VENCER OU MORRER (Nowhere to Run, 1993)

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Cada vez é mais raro isso acontecer, mas quando se pensa na carreira de Jean-Claude Van Damme, dificilmente alguém vai se lembrar logo de cara de VENCER OU MORRER (Nowhere to Run), obra que até teve relativo sucesso na TV e nas locadoras, mas fica ali espremido entre os monumentos SOLDADO UNIVERSAL e O ALVO. Mas é um exemplar que possui certas peculiaridades dentro da filmografia de JCVD e que o torna especial.

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VENCER OU MORRER é um daqueles filmes claramente apoiados numa certa estrutura de faroeste, mas sem ser um de fato… A trama se passa nos “dias atuais”, mas não há nem uma iconografia do gênero, chapéus de cowboy ou saloons para dizer que é um western moderno. No entanto, vejamos: um fora-da-lei fugitivo vai parar nos arredores de uma pequena cidade, perto de uma fazendo cuja a proprietária é uma viúva que está sendo intimidada para vender suas terras. O fora-da-lei a ajuda, confronta um xerife que não é exatamente mau, mas tem medo de resistir ao poderoso vilão que desperta o temor de todos ao seu redor com “propostas irrecusáveis” para comprar seus terrenos. O fora-da-lei acaba “morando” no celeiro da fazenda, onde faz amizade com o filho pequeno da mulher, mas ao invés de um cavalo, arruma uma motocicleta quebrada, conserta e tenta deixar a cidade, não sem antes se livrar do vilão e de seus capangas à base de murros e pontapés e buscar sua própria remição moral… É praticamente uma live action das histórias do Tex Willer versão porrada. Ou, como já foi comparado diversas vezes, VENCER OU MORRER é OS BRUTOS TAMBÉM AMAM Van Damme version

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Van Damme é Sam, um prisioneiro que logo no início do filme ocupa um lugar em um ônibus de prisão, sendo transportado por uma estrada deserta. Numa sequência de ação eletrizante, um carro corta o ônibus de forma agressiva fazendo com que o busão capote dezenas de vezes. Acontece que tudo isso faz parte de um plano de resgate para liberar Sam, praticado brilhantemente por um parceiro que não pensou na possibilidade de seu amigo terminar a capotagem morto ou com a coluna fraturada tendo que passar o resto dos seus dias numa cadeira de rodas… Mas deu tudo certo, graças a Deus, e Van Damme e todos os outros prisioneiros são libertados, independente se são assassinos, estupradores, pedófilos ou políticos corruptos…

Sam e seu amigo entram no carro e partem em fuga. No entanto, um policial tem um lampejo de Dirty Harry, pega rapidamente um rifle e manda um tiro certeiro no parça de Van Damme. Ambos conseguem ainda escapar, mas a ferida é mortal. O sujeito deixa a Sam um gravador com uma mensagem comovente, algum dinheiro e um terno, mas esqueceu de deixar um bigode falso, portanto não pode exatamente começar a procurar um emprego… Então, ele encontra um bosque e um lago isolados para acampar e ler revistas de mulheres nuas. Há uma casa nas redondezas e Sam resolve xeretar – e tem uma bela visão da Rosanna Arquette peladona.

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A mulher é a tal viúva dona do terreno local. Ela tem um casal de filhos e o menino, interpretado por Kieran Culkin, acaba encontrando o acampamento de Sam (os policiais não conseguem encontrá-lo, mas um garotinho consegue fácil) e os dois iniciam uma amizade que se desenvolve até o moleque tê-lo como a figura paterna que lhe falta…  Os primeiros 40 a 45 minutos do filme são lentos e, exceto a sequência da fuga no início, não há muita ação. Mas esse tempo é bom para construir os personagens e estabelecer a história e essas relações que o filme propõe, entre Sam e o garotinho, mas também entre Sam e a personagem de Arquette, que a princípio vê o sujeito como um estranho, depois como herói até vê-lo como… Bem, digamos, que não demora muito para compartilharem a mesma cama…

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Uma vez que a ação começa em VENCER OU MORRER, as coisas melhoram ainda mais. A ação não é lá extravagante ou elegante como em outros filmes de Van Damme (O ALVO ou DUPLO IMPACTO), e não há os tradicionais chutes altos ou os espacates do sujeito, porque JCVD ​​é um cara normal por aqui, humano e cheio de fraquezas. Na verdade, um detalhe que realmente diferencia o que JCVD havia feito até aqui na carreira, é o fato de ser o primeiro filme em que seu personagem não possui habilidades em artes marciais. Sam é um criminoso, um fora-da-lei, obviamente cresceu num lugar barra pesada, teve que lutar na vida, mas não teve a mordomia de entrar numa academia de karatê… Então a ação é mais realista, grosseira e fundamentada. Ainda assim, o diretor Robert Harmon (A MORTE PEDE CARONA) faz algumas coisas legais com a câmera, sabe criar momentos de pancadaria e perseguições com bastante eficiência. Uma das minhas favoritas é a sequência em que Sam tenta uma fuga de motocicleta com uma frota de policiais na sua cola… Realmente intenso.

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A sequência final também é muito boa, com algumas sacadas criativas. Há um momento especial que é ótimo: Van Damme pula em cima de um sujeito que tem uma espingarda nas mãos e os dois atravessam a janela do sótão da casa, rolam pelos telhados e caem. Daí,  há um plano de dentro da casa, uma parede, com quadrinhos pendurados e de repente PIMBA! Um tiro da espingarda explode a parede e através do buraco continuamos a vê-los lutando do lado de fora. Sim, havia um tempo em que os diretores guardavam as melhores ideias para o final…

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Vale destacar o fato de que o cara que sai pela janela com Van Damme nessa cena é o grande Ted Levine (o eterno Buffalo Bill de O SILÊNCIO DOS INOCENTES), que é o principal capanga do bandidão vivido por Joss Ackland (que já havia encarnado pessoas de caráter duvidoso em MÁQUINA MORTÍFERA 2). Rosanna Arquette entrega uma performance dramática bem melhor que a maioria das atrizes que embarcam em filmes de ação como esse e, ao mesmo tempo, está disposta a fazer algumas ceninhas de nudez, o que eleva o material – apesar de dizer em várias entrevistas que detestou trabalhar com JCVD. Kieran Culkin também é legal – tá certo que não precisamos de um personagem infantil tão importante num filme de ação, mas o moleque é  capaz de atuar e vira uma referência para o protagonista na sua busca de redenção.

Obviamente, o melhor do elenco é Van Damme. Acho que é em filmes como VENCER OU MORRER que o belga se vê desafiado a fazer um trabalho mais dramático e de mostrar suas aptidões como ator, e não ser apenas um simples tough guy, num personagem ambíguo e performance minimalista, sutil, com poucos diálogos e uso correto da expressão do corpo (sim, ele aparece nu, e na frente de crianças) sem fazer tanta pose como em seus filmes anteriores.

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Uma curiosidade é que o roteiro original escrito por Joe Eszterhas (que colaborou com Paul Verhoeven em filmes como INSTINTO SELVAGEM) e Richard Marquand (mais conhecido por ter dirigido O RETORNO DE JEDI), era um drama sem qualquer sequência de ação e seria estrelado por Mel Gibson, até virar um veículo de ação de JCVD. Eszterhas acabou pedindo para não ter seu nome ligado ao projeto e Marquand teve que reescrever o roteiro para ficar mais ao gosto do belga. O que não conseguiu, o próprio Van Damme diz que não gostou do roteiro. Mas o que importa é o resultado, o que tá na tela, e apesar de não ser um dos melhores “JCVD movies”, acho VENCER OU MORRER um trabalho sólido que vale a pena rever de vez em quando…

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DUPLO IMPACTO (Double Impact, 1991)

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Curioso pensar que Jean-Claude Van Damme, no auge da primeira fase de sua carreira, ainda estava na fissura de provar mais uma vez suas habilidades, não apenas como homem de ação badass, mas como um ator com certas qualidades dramáticas, antes de encarar super produções bancadas por grandes estúdios.

Não bastou LEÃO BRANCO, CYBORG e GARANTIA DE MORTE, filmes que o belga conseguia sair um pouco da zona de conforto e tentava desenvolver figuras diferentes umas das outras. Ou pelo menos encenava situações que exigissem mais de JCVD como ator dramático. Mas foi com DUPLO IMPACTO que essa ideia de deixar sua marca como um artista mais refinado, mesmo trabalhando em filmes de gênero, chega ao seu limite máximo. Definitivamente o filme mais desafiador de sua carreira até então, com o belga dividindo a tela e lutando lado a lado com seu ator favorito: ele mesmo.

Posteriormente, Van Damme interpretaria mais de um papel num mesmo filme, como RISCO MÁXIMO e REPLICANTE, mas nada parecido como encarnar os irmão gêmeos Chad e Alex. Inspirado no clássico da literatura Os Irmãos Corsos, de Alexandre Dumas, DUPLO IMPACTO é sobre esses dois irmãos, separados com seis meses de vida, que se reúnem depois de vinte e cinco anos para encher qualquer meliante que entre em seus caminhos de tiro, porrada e bomba em prol de uma vingança contra os assassinos de seus pais.

A trama mesmo não tem lá muita importância, é mera rotina para o desenvolvimento das duas práticas que realmente valem em DUPLO IMPACTO, que são as sequências de ação e a construção dos dois personagens centrais, ambos interpretados por Van Damm, e como o sujeito consegue lidar com esse empreendimento. Nos dois polos, o filme se sai de maneira brilhante.

Van Damme nunca esteve tão envolvido num projeto como em DUPLO IMPACTO. Concebeu a história, e vejam só, inspirado em literatura clássica; escreveu o roteiro (juntamente com o diretor Sheldon Lettich); dirigiu as cenas de ação; e teve a ousadia de interpretar dois personagens totalmente diferentes, que em certas ocasiões interagem entre si. E por mais difícil que se possa acreditar, Van Damme convence. Por isso enfatizo que se a ação é crucial em DUPLO IMPACTO, o mesmo tem de ser dito sobre a performance de JCVD.

Na trama, Chad foi criado num orfanato de freiras francesas em Hong Kong (motivo pelo qual possui sotaque francês) e cresceu nas ruas, envolvido com criminosos, calejado desde cedo com as dificuldade da vida dura. O outro, Alex, é mais sensível e inocente. Conseguiu ser levado pelo guarda-costas de seus pais, Frank (Geoffrey Lewis) para a França (mais uma explicação para o sotaque) e depois foram para L.A. montar uma academia, onde dá aulas de ginástica e karatê. Um sujeito que nunca teve que arregaçar as mangas e teve certos privilégios. Personalidade e caráter opostos, mas numa dessas coincidências amadas pelos fãs do gênero, a única coisa que ambos têm em comum é o talento em artes marciais.

E ao rever o filme recentemente, meu cérebro entrou em colapso e tive sérias dúvidas se Van Damme, na construção de ambas personagens, não teria estudado o famoso método de Stanislávski e se tornado ator da mesma estirpe de um Marlon Brando e Paul Newman. Basta observar a sutileza do olhar, das expressões, o comportamento em cena quando encarna Alex, ou o jeito grosseiro na representação de Chad… E você realmente acredita que há dois JCVD’s no filme.

