OS IRMÃOS CARA DE PAU (The Blue Brothers, 1980)

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Revi OS IRMÃOS CARA DE PAU recentemente e foi como redescobrir um clássico transcendental. Havia milhares de cenas e detalhes que eu tinha simplesmente apagado da mente. Eu já tinha visto o filme dezenas de vezes nos anos 90, mas realmente desde então não tive mais contato algum. Às vezes esqueço de como o tempo tem andado tão rápido e vinte anos atrás foi logo ali…

Mas o grande prazer do cinema, essa arte que eu tanto amo, é a possibilidade de rever um IRMÃOS CARA DE PAU e sentir como se fosse a primeira vez. O filme me fez chorar de rir, vibrar com as cenas de perseguição e relaxar ouvindo as excelentes canções que o filme dispõe. É disparado o melhor musical realizado nos últimos, sei lá, 40 anos… (e sim, é um musical porque os números musicais ajudam a avançar a história). É o filme mais divertido surgido do programa Saturday Night Live (a dupla central interpretada por Dan Arkroyd e John Belushi foi criada como esquete do programa), e um dos melhores filmes perseguição de carros de todos os tempos! É também é um dos melhores filmes que o grande John Landis já dirigiu… Perde somente, talvez, para UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES e INTO THE NIGHT.

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O enredo é simples. Jake Blues (Belushi) sai da prisão e junto com seu irmão, Elwood (Dan Aykroyd), começam a reunir a velha banda de volta para uma causa nobre, conseguir dinheiro suficiente para salvar o antigo orfanato em que passaram suas infâncias. A trama é mais ou menos um fio condutor para um monte de números musicais R&B cheios de energia. Além de tocarem um par de músicas maravilhosas, The Blues Brothers também compartilham o momento com James Brown, Ray Charles, Aretha Franklin, John Lee Hooker e Cab Calloway.

Se OS IRMÃOS CARA DE PAU não passasse de números musicais, já teria sido ótimo, mas Landis demonstra talento na direção, na composição dos quadros, nos momentos mais singelos, como quando Jake chega no apartamento apertado de Elwood pela primeira vez e, em poucos planos, Landis dá uma aula de cinema, edição e composição.

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Também oferece algumas das mais impressionantes acrobacias de carros em alta velocidade já testemunhadas. O Bluesmobile (um velho Dodge, carro da polícia, usado pela dupla) é um dos carros mais icônicos do cinema. Mais de três décadas depois, não houve um carro que pudesse superar essa lata velha.

No coração do filme temos duas ótimas performances de Belushi e Arkroyd. Nunca tiveram uma química tão boa na tela, com um timing cômico impecável. Sejam discutindo seus planos em longos takes dentro do Bluesmobile, seja em cima de um palco cantando e dançando. Seus números musicais são simplesmente incríveis. O elenco ainda tem Charles Napier, Carrie Fisher, John Candy e até uma pontinha do Spielberg (que era muito amigo de Landis, até acontecer o que aconteceu aqui).

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Aykroyd e o diretor John Landis voltariam a se reunir mais vezes, inclusive 18 anos depois de OS IRMÃOS CARA DE PAU para uma continuação, inferior, mas ainda divertida e bem mais exagerada, em OS IRMÃOS CARA DE PAU 2000. Dessa vez, sem John Belushi, que morreu em 1982, aos 33 anos, de overdose. No lugar dele, temos o grande John Goodman.

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FUGA ALUCINADA (Dirty Mary, Crazy Larry, 1974)

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Cinco anos após consagrar-se como um dos ícones da contracultura nos anos 60, em filmes como SEM DESTINO e WILD ANGELS, o filho de Henry Fonda, Peter Fonda, retorna às estradas no car chase movie FUGA ALUCINADA. 

Fonda é Larry, um piloto de corrida que sonha disputar as provas da Nascar, mas não tem dinheiro necessário para isso. Contando com a ajuda de seu mecânico, Deke (Adam Roarke), o sujeito furta o cofre de um supermercado de uma pequena cidade e parte em retirada com um Chevy Caprice, tendo em mente que acabou de realizar o roubo perfeito. Mas os planos da dupla começam a escorregar quando Mary, uma garota que Larry deu uma bimbada na noite anterior ao assalto, insiste em fugir com eles.

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O que se segue a partir daí é uma jornada em alta velocidade pelas longas rodovias americanas em perseguições de carro contra a polícia da região. Mesmo quando não estão em fuga iminente, crazy Larry faz jus ao seu nome no título original, realizando manobras desnecessariamente perigosas, como passar entre dois caminhões num espaço apertado ou saltar entre o vão de uma ponte elevadiça. Durante o trajeto, Mary e Larry discutem como se fossem um velho casal, enquanto o pobre Deke tem de ouvir tudo no banco de trás.

