SUSPIRIA (1977)

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Vocês sabem, SUSPIRIA, o clássico absoluto do horror italiano do mestre Dario Argento, será lançado num remake dirigido por Luca Guadagnino, de ME CHAME PELO SEU NOME. Pra mim, remakes nem fedem nem cheiram, mas acabo assistindo. Se forem bons, elogio, se forem ruins, lamento a perda de tempo… Poderia ter visto coisa melhor. Mas mantenho sempre a ideia de que o original estará lá para ser visto e revisto independente de quantas refilmagens fizerem. No caso de SUSPIRIA, até acho que pode sair algo interessante. O cinema de horror atual anda num bom momento e acho o Guadagnino um sujeito com talento. É só não esperar nada no mesmo nível que é a maravilha do Argento que vou encarar de boa…

Sobre o filme do Argento, revi há poucos dias em DVD em casa mesmo. Uma belezura. Mas a melhor experiência que tive com o filme, foi mais ou menos há um ano quando SUSPIRIA passou remasterizado no Instituto Moreira Sales, da Paulista, onde tive a oportunidade de sentir o poder sensorial dessa obra-prima do horror em todo o seu esplendor. Quero dizer, aquela telona explodindo a exuberância de cores e o volume até o talo, ficou simplesmente impossível sair da sessão sem estar, no mínimo, atordoado.

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Nem é o meu filme favorito do Argento, fico com INFERNO (1980) ou PROFONDO ROSSO (1975), mas SUSPIRIA tem um cantinho reservado no coração e revê-lo é uma experiência visual transcendental, seja numa tela de cinema, seja na TV em DVD. Sempre fico de queixo caído com sua narrativa onírica, a trilha sonora experimental do Goblin, o design de produção estilizado e as composições visuais meticulosamente trabalhadas em benefício do horror, de um universo de horror muito próprio, um mundo de beleza, mistério, oculto e violência… É um festival sensorial único, a síntese do filme de horror como arte.

A sinopse é bem simples: uma estudante americana de balé, Suzy Banyon (Jessica Harper), chega numa noite tempestuosa em Freiburg, na Alemanha, para estudar numa prestigiosa academia de dança. Quando um táxi a deixa na entrada do local, ela vê uma jovem na porta agindo de modo estranho antes de sair para a noite, correndo pela floresta encharcada e escura. No dia seguinte, quando Suzy se estabelece na escola, descobre que a garota que viu na noite anterior foi brutalmente assassinada. A partir daí, Suzy começa a perceber que há algo nitidamente bizarro, ocorrências estranhas vão rolando na escola e com seu corpo docente, e ela resolve meter o nariz para descobrir…

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Qualquer coisa além disso já não tem tanta importância. Quero dizer, para ser sincero, a trama e seus dispositivos narrativos, construção de personagens e etc, não são exatamente o que mais interessam ao Argento, ainda que integrem o universo formal do diretor como contador de história de terror. O fato é que Argento chega a um ponto da carreira no qual o enredo e personagens se tornam completamente subservientes ao visual, à atmosfera, à música. O que realmente importa em SUSPIRIA, portanto, é a lógica de pesadelo que motiva os personagens a agirem de forma absurda em cenários barrocos onde a violência é bela. São exatamente os momentos em que o trabalho visual se destaca que SUSPIRIA se revela tão magistral e original. A sequência do primeiro assassinato é uma das minhas favoritas, digna de antologia: a violência, o sangue, a faca entrando no coração exposto e os últimos e trágicos enquadramentos (alguns dos mais icônicos do horror italiano)… O que se vê na tela é pura poesia.

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Dizem que Daria Nicolodi, atriz e roteirista italiana que era casada com Argento e que escreveu o roteiro de SUSPIRIA, baseou-se nas experiências de sua avó, que frequentou uma escola de atores onde os professores também ensinavam magia negra aos alunos… Vai saber se isso é verdade. Em outras declarações, ela diz que a ideia de SUSPIRIA teria surgido de um sonho que teve. O que faz mais sentido. A sensação parece ser mesmo a de um pesadelo estruturado num conto de fadas macabro, com os personagens falando coisas sem sentido e percorrendo os corredores sinistros e ricamente decorados da Academia de Dança. É como se Suzie entrasse numa espécie de buraco do coelho, como em Alice no País das Maravilhas, só que o mundo paralelo aqui é mais peculiar ao pesadelo, ao horror. SUSPIRIA me mostrou o quão aterrador, poético e sofisticado o cinema de horror italiano pode ser (e não só o Argento, mas também Fulci, Bava, Soavi, Freda, etc).

Então, que venha o remake, mesmo tendo consciência de que vai ser praticamente impossível superar este aqui. Mas se for bom, já tá valendo.

Ah, e só pra lembrar, SUSPIRIA é o primeiro exemplar de uma trilogia unida a partir da ideia das “Três Mães”, um triunvirato de bruxas ancestrais e maléficas cuja magia poderosa lhes permite manipular eventos mundiais em escala global. Os outros filmes são o já citado INFERNO e THE MOTHER OF TEARS.

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MAN IN THE SHADOW (1957)

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O diretor Jack Arnold está mais associado às suas contribuições no cinema fantástico, com os clássicos O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU (57), O MONSTRO DA LAGOA NEGRA (54), A AMEAÇA QUE VEIO DO ESPAÇO (53), entre outras coisas. No fim da carreira, já nos anos 70, não teve receio de se assumir como diretor de filmes de exploração. Seu melhor trabalho, no entanto, dentre os que assisti até o momento, é o pouco lembrado MAN IN THE SHADOW, um faroeste moderno marxista sobre um xerife de cidade pequena que resolve bater de frente com um poderoso rancheiro, desses que tem a população nas mãos e se acha acima da lei.

Em seus 80 minutos de duração, MAN IN THE SHADOW é de uma secura e simplicidade impressionante. A trama pode ser facilmente resumida na investigação policial do tal xerife (Jeff Chandler) a partir de um suposto assassinato ocorrido nas mediações do território do rancheiro vivido por um imponente Orson Welles. E é no confronto, no choque entre essas duas figuras que explode um filme bem mais forte que aparenta ser. Na construção e desconstrução desses personagens, o que eles representam em relação às classes; é, também, na direção econômica de Arnold, na fluidez narrativa, na quebra dos moldes do gênero policial, na anti-ação; é, especialmente, na atuação soberba de Welles, genial nos poucos momentos que surge em cena, criando um retrato assustador do inescrupuloso, fascista e medieval que ocupa o topo da pirâmide na cadeia alimentar. Foi seu envolvimento com MAN IN THE SHADOW, aliás, que Welles convenceu o produtor Albert Zugsmith a financiar um de seus projetos pessoais, um tal filme chamado A MARCA DA MALDADE…

MAN IN THE SHADOW dá uma bela double feature com BAD DAY AT BLACK ROCK (55), de John Sturges.

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FILMES PARA DOIDOS – O RETORNO

Depois de um hiato de alguns anos, o Felipe M. Guerra finalmente resolveu voltar a atualizar o FILMES PARA DOIDOS, blog que sempre foi obrigatório para quem se interessa por filmes de gênero, com seus longos textos detalhadíssimos, mas extremamente divertidos. Clique na imagem abaixo para seguir ao recinto do homem:

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O DESTINO DE UM HOMEM (1959); CPC UMES FILMES

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Baseado num romance de Mikhail Sholokhov, O DESTINO DE UM HOMEM narra a odisseia amarga de um soldado soviético na Segunda Guerra Mundial. Andrei Sokolov (interpretado pelo próprio diretor, Sergei Bondarchuk), é um simples carpinteiro que deixa sua esposa, um filho e duas filhas, para atuar na guerra como caminhoneiro, prevendo que voltaria em breve. Seu destino, no entanto, não corresponde às suas previsões e ele acaba caindo nas mãos dos nazistas. A história é contada num longo flashback, numa narrativa que contempla vários anos em que vemos o sujeito comendo o pão que o Diabo amassou, pulando de um campo de concentração a outro, tratado brutalmente pelos alemães e forçado a trabalhos desumanos.

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Há vários pontos fortes para elogiar no filme de Bondarchuk, os vários “blocos” que estruturam o filme guardam momentos interessantes, de situações carregadas de sentimento à instantes de pura tensão. Mas uma coisa que me impressiona em tudo isso é como esses soviéticos filmam bem pra cacete. O olhar expressionista do diretor não fica nada a dever de seus “conterrâneos” do período, como Grigori Chukhrai, em A BALADA DE UM SOLDADO, ou Mikhail Kalatozov, com QUANDO VOAM AS CEGONHAS, que são filmes que tiveram maior projeção internacional na época, especialmente pelo cinema formalmente inventivo que praticavam. O DESTINO DE UM HOMEM também chama a atenção nesses quesitos, seja pela estética, com um imaginário preto-e-branco poético na maior parte do tempo, ou seja pelo trabalho de câmera e montagem espetaculares. A sequência que antecede a prisão de Andrei, com o sujeito dirigindo seu caminhão num campo aberto em meio a um bombardeio nazista, por exemplo, é simplesmente arrebatador, desses momentos que provam que, pelo menos no formalismo, na técnica, os soviéticos eram insuperáveis e estavam muito à frente de grande parte do cinema de Hollywood do período.

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Alguns anos depois, Bondarchuk dirigiria WATERLOO, produção internacional sob a batuta de Dino De Laurentiis, com Rod Steiger no papel de Napolão Bonaparte… Acho que vale a pena ir atrás.

O DESTINO DE UM HOMEM é um belíssimo filme de guerra, humano e tocante que merece ser visto e admirado. E foi lançado em DVD recentemente no Brasil pela CPC UMES FILMES numa ótima edição, com imagem restaurada. Vale a pena uma visitada na loja online da distribuidora para adquirir este e várias outras obras sensacionais do acervo da distribuidora, repleta de preciosidades soviéticas. E curta também a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar por dentro das novidades e futuros lançamentos.

THE CAREY TREATMENT (1972)

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Blake Edwards é mais conhecido por suas comédias inventivas dos anos 60 estreladas pelo Peter Sellers, como A PANTERA COR DE ROSA, por exemplo. Portanto, foi uma boa descoberta este filme fora do habitual do diretor, que recebeu o título bizarro no brasil de RECEITA: VIOLÊNCIA. Relevemos e vamos tratá-lo pelo original, THE CAREY TREATMENT. Trata-se de um filme que assume uma relevância social interessante quando visto hoje, usando o tema do aborto como ponto de partida para um thriller, num contexto em que os EUA debatia muito a questão e que hoje ainda é assunto no “Fla x Flu” político brasileiro, como sabemos. O filme retrata a situação da gravidez indesejada que resulta em garotas e mulheres desesperadas subornando pessoas não qualificadas para realizarem abortos clandestinos, como até hoje acontece, e faz ecoar um certo lado sombrio de uma América apodrecida, por mais que as aparências demonstrem o contrário, e evoca memórias perturbadoras de um período particularmente controverso na consciência moral americana.

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James Coburn tem aqui um de seus melhores papéis como o Dr. Peter Carey, um patologista de atitude rebelde, mas estimado profissionalmente, que se muda de LA para Boston para ocupar uma posição de destaque num hospital conceituado da cidade. Carey, esbanjando carisma, não perde tempo em fazer amigos, especialmente com a graciosa nutricionista chefe, interpretada por Jennifer O’Neill. No entanto, o sujeito logo se vê envolvido em uma investigação intrincada quando um colega cirurgião (James Hong) é preso por assassinato após realizar um aborto ilegal na filha de 15 anos do administrador do hospital, vivido por Dan O’Herlihy.

