STURGES

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Outro dia estava vendo um filme de espionagem dirigido pelo John Sturges. Não conhecia a obra, mas do diretor, é quase impossível errar na escolha. Ao menos, o que vi do Sturges, só clássicos do autêntico cinema badass: SETE HOMENS E UM DESTINO, FUGINDO DO INFERNO, CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO, SEM LEI E SEM ALMA, entre outras coisas boas.

Sturges sempre teve certo prestígio e respeito entre os admiradores do “cinema de ação raiz”, mas já a crítica séria subestima diretores que não possuem uma veia autoral, como é, de fato, o caso de Sturges. O sujeito era um típico diretor “Pistoleiro de Aluguel”, desses que sabem atirar muito bem, mas acabam não deixando muito rastro. Ou seja, não possuem um caráter autoral, embora façam seu trabalho muito bem feito. E em se tratando de filmes de ação, o cara sabia muito bem onde colocar sua câmera e como orquestrar o que se passava na frente dela, como preencher os espaços da tela larga do CinemaScope.

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O tal filme de espionagem em questão é um bom exemplo disso. O título do filme no Brasil é O MUNDO MARCHA PARA O FIM, adaptação de um livro de Alistair MacLean, autor de clássicos suspenses de guerra, como OS CANHÕES DE NAVARONE. No elenco temos George Maharis e um grisalho Dana Andrews, cuja carreira já estava em declínio. No início do filme, acontece uma invasão num laboratório ultrassecreto de guerra química e bacteriológica do governo americano, quando um dos cientistas havia acabado de aperfeiçoar um novo vírus, que fora apelidado de “the satan bug“, que é também o título original do filme. Quando em contato com a atmosfera, o vírus parece ser completamente imparável e um único frasco poderia, em teoria, acabar com toda a vida na Terra. É tão perigoso que os cientistas estavam considerando seriamente destruí-lo, pela suspeita de ser letal demais para ter algum uso prático.

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Para um caso tão urgente, é necessário um tipo muito especial de agente para resolver as coisas e fazer, digamos, um trabalho sujo. E o homem certo é Lee Barrett (Maharis), um espião dissidente, que foi demitido de todos os cargos que ocupou, tido como encrenqueiro e causador de dor de cabeça para o governo. Ou seja, Mas o homem perfeito para o trabalho de pegar os terroristas e recuperar o perigoso vírus. Daí pra frente o filme não para…

John Sturges não tinha um grande orçamento para trabalhar, mas sabe muito bem  o que fazer com este tipo de material, e segura o filme com boa dose de tensão. Não temos aqui nenhum discurso entediante do vilão insano que tenta justificar suas ações e, apesar do assunto e do contexto da época, o filme acaba não sendo levado para o lado político… É um thriller de ação, puro e simples. O filme também não perde tempo com explicações pseudocientíficas elaboradas. Tudo o que precisamos saber é que o vilão tem uma arma super poderosa em mãos e ele deve ser parado à qualquer custo. É-nos dado apenas o suficiente para tornar essa ameaça assustadora e não deixar que o público desgrude os olhos da tela. E considerando o baixo orçamento, algumas sequências de ação são bastante impressionantes, com perseguições de carro, tiroteios e até uma luta em um helicóptero em pleno ar.

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Não sei se esse aqui já foi lançado no Brasil em DVD, mas fica a dica para alguma distribuidora brasileira o lançamento desta e de outras obras do Sturges não tão conhecidas e que fariam sucesso no mercado de vídeo. O MUNDO MARCHA PARA O FIM é um desses filmes esquecidos de um grande diretor que a vale a pena uma conferida.

FAZENDO AS PAZES COM SHYAMALAN

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A reconciliação que fiz com o diretor de O SEXTO SENTIDO não veio agora, com GLASS, que assisti ontem. Veio com seus dois filmes anteriores, de forma tímida com A VISITA e com mais contundência em FRAGMENTADO, que me fizeram sentir a necessidade de reavaliar a obra de Shyamalan, da qual passei mais de uma década abominando…

