O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES (1987); CPC UMES FILMES

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Pode parecer incomum, mas existe um gênero chamado Red Western, formado por produções que recriam o velho oeste americano sob uma visão, e até uma ideologia, do bloco oriental, especialmente a União Soviética. Não sou lá grande especialista no assunto e vi pouquíssimos exemplares, mas recentemente a CPC UMES Filmes lançou o que, definitivamente, deve ser um dos melhores Red WesternO HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES, da diretora ucraniana Alla Surikova. Na verdade, trata-se mais de uma sátira ao mito do western, com toda a sua iconografia e bagagem de gênero mais cinematográfico da sétima arte, servindo como moldura e pretexto para uma bela homenagem ao próprio cinema.

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Um projecionista, chamado Mr.First, chega a uma pequena cidade do Oeste selvagem e traz consigo um primitivo projetor com várias bobinas dos primeiros filmes da história do cinema. Todas as noites, ele faz uma sessão no bar local, o que surte um grande efeito nos caubóis. Logo na primeira dessas sessões, O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES recria o famoso relato dos espectadores que viram pela primeira vez a imagem do trem chegando à estação, no filme dos irmãos Lumière, projetado no Salão Indiano do Grand Café do Boulevard des Capucines, de onde título deste aqui faz uma alusão, e no qual, segundo consta a história, teria sido caótico, com as pessoas se levantando das cadeiras, assustadas, achando que seriam atropelados pelo trem da tela…

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Aqui os personagens recebem essas imagens com chumbo grosso, fazendo vários buracos no lençol branco pendurado na parede do saloon… Mas à medida que as sessões vão acontecendo, seus comportamentos vão mudando. Eles param de brigar um com os outros, começam a falar mais educadamente e se portar com cavalheirismo; e ao invés de doses de whisky, começam a encher a cara com leite…

Obviamente é uma ideia um tanto ingênua essa de O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES  na sua análise sobre a influência do cinema no comportamento humano, no seu poder de transformação através das imagens. Mas não deixa de funcionar como fábula auto-reflexiva nesse sentido. E, além disso, desde o início o filme estabelece claramente suas intenções satíricas, com números musicais e um humor que beira ao pastelão em alguns momentos, e não uma tese acadêmica sobre o assunto. Importa muito a diversão, as sequências e gags que surgem em consequência dessa ideia de levar o cinema a um tempo e lugar remoto, em um universo tão inerente à sétima arte como o velho oeste; e, claro, a ideia da primeira experiência cinematográfica, como o indivíduo é afetado por imagens em movimento projetadas num lençol branco na parede.

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Algumas sequências são memoráveis e afirmam a vitalidade da diretora Surikova na realização. O bar local sendo completamente destruído numa típica e exagerada briga de saloon e, logo depois, os próprios brigões põem-se a trabalhar para consertar o estrago; os trechos em que o pastor da igreja e o dono saloon põem em prática seus planos diabólicos para acabar com as sessões de cinema (ambos representando repartições do sistema que gostam de cagar regra na cultura da sociedade: igreja e capitalistas); ou o épico tiroteio, com balas que não machucam ninguém, mas muito bem coreografado,  quando um bando de índios invade a cidade querendo participar das projeções; mas o simples fato do filme possuir essa ótica soviética de um universo tão ocidental, tão americano, com personagens ultra estereotipados do velho oeste – e a esquisitice de vê-los falando em russo – já seria suficiente para tornar O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES um exemplar notável do cinema soviético.

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Como já disse antes, O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES foi lançado em DVD no Brasil recentemente pela CPC UMES Filmes, e é uma dessas pérolas do cinema mundial que merece ser redescoberto (foi um grande sucesso na Russia, na época de seu laçamento, mas hoje anda esquecido). Merece também um lugar na prateleira e pode ser adquirido na loja virtual da distribuidora. E não deixe de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

kinopoisk.ru

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5ª MOSTRA MOSFILM DE CINEMA RUSSO

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“Entre os dias 29 de novembro e 5 de dezembro a Cinemateca Brasileira abre a 5ª Mostra Mosfilm de Cinema Soviético e Russo. Nos sete dias de evento serão exibidas 10 produções do estúdio, que é o maior da Europa e um dos mais importantes e pioneiros do mundo. Na abertura, às 19:30 h do dia 29/11, será exibido o fundamental VÁ E VEJA (1985), do diretor Elem Klimov. Frequentemente referenciado como um dos filmes mais perturbadores sobre a guerra e seus efeitos, o longa foi restaurado em 2017, em um processo que levou quatro meses para ser concluído e foi coordenado pelo próprio Karen Shakhnazarov, Diretor Geral do Mosfilm.

As cópias restauradas são, inclusive, os destaques desta 5ª Mostra. Dos 10 filmes que serão exibidos estão disponíveis em cópias restauradas, além de VÁ E VEJA, o clássico QUANDO VOAM AS CEGONHAS (1957), de Mikhail Kalatozov, CIDADE ZERO (1988), de Karen Shakhnazarov, e a épica adaptação do romance GUERRA E PAZ, de Liev Tolstoi. Dividido em quatro partes, o filme de Serguei Bondarchuk foi premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1969, sendo um dos melhores momentos do longa a reconstituição da Batalha de Borodino, que contou com mais de 300 atores, 120 mil figurantes, cerca de 200 canhões e 100 mil rifles.