Mas não vamos esquecer que DUPLO IMPACTO é um filme de ação. E é importante também para JCVD mais a capacidade de encarar Bolo Yeung num “mano a mano” do que demonstrar seus sentimentos diante de seu irmão gêmeo – o que na verdade o faz com incríveis resultados, como quando Chad pensa que sua namorada está pulando a cerca com Alex e, num frenesi de ódio, enche a cara e quebra tudo o que vê pela frente, numa atuação digna de um Leão de Ouro em Veneza. Mas quando o sujeito têm que espreitar por trás de um inimigo e quebrar seu pescoço sem chamar a atenção de outros bandidos, aí, meus caros, Van Damme é pura poesia…

O sujeito nunca esteve tão bem em frente às câmeras. Há uma sequência em que Chad tira um guarda de circulação e percebe a chegada de outros. Ele pega uma pistola em câmera lenta, enquanto seus adversários chegam atirando com metralhadoras, que obviamente nunca vão acertar o nosso herói, só para que o ele ainda em slow motion, faça uma pose cinematográfica, enrijeça seus músculos do braço e comece a atirar precisamente em cada bandido. Uma coisa linda para os fãs, mas que daria um autêntica úlcera aos cinéfilos que frequentam espaços culturais e cinemas “de arte”.

A ação do filme é simplesmente espetacular, com a classe e objetividade formal que esse tipo de cena merece. E a direção de Sheldon Lettich, que já havia dirigido Van Damme em LEÃO BRANCO, é muito energética. Alguns tiroteios são inspirações óbvias do cinema de Hong Kong, com Chad empunhando duas pistolas em trocas de tiros frenéticos. Curioso que a primeira escolha para a direção do filme era Albert Pyun, que também já tinha trabalhado com Van Damme, em CYBORG. Embora seja um hábil diretor de ação, sua pegada é bem diferente, abstracionista e experimental… Talvez DUPLO IMPACTO hoje fosse um objeto de arte nas mãos de Pyun. Seria demais para o meu coração. Então é melhor deixar como está.

As sequências de luta em DUPLO IMPACTO podem não ter uma coreografia de encher os olhos, mas a maioria são realizadas em contextos e cenários que deixam tudo mais tenso e emocionante. Algumas até possuem boas sacadas visuais, como a que Chad enfrenta um sujeito na penumbra, num excelente trabalho atmosférico de fotografia e jogo de sombras.

DUPLO IMPACTO deve ser o filme de Van Damme com a maior galeria de vilões interessantes amontoados numa mesma história. São dois cabeças do crime, responsáveis pela morte dos pais dos gêmeos, vividos por Alan Scarfe e Philip Chan, mas também seus capangas: uma mulher musculosa cuja chave de perna seria capaz de estraçalhar uma laringe; há um sujeito que usa botas com esporas e mata suas vítimas com chutes que rasgam o pescoço do infeliz; e a cereja do bolo… er… que é literalmente o Bolo Yeung, uma escolha pessoal do próprio Van Damme para compor o elenco. Os dois ficaram amigos íntimos depois de contracenarem em O GRANDE DRAGÃO BRANCO.

Vale destacar ainda no elenco o grande Geoffrey Lewis, que consegue, no meio desse monte de brucutus, ser um dos personagens mais badasses de DUPLO IMPACTO. A sequência inicial em que salva os gêmeos da execução é um primor. E também Alonna Shaw, que faz a namorada de Chad e oferece alguns dos momentos mais calientes do filme.

É verdade que em termos narrativos, não há nada de novo para se ver aqui. Trata-se de mais um filme de ação do período como outro qualquer nesse sentido. O que não deixa de ser um ótimo exemplar do gênero com o suficiente para uma agradável sessão num domingo à tarde acompanhado de uma cerveja bem gelada. No entanto, DUPLO IMPACTO é bem mais que isso. Algumas situações mais movimentadas são realmente criativas e pensadas para se tornarem antológicas. E conseguem facilmente essa proeza, ou quem viu o filme quando era moleque esquece do épico confronto entre Van Damme e Bolo Young? Além disso, temos o fator Van Damme em dose dupla, que eu, particularmente, considero seu melhor desempenho. Seja no esforço para construir dois personagens opostos, seja nas sequências de ação com seu singular “cinema corpo”, seja usando uma calça legging atochada no rabo fazendo espacate diante de várias garotas… Um clássico.

GARANTIA DE MORTE (Death Warrant, 1990)

bscap0066 (1)Não é nada incomum um action hero badass ter pelo menos um “filme de prisão” no currículo. Sylvester Stallone tem três: CONDENAÇÃO BRUTAL, ROTA DE FUGA (que fez com Schwarzenegger) e se levarmos em consideração, boa parte de TANGO E CASH… Don The Dragon Wilson tem BLOODFIST III: FORCED TO FIGHT; David Bradley fez HARD JUSTICE; Wesley Snipes tem UNDISPUTED, até um Clint Eastwood fez FUGA DE ALCATRAZ e Steve McQueen, PAPILLON. Acho que o Bronson e o Chuck Norris não tem, não sei se vale BRADDOCK 2. Mas não importa, existem tantos outros exemplos… Steven Seagal queria fazer um no início dos anos 90, mas acabou perdendo o papel para um baixinho belga que estava entrando no auge como astro de filmes de ação. O resultado foi GARANTIA DE MORTE, de Deran Sarafian, estrelado por Jean-Claude Van Damme.

O filme foi o primeiro script escrito por David S. Goyer, hoje um dos principais roteiristas dessas produções da DC Comics. Na época, ainda estudante da USC. A trama começa com o detetive Louis Burke (Van Damme), da Royal Canadian Mounted Police (sempre havia alguma coisa para explicar o sotaque de JCVD nesses primeiros filmes, coisas do tipo “depois de você ter morado com a mãe na Europa“, sabe?) que está em L.A. no rastro de um notório serial killer conhecido como The Sandman (Patrick Kilpatrick), responsável também pela morte do parceiro de Burke. Então trata-se inclusive de um caso pessoal de vingança.

Logo na cena inicial, Burke está espreitando ao lado de um prédio abandonado onde supostamente está The Sandman, quando três meliantes começam a incomodá-lo. Rapidamente, arrebenta com eles soltando seus chutes altos, apresentando ao público o que o sujeito é capaz. Simples e prático. GARANTIA DE MORTE é mais um exemplar com o selo JCVD!

Burke entra no prédio. Quando menos espera, The Sandman lhe faz um ataque surpresa. O detetive consegue atirar nele uma vez. “Você não pode me matar – eu sou o Sandman“, diz o serial killer. Burke, que não está para brincadeiras, enche o vilão de chumbo grosso, que cai sem vida. Em seguida, corta para dezesseis meses depois. O protagonista volta a L.A. para se encontrar com o procurador-geral Tom Vogler (George Dickerson), que é encarregado de uma operação especial para investigar uma série de mortes misteriosas que ocorreram dentro da Prisão Estadual.

A ideia é meter Burke lá dentro, disfarçado. “Você é do Quebec, então ninguém vai te reconhecer“, é o que dizem a ele. Então JCVD ​​vai para a prisão.

Mal chega no local, Burke encontra todos os tipos habituais de esteriótipos de filmes de prisão; guardas sádicos, o velho prisioneiro mais sabido, Hawkins (Robert Guillaume); o médico da prisão; seu parceiro de cela, que tenta se impor para conseguir uma chupada, mas Burke deixa claro, de forma brusca, que não é do tipo, e os dois acabam ficando amigos; e, claro, aquele personagem que sempre consegue fazer qualquer coisa de dentro da prisão, conhecido aqui como Padre (Abdul Sazaam El Razzac), que vive numa espécie de porão da prisão, local esfumaçado de maconha e cheio de travecos. “Até os guardas não descem aqui“, diz alguém.

Logo, Burke começa a investigar, procurando pistas para descobrir por que alguns presos acabaram comendo capim pela raiz. Aos poucos, os mistérios vão sendo revelados, Burke percebe que todas as vítimas possuem detalhes em comum em suas fichas médicas. Finalmente, o sujeito descobre que os corpos dos prisioneiros falecidos estão sendo usados para recolher órgãos para serem vendidos no mercado negro.

Infelizmente para o nosso herói, e para a surpresa de todos, The Sandman está vivíssimo e é transferido para a prisão (e parece muito bem pra quem teve o corpo cravado de balas) e imediatamente expõe a identidade de Van Damme ao resto dos prisioneiros, o que não o torna exatamente a pessoa mais popular no local. Tudo isso leva a um impressionante final, quando The Sandman liberta TODOS os prisioneiros de suas celas, que perseguem o nosso herói pelos corredores da prisão, num verdadeiro pandemônio, sedentos por sangue de policial! Com a ajuda de Hawkins e do Padre, Burke consegue chegar à área das caldeiras da prisão, onde reencontra The Sandman e tem início a uma batalha final épica entre Van Damme e Patrick Kilpatrik.

O diretor de GARANTIA DE MORTE é Deran Sarafian, filho do grande Richard C. Sarafian, diretor de clássicos como VANISHING POINT. E o sujeito parece ter herdado o talento do pai. Filma bem pra cacete! É um nome do cinema de ação a ser descoberto. O cara trabalha com maestria uma steadicam que faz o filme se mover com muita fluidez. E isso também ajuda nas cenas de luta. Não que as coreografias sejam espetaculares ou tão elaboradas, mas o cara sabe onde colocar a câmera para realmente mostrar o que diabos está acontecendo nas sequências de ação. É uma das coisas que sinto falta dos anos 90, uma ação de claro senso de coreografia e geografia.

Um bom exemplo disso em GARANTIA DE MORTE é o grande encontro entre Van Damme e o eterno capanga dos filmes de ação americanos dos anos 90: Al Leong. Primeiro, há uma cena em que Burke ajuda Hawkins quando um membro de uma gangue latina o aborrece. Nada que um pontapé na cara bem colocado não resolvesse. E este ato nos leva a um dos encontros mais badasses do cinema testosterona. Ao limpar a lavanderia, sozinho e à noite, seja lá por qual motivo, Burke é abordado pelo tal latino que havia chutado a cara, acompanhado de um amigo. E entra em cena Al Leong. É uma luta rápida, mas divertida de se ver, com Leong usando uma corrente e Van Damme desferindo seus golpes com muita habilidade e finalizando ao colocar a cabeça do sujeito em uma máquina de lavar roupa. Esta foi, infelizmente, a única vez que Van Damme teve uma cena de luta com Al Leong.

Em termos de atuação, Van Damme dá o seu melhor dentro dos seus limites, mas é carismático e está realmente em forma paras as cenas de luta por aqui. O sujeito convence em passar a angústia que o personagem atravessa em aceitar uma missão de alto risco, especialmente nas sequências em que o Burke vai parar na solitária (outro clichê básico de filmes de prisão), embora em nenhum momento GARANTIA DE MORTE procure filosofar em cima dos atos de seu personagem. Tudo é muito direto sem preocupações morais. É matar ou morrer, olho por olho, dente por dente e foda-se. Cynthia Gibb, que vive a advogada que atua disfarçada como a esposa de Burke, para trocarem as informações que ele conseguir, também merece destaque, tem um papel bastante ativo na história. Burke e ela, a princípio, não parecem se dar bem, mas vocês já devem imaginar o que vai acontecer… Como na cena da suposta visita íntima que acaba ficando REALMENTE íntima!

