dos personagens, trabalhando o medo da traição, o conflito moral, a relação com a morte e o fato de se tornarem verdadeiras sombras, gera uma boa dose de reflexão e vários momentos incríveis. Reparem na cena na qual Gerbier e outros dois membros da resistência discutem como vão apagar um traidor – sendo que o próprio se encontra no mesmo local, ouvindo tudo angustiado – é coisa de gênio.

Alguns filmes de Melville são marcados por uma pegada bressoniana em retratar emoções, especialmente em O SAMURAI, seu trabalho mais famoso. Mas os pontos de contatos com o cinema de Robert Bresson não ficam tão evidente em O EXÉRCITO DAS SOMBRAS, provavelmente porque seria impossível para o diretor tratar do tema sem que colocasse uma carga emotiva pessoal, já que o próprio Melville fora membro da resistência francesa. Além de Ventura, todo o elenco é de primeira, com destaque para Jean-Pierre Cassel e a grande participação de Simone Signoret, numa personagem fascinante. Não sei direito como tá a programação, mas se passar de novo esta semana, não deixem de conferir.

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E hoje à tarde fui rever O CIRCULO VERMELHO (Le Cercle Rouge, 1970), um verdadeiro épico do cinema policial francês, com Alain Delon, Gian Maria Volonte e Yves Montad. Na trama, Vogel (Volonte) é um prisioneiro que escapa debaixo do nariz do comissário de policia que o levava de trem sob custódia para uma penitenciaria. No mesmo dia, Corey – Alain Delon, que já havia trabalhado com o Melville em O SAMURAI, agora com um bigodinho pra dar um ar de bandido cafajeste – sai da prisão após cumprir pena por roubo. Os dois cruzam o caminho do outro. Com a ajuda de um ex-policial – Montand, outro monstro – planejam roubar uma joalheria, mas para atrapalhar os planos do furto, eles têm atrás de si o mesmo comissário, obcecado, que vacilou na fuga de Vogel, além de uma turma de criminosos que Corey resolveu sacanear. Vão me dizer que não é um p@#$% enredo pra um filme policial?

LE CERCLE ROUGE possui algumas sequências brilhantes, como a delirante introdução do personagem de Montand, por exemplo, ou o próprio roubo da joalheria, que Melville havia pensado vinte anos antes, mas desistiu de realizar porque John Huston lançou primeiro o seu clássico THE ASPHALT JUNGLE, que aparentemente havia uma sequência de roubo parecido com a sua (RIFIFI também tinha e nem por isso Jules Dassin deixou de fazer). De qualquer maneira, passado o tempo, cá estamos, Delon, Volonte e Montand roubando jóias numa sequência de quase 25 minutos sem diálogos, sem trilha sonora, mas com Melville num rigoroso trabalho de câmera e edição, concebendo mais uma de suas obras-primas…

Vou ver se durante a semana consigo pegar mais algumas sessões. Ouvi uma velhinha dizendo que  na quarta passa O SAMURAI. E como fazem uns dez anos que assisti, seria uma boa…

DVD REVIEW: O CONTO DO CZAR SALTAN (1966); CPC UMES Filmes

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Fiquei bem feliz quando vi que o lançamento do mês de outubro da distribuidora parceira do blog, CPC UMES Filmes, seria um trabalho de Alexander Ptushko. Para quem não conhece, Ptushko foi o grande mago dos efeitos especiais do cinema russo, considerado o Ray Harryhausen dos lados de lá. Trabalhou, por exemplo, no clássico VIY (1967). Mas acabou vingando também como diretor. E dos bons! Quase sempre trabalhando com cinema fantástico, construiu uma obra rara de contos de fantasia e de cores. O cara sabia pintar com a câmera como poucos, como podem ver nos screenshots que ilustram o post. Entre seus filmes mais famosos estão SADKO (1953, a versão russa do personagem Sinbad), ILYA MUROMETS (1957) e RUSLAN E LUDMILA (1972). Vale destacar também um mais raro, mas igualmente brilhante, FLOR DE PEDRA (1946). O CONTO DO CZAR SALTAN entra fácil no meio desse bolo e agora pode ser conferido em DVD no Brasil através da CPC UMES Filmes.

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A trama é de uma simplicidade tocante, mas repleto de elementos de contos de fada. Foi baseado num poema de Aleksandr Pushkin, inspirado num conto popular russo, e até os diálogos são retirados exatamente como no poema, incluindo as rimas. Uma czarina escolhida a dedo pelo seu czar, o Saltan do título, é traída por suas irmãs invejosas e, juntamente com seu filho, o príncipe Gvidon, é lançada ao mar dentro de um grande barril selado. Acabam aportando numa ilha mágica, onde uma princesa em forma de cisne realiza todos os seus desejos, após Gvidon salvá-la de um feiticeiro na forma de uma águia. Uma cidade mística, um esquilo que produz ouro em abundância, um exército de gigantes que vem do fundo do mar, uma bela princesa com uma joia preciosa brilhando em sua testa… Mas nada disso parece satisfazer o jovem príncipe, que parte numa jornada fantástica em busca de seu pai e ao desmascaramento das farsantes.

Tudo é tratado com muita leveza, até mesmo com uma pegada infantil. Os conflitos são resolvidos seguindo as cartilhas dos contos de fada e a narrativa nunca é truncada. Pelo contrário, o filme é uma delícia. Sobra muito, é claro, o talento de Ptushko em transformar tudo isso numa bela obra de arte, num espetáculo visual de efeitos especiais muito à frente do seu tempo, em composições barrocas extraordinárias e pelo seu gosto impecável por cores fortes que saltam aos olhos a cada segundo.

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Tudo é tão ambicioso, os trajes são arrojados e brilhantes, os cenários são estonteantes, o cuidado com as criaturas que povoam o filme, como animais falantes e os trolls que atacam a cidade do Czar. Tudo é resolvido com muita inteligência, como na cena dos gigantes, em que Ptushko trabalha a perspectiva forçada. Na cena na qual os gigantes atacam um navio, o diretor usa planos com uma embarcação em tamanho real e gigantes em sobreposição de imagens, intercalando com outros planos com gigantes de tamanho normal e um navio em miniatura com bonecos no interior. O resultado é sensacional.

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Mesmo que hoje seja muito fácil identificar essa trucagem toda, a magia de O CONTO DO CZAR SALTAN permanece intacta e admirável. Até mesmo as crianças de hoje, desmamadas com efeitos em CGI ultra modernos, podem se encantar com o visual e a história. Portanto, recomendo muito para crianças, jovens e adultos que ainda possuem sensibilidade para se maravilhar com uma pequena obra de fantasia, mas grandiosa artisticamente.

O CONTO DO CZAR SALTAN foi lançado este mês de outubro pela CPC UMES Filmes e já está disponível na sua loja virtual. Uma distribuidora que vem fazendo um dos melhores trabalhos de curadoria home video, com filmes que realmente valem a pena ter na estante. E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

DVD REVIEW: O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO (1956); CPC UMES FILMES

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Grigoriy Chukhray ganharia certa fama internacional em 1959 pelo clássico A BALADA DE UM SOLDADO, seu segundo trabalho. Mas já na sua estreia, com O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO, demonstra um talento ímpar pelos lados do cinema soviético, não apenas como esteta – suas composições visuais são simplesmente extraordinárias – mas também como alguém que entende de emoções humanas. O filme é sobre um romance envolvente e ideologicamente complicado entre duas figuras divididas pela guerra civil russa: uma atiradora de elite do exército vermelho, Maria (Izolda Izvitskaya), e um oficial do exército branco, o tenente aristocrata Vadim (Oleg Strizhenov), que fora capturado pelos primeiros.

Baseado nos escritos de Boris Lavrenyev, o “quadragésimo primeiro” do título refere-se ao número das vítimas deflagradas pelo rifle de Maria. Na verdade, ela matou quarenta e errou o tiro seguinte… Na trama, ela faz parte de unidade derrotada do Exército Vermelho, que vaga em retirada do deserto de Karakum onde, em determinado momento, captura Vadim, que por um acaso sobrevive à tal quadragésima primeira bala de Maria.

