TONIGHT FOR SURE (1962)

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Se você cavucar o início de carreira de algumas figuras consagradas do cinema, pode ser que encontre alguns esqueletos enterrados. O diretor Francis Ford Coppola é um desses casos e, pouca gente sabe, mas muito antes de se tornar um dos principais autores do cinema americano pós-anos 70, com obras-primas grandiosas como O PODEROSO CHEFÃO e APOCALIPSE NOW, o sujeito já tinha uma filmografia cheia de produções questionáveis do cinema exploitation, B-Movies esquecidos e hoje pouco comentados, trabalhou até como pupilo de Roger Corman (inclusive o filme que dá nome ao blog, o horror DEMENTIA 13, é um trabalho pouco lembrado de Coppola). Mas nada que o diretor tenha que se envergonhar também, TONIGHT FOR SURE por exemplo, é bem melhor que um YOUTH WITHOUT YOUTH ou JACK, trabalhos que Coppola realizou já tendo seu nome celebrado.

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TONIGHT FOR SURE é um típico “Nudie“, gênero do sexploitation que surgiu no fim dos anos 50 no cinema americano e cuja principal função era explorar corpos femininos em completa nudez. É evidente que na época devia fazer alguns marmanjos correrem atrás desse tipo de material, mas vistos hoje, são filmes bem ingênuos, a maioria filmadas em campo de nudismo ou boates de striptease, sem erotizar muito as situações. Pepecas e manjubas nunca eram mostradas e o que se via era predominantemente seios e bundas balançados em jogos de vôlei, à beira de piscinas ou em apresentações burlescas de striptease… Curioso que um dos principais representantes na direção do gênero era uma mulher, Doris Wishman, que realizou um bom número de exemplares, como NUDE ON THE MOON. E, pois é, pode acreditar, é esse o tipo de filme que o Coppola fez por aqui.

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A trama é sobre dois sujeitos moralistas que se encontram e decidem lutar contra a crescente onda de luxúria no mundo. Um deles é um caipira que entra na cidade em um burro atrapalhando o trânsito, o outro é um dândi engomadinho da cidade grande. Com a intenção de algum tipo de desordem que repercuta na pouca-vergonha que o mundo se encontra, eles entram num Club de striptease antes do show começar e, na surdina, prendem algo na caixa de rede elétrica, programada para detonar à meia-noite.

Enquanto esperam pela detonação, eles se sentam na boate e trocam histórias sobre os males do pecado e das mulheres lascivas (e claro, enquanto estão tagarelando, garotas burlescas estão se exibindo no palco atrás deles e gradativamente eles vão se aproximando, sentando em mesas mais perto das mulheres que se apresentam). O caubói relata como um amigo passou a ter ilusões “terríveis” em que todas as mulheres ao seu redor estavam nuas. O outro conta sua história, se revelando um devasso que prega a moralidade como uma desculpa para bancar de voyeur num estúdio de fotografia Pin-Up.

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Com apenas uma hora de projeção, TONIGHT FOR SURE não possui nenhuma sutileza, os homens são caricatos e idiotas e as mulheres são carne. A única pretensão de Coppola aqui é criar situações para mostrar alguns peitos de fora. Só isso. A direção de Coppola, então com pouco mais de vinte anos, é pesada, com um lampejo ou outro de criatividade num ângulo ousado ou movimento de câmera (a fotografia é do grande Jack Hill, futuro mestre do exploitation americano e que na época era colega de classe de Coppola na UCLA), mas ninguém poderia prever que o mesmo sujeito fosse virar referência de autorismo dez anos depois, que ganharia o Oscar de melhor diretor, que venceria Cannes!

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Os atores são horríveis, o humor do filme é pastelão da pior qualidade e a produção é bem pobre, mas até que dá pra tirar um sarro e se divertir um bocadinho. E mais um detalhe positivo, Coppola pelo menos encontrou alguns mulheres bem mais apetitosas que as habituais habitantes que povoam os Nudies.

Mas no fim das contas, TONIGHT FOR SURE é só mais um exemplar mediano do gênero que eu nunca teria sequer contato caso não fosse dirigido pelo Coppola. Vale pela curiosidade para conhecer as raízes capengas de um grande mestre.