Mas o grande ladrão de cenas é Patrick Kilpatrick. O sujeito tem interpretado principalmente vilões em toda a sua carreira (seu rosto contribui muito pra isso), em filmes como A FORÇA EM ALERTA 2 e QUEIMA DE ARQUIVO e está simplesmente devastador como The Sandman, provavelmente o melhor personagem que já fez na vida. As sobrancelhas de Kilpatrick foram descoradas dando-lhe um olhar realmente assustador e inquietante. É um desses vilões que dá gosto de ver em cena, apesar de não aparecer tanto por aqui. Uma das coisas que mais gosto em GARANTIA DE MORTE é a misteriosa lógica sobre a indestrutibilidade do personagem. Sério! Depois de sobreviver aos tiros no inicio do filme, o cara é chutado para dentro de uma fornalha na luta final, para logo em seguida, envolto das chamas, continuar lutando. Mas ei, é um filme do Van Damme. Quem se importa com a lógica?

GARANTIA DE MORTE seria mais um belo exemplar da gloriosa Cannon Films, com o título DUSTED, mas durante a produção, a Cannon finalmente entrou em falência e a MGM acabou assumindo grande parte das suas produções. DUSTED foi renomeado DEATH WARRANT e lançado nos cinemas no início do estrelato de Van Damme. E com ótimos resultados de bilheteria! Filme de ação/prisão movimentado, tenso, de apenas 89 minutos, bem filmado e com uma história realmente envolvente (embora previsível), com alguns personagens divertidos e todos os clichês de filme de prisão dos anos 90… É, o resultado não poderia ser diferente.

Ah, e só pra constar, Steven Seagal conseguiu fazer seu filme de prisão alguns anos depois, já na sua fase direct to video, com NO CORREDOR DA MORTE, de 2002… Mas é assunto para algum post futuro.

LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI (1990)

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LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI talvez mereça ser observado com mais atenção. Não que seja maltratado ou coisa do tipo, os fãs de filmes de luta até gostam, mas poucos veem algo a mais. E quem estou tentando enganar? Provável que nem exista esse “algo a mais”. É simples, direto, filme da mais pura essência narrativa voltada para a pancadaria como eram tantos outros que alegravam a infância dos moleques nos anos 90. Ou seja, funciona perfeitamente como aquilo que se propõe a ser, um veículo para Jean-Claude Van Damme demonstrar seus talentos em artes marciais e contar uma história que lhe proporcione isso. E só. No entanto, revendo essa semana, percebi umas nuances subjetivas por trás de toda a simplicidade narrativa que colocaria LEÃO BRANCO como o filme mais definitivo dessa fase inicial pós-estrelato da carreira de JCVD.

É o filme que sintetiza a obra de Van Damme: a linguagem do físico, do corpo como instrumento de dramaturgia, dos excessos, dos desacertos, da superfície, da maneira mais intensa que qualquer outro filme estrelado por ele até então. Principalmente em como se entrega a este personagem específico, Lyon, o legionário desertor, que foge para os Estados Unidos após receber a notícia que seu irmão está à beira da morte. Entrega-se mais até do que ao interpretar Frank Dux em O GRANDE DRAGÃO BRANCO, ou quando viveu Kurt Sloane em KICKBOXER, pra ficar em dois dos seus filmes de maior sucesso no período. Há uma expressão facial que Van Damme carrega todo o filme, um olhar que o desconstrói como típico herói dos “kickboxer movies”, um olhar insuportavelmente triste, vulnerável, um olhar de pedra no qual só vejo paralelo em um Buster Keaton.

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É a partir daqui que Van Damme prova estar preparado para encarar o peso de ser o astro de ação que fora nos anos 90. É como se depois de ter atingido o estrelato com seus primeiros filmes, o sujeito quisesse confirmar seu propósito como ator e realizar alguns trabalhos mais pessoais e intimistas – ainda que totalmente subjugados ao gênero, mas que também faz parte das suas idiossincrasias – antes de finalmente alçar vôos maiores. LEÃO BRANCO é o resultado dessa prova, um filme menor, mas que lá no fundo sintetiza toda uma carreira que estava por vir e reafirma o fenômeno Jean-Claude Van Damme dos anos 90.

Mas vamos à trama, que também nos interessa. A história começa em Los Angeles, com François, um sujeito que é incendiado durante uma negociação de tráfico de drogas. Ele sobrevive, mas tem o corpo todo queimado e grita por seu irmão, Lyon! Mas Lyon está no norte da África fazendo trabalhos forçados para a Legião Estrangeira Francesa. Quando recebe a notícia sobre o estado de seu irmão, conversa com seus superiores para pedir uma licença ou algo parecido para poder visitar o ente querido. Mas seus superiores são filhos da puta o bastante para não deixar. O jeito é escapar, arrumar um barco e ir para os EUA.

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Chegando em Nova York às duras penas, sem um puto no bolso, percebe uma movimentação estranha debaixo de um viaduto. Descobre um pequeno negócio de luta clandestina rolando solto em plena luz do dia e vê a oportunidade de, à base da pancada, descolar uma grana. Lyon não perdoa, quebra a cara do seu oponente e ainda ganha um autoproclamado agente de lutas, Joshua (Harrison Page), que promete levá-lo para L.A. Acaba, no entanto, se envolvendo num universo de lutas clandestinas bem maior, onde rola muita grana e diverte milionários entediados com lutas de boxe convencionais, buscando uma emoção a mais. Uma das responsáveis pelo circuito é Cynthia, interpretada por Deborah Rennard (GUERREIROS DO APOCALIPSE), que além de perceber potencial em Lyon, faz de tudo para usar o corpo do sujeito para outras coisas… Vale destacar também a presença do grande Brian Thompson (COBRA) como braço-direito de Cynthia.

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Ao desembarcar em L.A, Lyon descobre que seu irmão já bateu as botas e agora tem de lidar com a viúva, Nicole (Ashley Johnson), que o culpa por tê-lo abandonado. Então decide fazer a única coisa que sabe, entrar de vez no círcuito de lutas clandestinas e ganhar dinheiro suficiente para ajudar o que resta de sua família. Ao mesmo tempo, possui dois legionários lhe vigiando, tentando prendê-lo e levá-lo de volta para ser julgado por deserção – uma situação parecida com a de Frank Dux, personagem que JCVD viveu em O GRANDE DRAGÃO BRANCO, que vai participar do Kumite em Hong Kong e dois agente do governo ficam na sua cola para levá-lo de volta. Uma curiosidade aqui é que um dos dois legionários é vivido por Michel Qissi, que é ninguém menos que o Tong Po, de KICKBOXER.

Um detalhe que gosto bastante em LEÃO BRANCO é que Lyon nunca segue a trilha da vingança atrás dos responsáveis pela morte de seu irmão. O médico diz que provavelmente o assassino já foi capturado, nunca se sabe… Mas isso basta. O filme simplesmente deixa isso de lado e o protagonista apenas se concentra em tentar compensar sua ausência e obter dinheiro para ajudar sua cunhada e a adorável sobrinha. E o faz sujando as mãos de sangue, sem que isso desperte qualquer reflexão ética sobre seus atos, não há momento para julgamentos num filme desses. É um filme de porrada, caralho, vence quem fica em pé, não importa o que aconteça! Menos ética e mais honra era a palavra de ordem dos filmes de luta dos anos noventa, algo que o politicamente correto nos fez o favor de exterminar no cinema atual, com raríssimas exceções. E que LEÃO BRANCO segue à risca.

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Mas falando em porrada, um dos principais atrativos de LEÃO BRANCO é a diversificação das cenas de luta. São vários momentos em que Lyon arregaça as mangas e arrebenta seus adversários sem que, no entanto, o filme soe repetitivo, sempre inovando em oponentes e ambientes. Cada confronto, uma narrativa, cada rival, uma personalidade diferenciada – um escocês, de kilt e tudo; um cabeludo meio capoeirista; o desafiante final, Attilla, um brutamontes que sai de uma limousine de terno preto e um gatinho branco no colo… Os cenários também se renovam em cada luta: uma garagem iluminada com os faróis de carros à uma quadra de squash ou uma piscina com água em um dos lados…

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O diretor de LEÃO BRANCO é Sheldon Lettich, co-roteirista da KICKBOXER, e faz aqui um trabalho muito seguro, mas com certa personalidade. Manda bem nas cenas de luta, coloca a câmera no lugar certo, mas em alguns momentos chega a impressionar. Há um plano, por exemplo, de Nicole e sua filha saindo do apartamento e caminhando pela rua enquanto a câmera as segue numa grua bem lenta mostrando a rua e o bairro. Não parece que o plano tenha qualquer outro propósito que isso… No entanto, de repente, a câmera chega no apartamento do outro lado da rua e, no primeiro plano, mostra um dos legionários pra fora da janela as espionando. Uma cena simples, mas filmada com a mesma elaboração que veríamos num filme de um Brian De Palma… O tipo de coisa que não se espera ver num filme do Van Damme do período.

Mas isso é o de menos. O que realmente impressiona mesmo em LEÃO BRANCO é a sua veia definidora, a presença física e grande atuação de Van Damme, numa entrega que há muito não se vê nesse tipo de filme. Vale destacar que o filme é o primeiro roteiro escrito pelo próprio JCVD (juntamente com Lettich) que é levado às telas. O que intensifica ainda mais essa ideia de entrega tão pessoal que senti nessa revisão. Ok, LEÃO BRANCO certamente não vai mudar a vida de ninguém, nem quero dizer que seja uma obra-prima a ser redescoberta. Continua sendo o filme escapista de pancadaria que se espera. Muita pancadaria, aliás. E é bem provável que eu prefira outros filmes citados aqui neste texto, além de CYBORG, outro exemplar que veio antes, e que talvez seja o meu favorito do homem. Mas deem um pouco mais de atenção ao desempenho do belga quando forem ver ou rever LEÃO BRANCO. Garanto que vão se surpreender.

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KICKBOXER – O DESAFIO DO DRAGÃO (1989)

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KICKBOXER – O DESAFIO DO DRAGÃO forma uma espécie de trilogia do “Dragão” com outros filmes que Jean-Claude Van Damme estrelou em sequência no fim dos anos 80, no seu período de ascensão. Pelo menos aqui no Brasil podemos chamar de “trilogia”, já que BLOODSPORT recebeu o título nacional de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e CYBORG tem o subtítulo O DRAGÃO DO FUTURO.

Claro, uma picaretagem dos nossos distribuidores para associar os filmes de JCVD de alguma forma diante do público. No trabalho seguinte do belga, resolveram dar uma variada e mudaram o animal: LIONHEART ficou LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI (1990), que em breve eu comento por aqui. Por enquanto, ficamos com KICKBOXER. É hora de enfaixar as mãos, molhar com resina, afundar em cacos de vidro e voilá, tudo pronto para mais uma sessão nostálgica com um dos nossos action heroes favoritos.

BIGODE E MULLETS. AH, OS BONS ANOS 80!

Dirigido pela dupla Mark DiSalle (produtor de O GRANDE DRAGÃO BRANCO) e David Worth (LADY DRAGON), a partir de uma história do próprio Van damme (que ficou responsável aqui pela direção das cenas de luta e provavelmente da famigerada sequência da dancinha), KICKBOXER é centrado em Kurt Sloan (Van Damme), um aspirante a lutador e companheiro do seu irmão mais velho, que por um acaso é o campeão mundial americano de Kickboxing, Eric “The Terminator” Sloan (Dennis Alexio, que realmente era campeão de kickboxing), cujos mullets e o bigodinho de trocador demonstram claramente que estamos num bom e velho filme da década de oitenta.