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Vadim é um prisioneiro importante. Carrega uma mensagem oral secreta destinada a um general do Exército Branco, então os Vermelhos o mantêm vivo, colocando-o sob a guarda de Maria. Quando finalmente chegam ao Mar de Aral, Maria e outros dois soldados são confiados para levar Vadim num pequeno barco até a sede em Kazaly. Mas o tempo tormentoso vira o barco e apenas Maria e Vadim sobrevivem, náufragos em uma ilha deserta. E o que seria uma situação de extremo desespero, acaba possibilitando o desabrochar do afeto mútuo e proibido que os consumia ao longo da jornada.

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Uma situação que os aproxima, não como inimigos, mas como duas almas apaixonadas, num parágrafo cintilante de uma vida de guerra e violência. Eles compartilham o tempo mais felizes de suas vidas na ilha, apesar da disparidade ideológica que vem à tona em alguns momentos, algo que os coloca em conflito e que devem ajustar e reconciliar por causa do amor.

Considerando o período em que O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO foi realizado, é interessante perceber como Chukhray vai um bocado contra a lógica da propaganda soviética vigente, humanizando a imagem de um oficial do Exército Branco, inspirando o público à simpatizar seu afeto genuíno por uma guerreira do exército vermelho. O desfecho até pode ser entendido como uma façanha heroica da lealdade aos Bolcheviques, quando um barco se aproxima para resgatá-los e Maria toma uma atitude espontânea que elimina qualquer possibilidade de final feliz quando a verdadeira identidade do barco é revelada. Mas não dá para descartar a ideia do fator prejudicial que é seguir um código radical com fanatismo. Na verdade, ao invés de escolher lados, o objeto de repúdio de Chukhray é a própria guerra, um ato diabólico disfarçado de patriotismo com resultados desastrosos.

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O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO foi lançado em DVD no Brasil, numa versão remasterizada belíssima, pela distribuidora CPC UMES filmes e está disponível para compra em sua loja virtual e nas melhores casas do ramo. A mesma distribuidora já lançou por aqui A VIDA É MARAVILHOSA, também do mesmo diretor, e já comentado aqui no blog. E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos. Um acervo obrigatório que vale a pena comprar.

DVD REVIEW: UM ACIDENTE DE CAÇA (1978); CPC UMES FILMES

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As descobertas dos filmes soviéticos lançados pela CPC UMES Filmes tem sido uma das melhores coisas do ano. O lançamento deste mês, por exemplo, UM ACIDENTE DE CAÇA, uma pequena obra-prima baseada num romance clássico de Chekhov, é uma belíssima surpresa e mais um exemplo que merecia maior reconhecimento por esses lados.

Dirigido por Emil Loteanu, o filme retrata uma aristocracia russa em seu glamour decadente numa trama que gira em torno de três nobres que se apaixonam pela jovem Olenka. Nascida em uma família pobre, ela tem a ideia de que precisa se casar casar com um homem rico para sair da vida de pobreza. Temos um velho viúvo, um conde beberrão e um jovem e belo investigador, que formam os três homens que lutam por seu coração. A partir disso, o filme se desdobra em cima desses personagens revelando suas turbulentas bases morais, suas paixões, suas fraquezas, que constituem a própria matéria deste denso relato.

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No entanto, diferente do que possa parecer, UM ACIDENTE DE CAÇA não é nem de longe um dramalhão histórico, pesado e chato. É claro que esse olhar sobre a burguesia russa de fim de século levanta certas reflexões, até porque a história de amor que gira em torno desses personagens é, na verdade, destrutiva e serve como pretexto para examinar as classes dominantes da aristocracia. Mas o romance clássico em que o filme se baseia, é um Chekhov puro, com humor, ironia, sarcasmo, lirismo e sutilezas, e o filme mantém essa mesma pegada.

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Ou seja, o filme tem uma leveza que ajuda muito o olhar, em especial porque formalmente UM ACIDENTE DE CAÇA é uma pequena maravilha. Quase todos os quadros são lindamente filmados, com composições visuais muito bem cuidadas e uso dramático de cores. Uma câmera excepcional e atraente em seu virtuosismo moderado, Loteanu se permite deslumbrar com o décor, com os objetos de cena, especialmente estátuas, como um mundano maravilhado pela aristocracia. Mas também os figurinos e paisagens, há muito para se olhar e admirar, um filme que encanta pelo que mostra.

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A música de Evgeniy Doga também merece destaque, por ser explorada quase como um personagem, convivendo com as imagens e acentuando o clima dialético entre a festividade de fachada e o esgotamento moral. O filme tem alguns momentos que remetem a musicais, como no primeiro ato, na sequência da festa de despedida de bebedeiras do Conde, que está com o fígado gastado e os médicos lhe deram pouco tempo de vida. A mise en scène dessas cenas é simplesmente deslumbrante. A parceria entre Doga e Loteanu já vinha de quase uma década e acabou se tornando bem popular no período.

O tema principal possui até uma certa importância histórica. A valsa de casamento composta para o filme foi chamada por Ronald Reagan, então presidente americano na época, de “valsa do século” quando visitou Moscou nos anos 80. A música foi usada também na abertura dos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980 e nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014, e foi ainda escolhida pela UNESCO como a quarta obra-prima musical do século XX. Como sou legal, deixo vocês ouvirem por aqui:

Atores russos famosos e talentosos do período interpretam os personagens principais. Entre eles, Oleg Yankovsky, o protagonista e narrador da trama (e que trabalhou em alguns filmes do Tarkovski, como O ESPELHO e a obra-prima NOSTALGIA). Kirill Lavrov (OS IRMÃOS KARAMAZOV, de Ivan Pyryev) é quem faz o conde doente e corrompido. E o veterano Leonid Markov encarna o viúvo de meia-idade.

Mas talvez a grande força de UM ACIDENTE DE CAÇA seja Galina Belyaeva, que na época estava com 17 anos, a mesma idade que sua personagem no livro de Chekhov, e que possui uma beleza poética arrebatadora. Sua primeira aparição no filme diante dos três homens, os principais pretendentes, faz você entender por que os sujeitos literalmente perderam suas mentes e pagariam qualquer preço para tê-la.

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UM ACIDENTE DE CAÇA é o lançamento do mês de setembro da CPC UMES filmes, cujo DVD traz o filme numa qualidade impecável de imagem e som, além de apresentar várias informações sobre o diretor Emil Loteanu, do compositor Evgeniy Doga e outros detalhes. Mas só pelo filme e pela possibilidade de ver e rever uma obra tão sublime e obscura aqui no Brasil, já vale a pena ter na estante. Basta acessar a loja virtual da distribuidora e adquirir este e tantos outros clássicos obrigatórios. E não deixe de curtir a página da CPC UMES filmes no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

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DVD REVIEW: A VIDA É MARAVILHOSA (1979); CPC UMES FILMES

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O que mais me surpreende foi terminar de assistir a um belíssimo exemplar como A VIDA É MARAVILHOSA e perceber o quanto ele é obscuro em relação a outros thrillers políticos italianos do período. Não sei se chegou a ser lançado no Brasil nos cinemas ou em VHS na época, mas pelo menos hoje não existe desculpa, temos a oportunidade de conferir essa preciosidade desconhecida em DVD, pela distribuidora CPC UMES filmes.

A expressão “A vida é Maravilhosa” utilizada no título, na verdade trata-se de um código utilizado por revolucionários que lutam contra uma ditadura. A produção, que é uma parceria Russa e Italiana, é sobre o piloto Antonio Murillo (Giancarlo Gianinni) que, após ser expulso do exército depois se recusar a atirar contra uma embarcação que transportava mulheres e crianças em algum local na África, só quer uma vida sossegada dirigindo seu taxi e fumando um cigarro atrás do outro. Mas acaba entrando numa enrascada política com as autoridades locais depois que se apaixona por Mary (Ornella Muti), a garçonete de um café, que serve de fachada para revolucionários que tentam desmantelar o autoritarismo que assola o país.