Depois de trocar o Chevy por um Dodge Charger, a coisa esquenta ainda mais. Larry sempre afunda o pé no acelerador, seja com vários carros de polícia na sua cola ou apenas um policial, que turbinou seu carro para ir atrás do trio. E até mesmo ao se livrar de um helicóptero Larry comprova ser um grande piloto. Claro que o final niilista típico dos anos 70 os espera num belíssimo e pessimista desfecho.

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Peter Fonda e Susan George têm bastante química em cena, enquanto Roarke trabalha muito bem seu papel. Mas meu destaque vai para o grande Vic Morrow, que interpreta o policial que comanda a tentativa de captura dos três fugitivos. Morrow está excelente como sempre, encarnando seu típico personagem durão disposto a fazer de tudo para realizar seu trabalho.

As sequências de perseguições em alta velocidade são rápidas e bem realistas. A direção de John Hough (A CASA DA NOITE ETERNA) é muito boa nesse sentido, escolhendo com cautela onde colocar sua câmera. Quentin Tarantino é um dos apreciadores do filme e não esqueceu de homenagear FUGA ALUCINADA em seu DEATH PROOF, trabalho que reverencia este tipo de produção, como por exemplo VANISHING POINT e GONE IN 60 SECONDS… FUGA ALUCINADA não fica abaixo de nenhum desses.

CORRIDA CONTRA O DESTINO (Vanishing Point, 1971)

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Em VANISHING POINT, temos Kowalski (Barry Newman), um personagem peculiar, que lutou no Vietnã, foi policial e piloto de corrida e agora trabalha como entregador de carros. Seu serviço mais recente é levar um Dodge Challenger branco (o mesmo carro que Tarantino homenageia em DEATH PROOF) de Denver para São Francisco em apenas dois dias. Para botar ainda mais lenha na fogueira, o sujeito aposta com o seu revendedor local que consegue fazer o percurso muito antes do tempo previsto e pisa fundo pelas estradas!

Correndo em altíssima velocidade, não demora muito para o sujeito chamar a atenção. Os primeiros policiais que tentam pará-lo são botados pra fora da estrada. A partir daí, somos levados ao passado do personagem em flashbacks que mostram o trauma de quando Kowalski ainda era um policial, e provavelmente explica o motivo de tê-los colocado pra fora sem hesitar. Ao longo de todo o filme ocorrem essas “regressões” que evocam diferentes períodos da vida do motorista. O trabalho de edição é um dos grandes atrativos de VANISHING POINT e monta um quebra-cabeça perfeito com a vida do personagem.

Quando a informação do rádio da policia sobre a tal perseguição é captada por um DJ cego chamado Super Soul (Cleavon Little), o protagonista em alta velocidade começa a receber uma ajudinha, além de ter seus 15 minutos de fama. Super Soul “enxerga” a situação como uma metáfora para a liberdade e chama Kowalski de “o último herói americano”. E de certa forma é irônico como o DJ cego torna-se os olhos de Kowalski nas estradas, avisando sobre bloqueios policiais além de inspirá-lo com seu entusiasmo expressivo e com as musicas porretas da época.

Durante o trajeto pelas estradas americanas, Kowalski acaba se deparando com várias figurinhas excêntricas, como o individuo num carrinho estranho que tenta apostar uma corrida e acaba pra fora da estrada, ou o casal gay que pega uma carona e tenta roubar o nosso herói. Ainda há o caçador de serpentes que ajuda Kowalski a se esconder de um helicóptero em pleno deserto e um motoqueiro hippie que além de fornecer um pouco de anfetamina e ter uma namorada que pilota uma moto completamente nua, ajuda-o a passar por um bloqueio policial de forma criativa. É interessante um último e surreal encontro de Kowalski com uma mulher (Charlotte Rampling) que acaba evocando a lembrança de uma namorada que morreu tragicamente alguns anos antes.

Assim como a incrível direção de Richard C. Sarafian, outro elemento que se destaca bastante é o roteiro de Guillermo Cabrera. É escrito com diálogos simples ao mesmo tempo em que tudo acontece de maneira estranhamente poética com algumas sacadas originais, como a brincadeira cronológica do início mostrando o final, deixando bem claro que VANISHING POINT não é apenas virtuosas sequências de ação com carros em alta velocidade, mas realmente existe uma história cativante e uma jornada existencialista, por trás de tudo.