RACE WITH THE DEVIL (1975)

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Os prazeres da descoberta cinéfila são sempre renovadores, especialmente quando se trata de bons exemplares do exploitation americano setentista que hoje quase todo mundo não dá a mínima, como é o caso de RACE WITH THE DEVIL, de Jack Starrett. Um híbrido de ação com horror que é um filmaço. Na verdade, a “descoberta” deste filme específico vai ser de quem ainda não conferiu, porque eu pessoalmente já tive esse prazer há alguns bons anos, mas desde então me pego revendo essa pérola. Então para começar bem o fim de semana, a dica é RACE WITH THE DEVIL, que saiu aqui no Brasil como CORRIDA COM O DIABO.

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Na trama, os bons amigos Roger (Peter Fonda) e Frank (Warren Oates) planejam as melhores férias de suas vidas. Acompanhados pelas suas respectivas mulheres, Kelly (Lara Parker do seriado DARK SHADOWS) e Alice (Loretta Swit, “Hot Lips” do seriado MASH), os dois casais enchem o luxuoso trailer de Frank de cerveja e outros mantimentos e caem na estrada para uma viagem até o Colorado. Num trecho rural do Texas, eles acham um ponto para estacionar e descansar durante a noite. Sob a lua cheia os dois amigos vão à beira de um riacho, jogam conversa fora enquanto enchem o bucho de álcool, quando veem uma enorme fogueira sendo acesa do outro lado do rio.

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Observando a cena de forma, digamos, clandestina, Frank e Roger a princípio pensam que estão testemunhando uma boa e velha putaria de hippies libertinos; várias mulheres peladonas brincando em volta do fogo fazem com que os dois disputem jovialmente os binóculos. Só que a diversão se transforma em horror quando uma moça é esfaqueada por uma figura com uma máscara bizarra em algum tipo de sacrifício humano ritualístico. Os dois sujeitos borram nas calças, metaforicamente falando, e decidem tirar o trailer de lá antes que sejam vistos. Mas é tarde demais – um bando de adoradores do Diabo já está se espalhando pelo rio, correndo direto na direção da dupla.

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Depois da fuga, os casais vão até a delegacia de polícia mais próxima para relatar o que aconteceu. O amável Sheriff Taylor (veterano ator R.G. Armstrong) investiga devidamente o local, mas Frank começa a suspeitar de algo. A força policial local parece tranquila demais, até irreverente eu diria, sobre um possível assassinato de uma jovem numa floresta no meio da noite. O xerife sugere que hippies “fumaram umas cocaina”, estavam de brincadeira e que os dois amigos deve ter se confundido com alguma encenação… Mas aos poucos, vários sinais misteriosos vão sendo deixados aos casais protagonistas, que parecem indicar exatamente o contrário do que a polícia pensa. Não exatamente certo em que acreditar, o quarteto continua suas férias, deixando para trás a horrível experiência daquela noite. Mas parece que nem todo mundo quer “virar essa página”…

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RACE WITH THE DEVIL é uma miscelânea de temas e gêneros muito bem combinados. Temos uma pitada de horror rural do início dos anos 70, como DELIVERANCE, do John Boorman, ingredientes do horror satanista e um bocado de thriller/ação para dar um tempero mais excitante. Na verdade, é curioso pensar que toda a ideia do culto satânico poderia ser facilmente substituído por algum outro tipo de atividade nefasta – contrabando de drogas, escravidão humana, enfim, qualquer coisa – e pouco da trama precisaria ser alterado. Mas o toque de horror dessa mistura de gêneros vem com um gostinho especial, são vários momentos em que as convenções do terror deixam as coisas mais tensas de acompanhar…

A cena do ritual, por exemplo, é bem macabra e os figurantes eram compostos por membros reais de seitas, conforme afirma o diretor Jack Starrett em entrevistas. Se é verdade, eu não sei, só garanto que a coisa toda é uma experiência angustiante. Até porque, em vez de pegar em cheio na jugular, RACE WITH THE DEVIL toma o seu tempo em estabelecer o cenário, em construir os personagens e em aumentar gradualmente o suspense e a tensão.

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A ação mais direta, mais  deflagradora mesmo, não entra em cena até os 15 minutos finais, em uma sequência de perseguição de tirar o fôlego, colocando o trailer dos protagonistas contra um bando de carros e caminhões dirigidos pelos membros da seita. Numa época em que nem se sonhavam nas possibilidades dos efeitos especiais de CGI, é revigorante ver os dublês se arriscando perigosamente ou pirotecnias geradas com explosivos reais em vez de pixels movidos à photoshop. Os carros trombando em alta velocidade no clímax é de encher os olhos e lembram muito o que George Miller faria no seu maravilhoso MAD MAX II, oito anos depois. Não ficaria surpreso se houvesse algum tipo de influência deste aqui sobre a obra do australiano.

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RACE WITH THE DEVIL era inicialmente para ser dirigido por Lee Frost, especialista em filmes baratos daquele período, mas acabou substituído pelo Starrett, que era outra figura que contribuiu bastante com o cinema exploitation. Frost chegou a receber crédito como roteirista, ao lado de Wes Bishop, mas todas as cenas que rodou foram refilmadas por Starrett. O sujeito tinha um estilo eficiente e direto de filmar, sem muita frescura, não se vê virtuosismo e beleza estética nos filmes do Starrett, embora ele consiga extrair sempre algo interessante do seu material. E RACE WITH THE DEVIL é um de seus momentos mais inspirados, sem duvida.

Para quem não sabe, o Starrett também era ator, participou de muita produção de baixo orçamento, mas é mais conhecido por ter vivido o policial sádico que acerta umas pancadas em John Rambo em RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR. O mesmo que cai do helicóptero, que balança quando Rambo acerta uma pedrada… Enfim, só uma curiosidade.

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Por último, vale destacar a presença de dois dos mais significativos nomes do cinema setentista encabeçando o elenco, Fonda e Oates, que estão excelentes como os amigos tranquilos, bem de vida, que só querem um pouco de paz e diversão em família e acabam metidos numa confusão macabra em que precisam chegar aos extremos, pegar em armas e atirar para matar. Já o lado feminino infelizmente acaba não tendo muito destaque, o que é estranho considerando que o movimento feminista estava em plena atividade na metade dos anos setenta; as esposas de Roger e Frank não passam de mulherzinhas completamente indefesas que se põem a gritar e a chorar a qualquer circunstância misteriosa.

Tirando isso, filmaço! RACE OF THE DEVIL Foi lançado em DVD por aqui, mas se não encontrar, procure nos torrents, foda-se, encontre alguma maneira de conhecer este clássico do cinema grindhouse.

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DVD REVIEW: RAMPAGE 2 – A PUNIÇÃO (Rampage: Capital Punishment, 2014); A2 Filmes

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Uwe Boll ataca novamente neste segundo capítulo da jornada de Bill Williamson (Brendan Fletcher), o exército de um homem só, fortemente armado e blindado, que saiu atirando contra tudo e contra todos em RAMPAGE (2009), como vocês puderam conhecer no post anterior. Sim, esse cara está de volta e mais chateado do que nunca… E a A2 Filmes nos brindou lançando RAMPAGE 2 – A PUNIÇÃO no mercado de home video nacional.

Como não conseguiram pegar o rapaz no primeiro filme, Bill mais uma vez sai pelas ruas com seu traje de kevlar e artilharia suficiente para armar um pequeno batalhão depois de ficar um ano escondido. Mas neste novo capítulo da série RAMPAGE, Bill tem um plano definido, não é só matança desenfreada. Ele invade uma estação de notícias local, coloca um grupo de pessoas como refém e obriga a transmitir ao vivo em rede nacional seu discurso anti-sistema. Claro que quem entra em seu caminho eventualmente acaba levando uma dose de chumbo…

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Inclusive, o filme abre com uma situação bem bizarra. Num beco qualquer da cidade, Bill senta numa cadeira, fuma um cigarro e tranquilamente espera uma pessoa qualquer passar. Atira. Depois de acertar um desavisado, ele levanta, arrasta o corpo para ficar fora da vista, senta-se na cadeira e repete o processo até acumular uma boa quantidade de corpos, sem que ninguém faça nada, ou que a polícia seja acionada… Dessas cenas que só poderia sair da mente perturbada do alemão maluco. Continuar lendo

RAMPAGE (2009)

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Pouca gente consegue aceitar isso de forma natural, mas de alguma maneira o alemão maluco que atende pelo nome de Uwe Boll se tornou um bom diretor no final da década passada. Sim, o cara que já foi considerado um dos piores cineastas de todos os tempos tem talento, especialmente quando começou a fazer filmes que vomitavam seu desprezo pela raça humana, combinando dramas reais, medos coletivos, com exemplares de ação que muitas vezes são tão frontais em seus ataques que é difícil ficar indiferente ao ódio do diretor em propostas tão niilistas e inconsequentes. E por mais banal e inofensivo que Boll possa ser na dinâmica dos seus rasos discursos, sobrava filmes de gênero que ao menos empolgavam e divertiam.