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Dirigido por Grigory Chukhray (A BALADA DE UM SOLDADO), A VIDA É MARAVILHOSA se estrutura basicamente em duas partes. A primeira é como híbrido de thriller político italiano e romance barroco russo, com o personagem de Gianinni tendo que espreitar pela noite para não levar chumbo da polícia ou participando de reuniões secretas, com direito até de um MacGuffin Hitchcockiano representado numa bolsa misteriosa que passa de mão em mão até chegar em Murillo, no qual tanto as autoridades quanto os revolucionários querem tomar posse. Tudo isso em conjunto com sequências mais tenras, em que Gianinni divide a tela com Muti, e o olhar mais humano e poético de Chukhray se reforça, como na sequência na praia ou quando Murillo mostra a Mary seu sonho de consumo, um avião de pequeno porte, o que representa um alento em meio a tempos complicados.

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A segunda parte da trama é um “prison movie“, não tão barra pesada, mas com o suficiente para que o personagem de Gianinni coma o pão que o diabo amassou por conta da enrascada que entrou. E aí temos um gostinho do que é estar preso sob uma ditadura: a trama passeia entre torturas físicas e psicológicas, mas também a angústia da distância da pessoa amada, além da elaboração de um plano de fuga que culmina numa rebelião na prisão e uma perseguição de carro num climax bem agitado. Mas o filme nunca descamba nem para a ação poliziesca, nem para o dramalhão carregado, mas consegue passar o efeito catártico das situações mesmo com um incomum tom de humor que paira sobre toda a narrativa.

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Apesar de italianos e dublados em russo, grande parte da força de A VIDA É MARAVILHOSA se concentra em Ornella Muti e Giancarlo Gianinni. Este último num desempenho inspirado, é o sarcasmo em pessoa, o que ajuda a manter uma certa dignidade ao personagem de Murillo mesmo quando acuado por autoridades e nas situações mais adversas. Já Muti, uma das mulheres mais lindas da história do cinema, demonstra grande talento representando uma figura forte e determinada, embora ambígua em alguns momentos.

A direção Chukhray é simples e possui um tratamento realista, reforçado com uma pontuada câmera na mão que dá um maior dinamismo, mas também de rara beleza com composições visuais requintadas, que coloca o filme no mesmo penteão dos thrillers políticos europeus ao lado de obras de diretores como Costa-Gavras, Marco Bellochio, Gillo Pontecorvo, Damiano Damiani e Elio Petri.

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Embora nunca se fale o nome do país onde a história se passa, há vários momentos que aparecem placas e pichações nos muros no idioma português. Portanto, enquanto assistia, achei bem provável que A VIDA É MARAVILHOSA fosse filmada na Portugal do ditador Salazar, nos anos 70. Informações e resenhas sobre este filme são escassas, o que me deixa ainda mais estupefato como ele é obscuro. Mas num fórum que encontrei num canto da internet, veio a confirmação com uns gajos lusitanos a discutirem:

No último excerto, a montagem/edição não fez coincidir as zonas de Lisboa captadas pelas diferentes câmaras… Na que “olha para a frente” o taxi anda pela zona riberinha perto alcântara (há uma parte inclusive na Ponte 25 de Abril, ainda com duas faixas), e na que está de lado e apanha o protagonista, vejo zona aleatórias de Lisboa – a Almirante Reis, o Jardim Constantino, a saída do túnel do Campo Grande...”

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Nesse mesmo fórum descobri que existem duas versões do filme. A Russa, que é esta restaurada pela Mosfilm e que a CPC UMES Filmes lançou aqui no Brasil, e a Italiana, que me parece inacessível, não faço ideia se existe em circulação. A diferença é que nesta versão do país da bota algumas coisas ficam mais explícitas, como deixar claro que a trama realmente se passa em Portugal e que o país africano que está sob ataque no início do filme é Angola.

De qualquer maneira, é um filme que não precisa de posições geográficas, o que o torna universal e necessário. E em períodos obscuros como a que vivemos atualmente, vale a pena se deparar com um A VIDA É MARAVILHOSA para lembrar que independente de visões políticas, censura, autoritarismo e fascismo são merdas que precisam ser combatidas.

E é preciso também que  A VIDA É MARAVILHOSA seja descoberto o mais rápido possível. O filme está disponível no catálogo da CPC UMES Filmes e pode ser adquirido na loja virtual da distribuidora. E não deixe de curtir a página deles no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

DVD REVIEW: ALEXANDER NEVSKY (1938); CPC UMES FILMES

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Um dos filmes mais importantes do acervo da CPC UMES Filmes é, sem dúvida alguma, ALEXANDER NEVSKY, dirigido por um dos maiores patrimônios que o cinema já criou, o diretor russo Sergei Eisenstein. Embora o filme tenha sido inicialmente concebido como propaganda de guerra, acabou que seu conteúdo foi ofuscado pela técnica. Eisenstein aproveitou algumas de suas próprias habilidades cinematográficas inovadoras para criar uma das mais surpreendentes obras-primas do período e um das mais incríveis batalhas já filmadas.

Na época, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, o então líder soviético Joseph Stalin queria que fosse produzido um filme como ferramenta de propaganda a fim de alertar os cidadãos soviéticos para a crescente ameaça alemã. ALEXANDER NEVSKY surgiu com tais propósitos e conta a história do príncipe Alexander Vasilievich Nevsky que levou os russos a lutar contra o imperialismo teutônico germânico. O ano era 1242, e os Teutons já haviam conquistado uma grande parte do Império Russo, com ataques rápidos e pegando cidades de surpresa. A cidade de Pskov e toda a Rússia ocidental se renderam aos impotentes Teutons, que então colocaram seus olhos em Novgorod, o epítome do progresso da pátria russa no período.

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Os laços entre os alemães alemães do século XIII e a Alemanha nazista do início do século XX são claros, razão pela qual Stalin acabou proibindo ALEXANDER NEVSKY de ver a luz do dia após ter assinado o pacto de não agressão com Hitler. Pacto que foi quebrado em 1941 e Stalin acabou voltando para sua ideia original de apresentar o filme como propaganda de guerra. Era óbvio o quão poderoso o filme era, não só em termos da caracterização dos alemães como animais cruéis e invasores a serem combatidos com violência, que jogam crianças em fogueiras para serem queimadas vivas… Mas também em seu impacto geral como obra cinematográfica. Eisenstein era incapaz de fazer um filme que fosse apenas uma mensagem política e acabou criando uma verdadeira obra de arte.

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Grande parte das atenções de ALEXANDER NEVSKY se concentram na extraordinária sequência de 30 minutos da Batalha do Gelo, na qual o exército de Alexander enfrenta os alemães em um lago congelado. Segundo Eisenstein, em seu livro O sentido do Filme, que eu considero obrigatório, é nesta cena que “o aspecto audiovisual de Alexander Nevsky atinge sua fusão mais completa“. A batalha é um exemplo incrível de encenação, arquitetura da ação e como a combinação de imagem e música pode despertar emoções profundas. As composições visuais são cuidadosamente colocadas em compatibilidade com as notas musicais do compositor Sergei Prokofiev e o resultado é simplesmente magistral em todos os sentidos.

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Em ALEXANDER NEVSKY, Eisenstein demonstra que ele poderia trazer sua visão de autor mesmo trabalhando dentro dos rígidos códigos do estalinismo. Embora ele tenha sido posteriormente humilhado e exilado. Eisenstein prova aqui que o seu brilho não podia ser esquecido tão cedo. E ainda hoje seu trabalho técnico impecável impressiona. É por isso que o filme faz parte do catálogo da CPC UMES Filmes e pode ser adquirido na loja virtual da distribuidora. E não deixe de curtir a página deles no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

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DVD REVIEW: COSSACOS DE KUBAN (Kubanskie kazaki, 1948); CPC UMES FILMES

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O lançamento de Agosto da CPC UMES Filmes, uma das distribuidoras mais importantes do Brasil atualmente, é COSSACOS DE KUBAN. A produção é uma comédia musical soviética fascinante que vale a pena ser conferida, especialmente por quem curte um cinema exótico que foge do padrão ocidental. E o blog Dementia¹³ inicia a parceria com a distribuidora comentando sobre essa maravilha do cinema.