Com exceção de O SEXTO SENTIDO e CORPO FECHADO, acompanhar a carreira de Shyamalan era acumular decepções, até chegar num ponto em que pensei em abandonar de vez, tanto que só fui assistir a DEPOIS DA TERRA nessa reavaliação que fiz e que aconteceu no ano passado, quando revi todos os filmes do homem. Percebi que o problema era, digamos, pessoal. Quero dizer, uma das coisas mágicas do cinema é a relação que estabelecemos com os filmes e como uma série de fatores externos e internos podem agir na percepção e influenciar essa relação tão íntima, tão subjetiva com as obras. Ou seja, filmes como FIM DOS TEMPOS e A DAMA NA ÁGUA, que achei um LIXO quando vi há mais de uma década, acabaram se revelando, esses mesmos filmes, obras-primas na revisão mais recente. FIM DOS TEMPOS se tornou meu favorito do diretor e um dos melhores filmes da década passada. O que aconteceu? Os filmes não mudam, quem muda sou eu, muda-se até um simples estado de espírito momentâneo, e conceitos e preconceitos de um período da vida… Ou eu amadureci/evolui meu paladar cinéfilo ou desandei e meu mau gosto por filmes ficou tão forte que as coisas que eu detestava passei a amar… Mas isso pouco importa, no fim das contas. O que vale pra mim são duas coisas nessa história:

1. Nunca leve muito à sério a suas velhas opiniões em relação a um filme ou diretor. Reveja, reavalie. Em dez, vinte anos muita coisa muda, seus gostos podem se alterar, filmes horríveis podem se tornar obras fascinantes e vice e versa.

2. Que o Shyamalan é um dos grandes diretores em atividade no cinema americano atual e que faz parte de uma certa linhagem de cineastas autorais que estão para além do acerto e do erro. Cada filme destes tipo de diretor é uma obra irrepreensível de ousadia e invenção. Não são trabalhos feitos para simplesmente gostar ou não gostar, mas para mergulhar de cabeça ou ficar na mesma, indiferente.

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Sobre GLASS, não quero falar muita coisa e nem teria muito o que dizer… Apenas que, em tempos de produções baseadas em quadrinhos da Marvel e DC Comics (dos quais não tenho nada contra), é Shyamalan quem acaba fazendo o filme mais notável sobre super-heróis, ou a possibilidade de existirem pessoas especiais, com qualidades sobre humanas. Sem nunca sair de seu estilo próprio, cadenciado, dramático, sem espetacularizar a ação, sem criar embates épicos, sem abusar de efeitos especiais caríssimos, quebrando todas as expectativas, GLASS fascina por ser uma obra intimista e reflexiva, um tratado sobre a crença, sobre acreditar na fantasia, na fábula, não como alegoria do real, mas como o real propriamente vivido, que é a síntese de boa parte do cinema shyamaliano.

Mas se GLASS exige certa cumplicidade por parte do expectador, especialmente de quem já admira o trabalho de Shyamalan, está familiarizado com suas idiossincrasias, não deixa de ser também dessas obras que, naquelas duas ou três horas que ficamos sentados na sala escura, somos convidados a nos “perder” na tela; melhor, somos instados a descobrir que é possível vivenciar um mundo muito além do cotidiano e do sonho. São filmes de exceção, talvez até anacrônicos em relação ao que se faz hoje no cinema americano (e por isso mesmo tão moderno), que mandam o realismo e o surrealismo para o espaço, e nos fazem vivenciar uma raríssima experiencia sensível.

O RETORNO DE RICHARD STANLEY, COM NIC CAGE, EM ADAPTAÇÃO DE LOVECRAFT

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Não sei o que é melhor nessa notícia. Richard Stanley voltar a dirigir; Nic Cage novamente se envolvendo com os produtores de MANDY; ou o fato dessa turma toda estar adaptando um Lovecraft. De vez em quando coisas boas acontecem… Segundo o site Deadline, Nicolas Cage foi escalado para estrelar uma adaptação de A COR QUE CAIU DO CÉU, do mestre do horror H.P. Lovecraft, de 1927. O filme será dirigido pelo cineasta sul-africano Richard Stanley, em seu primeiro longa (de ficção) em vinte anos. Para Cage, o projeto também é uma nova parceria com a produtora SpectreVision, que realizou MANDY, um dos melhores filmes do ano passado. As filmagens da adaptação de A COR QUE CAIU DO CÉU devem começar já no mês que vem.

Para comemorar, recomendo assistir aos dois principais trabalhos de Stanley: HARDWARE (1990) e DUST DEVIL (1992), este último, uma obra-prima esquecida do horror noventista que merece urgentemente uma redescoberta. Stanley ficou conhecido também pelas atribuladas filmagens da versão de A ILHA DO DR. MOREAU, de 1996, com Val Kilmer e Marlon Brando, finalizado por John Frankenheimer. Depois de ser demitido da produção – e por conta de outras atitudes, como por exemplo usar explosivos em tentativa de sabotar o andamento das filmagens – o diretor entrou numa lista negra e nunca mais conseguiu filmar em condições “normais”. O máximo que conseguiu era um curta-metragem aqui, uns video-clipes ali, documentários acolá… Finalmente Stanley tem sua chance de sair do limbo.

