RAPTADO (Kidnapped, 1971)

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O célebre romance de Robert Louis Stevenson, Kidnapped – inicialmente publicado como uma série de histórias em jornais antes de ser lançado num único volume em 1886 – foi adaptado várias vezes para cinema e televisão, as principais sendo em 1948, estrelado por Dan O’Herlihy e Roddy McDowell, e em 1959 com Peter Finch e James McArthur. Nunca assisti a estas versões e por melhores que possam ser, RAPTADO, do diretor Delbert Mann, de 1971, me parece a mais agradável entre as adaptações, já que tem a presença de um desses atores que basta uma pequena participação para me deixar com sorriso no rosto, e no caso deste aqui o ator é Michael Caine encabeçando o elenco…

Durante a eterna guerra entre escoceses e ingleses no século XVIII, no qual as forças escocesas estão sendo aniquiladas por tropas do governo inglês, um rapaz que perdeu o pai, David Balfour (Lawrence Douglas), chega à casa de seu tio Ebenezer (Donald Pleasence) para reivindicar sua herança. No entanto, com a intenção de ter os bens para si mesmo, o velho resolve raptar David e vendê-lo como escravo.

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Prisioneiro em alto mar, o rapaz se vê numa situação complicada. Quando a embarcação se depara com o notório rebelde escocês Alan Breck (Caine), David aproveita a oportunidade para se aliar a Breck e fugir. Eles chegam de volta à costa e buscam refúgio com os parentes do famigerado rebelde, o tio James Stewart (Jack Watson) e a prima, Catriona (Vivien Heilbron). Mas a aventura deles está apenas começando…

Embora entre todas as histórias de Robert Louis Stevenson A Ilha do Tesouro continue sendo sua principal aventura, Kidnapped parece ter sua graça. O roteiro de Jack Pulman para esta adaptação de 1971, no entanto, não se baseia apenas nessa história, mas também em trechos da sua sequência, lançado em 1893, Catriona. E, independente do fato do filme terminar de uma maneira brusca e um bocado pessimista, ainda é uma peça divertida e cuja recriação contextualiza bem o momento histórico que a aventura transcorre.

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Delbert Mann, que recebeu o Oscar de melhor diretor com seu filmes de estreia, MARTY, talvez não fosse o sujeito mais preparado para narrar as peripécias da dupla protagonista, as cenas de ação não empolgam muito e nas mãos de um Richard Fleischer ou John Huston renderiam uma emoção a mais. No entanto, Mann dirige bem os atores, e com o elenco que temos aqui, a diversão é garantida.

Michael Caine está em excelente forma com seu carisma e inesgotável brio de “tough guy“. Há uma sequência em que Caine resolve executar sozinho dois soldados ingleses após se deparar com uma família inteira massacrada. É um dos momentos altos do filme, e se a encenação da luta não é lá grandes coisas, pelo menos o ator demonstra muita presença em cena, matando seus inimigos à sangue frio. Caine certamente ofusca o jovem Lawrence Douglas, cujo papel que faz, David, é um pouco insosso; Donald Pleasence é outro gigante que sempre merece destaque e está genial como o viscoso e dúbio Ebenezer. O elenco ainda conta com o grande Trevor Howard.

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Um dos elementos que mais impressiona em RAPTADO é a bela fotografia de Paul Beeson, que aproveita muito bem as paisagens da Escócia (deixo umas imagens aí em baixo para apreciação). E também as partituras de Roy Budd – junto com a balada romântica de encerramento interpretada por Mary Hopkin. Simplesmente memorável e contribui imensamente para tornar o filme, que está longe de ser uma maravilha, numa adaptação respeitável da obra de Stevenson.

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DERSU UZALA (1975)

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Sobre a sessão de ontem de DERSU UZALA, de Akira Kurosawa, na Cinemateca, na 4º Mostra Mosfilm de Cinema Soviético e Russo, foi uma experiência daquelas assistir a esta belíssima obra na tela grande, à céu aberto, com direito à barraquinhas com bebidas e comidas típicas da Rússia. A mostra vai até hoje e é uma trabalho incrível da CPC UMES Filmes, que os mais habituados aqui do blog já conhecem.

Mas peralá, um filme de Akira Kurosawa, um dos mais reverenciados diretores japoneses, numa mostra de cinema russo? Vamos com calma. Para quem não conhece, DERSU UZALA é uma produção russa, dirigida pelo mestre japonês, o único longa do diretor realizado fora de seu país e talvez o mais importante de sua carreira, representando um renascimento criativo após um tempo sombrio na vida do cineasta. Kurosawa vivia maus momentos no final da década de 60, com o fracasso comercial de DODESKADEN e a falta de financiamento dos produtores para futuros projetos. Isso abalou até a vida pessoal do diretor, que caiu numa profunda depressão que culminou numa tentativa de suicídio no início dos anos 70. Foi com o convite da grande produtora russa, Mosfilm, que DERSU UZALA foi possível.

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Na verdade, o projeto de DERSU UZALA vinha de longa data. Kurosawa tinha planos já na década de 50 para sua produção, mas teve dificuldade em adaptar a história a um cenário japonês, sem imaginar que um dia ele poderia realmente filmá-la na Rússia, com atores russos. O filme é baseado em um livro autobiográfico de Vladimir Arsenev, que narra as suas aventuras explorando territórios selvagens de seu país para realizar um trabalho topográfico na região. Nas mãos de Kurosawa, a aventura ganha o status de poesia existencialista, com um estudo de caráter abordando o impacto que um primitivo de bela alma tem em um sujeito do mundo civilizado. Continuar lendo

DVD REVIEW: O CONTO DO CZAR SALTAN (1966); CPC UMES Filmes

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Fiquei bem feliz quando vi que o lançamento do mês de outubro da distribuidora parceira do blog, CPC UMES Filmes, seria um trabalho de Alexander Ptushko. Para quem não conhece, Ptushko foi o grande mago dos efeitos especiais do cinema russo, considerado o Ray Harryhausen dos lados de lá. Trabalhou, por exemplo, no clássico VIY (1967). Mas acabou vingando também como diretor. E dos bons! Quase sempre trabalhando com cinema fantástico, construiu uma obra rara de contos de fantasia e de cores. O cara sabia pintar com a câmera como poucos, como podem ver nos screenshots que ilustram o post. Entre seus filmes mais famosos estão SADKO (1953, a versão russa do personagem Sinbad), ILYA MUROMETS (1957) e RUSLAN E LUDMILA (1972). Vale destacar também um mais raro, mas igualmente brilhante, FLOR DE PEDRA (1946). O CONTO DO CZAR SALTAN entra fácil no meio desse bolo e agora pode ser conferido em DVD no Brasil através da CPC UMES Filmes.

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A trama é de uma simplicidade tocante, mas repleto de elementos de contos de fada. Foi baseado num poema de Aleksandr Pushkin, inspirado num conto popular russo, e até os diálogos são retirados exatamente como no poema, incluindo as rimas. Uma czarina escolhida a dedo pelo seu czar, o Saltan do título, é traída por suas irmãs invejosas e, juntamente com seu filho, o príncipe Gvidon, é lançada ao mar dentro de um grande barril selado. Acabam aportando numa ilha mágica, onde uma princesa em forma de cisne realiza todos os seus desejos, após Gvidon salvá-la de um feiticeiro na forma de uma águia. Uma cidade mística, um esquilo que produz ouro em abundância, um exército de gigantes que vem do fundo do mar, uma bela princesa com uma joia preciosa brilhando em sua testa… Mas nada disso parece satisfazer o jovem príncipe, que parte numa jornada fantástica em busca de seu pai e ao desmascaramento das farsantes.

Tudo é tratado com muita leveza, até mesmo com uma pegada infantil. Os conflitos são resolvidos seguindo as cartilhas dos contos de fada e a narrativa nunca é truncada. Pelo contrário, o filme é uma delícia. Sobra muito, é claro, o talento de Ptushko em transformar tudo isso numa bela obra de arte, num espetáculo visual de efeitos especiais muito à frente do seu tempo, em composições barrocas extraordinárias e pelo seu gosto impecável por cores fortes que saltam aos olhos a cada segundo.

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Tudo é tão ambicioso, os trajes são arrojados e brilhantes, os cenários são estonteantes, o cuidado com as criaturas que povoam o filme, como animais falantes e os trolls que atacam a cidade do Czar. Tudo é resolvido com muita inteligência, como na cena dos gigantes, em que Ptushko trabalha a perspectiva forçada. Na cena na qual os gigantes atacam um navio, o diretor usa planos com uma embarcação em tamanho real e gigantes em sobreposição de imagens, intercalando com outros planos com gigantes de tamanho normal e um navio em miniatura com bonecos no interior. O resultado é sensacional.