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LIÇÃO DE KICKBOXER: NÃO SEJA UM BABACA ARROGANTE

Procurando por novos desafios, Kurt e Eric viajam para a Tailândia, onde estão os melhores lutadores do mundo. Eric desafia o campeão local, Tong Po (Michel Qissi), para um combate. Na cabeça de Eric, arrogante pra cacete, ele pensa que será moleza chegar no país, diante de uma cultura alheia, e vencer o campão tailandês com a mesma facilidade que seus oponentes habituais. Mas os problemas começam a poucos instantes do início da luta, quando Kurt busca gelo para o irmão e acaba vendo pela primeira vez o temido adversário.

Tong Po surge em cena de costas, balançando sua longa trança na cabeça careca. E praticando seu aquecimento antes de ir para luta. O que consiste em chutar o pilar do seu aposento e ver o pó cair do teto ao chão. Desculpem meu francês, mas não precisa ser um gênio para perceber antes mesmo da luta que Eric Sloane está literalmente fodido.

O estilo de luta comum da Tailândia é o Muay Thai. Ou seja, usa-se cotovelos e joelhos. Bem diferente do kickboxing que The Eliminator está acostumado. Mas Eric, orgulhoso e confiante, não acha que tem que se importar com esses pequenos detalhes, por mais que Kurt lhe suplique para que a luta seja cancelada. E, obviamente, o inevitável acontece. Eric é estraçalhado por Tong Po de todas as formas possíveis, com direito a uma cotovelada na coluna vertebral que deixa o campeão americano paralisado o resto da vida da cintura para baixo.

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O ingênuo Kurt, obviamente, fica chateado com a situação. Até porque os funcionários do ginásio não lhe dão exatamente um tratamento VIP. Os caras pegam Eric, levam-no para fora em uma maca, colocam-no na rua e trancam o portão do recinto. E pronto. Felizmente, num momento de fúria ainda em cima do ringue, Tong Po desfere um chute Em Kurt, que cai, literalmente, no colo de um americano, ex-forças especiais, chamado Winston Taylor (Haskell V. Anderson III) que estava assistindo aos combates. Um jeito estranho de começar uma amizade, mas Winston acaba levando Eric e Kurt para um hospital.

“… E QUE A MÃE DELES FAZEM SEXO COM MULAS”

O resto do filme é o básico. Desejando vingança, Kurt procura treinamento para poder enfrentar Tong Po como forma de honrar seu irmão. Winston lhe apresenta Xian (Dennis Chan), um treinador localmente famoso, mas há muito tempo recluso. Relutante no início, Xian percebe algo em Kurt e concorda em treiná-lo. E tome montagens de treinamentos dos mais bizarros ao som de músicas oitentistas e inspiradoras. Kurt tem as pernas esticadas à força, pratica movimentos de artes marciais sob a água, quase quebra a perna chutando uma árvore até cair duro no chão, corre de um cão com carne presa à coxa, treina nas ruínas de antigas civilizações orientais, entre outras coisas…

Mas nada nos prepara para a melhor sequencia de KICKBOXER. O melhor teste é de longe quando Xian leva Kurt a um bar, deixa-o totalmente bêbado e o manda para dançar na jukebox com algumas senhoritas. O que leva a um bando de locais a atacá-lo. A sequência de luta é boa, mas o que torna todo este momento lendário é o gingado entusiástico de Van Damme, com um sorriso maroto, rebolando e descendo até o chão. Ui!

Mais tarde, Xian comenta o que fez os sujeitos mal encarados do bar ficarem tão nervosos, numa das frases mais brilhantes de KICKBOXER: “Eu contei que você disse que eles não eram bons lutadores… E que a mães deles fazem sexo com mulas“. Mas se fosse pra ficar ofendido apenas pela dancinha do Van Damme, eu acho que também faria todo sentido.

TONG PO E A MÁFIA TAILANDESA

Como se não bastasse apenas um vilão, que é cão chupando manga na luta, em meio a todo o treinamento de Kurt tomamos conhecimento de que há também um mafioso por trás de Tong Po. Freddy Li (Steve Lee) comanda uma organização criminosa que toca o terror nos pequenos comerciantes. E ainda apimenta mais a situação de Kurt em sua jornada de vingança. Em determinado momento, por exemplo, ele sequestra Eric para chantagear Kurt e garantir que o americano perca o combate. A coisa fica mais pesada ainda quando seus capangas chegam ao ponto de prender a namoradinha de Kurt, sobrinha de Xian, para que seja estuprada por Tong Po. Tudo para desestabilizar o nosso herói. Esses caras não têm escrúpulo algum…

E Tong Po, como podem ver, não é apenas um adversário a ser batido em cima do ringue. O sujeito é o mal personificado e tem esse background ligado à máfia. Além de ser um estuprador filho da puta. Po não tem tanto tempo em cena para apresentar realmente uma personalidade. Da mesma maneira que Chong Li em O GRANDE DRAGÃO BRANCO. É apenas o típico vilão retratado como um monstro, uma unidimensionalidade que se encaixa perfeitamente ao tipo de filme que temos aqui.

Curioso que nos créditos iniciais, Tong Po seria interpretado por “ele mesmo.” Como se Tong Po realmente existisse. Seria algum famoso lutador que não se importa de ser retratado dessa maneira? Era o que eu pensava quando assistia ao filme na minha infância. Bem, por mais tentador que seja essa ideia, a verdade é que o sujeito é interpretado por Michel Qissi, um lutador profissional, amigo de infância de Van Damme. Foi o seu treinador pessoal para O GRANDE DRAGÃO BRANCO (além de ter uma pequena participação no filme, é ele que tem a perna quebrada por Chong Li). Em KICKBOXER, colocaram uma maquiagem no homem para parecer asiático, a célebre trancinha, e já está. Um dos mais icônicos vilões da galeria que Van Damme encarou em sua carreira.

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VAN DAMME E UM CLIMAX À MODA ANTIGA

Como é habitual nesses filmes de início de carreira, Van Damme é um bocado rígido no seu desempenho. Mas até que tenta, dentro de seus limites, explorar seu “talento” dramático. Ele consegue convencer, por exemplo, na situação de desespero quando seu irmão se machuca. Ou passa tristeza no momento em que recebe a notícia de que Eric nunca voltaria a andar. Claro, o sujeito nunca foi um Orson Welles, não dá pra exigir uma atuação shakespereana do belga. Ademais, Van Damme preenche os requisitos que o tornaram num dos grandes astros do cinema de ação do período. É hábil lutador, tem presença em cena e, principalmente, muito carisma.

É evidente que vamos perceber melhor a arte de Van Damme nas sequências de pancadaria. É quando o sujeito fica mais à vontade. Em KICKBOXER essa lógica chega ao seu limite no combate final entre Kurt e Tong Po. Por mais que eu tenha ressalvas quanto a luta em si, é impossível não encher os olhos ou estampar um sorriso na cara se você for um autêntico fã desse tipo de material. Temos Van Damme e Qissi explorando ao máximo do que chamamos de “cinema físico”, há uma excelente ambientação – a luta foi planejada nos “moldes antigos”, nos subterrâneos, iluminado por tochas – e há ainda o memorável detalhe das mãos enfaixadas, mergulhadas em resina e, em seguida, coberta de cacos de vidro. Mas que de certa forma não parece causar tanto dano quanto parece.

As ressalvas vão para a própria construção e encenação da luta. Pelo menos enquanto Eric se encontra refém dos capangas de Freddy Li e Van Damme é obrigado a perder a luta, a coisa toda ainda funciona e prende a atenção. Tong po é brutal e não dá moleza, mesmo fazendo diversos joguinhos para agradar o público presente na arena. Obviamente ele sabe que vai ganhar de qualquer jeito. O problema é a partir do momento que Kurt nota que seu irmão está a salvo e percebe que pode atacar de verdade. Tong Po, de repente, se torna mais fácil de bater que bêbado em fim de festa. O tailandês não demonstra a mínima resistência e todo golpe de Kurt entra fácil. A partir daí é só pose. É só Van Damme enrijecendo os músculos pra ficar bem nos enquadramentos. E em termos de qualidade de luta, coreografia, até mesmo edição, a coisa desanda…

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Se na execução do confronto entre Kurt e Po, deixaram a desejar, ao menos os diretores foram inteligentes o suficiente para incluir no meio da sequência de luta uma outra cena mais agitada na qual alguns coadjuvantes têm a oportunidade de botar para quebrar. Xian e Taylor aproveitam o evento e resgatam Eric dos seus sequestradores, com direito a tiros e explosões ao melhor estilo anos 80. E Eric até ajuda da maneira que pode, desferindo alguns golpes mesmo preso em uma cadeira de rodas. Portanto, no fim das contas, o resultado final do climax é positivo. Tem seus problemas, mas é divertido de se ver.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tirando pequenos detalhes, KICKBOXER é um grande filme, feito na medida certa para quem curte o gênero. É honesto, não tem receio de parecer ridículo e tem Van Damme esbanjando carisma. Se você gosta de uma história inspiradora, montagens de treinamento e cenas de luta legais, tá na hora de (re)ver KICKBOXER. Vale lembrar ainda que o filme teve quatro continuações nos anos 90. Nenhuma delas com Van Damme. Mas duas dirigidas por Albert Pyun, que é o responsável por CYBORG, um dos meus trabalhos favoritos de JCVD. Recentemente tivemos uma espécie de refilmagem, KICKBOXER: VENGEANCE. Van Damme reaparece como coadjuvante de luxo, interpretando o mestre que treina um jovem lutador. E os caras parecem incansáveis. Já preparam mais duas continuações deste último. KICKBOXER RETALIATION sai ainda este ano, e KICKBOXER: ARMAGEDDON tem previsão para 2018. Haja chute na cara!

CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO (1989) & SLINGER (2011)

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CYBORG vs SLINGER – Dois filmes em um

CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO foi um dos principais filmes de ação que me fez apaixonar incondicionalmente pelo gênero. Trata-se de mais uma variação do subgênero “pós-apocalíptico”, tão comuns nos anos 80 e 90, filmes em que vislumbramos o futuro da pior maneira possível, com suas grandes cidades destruídas por alguma catástrofe natural ou não, geralmente com um punhado de pessoas que já perderam a noção de humanidade tentando sobreviver ao caos, enfrentando as piores desgraças, agindo com violência, imoralidade e sem esperanças de uma vida melhor. No futuro de CYBORG, a “peste” devastou com a população mundial e a esperança do que resta da humanidade é a segurança de uma cyborg detentora da cura. Na trama, esta cyborg precisa chegar a Atlanta, único local com estrutura para trabalhar com o material que provavelmente vai restaurar a ordem no mundo.

Mas existem grupos anarquistas que preferem deixar tudo como está. É o caso da gangue do maquiavélico Fender, que faz de tudo para impedir que a moça de lata chegue ao seu destino. Aí é que entra o nosso herói, Gibson (sim, os nomes dos personagens são marcas de guitarras), na pele do belga Jean Claude Van Damme, um mercenário que se propõe a ajudar a indefesa cyborg, embora seja motivado por um instinto vingativo, rixa do passado entre ele e Fender, o qual é muito bem explorado nos flashbacks do protagonista.