RAMPAGE é um bom exemplar dessa safra. Tem como protagonista Bill Williamson (Brendan Fletcher), um sujeito acomodado, um zé ninguém que ainda vive com seus pais. Ele tem vinte e poucos anos e a vida é uma merda. Mas o que ninguém sabe é que sua acomodação e conformismo é apenas uma fachada enquanto planeja um manifesto. Um ato solitário, que envolve armamento pesado e um traje de kevlar à prova de balas.

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Quando chega a hora, armado até os dentes, Bill sai para as ruas de sua cidade e simplesmente começa a atirar em todas as pessoas que vê na frente. Mas que beleza de manifesto, heim? Por que ele faz isso? Bem, não temos muita clareza na sua revolta, porque ele simplesmente não parece se importar com nada. Ao mesmo tempo que seu discurso é contra o sistema vigente e a favor dos pobres inocente que vivem sob a égide das engrenagens capitalistas, essa mente caótica e perturbada não hesita em matar qualquer transeunte que vê pela frente. Continuar lendo

DVD REVIEW: A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE (2014); A2 FILMES

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Tsui Hark é desses monumentos do cinema asiático que eu ainda estou descobrindo aos poucos. De uma filmografia de mais de quarenta obras devo ter visto cerca de uma dúzia. É pouco, mas suficiente pra dizer que o homem é um dos diretores mais interessantes em atividade, mesmo que seu trabalho atual não seja do mesmo nível de algumas coisas que fez nos anos 80 e 90. De todo modo, é um nome obrigatório a ser seguido. Por isso, imaginem a minha felicidade quando a A2 Filmes anunciou o lançamento em DVD de um dos melhores trabalhos recentes do sujeito, o espetáculo de guerra A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE

Trata-se de um épico chinês de ação e aventura que não economiza na panfletagem e glorificação do exército chinês, no heroísmo grandiloquente presente ao longo de um conto que celebra a criação das lendas, dos mitos e de como essas histórias permanecem vivas de gerações em gerações.

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O filme começa nos tempos atuais, quando um jovem chinês relembra a famosa Batalha na Montanha do Tigre enquanto viaja de Nova York até à China. História que deve ter sido contada e recontada pelos seus avós incontáveis vezes, e agora nos é mostrada como uma fábula de guerra repleta de exageros e prováveis impossibilidades. O que significa um intencional excesso de bravura visual por parte dos heróis numa overdose de tiros e explosões filmado como espetáculo vertiginoso.

A narrativa, portanto, volta no tempo, logo após a segunda guerra mundial. Os japoneses, rendidos, deixam a China, certos locais se transformam numa terra de ninguém, na qual bandidos enriquecem, juntam arsenais e estocam comida em bases militares de difícil acesso, enquanto pequenos vilarejos são dizimados pela miséria e fome. Na trama, um pequeno grupo do exército de libertação chinês resolve colocar um ponto final na nessa situação, encarando um gigantesco grupo de foras-da-lei, liderados pelo misterioso The Hawk (um irreconhecível Tony Leung carregado de maquiagem), que se esconde numa base secreta praticamente inacessível na famigerada Montanha do Tigre.

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Um dos grandes méritos de Hark sempre foi trabalhar bem o drama e aqui até consegue balancear a emoção da aventura com a tragédia dos soldados diante de uma terra arrasada, diante de um povo que sofre de fome, doenças e perdas. Mas a verdadeira razão para se apreciar uma obra como A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE é mesmo o espetáculo de ação que nos é proporcionado, com o máximo de eventos que podemos imaginar num cenário de guerra nas montanhas geladas da China: escaladas perigosas, avalanches, o fator homem vs natureza, perseguições de esqui, batalhas épicas e até uma sequência impressionante de um dos heróis encarando um imenso tigre feito de uma computação gráfica muito bem feita.

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Se levarmos em consideração ainda que o filme foi rodado em 3D, aí que a coisa vira um carnaval de fragmentos de explosões, sangue e balas em excesso sendo atirados em direção ao público, o que acaba dando um charme a mais. É o espetáculo de ação com seus exageros deliciosos e muito bem orquestrado que a gente sempre espera do Hark.

No final, o diretor escancara de vez suas intensões por trás de um filme de guerra patriótico, oferecendo uma reflexão sobre a criação das fábulas, das histórias contadas pelos antigos, histórias que o tempo, a distância ou mesmo a vontade de transmitir valores se transformaram em lendas, muitas vezes completamente malucas ou inacreditáveis, como a narrada em A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE, que até é inspirada em eventos reais, mas extremamente agradáveis de ouvir por toda a mitologia que as cercam​​.

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Recomendado aos fãs de um bom festival eletrizante e barulhento de ação, A BATALHA NA MONTANHA DO TIGRE já se encontra no acervo da A2 Filmes, através do selo Flashstar, e pode ser encontrado nas melhores lojas do ramo. O filme também se encontra disponível para ser assistido hoje mesmo em plataformas digitais como NOW e Looke. E curta a página de facebook da A2 Filmes para ficar por dentro das novidades.

DOLPH LUNDGREN EM VOD – A2 FILMES

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Chegou esta semana nas plataformas digitais pela A2 FILMES, um dos filmes mais divertidos que o bom e velho Dolph Lundgren protagonizou nos últimos anos: CAÇADOR DE DEMÔNIOS, de Mike Mendez, um divertido híbrido que mistura horror com ação e boa dose de humor.

Como apreciador assumido do trabalho do sueco, é preciso confessar que tem sido uma jornada árdua acompanhar os lançamentos do sujeito ultimamente. A cada cinco filmes, quatro são lixos completos. E o pior é que Dolph resolveu, a essa altura da carreira, acompanhar a frequência de um Eric Roberts da vida. O cara é incansável. São vários projetos para serem lançados nos próximos meses e nos resta apenas torcer para que não sejam horrendos. Para nossa sorte, de vez em quando aparece um CAÇADOR DE DEMÔNIOS e nossas esperanças são renovadas.

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Nos últimos dois anos, CAÇADOR DE DEMÔNIOS recebeu vários elogios em festivais de terror nos EUA. Portanto, nesse mar de variedades de filmes do velho Dolph, este definitivamente era o que mais me chamou a atenção na época. Primeiro, Dolph não fez muitos filmes de horror em sua carreira, muito menos comédias (apesar de um de seus filmes recentes ser UM TIRA NO JARDIM DE INFÂNCIA 2, um desastre, mas que demonstra que Dolph leva jeito num lado cômico). Em segundo lugar, gostei do conceito de CAÇADOR DE DEMÔNIOS. Lundgren desempenha a função indicada no título nacional, um excêntrico caçador de demônios enfrentando um ser que salta de corpo a corpo quando morto. No caso, se você matar a pessoa possuída, então você acaba possuído.

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Na trama, um mal antigo é desencadeado em uma pequena cidade do Alasca, deixando uma trilha de morte e destruição à medida em que esse espírito do passa de hospedeiro a outro. A única esperança é o caçador de demônios Jebediah Woodley (Dolph) que já havia enfrentado esse mesmo terror antes. Continuar lendo

KING KONG VS GODZILLA (1962)

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Parecia uma ideia absurda, reunir os dois monstros gigantes mais famosos do cinema, King Kong e Godzilla, num mesmo filme, só para vê-los brigar e destruir coisas… Mas aconteceu, KING KONG VS. GODZILLA é um fato. Tudo por causa de Willis O’Brien, que tinha feito os efeitos especiais para o KING KONG original lá de 1933. No final da década de 50, ainda nos Estados Unidos, O’Brien tentou levar adiante um projeto que seria intitulado KING KONG vs. FRANKENSTEIN, em que “Frankenstein” seria um monstro gigante criado de diferentes animais. Mas nenhum estúdio americano se interessou, exceto um produtor, John Beck, que acabou oferecendo o projeto para produtora japonesa Toho, que substituiu Frankenstein por Godzilla e voilá, o resultado foi este petardo.