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Mesmo que hoje seja muito fácil identificar essa trucagem toda, a magia de O CONTO DO CZAR SALTAN permanece intacta e admirável. Até mesmo as crianças de hoje, desmamadas com efeitos em CGI ultra modernos, podem se encantar com o visual e a história. Portanto, recomendo muito para crianças, jovens e adultos que ainda possuem sensibilidade para se maravilhar com uma pequena obra de fantasia, mas grandiosa artisticamente.

O CONTO DO CZAR SALTAN foi lançado este mês de outubro pela CPC UMES Filmes e já está disponível na sua loja virtual. Uma distribuidora que vem fazendo um dos melhores trabalhos de curadoria home video, com filmes que realmente valem a pena ter na estante. E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

BAT*21 – MISSÃO NO INFERNO (1988)

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Voltando ao Gene Hackman casca-grossa dos anos 80. Recapitulando, já falamos aqui de DE VOLTA PARA O INFERNO, ENTREGA MORTAL e O ALVO DA MORTE. Ainda vou comentar mais uns três ou quatro, mas por enquanto vamos de BAT*21 – MISSÃO NO INFERNO.

Curioso é que em 2001 tivemos um filme – mediano, pelo que me lembre – chamado ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS, dirigido por John Moore, no qual Gene Hackman é um almirante que mantém comunicação com o personagem de Owen Wilson ajudando-o a encarar os desafios de estar sozinho literalmente em território inimigo numa guerra. Já este BAT*21, de Peter Markle (VEIA DE CAMPEÃO), é o Hackman quem passa uma situação difícil, vivendo um tenente coronel na Guerra do Vietnã que tem o seu avião abatido por um míssil e acaba sendo o único sobrevivente numa região repleta de soldados vietcongues.

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Hackman é Hambleton, um especialista em armas que tem informações que os vietcongues desejam, e eles sabem que o sujeito está vivo em suas florestas após abaterem seu avião. A coisa esquenta ainda mais, pois Hambleton sabe também que a área em que ele se encontra está prestes a ser bombardeada pelos americanos e por isso precisa sair dali urgentemente. Trabalhando com um piloto de reconhecimento da Força Aérea que sobrevoa o local, o capitão Bartholomew Clark (Danny Glover), eles mapeiam uma rota de fuga antes que seja capturado ou que vá pelos ares…

Baseado num livro de William C. Anderson, a partir de uma história verídica (embora um bocado diferente, já que na época das filmagens o fato ainda era classificado como confidencial), BAT*21 é eficiente ao mostrar um tenente coronel, cuja participação em guerra se dá mais em planejamentos atrás de uma mesa do que combatendo em campo, encalhado no meio da selva rodeado de inimigos. Ajuda muito, portanto, um ator de peso como Hackman em convencer a transformação do seu personagem, que acaba forçado a se defender – e a matar – para manter a pele intacta.

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E esse talvez seja o ponto mais notável de BAT*21, que não é um filme de guerra com ação exagerada e que nunca tenta glorificar soldados americanos no Vietnã. Em vez disso, mostra uma aventura de perspectiva mais humana, o que acaba sendo bem mais contundente quando se trata de perdas de vidas, do ato de matar, e como esse tratamento torna alguns momentos bem mais brutais. Como toda a sequência em que os vietcongs capturam dois pilotos de helicópteros que tinham objetivo de resgatar Hambleton. Mas quando os tiros precisam comer solto, o diretor Peter Markle manda bem em criar um espetáculo explosivo, classudo e truculento. Continuar lendo

THE LOST CITY OF Z (2016)

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São raros agora, mas ainda bem que temos, atualmente, um James Gray fazendo filmes que nos despertam tanto prazer e encantamento por suas obras. Gray, Michael Mann, Johnnie To… Brisseau, Verhoeven, De Palma e Miller, quando conseguem filmar… David Lynch com essa nova temporada de TWIN PEAKS. Enfim, o número de diretores que ainda me causam um fascínio puro são poucos nos nossos dias. Poderia citar alguns outros, mas não me ocorre agora. Quero falar do Gray e seu novo trabalho, THE LOST CITY OF Z, que me arrebatou essa semana.

Gray faz filmes que são considerados regressões, clássicos, anacrônicos… Adjetivos que no fim das contas o torna um dos mais modernos diretores da atualidade. Mas é também parte da razão pela qual ele ainda não teve um verdadeiro sucesso com o grande público mesmo trabalhando com gêneros populares, como o crime movie, o policial e agora com aventura em THE LOST CITY OF Z.

O que é uma pena… A cada filme eu fico impressionado com a habilidade de Gray em contar histórias moralmente complexas com uma verdadeira sensação de beleza cinematográfica, e, ao lado de Mann, se tornou um dos meus cineastas favoritos nos últimos 20 anos em solo americano. Estreou com uma obra-prima, LITTLE ODESSA (94) e já emendou a porrada que é THE YARDS, tragicamente subestimado, e alguns anos mais tarde, o policial dos anos 80 WE OWN THE NIGHT, que é o meu favorito do homem e um dos melhores filmes da década passada (só perde pra MIAMI VICE e talvez pro MARCAS DA VIOLÊNCIA). Depois continuou no mesmo nível com os belíssimos AMANTES e A IMIGRANTE.  Mas, com THE LOST CITY OF Z, Gray sai um bocado da sua zona de conforto, da sua Nova York, e cria uma história assombrosa de aventura, família e loucura potencial. Dificilmente eu vou assistir a um filme tão grandioso este ano…

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Charlie Hunnam talvez não seja o melhor ator do momento, mas até que Gray extrai dele uma ótima presença. O sujeito vive Percy Fawcett, um oficial de artilharia britânica, do início dos anos 1900, que foi recrutado pela Royal Geographical Society para explorar a Amazônia, a fim de criar um mapa que estabelecesse a fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Uma vez lá, o sujeito fica obcecado por encontrar uma cidade antiga que lhe foi descrita por tribos indígenas locais, que mais tarde seria conhecida como El Dorado. Com o interesse pessoal e o forte apoio de sua esposa, maravilhosamente desempenhada por Sienna Miller, Fawcett retornaria à selva em sete ocasiões distintas (o filme se condensa a três), e nunca mais voltaria para casa depois da última jornada.

Esses eventos foram relatados no livro The Lost City of Z pelo jornalista David Grann, e Gray, ao adaptar o material para a tela, recria uma aventura aos moldes dos antigos clássicos de aventura de um John huston, David Lean, mas com tons de Herzog de AGUIRRE e FITZCARRALDO. A fotografia é inegavelmente surpreendente. Filmado em 35mm, num widescreen 2,35: 1, pelo diretor de fotografia Darius Khondji, em nova perceria com Gray após A IMIGRANTE, LOST CITY OF Z possui uma gloriosa riqueza visual em cada imagem, cada frame que me deixou maravilhado em vários momentos. A luz natural da selva é capturada de forma graciosa e as sequências passadas na Europa é de uma exuberância sem igual, como por exemplo a cena da última despedida de Fawcett de sua família rumo a sua jornada final. Ninguém filma o céu como Gray no cinema atual.

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O elenco de apoio inclui várias excelentes performances, como a de Robert Pattinson, Tom Holland (o novo Homem-Aranha), o grande Angus MacFadyen, que há muito tempo não era bem aproveitado, Ian McDiarmid, além da pequena participação de Franco Nero, que me fez sorrir por um bom tempo durante o filme.

LOST CITY OF Z  tem duas horas e vinte minutos de projeção, mas se Gray quisesse alongar o filme por mais umas duas horas eu continuaria sem piscar, só admirando as suas imagens. É curioso pensar que, apesar da aparência de super-produção, o filme teve contribuição financeira através de vários investidores independentes, com a Amazon Studios fazendo um lançamento discreto nos cinemas no mês de abril. Num mundo justo, teria sido lançado em período de premiações e receberia várias indicações. O que não faria diferença alguma. O mundo sendo justo ou não, já temos o nosso melhor filme de 2017.

RAIZES DO CÉU (Roots of Heaven, 1958)

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Em meados dos anos 40, ainda durante a Segunda Guerra, o diretor John Hunston  estava em Los Angeles finalizando algum de seus documentários filmados em campo de batalha. Huston, ao lado de John Ford, Frank Capra, William Willer e outros, contribuiu com o exército americano registrando imagens da guerra. Enfim, o fato é que neste período em que estava em LA, Huston passava os dias entre o trabalho e um bocado de festas. Segundo as palavras do próprio diretor, “Tendo acabado de voltar ao trabalho com heróis de verdade, não estava com vontade de aguentar a subespécie cinematográfica. Foi com essa disposição e ânimo que encontrei Errol Flynn parado no saguão durante uma recepção na casa de David O. Selznick“.