Carey acredita piamente na inocência de seu amigo e decide começar sua própria investigação. O caso logo revela a sordidez que algumas pessoas proeminentes e respeitadas da cidade prefeririam manter escondidas sob as aparências. E Carey se vê correndo certos riscos quando se aproxima mais da verdade por trás da morte da jovem.

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Não há nada particularmente excepcional sobre o roteiro e o andamento da coisa em THE CAREY TREATMENT, exceto o tema espinhoso como pano de fundo. No entanto, tudo funciona tão bem dentro dos moldes de um thriller setentista, tão bem conduzido por Edwards, que vale a pena a conferida. E ainda temos Coburn num momento inspirando com seu personagem fascinante, sempre expressivo, sorridente e cativante por fora, mas internamente nutrindo um constante desprezo e desconfiança por figuras de autoridade. Além de ter uma veia badass: uma simpatia de pessoa, mas caso haja a necessidade, no instante seguinte troca socos com quem estiver em seu caminho.

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De vez em quando o filme exagera um bocado na dose e se esforça para deixar as coisas mais movimentadas sem muita necessidade, já que essencialmente a trama de mistério metódica bastaria. A sequência em que Carey praticamente sequestra uma jovem em seu carro e pisa fundo desafiando a morte para induzi-la a revelar informações, é um desses exemplos. Mas é tudo tão bem concebido que esses exageros nem chegam a ser um problema. THE CAREY TREATMENT continua envolvente e Coburn se beneficia de sua química com a galeria de coadjuvantes interessantes que aparecem por aqui, incluindo O’Herlihy, Pat Hingle e James Hong. Há também a excelente trilha sonora do grande compositor Roy Budd que vale a pena destacar.

VENCER OU MORRER (Nowhere to Run, 1993)

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Cada vez é mais raro isso acontecer, mas quando se pensa na carreira de Jean-Claude Van Damme, dificilmente alguém vai se lembrar logo de cara de VENCER OU MORRER (Nowhere to Run), obra que até teve relativo sucesso na TV e nas locadoras, mas fica ali espremido entre os monumentos SOLDADO UNIVERSAL e O ALVO. Mas é um exemplar que possui certas peculiaridades dentro da filmografia de JCVD e que o torna especial.

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VENCER OU MORRER é um daqueles filmes claramente apoiados numa certa estrutura de faroeste, mas sem ser um de fato… A trama se passa nos “dias atuais”, mas não há nem uma iconografia do gênero, chapéus de cowboy ou saloons para dizer que é um western moderno. No entanto, vejamos: um fora-da-lei fugitivo vai parar nos arredores de uma pequena cidade, perto de uma fazendo cuja a proprietária é uma viúva que está sendo intimidada para vender suas terras. O fora-da-lei a ajuda, confronta um xerife que não é exatamente mau, mas tem medo de resistir ao poderoso vilão que desperta o temor de todos ao seu redor com “propostas irrecusáveis” para comprar seus terrenos. O fora-da-lei acaba “morando” no celeiro da fazenda, onde faz amizade com o filho pequeno da mulher, mas ao invés de um cavalo, arruma uma motocicleta quebrada, conserta e tenta deixar a cidade, não sem antes se livrar do vilão e de seus capangas à base de murros e pontapés e buscar sua própria remição moral… É praticamente uma live action das histórias do Tex Willer versão porrada. Ou, como já foi comparado diversas vezes, VENCER OU MORRER é OS BRUTOS TAMBÉM AMAM Van Damme version

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Van Damme é Sam, um prisioneiro que logo no início do filme ocupa um lugar em um ônibus de prisão, sendo transportado por uma estrada deserta. Numa sequência de ação eletrizante, um carro corta o ônibus de forma agressiva fazendo com que o busão capote dezenas de vezes. Acontece que tudo isso faz parte de um plano de resgate para liberar Sam, praticado brilhantemente por um parceiro que não pensou na possibilidade de seu amigo terminar a capotagem morto ou com a coluna fraturada tendo que passar o resto dos seus dias numa cadeira de rodas… Mas deu tudo certo, graças a Deus, e Van Damme e todos os outros prisioneiros são libertados, independente se são assassinos, estupradores, pedófilos ou políticos corruptos…

Sam e seu amigo entram no carro e partem em fuga. No entanto, um policial tem um lampejo de Dirty Harry, pega rapidamente um rifle e manda um tiro certeiro no parça de Van Damme. Ambos conseguem ainda escapar, mas a ferida é mortal. O sujeito deixa a Sam um gravador com uma mensagem comovente, algum dinheiro e um terno, mas esqueceu de deixar um bigode falso, portanto não pode exatamente começar a procurar um emprego… Então, ele encontra um bosque e um lago isolados para acampar e ler revistas de mulheres nuas. Há uma casa nas redondezas e Sam resolve xeretar – e tem uma bela visão da Rosanna Arquette peladona.

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A mulher é a tal viúva dona do terreno local. Ela tem um casal de filhos e o menino, interpretado por Kieran Culkin, acaba encontrando o acampamento de Sam (os policiais não conseguem encontrá-lo, mas um garotinho consegue fácil) e os dois iniciam uma amizade que se desenvolve até o moleque tê-lo como a figura paterna que lhe falta…  Os primeiros 40 a 45 minutos do filme são lentos e, exceto a sequência da fuga no início, não há muita ação. Mas esse tempo é bom para construir os personagens e estabelecer a história e essas relações que o filme propõe, entre Sam e o garotinho, mas também entre Sam e a personagem de Arquette, que a princípio vê o sujeito como um estranho, depois como herói até vê-lo como… Bem, digamos, que não demora muito para compartilharem a mesma cama…

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Uma vez que a ação começa em VENCER OU MORRER, as coisas melhoram ainda mais. A ação não é lá extravagante ou elegante como em outros filmes de Van Damme (O ALVO ou DUPLO IMPACTO), e não há os tradicionais chutes altos ou os espacates do sujeito, porque JCVD ​​é um cara normal por aqui, humano e cheio de fraquezas. Na verdade, um detalhe que realmente diferencia o que JCVD havia feito até aqui na carreira, é o fato de ser o primeiro filme em que seu personagem não possui habilidades em artes marciais. Sam é um criminoso, um fora-da-lei, obviamente cresceu num lugar barra pesada, teve que lutar na vida, mas não teve a mordomia de entrar numa academia de karatê… Então a ação é mais realista, grosseira e fundamentada. Ainda assim, o diretor Robert Harmon (A MORTE PEDE CARONA) faz algumas coisas legais com a câmera, sabe criar momentos de pancadaria e perseguições com bastante eficiência. Uma das minhas favoritas é a sequência em que Sam tenta uma fuga de motocicleta com uma frota de policiais na sua cola… Realmente intenso.

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A sequência final também é muito boa, com algumas sacadas criativas. Há um momento especial que é ótimo: Van Damme pula em cima de um sujeito que tem uma espingarda nas mãos e os dois atravessam a janela do sótão da casa, rolam pelos telhados e caem. Daí,  há um plano de dentro da casa, uma parede, com quadrinhos pendurados e de repente PIMBA! Um tiro da espingarda explode a parede e através do buraco continuamos a vê-los lutando do lado de fora. Sim, havia um tempo em que os diretores guardavam as melhores ideias para o final…

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Vale destacar o fato de que o cara que sai pela janela com Van Damme nessa cena é o grande Ted Levine (o eterno Buffalo Bill de O SILÊNCIO DOS INOCENTES), que é o principal capanga do bandidão vivido por Joss Ackland (que já havia encarnado pessoas de caráter duvidoso em MÁQUINA MORTÍFERA 2). Rosanna Arquette entrega uma performance dramática bem melhor que a maioria das atrizes que embarcam em filmes de ação como esse e, ao mesmo tempo, está disposta a fazer algumas ceninhas de nudez, o que eleva o material – apesar de dizer em várias entrevistas que detestou trabalhar com JCVD. Kieran Culkin também é legal – tá certo que não precisamos de um personagem infantil tão importante num filme de ação, mas o moleque é  capaz de atuar e vira uma referência para o protagonista na sua busca de redenção.

Obviamente, o melhor do elenco é Van Damme. Acho que é em filmes como VENCER OU MORRER que o belga se vê desafiado a fazer um trabalho mais dramático e de mostrar suas aptidões como ator, e não ser apenas um simples tough guy, num personagem ambíguo e performance minimalista, sutil, com poucos diálogos e uso correto da expressão do corpo (sim, ele aparece nu, e na frente de crianças) sem fazer tanta pose como em seus filmes anteriores.

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Uma curiosidade é que o roteiro original escrito por Joe Eszterhas (que colaborou com Paul Verhoeven em filmes como INSTINTO SELVAGEM) e Richard Marquand (mais conhecido por ter dirigido O RETORNO DE JEDI), era um drama sem qualquer sequência de ação e seria estrelado por Mel Gibson, até virar um veículo de ação de JCVD. Eszterhas acabou pedindo para não ter seu nome ligado ao projeto e Marquand teve que reescrever o roteiro para ficar mais ao gosto do belga. O que não conseguiu, o próprio Van Damme diz que não gostou do roteiro. Mas o que importa é o resultado, o que tá na tela, e apesar de não ser um dos melhores “JCVD movies”, acho VENCER OU MORRER um trabalho sólido que vale a pena rever de vez em quando…

DUPLO IMPACTO (Double Impact, 1991)

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Curioso pensar que Jean-Claude Van Damme, no auge da primeira fase de sua carreira, ainda estava na fissura de provar mais uma vez suas habilidades, não apenas como homem de ação badass, mas como um ator com certas qualidades dramáticas, antes de encarar super produções bancadas por grandes estúdios.

Não bastou LEÃO BRANCO, CYBORG e GARANTIA DE MORTE, filmes que o belga conseguia sair um pouco da zona de conforto e tentava desenvolver figuras diferentes umas das outras. Ou pelo menos encenava situações que exigissem mais de JCVD como ator dramático. Mas foi com DUPLO IMPACTO que essa ideia de deixar sua marca como um artista mais refinado, mesmo trabalhando em filmes de gênero, chega ao seu limite máximo. Definitivamente o filme mais desafiador de sua carreira até então, com o belga dividindo a tela e lutando lado a lado com seu ator favorito: ele mesmo.

Posteriormente, Van Damme interpretaria mais de um papel num mesmo filme, como RISCO MÁXIMO e REPLICANTE, mas nada parecido como encarnar os irmão gêmeos Chad e Alex. Inspirado no clássico da literatura Os Irmãos Corsos, de Alexandre Dumas, DUPLO IMPACTO é sobre esses dois irmãos, separados com seis meses de vida, que se reúnem depois de vinte e cinco anos para encher qualquer meliante que entre em seus caminhos de tiro, porrada e bomba em prol de uma vingança contra os assassinos de seus pais.

A trama mesmo não tem lá muita importância, é mera rotina para o desenvolvimento das duas práticas que realmente valem em DUPLO IMPACTO, que são as sequências de ação e a construção dos dois personagens centrais, ambos interpretados por Van Damm, e como o sujeito consegue lidar com esse empreendimento. Nos dois polos, o filme se sai de maneira brilhante.

