BUÑUEL #2: A IDADE DO OURO (1930)

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Buñuel passando por aqui. Comentei no último post sobre um UM CÃO ANDALUZ, que causou certa agitação quando foi lançado, como é notório. É difícil ficar indiferente diante da grandeza subversiva deste primeiro trabalho do espanhol até mesmo hoje, passados mais de 90 anos. Um desses marcos que serviu de influência àqueles que buscavam inspiração para uma vanguarda cinematográfica. Mas há quem diga que foi apenas um aquecimento para o que estava por vir logo à seguir: A IDADE DO OURO.

Concordo em partes. É difícil adjetivar UM CÃO ANDALUZ como um aquecimento. Por outro lado, A IDADE DO OURO realmente surge como um progresso do talento de Buñuel como artista, até porque este aqui é um trabalho bem mais pessoal. Ainda que seja divulgado como a segunda parceria entre Buñuel e Salvador Dalí, há muito pouco do artista plástico por aqui.

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Assim que a produção iniciou, Buñuel e Dalí se desentenderam, o diretor acabou limando as ideias de Dalí, que acabou se recusando a ter qualquer coisa a ver com a realização do filme. Rola até boatos que no primeiro dia de filmagem, Buñuel perseguiu Dalí no set com um martelo… Não duvido de nada vindo de alguém que encheu os bolsos de pedras para se defender de uma possível reação agressiva do público na estreia de UM CÃO ANDALUZ… Pra não dizer que Dalí não fez nada, em sua biografia Buñuel assume que há uma cena no filme que foi escrita pelo pintor.

Sem muita contribuição de Dalí, e com uma hora de duração para fazer suas maluquices, é possível perceber de cara algumas diferenças em relação ao seu trabalho anterior. A IDADE DO OURO possui uma lógica narrativa relativamente menos irracional. Ou seja, por mais inserido no movimento surrealista, existe uma história definida que Buñuel desejava contar. E se UM CÃO ANDALUZ não tinha nada a ser interpretado pela sua pureza na falta de lógica, aqui os simbolismos representam coisas, existem alvos a serem alvejados. É principalmente uma sátira sobre os costumes morais e sociais burgueses e um ataque feroz à igreja católica. ❤

O filme começa como um documentário sobre escorpiões, dando atenção especial às seções da cauda do bicho, cuja sexta seção é a bolsa cheia de veneno. Com algum esforço, talvez dê para delinear A IDADE DO OURO em seis seções, e igualar a seção final como a mais espinhosa – uma espécie de recriação dos “120 Dias de Sodoma“, de Sade, mas com uma figura parecida com Jesus Cristo emergindo cansado de uma orgia – como o golpe final desta obra-prima iconoclasta.

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Provavelmente, a coisa mais consistente que temos de uma trama é o retrato bizarro de um homem e uma mulher que se apaixonam e repetidamente tentam se reunir e consumar essa paixão.  Em outras palavras, eles querem é sexo! Mas são continuamente impedidos de fazê-lo por membros da respeitável sociedade burguesa. Esses que até hoje nos causam problemas, como por exemplo impedir o quadro da Banheira do Gugu no início da década passada… Bando de moralistas filhos da p@#$%!

Bom, a multidão prende o sujeito que só queria esvaziar o saco, e que já estava rolando na lama com sua amada, e ele responde com atos de selvageria para minar sua moralidade: chuta um cachorro, esmaga um besouro, espanca um cego, pisoteia um violino e até estapeia uma mulher da alta sociedade numa festa da aristocracia. Esses atos selvagens só conectam cada vez mais o casal apaixonado, que não consegue manter as mãos e as línguas longe um do outro… Ou dos pés de uma estátua, numa das imagens mais icônicas de A IDADE DO OURO.

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Toda essa narrativa vem frequentemente acompanhadas por imagens estranhas e surreais, que ainda conservam um incrível e inquietante poder de nos impressionar nos dias de hoje: a mulher que espanta uma vaca da sua cama em sua casa de classe alta, o jardineiro que dispara com uma espingarda arbitrariamente e mata seu filho, o protagonista que joga vários objetos – simbólicos ou não – de uma janela, incluindo uma árvore em chamas, uma girafa e, para alegria da igreja católica, um bispo. E o tal final, que é uma das melhores coisas do filme, que coloca Jesus saindo do castelo dos 120 dias de Sodoma depois de participar de uma orgia.

Todo o tipo de simbolismo possível que Buñuel pudesse conceber para atacar a igreja católica ou a burguesia foram utilizados aqui. Não é a toa que a IDADE DO OURO ficou banido por décadas em alguns países e seu diretor excomungado… Filme altamente recomendado principalmente para os iconoclastas de plantão que não tem problema com a abordagem de britadeira de Buñuel à sua sátira mordaz.

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