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SCHRADER NO OSCAR

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Os membros da academia não tiveram colhões pra eleger FIRST REFORMED, último trabalho de Paul Schrader, entre os indicados a Melhor Filme. Mas isso já era esperado. Uma pena que Ethan Hawke também não esteja entre os escolhidos na disputa de Melhor Ator. Fará falta. O sujeito entrega aqui uma dos mais fortes desempenhos de sua carreira. Ao menos Schrader concorrerá na categoria Roteiro Original. É difícil, mas ficamos na torcida. Porque FIRST REFORMED merece todo o reconhecimento, seja lá de onde vier, mesmo que todos falem “ah, o Oscar é uma bobagem, é uma premiação feita à base de lobby“. Mas é também o tipo de coisa que define o futuro de um cineasta veterano como Schrader. Receber um prêmio hoje é ganhar fôlego (e financiamento) para um próximo filme.

E isso vale também para o Spike Lee, que está na jogada com o seu sensacional BLACKKKLANSMAN. Esse sim, concorrendo à vários dos prêmios principais, incluindo Melhor Filme e Diretor.

FIRST REFORMED e BLACKKKLANSMAN, os dois maiores filmes do ano passado, já têm minha torcida no Oscar 2019.

EM MARÇO: CINEMA POLICIAL VOL.3

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Este aqui vale a pena divulgar.

“Com entrega a partir de 07 de março, a Versátil apresenta CINEMA POLICIAL VOL. 3, caixa em luva reforçada com 2 DVDs que reúne 4 clássicos policiais inéditos dos anos 70 e 80 estrelados por astros como Michael Caine, Walter Matthau, Bob Hoskins e Robert Duvall, além de meia hora de vídeos extras. Edição Limitada com 4 cards.

Garanta já o seu aqui, comprando na pré-venda da loja online

DISCO 1

MONA LISA
(Idem, 1986, 104 min.)
De Neil Jordan. Com Bob Hoskins, Michael Caine, Cathy Tyson.
Um ex-presidiário consegue emprego de motorista de uma prostituta de luxo negra, por quem acaba se apaixonando. Pequena obra-prima neo-noir do consagrado Neil Jordan (“Traídos pelo Desejo”). Prêmio de Melhor Ator em Cannes.

A QUADRILHA
(The Outfit, 1973, 103 min.)
De John Flynn. Com Robert Duvall, Karen Black, Robert Ryan.
Earl Macklin rouba um banco que pertence à Mafia e termina preso. Ao ser libertado, começa uma guerra contra os mafiosos. Eletrizante filme policial com ótimo elenco dirigido pelo talentoso John Flynn, de “A Outra Face da Violência”.

DISCO 2

MATANÇA EM SAN FRANCISCO
(The Laughing Policeman, 1973, 112 min.)
De Stuart Rosenberg. Com Walter Matthau, Bruce Dern, Louis Gossett Jr.
Em São Francisco, um policial é uma das muitas vítimas de uma chacina. Seu parceiro e um novato investigam o que está por trás da matança. Tenso policial urbano no estilo de Dirty Harry com direção de Stuart Rosenberg (“Rebeldia Indomável”).

OS PERIGOSOS
(Hickey & Boggs, 1972, 111 min.)
De Robert Culp. Com Bill Cosby, Robert Culp, Ta-Ronce Allen.
Dois detetives particulares saem em busca de uma garota desaparecida, e acabam se envolvendo com criminosos violentos. Com roteiro do especialista Walter Hill (“48 Horas”), esse neo-noir serviu de inspiração para “Máquina Mortífera”.

EXTRAS: Especiais sobre os filmes (30 min.) Trailers (4 min.)”

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PAUL SCHRADER GOES WEST

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Um dos maiores monumentos do cinema americano atual é esse senhorzinho aí em cima, que atende pelo nome de PAUL SCHRADER. Diferente de caras como John Carpenter, William Friedkin, Michael Mann, David Cronenberg, e outros velhinhos que já fizeram muita coisa legal, Schrader continua à pleno vapor, escrevendo e dirigindo, se adaptando e se reinventando no cinema contemporâneo e às novas tecnologias, novos formatos, novos meios de exibição, como um garoto de 72 anos.