Van Damme nunca esteve tão envolvido num projeto como em DUPLO IMPACTO. Concebeu a história, e vejam só, inspirado em literatura clássica; escreveu o roteiro (juntamente com o diretor Sheldon Lettich); dirigiu as cenas de ação; e teve a ousadia de interpretar dois personagens totalmente diferentes, que em certas ocasiões interagem entre si. E por mais difícil que se possa acreditar, Van Damme convence. Por isso enfatizo que se a ação é crucial em DUPLO IMPACTO, o mesmo tem de ser dito sobre a performance de JCVD.

Na trama, Chad foi criado num orfanato de freiras francesas em Hong Kong (motivo pelo qual possui sotaque francês) e cresceu nas ruas, envolvido com criminosos, calejado desde cedo com as dificuldade da vida dura. O outro, Alex, é mais sensível e inocente. Conseguiu ser levado pelo guarda-costas de seus pais, Frank (Geoffrey Lewis) para a França (mais uma explicação para o sotaque) e depois foram para L.A. montar uma academia, onde dá aulas de ginástica e karatê. Um sujeito que nunca teve que arregaçar as mangas e teve certos privilégios. Personalidade e caráter opostos, mas numa dessas coincidências amadas pelos fãs do gênero, a única coisa que ambos têm em comum é o talento em artes marciais.

E ao rever o filme recentemente, meu cérebro entrou em colapso e tive sérias dúvidas se Van Damme, na construção de ambas personagens, não teria estudado o famoso método de Stanislávski e se tornado ator da mesma estirpe de um Marlon Brando e Paul Newman. Basta observar a sutileza do olhar, das expressões, o comportamento em cena quando encarna Alex, ou o jeito grosseiro na representação de Chad… E você realmente acredita que há dois JCVD’s no filme.

Mas não vamos esquecer que DUPLO IMPACTO é um filme de ação. E é importante também para JCVD mais a capacidade de encarar Bolo Yeung num “mano a mano” do que demonstrar seus sentimentos diante de seu irmão gêmeo – o que na verdade o faz com incríveis resultados, como quando Chad pensa que sua namorada está pulando a cerca com Alex e, num frenesi de ódio, enche a cara e quebra tudo o que vê pela frente, numa atuação digna de um Leão de Ouro em Veneza. Mas quando o sujeito têm que espreitar por trás de um inimigo e quebrar seu pescoço sem chamar a atenção de outros bandidos, aí, meus caros, Van Damme é pura poesia…

O sujeito nunca esteve tão bem em frente às câmeras. Há uma sequência em que Chad tira um guarda de circulação e percebe a chegada de outros. Ele pega uma pistola em câmera lenta, enquanto seus adversários chegam atirando com metralhadoras, que obviamente nunca vão acertar o nosso herói, só para que o ele ainda em slow motion, faça uma pose cinematográfica, enrijeça seus músculos do braço e comece a atirar precisamente em cada bandido. Uma coisa linda para os fãs, mas que daria um autêntica úlcera aos cinéfilos que frequentam espaços culturais e cinemas “de arte”.

A ação do filme é simplesmente espetacular, com a classe e objetividade formal que esse tipo de cena merece. E a direção de Sheldon Lettich, que já havia dirigido Van Damme em LEÃO BRANCO, é muito energética. Alguns tiroteios são inspirações óbvias do cinema de Hong Kong, com Chad empunhando duas pistolas em trocas de tiros frenéticos. Curioso que a primeira escolha para a direção do filme era Albert Pyun, que também já tinha trabalhado com Van Damme, em CYBORG. Embora seja um hábil diretor de ação, sua pegada é bem diferente, abstracionista e experimental… Talvez DUPLO IMPACTO hoje fosse um objeto de arte nas mãos de Pyun. Seria demais para o meu coração. Então é melhor deixar como está.

As sequências de luta em DUPLO IMPACTO podem não ter uma coreografia de encher os olhos, mas a maioria são realizadas em contextos e cenários que deixam tudo mais tenso e emocionante. Algumas até possuem boas sacadas visuais, como a que Chad enfrenta um sujeito na penumbra, num excelente trabalho atmosférico de fotografia e jogo de sombras.

DUPLO IMPACTO deve ser o filme de Van Damme com a maior galeria de vilões interessantes amontoados numa mesma história. São dois cabeças do crime, responsáveis pela morte dos pais dos gêmeos, vividos por Alan Scarfe e Philip Chan, mas também seus capangas: uma mulher musculosa cuja chave de perna seria capaz de estraçalhar uma laringe; há um sujeito que usa botas com esporas e mata suas vítimas com chutes que rasgam o pescoço do infeliz; e a cereja do bolo… er… que é literalmente o Bolo Yeung, uma escolha pessoal do próprio Van Damme para compor o elenco. Os dois ficaram amigos íntimos depois de contracenarem em O GRANDE DRAGÃO BRANCO.

Vale destacar ainda no elenco o grande Geoffrey Lewis, que consegue, no meio desse monte de brucutus, ser um dos personagens mais badasses de DUPLO IMPACTO. A sequência inicial em que salva os gêmeos da execução é um primor. E também Alonna Shaw, que faz a namorada de Chad e oferece alguns dos momentos mais calientes do filme.

É verdade que em termos narrativos, não há nada de novo para se ver aqui. Trata-se de mais um filme de ação do período como outro qualquer nesse sentido. O que não deixa de ser um ótimo exemplar do gênero com o suficiente para uma agradável sessão num domingo à tarde acompanhado de uma cerveja bem gelada. No entanto, DUPLO IMPACTO é bem mais que isso. Algumas situações mais movimentadas são realmente criativas e pensadas para se tornarem antológicas. E conseguem facilmente essa proeza, ou quem viu o filme quando era moleque esquece do épico confronto entre Van Damme e Bolo Young? Além disso, temos o fator Van Damme em dose dupla, que eu, particularmente, considero seu melhor desempenho. Seja no esforço para construir dois personagens opostos, seja nas sequências de ação com seu singular “cinema corpo”, seja usando uma calça legging atochada no rabo fazendo espacate diante de várias garotas… Um clássico.

GARANTIA DE MORTE (Death Warrant, 1990)

bscap0066 (1)Não é nada incomum um action hero badass ter pelo menos um “filme de prisão” no currículo. Sylvester Stallone tem três: CONDENAÇÃO BRUTAL, ROTA DE FUGA (que fez com Schwarzenegger) e se levarmos em consideração, boa parte de TANGO E CASH… Don The Dragon Wilson tem BLOODFIST III: FORCED TO FIGHT; David Bradley fez HARD JUSTICE; Wesley Snipes tem UNDISPUTED, até um Clint Eastwood fez FUGA DE ALCATRAZ e Steve McQueen, PAPILLON. Acho que o Bronson e o Chuck Norris não tem, não sei se vale BRADDOCK 2. Mas não importa, existem tantos outros exemplos… Steven Seagal queria fazer um no início dos anos 90, mas acabou perdendo o papel para um baixinho belga que estava entrando no auge como astro de filmes de ação. O resultado foi GARANTIA DE MORTE, de Deran Sarafian, estrelado por Jean-Claude Van Damme.

O filme foi o primeiro script escrito por David S. Goyer, hoje um dos principais roteiristas dessas produções da DC Comics. Na época, ainda estudante da USC. A trama começa com o detetive Louis Burke (Van Damme), da Royal Canadian Mounted Police (sempre havia alguma coisa para explicar o sotaque de JCVD nesses primeiros filmes, coisas do tipo “depois de você ter morado com a mãe na Europa“, sabe?) que está em L.A. no rastro de um notório serial killer conhecido como The Sandman (Patrick Kilpatrick), responsável também pela morte do parceiro de Burke. Então trata-se inclusive de um caso pessoal de vingança.

Logo na cena inicial, Burke está espreitando ao lado de um prédio abandonado onde supostamente está The Sandman, quando três meliantes começam a incomodá-lo. Rapidamente, arrebenta com eles soltando seus chutes altos, apresentando ao público o que o sujeito é capaz. Simples e prático. GARANTIA DE MORTE é mais um exemplar com o selo JCVD!

Burke entra no prédio. Quando menos espera, The Sandman lhe faz um ataque surpresa. O detetive consegue atirar nele uma vez. “Você não pode me matar – eu sou o Sandman“, diz o serial killer. Burke, que não está para brincadeiras, enche o vilão de chumbo grosso, que cai sem vida. Em seguida, corta para dezesseis meses depois. O protagonista volta a L.A. para se encontrar com o procurador-geral Tom Vogler (George Dickerson), que é encarregado de uma operação especial para investigar uma série de mortes misteriosas que ocorreram dentro da Prisão Estadual.

A ideia é meter Burke lá dentro, disfarçado. “Você é do Quebec, então ninguém vai te reconhecer“, é o que dizem a ele. Então JCVD ​​vai para a prisão.

Mal chega no local, Burke encontra todos os tipos habituais de esteriótipos de filmes de prisão; guardas sádicos, o velho prisioneiro mais sabido, Hawkins (Robert Guillaume); o médico da prisão; seu parceiro de cela, que tenta se impor para conseguir uma chupada, mas Burke deixa claro, de forma brusca, que não é do tipo, e os dois acabam ficando amigos; e, claro, aquele personagem que sempre consegue fazer qualquer coisa de dentro da prisão, conhecido aqui como Padre (Abdul Sazaam El Razzac), que vive numa espécie de porão da prisão, local esfumaçado de maconha e cheio de travecos. “Até os guardas não descem aqui“, diz alguém.

Logo, Burke começa a investigar, procurando pistas para descobrir por que alguns presos acabaram comendo capim pela raiz. Aos poucos, os mistérios vão sendo revelados, Burke percebe que todas as vítimas possuem detalhes em comum em suas fichas médicas. Finalmente, o sujeito descobre que os corpos dos prisioneiros falecidos estão sendo usados para recolher órgãos para serem vendidos no mercado negro.

Infelizmente para o nosso herói, e para a surpresa de todos, The Sandman está vivíssimo e é transferido para a prisão (e parece muito bem pra quem teve o corpo cravado de balas) e imediatamente expõe a identidade de Van Damme ao resto dos prisioneiros, o que não o torna exatamente a pessoa mais popular no local. Tudo isso leva a um impressionante final, quando The Sandman liberta TODOS os prisioneiros de suas celas, que perseguem o nosso herói pelos corredores da prisão, num verdadeiro pandemônio, sedentos por sangue de policial! Com a ajuda de Hawkins e do Padre, Burke consegue chegar à área das caldeiras da prisão, onde reencontra The Sandman e tem início a uma batalha final épica entre Van Damme e Patrick Kilpatrik.

O diretor de GARANTIA DE MORTE é Deran Sarafian, filho do grande Richard C. Sarafian, diretor de clássicos como VANISHING POINT. E o sujeito parece ter herdado o talento do pai. Filma bem pra cacete! É um nome do cinema de ação a ser descoberto. O cara trabalha com maestria uma steadicam que faz o filme se mover com muita fluidez. E isso também ajuda nas cenas de luta. Não que as coreografias sejam espetaculares ou tão elaboradas, mas o cara sabe onde colocar a câmera para realmente mostrar o que diabos está acontecendo nas sequências de ação. É uma das coisas que sinto falta dos anos 90, uma ação de claro senso de coreografia e geografia.