Dirigido por um dos grandes mestres dos B movies, Albert Pyun nunca escondeu sua predileção pelo universo pós apocalíptico e cyber punk. No seu currículo podemos conferir umas maravilhas como NEMESIS, RADIOACTIVE DREAMS, KNIGHTS, VICIOUS LIPS e muitos outros… Portanto, deve ter adorado trabalhar com todos esses elementos neste que é considerado por muitos admiradores o seu melhor filme. Ou não… As histórias dos bastidores de CYBORG é tão insana quanto o próprio filme visto na tela. Pyun fora contradado pela Cannon Films em meados dos anos 80 para dirigir uma continuação de MESTRES DO UNIVERSO e um live-action do HOMEM ARANHA, que seriam filmados simultaneamente. Mas a produtora estava passando por problemas financeiros e cancelou seus acordos com a Mattel e Marvel, proprietárias dos direitos de He-Man e Homem-Aranha respectivamente, apesar de já terem gasto cerca de dois milhões de dólares com sets e figurinos.

Pyun teve a ideia de partir para algo novo, um filme totalmente diferente, se virando com o que tinham disponível, além de um orçamento de menos de quinhentos mil dólares, contando com o salário do astro Van Damme. O realizador escreveu o roteiro em uma semana e logo em seguida partiria para uma das filmagens mais caóticas de sua carreira. Em mais três semanas, o filme estava na lata, filmado, prontinho. A pós-produção também não se mostrou uma experiência confortável. Pyun se mostrava disposto a realizar um filme de gênero mais experimental, sombrio, violento e operático, homenageando aos filmes de samurai e faroestes que ele cresceu assistindo. Essa proposta não era vista com bons olhos pela Cannon e Van Damme, claro. Apesar dos pesares, o resultado é uma obra singular e visionária dentro do possível, limitada pelo baixo orçamento da produção. CYBORG, a versão de cinema, é um dos melhores filmes do diretor e um atestado do quanto pode ser prazeroso assistir a uma fita de orçamento restrito feito com paixão e criatividade. Uma curiosidade é que o filme chegou a ser promovido na TV americana carregando o nome MASTERS OF UNIVERSE 2: CYBORG!

CYBORG é bem curto, não chega a uma hora e meia, mas dispões de ação constante e muita atmosfera, um clima pós-apocaliptico desolador que não fica muito longe dos melhores filmes do subgênero, como MAD MAX 2. Difícil esquecer algumas cenas antológicas – Van Damme nos túneis dos esgotos, em espacate, esperando seu oponente passar debaixo para dar o bote é genial. Aliás, toda a sequência que antecede a crucificação do protagonista e a maneira em que o personagem se livra da cruz com toda a fúria sempre me marcou bastante. Hoje ainda reserva grande força para quem embarca na trama e neste tipo de diversão.

Além de Van Damme (cujo sotaque na época ainda era um problema para Pyun), que se sai muito bem em cena, vale destacar o desempenho do grande Vincent Klyn, o vilão Fender, que possui uma puta presença ameaçadora e poderia muito bem ter sido melhor aproveitado no cinema. A descoberta de Klyn é curiosa. Quando Pyun estava trabalhando no casting para a continuação de MESTRES DO UNIVERSO, o diretor foi ao Havaí procurar um ator que substituísse o Dolph Lundgren no papel de He-Man e acabou encontrando, no meio de vários surfistas, Vincent Klyn. Pyun se impressionou tanto com aquela figura, que quando os projetos se transformaram em CYBORG, Pyun exigiu que Klyn fosse o vilão do filme… Daquelas escolhas simplesmente perfeitas. Pra mim Fender é uma das mais insanas, impiedosas e assustadoras representações do mal no cinema de ação de todos os tempos!

Eu posso estar sendo um nostálgico exagerado, mas CYBORG é um grande filme. Ótimo veículo de ação para o Van Damme, de quem eu nutro uma enorme admiração desde pequeno, muito bem dirigido pelo Pyun, ótimos cenários, atmosfera, efeitos especiais old school que chutam a bunda de qualquer CGI atual, trilha sonora marcante, etc e tal, mesmo sabendo que para a nova geração tudo isso não passa de uma tranqueira sem qualquer interesse… Uma pena.

Passados pouco mais de vinte anos do lançamento de CYBORG, eis que Pyun aparece com SLINGER, a SUA versão de CYBORG! Explico: Apesar de ser um dos títulos mais lembrados de sua filmografia, Pyun sempre fez questão de deixar claro que a versão de CYBORG lançada nos cinemas em 1989 pela Cannon não era o filme que gostaria de ter lançado. O problema é que o grande nome do filme, Van Damme, odiou o corte de Pyun, o que fez o diretor sair do projeto e Sheldon Lettich (roteirista de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e diretor de DUPLO IMPACTO) entrar para trabalhar numa nova edição do filme, que se tornaria a versão de cinema. Mas e SLINGER? Bom, num belo dia qualquer lá por volta de 2010, o compositor e parceiro de Pyun, Tony Riparetti, estava limpando seu depósito e encontrou duas VHS com o último corte de Pyun antes de Van Damme e Lettich tomarem conta da produção!

Um detalhe importante é que o termo “director’s cut” não possui a mesma definição da qual estamos acostumados. Não é o trabalho de alguém que resolveu remontar o filme, nem pretende o relançamento comercial para substituir o “original”. SLINGER é uma versão de CYBORG praticamente em estado bruto, percebe-se até uma falta de acabamento em algumas cenas, formatos de tela diferentes, além da imagem ruim, de VHS, sendo destinada somente para os verdadeiros fãs do filme e de seu diretor.

SLINGER é a denominação utilizada para os personagens errantes do universo do filme, como é o caso de Gibson Rickenbacker, vivido pelo Van Damme. Nesta versão, não existe praga alguma devastando a população. Gibson persegue o vilão Fender (Vincent Klyn) por vingança, pura e simples, e nem se preocupa tanto com a tal cyborg sequestrada. Quanto a esta, a sua função no filme é carregar dados que vão ajudar a reestabelecer as redes elétricas deste futuro pós apocalíptico. Ao menos é o que ela diz, mas descobrimos no fim que ela e seus responsáveis possuem segundas intenções não muito amigáveis para o que resta da humanidade, dando ao filme um tom mais depressivo que já tinha.

Fender, na brilhante presença de Vincent Klyn, não muda muito. É a personificação do mal em todos os sentidos em ambas as versões, mas ganha um tom meio religioso aqui, como um enviado do diabo para trazer o caos, reforçado por uma narração em off que não havia na outra versão. Aliás, a director’s cut ganha uma narração que permeia quase todo o filme e as palavras de Gibson dão ao personagem um interessante viés de samurai, algo que Pyun sempre declarou ter buscado para o sujeito.

A trilha sonora é um dos elementos que mais se diferencia do original. Eu gosto bastante da trilha de Kevin Bassinson, com destaque para as melodias suaves e melancólicas das cenas de flashback. Mas a que temos aqui, composta por Tony Ripparetti, parceiro de Pyun até hoje, se encaixa perfeitamente à narrativa, não apenas acompanhando as imagens, mas realmente dá ritmo e eleva a obra num patamar mais operístico, que era a ideia inicial de Pyun.

Não há nada em SLINGER que eu não tenha gostado, mas existem alguns detalhes dos quais eu prefiro na versão anterior. As cenas de flashback na director’s cut são objetivas e surgem antes cronologicamente em relação à versão para cinema. Por exemplo, quando chega a grande sequência da crucificação de Gibson em SLINGER, já sabemos de toda a história entre ele e Fender. A própria cena da crucificação ficou mais curta, embora não menos brutal. Em CYBORG, a conclusão dos flashbacks vinha no momento em que Gibson estava pregado na cruz, prolongando ainda mais a cena, deixando-a com uma carga dramática muito maior. Outra grande diferença é na luta final entre Fender e Gibson. Ambas são excelentes, na minha opinião. Mas a desta aqui, apesar de possuir uma idéia mais visceral, sua execução fica um pouco a desejar, poupa o espectador de mostrar a morte horrível de Fender, deixando as coisas na imaginação, provavelmente pelo baixo orçamento, mas o fato é que entre as duas, prefiro a original, que é mais longa e mostra tudo o que tem que mostrar.

De uma forma geral, acho que esta director’s cut se encaixa mais ao estilo de Albert Pyun naquele período. É mais sombrio e dá ênfase às suas peculiaridades estéticas e influências (Sergio Leone e os filmes de samurai). Já a edição dos produtores deu a CYBORG um aspecto de filme de ação de baixo orçamento que tinha tudo pra ser um tradicional exemplar do período, mas acabou com o olhar peculiar e criativo de um realizador cheio de personalidade. Não é a toa que, de alguma forma, foi um dos filmes que mais me encantou durante a infância, justamente pelos vestígios deixados por Albert Pyun na versão para cinema.

E pra ser totalmente franco com vocês, essa director’s cut não possui modificações gritantes em relação ao “original”, está bem longe de ser “outro filme”. E o grande lance é que o material bruto das filmagens de CYBORG, totalmente realizado por Pyun, é muito bom e é o que realmente faz toda a diferença! Todas as grandes cenas antológicas que transformaram esta obra num clássico permanecem aqui. Acho que se eu pegasse esse material e editasse a minha versão, seguindo a mesma trama, não tenho dúvidas de que seria capaz de fazer um bom filme! Mas são as mínimas nuances que diferenciam uma versão da outra que demonstram claramente a idéia mais autoral de Albert Pyun. E olha que CYBORG, do jeitinho que era antes, já era o meu filme preferido do diretor… essa versão chega apenas para definir não apenas essa minha opinião, mas para colocar CYBORG entre os meus favoritos do gênero.

Ao fim do filme, há uma menção sobre um futuro projeto que retornaria ao universo de CYBORG em uma nova produção. Talvez uma sequência ou uma pré-continuação… Pyun chegou a anunciar e até trabalhar nessas ideias nos últimos anos, mas nada de concreto foi lançado. Continuamos aguardando.

OBS: Como disse antes, Pyun nunca lançou SLINGER comercialmente. Tive o privilégio de conferir o filme há alguns anos, quando o próprio diretor me enviou uma cópia assinada, da qual me orgulho muito e guardo com carinho na prateleira.

RACE WITH THE DEVIL (1975)

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Os prazeres da descoberta cinéfila são sempre renovadores, especialmente quando se trata de bons exemplares do exploitation americano setentista que hoje quase todo mundo não dá a mínima, como é o caso de RACE WITH THE DEVIL, de Jack Starrett. Um híbrido de ação com horror que é um filmaço. Na verdade, a “descoberta” deste filme específico vai ser de quem ainda não conferiu, porque eu pessoalmente já tive esse prazer há alguns bons anos, mas desde então me pego revendo essa pérola. Então para começar bem o fim de semana, a dica é RACE WITH THE DEVIL, que saiu aqui no Brasil como CORRIDA COM O DIABO.

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Na trama, os bons amigos Roger (Peter Fonda) e Frank (Warren Oates) planejam as melhores férias de suas vidas. Acompanhados pelas suas respectivas mulheres, Kelly (Lara Parker do seriado DARK SHADOWS) e Alice (Loretta Swit, “Hot Lips” do seriado MASH), os dois casais enchem o luxuoso trailer de Frank de cerveja e outros mantimentos e caem na estrada para uma viagem até o Colorado. Num trecho rural do Texas, eles acham um ponto para estacionar e descansar durante a noite. Sob a lua cheia os dois amigos vão à beira de um riacho, jogam conversa fora enquanto enchem o bucho de álcool, quando veem uma enorme fogueira sendo acesa do outro lado do rio.