Na trama, eventos meteorológicos misteriosos no Ártico estão causando preocupação suficiente para a ONU enviar um submarino para investigar. Não demora muito, Godzilla aparece no local. emergindo de um enorme iceberg. Lembrando que no desfecho de GODZILLA RAIDS AGAIN, o segundo filme da série, o lagartão é soterrado por pedras de gelo numa ilha misteriosa… Como foi parar no Ártico eu já não sei e o filme, dessa vez, não faz questão alguma de explicar.

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Enquanto isso, uma empresa farmacêutica japonesa envia um cientista para uma remota ilha do Pacífico para garantir suprimentos de uma nova droga que é encontrada apenas nesta ilha. A empresa também está procurando uma grande atração publicitária, então os relatos de um gigante gorila no local torna a ilha ainda mais interessante para eles: o monstro poderia ser uma ótima jogada de marketing e vendas. Continuar lendo

BAT*21 – MISSÃO NO INFERNO (1988)

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Voltando ao Gene Hackman casca-grossa dos anos 80. Recapitulando, já falamos aqui de DE VOLTA PARA O INFERNO, ENTREGA MORTAL e O ALVO DA MORTE. Ainda vou comentar mais uns três ou quatro, mas por enquanto vamos de BAT*21 – MISSÃO NO INFERNO.

Curioso é que em 2001 tivemos um filme – mediano, pelo que me lembre – chamado ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS, dirigido por John Moore, no qual Gene Hackman é um almirante que mantém comunicação com o personagem de Owen Wilson ajudando-o a encarar os desafios de estar sozinho literalmente em território inimigo numa guerra. Já este BAT*21, de Peter Markle (VEIA DE CAMPEÃO), é o Hackman quem passa uma situação difícil, vivendo um tenente coronel na Guerra do Vietnã que tem o seu avião abatido por um míssil e acaba sendo o único sobrevivente numa região repleta de soldados vietcongues.

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Hackman é Hambleton, um especialista em armas que tem informações que os vietcongues desejam, e eles sabem que o sujeito está vivo em suas florestas após abaterem seu avião. A coisa esquenta ainda mais, pois Hambleton sabe também que a área em que ele se encontra está prestes a ser bombardeada pelos americanos e por isso precisa sair dali urgentemente. Trabalhando com um piloto de reconhecimento da Força Aérea que sobrevoa o local, o capitão Bartholomew Clark (Danny Glover), eles mapeiam uma rota de fuga antes que seja capturado ou que vá pelos ares…

Baseado num livro de William C. Anderson, a partir de uma história verídica (embora um bocado diferente, já que na época das filmagens o fato ainda era classificado como confidencial), BAT*21 é eficiente ao mostrar um tenente coronel, cuja participação em guerra se dá mais em planejamentos atrás de uma mesa do que combatendo em campo, encalhado no meio da selva rodeado de inimigos. Ajuda muito, portanto, um ator de peso como Hackman em convencer a transformação do seu personagem, que acaba forçado a se defender – e a matar – para manter a pele intacta.

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E esse talvez seja o ponto mais notável de BAT*21, que não é um filme de guerra com ação exagerada e que nunca tenta glorificar soldados americanos no Vietnã. Em vez disso, mostra uma aventura de perspectiva mais humana, o que acaba sendo bem mais contundente quando se trata de perdas de vidas, do ato de matar, e como esse tratamento torna alguns momentos bem mais brutais. Como toda a sequência em que os vietcongs capturam dois pilotos de helicópteros que tinham objetivo de resgatar Hambleton. Mas quando os tiros precisam comer solto, o diretor Peter Markle manda bem em criar um espetáculo explosivo, classudo e truculento. Continuar lendo

O ALVO DA MORTE (Target, 1985)

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Mais um Hackman pintando por aqui. Achava que com esse O ALVO DA MORTE não teria erro depois de assistir a dois ótimos filmes desse período e estrelado pelo ator. Mais uma vez temos Hackman pagando de badass num thriller de ação dirigido pelo veterano Arthur Penn (BONNIE & CLYDE)… Então, imaginem a frustração, lá pelas tantas, quando descobri que já estava numa furada. Não que o filme seja horrível, a trama até que é interessante, mas não tem nada muito marcante, não consegui entrar muito no clima e algumas soluções me incomodaram bastante na maior parte do tempo.

Hackman é Walter Lloyd, um sujeito pacato de Dallas, administrando uma madeireira, mas que esconde um passado sombrio. O sujeito tem uma relação distante com seu filho (Matt Dillon) e o casamento já teve dias melhores, tanto que sua esposa (Gayle Hunnicutt) resolve tirar umas férias na Europa totalmente sozinha. Antes de viajar, no entanto, ela pede que Walter tente dar uma atenção ao filho, o que acaba acontecendo. São forçados a isso quando um telefonema acorda Walter no meio da noite com a informação de que sua mulher está desaparecida há mais de 48 horas.

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Pai e filho partem para a Europa e, não demora muito, descobrem que a mulher foi sequestrada. E aos poucos Walter vai revelando para o filho (e também para o espectador) detalhes do seu passado desconhecido, como por exemplo, ser um espião da CIA aposentado, que comandou várias operações especiais internacionais ultra-secretas durante a Guerra Fria. Tentando libertar sua esposa, Walter se vê num fogo cruzado entre os sequestradores de sua mulher, que por algum motivo querem encontrá-lo com vida, e outras pessoas que querem matá-lo antes que ele encontre os sequestradores.

Sim, a trama é, aparentemente, intrincada, mas que poderia fluir com mais leveza. Ao invés disso, a mão dos realizadores pesou e O ALVO DA MORTE acaba pecando por situações que não levam a lugar algum e diálogos maçantes que me fizeram soltar grandes bocejos. A química entre Hackman e Dillon não funciona como pai e filho, embora haja um grande esforço do filme em trabalhar o tema, e são poucas as sequências de ação que realmente empolgam.

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Hackman acaba por ser a grande virtude de O ALVO DA MORTE. É quem segura o filme e faz manter o interesse pela trama central. Infelizmente não me lembro de mais nada para elogiar. Algum momento e outro de tensão, talvez, como a cena do assassino que invade o quarto de Walter… Meia hora a menos já faria um bem danado ao ritmo do filme, poderia ter rendido um pequeno thriller divertido se fosse mais enxugado, com algumas doses de ação mais caprichadas, mas simplesmente desperdiçaram qualquer possibilidade disso acontecer.

Foi a última colaboração entre o diretor Arthur Penn com Hackman, que começou em BONNIE & CLYDE (67) e continuou em NIGHT MOVES (75). O diretor já não faria muitas coisas depois de O ALVO DA MORTE… Dois longas, alguns trabalhos para a TV. Mas teve uma carreira sólida, com alguns filmes realmente brilhantes que valem a pena conhecer. Morreu em 2010.

DE VOLTA PARA O INFERNO (Uncommon Valor, 1983)

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Daqueles filmes que você para e dá aquela refletida… “Por que raios eu não assisti essa merda antes?”  DE VOLTA PARA O INFERNO é o típico de filme de ação/guerra dos anos 8o que eu já deveria ter visto e não sei porque ainda não o tinha feito. Possui uma história sólida, relevante, pessimista de um certo ponto de vista, ao mesmo tempo em que todos os elementos divertidos e exagerados que me fazem sorrir em filmes do tipo se materializam por aqui. É dirigido pelo Ted Kotcheff, um casca-grossa com muito talento e sensibilidade, e reúne alguns dos atores mais badasses do cinema testosterona oitentista! Entre eles o grande Gene Hackman encabeçando o elenco.