Celebremos Paul Schrader… Porque se depender daqueles outros ali em cima, estamos perdidos. Sério, eu espero estar errado, mas vamos cair na real que nunca mais teremos um filme novo do Carpenter, Coppola, Friedkin, Mann, Cronenberg… Clint Eastwood deve fazer mais uns dois no máximo. Brian De Palma não consegue lançar nem seus filmes que já estão prontos. Fora de Hollywood, Paul Verhoeven é um milagre que esteja lançando algo este ano, mas não tenho muita esperanças. Johnnie To já anunciou a aposentadoria… Um ciclo que vai se encerrando aos poucos. E Abel Ferrara? Scorsese ainda se salva. Até quando, já não sei.

Enquanto isso, temos Schrader. Seu último filme, FIRST REFORMED, é maravilhoso e encabeçou a lista dos meus filmes favoritos do ano passado. E o cara disse essa semana, durante a premiação dos Critics Choice Awards, que agora vai fazer um western. No elenco, já apontou Willen Dafoe e Ethan Hawke, e o título por enquanto é NINE MEN FROM NOW, que remete ao clássico de Budd Boetticher, SEVEN MEN FROM NOW, com Randolph Scott e Lee Marvin. Sem mais informações no momento, é só aguardar de joelhos.

[CAGESPLOITATION] MANDY (2018)

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Da primeira vez que assisti a MANDY, de Panos Cosmatos, foi impossível não pensar numa lógica estético-narrativa que torna visual o mundo interior de um homem destroçado pela perda. Só que ao mesmo tempo, o filme nunca entra no campo de “Ah! era tudo uma alucinação, era uma bad trip do protagonista” o que tornaria tudo muito óbvio.

Resolvi ver MANDY de novo, já que é um dos meus favoritos do ano passado, e desta vez ficou mais forte, já sabendo de antemão o que o filme tem para oferecer, a impressão de estar diante de uma daquelas revistas em quadrinhos Heavy Metal que a gente lia nos anos 90, com um tipo de fantasia sci-fi bizarra muito peculiar que essas publicações forneciam. Então, bad trip porra nenhuma, isso aqui é um puta universo alternativo pra lá de surtado que o Cosmatos criou para desembocar sua fábula macabra e, como cereja do bolo, com um Nicolas Cage maravilhosamente insano nos guiando nessa viagem pirada de imagens carregadas de cores, simbolismos e violência.

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O negócio é que MANDY é um filme para ser contemplado, Cosmatos utiliza-se de elementos muito básicos para causar a imersão do espectador num projeto cuja estética e seus significados simbólicos importam mais do que uma trama convencional. Na verdade, a narrativa segue uma linha reta muito bem traçada, mas com um fiapo de roteiro, que Cosmatos usa para deixar o espectador hipnotizado na sua à abordagem visual e atmosférica.

Temos uma primeira metade que apresenta o casal, Red (Cage) e Mandy (Andrea Riseborough), que leva uma existência tranquila, amorosa e pacífica numa versão alternativa do ano de 1983 e este lugar perfeito e seguro é selvagemente invadido e destruído. Depois, a segunda metade de MANDY: Red se lança numa jornada de vingança sangrenta contra os mais diversos habitantes desse universo insólito.

Seguir essa trama é um convite à uma experiência sensorial fascinante.

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Dizem que o filme anterior de Cosmatos, filho do grande George P. Cosmatos (diretor de RAMBO II, COBRA e TOMBSTONE), segue essa mesma tendência de cinema contemplativo e sensorial. Chama-se BEYOND THE BLACK RAINBOW, mas eu acabei não vendo. Devo assistir agora que conheço MANDY. O sujeito manda bem dentro da proposta de uma espécie de slow “exploitation” cinema, que constrói um mundo tão peculiar e onírico, povoado por criaturas que parecem uma mistura dos cenobitas, de HELLRAISER, com os motoqueiros pós-apocalípticos saídos de MAD MAX 2, com atmosfera carregada em tons que parece uma névoa envolvendo os personagens… É o que dá à paisagem uma sensação sobrenatural, uma versão da realidade como conhecemos, mas encharcada em neons roxos e avermelhados.

Cosmatos também não deixa a peteca cair nem quando a coisa toda explode em violência, fazendo homenagens à clássicos como EVIL DEAD 2, NIGHTBREED, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2… É o tipo de filme no qual veremos Nicolas Cage cortando a garganta de uma criatura que tem uma faca no lugar do pênis e logo depois põe-se a rir histericamente enquanto o sangue encharca seu rosto. Temos Cage decapitando um sujeito com um enorme machado de batalha forjado e depois acendendo um cigarro da cabeça decepada em chamas. Ou no eletrizante e sangrento duelo de motosserras… Enfim, MANDY é brutal, debochado, insano… Pura poesia.