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A Mostra é uma realização do CPC-UMES Filmes com o Estúdio Mosfilm em parceria com a Cinemateca Brasileira.”

PROGRAMAÇÃO:

Quinta, 29 de novembro
19:30 – ABERTURA – Vá e Veja

Sexta, 30 de novembro
19:00 – Cidade Zero
21:00 – Decisão: Aniquilação

Sábado, 01 de dezembro
15:00 – Guerra e Paz I – Andrei Bolkonsky
17:45 – Guerra e Paz II – Natasha Rostova
19:40 – A Ascensão
21:40 – Criança Abandonada

Domingo, 02 de dezembro
15:00 – Guerra e Paz III – O Ano de 1812
17:00 – Guerra e Paz IV – Pierre Bezukhov
20:00 – Quando Voam as Cegonhas – TELA EXTERNA (exibição ao ar livre)

Segunda, 03 de dezembro
19:15 – O Incógnito de São Petersburgo
21:00 – Quando Voam as Cegonhas

Terça, 04 de dezembro
19:15 – Circus
20:45 – A Ascensão

Quarta, 05 de Dezembro
19:15 – Vá e Veja
21:45 – Bola de Sebo

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FAÇA A COISA CERTA (Do the Right Thing, 1989)

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No meu último post, a lista dos meus filmes favoritos da década passada, o filme da quarta posição é do Spike Lee, A ÚLTIMA NOITE, com Edward Norton. Se eu tivesse feito essa lista há alguns meses, eu nunca teria colocado este filme aí, numa posição tão privilegiada… A verdade é que eu nunca dei muita bola para o Spike ao longo dos anos. Sem nenhum motivo específico, apenas não parava pra ver os seus filmes mais essenciais… Já tinha visto um ou outro, dos mais atuais, que achava entre bons e razoáveis (INSIDE MAN, ELAS ME ODEIAM, MAS ME QUEREM) ou pura bobagens (OLDBOY). Este ano, eu resolvi dar uma chance pro cara e, obviamente, minha relação com o cinema de Spike Lee mudou drasticamente.

Há poucos meses eu vi pela primeira vez MALCOLM X, FEBRE DA SELVA, MAIS E MELHORES BLUES, CLOCKERS, HE GOT GAME, etc, tudo uma maravilha! Revi O VERÃO DE SAM e A ÚLTIMA NOITE, este último não gostei bastante época e no contexto atual já achei uma obra-prima do caralho, e por isso coloquei como um dos melhores filmes da década passada… Teve ainda seu novo trabalho, BLACKkKLANSMAN, que é sensacional. E obviamente, revi o que deve ser a sua obra-prima, FAÇA A COISA CERTA.

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Esse eu sempre achei um grande filme, mas faziam uns quinze anos que não o via e acabei tendo a oportunidade de rever na tela grande. O lance é que eu comecei a ver os filmes do Spike sem ter a mínima ideia de que pouco depois o CCBB iria fazer uma mostra com o cinema do cara. Portanto, neste momento, acontece no CCBB em São Paulo, e acho que no Rio também, a mostra “Acorde! O cinema de Spike Lee“, um evento mais que obrigatório. Como tive que viajar a Vitória-ES no último feriadão, o único filme que vi até agora foi justamente FAÇA A COISA CERTA ainda nos primeiros dias. Retornei esta semana à minha rotina paulistana e agora vou correr atrás do prejuízo…

Sobre o FAÇA A COISA CERTA, é um filme que até hoje mantém força na sua análise certeira sobre as tensões raciais. A ação se passa no coração do Brooklyn, em Nova York, povoada por uma galeria de personagens racialmente diversificada tentando levar a vida em um dos dias mais quentes do ano, como anuncia o DJ local no rádio, interpretado pelo grande Samuel L. Jackson. A câmera de Spike nunca se aventura além dos limites estabelecidos do bairro, e qualquer elemento que adentre o território vindo de fora é visto com desconfiança. Isso inclui Sal (Danny Aiello) e seus dois filhos, ítalo-americanos que possuem uma pizzaria no local. Sal está ali há vinte anos e foi aceito como parte do bairro. Mas as tensões raciais estão fervilhando, à espreita, esperando a chance de deflagrar.

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FAÇA A COISA CERTA é principalmente focado em Mookie (encarnado pelo próprio Spike Lee), um jovem negro que trabalha na pizzaria de Sal como entregador e é o personagem chave, por habitar em ambos os mundos. Ele é do bairro, mas trabalha para Sal. Isso não é lá um grande problema, mas aos poucos, à medida que o dia avança, os pequenos debates se intensificam, as pessoas sentem o calor do dia, e ficam mais incomodadas e intolerantes umas com as outras.