Em uma narrativa ao estilo “men in a mission“, DE VOLTA PARA O INFERNO centra-se em um coronel dos Estados Unidos aposentado, Jason Rhodes (Hackman), que acredita que seu filho, Frank, um soldado que esteve em ação no Vietnã, ainda está vivo e mantido prisioneiro no Laos, mesmo passados dez anos do fim da guerra. Depois de conseguir financiamento de um magnata do petróleo (Robert Stack), cujo filho também desapareceu na mesma guerra, Rhodes recruta um grupo de ex-militares e velhos companheiros de guerra de seu filho para retornar à região em busca do pobre rapaz, além de outros americanos vivendo em cativeiro. A equipe inclui Fred Ward, Randall “Tex” Cobb, Reb Brown (o Capitão América dos anos 70), o grande Tim Thomerson e Patrick Swayze, num de seus primeiros papeis para cinema. Se esse não é um dos elencos com um dos mais altos níveis de truculência desse período, então eu já não sei mais nada da vida.

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A primeira metade do filme é a reunião do grupo e o treinamento para colocar esses veteranos em forma antes de partir para a ação. Serve também para que o público se identifique com os personagens, com suas habilidades e trabalhe a química entre eles. Mas também pra mostrar o quão fodido é a vida de alguns indivíduos no pós-guerra, um bando de outsiders atormentados sem a mínima capacidade de se encaixar num convívio social decente. E vêem nessa oportunidade de retornar ao campo de batalha uma maneira de tentarem se reencontrar e dar sentido às suas vidas.

Dessa forma, DE VOLTA PARA O INFERNO serve de expansão ao universo do trabalho anterior de Kotcheff, um dos melhores filmes que existe na vida, que também trata de traumas do Vietnã, FIRST BLOOD, mais conhecido no Brasil como RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR, também conhecido como a obra-prima de Sylvester Stallone. Aliás, recomendo muito este texto sobre RAMBO, do amigo Lázaro Cassar, para o Action News. 

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A segunda metade do filme é tiro, porrada e bomba, como diz minha mulher… Mas sem a previsibilidade habitual. Por exemplo, todo o planejamento para a ação de resgate termina numa furada e grande parte da missão acaba acontecendo na base do improviso – o armamento de Rhodes é confiscado pela polícia local e precisa arranjar armas velhas no mercado negro; os helicópteros de resgate não estão onde deveriam e acabam roubando de uma base militar Vietcong; um dos personagens é mordido por uma cobra ao adentrar um túnel que dá no campo de concentração… E por aí vai. Quando a ação começa pra valer é de arregaçar! Kotcheff manda muito bem  em criar um espetáculo de balas e explosões, com domínio de ritmo, de coreografia e de exageros típicos do cinema de ação/guerra oitentista. A ação final é ao mesmo tempo frenética, divertida, classuda e sem frescuras, mas também melancólica… Como em OS STE SAMURAIS, de Kurosawa, ou SETE HOMENS E UM DESTINO, de john Sturges, o filme não tem muito receio em terminar com algumas baixas de personagens importantes. Personagens que passamos metade do filme criando uma relação… Continuar lendo

ENTREGA MORTAL (The Package, 1989)

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Houve um tempo em que Gene Hackman ensaiou uma de se transformar num herói de ação badass. Isso aconteceu especialmente nos anos 80 e início dos 90. Nada muito exagerado como fora sua “concorrência” no período, como Stallone, Schwarza, Van Damme… Também não foram muitos filmes assim, mas temos DE VOLTA PARA O INFERNO, O ALVO DA MORTE, DE FRENTE PARA O PERIGO, COMPANHIA DE ASSASSINOS, tem até a comédia de ação UM TIRO QUE NÃO DEU CERTO. Como Hackman era um baita ator, hoje gozando de sua merecida aposentadoria, vou dar uma debruçada nessa fase action hero dele a pedido de um leitor. Começando pelo thriller político ENTREGA MORTAL.

Hackman é Johnny Gallagher, um oficial do exército americano encarregado de transportar um soldado prisioneiro (Tommy Lee Jones) de volta aos EUA para a corte marcial. Já em solo americano, o soldado escapa e Gallagher descobre da pior maneira possível que se meteu numa encrenca daquelas, numa trama internacional intrincada envolvendo espiões, mercenários, polícia, o próprio governo e até mesmo uma conspiração com planos terroristas.

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Contando com a ajuda de sua ex-mulher, Eileen (Joanna Cassidy), e de um detetive de Chicago, Delich (Dennis Franz), Gallagher precisa agora encontrar de volta o seu “pacote”, ou seja, o soldado que escapou (o package do título original), no qual ele descobre se tratar de um assassino profissional contratado que precisava entrar nos EUA sem um passaporte para realizar sua missão – o assassinato do presidente dos Estados Unidos. Continuar lendo

BONNIE & CLYDE (1967)

A presepada na entrega do prêmio de melhor filme ontem, no Oscar, foi simplesmente linda! E a melhor maneira que encontrei para homenagear o casal que nos brindou com esses momentos de puro constrangimento, desorganização e magia foi republicar esse textinho de BONNIE & CLYDE direto do blog antigo.

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Dizem que o ator (e produtor do filme) Warren Beatty precisou implorar de joelhos perante a cúpula da Warner para levar às telas de cinema a vida de Bonnie e Clyde, o famoso casal que roubava bancos na época da depressão americana. Cabeças duras, como sempre, os executivos não tinham ideia de que BONNIE & CLYDE (no Brasil, UMA RAJADA DE BALAS) iria se tornar uma das obras mais influentes do cinema americano e mudaria totalmente a maneira de tratar a violência no cinema mainstream de Hollywood.

Hollywood, claro! Porque violência, sangue e gore já existia há muito tempo no cinema americano (Herschell Gordon Lewis que o diga). Mas seria injusto desmerecer a maneira como a violência é abordada aqui. Tomemos por exemplo um dos primeiros assaltos, quando Michael J. Pollard estaciona o que deveria ser o carro de fuga. A situação vira uma cena cômica até que PIMBA! Soa um tiro na cabeça de um funcionário do banco, muito sangue é espalhado na tela e acaba a palhaçada!

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Não é preciso nem tocar no assunto do desfecho de BONNIE & CLYDE também, não é? Aquele brutal, sangrento, perturbador, chocante! Sam Peckinpah deve ter ficado com água na boca imaginando o que poderia fazer com seus próximos filmes, não é a toa que tivemos pouco tempo depois um WILD BUNCH e o cabra ficou conhecido como “poeta da violência”.

Também há a influencia da Nouvelle Vague francesa. As primeiras imagens que mostram Faye Dunaway nua em seu quarto parecem saídas de um filme do Truffaut. Por falar no realizador francês, a direção de BONNIE & CLYDE quase parou em suas mãos antes de ir para o excelente e subestimado Arthur Penn, que realizou por aqui um belíssimo trabalho. Simples, mas moderno, um novo frescor para um estilo de trabalho estético e de câmera que não era muito comum no período no cinema americano. O cara já havia demonstrado traços experimentais em filmes anteriores, especialmente MICKEY ONE, também com o Beatty, que é um autêntico filme de vanguarda.

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Além de Dunaway (que esté maravilhosamente linda), Beatty e Pollard, o filme conta com a presença de Gene Hackman e Estelle Parsons. Todos indicados ao Oscar, mas apenas esta última levou a estatueta pra casa, e merecida, embora todo o elenco esteja ótimo. Temos até uma pequena participação do Gene Wilder. A fotografia também merece destaque, há uma cena em que uma nuvem passa por cima dos atores tapando o sol que é uma coisa absurda de linda…

Assistir a BONNIE & CLYDE é recompensador, principalmente quando é a primeira vez, como foi o meu caso. Retirou um peso da minha consciência cinéfila…

Escrito originalmente em novembro de 2009.

THE TALE OF ZATOICHI (1962)

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Quando os estúdios Daiei escolheram adaptar para o cinema a história de Zatoichi, um samurai cego que só havia aparecido em pequenas crônicas publicadas no final dos anos 40, eles não faziam ideia da extensão que seria o sucesso do personagem, que se transformaria num herói popular, ícone da cultura pop japonesa e renderia ainda mais de vinte filmes, seriados, além de spin-offs e revivals em tempos modernos, como a do Takeshi Kitano, em 2003… Ou aquela versão com o Rutger Hauer, FÚRIA CEGA.