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Obviamente, um dos grandes prazeres de MANDY é poder ver Nicolas Cage em estado de graça sendo bem dirigido e muito bem aproveitado. Há uma cena que é um verdadeiro milagre de encenação e dramaturgia, um tour de force ininterrupto e sem cortes, quando Cage vai ao banheiro, de cuecas, enxugando uma garrafa de Vodka inteira, tentando se aliviar do choque depois de vivenciar um verdadeiro inferno, numa aula de expressão corporal e presença de ocupação física de um espaço, um daqueles momentos que dá vontade de aplaudir e agradecer aos deuses do cinema a existência de um ator tão sublime quanto… NICOLAS CAGE. Aliás, muita gente acha que eu brinco quando falo que, atualmente, em atividade, o maior ator do mundo é Nicolas Cage. Podem apostar, eu falo sério.

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A única coisa que não se justifica em MANDY são suas duas horas de duração. Poderia ser bem mais enxuto… Mas não tenho do que reclamar, porque toda hora Cosmatos traz algo bonito/bizarro para nossa contemplação: os inter-títulos com fontes de capa de disco de Black Metal; Cage forjando no fogo seu instrumento de vingança; o anúncio do “Cheddar Gobling”; os enquadramentos milimetricamente simétricos do templo, o filme inteiro é recheado de imagens que parecem as páginas das revistas Heavy Metal que ganharam vida, numa atmosfera única que é encontrada em todos os quadros do filme, em cada gesto de um personagem, a cada mudança narrativa…

Vale destacar também alguns nomes do elenco, como a pequena aparição do grande Bill Duke, mas especialmente Linus Roach, como líder da seita que desgraça a vida do protagonista, numa performance espetacular.

MANDY é um filme especial. Se não viu ainda, veja. De preferência numa tela bem grande.

25 FILMES PARA ESPERAR EM 2019

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Uma relação do que realmente me interessa assistir este ano. Cortei fora alguns filmes que já foram lançados em alguma parte do mundo, mas que vão entrar no circuito nacional por agora, especialmente CREED II e THE MULE, de Clint Eastwood. Este último para aguardar salivando! Dos filmes esperados para o resto do ano, estes 25 aqui são os que me apetecem uma conferida:

3 FROM HELL, de Rob Zombie. Sim, ainda gosto do Zombie…
6 UNDERGROUND, de Michael Bay
AD ASTRA, ficção científica de James Gray
BENEDETTA, nunsploitation de Paul Verhoeven!
DEAD DON’T DIE, zombie movie de Jim Jarmusch
DOMINO, de Brian De Palma (será que este ano vai?)
DRAGGED ACROSS CONCRETE, S. Craig Zahler, o mesmo diretor de BONE TOMAHAWK e BRAWL IN CELL BLOCK 99, ou seja, um dos nomes mais interessantes do cinema atual
GLASS, de M. Night Shyamalan
GODZILLA 2: O REI DOS MONSTROS, de Michael Dougherty
HELLBOY, de Neil Marshall

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HIGH LIFE, ficção científica de Claire Denis
O spin off de VELOZES E FURIOSOS, HOBBS & SHAW, de David Leitch
IRISHMAN, THE, de Martin Scorsese, obviamente…
IT: CHAPTER 2, de Andy Muschietti
JOHN WICK 3: PARABELLUM, de Chad Stahelski
LIGHTHOUSE, de Robert Eggers, o mesmo diretor de A BRUXA
MONSTER HUNTER, de Paul W. S. Anderson. Ok, eu sei que sou minoria, mas eu adoro os filmes desse cara!
ONCE UPON A TIME IN HOLLYWOOD, de Quentin Tarantino
PRISONERS OF THE GHOSTLAND, de Sion Sono, estrelado pelo melhor ator do mundo em atividade. Sim, ele mesmo: NICOLAS CAGE!
RAMBO 5: LAST BLOOD, de Adrian Grunberg
SANDMAN, THE, de Dario Argento (será que vai?)