COSSACOS DE KUBAN conta a história simples de dois líderes kolkhozes (cooperativas agrícolas soviéticas) concorrentes, Galina e Gordey, que se reúnem por ocasião de um festival agrícola e dividem suas atenções entre as competições que o evento promove e a sua atração romântica um pelo outro. Gira em torno também de vários outros personagens que participam do festival, que se divertem, cantam, dançam e se enamoram…

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O filme começa com uma sequência musical que mostra o trabalho de campo em uma fazenda coletiva. Depois de alguns planos dos espaços infinitos de trigo sob o céu azul, dos camponeses que trabalham, e das colheitadeiras que atravessam os campos, a música entra em coros exaltados durante uns cinco minutos hipnóticos de imagem e som, apresentando os personagens da história. É a típica sequência que deveria ser estudada em qualquer escola de cinema: a arte dos planos, de composição e de como a edição faz entrar em acordo imagem e música num nível impressionante de perfeição.

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Tudo a serviço da propaganda que glorifica o trabalho comunitário e igualdade de gênero nas tarefas de serviço à comunidade. OS COSSACOS DE KUBAN era um filme para a distração do público com cenas que apoiavam a necessidade de um esforço coletivo no tempo de reconstrução pós guerra. Dizem que o próprio Stalin era um fervoroso admirador do filme, um espectador voraz que nos últimos anos de vida estava projetando todos os tipos de filmes internacionais em salas privadas de suas várias residências e cuja coleção pessoal foi trazida de Berlim pelo Exército vermelho em 1945. Mas isso é apenas uma curiosidade…

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O papel das mulheres no modelo soviético é bem evocado no filme e assim, a personagem de Galina, uma viúva, cujo marido perdeu a vida na II Guerra Mundial e líder de uma das duas fazendas coletivas, passa grande parte da história a desafiar Gordey, um ex-militar marcado pela guerra, que comanda com mão de ferro sua fazenda. Em outra história paralela, a jovem Dasha confronta seu tio, o mesmo Gordey, para viver seu amor com um jovem da fazenda de Galina. Assim, as mulheres são a espinha dorsal de COSSACOS DE KUBAN que coloca os homens em uma posição surpreendente de inferioridade em que o cinema ocidental do período ainda não tinha experimentado.

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Os atores, desconhecidos para a maioria dos espectadores ocidentais, são grandes nomes do cinema soviético. Para ficar na dupla central, Marina Ladynina, no papel de Galina, foi uma das principais musas do cinema stalinista. A sua carreira parou com a morte de Stalin em 1953. Sergei Lukyanov, no papel de Gordey, encarnara o arquétipo do homem soviético viril antes de sua morte prematura. Continuar lendo

A ARTE DE ENZO SCIOTTI

Muito antes dos cartazes “photoshopados” habituais dos dias de hoje, haviam artistas que realizavam verdadeiras obras de arte de maneira artesanal para criar os cartazes dos filmes. Para quem se interessa por cinema de gênero italiano, é muito provável que já tenha se deparado com vários trabalhos de um deles: Enzo Sciotti. Trata-se de um desenhista e pintor italiano bastante prolífico que dedicou uma parte de sua carreira nos anos 80 a fazer cartazes cinematográficos, de diretores do calibre de Lucio Fulci, Dario Argento e Joe D’Amato (que o contratou para a sua produtora, a Filmirage), além de versões italianas de peças gráficas de produções de outros países, como VELUDO AZUL e ARMY OF DARKNESS. O trabalho do sujeito é simplesmente fantástico e, de vez em quando, até melhor que o próprio filme.

Aqui vai uma pequena degustação (clique nas imagens para aumentar):

THE BEYOND (1981)

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E eis que resolvi rever mais uma vez THE BEYOND este último fim de semana. Não é apenas o meu filme favorito do diretor Lucio Fulci, que considero um dos maiores autores do gênero, como é também a experiência de pesadelo definitiva no cinema, ou seja, do horror puro e cristalino em todos os sentidos possíveis. E não é lá muito fácil descrever o fascínio que tenho pela obra, a maneira como me impressiona a cada revisão. Mas a gente vai levando do nosso jeitinho de sempre…

THE BEYOND foi lançado no Brasil com o título TERROR NAS TREVAS e depois relançado como A CASA DO ALÉM, o que é estranho, já que o horror transcorre a partir de um hotel amaldiçoado e não de uma casa. O título original em italiano é L’ADILÀ, ou “o outro lado”, “o lado de lá”. Mas ainda tem um título mais longo: …E TU VIVRAI NEL TERRORE! L’ADILÀ. Nos Estados Unidos, o filme foi lançado primeiro como 7 DOORS OF DEATH, que foi bastante retalhado até o lançamento da versão definitiva: THE BEYOND, que é como eu gosto de chamar o filme mesmo.

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THE BEYOND começa na Louisiana, em 1927, com o assassinato de um pintor acusado de bruxaria no tal hotel. Em seguida, pula para 1981, altura em que uma jovem que herdou este mesmo hotel está prestes a reformá-lo e reabri-lo. O local, no entanto, aparentemente foi construído em uma das sete portas do inferno! Coisas estranhas começam a acontecer, pessoas são acometidas por mortes violentíssimas, no fim surge uma horda de zumbis e o Além… Os motivos para a maioria desses acontecimentos, no entanto, permanecem um tanto obscuros e sem qualquer sentido. Mas se levarmos em conta a lógica de sonho que Fulci propõe aqui, então na verdade tudo FAZ sentido.

O que o diretor faz é trabalhar os elementos sobrenaturais de maneira que desafiam a compreensão racional, abandona as estruturas tradicionais de um enredo para desorientar e confundir o público, que se vê diante de um estado de sonho e de pavor irracional. E a grande sacada de THE BEYOND é justamente levar até as últimas consequências esta lógica. É um pesadelo filmado, a imprevisibilidade reina, a sensação é de que qualquer coisa pode acontecer e que tudo é inesperado. O importante é como toda a estrutura narrativa é solta, como o filme se preocupa apenas na imagem e em construir uma atmosfera de puro horror.

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Eu sei, parece muito vago, muito abstrato… Na verdade, THE BEYOND até possui uma trama bem definida, mas é só um fiapo e Fulci não se interessa muito em desenvolvê-la nem se preocupa com a lógica, se o desencadeamento dos acontecimentos faz sentido… A chave é não fazer muitas perguntas, tal como nos comportamos nos sonhos. Durante essas horas de atividade cerebral, aceitamos o que está acontecendo, seja um pesadelo assustador ou um sonho divertido, mas raramente o questionamos. É assim que THE BEYOND deve ser visto. Por favor, não façam como o Roger Ebert

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O roteiro de Fulci, escrito com o grande Dardano Sacchetti, é, segundo o próprio diretor, “Uma sucessão de imagens impactantes, caóticas e sem um fio condutor muito claro“. Já no prólogo se percebe o que Fulci quer dizer com isso, com a imagem em tom de sépia, em movimentos de câmera que guia o nosso olhar para os detalhes enquanto a edição faz o encadeamento das situações: uma garota encontra um antigo livro com as profecias de Eibon, que falam sobre os sete portões do Inferno, os quais, quando abertos, libertarão o Mal sobre a face da Terra; o pintor que realiza seu trabalho num quadro mórbido retratando o “Mar dos Mortos”; e homens carregando tochas e correntes se aproximando do local.

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Em seguida vemos as tais “imagens impactantes” que Fulci comenta, quando o pintor é espancado à correntadas, com cada pancada abrindo feridas enormes, mostradas em planos detalhes com direito a carne dilacerando e o sangue escorrendo para todos os lados. O sujeito é aprisionado pelos habitantes da cidade, ao mesmo tempo em que argumenta dizendo que o lugar foi construído sobre uma das sete portas do Inferno e que se o matarem não haverá como conter o Mal que ali vive. Claro que não adianta avisar: furiosos, os cidadãos pregam o sujeito na parede, com a câmera colada nos pregos penetrando nas mãos do coitado, e para finalizar corroem seu rosto com cal.

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TODAS AS CORES DO MEDO (Tutti il colori del buio, 1972)

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Revi outro dia… Porra, Edwige Fenech, essa cocota do Eurocult é uma das mulheres mais sexy e belas da história do cinema. Nascida em 1948, esta estonteante franco-argelina apareceu em uma porrada de thrillers, gialli, filmes de terror e comédias eróticas a partir dos 19 anos de idade, e ainda estava boa o suficiente para aparecer nua na Playboy italiana no auge dos seus quarenta e tantos anos. Mas para provar que Edwige não é só beleza, mas também atriz de verdade, TODAS AS CORES DO MEDO tá aí, um elegante e singular giallo de Sergio Martino na qual Edwige é o centro das atenções ao encarnar uma jovem perturbada que pode, ou não, ser o alvo de um assassino misterioso.