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Observando a cena de forma, digamos, clandestina, Frank e Roger a princípio pensam que estão testemunhando uma boa e velha putaria de hippies libertinos; várias mulheres peladonas brincando em volta do fogo fazem com que os dois disputem jovialmente os binóculos. Só que a diversão se transforma em horror quando uma moça é esfaqueada por uma figura com uma máscara bizarra em algum tipo de sacrifício humano ritualístico. Os dois sujeitos borram nas calças, metaforicamente falando, e decidem tirar o trailer de lá antes que sejam vistos. Mas é tarde demais – um bando de adoradores do Diabo já está se espalhando pelo rio, correndo direto na direção da dupla.

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Depois da fuga, os casais vão até a delegacia de polícia mais próxima para relatar o que aconteceu. O amável Sheriff Taylor (veterano ator R.G. Armstrong) investiga devidamente o local, mas Frank começa a suspeitar de algo. A força policial local parece tranquila demais, até irreverente eu diria, sobre um possível assassinato de uma jovem numa floresta no meio da noite. O xerife sugere que hippies “fumaram umas cocaina”, estavam de brincadeira e que os dois amigos deve ter se confundido com alguma encenação… Mas aos poucos, vários sinais misteriosos vão sendo deixados aos casais protagonistas, que parecem indicar exatamente o contrário do que a polícia pensa. Não exatamente certo em que acreditar, o quarteto continua suas férias, deixando para trás a horrível experiência daquela noite. Mas parece que nem todo mundo quer “virar essa página”…

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RACE WITH THE DEVIL é uma miscelânea de temas e gêneros muito bem combinados. Temos uma pitada de horror rural do início dos anos 70, como DELIVERANCE, do John Boorman, ingredientes do horror satanista e um bocado de thriller/ação para dar um tempero mais excitante. Na verdade, é curioso pensar que toda a ideia do culto satânico poderia ser facilmente substituído por algum outro tipo de atividade nefasta – contrabando de drogas, escravidão humana, enfim, qualquer coisa – e pouco da trama precisaria ser alterado. Mas o toque de horror dessa mistura de gêneros vem com um gostinho especial, são vários momentos em que as convenções do terror deixam as coisas mais tensas de acompanhar…

A cena do ritual, por exemplo, é bem macabra e os figurantes eram compostos por membros reais de seitas, conforme afirma o diretor Jack Starrett em entrevistas. Se é verdade, eu não sei, só garanto que a coisa toda é uma experiência angustiante. Até porque, em vez de pegar em cheio na jugular, RACE WITH THE DEVIL toma o seu tempo em estabelecer o cenário, em construir os personagens e em aumentar gradualmente o suspense e a tensão.

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A ação mais direta, mais  deflagradora mesmo, não entra em cena até os 15 minutos finais, em uma sequência de perseguição de tirar o fôlego, colocando o trailer dos protagonistas contra um bando de carros e caminhões dirigidos pelos membros da seita. Numa época em que nem se sonhavam nas possibilidades dos efeitos especiais de CGI, é revigorante ver os dublês se arriscando perigosamente ou pirotecnias geradas com explosivos reais em vez de pixels movidos à photoshop. Os carros trombando em alta velocidade no clímax é de encher os olhos e lembram muito o que George Miller faria no seu maravilhoso MAD MAX II, oito anos depois. Não ficaria surpreso se houvesse algum tipo de influência deste aqui sobre a obra do australiano.

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RACE WITH THE DEVIL era inicialmente para ser dirigido por Lee Frost, especialista em filmes baratos daquele período, mas acabou substituído pelo Starrett, que era outra figura que contribuiu bastante com o cinema exploitation. Frost chegou a receber crédito como roteirista, ao lado de Wes Bishop, mas todas as cenas que rodou foram refilmadas por Starrett. O sujeito tinha um estilo eficiente e direto de filmar, sem muita frescura, não se vê virtuosismo e beleza estética nos filmes do Starrett, embora ele consiga extrair sempre algo interessante do seu material. E RACE WITH THE DEVIL é um de seus momentos mais inspirados, sem duvida.

Para quem não sabe, o Starrett também era ator, participou de muita produção de baixo orçamento, mas é mais conhecido por ter vivido o policial sádico que acerta umas pancadas em John Rambo em RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR. O mesmo que cai do helicóptero, que balança quando Rambo acerta uma pedrada… Enfim, só uma curiosidade.

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Por último, vale destacar a presença de dois dos mais significativos nomes do cinema setentista encabeçando o elenco, Fonda e Oates, que estão excelentes como os amigos tranquilos, bem de vida, que só querem um pouco de paz e diversão em família e acabam metidos numa confusão macabra em que precisam chegar aos extremos, pegar em armas e atirar para matar. Já o lado feminino infelizmente acaba não tendo muito destaque, o que é estranho considerando que o movimento feminista estava em plena atividade na metade dos anos setenta; as esposas de Roger e Frank não passam de mulherzinhas completamente indefesas que se põem a gritar e a chorar a qualquer circunstância misteriosa.

Tirando isso, filmaço! RACE OF THE DEVIL Foi lançado em DVD por aqui, mas se não encontrar, procure nos torrents, foda-se, encontre alguma maneira de conhecer este clássico do cinema grindhouse.

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DVD REVIEW: RAMPAGE 2 – A PUNIÇÃO (Rampage: Capital Punishment, 2014); A2 Filmes

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Uwe Boll ataca novamente neste segundo capítulo da jornada de Bill Williamson (Brendan Fletcher), o exército de um homem só, fortemente armado e blindado, que saiu atirando contra tudo e contra todos em RAMPAGE (2009), como vocês puderam conhecer no post anterior. Sim, esse cara está de volta e mais chateado do que nunca… E a A2 Filmes nos brindou lançando RAMPAGE 2 – A PUNIÇÃO no mercado de home video nacional.

Como não conseguiram pegar o rapaz no primeiro filme, Bill mais uma vez sai pelas ruas com seu traje de kevlar e artilharia suficiente para armar um pequeno batalhão depois de ficar um ano escondido. Mas neste novo capítulo da série RAMPAGE, Bill tem um plano definido, não é só matança desenfreada. Ele invade uma estação de notícias local, coloca um grupo de pessoas como refém e obriga a transmitir ao vivo em rede nacional seu discurso anti-sistema. Claro que quem entra em seu caminho eventualmente acaba levando uma dose de chumbo…

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Inclusive, o filme abre com uma situação bem bizarra. Num beco qualquer da cidade, Bill senta numa cadeira, fuma um cigarro e tranquilamente espera uma pessoa qualquer passar. Atira. Depois de acertar um desavisado, ele levanta, arrasta o corpo para ficar fora da vista, senta-se na cadeira e repete o processo até acumular uma boa quantidade de corpos, sem que ninguém faça nada, ou que a polícia seja acionada… Dessas cenas que só poderia sair da mente perturbada do alemão maluco. Continuar lendo

RAMPAGE (2009)

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Pouca gente consegue aceitar isso de forma natural, mas de alguma maneira o alemão maluco que atende pelo nome de Uwe Boll se tornou um bom diretor no final da década passada. Sim, o cara que já foi considerado um dos piores cineastas de todos os tempos tem talento, especialmente quando começou a fazer filmes que vomitavam seu desprezo pela raça humana, combinando dramas reais, medos coletivos, com exemplares de ação que muitas vezes são tão frontais em seus ataques que é difícil ficar indiferente ao ódio do diretor em propostas tão niilistas e inconsequentes. E por mais banal e inofensivo que Boll possa ser na dinâmica dos seus rasos discursos, sobrava filmes de gênero que ao menos empolgavam e divertiam.

RAMPAGE é um bom exemplar dessa safra. Tem como protagonista Bill Williamson (Brendan Fletcher), um sujeito acomodado, um zé ninguém que ainda vive com seus pais. Ele tem vinte e poucos anos e a vida é uma merda. Mas o que ninguém sabe é que sua acomodação e conformismo é apenas uma fachada enquanto planeja um manifesto. Um ato solitário, que envolve armamento pesado e um traje de kevlar à prova de balas.

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Quando chega a hora, armado até os dentes, Bill sai para as ruas de sua cidade e simplesmente começa a atirar em todas as pessoas que vê na frente. Mas que beleza de manifesto, heim? Por que ele faz isso? Bem, não temos muita clareza na sua revolta, porque ele simplesmente não parece se importar com nada. Ao mesmo tempo que seu discurso é contra o sistema vigente e a favor dos pobres inocente que vivem sob a égide das engrenagens capitalistas, essa mente caótica e perturbada não hesita em matar qualquer transeunte que vê pela frente. Continuar lendo

DVD REVIEW: A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE (2014); A2 FILMES

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Tsui Hark é desses monumentos do cinema asiático que eu ainda estou descobrindo aos poucos. De uma filmografia de mais de quarenta obras devo ter visto cerca de uma dúzia. É pouco, mas suficiente pra dizer que o homem é um dos diretores mais interessantes em atividade, mesmo que seu trabalho atual não seja do mesmo nível de algumas coisas que fez nos anos 80 e 90. De todo modo, é um nome obrigatório a ser seguido. Por isso, imaginem a minha felicidade quando a A2 Filmes anunciou o lançamento em DVD de um dos melhores trabalhos recentes do sujeito, o espetáculo de guerra A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE

Trata-se de um épico chinês de ação e aventura que não economiza na panfletagem e glorificação do exército chinês, no heroísmo grandiloquente presente ao longo de um conto que celebra a criação das lendas, dos mitos e de como essas histórias permanecem vivas de gerações em gerações.

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O filme começa nos tempos atuais, quando um jovem chinês relembra a famosa Batalha na Montanha do Tigre enquanto viaja de Nova York até à China. História que deve ter sido contada e recontada pelos seus avós incontáveis vezes, e agora nos é mostrada como uma fábula de guerra repleta de exageros e prováveis impossibilidades. O que significa um intencional excesso de bravura visual por parte dos heróis numa overdose de tiros e explosões filmado como espetáculo vertiginoso.

A narrativa, portanto, volta no tempo, logo após a segunda guerra mundial. Os japoneses, rendidos, deixam a China, certos locais se transformam numa terra de ninguém, na qual bandidos enriquecem, juntam arsenais e estocam comida em bases militares de difícil acesso, enquanto pequenos vilarejos são dizimados pela miséria e fome. Na trama, um pequeno grupo do exército de libertação chinês resolve colocar um ponto final na nessa situação, encarando um gigantesco grupo de foras-da-lei, liderados pelo misterioso The Hawk (um irreconhecível Tony Leung carregado de maquiagem), que se esconde numa base secreta praticamente inacessível na famigerada Montanha do Tigre.

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Um dos grandes méritos de Hark sempre foi trabalhar bem o drama e aqui até consegue balancear a emoção da aventura com a tragédia dos soldados diante de uma terra arrasada, diante de um povo que sofre de fome, doenças e perdas. Mas a verdadeira razão para se apreciar uma obra como A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE é mesmo o espetáculo de ação que nos é proporcionado, com o máximo de eventos que podemos imaginar num cenário de guerra nas montanhas geladas da China: escaladas perigosas, avalanches, o fator homem vs natureza, perseguições de esqui, batalhas épicas e até uma sequência impressionante de um dos heróis encarando um imenso tigre feito de uma computação gráfica muito bem feita.