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THRILLER – UM TOP 10

Tava de papo com uns amigos e surgiu o assunto sobre o gênero conhecido como “thriller“. A princípio, por definição, um thriller seria um “suspense”, ou o suspense que não dá medo suficiente pra virar um filme de horror e nem movimentado o suficiente pra virar um filme ação. Mas acho que a melhor maneira de definir a coisa seria fazendo uma lista com o que eu chamo de thriller puro para entender a essência do gênero.

Para essa lista, com o thriller mais afunilado e específico, filmes que considero policiais/crime/neo-noir/ação, como DIRTY HARRY, GET CARTER e THE DRIVER deixei de fora, assim como suspenses com um pezinho no horror, tipo TUBARÃO, DELIVERANCE ou PLAY MISTY FOR ME. Não tô dizendo que não são thrillers, apenas não quero abranger tudo que as convenções consideram thriller.

Partindo disso tudo, meu top 10 thrillers seria mais ou menos isso aí… Ou seja lá o que eu quero dizer com isso tudo e com esse post.

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UM TIRO NA NOITE (Brian De Palma, 1981)

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O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (Fritz Lang, 1941)

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UM CORPO QUE CAI (Alfred Hitchcock, 1958)

01.UM TIRO NA NOITE (Blow Out), Brian de Palma
02.O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (Man Hunt), Fritz Lang
03.UM CORPO QUE CAI (Vertigo) ou JANELA INDISCRETA (Rear Window), Alfred Hitchcock
04.PROFISSÃO: REPÓRTER (Professione: Reporter) ou BLOW UP, Michelangelo Antonioni
05.A CONVERSAÇÃO (The Conversation), Francis Ford Coppola
06.O AMIGO AMERICANO (Der amerikanische Freund), Wim Wenders
07.O TERCEIRO HOMEM (The Third Man), Carol Reed
08.BUSCA FRENÉTICA (Frantic), Roman Polanski
09.ESPECIAIS EFEITOS (Special Effects), Larry Cohen
10.HARDCORE, Paul Schrader

HEREDITÁRIO (2018)

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Tenho visto e revisto um monte de coisa, filmes novos e velharias, mas e tempo pra escrever? Às vezes parece fazer mais sentido não escrever nada… E o blog vai sendo empurrado… Mas essa semana fui ao cinema e assisti a esse tal HEREDITÁRIO, do estreante Ari Aster, e acho que vale um pequeno comentário. É a nova sensação do horror que, embora eu tenha conseguido evitar saber qualquer coisa para ir “virgem” à sala de cinema, deixar-me surpreender, acompanhei as reações calorosas – algumas nem tanto – de amigos e que mexeram um bocado com a minha expectativa. Sabem como é, não é preciso muita coisa para alegrar este pobre coração, especialmente com um filme de horror. Mas HEREDITÁRIO é fantástico e não consegui desgrudar os olhos da tela durante toda a sessão.

Aster dirige bem para um estreante, é bom ficar de olho no sujeito. Tem noção de como trabalhar o tempo, os enquadramentos, como usar a trilha sonora, mas também o silêncio, e constrói uma atmosfera perturbadora em HEREDITÁRIO que me fascina. Gosto como o horror vai evoluindo dentro da trama de maneira gradual, subvertendo as expectativas, a partir de um drama familiar pesado que já é aterrorizante por natureza, com seu tom de tragédia, numa parábola sobre perda e degradação, cuja intensidade já deixaria vários filmes do gênero no chinelo. Isso até chegar num ponto em que a coisa descamba de vez para um horror mais explícito, mais hardcore. O ato final é de gelar a espinha.

Não é nenhuma obra-pima como alguns apontaram – compararam até com A BRUXA, que acho bem superior a este aqui e até tem algumas coisas no final que remetem um filme ao outro – mas não tenho muito o que reclamar, é uma obra redonda, muito bem pensada nos detalhes e alguns momentos são realmente memoráveis. A cena do acidente de carro, por exemplo, é irresistível, as aparições sutis, os sonhos… Gosto muito também da sequência na qual a mãe, interpretada pela Toni Collette, resolve fazer uma DR na mesa de jantar. Collette, aliás, está monstruosa e grande parte da força de HEREDITÁRIO é por causa da sua entrega apaixonada pela personagem. Seria pedir muito, à essa altura, uma indicação ao Oscar? De qualquer forma, recomendo. Um dos melhores filmes que vi este ano até o momento.

