THE TALE OF ZATOICHI (1962)

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Quando os estúdios Daiei escolheram adaptar para o cinema a história de Zatoichi, um samurai cego que só havia aparecido em pequenas crônicas publicadas no final dos anos 40, eles não faziam ideia da extensão que seria o sucesso do personagem, que se transformaria num herói popular, ícone da cultura pop japonesa e renderia ainda mais de vinte filmes, seriados, além de spin-offs e revivals em tempos modernos, como a do Takeshi Kitano, em 2003… Ou aquela versão com o Rutger Hauer, FÚRIA CEGA.

Aqui, no entanto, é onde tudo começou. Dirigido pelo veterano Kenji Misumi e magistralmente personificado por Shitaro Katsu, THE TALE OF ZATOICHI inicialmente pode parecer muito influenciado por YOJIMBO, de Akira Kurosawa, lançado no ano anterior e que exibe uma trama similar em alguns pontos. Em ambos vemos um outsider itinerante de habilidade marcial fora do comum vagando em espaços rurais arruinados pelo conflito entre dois clãs rivais que disputam o poder local. Só que Zatoichi rapidamente se estabelece como um protagonista mais equilibrado e simpático, diferente do grosseiro Sanjuro, de Toshirô Mifune, embora as motivações dos dois permaneçam igualmente ambíguas, com a busca de dinheiro em ambos os casos soando como fachada para redenções morais não explícitas.

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A principal diferença de YOJIMBO, porém, é o fato de que THE TALE OF ZATOICHI se assume apenas como um entretenimento popular e não uma obra filosofica auto-consciente, como é o caso de Kurosawa. Até porque estamos falando de um sujeito cego que é capaz de encarar grupos inteiros de meliantes armados com objetos cortantes e ainda por cima se sair bem, como uma espécie de Matt Murdock/Demolidor do Japão feudal. Não dá tempo pra filosofias por aqui… E as sequências de ação são excepcionais, apesar do filme carecer de um pouquinho mais de combates de espada. Ficou um gostinho de “quero mais”…

Na verdade, THE TALE OF ZATOICHI poderia ser bem mais divertido se fosse mais focado no seu protagonista e com mais cenas de ação, mas o excesso de subtramas neste enredo que não chega nem a duas horas de duração é demais para suportar. O filme atira pra todo lado com histórias envolvendo estupro de uma moça, a gravidez de outra, a doença mortal de fulano, abuso, suicídio, alcoolismo, jogos de azar, amor, e vários outros tópicos… Me parece um pouco demasiado complexo para o que poderia ser bem mais simples. E fica faltando mais tempo para explorar a ação. Tá certo que, possivelmente, os realizadores optaram por retratar o fato de que Zatoichi não saca sua espada de forma vulgar e evita ao máximo o confronto. Mas, porra, eu ansiava por um pouco mais das habilidades do lendário samurai cego.

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Mas preciso ressaltar: quando Zatoichi resolve usar sua espada, o resultado é incrível, como no esperado e antológico duelo na pontezinha. São por esses momentos que o filme vale uma conferida.

Impossível deixar de destacar também o trabalho de Shintaro Katsu na pele de Zatoichi, que tem aqui um desempenho do cacete, muito convincente e carismático. É o que realmente segura THE TALE OF ZATOICHI e que faz o personagem tão fascinante. Vou continuar assistindo a série aos poucos e comento aqui a medida que for assistindo. Este aqui, apesar dos pesares, tem todos os méritos para ser o clássico das artes marciais que é. Mas espero que as próximas vinte e tantas continuações tenha um bocado mais de ação…

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DESERT KICKBOXER (1992)

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Apesar de DESERT KICKBOXER conseguir variar um pouco o estilo “kickboxing movie”, o resultado não chega a ser dos melhores. Se bem que analisar por alto os filmes do gênero é meio complicado. Embora eu ame o ciclo “Kickboxing Movie” do início dos anos 90, é inegável o fato que surgiu muita porcaria no meio, exemplares genérico sem muita criatividade, atuações ruins, a grande maioria com tramas realmente fracas e lutas mal feitas, ou seja, o principal atrativo dos filmes nem sempre faz valer a pena… DESERT KICKBOXER não é muito diferente disso. Ou talvez seja…