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Novo EXTERMINADOR DO FUTURO, de Tim Miller, pelo retorno de James Cameron na produção e roteiro, e da Linda Hamilton, como Sarah Connor
TOMMASO, de Abel Ferrara
TRIPLE THREAT, de Jesse V. Johnson, ação com Iko Wuais, Tony Jaa, Tiger Hu Chen, Scott Adkins, Michael Jay White. Imperdível.
UNCUT GEMS, de Josh e Benny Safdie

Provavelmente devo ter esquecido um monte de coisas que quero ver, mas ao longo do ano, se eu me comprometer a ser um blogueiro exemplar (e não essa porcaria que tenho sido), vou trazendo mais novidades.

Para finalizar, uma série obrigatória para acompanhar em 2019:

TOO OLD TO DIE YOUNG, criada e toda dirigida pelo dinamarquês Nicolas Winding Refn

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DOLLMAN (1991)

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Embora seja mais uma dentre tantas produções dirigidas pelo Albert Pyun que sofre às duras penas por conta do baixíssimo orçamento, DOLLMAN teve a incrível façanha de ser um de seus trabalhos que conseguiu reunir perfeitamente as ideias mirabolantes da cabeça do diretor com um bom resultado visual na tela. Ainda bem, porque isso é crucial em DOLLMAN. Se essas ideias não funcionassem, seria quase impossível engolir a história do policial alienígena que possui o tamanho de um boneco de “Comandos em Ação” no nosso planeta.

Tim Thomerson, trabalhando pela primeira vez com Pyun, encarna Brick Bardo, o tal personagem minúsculo. O sujeito é o típico policial casca-grossa que estamos acostumados a ver em filmes dos anos 80 e 90, que age por conta de suas próprias regras e que pode usar óculos escuros à noite sem parecer um hipster ridículo. Com a pequena diferença de que é um extraterrestre de trinta centímetros de altura. Ao perseguir um meliante de seu planeta, Bardo acaba parando na Terra, onde ele não passa de um tiquinho de gente. Mas isso não impede que seu lado durão se abale, até porque o sujeito tem sempre em mãos “a arma de mão mais poderosa do universo“, como diz um moleque gordinho logo no início do filme, um revolver que explode corpos inteiros no seu planeta. O que já faz também um belo estrago na bandidagem da Terra.

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Um desses bandidos por aqui é vivido por ninguém menos que Jackie Earle Haley em início de carreira, antes de viver Rorschach em WATCHMEN, já demonstrando certo talento dramático, por incrível que pareça. Seu personagem passa grande parte do filme com uma bala no bucho, o que exige uma certa expressividade do ator. Sim, amiguinhos, estamos analisando dramaturgia num filme do Pyun em que o personagem principal é um policial de trinta centímetros… Vincent Klyn, o eterno Fender de CYBORG, também dirigido pelo Pyun, marca presença como um dos vilões, como não poderia ser diferente. Ainda no elenco, alguns habituais do diretor também dão as caras por aqui, como Nicholas Guest e Michael Halsey, todos bem competentes. Mas é impossível tirar os olhos do protagonista. Tim Thomerson carrega o filme nas costas, apesar do tamanho, com uma atuação excepcional!

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DOLLMAN foi a primeira parceria de Pyun com a Full Moon, de Charles Band, produtora que sempre trabalhou com pouco recurso, mas com muita criatividade e excelentes resultados nos anos 80 e 90. Embora Pyun reclame que Band seja um produtor muito controlador, o diretor consegue fazer o que queria em termos visuais com bastante eficiência, tornando crível a situação de escala do protagonista em relação aos espaços, ao mundo gigante que o rodeia. Os enquadramentos, o que Pyun mostra ou deixa de mostrar, os ângulos criativos da câmera, tudo faz acreditar que Thomerson é realmente um autêntico bonequinho. Até mesmo no uso de efeitos especiais e trucagens, que o orçamento não permite ser dos melhores, dão um charme à mais na obra.

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Além disso, Pyun tem sempre grandes sacadas para manter o ritmo frenético em DOLLMAN, com bons momentos de ação e um humor sarcástico característico do diretor. Várias cenas são impagáveis, sequências realmente difíceis de acreditar que conseguiram fazer com tão pouco recurso e que só poderiam ter saído da cachola do diretor e do produtor Charles Band. Toda a sequência inicial que se passa no planeta de Bardo é excepcional, filmada com um filtro avermelhado, faz uma apresentação perfeita do tipo de policial que Bardo é, agindo numa situação com reféns, de deixar o chefe de polícia arrancando os cabelos. E mostra, também, o estrago que sua arma é capaz fazer num corpo.