DUAS NOTÍCIAS: CPC UMES FILMES

a CPC UMES FILMES, que já vem fazendo um belíssimo trabalho de distribuição em DVD’s no Brasil, contemplando clássicos soviéticos e novidades do atual cinema russo, faz agora seu primeiro lançamento nos cinemas. Trata-se de ANNA KARENINA: A HISTÓRIA DE VRONSKY, que está em cartaz nos cinemas de São Paulo. Produção muito bem cuidada de 2017, dirigido por Karen Shakhnazarov, realizador de CIDADE DOS VENTOS, que já comentei por aqui, e atual presidente do principal estúdio da Rússia, a Mosfilm, o filme é mais uma adaptação do clássico de Tolstói e para quem é fã do material e se interessa pelo tema, é uma boa pedida para ver algo diferente da mesmice do circuito na tela grande. Confira a programação dos cinemas e não perca.

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E por falar em lançamento, a CPC UMES FILMES lança em Julho, em DVD, OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU, do diretor Emil Loteanu, o mesmo que realizou UM ACIDENTE DE CAÇA, que já comentei por aqui.

Segundo o site da CPC UMES FILMES, OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU é uma obra inteligente, com atmosfera fascinante, cuja ação transcorre nas estepes da Bessarábia, na periferia do Império Austro-Húngaro. Foi lançado em 1976 e teve mais de 64 milhões de espectadores nos cinemas da União Soviética na época. Com trilha musical de Evgeniy Doga, habitual colaborador de Loteanu, e baseado no conto de Gorky “Makar Chudra” (1892), o longa narra a tempestuosa história de amor entre a bela jovem Rada e o ladrão de cavalos Loyko Zobar.

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Em breve posto minhas impressões. O filme estará disponível a partir do dia 27/06 no site da CPC UMES FILMES e nas lojas parceiras. Clique aqui para conferir mais informações.

A PROFECIA III – O CONFLITO FINAL (1981)

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Um dos aspectos mais interessantes dos dois primeiros filmes da série A PROFECIA é que o diabo se personificava na forma de um garotinho, no caso do filme de 76, e um adolescente na continuação, fazendo com que o personagem sempre tivesse um ar de ingenuidade e ambiguidade, sem deixar de ser o Anticristo, causando o mal a todos ao seu redor. Em A PROFECIA III – O CONFLITO FINAL, Damien cresceu e virou o Sam Neill, e isso meio que tira um pouco da graça da figura. Não que o ator seja o problema, mas o personagem, o Anticristo que nos quer levar ao Armagedon, não passa de um adulto chato, mimado e virjão…

Neste terceiro capítulo, Damien herda tudo de todos que morreram pelo mal que irradia dele, administra o maior conglomerado do planeta e se torna o embaixador americano na Inglaterra, assim como seu “pai” no primeiro filme. Ou seja, o sujeito se torna um dos homens mais poderosos do mundo. Mas seu plano para dominar os homens segundo a tradição, digamos, bíblica da porra toda, nunca é claramente explicado, então a coisa funciona praticamente como qualquer outro político no cargo… Tipo um Trump ou qualquer outro imbecil que só quer ter o poder nas mãos.

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Enquanto isso, um bando de monges italianos conseguem se apoderar das famigeradas adagas sagradas que – sabemos desde o primeiro filme – são as únicas armas capazes de matar Damien. E assim, os monges planejam seu assassinato. Só que as tentativas de atentados contra o Anticristo é uma pior que a outra. Os planejamentos são péssimos, sempre tentando encurralar o sujeito para furar-lhe as costas com uma adaga. E sempre dá errado, porque esses monges são tão competentes quanto Os Três Patetas e acabam queimados vivos, atingidos por um raio e durante a tentativa mais lamentável, durante uma caçada às raposas, um deles é mortos por um bando de beegles.

Enquanto isso, a trama de A PROFECIA III tenta jogar no balaio o alinhamento de estrelas que traz a segunda vinda de Cristo, portanto Damien ordena que seu secretário pessoal, Don Gordon, mate todos os bebês nascidos na noite do alinhamento celestial. Isso leva a um monte de cenas bizarras envolvendo crianças sendo atropeladas por carros, afogadas e sufocadas. Para apimentar ainda mais a trama, um dos bebês suspeitos de ser o Nazareno é o recém-nascido do próprio Gordon, mas o filme nunca trabalha essa subtrama potencialmente interessante e acaba resolvendo a coisa de qualquer jeito…

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Outro detalhe que diminui A PROFECIA III em relação aos anteriores é que ficamos acostumados com um grande elenco, com rostos famosos. Aqui não temos ninguém de interessante no elenco, e apenas um bando de monges idiotas italianos. As cenas de mortes memoráveis pontuando a trama nos filmes anteriores também não rola muito por aqui. A maioria das mortes dos monges são bem sem graça. Pra não dizer que tudo é horrível nesse departamento, o suicídio de um embaixador no início do filme é um primor!