Mas é um giallo diferentão, todo desconstruído… Vamos lá. A pobre Jane Harrison (Fenech) vem sofrendo de alguns pesadelos muito loucos, cheio de imagens piscodélicas e situações pertubadoras… Neles ela vê sua própria mãe – que foi assassinada por um desconhecido assaltante quando Jane era uma menina – sendo esfaqueada até a morte por um homem com olhos incrivelvente azuis e penetrantes (Ivan Rassimov).

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Esses pesadelos estão se tornando um transtorno na vida de Jane, afetando não apenas seu psicológico, mas também seu relacionamento com o marido, Richard (o grande George Hilton). Ele acredita que os pesadelos provêm de um aborto que Jane teve depois de um acidente de carro no ano anterior, só que o problema pra ele é ainda mais complexo, afinal desde então a mulher se tornou frígida e, bem, vocês sabem, dividir a cama com a Edwige Fenech e não poder fazer nada de vez em quando é algo realmente para abalar as estruturas de um casamento feliz…

O conselho da irmã mais velha de Jane é que ela comece a encarar um psiquiatra, afirmando que é a única maneira para que restaure a sua saúde mental. Algo que Richard insiste que se trata da mais pura besteira e charlatanismo, já que a tal irmã trabalha num consultório psiquiátrico. Enquanto tentam resolver esse impasse, Jane começa a ver o homem de olhos azuis de seus pesadelos, armado sempre com uma faca, com muito mais frequência, inclusive quando está acordada, em visões aterradoras!

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Temendo por sua própria sanidade, Jane não só concorda em ver o psiquiatra recomendado pela irmã, mas também opta por tratamentos menos convencionais que surgem por acaso. Como, por exemplo, dar ouvidos a uma misteriosa vizinha de seu prédio, que diz que Jane precisa encontrar-se com algumas pessoas que passaram por circunstâncias semelhantes. Mas só quando é tarde demais ela percebe, para seu horror, que sua simpática e prestativa vizinha é membro de um culto satânico!

Em uma mansão isolada, Jane é forçada a beber sangue e fazer sexo com o sacerdote do culto. Tudo fica muito embaralhado na cabeça da pobre Jane. O culto satanista era apenas uma alucinação, como ela também acredita ser as recentes aparições do homem de olhos azuis? Ou será que tudo era real?

O fato é que alguns dos melhores momentos de TODAS AS CORES DO MEDO são esses cultos satânicos, brilhantemente filmados acompanhados dos acordes melódicos de Bruno Nicolai. Claro, as ações do cultistas são tenebrosas para Jane, mas o cenário é bonito, bem aproveitado e evoca os bons tempos do horror gótico italiano dos anos 60. Julian Ugárte é o ator que faz o sacerdote. O cara rouba o filme facilmente por alguns minutos, expressivo e convincente como líder de um culto satânico, expondo dentes sangrentos e vorazmente envolvido num coito frenético com Jane, como seria de se esperar de um líder satanista que se preze.

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Bom, não preciso nem dizer que nada disso ajuda muito a resolver o problema da ragazza… E a moça não pode nem confiar muito no próprio marido – a quem ela não conta nada do que teria acontecido no tal culto satânico – até porque, mesmo com todos os problemas que ela passa, Richard deixa Jane frequentemente sozinha e isolada em seu apartamento enquanto ele, um vendedor de uma empresa farmacêutica, está sempre fora à negócios. À medida que Jane se aproxima da total decomposição mental, a coisa evolui para um lado metafísico e ela começa a ter estranhas visões de eventos que no fim das contas, acabam se tornando realidade…

É curioso como a paranóia de Jane é exemplificada por um puta trabalho de tensão pontual que prevalece sempre que ela se encontra sozinha e que geralmente segue com uma temporária sensação de alívio quando está em torno de outras pessoas. Por exemplo, quando Jane deixa o consultório de seu psicanalista, ela fica sozinha em uma estação de metrô, e só esse fato já é suficiente para gelar a espinha do espectador com a trilha sonora angustiante de Nicolai e a câmera que cria uma atmosfera inquietante. Depois que o metrô chega, uma sensação de conforto e segurança prevalece, com a multidão invadindo o ambiente solitário. Não demora muito para que a tensão volte a subir quando ela se encontra sozinha novamente…

Quem já tem certa familiaridade com o gênero, já percebe até aqui que TODAS AS CORES DO MEDO é um giallo bem incomum. São vários elementos visuais e narrativos característicos associados com o giallo que são deixados de lado: Não há nenhum assassino sem rosto, mascarado, de luvas negras, já que vemos Rassimov desde o início como um stalker com faca na mão; na trama, ao invés de nos apresentar um típico mistério de “descobrir o assassino“,  aqui é se o homem dos olhos azuis e outras situações são mesmo reais ou se não são criações da mente perturbada de Jane…

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A contagem de corpos também é relativamente baixa para um giallo e as mortes nunca são realmente violentas e sangrentas. Com exceção do sonho da mãe de Jane sendo morta logo no início do filme, não há outros assassinatos até o terceiro ato. Além disso, o aspecto sobrenatural do culto satânico e as premonições de Jane adicionam um sabor de fantasia que não é tipicamente encontrado no gênero.

Até mesmo se levarmos em consideração o fator depravado e erótico habitual do giallo  é comparativamente moderado em TODAS AS CORES DO MEDO, e as cenas de nudez de Fenech são de bom gosto, não muito vulgares. Claro, ter a Fenech em cena é quase sinônimo de um topless… Mas, por exemplo, logo na introdução de Jane no filme, vemos ela acordar de seu pesadelo e depois ela vai para o chuveiro ainda de camisola. Uma tentativa simbólica do desespero de Jane ou é apenas uma oportunidade para Fenech ficar molhadinha em frente à câmera? Eu diria que ambos, mas é um dos detalhes que torna TODAS AS CORES DO MEDO tão agradável. Nada é vazio e vulgar por aqui, nudez e violência servem ao filme como forma de expressão.

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Edwige mostrando sua expressão

Como disse no início, TODAS AS CORES DO MEDO é um giallo refinado, com direção de classe de Sergio Martino, um dos principais especialistas do gênero, e sem dúvida alguma tem aqui um dos seus melhores resultados. Dirigiu de tudo, na verdade, western, aventura, comédias, ação, isso aqui, mas é no giallo que o cara parece estar mais consciente. Martino tem bom olho para composição dos quadros, tira muita vantagem da tela larga e sua câmera raramente fica estática, mesmo de forma sutil, impedindo até que cenas de diálogo de rotina se tornem sem graça. As sacadas visuais empregadas para a transição da realidade para a fantasia e vice-versa são tão simples, mas ao mesmo tempo muito eficazes, sempre a serviço do enredo e nunca apenas para exibicionismos.

O sujeito também manda bem na construção do suspense, que é o componente essencial para qualquer thriller de sucesso. A cena que tem Jane é perseguida e se apressa para entrar no seu carro e, obviamente, não consegue fazer a ignição pegar já vimos em milhares de outros filme, mas é só um dos exemplos da finesse de Martino, que faz o espectador ficar com as mãos suando de tensão, apesar de todo o clichê. Na verdade, o filme inteiro possui uma atmosfera bem trabalhada, como já disse anteriormente, apoiada num belíssimo e requintado visual, na trilha de Nicolai e no roteiro bem amarrado (embora guarde um traço de ambiguidade no final).

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E, finalmente, temos a deliciosa Deusa do Eurocult, Edwige Fenech. Todo o elenco de TODAS AS CORES DO MEDO é notável e contribui para o show, especialmente Hilton, Rassimov e a pequena participação de Ugárte, mas é Edwige que é a atração principal. Eu já vi algumas de suas comédias eróticas e acho que posso dizer com confiança que a moça tem aqui um dos melhores desempenhos. E sem precisar mostrar os peitos a cada dez minutos, completamente convincente como a assustada, vulnerável e confusa Jane… Fenech é um espetáculo! Não preciso dizer mais nada, apenas recomendo a qualquer amante do horror europeu.