Um bom exemplo disso em GARANTIA DE MORTE é o grande encontro entre Van Damme e o eterno capanga dos filmes de ação americanos dos anos 90: Al Leong. Primeiro, há uma cena em que Burke ajuda Hawkins quando um membro de uma gangue latina o aborrece. Nada que um pontapé na cara bem colocado não resolvesse. E este ato nos leva a um dos encontros mais badasses do cinema testosterona. Ao limpar a lavanderia, sozinho e à noite, seja lá por qual motivo, Burke é abordado pelo tal latino que havia chutado a cara, acompanhado de um amigo. E entra em cena Al Leong. É uma luta rápida, mas divertida de se ver, com Leong usando uma corrente e Van Damme desferindo seus golpes com muita habilidade e finalizando ao colocar a cabeça do sujeito em uma máquina de lavar roupa. Esta foi, infelizmente, a única vez que Van Damme teve uma cena de luta com Al Leong.

Em termos de atuação, Van Damme dá o seu melhor dentro dos seus limites, mas é carismático e está realmente em forma paras as cenas de luta por aqui. O sujeito convence em passar a angústia que o personagem atravessa em aceitar uma missão de alto risco, especialmente nas sequências em que o Burke vai parar na solitária (outro clichê básico de filmes de prisão), embora em nenhum momento GARANTIA DE MORTE procure filosofar em cima dos atos de seu personagem. Tudo é muito direto sem preocupações morais. É matar ou morrer, olho por olho, dente por dente e foda-se. Cynthia Gibb, que vive a advogada que atua disfarçada como a esposa de Burke, para trocarem as informações que ele conseguir, também merece destaque, tem um papel bastante ativo na história. Burke e ela, a princípio, não parecem se dar bem, mas vocês já devem imaginar o que vai acontecer… Como na cena da suposta visita íntima que acaba ficando REALMENTE íntima!

Mas o grande ladrão de cenas é Patrick Kilpatrick. O sujeito tem interpretado principalmente vilões em toda a sua carreira (seu rosto contribui muito pra isso), em filmes como A FORÇA EM ALERTA 2 e QUEIMA DE ARQUIVO e está simplesmente devastador como The Sandman, provavelmente o melhor personagem que já fez na vida. As sobrancelhas de Kilpatrick foram descoradas dando-lhe um olhar realmente assustador e inquietante. É um desses vilões que dá gosto de ver em cena, apesar de não aparecer tanto por aqui. Uma das coisas que mais gosto em GARANTIA DE MORTE é a misteriosa lógica sobre a indestrutibilidade do personagem. Sério! Depois de sobreviver aos tiros no inicio do filme, o cara é chutado para dentro de uma fornalha na luta final, para logo em seguida, envolto das chamas, continuar lutando. Mas ei, é um filme do Van Damme. Quem se importa com a lógica?

GARANTIA DE MORTE seria mais um belo exemplar da gloriosa Cannon Films, com o título DUSTED, mas durante a produção, a Cannon finalmente entrou em falência e a MGM acabou assumindo grande parte das suas produções. DUSTED foi renomeado DEATH WARRANT e lançado nos cinemas no início do estrelato de Van Damme. E com ótimos resultados de bilheteria! Filme de ação/prisão movimentado, tenso, de apenas 89 minutos, bem filmado e com uma história realmente envolvente (embora previsível), com alguns personagens divertidos e todos os clichês de filme de prisão dos anos 90… É, o resultado não poderia ser diferente.

Ah, e só pra constar, Steven Seagal conseguiu fazer seu filme de prisão alguns anos depois, já na sua fase direct to video, com NO CORREDOR DA MORTE, de 2002… Mas é assunto para algum post futuro.

LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI (1990)

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LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI talvez mereça ser observado com mais atenção. Não que seja maltratado ou coisa do tipo, os fãs de filmes de luta até gostam, mas poucos veem algo a mais. E quem estou tentando enganar? Provável que nem exista esse “algo a mais”. É simples, direto, filme da mais pura essência narrativa voltada para a pancadaria como eram tantos outros que alegravam a infância dos moleques nos anos 90. Ou seja, funciona perfeitamente como aquilo que se propõe a ser, um veículo para Jean-Claude Van Damme demonstrar seus talentos em artes marciais e contar uma história que lhe proporcione isso. E só. No entanto, revendo essa semana, percebi umas nuances subjetivas por trás de toda a simplicidade narrativa que colocaria LEÃO BRANCO como o filme mais definitivo dessa fase inicial pós-estrelato da carreira de JCVD.

É o filme que sintetiza a obra de Van Damme: a linguagem do físico, do corpo como instrumento de dramaturgia, dos excessos, dos desacertos, da superfície, da maneira mais intensa que qualquer outro filme estrelado por ele até então. Principalmente em como se entrega a este personagem específico, Lyon, o legionário desertor, que foge para os Estados Unidos após receber a notícia que seu irmão está à beira da morte. Entrega-se mais até do que ao interpretar Frank Dux em O GRANDE DRAGÃO BRANCO, ou quando viveu Kurt Sloane em KICKBOXER, pra ficar em dois dos seus filmes de maior sucesso no período. Há uma expressão facial que Van Damme carrega todo o filme, um olhar que o desconstrói como típico herói dos “kickboxer movies”, um olhar insuportavelmente triste, vulnerável, um olhar de pedra no qual só vejo paralelo em um Buster Keaton.

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É a partir daqui que Van Damme prova estar preparado para encarar o peso de ser o astro de ação que fora nos anos 90. É como se depois de ter atingido o estrelato com seus primeiros filmes, o sujeito quisesse confirmar seu propósito como ator e realizar alguns trabalhos mais pessoais e intimistas – ainda que totalmente subjugados ao gênero, mas que também faz parte das suas idiossincrasias – antes de finalmente alçar vôos maiores. LEÃO BRANCO é o resultado dessa prova, um filme menor, mas que lá no fundo sintetiza toda uma carreira que estava por vir e reafirma o fenômeno Jean-Claude Van Damme dos anos 90.

Mas vamos à trama, que também nos interessa. A história começa em Los Angeles, com François, um sujeito que é incendiado durante uma negociação de tráfico de drogas. Ele sobrevive, mas tem o corpo todo queimado e grita por seu irmão, Lyon! Mas Lyon está no norte da África fazendo trabalhos forçados para a Legião Estrangeira Francesa. Quando recebe a notícia sobre o estado de seu irmão, conversa com seus superiores para pedir uma licença ou algo parecido para poder visitar o ente querido. Mas seus superiores são filhos da puta o bastante para não deixar. O jeito é escapar, arrumar um barco e ir para os EUA.

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Chegando em Nova York às duras penas, sem um puto no bolso, percebe uma movimentação estranha debaixo de um viaduto. Descobre um pequeno negócio de luta clandestina rolando solto em plena luz do dia e vê a oportunidade de, à base da pancada, descolar uma grana. Lyon não perdoa, quebra a cara do seu oponente e ainda ganha um autoproclamado agente de lutas, Joshua (Harrison Page), que promete levá-lo para L.A. Acaba, no entanto, se envolvendo num universo de lutas clandestinas bem maior, onde rola muita grana e diverte milionários entediados com lutas de boxe convencionais, buscando uma emoção a mais. Uma das responsáveis pelo circuito é Cynthia, interpretada por Deborah Rennard (GUERREIROS DO APOCALIPSE), que além de perceber potencial em Lyon, faz de tudo para usar o corpo do sujeito para outras coisas… Vale destacar também a presença do grande Brian Thompson (COBRA) como braço-direito de Cynthia.

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Ao desembarcar em L.A, Lyon descobre que seu irmão já bateu as botas e agora tem de lidar com a viúva, Nicole (Ashley Johnson), que o culpa por tê-lo abandonado. Então decide fazer a única coisa que sabe, entrar de vez no círcuito de lutas clandestinas e ganhar dinheiro suficiente para ajudar o que resta de sua família. Ao mesmo tempo, possui dois legionários lhe vigiando, tentando prendê-lo e levá-lo de volta para ser julgado por deserção – uma situação parecida com a de Frank Dux, personagem que JCVD viveu em O GRANDE DRAGÃO BRANCO, que vai participar do Kumite em Hong Kong e dois agente do governo ficam na sua cola para levá-lo de volta. Uma curiosidade aqui é que um dos dois legionários é vivido por Michel Qissi, que é ninguém menos que o Tong Po, de KICKBOXER.

Um detalhe que gosto bastante em LEÃO BRANCO é que Lyon nunca segue a trilha da vingança atrás dos responsáveis pela morte de seu irmão. O médico diz que provavelmente o assassino já foi capturado, nunca se sabe… Mas isso basta. O filme simplesmente deixa isso de lado e o protagonista apenas se concentra em tentar compensar sua ausência e obter dinheiro para ajudar sua cunhada e a adorável sobrinha. E o faz sujando as mãos de sangue, sem que isso desperte qualquer reflexão ética sobre seus atos, não há momento para julgamentos num filme desses. É um filme de porrada, caralho, vence quem fica em pé, não importa o que aconteça! Menos ética e mais honra era a palavra de ordem dos filmes de luta dos anos noventa, algo que o politicamente correto nos fez o favor de exterminar no cinema atual, com raríssimas exceções. E que LEÃO BRANCO segue à risca.

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Mas falando em porrada, um dos principais atrativos de LEÃO BRANCO é a diversificação das cenas de luta. São vários momentos em que Lyon arregaça as mangas e arrebenta seus adversários sem que, no entanto, o filme soe repetitivo, sempre inovando em oponentes e ambientes. Cada confronto, uma narrativa, cada rival, uma personalidade diferenciada – um escocês, de kilt e tudo; um cabeludo meio capoeirista; o desafiante final, Attilla, um brutamontes que sai de uma limousine de terno preto e um gatinho branco no colo… Os cenários também se renovam em cada luta: uma garagem iluminada com os faróis de carros à uma quadra de squash ou uma piscina com água em um dos lados…

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O diretor de LEÃO BRANCO é Sheldon Lettich, co-roteirista da KICKBOXER, e faz aqui um trabalho muito seguro, mas com certa personalidade. Manda bem nas cenas de luta, coloca a câmera no lugar certo, mas em alguns momentos chega a impressionar. Há um plano, por exemplo, de Nicole e sua filha saindo do apartamento e caminhando pela rua enquanto a câmera as segue numa grua bem lenta mostrando a rua e o bairro. Não parece que o plano tenha qualquer outro propósito que isso… No entanto, de repente, a câmera chega no apartamento do outro lado da rua e, no primeiro plano, mostra um dos legionários pra fora da janela as espionando. Uma cena simples, mas filmada com a mesma elaboração que veríamos num filme de um Brian De Palma… O tipo de coisa que não se espera ver num filme do Van Damme do período.

