DERSU UZALA EM DVD – CPC UMES FILMES

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No ano em que se completa vinte anos da morte do diretor japonês Akira Kurosawa, a CPC UMES FILMES está lançando DERSU UZALA, produzido pela Mosfilm, numa bela edição restaurada. No final do ano passado, publiquei por aqui algumas impressões dessa obra-prima quando vi na mostra de cinema soviético organizado pela própria CPC UMES FILMES e mal posso esperar para rever em DVD. Vai ficar bonito na estante. Em breve trago mais detalhes dessa edição.

DERSU UZALA já está disponível na loja virtual da distribuidora, que vem fazendo um dos melhores trabalhos de curadoria home video no Brasil, com filmes que realmente valem a pena ter na coleção. Clique aqui para adquirir o seu!

E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

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BUÑUEL #2: A IDADE DO OURO (1930)

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Buñuel passando por aqui. Comentei no último post sobre um UM CÃO ANDALUZ, que causou certa agitação quando foi lançado, como é notório. É difícil ficar indiferente diante da grandeza subversiva deste primeiro trabalho do espanhol até mesmo hoje, passados mais de 90 anos. Um desses marcos que serviu de influência àqueles que buscavam inspiração para uma vanguarda cinematográfica. Mas há quem diga que foi apenas um aquecimento para o que estava por vir logo à seguir: A IDADE DO OURO.

Concordo em partes. É difícil adjetivar UM CÃO ANDALUZ como um aquecimento. Por outro lado, A IDADE DO OURO realmente surge como um progresso do talento de Buñuel como artista, até porque este aqui é um trabalho bem mais pessoal. Ainda que seja divulgado como a segunda parceria entre Buñuel e Salvador Dalí, há muito pouco do artista plástico por aqui.

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Assim que a produção iniciou, Buñuel e Dalí se desentenderam, o diretor acabou limando as ideias de Dalí, que acabou se recusando a ter qualquer coisa a ver com a realização do filme. Rola até boatos que no primeiro dia de filmagem, Buñuel perseguiu Dalí no set com um martelo… Não duvido de nada vindo de alguém que encheu os bolsos de pedras para se defender de uma possível reação agressiva do público na estreia de UM CÃO ANDALUZ… Pra não dizer que Dalí não fez nada, em sua biografia Buñuel assume que há uma cena no filme que foi escrita pelo pintor.

Sem muita contribuição de Dalí, e com uma hora de duração para fazer suas maluquices, é possível perceber de cara algumas diferenças em relação ao seu trabalho anterior. A IDADE DO OURO possui uma lógica narrativa relativamente menos irracional. Ou seja, por mais inserido no movimento surrealista, existe uma história definida que Buñuel desejava contar. E se UM CÃO ANDALUZ não tinha nada a ser interpretado pela sua pureza na falta de lógica, aqui os simbolismos representam coisas, existem alvos a serem alvejados. É principalmente uma sátira sobre os costumes morais e sociais burgueses e um ataque feroz à igreja católica. ❤

O filme começa como um documentário sobre escorpiões, dando atenção especial às seções da cauda do bicho, cuja sexta seção é a bolsa cheia de veneno. Com algum esforço, talvez dê para delinear A IDADE DO OURO em seis seções, e igualar a seção final como a mais espinhosa – uma espécie de recriação dos “120 Dias de Sodoma“, de Sade, mas com uma figura parecida com Jesus Cristo emergindo cansado de uma orgia – como o golpe final desta obra-prima iconoclasta.

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Provavelmente, a coisa mais consistente que temos de uma trama é o retrato bizarro de um homem e uma mulher que se apaixonam e repetidamente tentam se reunir e consumar essa paixão.  Em outras palavras, eles querem é sexo! Mas são continuamente impedidos de fazê-lo por membros da respeitável sociedade burguesa. Esses que até hoje nos causam problemas, como por exemplo impedir o quadro da Banheira do Gugu no início da década passada… Bando de moralistas filhos da p@#$%!

Bom, a multidão prende o sujeito que só queria esvaziar o saco, e que já estava rolando na lama com sua amada, e ele responde com atos de selvageria para minar sua moralidade: chuta um cachorro, esmaga um besouro, espanca um cego, pisoteia um violino e até estapeia uma mulher da alta sociedade numa festa da aristocracia. Esses atos selvagens só conectam cada vez mais o casal apaixonado, que não consegue manter as mãos e as línguas longe um do outro… Ou dos pés de uma estátua, numa das imagens mais icônicas de A IDADE DO OURO.