Buggin Out (Giancarlo Esposito) reclama que a parede de Sal, cheia de fotos de personalidades e famosos, não inclui nenhuma pessoa negra e promete um boicote. Isso cria um certo nível mínimo de tensão, é um começo. Em outro momento, Sal fica irritado com a Radio Raheem (Bill Nunn), que chama a atenção para si em todos os lugares que passa, com seu ultra potente rádio toca-fitas, que entoa o icônico refrão do Public Enemy, FIGHT THE POWER! O filho de Sal, Pino (John Turturro), é incapaz de manter seu racismo guardado e respinga ódio pra todos os lados; até Mookie entra na dança quando percebe que Sal está, aparentemente, dando em cima de sua irmã, Jade (Joie Lee). E por aí vai…

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Vários outros pequenos estopins contribuem para um ambiente onde, dado o estímulo certo, pode ocorrer uma violenta explosão. Quando o caos se instaura, brilha o talento de Spike Lee, num dos momentos mais fortes do seu cinema. O ato final de FAÇA A COISA CERTA é um dos mais impressionantes que eu já vi. No início do filme é até difícil imaginar que o bairro está prestes a ruir, porque todos parecem se dar razoavelmente bem. E, no entanto, por mais assustador que seja o ato final, tudo evolui de forma natural a partir dos pequenos choques que vão acontecendo gradativamente nos primeiros atos, se intensificando cada vez mais. E é o que faz o roteiro de Spike algo tão magistral, a maneira como ele constrói seu filme num crescendo até de fato detonar a dinamite. E é principalmente, também, pela ambiguidade moral de Spike em não escolher lados. Em FAÇA A COISA CERTA, o ressentimento racial é profundo e inerente ao ser humano. A “mensagem” que martela no fim das contas é “faça a coisa certa“. E colocar essa lição em prática nem sempre é fácil. O filme é cheio de personagens que não conseguem “fazer a coisa certa”, e o resultado é violência, caos e morte.

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Vale lembrar que quando Spike Lee surgiu em meados dos anos 80, não havia nenhum diretor negro em solo americano recebendo grandes atenções. Não estou dizendo que não haviam diretores negros, obviamente, e Charles Burnett, à frente de todos, estava aí para provar, já era um mestre do cinema independente. Mas foi Spike Lee que a mídia nomeou o grande porta-voz do Black Cinema americano. Até porque o discurso sobre questões raciais de Spike é trabalhado de uma forma muito frontal, sem ambiguidades. O que é um problema para a grande maioria dos diretores que não possuem sutilezas em tratar de certos temas, fazendo cinema panfletário da pior espécie. Mas Spike é uma exceção. Com um discurso direto e sem frescuras combinados numa estética radical, inovadora e autoral, a porrada atinge em cheio no espectador e não é muito difícil perceber o fascínio que seu cinema causa.

Portanto, fica a dica para quem mora no Rio ou São Paulo. Ainda dá tempo de conferir a programação da Mostra “Acorde! O Cinema de Spike Lee” e comparecer nas sessões para assistir a alguns filmaços do homem na tela do CCBB.

TOP 10 anos 2000

Só pra não deixar o blog mais parado do que Saci de patinete, dei uma atualizada em alguns rankings de décadas anteriores, já me preparando pra fazer o desta década atual, que vai sair no ano que vem. Enquanto isso, um Top com os meus dez filmes favoritos da década passada (2000 – 2009):

74104463cccb10. PULSE (2001), de Kiyoshi KUROSAWA

Jack-Daniels-and-Sean-Penn-in-Mystic-River-209. SOBRE MENINOS E LOBOS (Mystic River, 2003),
de Clint EASTWOOD

nao_toque08. NÃO TOQUE NO MACHADO (Ne touchez pas la hache, 2007), de Jacques RIVETTE

image-w1280 (2)07. A HORA DA RELIGIÃO (L’ora di religione (Il sorriso di mia madre), 2002), de Marco BELLOCCHIO

tumblr_pgfx9dpz9q1wdsvxeo4_128006. CIDADE DOS SONHOS (Mulholland Drive, 2001), de David LYNCH

191018-tt028796305. COISAS SECRETAS (Choses Secrètes, 2002),
de Jean-Claude BRISSEAU

tumblr_peu70fmXdz1vidqxmo5_128004. A ÚLTIMA NOITE (The 25th Hour, 2002), de Spike LEE

we-own-the-night-1200-1200-675-675-crop-00000003. OS DONOS DA NOITE (We Own the Night, 2007), de James GRAY

tumblr_oss4chBCaD1v5ty50o3_128002. MARCAS DA VIOLÊNCIA (A History of Violence, 2005),
de David CRONENBERG

tumblr_nvdi7zEpdp1s6fy54o1_128001. MIAMI VICE (2006), de Michael MANN

 

UM FILME SAINDO DA TUMBA

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Depois de THE OTHER SIDE OF THE WIND, de Orson Welles, mais um filme perdido/inacabado/não lançado de outro mestre do cinema pode ganhar sua oportunidade de ver a luz do dia. Ao que tudo indica, o grande mestre do horror moderno, George A. Romero, realizou, entre SEASON OF THE WITCH (72) e THE CRAZIES (73), um filme de 60 minutos chamado THE AMUSEMENT PARK, por volta do ano de 1973, aparentemente feito para a TV, mas nunca lançado e agora ressuscitado como uma obra digna do pai dos zombie movies!

Quem anunciou a existência dessa maravilha foi o escritor Daniel Kraus (que trabalhou com Romero) através de sua conta no Twitter. O sujeito disse que procurava o filme há vinte anos e agora estava diante da obra. Em vários tweets, Kraus vai nos deixando com água na boca chamando o filme de “uma revelação” e “o filme mais abertamente horripilante de Romero“.

Kraus ainda diz “Onde você pode ver essa obra-prima selvagem? Você não pode. Mas eu estou me dedicando a mudar isso. Este é realmente um daqueles objetos mágicos (amaldiçoados?) no qual não posso acreditar que tenha caído nas fendas cinematográficas. Vamos arrastar de volta“. Sabe-se que a esposa do falecido, Suzanne Desrocher-Romero, havia dito no começo do ano que um filme de Romero de 1973 seria restaurado e liberado. Agora sabemos que é THE AMUSEMENT PARK.