Mas isso é o de menos. O que realmente impressiona mesmo em LEÃO BRANCO é a sua veia definidora, a presença física e grande atuação de Van Damme, numa entrega que há muito não se vê nesse tipo de filme. Vale destacar que o filme é o primeiro roteiro escrito pelo próprio JCVD (juntamente com Lettich) que é levado às telas. O que intensifica ainda mais essa ideia de entrega tão pessoal que senti nessa revisão. Ok, LEÃO BRANCO certamente não vai mudar a vida de ninguém, nem quero dizer que seja uma obra-prima a ser redescoberta. Continua sendo o filme escapista de pancadaria que se espera. Muita pancadaria, aliás. E é bem provável que eu prefira outros filmes citados aqui neste texto, além de CYBORG, outro exemplar que veio antes, e que talvez seja o meu favorito do homem. Mas deem um pouco mais de atenção ao desempenho do belga quando forem ver ou rever LEÃO BRANCO. Garanto que vão se surpreender.

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KICKBOXER – O DESAFIO DO DRAGÃO (1989)

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KICKBOXER – O DESAFIO DO DRAGÃO forma uma espécie de trilogia do “Dragão” com outros filmes que Jean-Claude Van Damme estrelou em sequência no fim dos anos 80, no seu período de ascensão. Pelo menos aqui no Brasil podemos chamar de “trilogia”, já que BLOODSPORT recebeu o título nacional de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e CYBORG tem o subtítulo O DRAGÃO DO FUTURO.

Claro, uma picaretagem dos nossos distribuidores para associar os filmes de JCVD de alguma forma diante do público. No trabalho seguinte do belga, resolveram dar uma variada e mudaram o animal: LIONHEART ficou LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI (1990), que em breve eu comento por aqui. Por enquanto, ficamos com KICKBOXER. É hora de enfaixar as mãos, molhar com resina, afundar em cacos de vidro e voilá, tudo pronto para mais uma sessão nostálgica com um dos nossos action heroes favoritos.

BIGODE E MULLETS. AH, OS BONS ANOS 80!

Dirigido pela dupla Mark DiSalle (produtor de O GRANDE DRAGÃO BRANCO) e David Worth (LADY DRAGON), a partir de uma história do próprio Van damme (que ficou responsável aqui pela direção das cenas de luta e provavelmente da famigerada sequência da dancinha), KICKBOXER é centrado em Kurt Sloan (Van Damme), um aspirante a lutador e companheiro do seu irmão mais velho, que por um acaso é o campeão mundial americano de Kickboxing, Eric “The Terminator” Sloan (Dennis Alexio, que realmente era campeão de kickboxing), cujos mullets e o bigodinho de trocador demonstram claramente que estamos num bom e velho filme da década de oitenta.

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LIÇÃO DE KICKBOXER: NÃO SEJA UM BABACA ARROGANTE

Procurando por novos desafios, Kurt e Eric viajam para a Tailândia, onde estão os melhores lutadores do mundo. Eric desafia o campeão local, Tong Po (Michel Qissi), para um combate. Na cabeça de Eric, arrogante pra cacete, ele pensa que será moleza chegar no país, diante de uma cultura alheia, e vencer o campão tailandês com a mesma facilidade que seus oponentes habituais. Mas os problemas começam a poucos instantes do início da luta, quando Kurt busca gelo para o irmão e acaba vendo pela primeira vez o temido adversário.

Tong Po surge em cena de costas, balançando sua longa trança na cabeça careca. E praticando seu aquecimento antes de ir para luta. O que consiste em chutar o pilar do seu aposento e ver o pó cair do teto ao chão. Desculpem meu francês, mas não precisa ser um gênio para perceber antes mesmo da luta que Eric Sloane está literalmente fodido.

O estilo de luta comum da Tailândia é o Muay Thai. Ou seja, usa-se cotovelos e joelhos. Bem diferente do kickboxing que The Eliminator está acostumado. Mas Eric, orgulhoso e confiante, não acha que tem que se importar com esses pequenos detalhes, por mais que Kurt lhe suplique para que a luta seja cancelada. E, obviamente, o inevitável acontece. Eric é estraçalhado por Tong Po de todas as formas possíveis, com direito a uma cotovelada na coluna vertebral que deixa o campeão americano paralisado o resto da vida da cintura para baixo.

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O ingênuo Kurt, obviamente, fica chateado com a situação. Até porque os funcionários do ginásio não lhe dão exatamente um tratamento VIP. Os caras pegam Eric, levam-no para fora em uma maca, colocam-no na rua e trancam o portão do recinto. E pronto. Felizmente, num momento de fúria ainda em cima do ringue, Tong Po desfere um chute Em Kurt, que cai, literalmente, no colo de um americano, ex-forças especiais, chamado Winston Taylor (Haskell V. Anderson III) que estava assistindo aos combates. Um jeito estranho de começar uma amizade, mas Winston acaba levando Eric e Kurt para um hospital.

“… E QUE A MÃE DELES FAZEM SEXO COM MULAS”

O resto do filme é o básico. Desejando vingança, Kurt procura treinamento para poder enfrentar Tong Po como forma de honrar seu irmão. Winston lhe apresenta Xian (Dennis Chan), um treinador localmente famoso, mas há muito tempo recluso. Relutante no início, Xian percebe algo em Kurt e concorda em treiná-lo. E tome montagens de treinamentos dos mais bizarros ao som de músicas oitentistas e inspiradoras. Kurt tem as pernas esticadas à força, pratica movimentos de artes marciais sob a água, quase quebra a perna chutando uma árvore até cair duro no chão, corre de um cão com carne presa à coxa, treina nas ruínas de antigas civilizações orientais, entre outras coisas…

Mas nada nos prepara para a melhor sequencia de KICKBOXER. O melhor teste é de longe quando Xian leva Kurt a um bar, deixa-o totalmente bêbado e o manda para dançar na jukebox com algumas senhoritas. O que leva a um bando de locais a atacá-lo. A sequência de luta é boa, mas o que torna todo este momento lendário é o gingado entusiástico de Van Damme, com um sorriso maroto, rebolando e descendo até o chão. Ui!

Mais tarde, Xian comenta o que fez os sujeitos mal encarados do bar ficarem tão nervosos, numa das frases mais brilhantes de KICKBOXER: “Eu contei que você disse que eles não eram bons lutadores… E que a mães deles fazem sexo com mulas“. Mas se fosse pra ficar ofendido apenas pela dancinha do Van Damme, eu acho que também faria todo sentido.

TONG PO E A MÁFIA TAILANDESA

Como se não bastasse apenas um vilão, que é cão chupando manga na luta, em meio a todo o treinamento de Kurt tomamos conhecimento de que há também um mafioso por trás de Tong Po. Freddy Li (Steve Lee) comanda uma organização criminosa que toca o terror nos pequenos comerciantes. E ainda apimenta mais a situação de Kurt em sua jornada de vingança. Em determinado momento, por exemplo, ele sequestra Eric para chantagear Kurt e garantir que o americano perca o combate. A coisa fica mais pesada ainda quando seus capangas chegam ao ponto de prender a namoradinha de Kurt, sobrinha de Xian, para que seja estuprada por Tong Po. Tudo para desestabilizar o nosso herói. Esses caras não têm escrúpulo algum…

E Tong Po, como podem ver, não é apenas um adversário a ser batido em cima do ringue. O sujeito é o mal personificado e tem esse background ligado à máfia. Além de ser um estuprador filho da puta. Po não tem tanto tempo em cena para apresentar realmente uma personalidade. Da mesma maneira que Chong Li em O GRANDE DRAGÃO BRANCO. É apenas o típico vilão retratado como um monstro, uma unidimensionalidade que se encaixa perfeitamente ao tipo de filme que temos aqui.

Curioso que nos créditos iniciais, Tong Po seria interpretado por “ele mesmo.” Como se Tong Po realmente existisse. Seria algum famoso lutador que não se importa de ser retratado dessa maneira? Era o que eu pensava quando assistia ao filme na minha infância. Bem, por mais tentador que seja essa ideia, a verdade é que o sujeito é interpretado por Michel Qissi, um lutador profissional, amigo de infância de Van Damme. Foi o seu treinador pessoal para O GRANDE DRAGÃO BRANCO (além de ter uma pequena participação no filme, é ele que tem a perna quebrada por Chong Li). Em KICKBOXER, colocaram uma maquiagem no homem para parecer asiático, a célebre trancinha, e já está. Um dos mais icônicos vilões da galeria que Van Damme encarou em sua carreira.

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VAN DAMME E UM CLIMAX À MODA ANTIGA

Como é habitual nesses filmes de início de carreira, Van Damme é um bocado rígido no seu desempenho. Mas até que tenta, dentro de seus limites, explorar seu “talento” dramático. Ele consegue convencer, por exemplo, na situação de desespero quando seu irmão se machuca. Ou passa tristeza no momento em que recebe a notícia de que Eric nunca voltaria a andar. Claro, o sujeito nunca foi um Orson Welles, não dá pra exigir uma atuação shakespereana do belga. Ademais, Van Damme preenche os requisitos que o tornaram num dos grandes astros do cinema de ação do período. É hábil lutador, tem presença em cena e, principalmente, muito carisma.

É evidente que vamos perceber melhor a arte de Van Damme nas sequências de pancadaria. É quando o sujeito fica mais à vontade. Em KICKBOXER essa lógica chega ao seu limite no combate final entre Kurt e Tong Po. Por mais que eu tenha ressalvas quanto a luta em si, é impossível não encher os olhos ou estampar um sorriso na cara se você for um autêntico fã desse tipo de material. Temos Van Damme e Qissi explorando ao máximo do que chamamos de “cinema físico”, há uma excelente ambientação – a luta foi planejada nos “moldes antigos”, nos subterrâneos, iluminado por tochas – e há ainda o memorável detalhe das mãos enfaixadas, mergulhadas em resina e, em seguida, coberta de cacos de vidro. Mas que de certa forma não parece causar tanto dano quanto parece.

As ressalvas vão para a própria construção e encenação da luta. Pelo menos enquanto Eric se encontra refém dos capangas de Freddy Li e Van Damme é obrigado a perder a luta, a coisa toda ainda funciona e prende a atenção. Tong po é brutal e não dá moleza, mesmo fazendo diversos joguinhos para agradar o público presente na arena. Obviamente ele sabe que vai ganhar de qualquer jeito. O problema é a partir do momento que Kurt nota que seu irmão está a salvo e percebe que pode atacar de verdade. Tong Po, de repente, se torna mais fácil de bater que bêbado em fim de festa. O tailandês não demonstra a mínima resistência e todo golpe de Kurt entra fácil. A partir daí é só pose. É só Van Damme enrijecendo os músculos pra ficar bem nos enquadramentos. E em termos de qualidade de luta, coreografia, até mesmo edição, a coisa desanda…

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Se na execução do confronto entre Kurt e Po, deixaram a desejar, ao menos os diretores foram inteligentes o suficiente para incluir no meio da sequência de luta uma outra cena mais agitada na qual alguns coadjuvantes têm a oportunidade de botar para quebrar. Xian e Taylor aproveitam o evento e resgatam Eric dos seus sequestradores, com direito a tiros e explosões ao melhor estilo anos 80. E Eric até ajuda da maneira que pode, desferindo alguns golpes mesmo preso em uma cadeira de rodas. Portanto, no fim das contas, o resultado final do climax é positivo. Tem seus problemas, mas é divertido de se ver.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tirando pequenos detalhes, KICKBOXER é um grande filme, feito na medida certa para quem curte o gênero. É honesto, não tem receio de parecer ridículo e tem Van Damme esbanjando carisma. Se você gosta de uma história inspiradora, montagens de treinamento e cenas de luta legais, tá na hora de (re)ver KICKBOXER. Vale lembrar ainda que o filme teve quatro continuações nos anos 90. Nenhuma delas com Van Damme. Mas duas dirigidas por Albert Pyun, que é o responsável por CYBORG, um dos meus trabalhos favoritos de JCVD. Recentemente tivemos uma espécie de refilmagem, KICKBOXER: VENGEANCE. Van Damme reaparece como coadjuvante de luxo, interpretando o mestre que treina um jovem lutador. E os caras parecem incansáveis. Já preparam mais duas continuações deste último. KICKBOXER RETALIATION sai ainda este ano, e KICKBOXER: ARMAGEDDON tem previsão para 2018. Haja chute na cara!

CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO (1989) & SLINGER (2011)

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CYBORG vs SLINGER – Dois filmes em um

CYBORG – O DRAGÃO DO FUTURO foi um dos principais filmes de ação que me fez apaixonar incondicionalmente pelo gênero. Trata-se de mais uma variação do subgênero “pós-apocalíptico”, tão comuns nos anos 80 e 90, filmes em que vislumbramos o futuro da pior maneira possível, com suas grandes cidades destruídas por alguma catástrofe natural ou não, geralmente com um punhado de pessoas que já perderam a noção de humanidade tentando sobreviver ao caos, enfrentando as piores desgraças, agindo com violência, imoralidade e sem esperanças de uma vida melhor. No futuro de CYBORG, a “peste” devastou com a população mundial e a esperança do que resta da humanidade é a segurança de uma cyborg detentora da cura. Na trama, esta cyborg precisa chegar a Atlanta, único local com estrutura para trabalhar com o material que provavelmente vai restaurar a ordem no mundo.

Mas existem grupos anarquistas que preferem deixar tudo como está. É o caso da gangue do maquiavélico Fender, que faz de tudo para impedir que a moça de lata chegue ao seu destino. Aí é que entra o nosso herói, Gibson (sim, os nomes dos personagens são marcas de guitarras), na pele do belga Jean Claude Van Damme, um mercenário que se propõe a ajudar a indefesa cyborg, embora seja motivado por um instinto vingativo, rixa do passado entre ele e Fender, o qual é muito bem explorado nos flashbacks do protagonista.

Dirigido por um dos grandes mestres dos B movies, Albert Pyun nunca escondeu sua predileção pelo universo pós apocalíptico e cyber punk. No seu currículo podemos conferir umas maravilhas como NEMESIS, RADIOACTIVE DREAMS, KNIGHTS, VICIOUS LIPS e muitos outros… Portanto, deve ter adorado trabalhar com todos esses elementos neste que é considerado por muitos admiradores o seu melhor filme. Ou não… As histórias dos bastidores de CYBORG é tão insana quanto o próprio filme visto na tela. Pyun fora contradado pela Cannon Films em meados dos anos 80 para dirigir uma continuação de MESTRES DO UNIVERSO e um live-action do HOMEM ARANHA, que seriam filmados simultaneamente. Mas a produtora estava passando por problemas financeiros e cancelou seus acordos com a Mattel e Marvel, proprietárias dos direitos de He-Man e Homem-Aranha respectivamente, apesar de já terem gasto cerca de dois milhões de dólares com sets e figurinos.

Pyun teve a ideia de partir para algo novo, um filme totalmente diferente, se virando com o que tinham disponível, além de um orçamento de menos de quinhentos mil dólares, contando com o salário do astro Van Damme. O realizador escreveu o roteiro em uma semana e logo em seguida partiria para uma das filmagens mais caóticas de sua carreira. Em mais três semanas, o filme estava na lata, filmado, prontinho. A pós-produção também não se mostrou uma experiência confortável. Pyun se mostrava disposto a realizar um filme de gênero mais experimental, sombrio, violento e operático, homenageando aos filmes de samurai e faroestes que ele cresceu assistindo. Essa proposta não era vista com bons olhos pela Cannon e Van Damme, claro. Apesar dos pesares, o resultado é uma obra singular e visionária dentro do possível, limitada pelo baixo orçamento da produção. CYBORG, a versão de cinema, é um dos melhores filmes do diretor e um atestado do quanto pode ser prazeroso assistir a uma fita de orçamento restrito feito com paixão e criatividade. Uma curiosidade é que o filme chegou a ser promovido na TV americana carregando o nome MASTERS OF UNIVERSE 2: CYBORG!

CYBORG é bem curto, não chega a uma hora e meia, mas dispões de ação constante e muita atmosfera, um clima pós-apocaliptico desolador que não fica muito longe dos melhores filmes do subgênero, como MAD MAX 2. Difícil esquecer algumas cenas antológicas – Van Damme nos túneis dos esgotos, em espacate, esperando seu oponente passar debaixo para dar o bote é genial. Aliás, toda a sequência que antecede a crucificação do protagonista e a maneira em que o personagem se livra da cruz com toda a fúria sempre me marcou bastante. Hoje ainda reserva grande força para quem embarca na trama e neste tipo de diversão.

Além de Van Damme (cujo sotaque na época ainda era um problema para Pyun), que se sai muito bem em cena, vale destacar o desempenho do grande Vincent Klyn, o vilão Fender, que possui uma puta presença ameaçadora e poderia muito bem ter sido melhor aproveitado no cinema. A descoberta de Klyn é curiosa. Quando Pyun estava trabalhando no casting para a continuação de MESTRES DO UNIVERSO, o diretor foi ao Havaí procurar um ator que substituísse o Dolph Lundgren no papel de He-Man e acabou encontrando, no meio de vários surfistas, Vincent Klyn. Pyun se impressionou tanto com aquela figura, que quando os projetos se transformaram em CYBORG, Pyun exigiu que Klyn fosse o vilão do filme… Daquelas escolhas simplesmente perfeitas. Pra mim Fender é uma das mais insanas, impiedosas e assustadoras representações do mal no cinema de ação de todos os tempos!

Eu posso estar sendo um nostálgico exagerado, mas CYBORG é um grande filme. Ótimo veículo de ação para o Van Damme, de quem eu nutro uma enorme admiração desde pequeno, muito bem dirigido pelo Pyun, ótimos cenários, atmosfera, efeitos especiais old school que chutam a bunda de qualquer CGI atual, trilha sonora marcante, etc e tal, mesmo sabendo que para a nova geração tudo isso não passa de uma tranqueira sem qualquer interesse… Uma pena.

Passados pouco mais de vinte anos do lançamento de CYBORG, eis que Pyun aparece com SLINGER, a SUA versão de CYBORG! Explico: Apesar de ser um dos títulos mais lembrados de sua filmografia, Pyun sempre fez questão de deixar claro que a versão de CYBORG lançada nos cinemas em 1989 pela Cannon não era o filme que gostaria de ter lançado. O problema é que o grande nome do filme, Van Damme, odiou o corte de Pyun, o que fez o diretor sair do projeto e Sheldon Lettich (roteirista de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e diretor de DUPLO IMPACTO) entrar para trabalhar numa nova edição do filme, que se tornaria a versão de cinema. Mas e SLINGER? Bom, num belo dia qualquer lá por volta de 2010, o compositor e parceiro de Pyun, Tony Riparetti, estava limpando seu depósito e encontrou duas VHS com o último corte de Pyun antes de Van Damme e Lettich tomarem conta da produção!

Um detalhe importante é que o termo “director’s cut” não possui a mesma definição da qual estamos acostumados. Não é o trabalho de alguém que resolveu remontar o filme, nem pretende o relançamento comercial para substituir o “original”. SLINGER é uma versão de CYBORG praticamente em estado bruto, percebe-se até uma falta de acabamento em algumas cenas, formatos de tela diferentes, além da imagem ruim, de VHS, sendo destinada somente para os verdadeiros fãs do filme e de seu diretor.

SLINGER é a denominação utilizada para os personagens errantes do universo do filme, como é o caso de Gibson Rickenbacker, vivido pelo Van Damme. Nesta versão, não existe praga alguma devastando a população. Gibson persegue o vilão Fender (Vincent Klyn) por vingança, pura e simples, e nem se preocupa tanto com a tal cyborg sequestrada. Quanto a esta, a sua função no filme é carregar dados que vão ajudar a reestabelecer as redes elétricas deste futuro pós apocalíptico. Ao menos é o que ela diz, mas descobrimos no fim que ela e seus responsáveis possuem segundas intenções não muito amigáveis para o que resta da humanidade, dando ao filme um tom mais depressivo que já tinha.

Fender, na brilhante presença de Vincent Klyn, não muda muito. É a personificação do mal em todos os sentidos em ambas as versões, mas ganha um tom meio religioso aqui, como um enviado do diabo para trazer o caos, reforçado por uma narração em off que não havia na outra versão. Aliás, a director’s cut ganha uma narração que permeia quase todo o filme e as palavras de Gibson dão ao personagem um interessante viés de samurai, algo que Pyun sempre declarou ter buscado para o sujeito.

A trilha sonora é um dos elementos que mais se diferencia do original. Eu gosto bastante da trilha de Kevin Bassinson, com destaque para as melodias suaves e melancólicas das cenas de flashback. Mas a que temos aqui, composta por Tony Ripparetti, parceiro de Pyun até hoje, se encaixa perfeitamente à narrativa, não apenas acompanhando as imagens, mas realmente dá ritmo e eleva a obra num patamar mais operístico, que era a ideia inicial de Pyun.

Não há nada em SLINGER que eu não tenha gostado, mas existem alguns detalhes dos quais eu prefiro na versão anterior. As cenas de flashback na director’s cut são objetivas e surgem antes cronologicamente em relação à versão para cinema. Por exemplo, quando chega a grande sequência da crucificação de Gibson em SLINGER, já sabemos de toda a história entre ele e Fender. A própria cena da crucificação ficou mais curta, embora não menos brutal. Em CYBORG, a conclusão dos flashbacks vinha no momento em que Gibson estava pregado na cruz, prolongando ainda mais a cena, deixando-a com uma carga dramática muito maior. Outra grande diferença é na luta final entre Fender e Gibson. Ambas são excelentes, na minha opinião. Mas a desta aqui, apesar de possuir uma idéia mais visceral, sua execução fica um pouco a desejar, poupa o espectador de mostrar a morte horrível de Fender, deixando as coisas na imaginação, provavelmente pelo baixo orçamento, mas o fato é que entre as duas, prefiro a original, que é mais longa e mostra tudo o que tem que mostrar.

De uma forma geral, acho que esta director’s cut se encaixa mais ao estilo de Albert Pyun naquele período. É mais sombrio e dá ênfase às suas peculiaridades estéticas e influências (Sergio Leone e os filmes de samurai). Já a edição dos produtores deu a CYBORG um aspecto de filme de ação de baixo orçamento que tinha tudo pra ser um tradicional exemplar do período, mas acabou com o olhar peculiar e criativo de um realizador cheio de personalidade. Não é a toa que, de alguma forma, foi um dos filmes que mais me encantou durante a infância, justamente pelos vestígios deixados por Albert Pyun na versão para cinema.