Aqui, no entanto, é onde tudo começou. Dirigido pelo veterano Kenji Misumi e magistralmente personificado por Shitaro Katsu, THE TALE OF ZATOICHI inicialmente pode parecer muito influenciado por YOJIMBO, de Akira Kurosawa, lançado no ano anterior e que exibe uma trama similar em alguns pontos. Em ambos vemos um outsider itinerante de habilidade marcial fora do comum vagando em espaços rurais arruinados pelo conflito entre dois clãs rivais que disputam o poder local. Só que Zatoichi rapidamente se estabelece como um protagonista mais equilibrado e simpático, diferente do grosseiro Sanjuro, de Toshirô Mifune, embora as motivações dos dois permaneçam igualmente ambíguas, com a busca de dinheiro em ambos os casos soando como fachada para redenções morais não explícitas.

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A principal diferença de YOJIMBO, porém, é o fato de que THE TALE OF ZATOICHI se assume apenas como um entretenimento popular e não uma obra filosofica auto-consciente, como é o caso de Kurosawa. Até porque estamos falando de um sujeito cego que é capaz de encarar grupos inteiros de meliantes armados com objetos cortantes e ainda por cima se sair bem, como uma espécie de Matt Murdock/Demolidor do Japão feudal. Não dá tempo pra filosofias por aqui… E as sequências de ação são excepcionais, apesar do filme carecer de um pouquinho mais de combates de espada. Ficou um gostinho de “quero mais”…

Na verdade, THE TALE OF ZATOICHI poderia ser bem mais divertido se fosse mais focado no seu protagonista e com mais cenas de ação, mas o excesso de subtramas neste enredo que não chega nem a duas horas de duração é demais para suportar. O filme atira pra todo lado com histórias envolvendo estupro de uma moça, a gravidez de outra, a doença mortal de fulano, abuso, suicídio, alcoolismo, jogos de azar, amor, e vários outros tópicos… Me parece um pouco demasiado complexo para o que poderia ser bem mais simples. E fica faltando mais tempo para explorar a ação. Tá certo que, possivelmente, os realizadores optaram por retratar o fato de que Zatoichi não saca sua espada de forma vulgar e evita ao máximo o confronto. Mas, porra, eu ansiava por um pouco mais das habilidades do lendário samurai cego.

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Mas preciso ressaltar: quando Zatoichi resolve usar sua espada, o resultado é incrível, como no esperado e antológico duelo na pontezinha. São por esses momentos que o filme vale uma conferida.

Impossível deixar de destacar também o trabalho de Shintaro Katsu na pele de Zatoichi, que tem aqui um desempenho do cacete, muito convincente e carismático. É o que realmente segura THE TALE OF ZATOICHI e que faz o personagem tão fascinante. Vou continuar assistindo a série aos poucos e comento aqui a medida que for assistindo. Este aqui, apesar dos pesares, tem todos os méritos para ser o clássico das artes marciais que é. Mas espero que as próximas vinte e tantas continuações tenha um bocado mais de ação…

DESERT KICKBOXER (1992)

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Apesar de DESERT KICKBOXER conseguir variar um pouco o estilo “kickboxing movie”, o resultado não chega a ser dos melhores. Se bem que analisar por alto os filmes do gênero é meio complicado. Embora eu ame o ciclo “Kickboxing Movie” do início dos anos 90, é inegável o fato que surgiu muita porcaria no meio, exemplares genérico sem muita criatividade, atuações ruins, a grande maioria com tramas realmente fracas e lutas mal feitas, ou seja, o principal atrativo dos filmes nem sempre faz valer a pena… DESERT KICKBOXER não é muito diferente disso. Ou talvez seja…

Lembro de ter visto este aqui na TV há muito tempo. Revi esses dias pelo simples fato que se trata do primeiro longa do diretor Isaac Florentine! Daí surgiu a curiosidade de relembrar o filme e confirmar que realmente não é grandes coisas, mas tem seus momentos, dependendo do clima que você estiver…

O ator John Newton foi o Superboy da série televisiva dos anos 80. Apesar de garboso, não chegou a fazer muito sucesso depois. Aqui ele vive Hawk, um policial descendente de índios Navajos que vive num deserto americano, fazendo fronteira com o México, para combater o tráfico de drogas à base da porrada na cara e voadoras. O sujeito foi campeão de kickboxer (ou pelo menos é o que eu imagino, já que é a modalidade indicada no título), mas sofre de um profundo trauma por ter matado o oponente em sua última luta.

Os problemas começam quando uma mulher decide passar a mão na grana de um poderoso traficante, vivido por Paul L. Smith (o Brutus da versão do cinema de Popeye, dirigido pelo Robert Altman), e foge para o deserto com seu irmão retardado tendo sua cabeça à prêmio e a bandidagem à sua cola. Só que Hawk, experiente habitante do deserto, a encontra primeiro. E aí já viu, né?

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O filme é bem despretensioso e tem quase totalmente o deserto como cenário. Dá pra perceber claramente que é uma produção pobre, independente e com um ritmo lerdo demais para esse tipo de história. O roteiro não traz nenhuma novidade, mas de vez em quando surge um personagem interessante, como na cena da gangue de motoqueiros cujo líder, vestido de padre, é uma figuraça!

As cenas de luta se resumem ao puro exibicionismo de John Newton (e de seus mullets!). São curtas e sempre contra oponentes que não sabem lutar. Temos apenas duas sequências um pouco mais elaboradas: a do início, mostrando o combate no ringue onde o adversário do protagonista acabou morto (e o cenário não passa de um fundo preto, com alguns flashes de máquinas fotográficas e efeitos sonoros de uma torcida gigantesca) e a luta final, contra o capanga do traficante que curiosamente também é praticante de kickbox!

Mas não esperem a virtuosidade de Florentine nas coreografias. São lutas bem meia bocas, mas justamente por isso, dão aquele charme tosco para os que curtem uma boa tralha. A sequência final é bem preguiçosa, dá pra ver até a sombra da equipe de produção no canto da tela enquanto os atores trocam chutes e o roteiro ainda resolve certas situações com típicos clichês vagabundos. Mas apesar disso e de toda brutalidade física, o final reserva grandes lições filosóficas para o espectador mais atento. Afinal, nada na vida é por acaso, e é isso que Hawk descobre em seu confronto, trazendo de suas memórias traumáticas a motivação para derrotar seu novo oponente. E ainda, aprendida a lição, ele não se deixa cometer dos mesmo erros. Claro que segundos depois, ele utiliza o meliante como escudo vivo pra não levar bala, mas também já seria exigência demais.

FAREWELL TERMINATOR, curta metragem israelense e primeiro trabalho do Florentine, valia muito como curiosidade. Já DESERT KICKBOXER serve mesmo para os fãs arretados do gênero, que sabem apreciar até mesmo os exemplares ruins… para estes, o filme até pode divertir um pouquinho.

THE PUNISHER (1989)

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Ano passado tivemos uma memorável participação do personagem Justiceiro na segunda temporada da série do Demolidor, da Marvel. Interpretado por Jon Bernthal, a presença de uma das minhas figuras favoritas dos quadrinhos deu uma elevada no seriado e trouxe alguns dos momentos mais brutais que assisti em 2016, como a sequência da pancadaria na prisão e muita morte à sangue frio, pra deixar o Matt Murdock de cabelo em pé.

Foi um retorno digno do personagem, bem melhor que os anteriores e recentes, THE PUNISHER (2004) e PUNISHER: WAR ZONE (2008). No entanto, a adaptação do personagem em live action que mais me encanta e que este do seriado não chega aos pés, é o clássico épico THE PUNISHER, de 1989. Dirigido por Mark Goldblatt e estrelado pelo único e inigualável Dolph Lundgren, essa é a versão que permanece a mais truculenta, trágica e fiel sobre Frank Castle. E eu realmente AMO essa merda…

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Um detalhe sobre essa adaptação que me agrada é o fato de não haver uma preocupação com as origens do Justiceiro. Quero dizer, a trama não é sobre os acontecimentos que fizeram Frank Castle se tornar o sádico e violento vigilante como acontece em 99% das adaptações de quadrinhos para o cinema.