Então, agora é aguardar a restauração da obra e o seu lançamento, seja lá por qual via. Não sei quanto tempo isso vai levar, mas só de saber que teremos um filme inédito de George A. Romero, filmado nos anos 70, para poder conferir num futuro próximo já é uma das mais belas notícias deste final de década.

THE OTHER SIDE OF THE WIND (2018)

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Estreou hoje na Netflix o novo filme do Orson Welles, THE OTHER SIDE OF THE WIND. É até esquisito anunciar isso… “O novo filme de Orson Welles“. Mas é exatamente isso, como já tinha falado neste post há alguns meses.

Então não vou explicar tudo de novo com detalhes, mas o fato é que depois de quarenta anos existindo apenas como uma hipotética obra final de um dos maiores artistas do século XX, que foi Welles, finalmente temos a oportunidade de ver seu derradeiro trabalho, graças a Netflix e algumas figuras que ao longo dos anos mantiveram a chama acesa na esperança de que um dia esse projeto visse a luz do dia. THE OTHER SIDE OF THE WIND foi reunido a partir de mais de cem horas de imagens brutas ou semi editadas pelo próprio diretor, filmadas na primeira metade da década de 70 e o resultado desse esforço é monumental, experiência das mais interessantes que teremos este ano, uma obra incrível que mostra como Welles estava à frente do seu tempo.

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E é curioso como o filme é premonitório de certa maneira. THE OTHER SIDE OF THE WIND se passa no dia do aniversário de um diretor de cinema, Jake Hannaford (interpretado pelo também diretor John Huston, como um alter-ego de Welles), grande parte da ação acontece na casa do sujeito, onde será exibido, vejam só, uma cópia inacabada de seu mais novo filme (também intitulado THE OTHER SIDE OF THE WIND). Comparecem câmeras de televisão, repórteres e dúzias de personagens baseados em figuras típicas de Hollywood: roteiristas, atores, produtores, críticos de cinema, que se aglomeram na casa de Hannaford, trocando farpas e gracejos entre si e com o diretor rabugento, insinuando a própria desilusão de Welles com Hollywood. Todo o propósito por trás da comemoração é uma tentativa de levantar financiamento para o seu filme inacabado, a mesma situação que o próprio Welles se encontrava naquele momento e que iria vivenciar até o fim.

Uma das ideias de Welles era contar a história através das câmeras que comparecem no local. Há câmeras por todo lado aparecendo na tela, seguindo os personagens durante toda a festividade ou às escondidas, tentando flagrar as conversas mais íntimas, numa lógica de falso documentário. É por essas câmeras que acompanhamos a “trama” e as alternâncias de uma câmera para outra – em cores, preto e branco, diferentes granulações, móvel, ou estática – contribuem para o deslumbre. Tudo montado de forma experimental, num estilo de edição frenético, radical e desorientador, acompanhado pela trilha jazzística de Michel Legrand e num amontoado de gente tagarelando de forma caótica, tornando difícil a tarefa de quem se preocupa em sempre buscar estabelecer uma linha narrativa ou algo do tipo, o que Welles parecia estar pouco se lixando, rompendo com toda a ideia de uma fluidez narrativa tradicional.

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É melhor deixar-se levar na viagem. Até porque há ainda o filme dentro do filme, cujas cenas se misturam com a trama central, numa meta-narrativa lisérgica, algumas das mais belas e hipnóticas imagens que Welles filmou na sua carreira, e que transcende tudo o que era feito em Hollywood no período. O único filme que me vem à mente neste momento à título de comparação é o incompreendido THE LAST MOVIE, de Dennis Hopper, que aliás, faz uma brevíssima participação por aqui também.

O elenco mais participativo é composto por Bogdanovich, Cameron Mitchell, Oja Kodar, Robert Randon, Edmond O’Brien, Susan Strasberg, Norman Foster, entre outros… Mas quem se destaca mesmo é John Huston, o único personagem que ganha alguma alma no meio deste espetáculo sensorial, numa figura que se alterna entre a fanfarronice e a amargura, entre arrogância e autopiedade, baseado na incapacidade de se adaptar a um mundo que se afastou dele e que ganha reflexo no próprio Welles.

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Um filmaço, como não poderia ser diferente vindo de um dos grandes gênios do cinema, desses que nos fazem vivenciar uma experiência rara e sensível, das mais ricas cinematograficamente. Pena que é de um diretor que já morreu há mais de trinta anos… Queria um filme novo do Welles todo ano…

THE OTHER SIDE OF THE WIND está disponível na Netflix Brasil e é recomendado à paladares finos dispostos a experimentar algo diferente.

PS: O diretor de fotografia do filme foi um dos principais colaboradores de Welles, chamado Gary Graver, que provavelmente vocês não devem conhecer de nome. Mas se você foi adolescente nos anos 90 e ficava acordado aos sábados, na Band, escondidos dos pais, para assistir ao Cine Privé, com certeza já deve ter assistido a um filme do sujeito. Ele acabou se especializando nesse tipo de material e possui mais de cem filmes no currículo, entre soft-porn e até produções hardcore.