Lembro de ter visto este aqui na TV há muito tempo. Revi esses dias pelo simples fato que se trata do primeiro longa do diretor Isaac Florentine! Daí surgiu a curiosidade de relembrar o filme e confirmar que realmente não é grandes coisas, mas tem seus momentos, dependendo do clima que você estiver…

O ator John Newton foi o Superboy da série televisiva dos anos 80. Apesar de garboso, não chegou a fazer muito sucesso depois. Aqui ele vive Hawk, um policial descendente de índios Navajos que vive num deserto americano, fazendo fronteira com o México, para combater o tráfico de drogas à base da porrada na cara e voadoras. O sujeito foi campeão de kickboxer (ou pelo menos é o que eu imagino, já que é a modalidade indicada no título), mas sofre de um profundo trauma por ter matado o oponente em sua última luta.

Os problemas começam quando uma mulher decide passar a mão na grana de um poderoso traficante, vivido por Paul L. Smith (o Brutus da versão do cinema de Popeye, dirigido pelo Robert Altman), e foge para o deserto com seu irmão retardado tendo sua cabeça à prêmio e a bandidagem à sua cola. Só que Hawk, experiente habitante do deserto, a encontra primeiro. E aí já viu, né?

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O filme é bem despretensioso e tem quase totalmente o deserto como cenário. Dá pra perceber claramente que é uma produção pobre, independente e com um ritmo lerdo demais para esse tipo de história. O roteiro não traz nenhuma novidade, mas de vez em quando surge um personagem interessante, como na cena da gangue de motoqueiros cujo líder, vestido de padre, é uma figuraça!

As cenas de luta se resumem ao puro exibicionismo de John Newton (e de seus mullets!). São curtas e sempre contra oponentes que não sabem lutar. Temos apenas duas sequências um pouco mais elaboradas: a do início, mostrando o combate no ringue onde o adversário do protagonista acabou morto (e o cenário não passa de um fundo preto, com alguns flashes de máquinas fotográficas e efeitos sonoros de uma torcida gigantesca) e a luta final, contra o capanga do traficante que curiosamente também é praticante de kickbox!

Mas não esperem a virtuosidade de Florentine nas coreografias. São lutas bem meia bocas, mas justamente por isso, dão aquele charme tosco para os que curtem uma boa tralha. A sequência final é bem preguiçosa, dá pra ver até a sombra da equipe de produção no canto da tela enquanto os atores trocam chutes e o roteiro ainda resolve certas situações com típicos clichês vagabundos. Mas apesar disso e de toda brutalidade física, o final reserva grandes lições filosóficas para o espectador mais atento. Afinal, nada na vida é por acaso, e é isso que Hawk descobre em seu confronto, trazendo de suas memórias traumáticas a motivação para derrotar seu novo oponente. E ainda, aprendida a lição, ele não se deixa cometer dos mesmo erros. Claro que segundos depois, ele utiliza o meliante como escudo vivo pra não levar bala, mas também já seria exigência demais.

FAREWELL TERMINATOR, curta metragem israelense e primeiro trabalho do Florentine, valia muito como curiosidade. Já DESERT KICKBOXER serve mesmo para os fãs arretados do gênero, que sabem apreciar até mesmo os exemplares ruins… para estes, o filme até pode divertir um pouquinho.

O GRANDE DRAGÃO BRANCO (Bloodsport, 1988)

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O que seria dos filmes de luta no ocidente sem O GRANDE DRAGÃO BRANCO? Não sei, mas cada vez que assisto a essa belezinha, mais me convenço do óbvio, de que se trata de um dos clássicos mais influentes do cinema de artes marciais feito nos lados de cá. Já devo ter assistido umas quinhentas vezes e como acho que esse número não é suficiente, esta semana resolvi rever mais uma vez pra não perder o costume. Continua  a coisa linda de sempre e um dos melhores veículos de Jean-Claude Van Damme.