Flynn estava já com um copo de uísque na mão, como lhe era habitual. Devia ter enchido a cara… E Huston conta que o sujeito andava a procura de confusão. Não demorou muito, Flynn chamou a mulher que Huston estava paquerando na época de alguma coisa não muito agradável, Huston retrucou sem muita gentileza e ambos acabaram procurando um local mais isolado, ao fundo dos jardins, para chegarem às “vias de fato”.

Essa história é uma das melhores entre as tantas que Huston conta em sua biografia e que vale a leitura de cada palavra, cada linha, cada descrição… Mas, para resumir, a luta entre Errol Flynn e John Huston realmente aconteceu neste dia, ambos eram pugilistas e trocaram socos violentos por quase uma hora, sem golpes sujos e tudo dentro das normas do Marquês de Queensberry, ou seja, as regras oficiais do boxe. Detalhe que foi visto com grande decência para ambos oponentes.

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Errol Flynn vive um boxeador em GENTLEMAN JIM, de Raoul Walsh

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Nos anos 70, o diretor John Huston mostra a Stacy Keach como se faz em CIDADE DAS ILUSÕES

A coisa foi  tão respeitosa entre os dois que, na manhã seguinte, Flynn ligou para Huston para saber como o diretor estava passando (só para constar, o ator foi parar no hospital com algumas costelas quebradas). Todo esse respeito fez com que Huston tivesse sempre Flynn em alta estima. No fim dos anos 50, o diretor foi escalado para dirigir um filme na África em que um dos atores contratados era Errol Flynn. “Ele apareceu logo depois da nossa chegada e nós dois nos apertamos as mãos. Era o nosso primeiro encontro desde aquela noite sanguinolenta séculos atrás“. O filme: RAÍZES DO CÉU.

Quando fez RAÍZES DO CÉU, Errol Flynn estava muito longe de ter aquela imagem que o imortalizou nos filmes de aventura dos anos 30, vivendo heróis como Robin Hood e Capitão Blood. E não apenas por estar mais velho, mas pela seu notório problema com o alcoolismo. Em 1958, Flynn abandonou uma peça de teatro antes da estreia por alegar que era um veículo pobre e banal, mas também porque a essa altura ele era incapaz de memorizar suas falas e sua atuação era deplorável. Ganhou uma chance de Zanuck quando lhe ofereceu uma participação em RAÍZES DO CÉU justamente para fazer o papel de um bêbado…

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Já era a terceira vez em seguida que Flynn interpretava um bêbado, desta vez encarnando o Major Forsythe, um desertor britânico que se junta a um grupo de aventureiros – alguns deles bem oportunistas – para seguir o idealista Morel (Trevor Howard) nos seus esforços de preservar os elefantes africanos e impedir que sua caça aconteça.

Tanto o homem do dinheiro, Zanuck, quanto o diretor John Huston ficaram interessados no romance do francês Romain Gary e decidiram tocar o projeto juntos. No entanto, a expedição da equipe de filmagens em território africano resultou numa saga desastrosa com elenco e equipe tentando mais sobreviver à experiência do que no resultado do filme. Temperaturas altíssimas e doenças tropicais tomaram uma boa parcela de tempo da produção… O ator Eddie Albert, por exemplo, teve um colapso e delirou por vários dias. E Flynn se fortificou, obviamente, com suas doses de vodka e outros drinks, administrando sua aventura diante de qualquer contratempo que lhe pudesse ocorrer. Tanto que, em sua autobiografia, Flynn comenta que foi o filme que mais gostou de fazer acima de qualquer outro… Continuar lendo

O RIO DAS ALMAS PERDIDAS (River of No Return, 1954)

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O primeiro que enjoar das postagens com o Robert Mitchum vai ser a mulher do padre… Até porque depois que se mergulha de cabeça na obra deste estupendo ator fica difícil parar. É como um vício. Mas um dos bons, saudável, recomendável aos amantes de boas atuações. E, neste ofício, Mitchum foi um dos grandes… Quiçá o maior… Se cuida, Lee Marvin!

O RIO DAS ALMAS PERDIDAS foi o último que vi estrelado por Mitchum.

Dirigido pelo gênio Otto Preminger, o filme é um western de aventura que se passa durante a famigerada corrida do ouro do final do século IXX. O fazendeiro Matt Calder (Bob Mitchum), que vive em uma fazenda remota com seu jovem filho Mark, ajuda um casal que perde o controle de sua jangada num rio nas proximidades. Um deles é Harry Weston, um jogador profissional que está tentando chegar à cidade mais próxima o mais rápido possível para registrar uma reivindicação de uma mineiradora que ele alega ter ganho em um jogo de poker. Sem cavalo, achou que a melhor maneira era descer o perigoso rio de jangada… Junto dele, sua namorada, a bela Kay (Marilyn Monroe), uma cantora de salão.

Quando Calder se recusa a deixar Weston “pegar emprestado” seu único rifle e seu único cavalo para seguir viagem, o clima fica pesado entre os dois. O local é cercado de índios e é o rifle de Calder que protege ele e seu filho dos peles-vermelhas. Além disso, o cavalo é seu “instrumento” para arar a terra nas suas plantações… Mas, como sabemos, Weston precisa urgentemente chegar à cidade mais próxima. Demonstrando ser um grandessíssimo filho da puta, o jogador acerta a cabeça de Calder e parte montado no animal levando o rifle do protagonista embora. A trairagem foi tão grande que até Kay resolve ficar para trás.

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Incapazes de se defender de um iminente ataque índio, Calder, seu filho e Kay só vêem na jangada e nas perigosas águas do rio o único meio de manterem a pele intácta. E assim, a aventura de O RIO DAS ALMAS PERDIDAS começa, com esse improvável trio tentando sobreviver às correntesas do rio com a jangada e aos eventuais ataques de índios. E só um pensamento que dá força a Calder nessa jornada: vingança.

Parece divertidão, não é? Uma montanha-russa em forma de filme de aventura. Pois é, o produtor do filme, Stanley Rubin, também achava que deveria ser assim. No entanto,  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS é bem mais complexo, intimista e reflexivo do que parece. E grande parte dessa lógica de aventura descompromissada se perde graças a Otto Preminger.

Na ocasião, Rubin achava que Preminger teria sido uma escolha equivocada. Queria alguém mais ligado a aventuras mais rotineiras, alguém que já tivesse dirigido western, algo que Preminger nunca tinha feito. Rubin queria mesmo o grande Raoul Walsh, que já era célebre por balancear filmes escapistas com um bocado de substância… Mas o chefão da Fox, o lendário Darryl F. Zanuck, precisava arranjar um projeto rápido para Preminger, porque já estava pagando um sálario astronômico na época de 2.500 dólares por semana com o sujeito trabalhando ou não. Preminger, a princípio, não queria saber muito de  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS, mas aceitou na boa após ler o roteiro e perceber que poderia explorar alguns conceitos, tanto estéticos quanto humanos com aqueles personagens. O que gerou certo desconforto entre Stanley Rubin e o diretor, que sempre teve fama de autoritário. Continuar lendo

MORTAL KOMBAT (1995)

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Depois de assistir a SHOPPING, filme de estreia de Paul W. S. Anderson que eu comentei aqui outro dia, coloquei como missão neste início de ano rever todos os filmes do diretor e, obviamente, conferir o que não assisti ainda. Tô cagando se o cara é mal visto em alguns círculos… Vou ver mesmo assim. Então me deparei já de cara com MORTAL KOMBAT, que é o segundo trabalho do sujeito. Nem me lembro da última vez que vi essa tralha, mas lá nos meus doze, treze anos, era um verdadeiro espetáculo! Não era assim um grande fã do jogo (preferia Street Fighter), mas dava os meus “Fatality” de vez em quando. Além disso, não perdia uma Sessão Kickboxer, na Band…Bons tempos… Como basicamente, no fim das contas, MORTAL KOMBAT não deixa de ser apenas um filme de luta, era o paraíso um garoto da minha idade deparar-se com uma obra desse quilate.