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“INFILTRATE HATE”

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Sem palavras para descrever BLACKKKLANSMAN, a nova pedrada de Spike Lee. Um dos melhores filmes do ano e que acabei assistindo em boa hora, às vésperas de uma eleição na qual, por escolha da maioria, provavelmente será coroada a disseminação do ódio, do preconceito e da ignorância transvestida de patriotismo, moral e bons costumes. É um filme muito simbólico para este momento. O que me resta é a consciência limpa e saber que lá na frente eu estava do lado certo da história. Não tenho dúvidas disso.

SUSPIRIA (1977)

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Vocês sabem, SUSPIRIA, o clássico absoluto do horror italiano do mestre Dario Argento, será lançado num remake dirigido por Luca Guadagnino, de ME CHAME PELO SEU NOME. Pra mim, remakes nem fedem nem cheiram, mas acabo assistindo. Se forem bons, elogio, se forem ruins, lamento a perda de tempo… Poderia ter visto coisa melhor. Mas mantenho sempre a ideia de que o original estará lá para ser visto e revisto independente de quantas refilmagens fizerem. No caso de SUSPIRIA, até acho que pode sair algo interessante. O cinema de horror atual anda num bom momento e acho o Guadagnino um sujeito com talento. É só não esperar nada no mesmo nível que é a maravilha do Argento que vou encarar de boa…

Sobre o filme do Argento, revi há poucos dias em DVD em casa mesmo. Uma belezura. Mas a melhor experiência que tive com o filme, foi mais ou menos há um ano quando SUSPIRIA passou remasterizado no Instituto Moreira Sales, da Paulista, onde tive a oportunidade de sentir o poder sensorial dessa obra-prima do horror em todo o seu esplendor. Quero dizer, aquela telona explodindo a exuberância de cores e o volume até o talo, ficou simplesmente impossível sair da sessão sem estar, no mínimo, atordoado.

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Nem é o meu filme favorito do Argento, fico com INFERNO (1980) ou PROFONDO ROSSO (1975), mas SUSPIRIA tem um cantinho reservado no coração e revê-lo é uma experiência visual transcendental, seja numa tela de cinema, seja na TV em DVD. Sempre fico de queixo caído com sua narrativa onírica, a trilha sonora experimental do Goblin, o design de produção estilizado e as composições visuais meticulosamente trabalhadas em benefício do horror, de um universo de horror muito próprio, um mundo de beleza, mistério, oculto e violência… É um festival sensorial único, a síntese do filme de horror como arte.

A sinopse é bem simples: uma estudante americana de balé, Suzy Banyon (Jessica Harper), chega numa noite tempestuosa em Freiburg, na Alemanha, para estudar numa prestigiosa academia de dança. Quando um táxi a deixa na entrada do local, ela vê uma jovem na porta agindo de modo estranho antes de sair para a noite, correndo pela floresta encharcada e escura. No dia seguinte, quando Suzy se estabelece na escola, descobre que a garota que viu na noite anterior foi brutalmente assassinada. A partir daí, Suzy começa a perceber que há algo nitidamente bizarro, ocorrências estranhas vão rolando na escola e com seu corpo docente, e ela resolve meter o nariz para descobrir…

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Qualquer coisa além disso já não tem tanta importância. Quero dizer, para ser sincero, a trama e seus dispositivos narrativos, construção de personagens e etc, não são exatamente o que mais interessam ao Argento, ainda que integrem o universo formal do diretor como contador de história de terror. O fato é que Argento chega a um ponto da carreira no qual o enredo e personagens se tornam completamente subservientes ao visual, à atmosfera, à música. O que realmente importa em SUSPIRIA, portanto, é a lógica de pesadelo que motiva os personagens a agirem de forma absurda em cenários barrocos onde a violência é bela. São exatamente os momentos em que o trabalho visual se destaca que SUSPIRIA se revela tão magistral e original. A sequência do primeiro assassinato é uma das minhas favoritas, digna de antologia: a violência, o sangue, a faca entrando no coração exposto e os últimos e trágicos enquadramentos (alguns dos mais icônicos do horror italiano)… O que se vê na tela é pura poesia.

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Dizem que Daria Nicolodi, atriz e roteirista italiana que era casada com Argento e que escreveu o roteiro de SUSPIRIA, baseou-se nas experiências de sua avó, que frequentou uma escola de atores onde os professores também ensinavam magia negra aos alunos… Vai saber se isso é verdade. Em outras declarações, ela diz que a ideia de SUSPIRIA teria surgido de um sonho que teve. O que faz mais sentido. A sensação parece ser mesmo a de um pesadelo estruturado num conto de fadas macabro, com os personagens falando coisas sem sentido e percorrendo os corredores sinistros e ricamente decorados da Academia de Dança. É como se Suzie entrasse numa espécie de buraco do coelho, como em Alice no País das Maravilhas, só que o mundo paralelo aqui é mais peculiar ao pesadelo, ao horror. SUSPIRIA me mostrou o quão aterrador, poético e sofisticado o cinema de horror italiano pode ser (e não só o Argento, mas também Fulci, Bava, Soavi, Freda, etc).

Então, que venha o remake, mesmo tendo consciência de que vai ser praticamente impossível superar este aqui. Mas se for bom, já tá valendo.

Ah, e só pra lembrar, SUSPIRIA é o primeiro exemplar de uma trilogia unida a partir da ideia das “Três Mães”, um triunvirato de bruxas ancestrais e maléficas cuja magia poderosa lhes permite manipular eventos mundiais em escala global. Os outros filmes são o já citado INFERNO e THE MOTHER OF TEARS.