Tá certo que nem o acho o filme uma obra-prima, a qualidade de algumas lutas são questionáveis, a maioria das atuações são constrangedoras e impera expressões faciais hilariantes, como a da imagem que abre o post; mas é pelo nível de entretenimento, pela sensação nostálgica, por várias cenas definitivas para o gênero e que marcaram uma geração que O GRANDE DRAGÃO BRANCO permanece com o mesmo frescor, com a mesma grandeza de quando assisti pela primeira vez.

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Se você, sei lá, esteve em Marte nos últimos quarenta anos e nunca ouviu falar de O GRANDE DRAGÃO BRANCO, então presta a atenção. Produzido pela famigerada Cannon Films, e dirigido por Newt Arnold, trata-se do filme que colocou Jean-Claude Van Damme definitivamente no mapa. A sua participação em NO RETREAT NO SURRENDER e BLACK EAGLE são bacanas e os filmes crescem justamente por sua presença, mas foi aqui que o mundo todo conheceu o belga que dava chutes rodados no ar e fazia espacate em todas as oportunidades possíveis.

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A trama é baseada, alegadamente, na história real do verdadeiro Frank Dux, um especialista em artes marciais americano que criou uma técnica de luta própria, chamada Dux FASST (Focus-Action-Skill-Strategy-Tactics) e até trabalhou no cinema como coreógrafo em filmes de porrada. Um dos pontos principais de sua biografia foi participar do lendário e ilegal torneio de artes marciais chamado Kumite, sendo o primeiro americano a vencê-lo. Tudo bem que há pessoas que contestam suas façanhas, dizendo que o troféu que o sujeito afirma ter ganho foi comprado numa loja da sua cidade… Mas quem sou eu pra desmentir?

Enfim, O GRANDE DRAGÃO BRANCO relata justamente o período em que Dux participou do Kumite e Van Damme é quem assume a responsa de encarnar a figura. Na trama, Dux dá uma escapulida das forças armadas americana, visita seu antigo mestre – com direito a um flashback que mostra seu treinamento ainda jovem – e parte até Hong Kong para participar do torneio, no qual diz a lenda que ferimentos graves e até mesmo resultados letais eram permitidos.

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No local, além de encarar seus oponentes no tatame, Dux faz amizade com um lutador americano chamado Ray Jackson (Donald Gibb), come a jornalista gostosa obstinada por fazer uma reportagem sobre o Kumite e ainda tem que fugir de dois agentes americanos (um deles vivido por Forest Whitaker em início de carreira) que têm a missão de impedir que Dux participe da competição, já que o exército não quer que seu valioso material humano se machuque nessa brincadeira.

É evidente que o que desperta a atenção no filme num primeiro momento só poderia ser mesmo o torneio, os confrontos dos mais variados lutadores, a escala de combates que Dux precisa fazer para se tornar campeão. No entanto, confesso que não acho as cenas de luta por aqui aqui tão especiais. Há filmes com pancadaria bem mais elaboradas e brutais e até mesmo o Van Damme já protagonizou cenas de porrada mais espetaculares em outras ocasiões, com outros diretores.

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Na verdade, não é que as lutas sejam ruins e há algumas que realmente merecem estar no panteão de filmes de torneio de artes marciais americanos. Acho sensacional que o próprio Frank Dux da vida real tenha elaborado a coreografia das lutas de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e é curioso que o sujeito achou que Van Damme não estava preparado fisicamente para encarar o desafio de vivê-lo no cinema e o colocou num treinamento barra pesada intensivo durante três meses, os quais o próprio JCVD disse ter sido o treinamento mais duro que já fez na vida. Valeu a pena, porque é justamente o belga que protagoniza as melhores cenas de ação.

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Sobre o diretor, antes de dirigir O GRANDE DRAGÃO BRANCO, Newt Arnold havia feito apenas dois obscuros filmes de horror, sendo que o segundo, BLOOD THIRST, é 1971. Ou seja, quase duas décadas separam seu último trabalho como diretor e este aqui. Por outro lado, Arnold foi assistente de uma boa safra de diretores fodões, como Sam Peckinpah, Francis F. Coppola, William Friedkin e John McTiernan, portanto é um cara que sabia o que tava fazendo. E em termos de direção, enquadramentos e ritmo, o sujeito manda bem, as lutas tem boa energia. Se não chegam num nivel espetacular, ao menos são diretas, cruas e encenadas com competencia.