INVENTÁRIO EUROCULT – O RETORNO

Há alguns anos, aqui mesmo no blog, resolvi convidar leitores e amigos para participarem da elaboração de um inventário de filmes “cult” europeus. Pedi que me enviassem listas pessoais de filmes favoritos e fui compilando essas relações de dez ou quinze filmes cada, repletas de exemplares essenciais e obscuros desse universo tão extenso e fascinante. Um guia perfeito para qualquer iniciante que desejasse enveredar por essas estranhas paragens do cinema. No total foram quinze listas de convidados especiais e, passados, sei lá, uns três anos, me dei conta agora, graças ao Edu Aguilar (também participou do projeto), que até hoje eu nunca havia publicado a MINHA lista! Como acho que nunca é tarde, estamos aí…

O que eu quero dizer com cinema Eurocult? Nem eu sei responder direito… Mas na época queria contemplar mais filme europeus de gêneros populares “de qualquer qualidade. Do horror ao peplum, do giallo ao Spaghetti Western, das tranqueiras do Bruno Mattei e Andrea Bianchi à elegância de um Mario Bava e Dario Argento”, como disse no primeiro post da série.

A relação que fiz contém 25 filmes e está em ordem cronológica. Decidi por colocar apenas um título por diretor, porque só o Fulci, Argento e Bava já formavam a lista inteira. Resolvi não incluir diretores mais famosinhos (como Fellini, Bergman, Buñuel ou Leone, por exemplo, embora tenham feito cinema de gênero e TRÊS HOMENS EM CONFLITO seja o melhor filme da galáxia). Não se trata realmente de uma lista fechada e absoluta, tem prazo de validade, dependendo do meu humor e das novas descobertas que fazemos todos os dias. Mas hoje ela seria assim:

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O grande Hércules encara uma taruíra gigante no filme de Cottafavi

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MALPERTUIS, um filme de belas composições

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THE BEYOND e um dos desfechos mais aterradores do cinema

OS OLHOS SEM ROSTO (Les Yeux sans visage, Fra, Ita, 1960), de Georges Franju
ERCOLE ALLA CONQUISTA DI ATLANTIDE (Ita, Fra, 1961), de Vittorio Cottafavi
THE WHIP AND THE BODY (La frusta e il corpo, Fra, Ita, 1963), de Mario Bava
UMA BALA PARA O GENERAL (Quién sabe?, Itália 1966), de Damiano Damiani
UN ANGELO PER SARTANA (Itália, 1966), de Camillo Mastrocinque
O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE (L’armata Brancaleone, França, Espanha, Itália, 1966), de Mario Monicelli
FACCIA A FACCIA (Itália, Espanha, 1967), de Sergio Sollima
IL GRANDE SILENZIO (França, Itália, 1968), de Sergio Corbucci
SUCCUBUS (Alemanha, 1968), de Jess Franco
MALPERTUIS (Bélgica, França, Alemanha, 1971), de Harry Kumel
MILANO CALIBRO 9 (Itália, 1972), de Fernando Di Leo
TUTTI I COLORI DEL BUIO (Itália, Espanha, 1972), de Sergio Martino
EXPRESSO DO HORROR (Horror Express, Espanha/Inglaterra, 1972)
THRILLER – A CRUEL PICTURE (Suécia, 1973), de Bo Arne Vibenius
LES DÉMONIAQUES (Bélgica, França, 1973), de Jean Rollin
LA CASA DALLE FINESTRE CHE RIDONO (Itália, 1976), de Pupi Avati
EMANUELLE IN AMERICA (Itália, 1977), de Joe D’Amato
INFERNO (Itália, 1980), de Dario Argento
CANNIBAL HOLOCAUST (Itália, 1980), de Ruggero Deodato
NIGHTMARE CITY (Incubo sulla città contaminata, Esp, Ita, 1980), de Umberto Lenzi
THE BEYOND (…E tu vivrai nel terrore! L’aldilà, Itália, 1981), de Lucio Fulci
POSSESSION (Alemanha, França, 1981), de Andrzej Zulawski
ESCAPE FROM THE BRONX (Fuga dal Bronx, Itália, 1983), de Enzo G. Castellari
DEMONS (Itália, 1986), de Lamberto bava
DELLAMORTE DELLAMORE (França, Alemanha, Itália, 1994), de Michele Soavi

Queria ter colocado STARCRASH, do Luigi Cozzi, mas tem dinheiro americano envolvido, então decidi não considerá-lo… E também quis dar preferência a produções de países que não falam inglês, por isso a ausência de filmes da Inglaterra. Mas fica a observação.

Se alguém estiver interessado, segue as outras listas:
#1 #2 #3 #4 #5 #6 #7 #8 #9 #10 #11 #12 #13 #14 #15

E se alguém quiser ainda quiser contribuir com o inventário, é só me enviar sua lista de Eurocult favoritos.

THE PHANTOM OF SOHO (1964)

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Ontem me deparei com este petardo. THE PHANTOM OF SOHO faz parte do ciclo de filmes policial e mistério adaptados das obras do prolífico escritor britânico Edgar Wallace. E quem gostava bastante de realizar essas adaptações eram os alemães, no chamado Krimi, um subgênero muito popular, principalmente na década 60, no país do chucrute. Uma curiosidade que demonstra como esses alemães eram tão picaretas quanto os italianos ou os turcos na divulgação de seus filmes, é que na real THE PHANTOM não foi baseado em Wallace, mas sim no filho dele, o também escritor Bryan Edgar Wallace, o que permitia o uso do famoso nome “Edgar Wallace” sem se envolver em qualquer problema de direitos autorais…

Eu, particularmente, não sou nenhum especialista no estilo Krimi e esta foi a minha primeira aventura no subgênero. Só pra ter uma noção da minha ignorância, segundo consta nos altos o grandes Krimi alemães baseados em Edgar Wallace foram feitos pelos estúdios Rialto. Como não fazia ideia disso, acabei vendo uma produção do estúdio concorrente, a CCC… Sem contar o fato de não ser nem baseado no verdadeiro Wallace!!! Ou seja, tudo caminhava para um começo com o pé esquerdo.

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Mas seja lá por quais motivos, quis o destino que eu tivesse sorte e THE PHANTOM OF SOHO foi uma agradavel e divertida surpresa. O filme se passa numa esfumaçada Londres de estúdio e, como quase todas as histórias de mistérios, cheia de tramas enroladas e um amontoado de personagens, pode ser resumida em uma idéia muito simples: alguém está matando pessoas dentro e nos arredores de um cabaré no distrito de Soho em Londres, e a Scotland Yard precisa pegar o assassino.

Descobre-se, em determinado momento, que todos os assassinatos estão relacionados com o estranho naufrágio de um iate alguns anos antes. O caso atrai até mesmo a atenção de uma famosa escritora de livros policiais, Clarinda (Barbara Rütting), que passa a meter o bedelho ansiosa para mostrar que pode resolver o crime antes da polícia. Mas o protagonista é o competente inspetor Patton (Dieter Borsche), que junto com sargento Hallan, o alívio cômico do filme, tenta desvendar os crimes, visitando locais arriscados e interrogando todas figuras bizarras que entram em seus caminhos, antes que o assassino, chamado de Phantom, faça mais uma vítima.

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O enredo de THE PHANTOM pode não ser dos mais originais, mas até que é envolvente pelos ambientes atmosféricos e personagens que aparecem na trama. Me lembra um bocado os gialli italianos em alguns momentos, especialmente nas sequências de assassinato, onde vemos através do ponto de vista do assassino e só aparecem suas mãos com luvas empunhando uma faca. Na verdade, o que realmente chama a atenção é esse tipo de sacada visual que existe aqui aos montes e todo o trabalho estético do filme.

Franz Josef Gottlieb é o nome do diretor. Nos anos 70 descambou para produções, digamos, mais calientes… Nada contra, mas aqui demonstra total habilidade na direção, com bom trabalho de câmera, enquadramentos bem compostos, angulos tortos, bom uso do preto e branco. Aliás, a própria fotografia, resquício da estética do expressionismo alemão, é um deleite… Quero ver outras coisas do Gottlieb. Obviamente quero conferir certos filmes que fez na década seguinte… Mas curti bastante essa minha iniciação ao universo do Krimi alemão com THE PHANTOM OF SOHO, um desses subgêneros que deve valer a pena uma peregrinação de vez em quando. E que na próxima sejam ao menos baseados no verdadeiro Edgar Wallace.