Mas estava ainda com receio de saber como seria assistir hoje… Na época do lançamento, me lembro do filme ser recebido por muitos como a grande adaptação de videogame para o cinema. Tá certo que a concorrência não era das melhores… o que é aquele filme do Super Mario? E não vou nem falar nada do STREET FIGHTER, com JCVD… O fato é que Paul W. S. Anderson e sua turma conseguiram realmente captar a essência do jogo e combinar com certa perspicácia dentro de uma linguagem de cinema tudo aquilo que um fã de MK poderia almejar. Scorpion dizendo: “Get over here!“, Sub Zero congelando pessoas, Shang Tsung dizendo “Flawless Victory!” e “Finish Him!“, Goro com seus quatro braços destroçando seus adversários, Johnny Cage deixando sua foto autografada após uma peleja, etc, etc, etc… Tá tudo aqui!

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Portanto, revê-lo agora depois de tantos anos apenas confirmou a grande adaptação que é. Não que o resultado seja a oitava maravilha do universo do cinema… Longe disso, continua sendo uma tralha. Mas em termos de adaptação o filme merece seus elogios por conseguir manter os traços característicos do jogo na narrativa.

Além disso, é bem divertido como filme de fantasia e artes marciais. Algumas lutas são realmente bacanas, bem coreografadas e Anderson tem excelente noção de como utilizar os cenários, os espaços, na interação com os combates e os poderes dos personagens. Toda a sequência do confronto entre Cage e Scorpion, por exemplo, é de um cuidado que impressiona, tanto na manipulação dos ambientes quanto na encenação física, na trocação de socos e pontapés entre os personagens. De uma riqueza visual notável! A coisa começa em uma floresta conspícua e totalmente simétrica, com Scorpion lançando sua famosa “corrente” sobre o pobre Johnny, que não tem defesa, exceto fugir e arranjar uma solução para contra-atacar. Depois os dois são transportados a uma espécie de porão infernal onde o pau come de verdade… É disparado a melhor sequência de MK. É legal que em alguns momentos Anderson tenta realmente recriar os enquadramentos do jogo, o que torna tudo tão familiar e fascinante, como no confronto entre Liu Kang e Sub-Zero.

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MORTAL KOMBAT possui boa produção, com efeitos especiais decentes para o período (a concepção do Goro é simplesmente incrível), exceto algumas cenas de CGI que já na época eram ridículas e acabaram ficando muito datadas. O elenco é muito bom, a maioria dos atores não são apenas competentes, como Robin Shou (Liu Kang) e Linden Ashby (Johnny Cage), mas também representações físicas bastante precisas de seus personagens no jogo. Destaque para Christopher Lambert como Raiden, cheio de gracinhas constrangedoras, mas que me racham de rir, e o grande e expressivo Cary-Hiroyuki Tagawa fazendo o feiticeiro Shang Tsung, sempre um deleite vê-lo como vilão. O elenco ainda tem Trevor Godard, como Kano, Bridgette Wilson fazendo Sonya Blade e Talisa Soto encarnando a Kitana.

Só acho uma pena a classificação PG-13 para a adaptação de um jogo que abusava da violência gráfica, dos famigerados “Fatality” sangrentos. MORTAL KOMBAT é bem limpinho e a violência é praticamente zero. Não estraga a diversão, mas para os fãs mais xiitas e admiradores de um gore, a coisa fica a desejar. O filme possui alguns outros problemas mais estruturais, o próprio fio condutor do entrecho, o torneio de lutas, é mal explicado, nunca sabemos quem luta com quem, onde e quando; há momentos que é numa arena com público, em outros parece que os lutadores estão num universo paralelo completamente sozinhos. Pode ser relevado, mas são coisas que poderiam ser melhor exploradas. E não vou entrar em muitos detalhes sobre a trilha sonora… Uma insuportável batida eletrônica que é simplesmente um horror…

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Torto e falho em alguns pontos sim, mas MORTAL KOMBAT continua sem dúvida alguma uma das mais admiráveis adaptações de video-game para as telas de cinema e um competente exemplar de artes marciais dos anos 90, que envelheceu muito bem, dependendo do seu gosto pra esse tipo de filme… MK ainda teve mais duas continuações, mas esses eu não tenho coragem ainda de me aventurar tão cedo. Já tinha achado ruin na época e acho que não vai ser agora que vou mudar de opinião.

HERCULES IN NEW YORK (1969)

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Tirei o último fim de semana para conferir alguns debut. Eu nunca tinha visto esta estreia de Arnold Schwarzenegger no cinema, ainda creditado como Arnold Strong… Acho que ninguém botava muita fé no segundo nomezão do sujeito, quem iria prever que se tornaria um dos maiores astros do cinema de ação casca-grossa de todos os tempos? Ainda mais com este HERCULES IN NEW YORK, que é uma baita furada como filme de estreia. Não sei se o então Mister Universo se orgulha muito deste seu primeiro papel, mas é um espetáculo de cenas sem pé nem cabeça, péssimas atuações e um roteiro sem vergonha, que só teria valor mesmo como curiosidade dos fãs do sujeito… Se bem que eu tenho uma queda pelo ridículo, como vocês sabem, então acho que o filme tem lá sua graça.

Arnie, obviamente, é o Hércules do título. O filme começa com o personagem ainda no Monte Olimpo queixando-se a seu pai Zeus que gostaria de ter uns momentos de diversão na Terra. Zeus é contra a essa ideia, mas Hércules acaba indo assim mesmo, para o desgosto do Pai dos Deuses, e se mete em altas confusões… Especialmente depois de fazer amizade com o baixinho Pretzie (Arnold Stang), se meter com gangsters e se tornar um lutador de wrestler profissional! Sim, porque é exatamente isso que Hércules faria se fosse para Nova York… Não demora muito, Zeus fica chateado, achando que Hércules está fazendo uma imagem errada dos deuses e tenta de qualquer maneira fazer com que ele volte para o Monte Olimpo. Sendo assim, ele envia Mercúrio e eventualmente Nemesis para lidar com a situação, mas as coisas vão sempre de mal a pior.

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E aí um monte de bobagens acontecem com o ingênuo Hércules, do tipo que é difícil imaginar algum realizador levando isso a sério, como na cena em que Hércules encara um urso fugido do zoológico num parque qualquer, por exemplo. É impossível não notar que o animal é claramente um sujeito vestido de urso e ninguém faz esforço algum para esconder isso. Só Arnie parece se esforçar e aproveitar mais um momento pra flexionar seus músculos mais uma vez, que é o tour de force da performance de Arnie, a dramaturgia do bíceps…

Qualquer oportunidade que o cara tem para tirar a camisa ele o faz. Porque essa é a sua arte, sua forma de se expressar. Dizem que para conseguir o papel por aqui, o agente de Arnie convenceu os produtores de que ele tinha experiência em palco… E é claro que tinha, mas como halterofilista, não com arte dramática. O sujeito subia num palco e exibia o peitoral, só viria recitar Shakespeare em 1993 em O ÚLTIMO GRANDE HERÓI numa cena antológica. Portanto, é esse conceito que temos que ter em mente numa de suas cenas mais patetas por aqui, quando ele arranca a camisa em plena Nova York apenas para se comparar ao cartaz de um filme do Hércules passando nos cinemas… Que atuação! Haha!

Vale destacar que Arnie foi dublado, o que torna tudo ainda mais bizarro… O sujeito é, sem dúvida, o melhor espécime possível para sequências como a do duelo de levantamento de pesos, ou a  cena que conduz uma carruagem ao estilo BEN HUR em plenas ruas da maior cidade do mundo numa perseguição alucinante (e muito mal decupada!) ou quando pratica wrestling em um “urso”… Enfim, é evidente que a escalação de Arnie em HERCULES IN NEW YORK foi puramente pelo aspecto físico. Mas até que Schwarzenegger exibe um mínimo de carisma e me parece legítima e honesta a maneira como aproveita essa sua primeira experiência, sem medo de fazer uma caricatura de si mesmo, o grande Mister Universo do período.

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É preciso fazer menção de algumas sequências do mais alto grau de surrealismo, como todas que se passam no fajuto Monte Olimpo, que mais parece ser situado num jardim emprestado por alguma biblioteca ou algo do tipo. Mas o melhor desses trechos são as terríveis atuações, que fazem o próprio Schwarzenegger aqui merecer um Oscar pelo seu desempenho. Uma das cenas mais “geniais” é quando Zeus manda ajuda a Hercules,  Atlas e Sansão, duas figuras carimbadas dos pepla italiano que aparecem do nada, no meio de uma confusão, para ajudar Hercules que perdeu seus poderes, e não dá conta de uma dúzia de gangsters… Desses momentos que de tão constrangedor acaba por ser também hilário!