Ajuda muito a excentricidade de reunir os mais variados estilos de artes marciais e os mais bizarros representantes de cada modalidade para trocarem chutes e socos num torneio. Basta a montagem de treinamentos na abertura para garantir ao espectador que o dinheiro do ingresso foi bem gasto e ele vai ser recompensado com a exibição de uma vasta gama de estilos e métodos de treinamento, de um lutador de Sumo para um sujeito que luta Capoeira passando por mestres Kung Fu e até um cara que treina quebrando côcos em cima de uma árvore. É o estereótipo do estereótipo, mas que nuca perde sua graça até pelo pioneirismo da coisa. Michel Qissi marca presença, alguns anos mais tarde faria um desafeto de JCVD, Tong Po, no ótimo KICKBOXER. E temos o cruel Chong Li (Bolo Yeung), que surge quebrando blocos de gelo com pontapés.

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No elenco, Van Damme aproveita como pode a oportunidade neste seu primeiro filme como protagonista. O sujeito esbanja carisma, demonstra boa presença nas sequências de luta, e, claro, não dá pra exigir dele uma interpretação de Hamlet, mas ensaia algumas situações dramáticas, como quando seu amigo Ray Jackson é destroçado por Chong Li e Van Damme vaga de metrô, fazendo expressões faciais preocupadas. Ou fazendo espacate numa varanda com vista para a cidade. Aliás, o espacate é uma das marcas registradas de JCVD em quase todos os seus filmes. Mas aqui o sujeito exagera da posição de 180º das pernas… O cara tem as pernas esticadas pelo seu mestre, depois faz espacate pra se preparar antes do torneio começar no quarto de hotel, espacate para acertar um murro nas partes baixas do lutador de sumô, espacate quando seu amigo vai parar no hospital… Haja tendões…

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Você deveria parar de fazer isso se um dia quiser ser pai…

Uma das coisas que mais curto em O GRANDE DRAGÃO BRANCO é a relação de Dux com Ray Jackson. A introdução do grandalhão americano é engraçada, com o sujeito entrando no mesmo ônibus de Dux em Hong Kong, flertando meio abusivamente com uma mocinha. A gente logo pensa que ele vai ser um desses bullies que Van Damme precisará dar uma surra, mas acaba se revelando o cara mais gente boa do mundo e o melhor amigo do protagonista.

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E Bolo Young é desses caras que convence ser imbatível e que realmente poderia matar um sujeito com as próprias mãos num torneio desses. Tirando o fato que não há qualquer profundidade no persoangem, só está lá pra servir de lutador desumano e impiedoso, ele o faz com a máxima perfeição. Chong Li é simplesmente um dos maiores ícones do cinema de luta americano. Young voltaria a encarar JCVD no fenomenal DUPLO IMPACTO!

Alguns momentos de O GRANDE DRAGÃO BRANCO merecem o devido destaque. Quem assiste ao filme nunca esquece da cena em que Dux demonstra o “toque da morte” quebrando o último tijolo de uma pilha.

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E o melhor vem logo depois, com a notória reação de Chong Li: “Muito bom, mas tijolo não revida!“. Porra, são momentos assim que transformam um filme desses num clássico!

Temos também a divertida sequência musical na qual Dux corre pelas ruas de Hong Kong fugindo da dupla de agentes. Por falar em música, tudo é muito datado para os padrões atuais, mas para um 80’s music lover como eu é sempre um charme a mais. Toda a sequência do treinamento do jovem Frank Dux com seu Shidoshi, vivido por Roy Chiao, também merece atenção, além do grande confronto final entre Dux e Chong Li, que se não é um primor em termos de ação, ao menos tem boas sacadas e Van Damme consegue dar o seu show de exibicionismo composto de socos, pontapés, voadoras e chutes rodados… Não é a toa que foi instantaneamente alçado ao status de astro.