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Se levarmos em consideração ainda que o filme foi rodado em 3D, aí que a coisa vira um carnaval de fragmentos de explosões, sangue e balas em excesso sendo atirados em direção ao público, o que acaba dando um charme a mais. É o espetáculo de ação com seus exageros deliciosos e muito bem orquestrado que a gente sempre espera do Hark.

No final, o diretor escancara de vez suas intensões por trás de um filme de guerra patriótico, oferecendo uma reflexão sobre a criação das fábulas, das histórias contadas pelos antigos, histórias que o tempo, a distância ou mesmo a vontade de transmitir valores se transformaram em lendas, muitas vezes completamente malucas ou inacreditáveis, como a narrada em A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE, que até é inspirada em eventos reais, mas extremamente agradáveis de ouvir por toda a mitologia que as cercam​​.

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Recomendado aos fãs de um bom festival eletrizante e barulhento de ação, A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE já se encontra no acervo da A2 Filmes, através do selo Flashstar, e pode ser encontrado nas melhores lojas do ramo. O filme também se encontra disponível para ser assistido hoje mesmo em plataformas digitais como NOW e Looke. E curta a página de facebook da A2 Filmes para ficar por dentro das novidades.

DOLPH LUNDGREN EM VOD – A2 FILMES

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Chegou esta semana nas plataformas digitais pela A2 FILMES, um dos filmes mais divertidos que o bom e velho Dolph Lundgren protagonizou nos últimos anos: CAÇADOR DE DEMÔNIOS, de Mike Mendez, um divertido híbrido que mistura horror com ação e boa dose de humor.

Como apreciador assumido do trabalho do sueco, é preciso confessar que tem sido uma jornada árdua acompanhar os lançamentos do sujeito ultimamente. A cada cinco filmes, quatro são lixos completos. E o pior é que Dolph resolveu, a essa altura da carreira, acompanhar a frequência de um Eric Roberts da vida. O cara é incansável. São vários projetos para serem lançados nos próximos meses e nos resta apenas torcer para que não sejam horrendos. Para nossa sorte, de vez em quando aparece um CAÇADOR DE DEMÔNIOS e nossas esperanças são renovadas.

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Nos últimos dois anos, CAÇADOR DE DEMÔNIOS recebeu vários elogios em festivais de terror nos EUA. Portanto, nesse mar de variedades de filmes do velho Dolph, este definitivamente era o que mais me chamou a atenção na época. Primeiro, Dolph não fez muitos filmes de horror em sua carreira, muito menos comédias (apesar de um de seus filmes recentes ser UM TIRA NO JARDIM DE INFÂNCIA 2, um desastre, mas que demonstra que Dolph leva jeito num lado cômico). Em segundo lugar, gostei do conceito de CAÇADOR DE DEMÔNIOS. Lundgren desempenha a função indicada no título nacional, um excêntrico caçador de demônios enfrentando um ser que salta de corpo a corpo quando morto. No caso, se você matar a pessoa possuída, então você acaba possuído.

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Na trama, um mal antigo é desencadeado em uma pequena cidade do Alasca, deixando uma trilha de morte e destruição à medida em que esse espírito do passa de hospedeiro a outro. A única esperança é o caçador de demônios Jebediah Woodley (Dolph) que já havia enfrentado esse mesmo terror antes. Continuar lendo

KING KONG VS GODZILLA (1962)

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Parecia uma ideia absurda, reunir os dois monstros gigantes mais famosos do cinema, King Kong e Godzilla, num mesmo filme, só para vê-los brigar e destruir coisas… Mas aconteceu, KING KONG VS. GODZILLA é um fato. Tudo por causa de Willis O’Brien, que tinha feito os efeitos especiais para o KING KONG original lá de 1933. No final da década de 50, ainda nos Estados Unidos, O’Brien tentou levar adiante um projeto que seria intitulado KING KONG vs. FRANKENSTEIN, em que “Frankenstein” seria um monstro gigante criado de diferentes animais. Mas nenhum estúdio americano se interessou, exceto um produtor, John Beck, que acabou oferecendo o projeto para produtora japonesa Toho, que substituiu Frankenstein por Godzilla e voilá, o resultado foi este petardo.

Na trama, eventos meteorológicos misteriosos no Ártico estão causando preocupação suficiente para a ONU enviar um submarino para investigar. Não demora muito, Godzilla aparece no local. emergindo de um enorme iceberg. Lembrando que no desfecho de GODZILLA RAIDS AGAIN, o segundo filme da série, o lagartão é soterrado por pedras de gelo numa ilha misteriosa… Como foi parar no Ártico eu já não sei e o filme, dessa vez, não faz questão alguma de explicar.

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Enquanto isso, uma empresa farmacêutica japonesa envia um cientista para uma remota ilha do Pacífico para garantir suprimentos de uma nova droga que é encontrada apenas nesta ilha. A empresa também está procurando uma grande atração publicitária, então os relatos de um gigante gorila no local torna a ilha ainda mais interessante para eles: o monstro poderia ser uma ótima jogada de marketing e vendas. Continuar lendo

BAT*21 – MISSÃO NO INFERNO (1988)

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Voltando ao Gene Hackman casca-grossa dos anos 80. Recapitulando, já falamos aqui de DE VOLTA PARA O INFERNO, ENTREGA MORTAL e O ALVO DA MORTE. Ainda vou comentar mais uns três ou quatro, mas por enquanto vamos de BAT*21 – MISSÃO NO INFERNO.

Curioso é que em 2001 tivemos um filme – mediano, pelo que me lembre – chamado ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS, dirigido por John Moore, no qual Gene Hackman é um almirante que mantém comunicação com o personagem de Owen Wilson ajudando-o a encarar os desafios de estar sozinho literalmente em território inimigo numa guerra. Já este BAT*21, de Peter Markle (VEIA DE CAMPEÃO), é o Hackman quem passa uma situação difícil, vivendo um tenente coronel na Guerra do Vietnã que tem o seu avião abatido por um míssil e acaba sendo o único sobrevivente numa região repleta de soldados vietcongues.

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Hackman é Hambleton, um especialista em armas que tem informações que os vietcongues desejam, e eles sabem que o sujeito está vivo em suas florestas após abaterem seu avião. A coisa esquenta ainda mais, pois Hambleton sabe também que a área em que ele se encontra está prestes a ser bombardeada pelos americanos e por isso precisa sair dali urgentemente. Trabalhando com um piloto de reconhecimento da Força Aérea que sobrevoa o local, o capitão Bartholomew Clark (Danny Glover), eles mapeiam uma rota de fuga antes que seja capturado ou que vá pelos ares…

Baseado num livro de William C. Anderson, a partir de uma história verídica (embora um bocado diferente, já que na época das filmagens o fato ainda era classificado como confidencial), BAT*21 é eficiente ao mostrar um tenente coronel, cuja participação em guerra se dá mais em planejamentos atrás de uma mesa do que combatendo em campo, encalhado no meio da selva rodeado de inimigos. Ajuda muito, portanto, um ator de peso como Hackman em convencer a transformação do seu personagem, que acaba forçado a se defender – e a matar – para manter a pele intacta.

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E esse talvez seja o ponto mais notável de BAT*21, que não é um filme de guerra com ação exagerada e que nunca tenta glorificar soldados americanos no Vietnã. Em vez disso, mostra uma aventura de perspectiva mais humana, o que acaba sendo bem mais contundente quando se trata de perdas de vidas, do ato de matar, e como esse tratamento torna alguns momentos bem mais brutais. Como toda a sequência em que os vietcongs capturam dois pilotos de helicópteros que tinham objetivo de resgatar Hambleton. Mas quando os tiros precisam comer solto, o diretor Peter Markle manda bem em criar um espetáculo explosivo, classudo e truculento. Continuar lendo

O ALVO DA MORTE (Target, 1985)

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Mais um Hackman pintando por aqui. Achava que com esse O ALVO DA MORTE não teria erro depois de assistir a dois ótimos filmes desse período e estrelado pelo ator. Mais uma vez temos Hackman pagando de badass num thriller de ação dirigido pelo veterano Arthur Penn (BONNIE & CLYDE)… Então, imaginem a frustração, lá pelas tantas, quando descobri que já estava numa furada. Não que o filme seja horrível, a trama até que é interessante, mas não tem nada muito marcante, não consegui entrar muito no clima e algumas soluções me incomodaram bastante na maior parte do tempo.

Hackman é Walter Lloyd, um sujeito pacato de Dallas, administrando uma madeireira, mas que esconde um passado sombrio. O sujeito tem uma relação distante com seu filho (Matt Dillon) e o casamento já teve dias melhores, tanto que sua esposa (Gayle Hunnicutt) resolve tirar umas férias na Europa totalmente sozinha. Antes de viajar, no entanto, ela pede que Walter tente dar uma atenção ao filho, o que acaba acontecendo. São forçados a isso quando um telefonema acorda Walter no meio da noite com a informação de que sua mulher está desaparecida há mais de 48 horas.

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Pai e filho partem para a Europa e, não demora muito, descobrem que a mulher foi sequestrada. E aos poucos Walter vai revelando para o filho (e também para o espectador) detalhes do seu passado desconhecido, como por exemplo, ser um espião da CIA aposentado, que comandou várias operações especiais internacionais ultra-secretas durante a Guerra Fria. Tentando libertar sua esposa, Walter se vê num fogo cruzado entre os sequestradores de sua mulher, que por algum motivo querem encontrá-lo com vida, e outras pessoas que querem matá-lo antes que ele encontre os sequestradores.

Sim, a trama é, aparentemente, intrincada, mas que poderia fluir com mais leveza. Ao invés disso, a mão dos realizadores pesou e O ALVO DA MORTE acaba pecando por situações que não levam a lugar algum e diálogos maçantes que me fizeram soltar grandes bocejos. A química entre Hackman e Dillon não funciona como pai e filho, embora haja um grande esforço do filme em trabalhar o tema, e são poucas as sequências de ação que realmente empolgam.

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Hackman acaba por ser a grande virtude de O ALVO DA MORTE. É quem segura o filme e faz manter o interesse pela trama central. Infelizmente não me lembro de mais nada para elogiar. Algum momento e outro de tensão, talvez, como a cena do assassino que invade o quarto de Walter… Meia hora a menos já faria um bem danado ao ritmo do filme, poderia ter rendido um pequeno thriller divertido se fosse mais enxugado, com algumas doses de ação mais caprichadas, mas simplesmente desperdiçaram qualquer possibilidade disso acontecer.

Foi a última colaboração entre o diretor Arthur Penn com Hackman, que começou em BONNIE & CLYDE (67) e continuou em NIGHT MOVES (75). O diretor já não faria muitas coisas depois de O ALVO DA MORTE… Dois longas, alguns trabalhos para a TV. Mas teve uma carreira sólida, com alguns filmes realmente brilhantes que valem a pena conhecer. Morreu em 2010.

DE VOLTA PARA O INFERNO (Uncommon Valor, 1983)

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Daqueles filmes que você para e dá aquela refletida… “Por que raios eu não assisti essa merda antes?”  DE VOLTA PARA O INFERNO é o típico de filme de ação/guerra dos anos 8o que eu já deveria ter visto e não sei porque ainda não o tinha feito. Possui uma história sólida, relevante, pessimista de um certo ponto de vista, ao mesmo tempo em que todos os elementos divertidos e exagerados que me fazem sorrir em filmes do tipo se materializam por aqui. É dirigido pelo Ted Kotcheff, um casca-grossa com muito talento e sensibilidade, e reúne alguns dos atores mais badasses do cinema testosterona oitentista! Entre eles o grande Gene Hackman encabeçando o elenco.