É aquele negócio, HERCULES é uma diversão tola, que tem que ser visto com muito bom humor, por mais ínfimo e vagabundo que seja. Vale a pena, nem que seja para dar boas risadas dos micos de início de carreira de um dos astros mais populares do cinema pós anos 80…

MESTRES DO UNIVERSO (Masters of the Universe, 1987)

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Comprei recentemente o dvd nacional de MESTRES DO UNIVERSO, de Gary Goddard e com o Dolph Lundgren, a famigerada adaptação da Cannon do desenho animado dos anos 80, HE-MAN, que nos importunava na infância. Uma das lembranças que eu tenho quando assisti a esta versão para o cinema pela primeira vez – e isso foi ainda nos anos 80, em VHS – foi de que essa merda não tinha nada, absolutamente NADA a ver com o desenho que via todas as manhãs na globo. O que não significa muita coisa, já que abracei a causa do mesmo jeito e curti essa bizarrice brega pra cacete como se não houvesse amanhã… Ao longo dos anos fui revendo, sempre com variadas mudanças de opinião. Na maioria das vezes achava a coisa mais ridícula do mundo! Mas hoje retorno ao meu gosto de infância e me divirto à valer com essa bagaceira.

Convenhamos também que o desenho, embora fosse legal assistir com 6 anos, era muito bobo e haviam outros exemplos de aventura com muito mais profundidade, substancia e bem mais divertidos que HE-MAN, como os THUNDERCATS e o sensacional SILVERHAWKS. Quero dizer, não estamos falando de uma adaptação de um Dostoiévski ou Kafka, mas de um cartoon criado com o único objetivo de vender bonecos, ou seja, ninguém deveria estar preocupado com a maldita fidelidade na adaptação, se mudaram a história ou os personagens principais, que se dane! Contanto que seja divertido, estamos aí… E eu diria que MESTRES DO UNIVERSO consegue isso.

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Mas enfim, a trama é a mais simples possível. O Esqueleto (sempre excelente Frank Langella) finalmente conquistou o Castelo de Greyskull e seu exército toca o terror no reino de Eternia. Os rebeldes resistem liderados pelo homem de cueca, He-Man, que não dá moleza com sua espada, fonte de grande poder e que Esqueleto almeja colocar as mãos… Er… Esqueleto quer botar as mãos na espada do He-Man… Acho que isso soa meio estranho, mas basta não pensar muito, vamos levar a coisa de modo literal.

Há também um anão, chamado Gwildor, que inventa um chave cósmica que abre portais para qualquer lugar nos confins do universo. Em determinado momento, os heróis ficam encurralados e numa tentativa de escapar acabam abrindo um portal para algum lugar qualquer… Uma cidadezinha nos Estaos Unidos… Para variar. Definir que a história vai se passar quase totalmente na terra é, naturalmente, uma simples questão de orçamento. Quanto menos cenários interplanetários construídos, menos gastos em efeitos especiais e decoração. Portanto, a aventura é transportada para a Terra em 1987, com todos os aparatos visuais e sonoros que só aquele período foi capaz de nos proporcionar.

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De alguma forma, a tal chave cósmica vai parar nas mãos de um aspirante a rockstar estúpido e sua namoradinha, interpretada por uma jovem Courtney Cox. Esqueleto, que também possui uma dessas chaves, envia seus mercenários para terra para pegar a outra chave cósmica e levá-la de volta… Mas He-Man está lá com Mentor (Jon Cypher) e Teela (Chelsea Field) para atrapalhar a vida de esqueleto. E para compor ainda mais o brilhante elenco, temos Meg Foster como Maligna.

Para ser honesto, toda essa historinha de chaves cósmicas e viagens intergaláticas em portais é o que menos interessa em MESTRES DO UNIVERSO. Posso garantir pelo menos que não é uma trama chata, sempre se mantém em movimento com boa energia pra durar noventa minutos. E toda vez que se ameaça deixar a peteca cair, uma nova sequência de ação ou uma bobagem com efeitos especiais surge em cena pra nos entreter cada vez mais. E o que realmente importa em MESTRES DO UNIVERSO são os pequenos detalhes excêntricos que me fazem sorrir durante a sessão, não importa se fazem sentido ou não… Adoro, por exemplo, a cena em que os mercenários contratados para irem à Terra são apresentados:

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É o efeito sensorial e nostálgico, é ver um He-Man de carne e osso matando à vontade seus inimigos com pistolas de raio laser ou com sua espada, é a galeria de personagens em maquiagens esquisitas… E isso tudo é espetacular! Todas as cenas de ação são recheadas de lasers, faíscas e fumaça, lutas grosseiras, tudo filmado numa simplicidade, exagero e imediatismo que às vezes sinto falta no cinema de ação atual, onde só querem saber de realismo, realismo e câmeras chacoalhando…

Só a cena em que He-Man usa uma espécie de skate voador fugindo e perseguindo asseclas do Esqueleto é mais emocionante que 80% dos filmes de ação atual. A sequência final também é um deleite, com algumas sacadas de iluminação de encher os olhos, especialmente no duelo final entre He-Man e Esqueleto, com o cenário em penumbra dando destaque aos dois inimigos mortais. Sem contar que MESTRES DO UNIVERSO faz cópia descarada de vários elementos de STAR WARS, desde tiroteios com armas lasers ao uniforme dos soldados de Esqueleto, cujos capacetes são praticamente cópias do visual de Darth Vader.

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Apesar do que eu disse lá em cima sobre orçamento, o de MESTRES DO UNIVERSO não era dos piores para um filme da Cannon… Uma tentativa frustrada e arriscada da dupla Golan e Globus em salvar a produtora que no final da década de 80 já andava mal das pernas. Obviamente os fracassos de bilheteria deste e alguns outros, como SUPERMAN 4,  acabaram por levar a produtora à falência em poucos anos. No entanto, percebe-se que o dinheiro foi bem gasto por aqui em cenários, efeitos especiais, maquiagem e vestuário. Claro, tudo irremediavelmente oitentista,  uma época em que bom gosto não era nada e néon era tudo.

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Ainda bem que as modas passam e sobra o saudosismo. O filme hoje é salvo por esse encantamento nostálgico, pela energia honesta em se fazer uma aventura bem movimentada e divertida, sem muita frescura, e por ter Dolph Lundgren em seu primeiro papel de herói no cinema, a melhor personificação de He-Man que eles poderiam ter encontrado na época. E até que o sueco se sai bem, com pouquíssimas falas e boa presença, especialmente nas cenas de ação.

Outro destaque óbvio é Frank Langella como esqueleto. O próprio ator considera o personagem como um de seus favoritos, e é perceptível, por mais sinistro que esteja, o sujeito se divertindo na atuação, olhando diretamente para câmera usando uma maquiagem horrível! Langella não tá nem aí em soar ridículo e seu Esqueleto transcende ao sublime. Mas um dos personagens que mais gosto é o detetive Lubic, vivido por James Tolken, o diretor careca da escola de DE VOLTA PARA O FUTURO. O cara tá engraçadíssimo como tira durão que cai de para-quedas nessa aventura intergalática. E o melhor de tudo é vê-lo entrando na ação, com uma escopeta, atirando nos mini Darth Vaders. Simplesmente sensacional.

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MESTRES DO UNIVERSO não é nenhuma obra-prima, deixando isso bem claro, nem mesmo um clássico esquecido, até porque entendo perfeitamente quem acha o filme uma merda e decidiu colocá-lo no limbo. Mas acho divertidíssimo e faria uma bela sessão dupla com FLASH GORDON dos anos 80, outra adaptação bem legal, mas renegada e que merecia, pelo menos, uma reavaliada dos detratores. Havia uma época que rolava notícias de um projeto para um novo filme do He-Man, que seria até dirigido pelo John Woo, mas já faz um bom tempo que não se fala mais nisso… Talvez até seja melhor que continue assim.

DEATHSTALKER (1983)

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DEATHSTALKER é uma típica aventura Sword and Sorcerer oitentista, realizada para ganhar dinheiro durante o aumento da popularidade do gênero estimulado em grande parte pelo sucesso comercial de CONAN – O BÁRBARO (81), de John Milius. O que se viu realmente foi o surgimento de uma safra de exemplares que variavam tanto em qualidade quanto em orçamento. E no caso deste aqui, coitado, a coisa fica complicada em ambos contextos…  Mas quando era moleque, meu pai apareceu com o VHS de DEATHSTALKER em casa para assistirmos, embora eu tenha total convicção de que ele não fazia ideia do conteúdo da obra. Provavelmente foi enganado pela capa, que tem a belíssima arte do Boris Vallejo, ou deve ter pensado que era do nível de um CONAN, GUERREIROS DO FOGO, BEASTMASTER ou alguma outra das boas aventura Sword and Sorcerer da época… Enfim, o negócio é que o filme é uma tralha das mais vagabundas do gênero, com uma violência grotesca, bizarrices doentias e absurdas e muita, mas muita mulher pelada balançando a bunda na tela… Não era mesmo muito recomendável para um moleque na minha idade.