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O GRANDE DRAGÃO BRANCO até pode ter seus problemas, nem acho que seja o melhor veículo de JCVD, mas é uma obra de extrema importância para os amantes de filmes de luta e que possui todos os elementos que tornam um filme num clássico atemporal. O roteiro de Sheldon Lettich (que depois viria a dirigir JCVD em LEÃO BRANCO, DUPLO IMPACTO, THE ORDER  e THE HARD CORPS) trouxe à tona toda a estrutura para o estilo de filmes de torneio e praticamente inaugurou o subgênero Kickboxing no Ocidente, que fez a alegria da moçada nos anos noventa, gerando um milhão de copiadores incluindo três sequências estrelando Daniel Bernhardt, dos quais nunca assisti. Mas acima de tudo, O GRANDE DRAGÃO BRANCO é um filme que diverte em todos os sentidos possíveis. e diverte pra CARALHO! Ainda vou rever muitas vezes durante a vida e tenho a total certeza de que a cada revisão vou estampar um grande sorriso do início ao fim.

FAREWELL TERMINATOR (1987)

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FAREWELL TERMINATOR é o primeiro filme de Isaac Florentine, realizado ainda em seu país natal, Israel, uma mistura de ficção científica pós-apocalíptica com ação e artes marciais, e que não chega a 30 minutos de duração.

O clima lembra os filmes do gênero daquele período, os rip-off de MAD MAX, principalmente os produzidos pelos italianos e também as tralhas do Cirio H. Santiago e gente dessa laia, mas já demonstra um modesto talento e estilo próprio de Florentine em coduzir cenas de ação e pancadaria. Além da capacidade de trabalhar com pouquíssimo recurso, mas muita criatividade, utilizando como cenário uns entulhos de concreto e sujeira, ruinas de prédios e carros batidos para compor uma atmosfera que funciona muito bem.

A história não é nada de mais. Mas não era intenção do Florentine, que escreveu o roteiro junto com Yehuda Bar-Shalom, gastar fosfato em um roteiro mais elaborado que serviria apenas de veículo para que o próprio Florentine explorasse seus interesses intelectuais e filosóficos… como tiros e pontapés na cara, por exemplo.

Ainda assim, a trama não deixa de ser interessante: no futuro, o governo utiliza uma espécie de polícia especial, conhecida como Terminators, para eliminar os rebeldes. Acompanhamos Dror, um policial que está prestes a se aposentar e ganhar passe livre para sair do país. Em seu último dia de trabalho, precisa enfrentar Schneider (o próprio Florentine), um ex Terminator que trocou de lado. Ainda na trama, Dror descobre que está com sua cabeça a prêmio e que a polícia está por trás disso. É uma boa premissa… com menos de meia hora de duração então, dá pra se divertir um bocado.

E o foco fica mesmo na ação e nas cenas de luta. Não são perfeitas, tão bem montadas e coreografadas como os filmes posteriores do diretor, como NINJA e UNDISPUTED III. No entanto, percebe-se claramente porque o cara conseguiu emprego rapidinho em solo americano, a princípio fazendo alguns B Movies e episódios de Power Ranges (Argh!)… depois voltou a se dedicar a fazer B Movies, mas com um pouco mais de grana, com atores conhecidos, como Van Damme, Dolph Lundgren, Gary Daniels e seu ator habitual, Scott Adkins.

FAREWELL TERMINATOR não é tão fácil de encontrar, eu suponho, mas se você tiver a oportunidade, não perca. Vale muito como curiosidade para quem já é fã de filmes de ação de baixo orçamento, especialmente do trabalho do Isaac Florentine, e também para os fanáticos por obras obscuras de ficção pós-apocalíptica dos anos 80.

A VINGANÇA DO NINJA (Revenge of the Ninja, 1983)

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Seria complicado fazer A VINGANÇA DO NINJA começar de onde ENTER THE NINJA terminou, porque o personagem de Shô Kosugi, um mestre ninja “do mal”, foi decapitado por Franco Nero no confronto final. No entanto, como resolveram trazer o ator japonês de volta nesta “continuação” oficial do filme de Menahem Golan, o jeito foi fazer um filme totalmente independente. Ou seja, A VINGANÇA DO NINJA não tem qualquer ligação com o filme “anterior”.