THE PUNISHER se passa cinco anos depois do trágico destino que levou a família do ex-policial, com o Justiceiro já em atividade, sedento por vingança, eliminando a escória humana que assola a cidade e deixando um rastro de mais de 125 corpos ao longo dos anos, especialmente membros da máfia italiana, que são os responsáveis pela morte de seus familiares. Há uma cena em que o Justiceiro aparece nu, em meditação no seu esconderijo, nos subterrâneos da cidade, relembrando a morte de seus entes, mostrado apenas num rápido flashback. O suficiente pra não encher muito o saco com o passado do cara… Até porque o Justiceiro fica entediado muito rápido e não demora para sair novamente pelas ruas para matar o primeiro mafioso italiano que encontrar pela frente.

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O grande problema é que exterminar praticamente todo o crime organizado local deixou os pobres italianos mafiosos vulneráveis a uma invasão hostil da yakuza. Como tirar um pirulito de uma criança, os japoneses execultam um plano que consiste em sequestrar os filhos de cada chefe de família como insentivo para que entreguem todo o império da máfia italiana de mão beijada. Isso inclui o filho de um dos gangsters mais poderosos do pedaço, Gianni Franco (Jeroen Krabbe, excelente!), que negocia uma trégua com o Justiceiro o tempo suficiente para resgatar seu filho e se possível eliminar vários “olhinhos puxados” vestidos de quimono.

A trama ainda tem espaço para um subplot com Louis Gossett Jr. vivendo um detetive que conhecia Castle antes de toda a tragédia de cinco anos atrás. E agora o caça incansavelmente. Algumas das melhores sequências de THE PUNISHER são os dois contracenando. Porra, vamos ser sinceros, algumas das melhores cenas de qualquer filme adaptado de quadrinhos são com Gossett e Dolph em cena. Eu desafio a qualquer um a me mostrar numa adaptação de HQ recente uma cena tão poderosa como esta:

Como você chama 125 cadáveres em 5 anos?
Um trabalho em andamento.

Simplesmente do CARALHO!

A escolha de Dolph como Castle/Justiceiro é uma das grandes sacadas do filme. Por mais que no período tivéssesmo vários atores casca-grossas, não consigo pensar em ninguém no lugar do sueco… Porra, Dolph Lundgren tem o look, conseguiu imprimir uma intensidade lacônica para o papel, que sem dúvida alguma é o melhor desempenho de sua carreira. Seu justiceiro até pode pertencer ao mesmo universo de um Capitão América e de um Homem-Aranha, mas ele é humano. Quebra pescoços, dá tiros, facadas, socos, chutes, mas chega a um ponto que o cara fica exausto e Dolph realmente representa alguém que consegue lidar com uma horda de ninjas de forma brutal, mas no fim das contas é apenas um homem cansado, precisando de uma boa noite de sono.

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Na época do lançamento, a New World Pictures, que produziu THE PUNISHER, tava bem mal das pernas e o filme acabou indo parar no mercado de vídeo bem antes do planejado… Aqui no Brasil mesmo, se não estou enganado, nem chegou a passar nos cinemas. O orçamento também não é lá grandes coisas, algo em torno de dez milhões de dólares, o que é uma pena pela grandeza do projeto e do roteiro casca-grossa que conseguiram aqui… Mas até que isso não é necessariamente uma coisa ruim quando temos um diretor do calibre de Mark Goldblatt no comando. O sujeito já possuia na época vasta experiência como montador e editou dezenas de filmes de ação porretas, como RAMBO II (85), O EXTERMINADOR DO FUTURO (84) e COMANDO PARA MATAR (85).

Goldblatt tirou leite de pedra com THE PUNISHER, mas o resultado das sequências de ação é fantástico. Se por um lado um orçamento maior fizesse a coisa toda ser um espetáculo visual deflagrador, o baixo orçamento fez com que o cara tivesse que usar a criatividade, filmar ação sem frescuras, crua, com boa contagem de corpos e doses cavalares de violência. Dá pra perceber que Goldblath edita o filme na câmera, filmando o essencial, com poucos movimentos, mas com equadramentos precisos, bom uso dos cenários e grandes sacadas estéticas. A sequência final na base yakuza, por exemplo, deveria servir de base para qualquer cineasta que se interessa por sequências de ação, tanto pela energia, ritmo, gramática da ação quanto pela beleza estética e uso das cores…

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Aliás, essa sequência final é simplesmente épica em todos os sentidos! Castle e Franco invadem o quartel general da Yakuza enchendo samurais e ninjas de chumbo grosso sem piedade alguma. Castle ainda tem que enfrentar no combate corporal alguns capangas e salvar Franco de estourar os próprio miolos na iminência de ter o filho assassinado. Depois, quando tudo parece terminado e Castle já não aguenta nem “uma gata pelo rabo” de tão exausto, o próprio Franco tenta matá-lo como vingança dos 125 corpos ao longo dos anos. Por fim, temos a clássica cena do menino botando o revolver na cabeça de um estafado Justiceiro, que é de lascar. E Castle ainda desafia o moleque a puxar o gatilho! Como um filme desse não é reconhecido como uma obra-prima dos cinema de ação oitentista?!

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Há ainda algumas outras tantas cenas que eu destacaria. O tiroteio nas docas, com os Yakuzas exterminando os italianos e o Justiceiro chegando no local para acabar com a festa dos japas… Temos Dolph Lundgren zanzando de motocicleta dentro dos túneis do esgoto, a cena do cassino, o tiroteio eletrizante no parque de diversões abandonado, a cena em que Castle é torturado pelos Yakuza… Será que só eu consigo enxergar a grandeza e a beleza desse filme?

Bem, não é muito difícil entender a falta de aceitação dos fãs com essa adaptação. Especialmente os mais xiitas que encrencam até com a camisa sem caveira do Justiceiro. Tá certo que é um ícone, o emblema do cara, a mesma coisa que levar o Batman para às telas sem o morcego no uniforme, mas não é pra tanto. O grande lance é que THE PUNISHER não possui um clima de história em quadrinhos, aquele estilo que flui com a leveza da maioria dos filmes da Marvel, especialmente os de hoje.

Mas acho que o filme realmente capta a essência do personagem e coloca na tela com o tom que deveria ter. É uma porrada violenta! THE PUNISHER possui uma carga pesadíssima de desgraça e melancolia que se mistura entre as cenas de ação. A persona que Dolph cria para Castle é deplorável e depressiva, dá até pena do cara… E isso tem tudo a ver com o Castle dos quadrinhos. Revisto hoje, só consigo pensar na atual geração das adaptações de super-heróis para o cinema, uma das vertentes mais em voga do cinema hollywoodiano atual, e que até possui alguns exemplares bacanas, como GUERRA CIVIL, HOMEM DE FERRO 3 e DR. ESTRANHO, mas é tudo tão limpinho e bonitinho, cheio de efeitos especiais, não chegam nem perto de ter o clima amargo e pesado de THE PUNISHER, ou personagens realmente trágicos como o Frank Castle de Dolph, ou sequências de ação cruas e violentíssimas… Enfim, só consigo pensar que realmente se trata da minha adaptação de HQ de super-heróis favorita de todos os tempos. Lidem com isso.

McBAIN (1991)

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O título McBAIN, é óbvio, instantaneamente me faz lembrar do personagem McBain d’Os Simpsons, que aparece no desenho tentando derrubar um chefe das drogas, um latino chamado Mendoza. “MEEEENNNNDDDOOOOOZZAA !!!”. Tinha esperança que Christopher Walken pudesse fazer algo parecido… Aqui ele é apenas um mercenário que aniquila um ditador colombiano e seu exército e ainda sobra tempo pra derrubar um jato com um tiro de pistola…

O filme começa quando a guerra no Vietnã já estava oficialmente encerrada. Santos (Chick Vennera) e seu fiel grupo de soldados de elite partem em retirada num helicóptero. Quando sobrevoam um campo de prisioneiros vietcong, percebem que o inimigo ainda não admitiu que a guerra acabou. Decidem descer no local, encher os facínoras de chumbo e resgatar os americanos que ainda se encontram presos. Um desses prisioneiros é McBain (Christopher Walken), que está em maus lençóis numa jaula de bambu servindo de entretenimento para seus sádicos captores… Em meio a uma leva generosa de tiros, explosões e arremesso de facas, McBain é resgatado e pergunta “- Como posso te retribuir?”. Santos rasga uma nota de cem dólares ao meio e diz que caso McBain veja a outra metade da nota novamente, vai saber que está sendo cobrada a dívida.