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THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK (1980)

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THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK, do Ruggero Deodato, é considerado uma, entre tantas, versão “italiana” do THE LAST HOUSE ON THE LEFT, do Wes Craven, que, por sua vez, é uma refilmagem exploitation de A FONTE DA DONZELA, de Ingmar Bergman. De fato, há algumas semelhanças óbvias entre o filme do Deodato com o do Craven, mas o que realmente define a ligação entre as duas obras é a presença do ator David Hess, essa figura simpática aí em cima, que encarnana personagens extremamente parecidos em ambas produções. Hess morreu há alguns anos e deixou sua marca como uma lenda do gênero e eu escrevi esse textinho no blog antigo na época em sua homenagem, e republico agora.

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A sequência inicial dos créditos é  uma maravilha, demonstrando o que podemos esperar de Alex, o mecânico desempenhado por Hess. Dirigindo pelas ruas da cidade à noite, o sujeito não perde a chance de paquerar a gatinha do carro ao lado, o problema é que o cara é um maluco psicótico e a diversão termina com estupro seguido de assassinato. Na trama, Alex e seu comparsa Ricky (Giovanni Lombardo Radice), por algum motivo obscuro, acabam convidados para uma festa particular na casa de umas figuras da alta sociedade e decidem apimentar o evento tomando os anfitriões e convidados como reféns, submetendo-os a uma longa noite de torturas e humilhações.

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Pra quem nunca viu o filme, mas já conhece a reputação do diretor Ruggero Deodato, notório pelo clássico CANNIBAL HOLOCAUST e pela violência gráfica de seus trabalhos, um projeto como THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK pode gerar uma expectativa equivocada. Não são poucas as resenhas espalhadas pela internet colocando o filme pra baixo, por causa, talvez, de um esperado banho de sangue espirrando na tela, muito gore e vísceras e etc… Ok, temos algumas sequências sangrentas, perturbadoras e sádicas, como não poderia deixar de haver, mas nada que chame a atenção, com exceção da cena em que Hess desfere alguns cortes de navalha no corpo de uma jovem, cantarolando “Cindy, Oh, Cindy”.

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Talvez o estigma de filme barra pesada se deva também às censuras e cortes que sofreu na época, colocando-o na famosa lista dos video nasties. Mas em termos de visual, é bem leve, Deodato preferiu trabalhar mais um elaborado e lento jogo de tensão psicológica com os personagens do que o grotesco visual. Particularmente, aprecio o filme. Não acho uma obra-prima, mas adoro as escolhas do diretor, especialmente por seguir o caminho das tensões sexuais, explorando a nudez das atrizes em situações extremas. Também é impossível ficar indiferente em relação às performances de Hess e Radice, ambas geniais. E nem mesmo a reviravolta exageradamente forçada que o roteiro criou para justificar toda essa sandice ao final compromete o restante… aliás, este é um dos principais pontos dos detratores para falar mal do filme.

Há alguns anos surgiu uns boatos de que Deodato estaria preparando uma continuação de THE HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK, mas isso já fazem uns cinco ou seis anos. Não vai acontecer, obviamente. Na época mesmo eu já suspeitava… Mas fica a dica deste clássico exploitation italiano para ver e rever.

PANIC BEATS (1983)

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O prólogo de PANIC BEATS é uma das coisas mais absurdamente geniais que existe no cinema exploitation europeu! Uma sequência antológica e perturbadora, digna de um Lucio Fulci ou Jean Rollin, na qual um cavaleiro de armadura medieval, interpretado pelo grande Paul Naschy, persegue uma mulher completamente nua desesperada e gritando através de uma floresta nebulosa. A perseguição termina quando mulher cai por terra e é brutalmente espancada até a morte pelo cavaleiro com uma maça “estrela da manhã”. Aí vem os créditos iniciais e o resto do filme, que nunca chega ao nível do prólogo, mas que ainda possui algumas cartas na manga e vários bons momentos digno do cinema euro cult.

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Somos transportados para a moderna Paris, onde o bem-sucedido arquiteto Paul de Marnac (também interpretado por Naschy) recebe um diagnóstico médico de sua esposa,  Geneviève. Um coração fraco e doente torna imperativo que ela receba um longo descanso e evite grandes emoções. Paul sugere uma estadia prolongada em sua casa de campo, herdada de sua família, longe da cidade movimentada. Antes mesmo de chegar no local, no entanto, o casal já enfrenta algumas perturbações quando o carro fica sem gasolina e são atacados por um par de ladrões. Paul encara os vândalos numa situação meio bizarra e consegue afugentá-los e Geneviève consegue se controlar.

Finalmente o filme estabelece a ação na casa de campo. O local é cuidado por uma velha senhora, Maville, e sua jovem sobrinha fogosa Julie. E os de Marnac podem concentrar suas energias na recuperação de Geneviève e até mesmo tentar reavivar seu amor. Mas para Geneviève a paz e a tranquilidade são ilusórias. Ela acaba sempre se perturbando pela horrível lenda do antepassado de Paul, Alaric de Marnac, um cavaleiro do século XVI que assassinou sua esposa infiel e se tornou um devoto satanista, o mesmo sujeito do magnífico prólogo, obviamente…

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E aí vem o lado sobrenatural da coisa. Enterrado no cemitério local, a lenda diz que Alaric sai do túmulo a cada 100 anos para uma vingança sangrenta em qualquer noiva Marnac que não consegue cumprir os seus padrões. Uma noite, enquanto Paul está em Paris a negócios, Geneviève desmaia e quase morre de susto quando vê o fantasma de Alaric, de armadura e tudo mais, surgindo no local. Será que a lenda é real ou apenas ilusão provocada dos já desgastados nervos de Geneviève? Ou será que tem outras coisas bem mais complexas por trás de tudo?

Ainda sou um bocado neófito em termos de Paul Naschy. Assisti a pouca coisa que o sujeito fez, mas já deu pra notar porque foi um dos maiores atores do cinema exploitation. E, pelo visto, um grande diretor também. É o próprio Naschy quem dirige o ótimo PANIC BEATS e é o primeiro trabalho na função que eu parei para conferi. Naschy também escreveu o roteiro usando seu nome nome verdadeiro, Jacinto Molina, e demonstra que tem uma sólida ideia de como trabalhar com elementos estéticos e narrativos do horror gótico.

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Se não fosse pela quantidade de nudez e pelos assassinatos sangrentos que ocorrem ao longo do filme, poderia até se passar como um bom exemplar de thriller de horror old school que os italianos faziam nos anos 60, mas a violência gráfica e peitos de fora garante o toque preferencial de Naschy pelo excesso, pelo choque, pelo cinema de exploração, que particularmente eu aprecio mais… E Naschy é definitivamente um cara esperto, escrevendo um script para si mesmo em que garante uma série de cenas de pegação com mulheres nuas. Hehe!

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Obviamente PANIC BEATS é recomendado a quem já possui um certo gosto pelo exploitation europeu e sabe apreciar esse tipo de material. Temos um elenco bem afiado na medida do possível, especialmente Naschy, que é sempre um prazer poder vê-lo atuando, e que dirige habilmente a obra, sabe bem como extrair aquilo que é preciso para encher os olhos mesmo com um orçamento limitado. As sequências de tensão e suspense e até mesmo onde a violência explode na tela são muito bem cuidadas.

O filme, no entanto, tem lá seus problemas, tropeça em algumas ocasiões quando tenta se explicar demais, exagera nos diálogos expositórios e algumas sequências desnecessárias acabam por ser muito longas, quando poderiam ter simplesmente sido deixadas na sala de edição. Em suma, PANIC BEATS se arrasta em alguns momentos…

Ainda bem que os pontos positivos superam facilmente os negativos. E temos o prólogo… Só isso já vale o filme inteiro.

DIAVOLO IN CORPO (1986)

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Já tinha assistido a DIAVOLO IN CORPO, de Marco Bellocchio, há uns dez anos por recomendação de um amigo e lembro de ter ficado extasiado. Soube nesta semana que vão passar alguns trabalhos do italiano na Mostra de Cinema de São Paulo e resolvi assistir de novo. Não conheço tanto assim o cinema de Bellochio, mas é famosa sua veia política, um notório defensor da esquerda cujos filmes carregam temas socialistas de forma bastante radical, como no seu clássico mais famosinho DE PUNHOS CERRADOS (1965).