Mas assisti. E apesar de toda estranheza do mundo, adorei! Acabou que, de alguma forma, DEATHSTALKER, um filme praticamente esquecido atualmente, fez parte fundamental da minha formação cinéfila (a quantidade de vezes que assisti aquele VHS só pra ver tetas de fora não é brincadeira). É curioso retornar ao filme depois de tanto tempo, quase vinte anos, acompanhar novamente a jornada do anti-herói, o guerreiro aventureiro apresentado como Deathstalker (Rick Hill), que lhe é encarregado a missão de resgatar uma princesa no castelo de um perigoso feiticeiro conhecido como Munkar (Bernard Erhard). E o melhor de tudo é notar como essa porcaria continua divertidíssima!

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Mas vamos conhecer um pouco melhor quem diabos é esse tal de Deathstalker. A cena em que o sujeito nos é apresentado é bastante emblemática e resume bem toda a construção psicológica do personagem. O filme começa com um indivíduo que sequestrou uma garota e a levou para umas ruínas no meio de uma floresta, mas acaba cercado por um bando de trolls. Surge então um guerreiro de cabelos louros e braços fortes, ui!, para salvar o dia. Agora, vejamos:
1. Primeiro, o guerreiro derrota sozinho o bando inteiro de trolls. Ou seja, ele é fodão.
2. Não satisfeito, ele mata também o sequestrador de mulheres que acabou de salvar a vida. É um homem íntegro.
3. Mas ao invés de libertar a moça, agora livre dos trolls e de quem a capturou, nosso herói tenta a sorte em… Er… ele arranca a roupa da moça e começa a apalpá-la esperando uma recompensa. No seu subconsciente de paladino da justiça, não ia matar esse monte de gente por nada, ora pois…  Bem, o sujeito não é tão íntegro assim, afinal, mas tá aí o Deathstalker e já deu pra perceber o nível do “herói” que temos aqui.

Por sorte, a tentativa de Deathstalker em fazer “amor medieval” é interrompida por um velho empata-foda que o convoca numa audiência na presença do Rei local, que lhe relata uns problemas. Seu trono foi usurpado pelo tal feiticeiro Munkar e sua filha é mantida prisioneira no castelo. Então, o Rei precisa de um bravo guerreiro corajoso suficiente para encarar o usurpador e matá-lo. Simples assim. E o homem que fizer esse feito será bem recompensado. Mas, Deathstalker não está muito interessado, como demonstra no diálogo que se segue:

Um homem corajoso poderia entrar no castelo e matar Munkar! – Especula o Rei.
Você precisa de um tolo. – Responde Deathstalker.
Não! Preciso de um herói!
Heróis e tolos são a mesma coisa…

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É, Deathstalker não tem nada a ver com isso e tá cagando pro Rei, pro trono e pra filha dele – mesmo sendo interpretada pela cocota Barbi Benton, uma playmate do período. Quero dizer, o período aqui é os anos 80, não o período que o filme se passa… Acho que ainda não havia revista de mulher pelada nos tempos de DEATHSTALKER. Enfim, o sujeito sobe no cavalo, dá de ombros ao Rei e vai embora… No entanto, o filme entra num momento um bocado confuso. Deathstalker visita uma bruxa velha que lhe fala dos Três Poderes da Criação. São três artefatos que juntos podem tornar uma pessoa poderosa. Munkar já possui dois deles, o Amuleto da Vida e o Cálice da Magia. Mas ele não tem a Espada do Julgamento. A bruxa afirma que sabe onde está e propõe que o herói tente encontrá-la. “Você vai ser o poder!“, afirma a velha, seja lá o que isso significa, mas parece ser algo bom para Deathstalker… Logo depois, o sujeito se enfia numa caverna apertada onde encontra a tal espada sob a guarda de um pequeno troll, que mais parece um fantoche feito em escola primária, mas ok… O fantoche, quero dizer, o troll lhe diz que a única maneira de obter a espada mágica é libertando a si de sua maldição, transformando-o em homem de novo. “Mas eu só posso ser liberto por um menino que não é menino.” Oi?! Que porra é essa, mano? Mas antes que possamos parar pra refletir sobre essa questão transcendental que o filme propõe, Deathstalker já está no corpo de um menino, com a espada na mão, levando o pequeno troll para fora da caverna. Começo a entender melhor as raízes do meu mau gosto por filmes.

Deathstalker volta para seu corpo habitual e o troll se transforma num velhote que agora passa a acompanhá-lo. Assim, armado com essa espada com poderes misteriosos, o herói inicia sua jornada em direção ao castelo de Munkar e… Mas peralá, Deathstalker não havia recusado a missão do Rei, era contra desfiar Munkar e que os heróis eram tolos e tal? Então, de repente ele mudou de ideia, simples assim? Pelo visto é isso mesmo e ajuda muito a belíssima performance de Rick Hill para esclarecer as coisas, já que o sujeito atuando e uma porta de madeira não têm diferença alguma…

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Reunido com um ajudante velhote e inútil, que nem para alívio cômico serve, embora há essa tentativa, Deathstalker encontra ainda mais dois aventureiros para segui-lo em sua missão. Oghris (Richard Brooker, mais conhecido por ser o Jason em SEXTA-FEIRA 13 – PARTE III) e Kaira (Lana Clarkson), uma guerreira que aborda o grupo como uma figura encapuzada. Uma luta é travada, mas logo interrompida depois que se descobre que por debaixo da capa há uma guerreira com seios nus. Uma guerreira com peitos de fora! Não dá pra enfrentar um oponente com armas tão mortais! Com uma integrante feminina no grupo, a equipe está formada, como um bom e velho Sword and Sorcerer tem que ser. Se bem que o trabalho em equipe naquela noite é só entre Deathstalker e Kaira, por debaixo da capa da moça, só pra aliviar a tensão…

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Enfim, Oghris informa a Deathstalker que Munkar está realizando um torneio de lutas especial para coroar o maior guerreiro de seu reino. E Deathstalker vê nessa situação uma oportunidade de se infiltrar no castelo, libertar a princesa, matar Munkar e obter do feiticeiro os dois itens mágicos restantes, para se tornar o poder!

Assim como o filme, não sei nem se esse texto ainda está fazendo algum sentido, mas vamos lá. Corta para Munkar, um sujeito muito mau. Só pra ter uma noção, ele captura princesas alheias, permite que sejam abusadas sexualmente em seu harém, destrona reis, comanda seus guardas e alimenta seu monstrinho de estimação com globos oculares fresquinhos de seus criados e ainda por cima faz a vítima assistir o processo de alimentação com o outro olho que restou… O sujeito é muito mau! Mas é óbvio, com o “herói” que temos aqui, o vilão precisava ser o diabo em pessoa.

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Antes do início do torneio, é natural rolar uma festinha. Vamos conferir algumas atrações: Anões? Confere! Escravas nuas? Confere! Briga de mulheres na lama? Claro que sim! Além disso, temos uma ótima galeria de convidados, como os nossos quatro heróis e várias figuras estranhas que vão participar do torneio, como um sujeito musculoso com a cabeça porco. E não pode faltar a Barbi Benton, com um vestido todo transparente, acorrentada à uma rocha e com o sujeito de cabeça de porco lhe aliciando. De repente eu me lembrei de novo que vi esse filme com uns doze anos de idade… É um troço meio perturbador, até para os meus padrões. Uma das cenas mais marcantes nesse sentido é a que Munkar tenta assassinar Deathstalker transformando seu capanga, um homem todo machão, na princesa Codille (Benton), toda gostosa em trajes mínimos, para seduzir o nosso herói antes de matá-lo… Surreal do nível de um Luis Buñuel…

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No restante de DEATHSTALKER rola o tal torneio, numa montagem ao estilo OPERAÇÃO DRAGÃO, com batalhas violentíssimas, além do confronto final entre o protagonista, com sua espada mágica, e o poderoso feiticeiro Munkar. Tudo muito tosco, pra manter a coerência com o resto do filme, mas também pra fechar com chave de ouro uma tralha das mais divertidas do gênero.