MAN IN THE SHADOW (1957)

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O diretor Jack Arnold está mais associado às suas contribuições no cinema fantástico, com os clássicos O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU (57), O MONSTRO DA LAGOA NEGRA (54), A AMEAÇA QUE VEIO DO ESPAÇO (53), entre outras coisas. No fim da carreira, já nos anos 70, não teve receio de se assumir como diretor de filmes de exploração. Seu melhor trabalho, no entanto, dentre os que assisti até o momento, é o pouco lembrado MAN IN THE SHADOW, um faroeste moderno marxista sobre um xerife de cidade pequena que resolve bater de frente com um poderoso rancheiro, desses que tem a população nas mãos e se acha acima da lei.

Em seus 80 minutos de duração, MAN IN THE SHADOW é de uma secura e simplicidade impressionante. A trama pode ser facilmente resumida na investigação policial do tal xerife (Jeff Chandler) a partir de um suposto assassinato ocorrido nas mediações do território do rancheiro vivido por um imponente Orson Welles. E é no confronto, no choque entre essas duas figuras que explode um filme bem mais forte que aparenta ser. Na construção e desconstrução desses personagens, o que eles representam em relação às classes; é, também, na direção econômica de Arnold, na fluidez narrativa, na quebra dos moldes do gênero policial, na anti-ação; é, especialmente, na atuação soberba de Welles, genial nos poucos momentos que surge em cena, criando um retrato assustador do inescrupuloso, fascista e medieval que ocupa o topo da pirâmide na cadeia alimentar. Foi seu envolvimento com MAN IN THE SHADOW, aliás, que Welles convenceu o produtor Albert Zugsmith a financiar um de seus projetos pessoais, um tal filme chamado A MARCA DA MALDADE…

MAN IN THE SHADOW dá uma bela double feature com BAD DAY AT BLACK ROCK (55), de John Sturges.

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FILMES PARA DOIDOS – O RETORNO

Depois de um hiato de alguns anos, o Felipe M. Guerra finalmente resolveu voltar a atualizar o FILMES PARA DOIDOS, blog que sempre foi obrigatório para quem se interessa por filmes de gênero, com seus longos textos detalhadíssimos, mas extremamente divertidos. Clique na imagem abaixo para seguir ao recinto do homem:

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O DESTINO DE UM HOMEM (1959); CPC UMES FILMES

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Baseado num romance de Mikhail Sholokhov, O DESTINO DE UM HOMEM narra a odisseia amarga de um soldado soviético na Segunda Guerra Mundial. Andrei Sokolov (interpretado pelo próprio diretor, Sergei Bondarchuk), é um simples carpinteiro que deixa sua esposa, um filho e duas filhas, para atuar na guerra como caminhoneiro, prevendo que voltaria em breve. Seu destino, no entanto, não corresponde às suas previsões e ele acaba caindo nas mãos dos nazistas. A história é contada num longo flashback, numa narrativa que contempla vários anos em que vemos o sujeito comendo o pão que o Diabo amassou, pulando de um campo de concentração a outro, tratado brutalmente pelos alemães e forçado a trabalhos desumanos.

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Há vários pontos fortes para elogiar no filme de Bondarchuk, os vários “blocos” que estruturam o filme guardam momentos interessantes, de situações carregadas de sentimento à instantes de pura tensão. Mas uma coisa que me impressiona em tudo isso é como esses soviéticos filmam bem pra cacete. O olhar expressionista do diretor não fica nada a dever de seus “conterrâneos” do período, como Grigori Chukhrai, em A BALADA DE UM SOLDADO, ou Mikhail Kalatozov, com QUANDO VOAM AS CEGONHAS, que são filmes que tiveram maior projeção internacional na época, especialmente pelo cinema formalmente inventivo que praticavam. O DESTINO DE UM HOMEM também chama a atenção nesses quesitos, seja pela estética, com um imaginário preto-e-branco poético na maior parte do tempo, ou seja pelo trabalho de câmera e montagem espetaculares. A sequência que antecede a prisão de Andrei, com o sujeito dirigindo seu caminhão num campo aberto em meio a um bombardeio nazista, por exemplo, é simplesmente arrebatador, desses momentos que provam que, pelo menos no formalismo, na técnica, os soviéticos eram insuperáveis e estavam muito à frente de grande parte do cinema de Hollywood do período.

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Alguns anos depois, Bondarchuk dirigiria WATERLOO, produção internacional sob a batuta de Dino De Laurentiis, com Rod Steiger no papel de Napolão Bonaparte… Acho que vale a pena ir atrás.

O DESTINO DE UM HOMEM é um belíssimo filme de guerra, humano e tocante que merece ser visto e admirado. E foi lançado em DVD recentemente no Brasil pela CPC UMES FILMES numa ótima edição, com imagem restaurada. Vale a pena uma visitada na loja online da distribuidora para adquirir este e várias outras obras sensacionais do acervo da distribuidora, repleta de preciosidades soviéticas. E curta também a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar por dentro das novidades e futuros lançamentos.