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Corta para dezoito anos mais tarde, na Colômbia. Santos, agora um guerrilheiro revolucionário, é assassinado à sangue frio por um ditador (Victor Argo) durante uma ação que tinha como objetivo destronar o famigerado déspota. Enquanto isso, nos Estados Unidos, McBain vive uma vida pacata trabalhando como soldador, longe de situações de risco. Está lá de boa tomando uma cerveja num bar, assistindo TV e se depara horrorizado com seu salvador, Santos, sendo executado ao vivo em rede nacional. Pouco tempo depois, Cristina, a irmã de Santos, aparece com a metade da nota de cem em busca de McBain.

O sujeito reúne, então, os remanescentes do grupo de soldados liderados por Santos, que agora mais velhos, fora de forma, aceitam entrar nessa missão suicida: Invadir a Colômbia, fazer uma revolução infernal no local, colocar abaixo o ditador e vingar a morte do antigo companheiro. O grupo conta com uma turma boa da velha guarda dos anos 80 e 90 como Michael Ironside e o grande Steve James… E tome sequências de ação exageradas bem ao estilo dos grandes filmes explosivos dos anos oitenta. Não existe tempo pra frescuras e a narrativa se resume a várias cenas de ação hiperbólicas, uma atrás da outra ou simultaneamente em alguns casos. Tudo em McBAIN serve de muleta para cenas de ação. E a contagem de corpos é altíssima, ultrapassa fácil a casa dos duzentos. Lógico que não sou doido de ficar contando, mas o imdb tem essa informação… De todo modo, tem mortes para todos os gostos, principalmente à base de chumbo, mas não faltam facadas e explosivos em vários formatos para aumentar o número. Não duvido que o Stallone tenha assistido isso aqui antes de filmar OS MERCENÁRIOS…

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A ação cartunista é bem divertida, mérito do diretor James Glickenhaus (do clássico cult exploitation EXTERMINATOR, de 1980) que realizou esta aula de pirotecnia e tiroteios desenfreados (grande parte filmada nas Filipinas)… Tá certo que o roteiro não se preocupa muito com alguns detalhes, situações plausíveis e profundidade dos personagens, mas quem é que vai ligar pra isso quando a contagem de corpos ultrapassa o número de 200? A coisa é totalmente exacerbada, inverossímil e nonsense ao extremo. E atinge os píncaros do absurdo na tal cena em que McBain derruba um jato inimigo com um único tiro de pistola disparado de outro avião em plenos ares!!!

Daqueles momentos inacreditáveis que só um filme desse pode oferecer… Mas acho que é daquelas ocasiões que vale a máxima “é ver para crer“. Mesmo assim vou explicar: Há dois aviões voando lado a lado, um deles é um caça da força aérea colombiana, estilo TOP GUN, e o outro é um pequeno avião sem qualquer tipo de armas, transportando apenas os protagonistas. O jato dá uma ordem de comando qualquer e Chris Walken simplesmente tira uma arma do coldre, uma pistola comum, absolutamente normal, e dispara de um avião a outro, acertando o piloto do caça… Tudo isto a uma altitude e velocidade ridículas e SEM PERFURAR OS VIDROS!!! É genial… Muito genial.

Vou fazer o seguinte, vou colocar o vídeo… Assista por sua conta e risco

 

Pronto, agora já sabem com o que estamos lidando aqui. E é aquela coisa, se você estiver na vibe de um filmeco recheado de cenas de ação sem-noção, McBAIN foi feito sob medida, ainda mais com a oportunidade de ver Christopher Walken pagando de casca-grossa, demonstrando que sabe ser badass. Agora, se você é daqueles que precisa de mais coerência e lógica em filmes de ação, pode se afastar. Fique bem longe de McBAIN.

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“MEEEENNNNDDDOOOOOZZAA !!!”

BORN AMERICAN (1986)

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Houve uma fase na carreira do diretor finlandês Renny Harlyn em que ele era apontado como uma das grandes promessas do cinema de ação. Hoje, no entanto, já deu para perceber que o sujeito não conseguiu atingir o potencial que era aguardado, mas chegou a realizar alguns bons filmes. Nada muito profundo, mas muito sólido e sempre divertido, demonstrando um bom olho para sequências de ação, como é caso de DURO DE MATAR 2 e RISCO TOTAL. Hoje quero falar um pouco do seu primeiro trabalho, BORN AMERICAN, um filmeco de ação oitentista com certas peculiaridades…

Produzido com dinheiro americano e finlandês, BORN AMERICAN é estrelado por um jovem chamado Mike Norris. Sim, trata-se do filho do homem, do mito, Chuck Norris, tentando seguir os passos do pai. Nunca achei o velho Chuck muito carismático, o fascínio pelos seus filmes e pela figura que criou como herói de ação vale justamente pela ausência de variação expressiva e falta de talento dramático. Seu filho segue pelo mesmo caminho por aqui e constrói uma figura que também não possui carisma algum. A diferença do rapaz em relação a seu pai é que seu persoangem é tão irritante que não dá para torcer por ele como herói. Aliás, os três personagens centrais são detestáveis e estúpidos… Aí complica.

São três amigos americanos que vão passar férias na Finlândia e resolvem atravessar a fronteira com a Rússia por mera diversão, se achando no direito de invadir território alheio, talvez uma alusão ao próprio Estados Unidos. Não demora muito são avistados pelo exército russo, perseguidos, capturados e trancados numa prisão de segurança máxima que faria uma penitenciária brasileira parecer um hotel cinco estrelas. A premissa é simplesmente excelente! Mas existem alguns detalhes que pegam pra cima de BORN AMERICAN.

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Uma delas, como eu disse, é a falta de identificação com os protagonistas. Outra é como o filme carece um bocado de ação. Chega num certo ponto que eu já estava com o dedo coçando para apertar o botão fast forward… Há, de qualquer forma, dois ótimos momentos bem movimentados. O primeiro num pequeno vilarejo russo, muito explosivo e com direito ao Norris Jr. Dando alguns chutes em russos malvados; o outro é na fuga da prisão no final, um tiroteiro frenético bem ao estilo dos anos 80. Há uma ideia GENIAL de um jogo de xadrez humano que ocorre dentro da prisão que é, infelizmente, ignorado. Aparece rapidamente numa cena, mas fico imaginando que poderia render bons momentos…

Mas há também um clima curioso que atravessa o filme, uma mistura de action movie americano dos anos 80 com a atmosfera pesada e o visual do cinema do leste europeu daquele período, estilo VÁ E VEJA, que é bem interessante, funciona muito bem. Em termos de ação, BORN AMERICAN não tem muito o que oferecer, mas no fim das contas é um exemplar um tanto singular que vale uma conferida, nem que seja para saber como o Harlin foi parar em Hollywood e entender porque o filho do Chuck não teve muito sucesso como herói de ação.

A VINGANÇA DO NINJA (Revenge of the Ninja, 1983)

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Seria complicado fazer A VINGANÇA DO NINJA começar de onde ENTER THE NINJA terminou, porque o personagem de Shô Kosugi, um mestre ninja “do mal”, foi decapitado por Franco Nero no confronto final. No entanto, como resolveram trazer o ator japonês de volta nesta “continuação” oficial do filme de Menahem Golan, o jeito foi fazer um filme totalmente independente. Ou seja, A VINGANÇA DO NINJA não tem qualquer ligação com o filme “anterior”.

Sendo assim, Kosugi é um bom sujeito por aqui. Seu personagem vive uma vida tranquila e pacata com o seu clã no Japão, numa bela casa, com grandes jardins, é um artista que trabalha com bonecas de porcelana japonesas, um bom marido, pai de família e… Enfim, é tudo tão tocante que um filme sobre a vida desse cara deveria ser dirigido por um Mizoguchi ou Yasujiro Ozu. Mas A VINGANÇA DO NINJA é realizado pelo Sam Firstenberg, e é mais uma produção da Cannon Films, portanto, podem esquecer uma provável beleza poética da coisa. O tal clã é logo atacado por um grupo de ninjas, estrelinhas na testa prá todo lado, a esposa do protagonista é assassinada (os únicos sobreviventes, na verdade, são o próprio Kosugi e o filho recém nascido) e temos aí a premissa montada para um belo filme de ação ninja. Até porque o personagem do Kosugi, além de tudo aquilo que eu disse ali em cima, não poderia deixar de ser também um mestre ninja!