Sam Neill está bem como Anticristo… Quero dizer, ele se esforça pra fazer bem o que o roteiro exige, é convincente em interpretar o mal encarnado, fazendo preces para o diabo e blasfemando diante de uma cruz. Só que esse Anticristo que o filme o transformou é que não contribui muito para o filme. Basta ver a relação que ele cria com uma reporter pra notar que é um virjão, as tentativas de conquista dele são simplesmente constrangedoras. E o grande final de A PROFECIA III é um reflexo do que se tornou essa figura do Anticristo, com o tal “conflito final” do título se resumindo a Damien correndo por aí nas ruinas de um mosteiro gritando “Venha Nazareno!” até que lhe enfiam a adaga nas costas na maior facilidade… Então Jesus aparece por uns cinco segundos e depois aparecem uma citações bíblicas. E fim. Acabou…

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O diretor de A PROFECIA, Richard Donner, foi o produtor executivo deste aqui, que acabou não sendo mesmo o “Conflito Final”, já que nos anos 90 resolveram fazer mais uma sequência…

DAMIEN: A PROFECIA II (Damien: Omen 2, 1978)

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Com o sucesso de A PROFECIA, era óbvio que os produtores não iriam perder a chance de fazer uma continuação. Só que o diretor do original, Richard Donner, estava muito ocupado fazendo SUPERMAN. Chamaram o britânico Mike Hodges (GET CARTER), que por diferenças criativas acabou sendo demitido e substituído por Don Taylor, que nunca passou de um diretor bate-estaca de estúdio, sem muita personalidade. O roteirista que havia concebido o primeiro filme, David Seltzer, não quis se meter numa continuação, e é muito provável que as pessoas que o substituíram não tivessem na mesma vibe… O resultado de DAMIEN: A PROFECIA II está bem abaixo do anterior. Longe de ser ruim, é verdade, e não faz feio como uma continuação, mas me parece que falta uma certa classe e a sobriedade que faz o primeiro ser aquela maravilha que é.

De qualquer modo, valeu a pena rever DAMIEN: A PROFECIA II para refrescar a memória. E não se preocupem, este texto será bem menor que o anterior…Hehe!

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Damien (Jonathan Scott-Taylor), agora um adolescente, vive com seus tios e um inseparável primo, e não parece se lembrar dos acontecimentos trágicos que ocorreram em A PROFECIA. Ele é enviado para estudar numa escola militar, o que me parece um bom local para colocar o Anticristo, afinal, qualquer ambiente que envolva militares deve ser literalmente o inferno na terra…

O grande William Holden interpreta o irmão de Gregory Peck, que é agora o guardião legal de Damien e dono de um rico conglomerado empresarial. Como no primeiro filme, aos poucos coisas malignas e mortes misteriosas começam a cercar a família do sujeito, que demora a acreditar que possui o filho do demo dentro de casa.

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Desta vez Damien tem um corvo de estimação que faz com que uma tia velhota (interpretada pela grande Sylvia Sydney) tenha um ataque cardíaco e arranca os globos oculares de uma repórter intrometida, que é atropelada por um caminhão (numa das piores cenas de atropelamento que eu já vi…). Há também uma boa sequência de afogamento num lago gelado, onde um sujeito fica preso debaixo do gelo… Todas essas cenas ainda dão impressão de acidentes e a ambiguidade que havia em A PROFECIA. Mas só até determinado ponto. Depois, A PROFECIA II abre as pernas para o sobrenatural e deixa claro que uma força diabólica é que está eliminando os desafetos do garoto. A sequência mais marcante é quando um médico é cortado ao meio pelo cabo de um elevador. A cena do trem também é bem tensa e explicita o mal de Damien e o final, mais uma vez niilista, é especialmente memorável.