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Toda essa narrativa vem frequentemente acompanhadas por imagens estranhas e surreais, que ainda conservam um incrível e inquietante poder de nos impressionar nos dias de hoje: a mulher que espanta uma vaca da sua cama em sua casa de classe alta, o jardineiro que dispara com uma espingarda arbitrariamente e mata seu filho, o protagonista que joga vários objetos – simbólicos ou não – de uma janela, incluindo uma árvore em chamas, uma girafa e, para alegria da igreja católica, um bispo. E o tal final, que é uma das melhores coisas do filme, que coloca Jesus saindo do castelo dos 120 dias de Sodoma depois de participar de uma orgia.

Todo o tipo de simbolismo possível que Buñuel pudesse conceber para atacar a igreja católica ou a burguesia foram utilizados aqui. Não é a toa que a IDADE DO OURO ficou banido por décadas em alguns países e seu diretor excomungado… Filme altamente recomendado principalmente para os iconoclastas de plantão que não tem problema com a abordagem de britadeira de Buñuel à sua sátira mordaz.

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BUÑUEL #1: UM CÃO ANDALUZ (1929)

Tava revendo no youtube UM CÃO ANDALUZ, primeiro filme do espanhol Luis Buñuel, um curta tão fundamental para qualquer cidadão que tenha o mínimo de interesse pelo cinema e, caramba, lá se vão praticamente noventa anos de existência desta pequena obra-prima… Ainda hoje, revendo essa merda, as imagens me impressionam tanto que resolvi tentar dar uma peregrinada na obra do diretor. A última vez que fiz isso à sério aqui no blog foi com o Don Siegel, há uns dois anos, e agora resolvi que quero homenagear Luis Buñuel. Um desafio, eu sei, custe o tempo que custar, tempo que anda curto pra cacete ultimamente, veremos como vai ser isso…

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Apesar de UM CÃO ANDALUZ ter o prestígio como obra surrealista, não vale a pena reduzir Buñuel apenas à alcunha de “mestre do surrealismo”, seria fechar as portas para uma variedade de significados que cada um de seus filmes que eu vi até agora emana de maneira muito própria. Mas aqui, neste seu primeiro trabalho, é impossível fugir desse movimento, é de longe o filme surrealista mais conhecido, em parte devido a participação do pintor surrealista de Salvador Dali na sua concepção, mas também por causa de imagens específicas que nunca parecem deixar a nossa consciência cinematográfica.

É impossível também explicar o que se trata UM CÃO ANDALUZ, apesar de todas as interpretações freudianas encontradas em críticas espalhadas por aí. Prefiro acreditar na insistência do próprio Buñuel de que não há nenhum significado por aqui, mas cuja inspiração eram os elementos irracionais coletados dos seus sonhos e do seu co-autor, Dalí.

Como Buñuel explicou certa vez: “Nossa única regra (ao escrever o roteiro) era muito simples: nenhuma ideia ou imagem que pudesse se prestar a uma explicação racional de qualquer tipo seria aceita. Tínhamos que abrir todas as portas para o irracional e ficar apenas aquelas imagens que nos surpreenderam, sem tentar explicar o porquê.

Acima de tudo, UM CÃO ANDALUZ representa uma consciência imagética que penetra em nossa consciência e dá uma noção do que os jovens surrealistas estavam fazendo no período em ressignificar as convenções artísticas e, no caso específico de Buñuel, subverter agressivamente a forma e a estrutura do cinema.

A coerência narrativa, por exemplo, está longe de ser o foco por aqui, o que já era absurdamente ousado; as cenas se contrapõem como um fluxo de consciência, e realmente há uma influência das teorias psicanalíticas de Freud, mas não é algo fechado a ser compreendido. Se a sequência de eventos em forma de sonho não faz nenhum tipo de sentido convencional, o filme ainda tem substância visual suficiente para envolver e assombrar os espectadores – como um sonho. E se até hoje algumas imagens conseguem impactar, imaginem o tapa na cara que deve ter sido em 1929.

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Um bom exemplo é logo no início, a notória cena da lua sendo cortada por uma nuvem, em transição para um globo ocular de uma mulher sendo aberto à navalha – foi utilizado um bezerro morto na filmagem, mas imagem que fica surpreende ainda hoje…

O filme é uma série de gags surrealistas, como já disse, retiradas dos sonhos dos realizadores, e que vão se amontoando ao longo de uma narrativa sem qualquer linearidade ou lógica. A navalha é a mais impressionante, é uma das imagens mais usadas para representar UM CÃO ANDALUZ,  mas pra mim, a cena mais marcante é a do homem com as mãos no seio da mulher, cuja face, numa espécie de êxtase do orgasmo, se confunde com a de uma espécie de zumbi, um morto-vivo… Outras sequências que me vem à mente de forma aleatória é a da mão que brotam formigas ou a do sujeito puxando penosamente dois pianos contendo um burro morto em cada um e com dois sacerdotes sendo arrastados no meio disso tudo (um deles é o próprio Dalí). Buñuel também aparece, é o fumante que surge na cena de abertura, que corta o olho da mulher com a navalha.

