FAZENDO AS PAZES COM SHYAMALAN

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A reconciliação que fiz com o diretor de O SEXTO SENTIDO não veio agora, com GLASS, que assisti ontem. Veio com seus dois filmes anteriores, de forma tímida com A VISITA e com mais contundência em FRAGMENTADO, que me fizeram sentir a necessidade de reavaliar a obra de Shyamalan, da qual passei mais de uma década abominando…

Com exceção de O SEXTO SENTIDO e CORPO FECHADO, acompanhar a carreira de Shyamalan era acumular decepções, até chegar num ponto em que pensei em abandonar de vez, tanto que só fui assistir a DEPOIS DA TERRA nessa reavaliação que fiz e que aconteceu no ano passado, quando revi todos os filmes do homem. Percebi que o problema era, digamos, pessoal. Quero dizer, uma das coisas mágicas do cinema é a relação que estabelecemos com os filmes e como uma série de fatores externos e internos podem agir na percepção e influenciar essa relação tão íntima, tão subjetiva com as obras. Ou seja, filmes como FIM DOS TEMPOS e A DAMA NA ÁGUA, que achei um LIXO quando vi há mais de uma década, acabaram se revelando, esses mesmos filmes, obras-primas na revisão mais recente. FIM DOS TEMPOS se tornou meu favorito do diretor e um dos melhores filmes da década passada. O que aconteceu? Os filmes não mudam, quem muda sou eu, muda-se até um simples estado de espírito momentâneo, e conceitos e preconceitos de um período da vida… Ou eu amadureci/evolui meu paladar cinéfilo ou desandei e meu mau gosto por filmes ficou tão forte que as coisas que eu detestava passei a amar… Mas isso pouco importa, no fim das contas. O que vale pra mim são duas coisas nessa história:

1. Nunca leve muito à sério a suas velhas opiniões em relação a um filme ou diretor. Reveja, reavalie. Em dez, vinte anos muita coisa muda, seus gostos podem se alterar, filmes horríveis podem se tornar obras fascinantes e vice e versa.

2. Que o Shyamalan é um dos grandes diretores em atividade no cinema americano atual e que faz parte de uma certa linhagem de cineastas autorais que estão para além do acerto e do erro. Cada filme destes tipo de diretor é uma obra irrepreensível de ousadia e invenção. Não são trabalhos feitos para simplesmente gostar ou não gostar, mas para mergulhar de cabeça ou ficar na mesma, indiferente.

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Sobre GLASS, não quero falar muita coisa e nem teria muito o que dizer… Apenas que, em tempos de produções baseadas em quadrinhos da Marvel e DC Comics (dos quais não tenho nada contra), é Shyamalan quem acaba fazendo o filme mais notável sobre super-heróis, ou a possibilidade de existirem pessoas especiais, com qualidades sobre humanas. Sem nunca sair de seu estilo próprio, cadenciado, dramático, sem espetacularizar a ação, sem criar embates épicos, sem abusar de efeitos especiais caríssimos, quebrando todas as expectativas, GLASS fascina por ser uma obra intimista e reflexiva, um tratado sobre a crença, sobre acreditar na fantasia, na fábula, não como alegoria do real, mas como o real propriamente vivido, que é a síntese de boa parte do cinema shyamaliano.

Mas se GLASS exige certa cumplicidade por parte do expectador, especialmente de quem já admira o trabalho de Shyamalan, está familiarizado com suas idiossincrasias, não deixa de ser também dessas obras que, naquelas duas ou três horas que ficamos sentados na sala escura, somos convidados a nos “perder” na tela; melhor, somos instados a descobrir que é possível vivenciar um mundo muito além do cotidiano e do sonho. São filmes de exceção, talvez até anacrônicos em relação ao que se faz hoje no cinema americano (e por isso mesmo tão moderno), que mandam o realismo e o surrealismo para o espaço, e nos fazem vivenciar uma raríssima experiencia sensível.

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4 respostas para FAZENDO AS PAZES COM SHYAMALAN

  1. Filipe Chamy disse:

    excelente, Ronald. também reavaliei o Shyamalan, mas há uns anos, e precisamente por causa do “Fim dos tempos”, que também acho maravilhoso e o melhor dele. temos artistas que nos falam diretamente ao coração e moldam nossos gostos e percepções, mas com todos os demais (e com esses também, afinal) precisamos sempre reavaliar nossas considerações e ver se elas ainda fazem sentido e o quanto nós mudamos e nos vemos nelas

    aliás, “Vidro” é uma boa metáfora sobre isso. repensar nossas vidas e o que temos de especial, ou não

    • Ronald Perrone disse:

      Sim, é uma boa leitura de VIDRO, aliás é um tema constante do Shyamalan, a questão de olhar pra dentro de si e se encontrar, buscar compreender a si mesmo… E VIDRO é forte em ser um filme sobre “corpos” (não deixa de ser uma história de super-heróis, que lutam, etc), mas que buscar revelar os estados e conflitos da “alma”. Filmaço!

  2. Miguel Calil Neto disse:

    Nós estamos em constante aprendizado. Nós mudamos com o passar do tempo e a visão de mundo se altera.

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