Sendo assim, Kosugi é um bom sujeito por aqui. Seu personagem vive uma vida tranquila e pacata com o seu clã no Japão, numa bela casa, com grandes jardins, é um artista que trabalha com bonecas de porcelana japonesas, um bom marido, pai de família e… Enfim, é tudo tão tocante que um filme sobre a vida desse cara deveria ser dirigido por um Mizoguchi ou Yasujiro Ozu. Mas A VINGANÇA DO NINJA é realizado pelo Sam Firstenberg, e é mais uma produção da Cannon Films, portanto, podem esquecer uma provável beleza poética da coisa. O tal clã é logo atacado por um grupo de ninjas, estrelinhas na testa prá todo lado, a esposa do protagonista é assassinada (os únicos sobreviventes, na verdade, são o próprio Kosugi e o filho recém nascido) e temos aí a premissa montada para um belo filme de ação ninja. Até porque o personagem do Kosugi, além de tudo aquilo que eu disse ali em cima, não poderia deixar de ser também um mestre ninja!

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Para recomeçar a vida, um amigo americano convence Kosugi a levar seu filho para os EUA e abrir uma galeria para suas bonecas. Ok, eu não vou ficar fazendo piadinhas com o fato do protagonista produzir bonecas, seria muito óbvio. Prefiro acreditar que se trata de um elemento da teoria de que todo herói badass tem um lado sensível. Exemplos temos aos montes: Schwarza em COMANDO PARA MATAR (1985) alimentando um veadinho nos créditos de abertura; Steven Seagal salvando o cachorrinho em OUT FOR JUSTICE (1991); Van Damme com seu coelhinho de estimação em BORDER PATROL (2008)… qual é o problema do Kosugi ter uma coleção de bonecas, caralho?!?!

Bom, Kosugi aceita a proposta do amigo e vai para os EUA brincar de bonecas. Os anos se passam, o moleque cresce e tudo anda bem encaminhado na galeria de bonecas de Kosugi. Há até um esforço do filme em trabalhar o choque cultural nos personagens, como na cena em que a assistente do herói, uma loura americana, resolve praticar treinamento ninja sem calcinha, num dos momentos mais dramáticos do filme…

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Er… De todo modo, ainda há uma história que poderia ser dirigida por um Shohei Imamura ou Nagisa Oshima… mas, repito, o filme é do Firstenberg! Pra quem não se lembra, o Firstenberg talvez seja o maior especialista em filmes de ninja em solo americano, tendo dirigido o clássico AMERICAN NINJA, com o Michael Dudikoff… Portanto, para dar uma esquentada na trama, Kosugi descobre que o tal amigo americano utiliza a exportação das bonecas para traficar drogas no interior delas… Quem poderia imaginar?

As surpresas não acabam por aqui, porque depois que toda a ação começa pra valer, com a presença de vários ninjas para Kosugi chutar na cara, descobrimos que seu amigo americano também é um… mestre NINJA!!! Um ninja branco como no filme anterior, só que em papel invertido. Desta vez o ninja branco é o vilão.

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Em termos de ação, o nível de qualidade das cenas de luta em A VINGANÇA DO NINJA são muito boas, com longas sequências de pancadaria, muitos ninjas sendo abatidos e todo o tipo de armamento ninja sendo utilizado em vários tipos de cenários. O duelo final, que se passa no topo de um arranha céu, é um bom exemplo onde espaço é muito bem aproveitado para o tipo de ação que temos aqui.

Portanto, em vários aspectos A VINGANÇA  DO NINJA acaba por ser um exemplar de respeito dentro do subgênero feito nos Estados Unidos. Talvez até mais que o primeiro filme em termos de cultura ninjitsu e artes marciais. Mas ENTER THE NINJA tem Franco Nero, com aquela piscadela de olho no freeze frame final, é bem mais ingênuo e muito mais divertido na minha opinião. O que não tira os méritos deste aqui, é claro. Obrigatório para quem curte um bom filme de ninja.