THE CAREY TREATMENT (1972)

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Blake Edwards é mais conhecido por suas comédias inventivas dos anos 60 estreladas pelo Peter Sellers, como A PANTERA COR DE ROSA, por exemplo. Portanto, foi uma boa descoberta este filme fora do habitual do diretor, que recebeu o título bizarro no brasil de RECEITA: VIOLÊNCIA. Relevemos e vamos tratá-lo pelo original, THE CAREY TREATMENT. Trata-se de um filme que assume uma relevância social interessante quando visto hoje, usando o tema do aborto como ponto de partida para um thriller, num contexto em que os EUA debatia muito a questão e que hoje ainda é assunto no “Fla x Flu” político brasileiro, como sabemos. O filme retrata a situação da gravidez indesejada que resulta em garotas e mulheres desesperadas subornando pessoas não qualificadas para realizarem abortos clandestinos, como até hoje acontece, e faz ecoar um certo lado sombrio de uma América apodrecida, por mais que as aparências demonstrem o contrário, e evoca memórias perturbadoras de um período particularmente controverso na consciência moral americana.

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James Coburn tem aqui um de seus melhores papéis como o Dr. Peter Carey, um patologista de atitude rebelde, mas estimado profissionalmente, que se muda de LA para Boston para ocupar uma posição de destaque num hospital conceituado da cidade. Carey, esbanjando carisma, não perde tempo em fazer amigos, especialmente com a graciosa nutricionista chefe, interpretada por Jennifer O’Neill. No entanto, o sujeito logo se vê envolvido em uma investigação intrincada quando um colega cirurgião (James Hong) é preso por assassinato após realizar um aborto ilegal na filha de 15 anos do administrador do hospital, vivido por Dan O’Herlihy.

Carey acredita piamente na inocência de seu amigo e decide começar sua própria investigação. O caso logo revela a sordidez que algumas pessoas proeminentes e respeitadas da cidade prefeririam manter escondidas sob as aparências. E Carey se vê correndo certos riscos quando se aproxima mais da verdade por trás da morte da jovem.

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Não há nada particularmente excepcional sobre o roteiro e o andamento da coisa em THE CAREY TREATMENT, exceto o tema espinhoso como pano de fundo. No entanto, tudo funciona tão bem dentro dos moldes de um thriller setentista, tão bem conduzido por Edwards, que vale a pena a conferida. E ainda temos Coburn num momento inspirando com seu personagem fascinante, sempre expressivo, sorridente e cativante por fora, mas internamente nutrindo um constante desprezo e desconfiança por figuras de autoridade. Além de ter uma veia badass: uma simpatia de pessoa, mas caso haja a necessidade, no instante seguinte troca socos com quem estiver em seu caminho.

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De vez em quando o filme exagera um bocado na dose e se esforça para deixar as coisas mais movimentadas sem muita necessidade, já que essencialmente a trama de mistério metódica bastaria. A sequência em que Carey praticamente sequestra uma jovem em seu carro e pisa fundo desafiando a morte para induzi-la a revelar informações, é um desses exemplos. Mas é tudo tão bem concebido que esses exageros nem chegam a ser um problema. THE CAREY TREATMENT continua envolvente e Coburn se beneficia de sua química com a galeria de coadjuvantes interessantes que aparecem por aqui, incluindo O’Herlihy, Pat Hingle e James Hong. Há também a excelente trilha sonora do grande compositor Roy Budd que vale a pena destacar.

VENCER OU MORRER (Nowhere to Run, 1993)

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Cada vez é mais raro isso acontecer, mas quando se pensa na carreira de Jean-Claude Van Damme, dificilmente alguém vai se lembrar logo de cara de VENCER OU MORRER (Nowhere to Run), obra que até teve relativo sucesso na TV e nas locadoras, mas fica ali espremido entre os monumentos SOLDADO UNIVERSAL e O ALVO. Mas é um exemplar que possui certas peculiaridades dentro da filmografia de JCVD e que o torna especial.

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VENCER OU MORRER é um daqueles filmes claramente apoiados numa certa estrutura de faroeste, mas sem ser um de fato… A trama se passa nos “dias atuais”, mas não há nem uma iconografia do gênero, chapéus de cowboy ou saloons para dizer que é um western moderno. No entanto, vejamos: um fora-da-lei fugitivo vai parar nos arredores de uma pequena cidade, perto de uma fazendo cuja a proprietária é uma viúva que está sendo intimidada para vender suas terras. O fora-da-lei a ajuda, confronta um xerife que não é exatamente mau, mas tem medo de resistir ao poderoso vilão que desperta o temor de todos ao seu redor com “propostas irrecusáveis” para comprar seus terrenos. O fora-da-lei acaba “morando” no celeiro da fazenda, onde faz amizade com o filho pequeno da mulher, mas ao invés de um cavalo, arruma uma motocicleta quebrada, conserta e tenta deixar a cidade, não sem antes se livrar do vilão e de seus capangas à base de murros e pontapés e buscar sua própria remição moral… É praticamente uma live action das histórias do Tex Willer versão porrada. Ou, como já foi comparado diversas vezes, VENCER OU MORRER é OS BRUTOS TAMBÉM AMAM Van Damme version

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Van Damme é Sam, um prisioneiro que logo no início do filme ocupa um lugar em um ônibus de prisão, sendo transportado por uma estrada deserta. Numa sequência de ação eletrizante, um carro corta o ônibus de forma agressiva fazendo com que o busão capote dezenas de vezes. Acontece que tudo isso faz parte de um plano de resgate para liberar Sam, praticado brilhantemente por um parceiro que não pensou na possibilidade de seu amigo terminar a capotagem morto ou com a coluna fraturada tendo que passar o resto dos seus dias numa cadeira de rodas… Mas deu tudo certo, graças a Deus, e Van Damme e todos os outros prisioneiros são libertados, independente se são assassinos, estupradores, pedófilos ou políticos corruptos…