Mas aqui a ideologia política de Bellocchio fica em segundo plano numa trama que transcorre no período conhecido como “Anos de Chumbo” na Itália, marcado por uma onda de terrorismo de cunho político, mas que dá lugar, no entanto, a um relato romântico transgressivo nutrido de muita sexualidade. O que, convenhamos, é bem mais interessante do que sistemas econômicos e partidos… Especialmente quando temos cenas explícitas…

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A lindeza Maruschka Detmers e o jovem Federico Pitzalis são os pombinhos perigosamente apaixonados de DIAVOLO IN CORPO. Ele é um estudante de dezoito anos, “filhinho de papai”, entediado. É durante uma aula na escola que, pela janela, o rapaz e seus colegas assistem uma mulher aparentemente com o “Diabo no corpo” ameaçando se jogar de um telhado sob o olhar de vários curiosos na vizinhança e percebe uma dessas espectadoras, Giulia (Detmers), na qual Andrea se apaixona imediatamente e passa a persegui-la. Eventualmente os dois acabam se conhecendo, desenvolvem uma relação que rapidamente se transforma num tórrido romance.

A paixão é vigorosa, mas logo descobrem que não basta só isso para manter um relacionamento saudável, especialmente quando uma das partes é noiva de um terrorista preso, em processo de julgamento, e que existe a possibilidade de ser solto a qualquer momento. Como se isso não bastasse, Andrea aos poucos vai descobrindo que Giulia é uma mulher totalmente instável, com uma certa tendência para violência. Entre risos histéricos e súbitas explosões de destempero, nunca sabemos exatamente o verdadeiro sentimento de Giulia em relação a Andrea. A única certeza é que parece bem improvável que o romance termine bem…

Mas o sexo entre os dois é visceral e intenso na maior parte do tempo. DIAVOLO IN CORPO inclusive ganhou certa fama por conta de uma cena em que Maruschka, que não tem problema algum em ficar sem roupa, resolve cair de boca na manjuba de Pitzalis em frente à câmera, sem qualquer remorso… A cena é bem curta, não tem sequer apelo sexual, mas não deixa de ser um boquete, o que é suficiente pra causar repulsa nos moralistas de plantão. Até mesmo os produtores italianos queriam que a cena fosse cortada, mas ainda bem que prevaleceu a vontade de Bellocchio e da senhorita Maruschka, que a princípio defendeu a ideia, mamou com vontade e se tornou uma das primeiras protagonistas a praticar sexo não simulado num filme mainstream. Mas depois de alguns anos reclamou que isso atrapalhou sua carreira e tal…

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O que não deixa de ser verdade, infelizmente… O rapazinho até que é bom ator, mas a grande força de DIAVOLO IN CORPO só poderia ser mesmo a performance de Maruschka, que rouba o show com sua beleza estonteante, desinibida e uma capacidade muito poderosa de encarnar essa figura tão descontrolada e fascinante. O lance dela com essa paixão que surge subitamente é algo tão absurdo e ambíguo, que ao mesmo tempo que parece ser sua salvação, acaba sendo também sua ruína. E quanto mais tempo seu relacionamento com Andrea continua, mais parece ser empurrada para loucura total.

Belo filme esse do Bellocchio. Preciso ver mais coisas dele. Mas este aqui é forte, desconcertante e valeu a pena rever.

Uma curiosidade sobre a Maruschka é que de musa desse brilhante filme do Bellochio ela chegou a contracenar com o bom e velho Dolph Lundgren nos anos 90 no filme de ação THE SHOOTER, do Ted Kotcheff, que eu acho um filmão… Obviamente para a grande maioria isso é sinal de decadência. Pra mim não… Recomendo ambos, dependendo das suas intenções. Mas já adianto que pelo menos em DIAVOLO IN CORPO ela aparece beeeem mais à vontade e com menos roupa.

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DELIRIUM (Le Foto di Gioia, 1987)

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Já disse por aqui que Lamberto Bava deveria ter investido seu talento mais em produções de ação, como o filmaço BLASTFIGHTER, do que tentar seguir os passos do papai Mario Bava em produções de horror… Claro, Bava filho tem seus bons exemplares do gênero no currículo, em especial quando se juntava a outro gênio, Dario Argento, e saia umas belezinhas como DEMONS, mas de uma forma geral nunca conseguiu chegar no nível de maestria dos grandes realizadores do horror italiano.

Isso ficou ainda mais claro depois que vi essa semana DELIRIUM. Quero dizer, não é um trabalho ruim, não tô falando que o Bavinha não deveria realizá-lo, mas percebe-se que o material tinha mais potencial nas mãos de um Argento, Lucio Fulci, Michele Soavi… Acaba resultando num filme sem tanta energia, sem inspiração – exceto nas sequências de tensão e assassinato mostrando a visão de um assassino perturbado. Mas na maior parte do tempo, Bava é bem burocrático com a câmera, pra não dizer preguiçoso…

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Mas pra falar a verdade, confesso que até que gostei do filme. E um dos principais motivos é o elenco. Temos a beldade Serena Grandi como protagonista, que surpreende interpretando uma editora famosa de uma revista masculina chamada Pussycat e que passa maus bocados quando um assassino à solta começa a deixar corpos de modelos espalhados no seu caminho. Serena é quem carrega o filme, com bastante presença (um mulherão desses… ai, ai), carisma e sem vergonha alguma de tirar a roupa, o que é importante… Aliás, o que faz DELIRIUM não perder o pique é justamente a boa dose de nudez, suficiente pra segurar a atenção. O que inclui outras figuras interessantes balançando os peitos na tela, como a cantora Sabrina Salerno. Tanto a cena do seu ensaio fotográfico, com as múmias se esfregando nela, quanto a sequência que é atacada por um enxame de abelhas são de encher os olhos; Daria Nicolodi e o grande George Eastman são sempre legais de se ver e estão realmente bem por aqui, mas não são os papéis pelos quais serão lembrados…

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Outro aspecto que gosto em DELIRIUM são os tais momentos de suspense e de assassinato, quando Bavinha mostra o ponto de vista doentio do serial killer, estilizando os cenários, emulando um Dario Argento na manipulação da fotografia, das cores, e mostrando as vítimas como criaturas híbridas, com cabeças monstruosas ou de inseto… Ideias inventivas que surgem no meio de uma direção que mais parece de telenovela na maior parte do tempo. O que é uma pena, porque nas cenas de suspense, Bava filho manda muito bem. Há um plano sequência no clímax que é de cair o queixo… Acaba sendo divertido de qualquer forma, pelo elenco, pela quantidade de nudez, a trama de giallo oitentista  – fazendo de tudo pra esconder a identidade do assassino do público – com uma pitada excitante de erotismo e surrealismo… Enfim, apesar de problemático, vale uma conferida. Continuar lendo

MOMENTO JESS FRANCO: RESIDENCIA PARA ESPÍAS (1966)

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Se fosse realizado uma década depois, RESIDENCIA PARA ESPIAS provavelmente teria excelentes motivos para que o mestre espanhol Jess Franco explorasse a sua maior especialidade: putaria. Ele iria às favas com a trama (roteiro acabaria se tornando um objeto quase obsoleto para o diretor) e passaria o filme inteiro dando zoons em prexecas cabeludas de atrizes robustas, certamente Linna Romay, sua musa e esposa, teria um papel de destaque. Mas estamos em 1966 e Franco ainda não havia descambado para essas peculiaridades da forma como vemos em seus filmes a partir dos anos setenta.

RESIDENCIA PARA ESPIAS acaba soando até simpático, adjetivo estranho para elogiar um filme do prolífico diretor, mas é um bom termo para definir esta obra de início de carreira (era o décimo primeiro filme do homem, mas pra quem já fez quase duzentos não é nada). Além de ser uma leve comédia, o filme é um autêntico Eurospy – subgênero criado na esteira dos filmes do agente 007 e que gerou uma infinidade de cópias, paródias, homenagens e picaretagens no velho continente, principalmente na Itália, Espanha e França. Continuar lendo