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Uma das coisas que gosto em A PROFECIA II é que é mais focado em Damien, e é interessante acompanhá-lo nas descobertas de sua verdadeira natureza. Mas me parece que o filme não consegue desenvolver completamente a complexidade desse processo em todo o seu potencial, já que Damien basicamente aceita que ele é o Anticristo muito fácil, sem afetar muito sua vida adolescente. O grito perturbador na cena em que ele derrete o cérebro de seu primo é a única sequência que trabalham um pouco isso. Um outro problema é que por mais focado em Damien, A PROFECIA II apresenta personagens demais, alguns totalmente desnecessários para o que realmente interessa na trama… Até mesmo o Holden acaba sendo pouco aproveitado, longe de ter a força que Peck teve no filme anterior.

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Mas ainda temos a brilhante trilha de Jerry Goldsmith pontuando alguns momentos, e o elenco mais uma vez merece destaque. Lee Grant faz a tia defensora de Damien. O grande Lance Henriksen também faz um bom trabalho na sua participação, Scott-Taylor se sai bem como Damien adolescente – com certas expressões faciais de dar calafrios – e, bom, William Holden dispensa apresentações. Como disse no texto do primeiro filme, Holden recusou o papel que acabou parando nas mãos de Peck porque aparentemente não gosta de filmes de horror e não queria trabalhar em um. Ainda bem, não dá pra pensar em A PROFECIA sem o Peck. Mas como o original foi um enorme sucesso, resolveu encarar a continuação. Valeu também, entrega um ótimo trabalho, mas merecia um roteiro melhorzinho.

Sem a carga atmosférica aterradora, a elegância da direção de Donner, fica difícil comparar os dois filmes. A PROFECIA II perde feio. Mas ainda é um bom horror, com algumas boas atuações e momentos de tensão e mortes que fazem a sessão não virar um desperdício. Veremos como vai ser o terceiro agora…

A PROFECIA (The Omen, 1976)

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Revi depois de séculos A PROFECIA. Filmaço demais… Elenco de primeira, produção impecável, a trilha sonora de Jerry Goldsmith, sequências aterrorizantes antológicas… Além de ser um filme que possui todas as características de um horror específico de classe e elegância no qual havia começado a surgir em meados dos anos 60, quando o gênero finalmente foi levado à sério pelos grandes estúdios após o sucesso de obras como O BEBÊ DE ROSEMARY e O EXORCISTA.

E foi depois de assistir ao clássico de William Friedkin que o produtor Harvey Bernhardt teve a ideia de realizar uma obra de horror com bases religiosas, mas que pudesse bater de frente com O EXORCISTA. Sim, o cara não queria apenas aproveitar o sucesso do horror de Friedkin, mas produzir uma obra que tivesse a mesma importância no gênero.

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Quando Bernhardt se aproximou do roteirista David Seltzer (A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE) com a ideia de fazer um horror religioso, o roteirista ficou relutante porque sequer havia lido a Bíblia na vida. Mas foi exatamente por aí que ele começou sua pesquisa, um material pelo qual acabou se tornando fã. Seltzer ficou fascinado especialmente pelo livro de Apocalipse, as passagens que falam do surgimento do Anticristo, o contexto pelo qual ele nasceria, que tipo de família teria, o número da besta, 666, e assim o roteiro de A PROFECIA foi tomando forma.

Demorou seis semanas para Seltzer terminar o script. Bernhardt finalmente pode andar pelos estúdios com o projeto debaixo do braço, mas era sempre recusado com o consenso de que o material era muito assustador… Acabou parando na Warner ainda em 1974, mas quando O EXORCISTA II: O HEREGE entrou no radar da produtora, acharam que A PROFECIA era muito similar e acabou sendo engavetado por um ano, período que se a produtora não começasse os trabalhos, o roteiro ficava livre novamente. E foi o que aconteceu. Curioso que a continuação d’O EXORCISTA só acabou lançado em 1977, um ano depois de A PROFECIA.

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O diretor Richard Donner papeando com o grande Gregory Peck

É que os caras agiram rápido. O próximo movimento foi enviar o roteiro à Richard Donner, que viu potencial na coisa e botou na cabeça que queria dirigir o projeto de qualquer maneira. Donner já era um veterano da televisão na época, mas em produções para cinema ainda não tinha feito nada relevante (o sujeito depois se tornaria um dos grandes artesões de Hollywood, com SUPERMAN e a série MÁQUINA MORTÍFERA no currículo), mas ele e o produtor Alan Ladd Jr. acabaram assumindo à frente da produção de A PROFECIA, sob a batuta da Fox.