Em uma narrativa ao estilo “men in a mission“, DE VOLTA PARA O INFERNO centra-se em um coronel dos Estados Unidos aposentado, Jason Rhodes (Hackman), que acredita que seu filho, Frank, um soldado que esteve em ação no Vietnã, ainda está vivo e mantido prisioneiro no Laos, mesmo passados dez anos do fim da guerra. Depois de conseguir financiamento de um magnata do petróleo (Robert Stack), cujo filho também desapareceu na mesma guerra, Rhodes recruta um grupo de ex-militares e velhos companheiros de guerra de seu filho para retornar à região em busca do pobre rapaz, além de outros americanos vivendo em cativeiro. A equipe inclui Fred Ward, Randall “Tex” Cobb, Reb Brown (o Capitão América dos anos 70), o grande Tim Thomerson e Patrick Swayze, num de seus primeiros papeis para cinema. Se esse não é um dos elencos com um dos mais altos níveis de truculência desse período, então eu já não sei mais nada da vida.

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A primeira metade do filme é a reunião do grupo e o treinamento para colocar esses veteranos em forma antes de partir para a ação. Serve também para que o público se identifique com os personagens, com suas habilidades e trabalhe a química entre eles. Mas também pra mostrar o quão fodido é a vida de alguns indivíduos no pós-guerra, um bando de outsiders atormentados sem a mínima capacidade de se encaixar num convívio social decente. E vêem nessa oportunidade de retornar ao campo de batalha uma maneira de tentarem se reencontrar e dar sentido às suas vidas.

Dessa forma, DE VOLTA PARA O INFERNO serve de expansão ao universo do trabalho anterior de Kotcheff, um dos melhores filmes que existe na vida, que também trata de traumas do Vietnã, FIRST BLOOD, mais conhecido no Brasil como RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR, também conhecido como a obra-prima de Sylvester Stallone. Aliás, recomendo muito este texto sobre RAMBO, do amigo Lázaro Cassar, para o Action News. 

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A segunda metade do filme é tiro, porrada e bomba, como diz minha mulher… Mas sem a previsibilidade habitual. Por exemplo, todo o planejamento para a ação de resgate termina numa furada e grande parte da missão acaba acontecendo na base do improviso – o armamento de Rhodes é confiscado pela polícia local e precisa arranjar armas velhas no mercado negro; os helicópteros de resgate não estão onde deveriam e acabam roubando de uma base militar Vietcong; um dos personagens é mordido por uma cobra ao adentrar um túnel que dá no campo de concentração… E por aí vai. Quando a ação começa pra valer é de arregaçar! Kotcheff manda muito bem  em criar um espetáculo de balas e explosões, com domínio de ritmo, de coreografia e de exageros típicos do cinema de ação/guerra oitentista. A ação final é ao mesmo tempo frenética, divertida, classuda e sem frescuras, mas também melancólica… Como em OS STE SAMURAIS, de Kurosawa, ou SETE HOMENS E UM DESTINO, de john Sturges, o filme não tem muito receio em terminar com algumas baixas de personagens importantes. Personagens que passamos metade do filme criando uma relação… Continuar lendo

ENTREGA MORTAL (The Package, 1989)

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Houve um tempo em que Gene Hackman ensaiou uma de se transformar num herói de ação badass. Isso aconteceu especialmente nos anos 80 e início dos 90. Nada muito exagerado como fora sua “concorrência” no período, como Stallone, Schwarza, Van Damme… Também não foram muitos filmes assim, mas temos DE VOLTA PARA O INFERNO, O ALVO DA MORTE, DE FRENTE PARA O PERIGO, COMPANHIA DE ASSASSINOS, tem até a comédia de ação UM TIRO QUE NÃO DEU CERTO. Como Hackman era um baita ator, hoje gozando de sua merecida aposentadoria, vou dar uma debruçada nessa fase action hero dele a pedido de um leitor. Começando pelo thriller político ENTREGA MORTAL.

Hackman é Johnny Gallagher, um oficial do exército americano encarregado de transportar um soldado prisioneiro (Tommy Lee Jones) de volta aos EUA para a corte marcial. Já em solo americano, o soldado escapa e Gallagher descobre da pior maneira possível que se meteu numa encrenca daquelas, numa trama internacional intrincada envolvendo espiões, mercenários, polícia, o próprio governo e até mesmo uma conspiração com planos terroristas.

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Contando com a ajuda de sua ex-mulher, Eileen (Joanna Cassidy), e de um detetive de Chicago, Delich (Dennis Franz), Gallagher precisa agora encontrar de volta o seu “pacote”, ou seja, o soldado que escapou (o package do título original), no qual ele descobre se tratar de um assassino profissional contratado que precisava entrar nos EUA sem um passaporte para realizar sua missão – o assassinato do presidente dos Estados Unidos. Continuar lendo

BONNIE & CLYDE (1967)

A presepada na entrega do prêmio de melhor filme ontem, no Oscar, foi simplesmente linda! E a melhor maneira que encontrei para homenagear o casal que nos brindou com esses momentos de puro constrangimento, desorganização e magia foi republicar esse textinho de BONNIE & CLYDE direto do blog antigo.

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Dizem que o ator (e produtor do filme) Warren Beatty precisou implorar de joelhos perante a cúpula da Warner para levar às telas de cinema a vida de Bonnie e Clyde, o famoso casal que roubava bancos na época da depressão americana. Cabeças duras, como sempre, os executivos não tinham ideia de que BONNIE & CLYDE (no Brasil, UMA RAJADA DE BALAS) iria se tornar uma das obras mais influentes do cinema americano e mudaria totalmente a maneira de tratar a violência no cinema mainstream de Hollywood.

Hollywood, claro! Porque violência, sangue e gore já existia há muito tempo no cinema americano (Herschell Gordon Lewis que o diga). Mas seria injusto desmerecer a maneira como a violência é abordada aqui. Tomemos por exemplo um dos primeiros assaltos, quando Michael J. Pollard estaciona o que deveria ser o carro de fuga. A situação vira uma cena cômica até que PIMBA! Soa um tiro na cabeça de um funcionário do banco, muito sangue é espalhado na tela e acaba a palhaçada!

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Não é preciso nem tocar no assunto do desfecho de BONNIE & CLYDE também, não é? Aquele brutal, sangrento, perturbador, chocante! Sam Peckinpah deve ter ficado com água na boca imaginando o que poderia fazer com seus próximos filmes, não é a toa que tivemos pouco tempo depois um WILD BUNCH e o cabra ficou conhecido como “poeta da violência”.

Também há a influencia da Nouvelle Vague francesa. As primeiras imagens que mostram Faye Dunaway nua em seu quarto parecem saídas de um filme do Truffaut. Por falar no realizador francês, a direção de BONNIE & CLYDE quase parou em suas mãos antes de ir para o excelente e subestimado Arthur Penn, que realizou por aqui um belíssimo trabalho. Simples, mas moderno, um novo frescor para um estilo de trabalho estético e de câmera que não era muito comum no período no cinema americano. O cara já havia demonstrado traços experimentais em filmes anteriores, especialmente MICKEY ONE, também com o Beatty, que é um autêntico filme de vanguarda.

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Além de Dunaway (que esté maravilhosamente linda), Beatty e Pollard, o filme conta com a presença de Gene Hackman e Estelle Parsons. Todos indicados ao Oscar, mas apenas esta última levou a estatueta pra casa, e merecida, embora todo o elenco esteja ótimo. Temos até uma pequena participação do Gene Wilder. A fotografia também merece destaque, há uma cena em que uma nuvem passa por cima dos atores tapando o sol que é uma coisa absurda de linda…

Assistir a BONNIE & CLYDE é recompensador, principalmente quando é a primeira vez, como foi o meu caso. Retirou um peso da minha consciência cinéfila…

Escrito originalmente em novembro de 2009.

THE TALE OF ZATOICHI (1962)

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Quando os estúdios Daiei escolheram adaptar para o cinema a história de Zatoichi, um samurai cego que só havia aparecido em pequenas crônicas publicadas no final dos anos 40, eles não faziam ideia da extensão que seria o sucesso do personagem, que se transformaria num herói popular, ícone da cultura pop japonesa e renderia ainda mais de vinte filmes, seriados, além de spin-offs e revivals em tempos modernos, como a do Takeshi Kitano, em 2003… Ou aquela versão com o Rutger Hauer, FÚRIA CEGA.

Aqui, no entanto, é onde tudo começou. Dirigido pelo veterano Kenji Misumi e magistralmente personificado por Shitaro Katsu, THE TALE OF ZATOICHI inicialmente pode parecer muito influenciado por YOJIMBO, de Akira Kurosawa, lançado no ano anterior e que exibe uma trama similar em alguns pontos. Em ambos vemos um outsider itinerante de habilidade marcial fora do comum vagando em espaços rurais arruinados pelo conflito entre dois clãs rivais que disputam o poder local. Só que Zatoichi rapidamente se estabelece como um protagonista mais equilibrado e simpático, diferente do grosseiro Sanjuro, de Toshirô Mifune, embora as motivações dos dois permaneçam igualmente ambíguas, com a busca de dinheiro em ambos os casos soando como fachada para redenções morais não explícitas.

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A principal diferença de YOJIMBO, porém, é o fato de que THE TALE OF ZATOICHI se assume apenas como um entretenimento popular e não uma obra filosofica auto-consciente, como é o caso de Kurosawa. Até porque estamos falando de um sujeito cego que é capaz de encarar grupos inteiros de meliantes armados com objetos cortantes e ainda por cima se sair bem, como uma espécie de Matt Murdock/Demolidor do Japão feudal. Não dá tempo pra filosofias por aqui… E as sequências de ação são excepcionais, apesar do filme carecer de um pouquinho mais de combates de espada. Ficou um gostinho de “quero mais”…

Na verdade, THE TALE OF ZATOICHI poderia ser bem mais divertido se fosse mais focado no seu protagonista e com mais cenas de ação, mas o excesso de subtramas neste enredo que não chega nem a duas horas de duração é demais para suportar. O filme atira pra todo lado com histórias envolvendo estupro de uma moça, a gravidez de outra, a doença mortal de fulano, abuso, suicídio, alcoolismo, jogos de azar, amor, e vários outros tópicos… Me parece um pouco demasiado complexo para o que poderia ser bem mais simples. E fica faltando mais tempo para explorar a ação. Tá certo que, possivelmente, os realizadores optaram por retratar o fato de que Zatoichi não saca sua espada de forma vulgar e evita ao máximo o confronto. Mas, porra, eu ansiava por um pouco mais das habilidades do lendário samurai cego.

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Mas preciso ressaltar: quando Zatoichi resolve usar sua espada, o resultado é incrível, como no esperado e antológico duelo na pontezinha. São por esses momentos que o filme vale uma conferida.

Impossível deixar de destacar também o trabalho de Shintaro Katsu na pele de Zatoichi, que tem aqui um desempenho do cacete, muito convincente e carismático. É o que realmente segura THE TALE OF ZATOICHI e que faz o personagem tão fascinante. Vou continuar assistindo a série aos poucos e comento aqui a medida que for assistindo. Este aqui, apesar dos pesares, tem todos os méritos para ser o clássico das artes marciais que é. Mas espero que as próximas vinte e tantas continuações tenha um bocado mais de ação…