Sam e seu amigo entram no carro e partem em fuga. No entanto, um policial tem um lampejo de Dirty Harry, pega rapidamente um rifle e manda um tiro certeiro no parça de Van Damme. Ambos conseguem ainda escapar, mas a ferida é mortal. O sujeito deixa a Sam um gravador com uma mensagem comovente, algum dinheiro e um terno, mas esqueceu de deixar um bigode falso, portanto não pode exatamente começar a procurar um emprego… Então, ele encontra um bosque e um lago isolados para acampar e ler revistas de mulheres nuas. Há uma casa nas redondezas e Sam resolve xeretar – e tem uma bela visão da Rosanna Arquette peladona.

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A mulher é a tal viúva dona do terreno local. Ela tem um casal de filhos e o menino, interpretado por Kieran Culkin, acaba encontrando o acampamento de Sam (os policiais não conseguem encontrá-lo, mas um garotinho consegue fácil) e os dois iniciam uma amizade que se desenvolve até o moleque tê-lo como a figura paterna que lhe falta…  Os primeiros 40 a 45 minutos do filme são lentos e, exceto a sequência da fuga no início, não há muita ação. Mas esse tempo é bom para construir os personagens e estabelecer a história e essas relações que o filme propõe, entre Sam e o garotinho, mas também entre Sam e a personagem de Arquette, que a princípio vê o sujeito como um estranho, depois como herói até vê-lo como… Bem, digamos, que não demora muito para compartilharem a mesma cama…

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Uma vez que a ação começa em VENCER OU MORRER, as coisas melhoram ainda mais. A ação não é lá extravagante ou elegante como em outros filmes de Van Damme (O ALVO ou DUPLO IMPACTO), e não há os tradicionais chutes altos ou os espacates do sujeito, porque JCVD ​​é um cara normal por aqui, humano e cheio de fraquezas. Na verdade, um detalhe que realmente diferencia o que JCVD havia feito até aqui na carreira, é o fato de ser o primeiro filme em que seu personagem não possui habilidades em artes marciais. Sam é um criminoso, um fora-da-lei, obviamente cresceu num lugar barra pesada, teve que lutar na vida, mas não teve a mordomia de entrar numa academia de karatê… Então a ação é mais realista, grosseira e fundamentada. Ainda assim, o diretor Robert Harmon (A MORTE PEDE CARONA) faz algumas coisas legais com a câmera, sabe criar momentos de pancadaria e perseguições com bastante eficiência. Uma das minhas favoritas é a sequência em que Sam tenta uma fuga de motocicleta com uma frota de policiais na sua cola… Realmente intenso.

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A sequência final também é muito boa, com algumas sacadas criativas. Há um momento especial que é ótimo: Van Damme pula em cima de um sujeito que tem uma espingarda nas mãos e os dois atravessam a janela do sótão da casa, rolam pelos telhados e caem. Daí,  há um plano de dentro da casa, uma parede, com quadrinhos pendurados e de repente PIMBA! Um tiro da espingarda explode a parede e através do buraco continuamos a vê-los lutando do lado de fora. Sim, havia um tempo em que os diretores guardavam as melhores ideias para o final…

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Vale destacar o fato de que o cara que sai pela janela com Van Damme nessa cena é o grande Ted Levine (o eterno Buffalo Bill de O SILÊNCIO DOS INOCENTES), que é o principal capanga do bandidão vivido por Joss Ackland (que já havia encarnado pessoas de caráter duvidoso em MÁQUINA MORTÍFERA 2). Rosanna Arquette entrega uma performance dramática bem melhor que a maioria das atrizes que embarcam em filmes de ação como esse e, ao mesmo tempo, está disposta a fazer algumas ceninhas de nudez, o que eleva o material – apesar de dizer em várias entrevistas que detestou trabalhar com JCVD. Kieran Culkin também é legal – tá certo que não precisamos de um personagem infantil tão importante num filme de ação, mas o moleque é  capaz de atuar e vira uma referência para o protagonista na sua busca de redenção.

Obviamente, o melhor do elenco é Van Damme. Acho que é em filmes como VENCER OU MORRER que o belga se vê desafiado a fazer um trabalho mais dramático e de mostrar suas aptidões como ator, e não ser apenas um simples tough guy, num personagem ambíguo e performance minimalista, sutil, com poucos diálogos e uso correto da expressão do corpo (sim, ele aparece nu, e na frente de crianças) sem fazer tanta pose como em seus filmes anteriores.

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Uma curiosidade é que o roteiro original escrito por Joe Eszterhas (que colaborou com Paul Verhoeven em filmes como INSTINTO SELVAGEM) e Richard Marquand (mais conhecido por ter dirigido O RETORNO DE JEDI), era um drama sem qualquer sequência de ação e seria estrelado por Mel Gibson, até virar um veículo de ação de JCVD. Eszterhas acabou pedindo para não ter seu nome ligado ao projeto e Marquand teve que reescrever o roteiro para ficar mais ao gosto do belga. O que não conseguiu, o próprio Van Damme diz que não gostou do roteiro. Mas o que importa é o resultado, o que tá na tela, e apesar de não ser um dos melhores “JCVD movies”, acho VENCER OU MORRER um trabalho sólido que vale a pena rever de vez em quando…