Como todo bom e velho set de produção de filmes de horror demoníaco, a coisa parecia meio amaldiçoada e alguns eventos sinistros começaram a ocorrer com membros da equipe e atores durante as filmagens. Vale a pena listar como curiosidade: Gregory Peck e Seltzer, por exemplo, pegaram aviões separados para ir as filmagens na Inglaterra e ambos os aviões foram atingidos por um raio. O mesmo quase aconteceu com Bernhard, que estava em Roma, quando um raio por pouco não lhe atinge a cabeça. Os rottweilers contratados para o filme atacaram seus treinadores. Um hotel no qual Donner estava hospedado foi bombardeado pelo IRA! E o sujeito também foi atingido por um carro enquanto atravessava a rua. Depois que Peck cancelou um vôo para Israel, o avião que ele viajaria caiu, matando todos a bordo…Brrrr Dentre outras coisas do tipo.

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Bom, vamos ao filme. Na trama de A PROFECIA, o filho do embaixador americano, Robert Thorn (Gregory Peck) morre no parto. Para evitar o sofrimento da mulher (Lee Remick), ele acaba adotando ilegalmente um menino de um padre que estava no local, e lhe dá o nome de Damien (Harvey Stephens) para criar como seu próprio filho. O único problema é que o moleque, na verdade, é o filho do Demo, o Anticristo em carne e osso…

Claro que o embaixador não vai acreditar nisso de primeira. Mas então, no aniversário de Damien, sua babá se pendura pelo pescoço na frente de uma infinidade de crianças, um padre que tentava alertar a Thorn que seu filho é o Ziza acaba empalado por um pára-raios, sua esposa quase quebra o pescoço ao “cair acidentalmente”, a cabeça de um fotógrafo que ajuda Thorn é cortada por uma folha de vidro e, por fim, o protagonista encontra um 666 marcado no couro cabeludo do moleque. Aí sim, Thorn finalmente está convencido de que seu filho é o Anticristo.

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E uma ideia que gosto neste primeiro filme da série A PROFECIA é que Damien é muito novo para entender sua essência maligna, que ele é o Anticristo, o terrível mal que causa às pessoas. Ele é simplesmente controlado por uma força diabólica e inocentemente não sabe. O que faz do personagem de Peck ainda mais complexo, por carregar o peso da culpa em tentar fazer algo bom para sua esposa, mas que se torna também o seu principal pecado.

Originalmente, o roteiro de Seltzer era bem mais explícito no tom sobrenatural, com direito à criaturas demoníacas aparecendo na tela. Mas decidiram que o roteiro precisava de uma pequena “podada” e chegaram à conclusão de que o filme deveria ser o mais realista possível, que o horror deveria vir da paranoia de um pai em relação ao filho e todos os eventos aterrorizantes deveriam ter uma ambiguidade. A PROFECIA se constrói de modo a encorajar a dúvida no espectador… Será que foi um acidente, uma coincidência, ou foi mesmo obra do tinhoso? Até que se chegasse no limite… É meio que uma recusa, no bom sentido e para benefício do filme, do uso de elementos sobrenaturais para deixar o espectador decidir se o protagonista está louco ou se há realmente algo demoníaco no garoto. Todas as mortes do filme podem ser plausivelmente explicadas e nunca se escancara para o fantástico. As continuações não tiveram a mesma sensibilidade e eliminam qualquer vestígio de ambiguidade.

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Mas nada impede de termos alguns momentos aterrorizantes, como o ataque dos babuínos no carro da senhora Thorn; a sequência que Thorn e o fotógrafo vão num cemitério e acabam rodeados de rottweilers; ou toda a sequência final em que Thorn precisa tirar Damien de casa e sacrificá-lo numa igreja, mas não sem antes encarar a babá (Billie Whitelaw), uma adoradora do Diabo que morreria antes de deixar que Thorn faça qualquer mal à criança…São alguns exemplos de gelar a espinha.

No elenco, depois que Charlton Heston, William Holden (que ironicamente estrelou a continuação em 1978, DAMIEN: THE OMEN II) e Roy Scheider recusaram o papel, Gregory Peck achou que seria uma boa aceitar fazer um pequeno filme de terror e tentar se libertar de um trauma pessoal que estava vivendo depois do suicídio de seu filho. E Peck é absolutamente vital para o impacto de A PROFECIA. É um astro de longa data mais conhecido por sua interpretação de figuras de autoridade reconfortantes, como o advogado em O SOL É PARA TODOS e agora o vemos aqui, precisando empunhar uma adaga mística para matar o Anticristo, que por um acaso é um moleque que ele criou… À medida que seu personagem passa por uma transformação gradual de sólida integridade à crescente paranoia e medo, o filme se aprofunda num arrepio palpável. É impossível imaginar o mesmo impacto com outro ator.