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A primeira exibição de UM CÃO ANDALUZ teve uma audiência cheia de notáveis, incluindo Pablo Picasso, Jean Cocteau e todo o grupo surrealista de André Breton. A recepção positiva do público ao filme surpreendeu Buñuel, que ficou aliviado por não haver violência, já que tinha enchido os bolsos de pedras, caso fosse necessário enfrentar uma plateia enfurecida. Dalí, pelo contrário, ficou desapontado, sentindo que a reação do público fez a noite “menos emocionante”.

Quem nunca viu, assista, não passa de 20 minutos. Para facilitar, segue UM CÃO ANDALUZ na íntegra:

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.11: AND WHEN THE SKY WAS OPENED (1959)

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AND WHEN THE SKY WAS OPENED foi realizado quando a chamada corrida espacial estava à pleno vapor. O homem ainda não havia saído da estratosfera terrestre – algo que só viria a acontecer dois anos depois, em 1961, ironicamente com a Rússia saindo na frente com o astronauta Yuri Gagarin… Mas antes disso, os americanos ainda sonhavam em ser os primeiros a chegar tão longe. O que era um material fértil para a literatura sci-fi e filmes e séries de ficção científica. Óbvio que uma série como ALÉM DA IMAGINAÇÃO não ficaria de fora.

Quando o criador da série e principal roteirista, Rod Serling, escreveu o script de AND WHEN THE SKY WAS OPENED, ninguém poderia ter certeza do que aconteceria quando os homens se aventurassem no espaço. E toda a trama, que é intrigante e segura o espectador do início ao fim, gira em torno da exploração do pavor pelo desconhecido.

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Três astronautas retornam do primeiro vôo espacial realizado nos EUA. Major Gart (Jim Hutton) é hospitalizado com uma perna quebrada, mas os outros dois, Harrington (Charles Aidman) e Forbes (Rod Taylor), estão bem e resolvem comemorar a empreitada numa noitada num bar. No entanto, Harrington subitamente começa a ter um sentimento estranho. Ele vai a uma cabine telefônica e liga para seus pais, que atendem e dizem que eles não têm filhos. De repente, Harrington desaparece literalmente, sem que alguém lembrasse da sua existência, exceto Forbes.

Quando Forbes conta essa história a Gart no hospital, este último também diz que ele nunca ouviu falar na vida de um tal de Ed Harrington, o que deixa Forbes completamente devastado. De repente, Forbes tem uma sensação peculiar, como a de Harrington antes de desaparecer, e sai gritando pelos corredores do hospital. Gart chega ao corredor, mas já é tarde, Forbes também desapareceu e ninguém mais tem qualquer lembrança de sua existência, exceto Gart, que não demora muito, desaparece e, com ele, a nave que os levou pra fora da terra, limpando a última evidência da aventura.

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O roteiro de Serling para AND WHEN THE SKY WAS OPENED foi baseado no conto de Richard Matheson, “Disappearing Act” (que aparece na sua coletânea Third From the Sun), mas só mesmo uma ideia superficial foi utilizada por Serling no episódio. Na história original, temos um escritor sem sucesso que acha que as pessoas em sua vida, uma por uma, estão desaparecendo e só ele se lembra delas. Ele, em algum momento, também acaba por desaparecer. Ao comparar o episódio com o seu conto, Matheson dizia: “Meu  sentimento é idêntico ao que sinto sobre segunda versão do meu romance, I Am Legend (THE OMEGA MAN, com Charlton Heston): está tão distante que não há nada para se pensar.” Curiosamente, não demorou muito, Matherson se tornou um dos principais roteiristas da série.

AND WHEN THE SKY WAS OPENED marca a estréia de Douglas Heyes como diretor em ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Heyes também era músico, pintor, ator, roteirista e habilidoso romancista. Ele começou sua carreira nos estúdios da Disney onde aprendeu a pensar no cinema como uma forma de arte visual, fazendo storyboards de cenas, onde tomou noção como mover a câmera e onde cortar o filme na sala de edição. O movimento fluido da sua câmera se tornaria uma característica definidora de seu estilo como diretor.