O filme foi dirigido por James Sbardellati, que trabalhava como assistente de direção em produções do Roger Corman. DEATHSTALKER (que também tem o dedo de Corman) é a sua primeira tentativa de assumir o comando e infelizmente não é dos pontos mais elogiáveis do filme, que poderia ter resultados melhores com um diretor mais talentoso. Mas também não compromete o roteiro de Howard R. Cohen, este sim, o grande responsável pelas qualidades que temos aqui, por todo esse universo que criou e os detalhes absurdos e involuntariamente engraçados.

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Uma pena, no entanto, que DEATHSTALKER seja um daqueles filmes em que a grande maioria vai dizer que a melhor coisa sobre ele é a arte do cartaz. O orçamento baixíssimo não permite grandes cenários e efeitos especiais de ponta, as atuações são péssimas e as cenas de ação são toscas ao extremo. Sim, o “público normal” vai achar uma coisa terrível…

Mas isso não significa que não seja divertido. Especialmente por aqueles cinéfilos de “paladar refinado” que sabe apreciar uma bela tralha. No meu caso, é evidente que os elogios que faço e o grau de divertimento que DEATHSTALKER me proporciona estão muito enraizado na minha relação nostálgica com o filme. Quando era moleque eu já percebia que estava diante de uma obra torta e estranha, e até de má qualidade, mas que de alguma maneira me fascinava e ainda me causa esse efeito. Claro que a quantidade de nudez ajudava bastante naqueles tempos, mas o filme não é só isso. É uma obra que possui ideias, fantasias pessoais de um roteirista e que um sujeito como Roger Corman resolveu bancar e transformar em película. Acabaram criando um universo tosco, de mau gosto, que logo se tornou obscuro, mas que ainda possui sua mágica.

DEATHSTALKER acabou tendo três continuações. Não vi nenhuma ainda e vou corrigir isso em breve. Bagaceiras eu tenho certeza que são (o segundo é dirigido pelo Jim Wynorski), mas só espero que sejam tão divertidos quanto este aqui.

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THE HOT BOX, aka HELL CATS (1972)

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Há poucos dias postei sobre ANGELS HARD AS THEY COME (1971), primeira investida do diretor Jonathan Demme no cinema, ainda sob a batuta do Roger Corman e tendo seu parceiro de produção publicitária, Joe Viola, na direção. Aqui em THE HOT BOX a coisa se repete. Neste período, Corman entrava numa de enviar seus pupilos às Filipinas onde várias produções exploitation estava aparecendo – Jack Hill, por exemplo, filmou no local THE BIG DOLL HOUSE e THE BIG BIRD CAGE, dois belos exemplares de WIP (Women in Prison) na selva – e a dupla Demme e Viola não perderia a oportunidade. Meteram-se nas Filipinas para fazer também um WIP.

A trama, no entanto, se passa em algum país da América Latina, onde um grupo de enfermeiras americanas fazem um trabalho de socorro no local que vive em guerra, dominado por um tirano qualquer e com revolucionários querendo derrubar o poder. O problema começa quando os tais revolucionários sequestram essas enfermeiras e as obriga a ensinarem técnicas de primeiro socorros aos guerrilheiros. Apesar disso, as moças conseguem simpatizar pelos ideais de seus captores e até mesmo acabam lutando com armas em punho pela causa…

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Não, THE HOT BOX não é um bom filme como aparenta. Mas eu gosto. Gosto de tralha cinematográfica de mau gosto, portanto gosto de THE HOT BOX. Principalmente porque ele possui todos os elementos que eu aprecio num bom WIP. Tá certo que o plot é um bocado diferente dos tradicionais filmes do gênero, mas toda vez que alguma das moças sai da linha, acaba enviada a uma cela para sofrer as consequências, o que inclui alguns itens básicos do gênero, como o excesso gratuito de humilhação feminina* e grande dose de peitos de fora.

O que realmente atrapalha um pouco THE HOT BOX é que apesar da pouca duração, o filme consegue ser lento e chato em alguns momentos e nunca conseguimos criar identificação suficiente com alguns personagens para acompanhá-los com a devida animação, nem entre as enfermeiras, que esperamos apenas que tirem a roupa, e muito menos com os revolucionários. O filme termina com uma bela sequência de batalha, o que deixa as coisas mais interessantes. Destaque para a presença de Charles Dierkop, que já havia me chamado a atenção em ANGELS HARD AS THEY COME, e aqui novamente surpreende na pele de um comandante do exército local que faz jogo duplo para acabar com guerrilheiros.

* Antes que eu seja acusado de machista e misógino, quero deixar claro que tenho tendências ideológicas feministas e sou totalmente contra a qualquer tipo de violência contra a mulher.

MAIS FORTE QUE A VINGANÇA (Jeremiah Johnson, 1972)

E continua a onda de westerns de aventura setentistas por aqui. No último post, esqueci de citar o belo MAIS FORTE QUE A VINGANÇA. Então republico aqui o que escrevi há uns três anos no blog antigo.

O que dizem os escritos sobre o verdeiro Jeremiah Johnson, um sujeito que decidiu abdicar-se do mundo civilizado para descobrir os mistérios da vida na natureza, caçando animais e enfrentando índios, frio e solidão, é que acabou se tornando um bárbaro assassino comedor de fígados de peles-vermelhas… Lenda ou não, daria um bom exploitation que explorasse essa característica. Ou, nas mãos de um poeta da violência como Peckinpah, poderia render uma obra, digamos, diferenciada. E, de fato, o diretor de STRAW DOGS realmente foi cotado para dirigir MAIS FORTE QUE A VINGANÇA, cujo roteiro é do grande John Milius e teria Clint Eastwood no papel de Johnson.

Provavelmente por conta do álcool e outros entorpecentes, Bloody Sam acabou de lado – como vários outros projetos que o mestre não conseguiu se firmar – e Sydney Pollack ocupou a cadeira de diretor. Robert Redford, no fim das contas, foi quem encarnou o personagem do título original. O roteiro de Milius se manteve, mas aposto que o filme acabou suavizado… Não que isso seja um problema. MAIS FORTE QUE A VINGANÇA segue outra linha. É uma aventura contemplativa e reflexiva, um belíssimo western histórico que conta com um personagem magnífico, cuja vida retratada aqui, independente do grau de violência mostrada na tela, é simplesmente fascinante.

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Nunca sabemos os motivos que levaram Johnson a abandonar tudo. Sabemos apenas que foi soldado e há indícios de desilusões com o ser humano, mas seu passado é misterioso. Acompanhamos o protagonista a partir do momento que decide encarar a hostilidade da natureza. Mas seus primeiros passos como homem das montanhas não é fácil e é interessante vê-lo passando maus bocados em situações que dialogam com os clássicos embates “homem vs natureza”, na qual diretores como Werner Herzog transformariam em temas fundamentais. Continuar lendo

FÚRIA SELVAGEM (Man in the Wilderness, 1971)

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Ainda na toada de O REGRESSO resolvi rever MAN IN THE WILDERNESS, de Richard C. Sarafian pra ver o que dava. Que filme sensacional! É muito melhor do que eu lembrava e bem diferente do filme do Iñarritu… Mas numa estúpida comparação das versões, este aqui ganharia de lavada. O filme me fez pensar um bocado na carreira de Sarafian, diretor de talento gigante mas extremamente subestimado e pouco lembrado. E quando o fazem é por VANISHING POINT, lançado no mesmo ano deste aqui. É um baita filmaço que ganhou seu status de filme cult com merecimento, mas não consigo ver lógica para que MAN IN THE WILDERNESS não tenha virado um clássico entre os westerns de aventura setentistas, ao lado de O PEQUENO GRANDE HOMEM, O HOMEM CHAMADO CAVALO, O GRANDE BUFALO BRANCO, e outros…

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E Sarafian estava em estado de graça quando filmou a história de Zach Bass, vivido por Richard Harris, num de seus melhores desempenhos, um desbravador do velho oeste que, após ser atacado por um urso selvagem, é deixado para morrer no meio do nada. Recupera-se dos ferimentos e parte para se vingar dos antigos companheiros, entre eles o diretor John Huston. Como disse no texto de O REGRESSO, o plot do filme de Iñarritu é exatamente a mesma coisa, mas os desdobramentos a partir desses eventos é que distanciam uma obra da outra. A começar pelo lado alegórico que contempla a obra de Sarafian, e que é justamente a parte piegas do filme de Iñarritu. Na verdade, não tinha intenção de ficar fazendo comparações, mas é difícil num momento em que O REGRESSO está tão em voga e tão fresco na cabeça… Vocês sabem, gosto dessa nova versão como um grande filme de aventura, mas está longe de ser a jornada mística e espiritual que Iñarritu gostaria que fosse em comparação com o que Sarafian realiza em MAN IN THE WILDERNESS. O processo de ressurreição e transformação, tanto na recuperação física, quanto psicológica, de Harris é arrebatador na sua perfeita comunhão com a natureza, na sua busca pela sobrevivência, encarando fome, frio, animais e o caralho e transcendendo seu desejo de vingança à outro nível espiritual… Continuar lendo