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Todo o elenco merece destaque. A adorável Lee Remick (ANATOMIA DE UM CRIME) é a escolha perfeita como a esposa de Peck, e embora seu papel não permita tanto tempo de tela, ela interpreta a desintegração mental gradual da personagem muito bem. David Warner (STRAW DOGS) tem uma boa participação como um fotógrafo que se depara com um fenômeno estranho e resolve ajudar o protagonista. Acrescenta muito a um personagem que certamente não teria muito peso na trama, mas acaba tendo uma química forte com Peck. Billie Whitelaw está absurdamente sinistra como a babá do Inferno, enquanto Patrick Troughton chama a atenção como o padre perturbado que avisa Thorn sobre o perigo iminente. Leo McKern e Martin Benson também brilham em pequenos papéis.

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Um dos mais memoráveis, no entanto, é o pequeno Harvey Stephens como Damien. É um belo retrato da inocência e da malevolência num rosto angelical, e ele se mostra muito hábil em lidar com as diferentes facetas de seu personagem.

A longa experiência de Richard Donner na televisão deu a ele as condições que ele precisava para trazer substância para o projeto, mas também mostra um tremendo talento para o artesanato visual, fazendo uso inspirado da tela larga. Sua abordagem sensata à história, mais focada no clima e na tensão atmosférica impede também que o filme se torne grosseiro ou descambe para o exploitation, e até mesmo as célebres cenas das mortes, como o empalamento do padre e a decapitação do fotógrafo em câmera lenta ao estilo Peckinpah, são tratadas com bom gosto e moderação.

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Donner também demonstra muita noção de ritmo e conduz o filme num compasso lento mas sem excessos, sem tirar o ânimo do espectador em momento algum ou perder o foco da tensão da trama. E não dá pra terminar este texto sem mencionar a maravilhosa trilha sonora de Jerry Goldsmith, que acabou levando o Oscar daquele ano, desbancando Bernard Herrmann com sua trilha para Taxi Driver. Um canto coral apocalíptico arrepiante e poderoso que se encaixa perfeitamente no tom do filme. E Donner soube como fazer tudo funcionar lindamente.

O filme teve três continuações, as duas primeiras, DAMIEN: A PROFECIA 2 e A PROFECIA III: CONFLITO FINAL foram parar no cinema, e uma última, mais obscura, OMEN IV: THE AWAKENING foi feita para a TV já nos anos 90. Preciso rever a parte II e III para emitir qualquer opinião, mas essa quarta parte nunca encontrei para ver e me parece um produto bem picareta tentando resgatar a série… Mas só vendo mesmo pra saber.

Recentemente, A PROFECIA passou na tela grande, nesses clássicos que a rede Cinemark exibe mensalmente. Eu acabei perdendo, vê-lo no cinema provavelmente teria um impacto ainda maior. Mas fica a recomendação de um grande filme de horror dramático e apocalíptico que merece sempre ser visto e revisto.

GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER (1964)

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Vi outro Godzilla. Tô ficando viciando nesses filmes de monstro japoneses, também conhecidos como filmes de monstros de roupa de borracha destruidores de maquetes. Tenho assistido aos poucos, devagar quase parando, os tempos atuais não me permitem assistir tudo de uma vez, mas tá bacana acompanhar essa franquia em sequência e perceber a progressão de cada produção, como cada obra se esforça para superar o filme anterior especialmente em termos de destruição e grandiosidade.

Em GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER, o diretor Ishiro Honda e sua turma chutaram o pau da barraca e colocaram quatro monstros no mesmo filme (um deles o Godzilla), que não apenas lutam entre si, mas também se unem para encarar um inimigo em comum, que neste caso é Ghidorah, o monstro espacial de três cabeças. E essa é uma fórmula que vai marcar a franquia para sempre, que passa a povoar cada filme da série com o maior número de monstros possíveis em alianças e tretas em escalas gigantescas.

bscap0184bscap0181A trama começa com uma chuva de meteoros que chamam a atenção da população que observa os céus maravilhado. Um meteorito específico cai numa região montanhosa e intriga os cientistas com suas propriedades magnéticas poderosas. Numa história paralela a essa, a princesa de uma pequena nação é misteriosamente poupada da morte, saltando instantes antes de seu avião explodir no ar. Quando a garota atordoada, que milagrosamente sobreviveu à queda devido a uma força alienígena, aparece em público, ela sofre de amnésia e fala para todos que veio de outro planeta. Além disso, a moça começa a fazer premonições, como a que Godzilla e Rodan irão ressurgir e causarão destruição mais uma vez.