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Para recomeçar a vida, um amigo americano convence Kosugi a levar seu filho para os EUA e abrir uma galeria para suas bonecas. Ok, eu não vou ficar fazendo piadinhas com o fato do protagonista produzir bonecas, seria muito óbvio. Prefiro acreditar que se trata de um elemento da teoria de que todo herói badass tem um lado sensível. Exemplos temos aos montes: Schwarza em COMANDO PARA MATAR (1985) alimentando um veadinho nos créditos de abertura; Steven Seagal salvando o cachorrinho em OUT FOR JUSTICE (1991); Van Damme com seu coelhinho de estimação em BORDER PATROL (2008)… qual é o problema do Kosugi ter uma coleção de bonecas, caralho?!?!

Bom, Kosugi aceita a proposta do amigo e vai para os EUA brincar de bonecas. Os anos se passam, o moleque cresce e tudo anda bem encaminhado na galeria de bonecas de Kosugi. Há até um esforço do filme em trabalhar o choque cultural nos personagens, como na cena em que a assistente do herói, uma loura americana, resolve praticar treinamento ninja sem calcinha, num dos momentos mais dramáticos do filme…

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Er… De todo modo, ainda há uma história que poderia ser dirigida por um Shohei Imamura ou Nagisa Oshima… mas, repito, o filme é do Firstenberg! Pra quem não se lembra, o Firstenberg talvez seja o maior especialista em filmes de ninja em solo americano, tendo dirigido o clássico AMERICAN NINJA, com o Michael Dudikoff… Portanto, para dar uma esquentada na trama, Kosugi descobre que o tal amigo americano utiliza a exportação das bonecas para traficar drogas no interior delas… Quem poderia imaginar?

As surpresas não acabam por aqui, porque depois que toda a ação começa pra valer, com a presença de vários ninjas para Kosugi chutar na cara, descobrimos que seu amigo americano também é um… mestre NINJA!!! Um ninja branco como no filme anterior, só que em papel invertido. Desta vez o ninja branco é o vilão.

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Em termos de ação, o nível de qualidade das cenas de luta em A VINGANÇA DO NINJA são muito boas, com longas sequências de pancadaria, muitos ninjas sendo abatidos e todo o tipo de armamento ninja sendo utilizado em vários tipos de cenários. O duelo final, que se passa no topo de um arranha céu, é um bom exemplo onde espaço é muito bem aproveitado para o tipo de ação que temos aqui.

Portanto, em vários aspectos A VINGANÇA  DO NINJA acaba por ser um exemplar de respeito dentro do subgênero feito nos Estados Unidos. Talvez até mais que o primeiro filme em termos de cultura ninjitsu e artes marciais. Mas ENTER THE NINJA tem Franco Nero, com aquela piscadela de olho no freeze frame final, é bem mais ingênuo e muito mais divertido na minha opinião. O que não tira os méritos deste aqui, é claro. Obrigatório para quem curte um bom filme de ninja.

MORTAL KOMBAT (1995)

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Depois de assistir a SHOPPING, filme de estreia de Paul W. S. Anderson que eu comentei aqui outro dia, coloquei como missão neste início de ano rever todos os filmes do diretor e, obviamente, conferir o que não assisti ainda. Tô cagando se o cara é mal visto em alguns círculos… Vou ver mesmo assim. Então me deparei já de cara com MORTAL KOMBAT, que é o segundo trabalho do sujeito. Nem me lembro da última vez que vi essa tralha, mas lá nos meus doze, treze anos, era um verdadeiro espetáculo! Não era assim um grande fã do jogo (preferia Street Fighter), mas dava os meus “Fatality” de vez em quando. Além disso, não perdia uma Sessão Kickboxer, na Band…Bons tempos… Como basicamente, no fim das contas, MORTAL KOMBAT não deixa de ser apenas um filme de luta, era o paraíso um garoto da minha idade deparar-se com uma obra desse quilate.

Mas estava ainda com receio de saber como seria assistir hoje… Na época do lançamento, me lembro do filme ser recebido por muitos como a grande adaptação de videogame para o cinema. Tá certo que a concorrência não era das melhores… o que é aquele filme do Super Mario? E não vou nem falar nada do STREET FIGHTER, com JCVD… O fato é que Paul W. S. Anderson e sua turma conseguiram realmente captar a essência do jogo e combinar com certa perspicácia dentro de uma linguagem de cinema tudo aquilo que um fã de MK poderia almejar. Scorpion dizendo: “Get over here!“, Sub Zero congelando pessoas, Shang Tsung dizendo “Flawless Victory!” e “Finish Him!“, Goro com seus quatro braços destroçando seus adversários, Johnny Cage deixando sua foto autografada após uma peleja, etc, etc, etc… Tá tudo aqui!

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Portanto, revê-lo agora depois de tantos anos apenas confirmou a grande adaptação que é. Não que o resultado seja a oitava maravilha do universo do cinema… Longe disso, continua sendo uma tralha. Mas em termos de adaptação o filme merece seus elogios por conseguir manter os traços característicos do jogo na narrativa.

Além disso, é bem divertido como filme de fantasia e artes marciais. Algumas lutas são realmente bacanas, bem coreografadas e Anderson tem excelente noção de como utilizar os cenários, os espaços, na interação com os combates e os poderes dos personagens. Toda a sequência do confronto entre Cage e Scorpion, por exemplo, é de um cuidado que impressiona, tanto na manipulação dos ambientes quanto na encenação física, na trocação de socos e pontapés entre os personagens. De uma riqueza visual notável! A coisa começa em uma floresta conspícua e totalmente simétrica, com Scorpion lançando sua famosa “corrente” sobre o pobre Johnny, que não tem defesa, exceto fugir e arranjar uma solução para contra-atacar. Depois os dois são transportados a uma espécie de porão infernal onde o pau come de verdade… É disparado a melhor sequência de MK. É legal que em alguns momentos Anderson tenta realmente recriar os enquadramentos do jogo, o que torna tudo tão familiar e fascinante, como no confronto entre Liu Kang e Sub-Zero.

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MORTAL KOMBAT possui boa produção, com efeitos especiais decentes para o período (a concepção do Goro é simplesmente incrível), exceto algumas cenas de CGI que já na época eram ridículas e acabaram ficando muito datadas. O elenco é muito bom, a maioria dos atores não são apenas competentes, como Robin Shou (Liu Kang) e Linden Ashby (Johnny Cage), mas também representações físicas bastante precisas de seus personagens no jogo. Destaque para Christopher Lambert como Raiden, cheio de gracinhas constrangedoras, mas que me racham de rir, e o grande e expressivo Cary-Hiroyuki Tagawa fazendo o feiticeiro Shang Tsung, sempre um deleite vê-lo como vilão. O elenco ainda tem Trevor Godard, como Kano, Bridgette Wilson fazendo Sonya Blade e Talisa Soto encarnando a Kitana.

Só acho uma pena a classificação PG-13 para a adaptação de um jogo que abusava da violência gráfica, dos famigerados “Fatality” sangrentos. MORTAL KOMBAT é bem limpinho e a violência é praticamente zero. Não estraga a diversão, mas para os fãs mais xiitas e admiradores de um gore, a coisa fica a desejar. O filme possui alguns outros problemas mais estruturais, o próprio fio condutor do entrecho, o torneio de lutas, é mal explicado, nunca sabemos quem luta com quem, onde e quando; há momentos que é numa arena com público, em outros parece que os lutadores estão num universo paralelo completamente sozinhos. Pode ser relevado, mas são coisas que poderiam ser melhor exploradas. E não vou entrar em muitos detalhes sobre a trilha sonora… Uma insuportável batida eletrônica que é simplesmente um horror…

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Torto e falho em alguns pontos sim, mas MORTAL KOMBAT continua sem dúvida alguma uma das mais admiráveis adaptações de video-game para as telas de cinema e um competente exemplar de artes marciais dos anos 90, que envelheceu muito bem, dependendo do seu gosto pra esse tipo de filme… MK ainda teve mais duas continuações, mas esses eu não tenho coragem ainda de me aventurar tão cedo. Já tinha achado ruin na época e acho que não vai ser agora que vou mudar de opinião.