E pra ser totalmente franco com vocês, essa director’s cut não possui modificações gritantes em relação ao “original”, está bem longe de ser “outro filme”. E o grande lance é que o material bruto das filmagens de CYBORG, totalmente realizado por Pyun, é muito bom e é o que realmente faz toda a diferença! Todas as grandes cenas antológicas que transformaram esta obra num clássico permanecem aqui. Acho que se eu pegasse esse material e editasse a minha versão, seguindo a mesma trama, não tenho dúvidas de que seria capaz de fazer um bom filme! Mas são as mínimas nuances que diferenciam uma versão da outra que demonstram claramente a idéia mais autoral de Albert Pyun. E olha que CYBORG, do jeitinho que era antes, já era o meu filme preferido do diretor… essa versão chega apenas para definir não apenas essa minha opinião, mas para colocar CYBORG entre os meus favoritos do gênero.

Ao fim do filme, há uma menção sobre um futuro projeto que retornaria ao universo de CYBORG em uma nova produção. Talvez uma sequência ou uma pré-continuação… Pyun chegou a anunciar e até trabalhar nessas ideias nos últimos anos, mas nada de concreto foi lançado. Continuamos aguardando.

OBS: Como disse antes, Pyun nunca lançou SLINGER comercialmente. Tive o privilégio de conferir o filme há alguns anos, quando o próprio diretor me enviou uma cópia assinada, da qual me orgulho muito e guardo com carinho na prateleira.

BRUISER (2000)

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BRUISER é um comentário ácido de George A. Romero sobre o processo de degradação social e despersonalização do indivíduo contemporâneo. Numa espécie de fábula macabra, a trama é sobre Henry Creedlow (Jason Flemyng), um homem que é um autêntico bunda-mole, com pouca identidade autêntica; as pessoas o pisoteiam, seu melhor amigo lhe passa a perna, sua mulher lhe abusa e pula cerca com seu chefe escrotaço (vivido por um Peter Stormare em modo insano), e ele calmamente se deixa levar pela insignificância, pela falta de atitude e conformismo. Numa festa na mansão de seu chefe, onde as pessoas estão pintando máscaras que refletem suas personalidades, Henry deixa a sua completamente em branco. Quando acorda no dia seguinte, a máscara se torna literalmente integrante de seu corpo, da sua face (bem à maneira de Kafka). E a partir daí, o sujeito começa a mudar sua postura, se tornando mais agressivo até virar uma máquina de matar, especialmente aqueles que se aproveitavam de sua ingenuidade e inércia, em uma tentativa de reafirmar sua existência. Quanto mais ele mata, mais decora sua máscara com as cores da carne e do sangue.

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A conexão com Kafka é até meio óbvia: a ideia do homem banal sem qualquer tipo de identidade distinta jogado em situações improváveis e absurdas, num processo de reconstrução existencial, mas aqui agregado ao interesse de Romero pelo horror e suspense e sua habilidade para a sátira social. Jason Flemyng, que quase nunca tem oportunidade de brilhar, está ótimo como protagonista, num papel desafiador, cuja presença em grande parte da projeção é usando a tal máscara branca e vazia de expressões. Ainda temos Peter Stormare em modo selvagem, misógino, repugnante; Tom Atkins como policial que investiga a matança desenfreada de Henry; a direção espetacular de Romero, que ainda era mestre em criar sequências recheadas de tensão, atmosfera e assassinatos bem elaborados; e um gran finale arrasador num cenário fabuloso com direito a um show do Misfits.

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Me surpreende o fato de que no período no qual BRUISER fora realizado, Romero já era um dos nomes mais fortes do horror americano, já tinha realizado a trilogia definitiva dos zumbis no cinema, era considerado um mestre do horror, um autêntico auteur, e mesmo assim sofria as duras penas para levar adiante os seus projetos… O último trabalho do homem antes deste aqui havia sido THE DARK HALF, lançado em 1993, adaptação de uma obra de Stephen King, e durante todo esse hiato tivemos este consagrado mestre do horror ralando para conseguir financiamento, sem conseguir filmar um caralho! O jeito foi pegar dinheiro na França e no Canadá e provar para os estúdios americanos que ainda tinha bala na agulha. E o filho da puta consegue, porque BRUISER é extraordinário!

Uma pena, portanto, que o filme nunca tenha encontrado o seu público e na época acabou amargando um lançamento direto no mercado de VHS e DVDs. O que temos aqui é uma ideia totalmente original, ousada e permanece até hoje atual, mas acabou parando no limbo porque não era o filme de zumbis pelo qual os fãs esperavam ansiosamente. O que só aconteceu em 2005, com TERRA DOS MORTOS, que teve boa recepção por parte da crítica e do publico, com todos os méritos, obviamente, mas que, de alguma forma, empurrou BRUISER de vez no obscurantismo… mas para quem for realmente fã do Romero, vale a conferida.

THE VOID (2016)

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Pedi algumas sugestões de filmes da safra mais recente pela página do facebook do blog  que o leitor gostaria de ver por aqui e recebi uma enxurrada de títulos os quais aos poucos vou comentando. Alguns eu até já tinha assistido, como o filme novo do Paul Schrader, FIRST REFORMED, ou o terror indie THE INVITATION, e até mesmo THE VOID, de Jeremy Gillespie, Steven Kostanski, que é o primeiro que vou comentar.

THE VOID foi concebido através de um Kickstarter que conseguiu levantar um orçamento suficiente para a produção de um longa-metragem, cheio de efeitos especiais práticos à moda antiga de dar inveja a qualquer superprodução recheada de CGI e que tem suas influências bem definidas num encontro entre John Carpenter, Clive Baker, Lucio Fulci e H.P. Lovecraft. Na trama, o policial Daniel Carter (Aaron Poole) está quase finalizando seu turno quando vê um homem cambaleando e caindo para fora de uma floresta à beira da estrada. Ele pega o sujeito em sua viatura e dirige-se ao pronto-socorro mais próximo, que é justamente o único setor que ainda opera perfeitamente no hospital depois que um incêndio danificou severamente o prédio.

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Chegando no local, o inferno começa: figuras vestidas de branco, que se assemelham a uma seita, começam a brotar gradativamente em volta do hospital, cada vez mais cercando o local, e dois homens aparecem bastante empenhados em matar o sujeito que Carter ajudou… No entanto, podem acreditar, esses são os menores problemas enfrentados por aqui. O caldo realmente engrossa quando os personagens são forçados a se defender de uma ameaça sobrenatural que assola as profundezas do hospital.

Os diretores Jeremy Gillespie e Steven Kostanski são dois membros do coletivo canadense Astron 6, que realizou algumas obras interessantes que misturam ação/horror/sci-fi com boas doses de humor, sempre homenageando o cinema de gênero cultuado dos anos 70 e 80, como é o caso de FATHER’S DAY, MANBORG e o sensacional THE EDITOR. Em THE VOID eles deixam a faceta humorística de lado e se preocupam em fazer um horror atmosférico realmente aterrador, com boas doses de ação e momentos perturbadores que remetem a filmes como HELLRAISER, de Cliver Barker, e THE BEYOND, de Lucio Fulci.

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A fórmula não é nada original, é um básico “terror de cerco”, com personagens barricados num local fechado, lidando com ameaças internas e externas, sobrenaturais ou não, como nos clássicos de John Carpenter ASSALTO A 13º DISTRITO e PRÍNCIPE DAS TREVAS. Embora narrativamente frágil, da premissa muito vaga e um trabalho superficial com os personagens, THE VOID acaba investindo – e sendo bem melhor sucedido – em propiciar uma experiência de terror puro, um pesadelo filmado, sem se preocupar com o sentido das coisas, mas que compreende com inteligência o que torna o horror de Lovecraft tão inquietante. É um dos melhores filmes que captura a sensação desse estilo específico de horror lovecraftiano desde FROM BEYOND, de Stuart Gordon. THE VOID traz de volta o melhor do horror cósmico.

E eu sei que não é um boa maneira de elogiar um filme, mas uma das melhores coisas de THE VOID é a galeria de posters que o pessoal de marketing do filme desenvolveu. Dá vontade de pendurar tudo na parede. Seguem alguns:

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R.I.P BURT REYNOLDS (1936-2018)

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FILMOGRAFIA SELECIONADA:

NAVAJO JOE (1966), Sergio Corbucci
100 RIFLES (1969), Tom Gries
SHARK! (1969), Sam Fuller
AMARGO PESADELO (Deliverance, 1972), John Boorman
PAIXÃO PELO PERIGO (Shamus, 1973), Buzz Kulik

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AMOR FEITO DE ÓDIO (The Man Who Loved Cat Dancing, 1973), Richard C. Sarafian
CRIME E PAIXÃO (Hustle, 1975), Robert Aldrich
AGARRA-ME SE PUDERES (Smokey and Bandit, 1977), Hal Needhan
LADRÃO POR EXCELÊNCIA (Rough Cut, 1980), Don Siegel (Peter R. Hunt e Robert E. Miller)
CAÇADA EM ATLANTA (Sharky’s Machine, 1981), Burt Reynolds

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CIDADE ARDENTE (City Heat, 1984), Richard Benjamin
STICK (1985), Burt Reynolds
ENCURRALADO EM LAS VEGAS (Heat, 1986), Dick Richards
UM TIRA DE ALUGUEL (Rent-a-Cop, 1987)
MALONE – UM AGENTE IMPLACÁVEL (Malone, 1987), Harley Cokeliss

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DOGMA 95

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Há vinte anos surgiu o movimento DOGMA 95. Alguém ainda se lembra dessa joça? É engraçado que outro dia conversando com alguns amigos e relembrando esse movimento, até hoje percebo que as pessoas cometem equívocos como falar que BREAKING THE WAVES ou DANÇANDO NO ESCURO, ambos do Lars Von Trier, são exemplares do DOGMA. Sinto-lhes informar, mas não são… Acho que ninguém se importa com isso agora passados vinte anos, mas acho que vale uma explicação. O movimento DOGMA 95 surgiu do encontro entre Trier e outro cineasta dinamarquês, Thomas Vinterberg (mais tarde outros diretores dinamarqueses se juntaram como cabeças do movimento), em março de 95, como um manifesto contra os caríssimos enlatados americanos e sua falsidade imagética, celebrando uma linguagem mais pura do cinema, um resgate do cinema sem artifícios, que destacava o valor artístico de produções independentes… No entanto, evidente que se tratava de uma jogada de marketing que buscava dar visibilidade ao cinema independente europeu, especialmente o dinamarquês, na forma de uma provocação.

Marketing ou não, o manifesto consistia num “voto de castidade” formulado em dez regrinhas que precisavam ser cumpridas na realização de um filme. São elas:

  1. As filmagens devem ser feitas em local. Não podem ser usados acessórios ou cenografia;
  2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena;
  3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos – ou a imobilidade – devidos aos movimentos do corpo. O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar;
  4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera);
  5. São proibidos os truques fotográficos e filtros;
  6. O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, etc. não podem ocorrer);
  7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual);
  8. São inaceitáveis os filmes de gênero;
  9. O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. (Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento);
  10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

Em 1998, os filmes começaram a pipocar no Festival de Cannes. Portanto, Vinterberg fez um único filme dentro do movimento, FESTA DE FAMÍLIA, que é o DOGMA #1 e o Lars Von Trier dirigiu seu único exemplar sob o crivo relativo das regrinhas, OS IDIOTAS, que é o DOGMA #2. Por favor, não me venham me falar que DANÇANDO NO ESCURO ou DOGVILLE fazem parte do DOGMA 95.

