EMBRUTECIDO PELA VIOLÊNCIA (1951)

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O jovem Kirk Douglas em início de carreira parecia um ator esforçado. Aprendeu a lutar boxe para o seu papel em O INVENCÍVEL (1949), de Mark Robson, e teve intensas aulas de instrumentos de sopro para dar veracidade como trompetista em ÊXITO FUGAZ (1950), de Michael Curtiz. Para EMBRUTECIDOS PELA VIOLÊNCIA (Along the Great Divide), Douglas teve que aprender a montar num cavalo e a lidar com um revolver de seis balas, e contou com a ajuda do veterano diretor de ação e aventura Raoul Walsh, para lhe mostrar como se faz. O filme é a estreia de Douglas no Western, gênero do qual o sujeito dedicaria uma boa parte da carreira (dezenove filmes).

Douglas aparece em EMBRUTECIDOS PELA VIOLÊNCIA como um Marshal recém-eleito, chamado Len Merrick. Durante seu trajeto para assumir o posto, na companhia de seus dois ajudantes policiais, Merrick impede um grupo de linchar o velho Keith, vivido pelo grande Walter Brennan, a quem o fazendeiro Ed Roden (Morris Ankrum) acredita ser o assassino de seu filho. Merrick e seus policiais levam o Keith em custódia. Se o prisioneiro é ou não inocente, se ele será condenado à morte ou não, é de pouca importância para Merrick, que vive sob o código da lei. Desde que a lei tenha uma palavra a dizer e a sentença seja aplicada de acordo com o veredito do júri, o sujeito tem a consciência tranquila de dever cumprido.

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Mas aí começam a transportar Keith por quilômetros e quilômetros até a cidade de Santa Loma, onde o velho será julgado. O filme é, em grande parte, sobre o que acontece ao longo do caminho. E como sabemos, uma longa jornada pode mudar a natureza de um homem. Especialmente se uma mulher estiver no meio, como é caso de Ann (Virginia Mayo), filha de Keith, que insiste em acompanhá-los. Durante a viagem, além de constantes trocas de tiros com os homens de Roden, que querem o velho morto de qualquer jeito, é revelado também o lado frágil de Merrick, traumatizado e cercado de medos por conta da morte de seu próprio pai, também um Marshal, e que teria sido causado por ele.

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Com isso, EMBRUTECIDOS PELA VIOLÊNCIA fecha uma espécie de trilogia da “psicologia no western” do diretor Raoul Walsh, que começa com SUA ÚNICA SAÍDA (1947) e continua em GOLPE DE MISERICÓRDIA (1949). Mas apesar desse estudo mais profundo das emoções humanas, em nenhum momento o filme se torna uma tese séria sobre o assunto. Walsh se interessa mesmo é pela forma, pela imagem, pela fotografia em preto-e-branco expressionista de Sidney Hickox, o colaborador habitual de Walsh, que é realmente extraordinária, seja nas locações ao ar livre ou no estúdio. Já com os atores, o que parece ecoar sobre as filmagens é que Walsh teria perdido o interesse pelo projeto durante a realização e deixava de lado inclusive páginas inteiras de diálogos do roteiros.

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O bom é que com Kirk Douglas, Walter Brennan e Virginia Mayo não tem erro, basta ligar a câmera e deixá-los trabalhar, especialmente quando Douglas e Mayo se afastam dos demais e dão origem a algumas sequências com alto potencial erótico para o período. Douglas ainda não havia despontado como um dos maiores atores de todos os tempos na época de EMBRUTECIDOS PELA VIOLÊNCIA, mas já dava demonstrações consideráveis disso, com um carisma extraordinário e exalando uma tremenda força física como herói. John Agar, James Anderson e Ray Teal são outros atores que merecem destaque por aqui. Quanto à encenação da ação, Walsh é sempre de uma eficiência notável quando se trata dos tiroteios, perseguições, do deslocamento dos personagens no espaço, da arquitetura da iconografia do western.

EMBRUTECIDOS PELA VIOLÊNCIA foi lançado recentemente pela Classicline em DVD, oferecendo sua qualidade habitual, preservando o ‘aspect ratio’ original. Uma bela maneira de redescobrir este clássico do faroeste americano que merece um lugar na coleção, para ver e rever e rever…

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Texto originalmente escrito e publicado no blog Vá e Veja.

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3 respostas para EMBRUTECIDO PELA VIOLÊNCIA (1951)

  1. Fabiano disse:

    Eu estava lembrando desse filme ontem à noite. Especialmente a cena do gato que o diretor jura que era falsa, mas eles de fato mataram um gato dolorosamente para fazer aquilo. Fora isso é um bom filme. Inclusive é parte de uma série de filmes, acho que vai até a parte 5, porém, na minha humilde, simplória e de suma importância opinião, a parte 3 é excelente. Melhor até do que o primeiro. Igualmente brutal, mas sem matar gatos gratuitamente. Só matam gente. E mesmo assim de brincadeirinha.

  2. Renata disse:

    Bom dia. Não sei se posso postar dicas de filmes aqui, mas gostaria de saber se alguém aqui já assistiu o filme:
    731 – Bactéria. A maldade humana.

    Não conheço ninguém que tenha assistido, já assisti e na minha opinião é um dos filmes de “guerra” que mais retrata a crueldade humana.

    • Ronald Perrone disse:

      Oi Renata. Sim, já vi esse filme. Conheço mais pelo título em inglês, MEN BEHIND THE SUN. Na época que vi, tava mais interessado nesse tipo de filme de exploração, hoje já não tenho muito interesse nessa espécie de cinema. Mas é um filme interessante sim.

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