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Já no nosso precioso planeta Terra, sequências como o pequenino herói pendurado num carro cheio de bandidos, ou as trocações de tiros com os meliantes com suas diferenças de escalas, e até o confronto do herói com um rato, quando o personagem literalmente entra pelo cano, são bons exemplos que garantem a diversão…

DOLLMAN é daquelas obras feitas sob medida para os fãs assíduos de uma boa tralha de baixo orçamento, que obviamente o espectador normal deverá achar uma perda de tempo. Azar o deles. Trata-se de um dos melhores e mais divertidos filmes de Albert Pyun.

Texto originalmente escrito para o blog Radioactive Dreams, em agosto de 2010, e atualizado para o Dementia¹³ em janeiro de 2019.

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2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK (1983)

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O primeiro filme que assisto em 2019 é, obviamente, o fantástico 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK, um dos meus clássicos favoritos do ciclo “pós-apocalíptico” italiano dos anos 80, junto com FUGA DO BRONX e OS GUERREIROS DO BRONX, ambos de Enzo G. Castellari. Produções desesperadas em tentar lucrar ao máximo e aproveitar o sucesso internacional de FUGA DE NOVA YORK, de John Carpenter, e MAD MAX 2, de George Miller, entre outras coisas, mas que rendiam um manancial de pérolas absurdamente divertidas (em alguns casos). Eram os anos 80, enquanto o mundo caminhava para o fim da guerra fria, havia uma certa paranóia em relação a uma Terceira Guerra Mundial que acabou refletida e imaginada em filmes pós-apocalípticos como o do Carpenter e Miller. E é nessa tentativa de ganhar um trocado em cima do sucesso desses filmes, criando suas próprias versões, criando praticamente um gênero, que o ciclo italiano ficou marcado.

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No entanto, alguns desses filmes possuem tanta personalidade, que acabam também influenciando futuras produções. E acho que 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK pode se orgulhar de ter esse feito, uma vez que trata-se de uma versão italiana descarada de FUGA DE NOVA YORK, mas claramente inspirou a história de FILHOS DA ESPERANÇA, de 2006, do hoje consagrado diretor mexicano Alfonso Cuarón, com a busca do herói para encontrar e proteger a última mulher fértil num futuro distópico (com direito à um personagem que exibe proeminentemente “Guernica” de Picasso em sua parede)…

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Cena do filme FILHOS DA ESPERANÇA, de Alfonso Cuarón…

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…E uma cena de 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK. Coincidência? Acho que não.

A trama de 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK se passa vinte anos após o holocausto nuclear que praticamente devastou com o planeta. Os sobreviventes sofreram mutações e se tornaram inférteis. Há quinze anos não nasce um indivíduo nessa realidade. O guerreiro nômade Parsifal (Michael Sopkiw) é sequestrado a mando do presidente da Pan-Americana, uma confederação rebelde que luta contra os Eurac, que se intitularam vencedores da guerra. É explicado a Parsifal que estão planejando lançar uma espaçonave para realocar alguns indivíduos para Alpha Centauri, um conjunto de planetas com atmosfera habitável e é oferecido a ele um lugar na nave se aceitar a missão. A coisa consiste em adentrar as ruínas de NY para resgatar a única mulher fértil que restou. “Entrar em Nova York é fácil. Sair que é impossível“, diz o presidente interpretado pelo grande Edmund Purdon, numa sequência que remete logo de cara ao primeiro encontro de Lee Van Cleef e Kurt Russell no filme de Carpenter.

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Parsifal concorda, relutante, e vai acompanhado de dois outros membros rebeldes: Bronx (Paolo Maria Scalondro), um sujeito que perdeu sua família em NY durante a guerra e tem ódio mortal dos Eurac, e o misterioso Ratchet (Romano Puppo), um caolho que possui força sobre-humana. O resto de 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK se resume na missão desses aventureiros numa Nova York devastada, que é controlada pela tropa Euracs, esgueirando-se para não serem encontrados, algo impossível, o que acarreta numa dinâmica de ação que não deixa o filme parado, e aliando-se aos povos mutantes que vivem nas ruínas. Especialmente um anão, com o “criativo” nome de… Shorty (Louis Ecclesia).