Mas o verdadeiro problema é um monstro do espaço chamado Ghidorah, que ela alerta com mais ênfase, dizendo ser capaz de destruir toda a raça humana. Eventualmente, o tal meteorito ultra magnético que caiu nas montanhas se abre e liberta o grandioso Ghidorah.

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Em algum lugar no Japão, Godzilla e Rodan aparecem e começam a brigar. Mothra (que eu já apresentei aqui no blog) intervém na briga e pede aos outros dois monstros para que ajudem a defender a humanidade do monstro espacial de três cabeças. GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER marca portanto um importante ponto de virada na história da série Godzilla. Afinal, é aqui que o famoso monstro japonês se torna um defensor da raça humana… Claro, na cena em que surge ele explode um navio cheio de inocentes tripulantes, mas no decorrer da trama acaba convencido a virar a casaca… Então, no fim das contas temos Godzilla, Mothra e Rodan vs. Ghidorah. Parece covardia, mas Ghidorah é foda pra cacete e daria uma surra em qualquer um deles caso resolvesse bancar o fodão sozinho…

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A subtrama com os humanos também evolui e se desdobra num thriller de ação interessante com a descoberta de que o avião da princesa fora sabotado. Como ela ainda se contra viva, mesmo com amnésia, há toda uma conspiração para matá-la e assassinos profissionais são enviados com esse objetivo. Um policial resolve se meter à guarda-costas da moça, o que nos leva a algumas sequências rápidas de tiroteios em meio ao festival de destruição de cidades em miniatura causada pelos monstrengos.

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Godzilla e Mothra são duas figuras já conhecidas por aqui, embora este último só compareça em GHIDORAH na sua forma de larva, do jeito que termina o filme anterior, MOTHRA VS GODZILLA. Quem faz estreia na série é Rodan, que já havia estrelado seu próprio kaiju, RODAN (1956), também dirigido por Honda, e Ghidorah, que acaba por ser um dos mais poderosos vilões dentre os quais Godzilla e sua turma tiveram que encarar. Mesmo que demore um pouco para que todos os kaijus apareçam juntos na tela e comecem a esmagar as coisas e bater uns nos outros, ainda temos sempre alguns momentos absurdos proposto pelo roteiro que, apesar de risíveis e altamente questionáveis, é o que fazem a obra ser ainda mais divertida, como a sequência em que Mothra consegue interferir na batalha entre Godzilla e Rodan para convencê-los de encarar Ghidorah, enquanto as duas gêmeas em miniatura (sim, elas estão de volta!) narram o que os monstros estão falando… Desses momentos inacreditáveis que de tão constrangedor acaba por ser também hilário!

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No comando da coisa toda, Ishiro Honda manda bem novamente nas sequências de pancadaria de kaijus, abusando de efeitos especiais cada vez melhores e miniaturas cada vez mais realistas sendo destruídas enquanto os monstros trocam golpes e raios, com um trabalho de câmera bem legal, enquadramentos tortos, planos abertos, à distância, que dão noção da grandiosidade dessas batalhas…

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GODZILLA (1954) ainda pode ser o melhor exemplar, com sua seriedade e um contexto histórico relevante, e fica evidente que nenhuma das sequências são refinadas em termos de roteiro, narrativa e atuações, como o clássico que deu origem a isso tudo, mas isso não importa muito. Esses filmes são sobre monstros destruindo miniaturas e trocando socos entre si. E a esse respeito, GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER definitivamente não decepciona, especialmente por Honda acertar em cheio ao escalar vários monstros nipônicos para tretarem num único filme, o que acaba por ser um registro importante de uma época onde a imaginação e a inocência eram cruciais para encantar o público. Tá certo que tudo isso não passou de um ensaio para o que estaria por vir, já que em 1968, Honda ainda faria um compêndio de monstros ainda maior, em DESTROY ALL MONSTERS. Mas a gente ainda chega lá.