Nos anos seguintes vários filmes foram surgindo e todos que eram “aprovados” como DOGMA, recebiam um certificado que era colocado logo no início de cada filme:

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Certificado do DOGMA #28, OPEN HEARTS, de Susanne Bier

Toda essa introdução foi para dizer que há alguns dias eu andei revendo os três primeiros DOGMA’s, só pra ver como seria voltar a ter contato com esse tipo de material depois de tantos anos, um tipo de cinema que em determinado período da minha cinefilia se fez muito presente, numa época de descobertas e “atirando pra todo lado”… Até hoje o DOGMA 95 possui detratores que torcem o nariz, por preconceito, má vontade ou por realmente não fazer o gosto do freguês. Eu mesmo não consegui passar do terceiro filme e por muito tempo era um “estilo” que eu não tinha o menor interesse. Talvez ainda não tenha, mas preciso confessar que pelo menos os dois primeiros exemplares me surpreenderam extremamente nessa revisão.

Tanto FESTA DE FAMÍLIA quanto OS IDIOTAS são excelentes, especialmente em suas empáfias provocadoras e perturbadoras. O filme de Vinterberg talvez tenha uma construção narrativa mais interessante e elaborada, com uma trama que te prende do início ao fim, um rigor nas encenações e uma câmera ágil e nervosa que me deixou sem piscar durante toda a projeção. No aniversário de sessenta ano de um respeitado patriarca aristocrata, num casarão isolado no campo, reúne-se todos os parentes do velhote em ritmo de festa. O filho mais velho e distante resolve fazer um discurso, dá a tradicional batidinha na taça de champanhe e solta uma bomba, revelando todos os podres e depravações que seu pai acometera e que resultou no suicídio de uma das filhas do velho. Pensem nas consequências… A maneira como a história de FESTA DE FAMÍLIA vai se desenvolvendo a partir de então, adicionando uma carga de tensão e intensidade gradual, é de deixar mais apreensivo que um terrozão dos brabos…

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FESTA DE FAMÍLIA foi um grande sucesso no Festival de Cannes e ganhou o Prêmio do Júri, provando que fazer bons filmes não é realmente uma questão de dinheiro, mas de talento e, de vez em quando, uma boa dose de radicalismo.

Já no quesito provocação, OS IDIOTAS transforma FESTA DE FAMÍLIA em contos de fadas. Lars Von Trier criou uma das obras mais incômodas e subversivas do cinema contemporâneo ao mostrar um grupo de pessoas que estabelece uma comunidade no qual se realiza um experimento, que consiste em descobrir seus “idiotas interiores”. Ignorando todas as regras sociais, os personagens de OS IDIOTAS deixam suas famílias para viver juntas em uma casa, desfrutando de casos aleatórios e públicos enquanto se comportam como deficientes mentais. Embora esse modo de viver aparentemente lhes proporcione uma oportunidade de redescobrir a felicidade e um “lugar no mundo”, o espectador mais sensível termina o filme atormentado com as imagens ofensivas que Lars Von Trier, sem concessão alguma, apresenta e que colocam à prova a tolerância do público.

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Sequências como a visita de um grupo de portadores de síndrome de Down ou a que o líder do grupo deixa um dos membros nas mãos de uns brutamontes numa lanchonete são exemplos de que o choque em Von Trier nem sempre é leviano ou oportunista, como seus detratores proclamam, e vem sempre bem acompanhado de uma encenação digna, honesta e que mergulha a fundo no campo da reflexão.

Na época de seu lançamento, OS IDIOTAS não foi tão aclamado como FESTA DE FAMÍLIA, gerou reações ambíguas, obviamente pelo seu tom debochado, sua provocação ofensiva e até por conta de algumas cenas sexuais extremas e explícitas. Se FESTA DE FAMÍLIA e OS IDIOTAS tiveram sucesso no resgate de um cinema puro, aí já não sei… Até porque ambos mandam às favas as tais regrinhas do DOGMA e, por exemplo, em OS IDIOTAS temos até momentos com trilha sonora. O que não quer dizer muita coisa, já que o que importa é o resultado: filmes do caralho!

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Revi também o DOGMA #3, MIFUNE, de Søren Kragh-Jacobsen, lançado em 1999, e desta vez já não achei grandes coisas… Ou já fiquei de saco cheio já no terceiro dia consecutivo assistindo DOGMA’s… Ou talvez seja porque os dois primeiros exemplares sejam mais barra-pesada, enquanto MIFUNE mostra uma luz de esperança… O personagem central, após a morte de seu pai, retorna para a fazenda onde cresceu, em algum lugar na Dinamarca, para cuidar de seu irmão com deficiência mental, Rud (impressionante desempenho de Jeper Asholt). Ele contrata uma ex-prostituta, como empregada doméstica, e é até interessante o triângulo de relações humanas que se constitui. Mas a coisa não sai muito disso e lá pelas tantas percebi que o filme não ia chegar a lugar algum. Quando finalmente se estabelece com mais força os conflitos e segredos obscuros são revelados, era tarde de mais e já não tinha muito interesse pelos destinos dos personagens. Vale a pena conhecer MIFUNE, de qualquer forma, especialmente para quem tem curiosidade ou se interessou pelo movimento DOGMA 95.

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Se calhar, comento outros filmes do DOGMA 95, dependendo do interesse do leitor… Senão, paro por aqui. Pra mim tanto faz. Só espero agora que o novo filme do Lars Von Trier chegue logo por aqui, A CASA QUE JACK CONSTRUIU, que é um dos mais aguardados do blog este ano.

THE OTHER SIDE OF THE WIND – TRAILER

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Só pra deixar registrado, saiu o trailer do filme THE OTHER SIDE OF THE WIND, que mencionei aqui outro dia, o tal filme nunca completado dirigido pelo Orson Welles na década de 70 e só agora finalizado graças aos esforços de alguns indivíduos e da Netflix (que justifica sua existência só por ter contribuído com esse projeto).

E o trailer? EXCEPCIONAL!!! Se havia alguma dúvida de qual era o filme mais aguardado por mim este ano, agora já não há mais! Não vejo a hora de poder assistir THE OTHER SIDE OF THE WIND! ORSON WELLES VIVE!!!

 

LANÇAMENTOS CPC UMES FILMES

Os dois últimos lançamentos em DVD da CPC UMES Filmes estão imperdíveis. Em julho tivemos O DESTINO DE UM HOMEM (1959), de Serguei Bondarchuk, e que já estou com o DVD em mãos para conferir:

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SINOPSE: Convocado pelo Exército Vermelho para atuar como motorista de caminhão durante a Segunda Guerra, Andrei é capturado pelos alemães e jogado em um campo de concentração.

Quando retorna ao lar não encontra sua mulher e filhos, mortos pelos fascistas. O fantasma de uma vida sem propósito o atormenta, mas não abala seu espírito. Adaptação do romance homônimo de Mikhail Sholokhov, que ganharia o Prêmio Nobel de Literatura em 1965.

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Em breve comento algo a mais sobre O DESTINO DE UM HOMEM.

O Lançamento de Agosto é O HOMEM DO BOULEVARD DES CAPUCINES (1987), de Alla Surikova.

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SINOPSE: Na alvorada do século 20, Mr. Johnny First chega ao Oeste Selvagem com um projetor e alguns rolos de filme. O título dessa deliciosa sátira ao western way of life é uma alusão ao Salão Indiano do Grand Café do Boulevard des Capucines, onde os Irmãos Lumière encantaram as plateias com sua maravilhosa invenção. O filme foi visto por mais de 60 milhões de espectadores na URSS.

Ambos os filmes já estão disponíveis (CAPUCINES ainda em pré-venda) na loja virtual da CPC UMES FILMES, uma distribuidora que vem fazendo um dos melhores trabalhos de curadoria home video, com filmes que realmente valem a pena ter na estante. E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e seus próximos lançamentos.

BUÑUEL #3: LAS HURDES (1933)

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Na época do lançamento de A IDADE DO OURO, Luis Buñuel foi convidado a ir à Hollywood como “observador”, portanto, não estava presente quando explodiu o escândalo de seu último trabalho, o choque entre a grã-finagem burguesa numa pré-estreia às portas fechadas na mansão do produtor (que não sabia do que se tratava o filme, deu total liberdade à Buñuel, que também não fazia questão nenhuma de lhe contar nada à respeito).

Em Hollywood, as aventuras de Buñuel, sempre rabugento e agressivo a tudo e a todos, duraram pouco tempo. Certo dia, o produtor da MGM Irving Thalberg pediu ao espanhol uma opinião a respeito de um filme falado em castelhano estrelado por uma atriz chamada Lili Damita, e Buñuel lhe respondeu: “Não quero ouvir putas“. Foi expulso de Hollywood e voltou para a Espanha.

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Na sua terra natal, Buñuel leu um livro sobre a região das Hurdes e percebeu material para um novo filme. O problema era arranjar grana depois da recepção de A IDADE DO OURO, nenhum produtor ia arriscar botar dinheiro nas mãos de um inconformado iconoclasta subversivo… O jeito foi ir atrás de alguns amigos e contar com a sorte. Muita sorte. Um desses amigos era um anarquista chamado Ramón Acin que se apaixonou pelo tema de LAS HURDES e disse a Buñuel: “Se eu ganhar na loteria, dou-te tudo para teu filme“. E ganhou! O valor não era exatamente uma fortuna, mas já era um começo. O diretor de cinema Yves Allegret também contribuiu, pagou o aluguel da câmera e Buñuel partiu para Hurdes com seus colaboradores para filmar.

LAS HURDES é um documentário sobre a tal região que dá nome ao filme, na qual Buñuel compreendia que a realidade já era bastante expressiva e surreal suficiente para ficar fantasiando na ficção. Trata-se de uma região remota da Espanha onde, ainda na década de 30, a civilização mal se desenvolveu e o filme mostra como os camponeses locais tentam sobreviver às duras penas nessa realidade. Buñuel consegue criar imagens impressionantes desse cotidiano e até encontra certa lógica surrealista que lhe é tanto peculiar…

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Obviamente é um filme forte para o período pela situação de degradação humana que Buñuel faz questão de mostrar sem qualquer concessão. Só que aí vem a pegadinha genial do diretor. Buñuel recria situações, cenas e “realidades” para enfatizar o todo. Exemplo: há um plano em que o narrador diz que as cabras da região caem com certa frequência do alto dos rochedos e morrem. Exatamente neste momento, o que aparece na tela é uma cabra despencando do alto de um rochedo… E no canto da tela uma fumaça que não fizeram nem questão de tentar esconder, provavelmente de uma espingarda, que alveja o animal e o faz cair morto.

Dessa maneira, LAS HURDES cria um choque de imagem-verdades, que é a essência do próprio cinema. “A câmera mente 24 vezes por segundo“, como diz Brian De Palma. Socialmente, aliás, é muito mais importante para Buñuel mostrar o que podemos chamar de imagem-inquisitório, para acordar o ímpeto de revolta dos espectadores, do que salvar um burro de um enxame de abelhas, uma das cenas que me vem à mente da galeria de “gags” trágicas da narrativa de LAS HURDES, ou evitar a ideia de atirar numa cabra no alto de um rochedo só para filmá-la caindo… Perturbador e fascinante, o documentário não deixa de ser a visão corrosiva de um surrealista.

LAS HURDES tem disponível no youtube, tem só 30 minutos de duração e vale a pena ser visto.

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