A direção desse petardo é de Sergio Martino, um maestro relegado à condição de “menor”, por nunca ter o mesmo reconhecimento entre os mais cultuados do cinema de gênero italiano, como Lucio Fulci, Mario Bava e Dario Argento. Mas os autênticos admiradores desse tipo de cinema sabem de sua importância e legitimam seu imenso talento por colocar na tela exatamente o que seu público espera. Como já disse, é um filme que não diminui o ritmo em seus noventa e poucos minutos, o andamento das coisas em 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK é muito bom nesse sentido. O roteiro pode até não ser dos mais elaborados, com diálogos inspirados, mas mesmo nos trechos mais lentos, cuja impressão é de que vamos entrar num marasmo e nos aborrecer, Martino não demora para mostrar alguma situação absurda, apresentar personagens bizarros e jogar muita ação na tela, em sequências explosivas, lutas e tiroteios, com direito à um bocado de gore, olhos perfurados e cabeças explodindo.

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Algumas sequências que poderiam passar puramente de um xerox de FUGA DE NY acabam ganhando bastante personalidade nas mãos de Martino. Um bom exemplo é quando o grupo tenta fugir de NY num carro antigo, do século XX, através de um túnel “minado”, mais uma referência óbvia de Snake Pliskenss levando os seus, dirigindo pela ponte minada no climax do filme de Carpenter. Martino trabalha tantas ideias e incrementa tanto a ação, que a sua fuga acaba ganhando um novo sentido, tem sua própria força, sem ficar nada a dever ao filme, digamos, “homenageado”…

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Mas o grande contraste de Martino em relação ao filme de Carpenter é na construção do herói Parsifal. À princípio, temos um Snake de meia-tigela, cuspido e escarrado, com uma rebeldia latente e desprezo pelas autoridades, e totalmente desacreditado de que a raça humana mereça uma segunda chance com a possibilidade de uma mulher fértil em voltar a perpetuar o homem, como planeja o presidente. Mas onde o personagem de Kurt Russell permanece o individualista anárquico-pessimista-niilista até o fim, Parsifal se entrega aos sentimentos quando se apaixona por uma das habitantes das ruínas de NY. Isso muda tudo.

Sopkiw não é um Kurt Russell, obviamente, mas entrega uma atuação sólida em 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK, digno dos grandes heróis do cinema pós-apocalíptico italiano. Era a sua estreia no cinema, já tinha feito alguns trabalhos como modelo e Martino resolveu arriscar com o rapaz porque ficaria bem mais barato dentro do orçamento da produção, que já era apertado. Em entrevista, Martino fala que gostou de trabalhar com Sopkiw, que encaixou perfeitamente ao papel. E revela que estrelar um filme dele serviria de trampolim para qualquer ator iniciante. De fato, Sopkiw teve um breve momento de fama no meio dos anos 80, fez quatro filmes legais no período, mas logo depois resolveu abandonar a carreira e se dedicar à outros assuntos… Já comentei sobre Sopkiw no post sobre BLASTFIGHTER, de Lamberto Bava. Depois confiram aqui.

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Sem precisar gastar rios de dinheiro com um Franco Nero ou Giuliano Gemma, Martino pôde trabalhar com cuidado o visual, nos mínimos detalhes. Vale destacar, portanto, os efeitos especiais que abusam de miniaturas e maquetes, que são toscas sob um olhar mais exigente, mas que dão aquele charme a mais neste tipo de produção. Os figurinos, maquiagens dos mutantes – ou a cena em que um personagem precisa fazer uma cirurgia de colocação de olhos novos – e os cenários desse universo pós-apocalíptico também são caprichados. E o diretor aproveita bem desse material, dos close nas caras dos atores maquiados, com suas feridas putrefatas, ao bom uso do espaço físico na ação. O elenco também merece atenção, trazendo alguns bons nomes deste período do cinema popular italiano, como os já citados Romano Pupo, Edmund Purdon e o grande George Eastman, que rouba a cena com seu Big Ape, um mutante metade homem, metade macaco, que lidera uma trupe de seres bizarros.

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Portanto, o que temos aqui é uma obra genial, ou seja, uma picaretagem das boas do cinema de gênero italiano, que copia na cara dura o clássico de John Carpenter, FUGA DE NY, mas com tanta imaginação e personalidade, que acabou resultando em algo único, que sem dúvida alguma, o diretor mexicano Alfonso Cuarón usou de base para escrever FILHOS DA ESPERANÇA trinta anos depois. Uma última constatação é a influência de BLADE RUNNER, de Ridley Scott, em 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK, na lógica dos replicantes, de androides que se confundem com seres humanos e que estão entre os indivíduos que povoam o filme. E que, aliás, também se passa em 2019… Pelo visto, esses cineastas tinham uma ideia bem pessimista deste ano específico. Mas apesar do mundo não estar tão ruim quanto nessas visões de futuro, até que acertaram em alguns pontos. Mas vamos que vamos…