O REGRESSO (The Revenant, 2015)

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2016, o ano em que gostei de um filme de Alejandro Gonzales Iñarritu. E gostei mesmo. Não que eu ache o sujeito dos piores diretores da atualidade, até tenho boas lembranças de 21 GRAMAS, por exemplo… Mas acho que AMORES BRUTOS não se segura numa revisão e BABEL e BIUTIFUL não fedem nem cheiram, na minha opinião. Meu problema era mais com BIRDMAN, uma punhetagem visual e egocêntrica pra lá de chata, que quase me causou úlcera no estômago… Não fosse a bela atuação do Michael Keaton, eu teria me jogado pela janela do meu apartamento… Ainda bem que moro no primeiro andar… Enfim, um ano depois, ou seja, agora, Iñarritu me aparece com O REGRESSO, um filme de aventura que, pelo trailer, já me enchia os olhos. A impressão que dava é que todo o estilo, ou seja, a masturbação visual, de BIRDMAN poderia trazer algo interessante à uma narrativa mais estimulante, como um filme de aventura, por exemplo. E de certa forma isso acabou acontecendo. 

O REGRESSO foi inspirado na mesma obra que deu origem a MAN IN THE WILDERNESS (1971), de Richard C. Sarafian, com Richard Harris interpretando um membro de um grupo de desbravadores do velho oeste que é deixado para morrer depois de ser atacado por um urso selvagem. Recupera-se dos ferimentos e parte para se vingar dos antigos companheiros. O plot do filme de Iñarritu, é exatamente a mesma coisa. Troca-se alguns detalhes, Harris por DiCaprio e a tecnologia atual que permite Iñarritu trabalhar um visual dentro daquilo que é sua verdadeira intenção com o filme. O fato é que O REGRESSO, assim como BIRDMAN, não deixa de ser mais uma demonstração de exibicionismo do diretor, que chega e diz “Olha, mamãe, o que sei fazer!” e começa a punhetagem e fazer acrobacias com a câmera para ser chamado de gênio e logo depois colocar a mão em mais um Oscar. Continuar lendo

BEAST OF BLOOD (1970)

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A série Blood Island chega ao fim de um jeito bem diferente se comparado ao seus antecessores. BEAST OF BLOOD até consegue manter o mesmo clima, elementos, ambientações, mas desta vez assume uma postura mais de filme de ação e aventura em detrimento do horror, do monster movie, que era a tona dos dois primeiros episódios.

Outro detalhe curioso é sobre as minhas suspeitas de que cada filme da série era independente um do outro. Eu não estava totalmente correto. Apenas o primeiro exemplar, BRIDE OF BLOOD, não possui relação narrativa com os demais, enquanto BEAST OF BLOOD é uma continuação direta de MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND. É o que fica claro logo no prólogo, com o Dr. Foster (novamente John Ashley, a prova definitiva de que o ator realmente decidiu aproveitar ao máximo sua passagem pelas Filipinas) indo embora da Ilha exatamente após os eventos de MAD DOCTOR. Mas o monstro ainda está vivo! E ataca todos na embarcação com um machado, causa uma enorme explosão e o único que sobrevive é o pobre Dr. Foster, boiando em alto mar… E, claro, o monstro, que volta à ilha em que foi criado. Continuar lendo

MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND (1968)

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Como suspeitei no post anterior, MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND, o segundo exemplar da série Blood Island, não possui qualquer ligação com BRIDES OF BLOOD. Mas também não faz qualquer esforço para alterar a fórmula do seu “antecessor”, utilizando dos mesmos elementos visuais e narrativos, reciclando cenários e o elenco, como é o caso do americano John Ashley, que marca presença novamente encarando os monstros absurdamente toscos e mal feitos das Filipinas.

Dirigido novamente pela dupla Eddie Romero e Gerardo De Leon, MAD DOCTOR inicia inesperadamente com uma sequência promocional, na qual incita o público a tomar um líquido verde a fim de evitar uma transformação em monstro gosmento com cara de alface e sangue verde. Na verdade, tratava-se de mais uma campanha de marketing em que eram distribuídos esse líquido aos espectadores na entrada dos cinemas e drive in para que fosse ingerido durante determinado momento do filme. Seja lá qual o fosse o sabor, a ideia é simplesmente genial. Continuar lendo

BRIDES OF BLOOD (1968)

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BRIDES OF BLOOD é o primeiro exemplar de uma trilogia bizarra realizada nas Filipinas pelo produtor e diretor de filmes B local, Eddie Romero, em parceria com Gerardo DeLeon. Pelo que entendi, os três filmes não têm qualquer ligação narrativa (ainda não assisti aos outros, MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND e BEAST OF BLOOD), mas como possuem essa ambientação pitoresca em comum e foram realizados praticamente num curto espaço de tempo pelos mesmos diretores, acabaram interligados e conhecidos como Blood Island Films.

Na verdade, apesar de não fazer parte “oficialmente” desses filmes, Romero já havia rodado um exemplar de horror ambientado no mesmo local, quase dez anos antes de BRIDES OF BLOOD. O filme era TERROR IS A MAN, de 1959, também conhecido como BLOOD CREATURE e que de certa forma é o precursor da série Blood Island. Pelo visto um local propício para contar histórias de horror bem antes do que se imagina. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #14: CONTRABANDO DE ARMAS (The Gun Runners, 1958)

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CONTRABANDO DE ARMAS é baseado no mesmo conto do bom e velho Ernest Hemingway que Howard Hawks usou para realizar UMA AVENTURA NA MARTINICA (To Have and Have Not, 1944) e Michael Curtiz em REDENÇÃO SANGRENTA (The Breaking Point, 1950). Chega a ser constrangedor da minha parte (especialmente sendo um grande admirador de Hawks), mas nunca assisti a nenhum dos dois, ao contrário do diretor Don Siegel antes de dirigir este aqui: “Me arrependi muito de tê-los assistidos, porque percebi como era totalmente absurdo que eu fizesse (mais uma versão)”. 

Siegel ainda completa: “(…) ambos contaram com elencos melhores, argumentos melhores, mais dinheiro e mais tempo.” Bom, Siegel sempre conseguiu se sair bem com pouco tempo e orçamentos apertados. Agora, sobre argumentos, não tenho como comparar, mas mesmo não tendo assistido às versões anteriores, deve ser difícil não concordar com o sujeito sobre o seu elenco. Especialmente em se tratando do protagonista, o herói do filme, a não ser que alguém aí seja fã do Audie Murphy… Herói de guerra que acabou virando ator, Murphy conseguiu relativo sucesso nos anos 50. Tanto que CONTRABANDO é o segundo filme que estrelou sob a direção de Siegel. O primeiro foi o western ONDE IMPERA A TRAIÇÃO, já comentado aqui no blog.

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O fato é que Murphy nunca foi lá um dos meus atores de ação favoritos desse período. Longe disso, aliás… Seu rostinho de bom moço não se encaixa bem aos papeis durões que tentava fazer. E comparando com as outras versões do conto de Hemingway, temos um John Garfield, na versão de Curtiz, e Hawks tinha a sua disposição ninguém menos que o gigante Humphrey Bogart. Quem é Murphy perto de Bogart? Continuar lendo

MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA (Mad Max: Fury Road, 2015)

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Divagações rápidas sobre este novo episódio, pra fechar a série de comentários que fiz na semana passada. Estava aqui pensando… Trinta anos separam ALÉM DA CÚPULA DO TROVÃO de MAD MAX: FURY ROAD e, durante esse tempo, o cenário do cinema de ação foi de mal a pior. Tirando, claro, as raras exceções que ainda encontramos a cada ano, frequentemente soltamos um “não se faz mais filmes de ação como antigamente…”, lamento quase unânime entre os fãs de ação old school. E aí precisou vir esse senhor de setenta anos, que atende pelo nome de George Miller, retornando ao universo que criou há quase quatro décadas, para mostrar à maioria dos diretores atuais do gênero que, na verdade, eles não têm a mínima noção do que fazem. Continuar lendo