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Neste primeiro episódio que realizou, no entanto, seu estilo é mais reservado do que a maioria de seus episódios, até porque o roteiro de Serling foca principalmente na deterioração psicológica de seus personagem, então Heyes simplesmente deixa os atores fazerem a maior parte do trabalho. Mas existem algumas cenas incomuns no episódio que demonstram o talento de Heyes em dar ênfase no mistério e no medo do desconhecido. O uso de alguns elementos visuais são importantes para a narrativa, como o jornal que é constantemente mostrado como prova física do desaparecimento dos personagens.

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Mas os atores são em grande parte o que torna AND WHEN THE SKY WAS OPENED memorável. Charles Aidman e James Hutton estão muito bem, mas Rod Taylor é o tour de force do episódio e o nome mais reconhecível do elenco. Taylor é lembrado por seus papéis em A MÁQUINA DO TEMPO (1960), de George Pal, e OS PÁSSAROS (1963), de Alfred Hitchcock. Sua atuação como Forbes é brilhante, com expressões faciais e maneirismos físicos expressivos, especialmente quando contracena com Hutton, que dão gosto de vê-lo atuar. Taylor manteve uma carreira relativamente bem sucedida no cinema e na televisão até o final da vida. Seu último papel foi como Winston Churchill em BASTARDOS INGLÓRIOS, de Quentin Tarantino. Morreu em 2015 aos 84 anos de idade.

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AND WHEN THE SKY WAS OPENED é um episódio sólido, intrigante e com ótimas performances e boa direção, algo já habitual na série, que sempre escala bons diretores e atores. E Serling, a grande mente por trás de ALÉM DA IMAGINAÇÃO, reconheceu na ficção de Matheson o tipo temático de fantasia que tanto lhe fascinava: o medo do obscuro. E aqui temos um bom exemplo disso.

CARTA BRANCA – ISMAIL XAVIER – IMS

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O Instituto Moreira Sales (IMS) tá com uma programação de filmes bacana que começa esta semana. Entre os dias 17 e 27 de maio, o Cinema do IMS Paulista apresenta um programa de nove filmes escolhidos pelo Ismail Xavier: seus clássicos pessoais, que o acompanharam ao longo de seus 70 anos. Ismail é professor emérito da USP, teórico e crítico de cinema.

Segue a programação:

UM CORPO QUE CAI
Alfred Hitchcock
EUA, 1958, 128 min., 14 anos, DCP
17/05 quinta-feira 19h30
23/05 quarta-feira 21h30

DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU SEI DELA
Jean-Luc Godard
França, 1966, 90 min., 14 anos, DCP
17/05 quinta-feira 22h
27/05 domingo 20h

O ANJO EXTERMINADOR
Luis Buñuel
Espanha, México, 1962, 95 min., 12 anos, DCP
18/05 sexta-feira 19h30
26/05 sábado 18h30

O ECLIPSE
Michelangelo Antonioni
França, Itália, 1962, 126 min., 14 anos, DCP
19/05 sábado 17h
25/05 sexta-feira 19h30

O CASAMENTO DE MARIA BRAUN
Rainer Werner Fassbinder
Alemanha, 1978, 120 min., 14 anos, DCP
19/05 sábado 21h
26/05 sábado 21h

HIROSHIMA MEU AMOR
Alain Resnais
França, Japão, 1959, 92 min., 12 anos, DCP
20/05 domingo 16h40
25/05 sexta-feira 22h

UM HOMEM COM UMA CÂMERA
Dziga Vertov
União Soviética, 1929, 68 min., 12 anos, DCP
20/05 domingo 18h30
23/05 quarta-feira 17h30

O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA
John Ford
EUA, 1962, 123 min., 12 anos, DCP
20/05 domingo 20h
23/05 quarta-feira 19h

MEMÓRIAS DO SUBDESENVOLVIMENTO
Tomás Gutiérrez Alea
Cuba, 1968, 97 min., 14 anos, DCP
22/05 terça-feira 19h20
27/05 domingo 18h

RACE WITH THE DEVIL (1975)

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Os prazeres da descoberta cinéfila são sempre renovadores, especialmente quando se trata de bons exemplares do exploitation americano setentista que hoje quase todo mundo não dá a mínima, como é o caso de RACE WITH THE DEVIL, de Jack Starrett. Um híbrido de ação com horror que é um filmaço. Na verdade, a “descoberta” deste filme específico vai ser de quem ainda não conferiu, porque eu pessoalmente já tive esse prazer há alguns bons anos, mas desde então me pego revendo essa pérola. Então para começar bem o fim de semana, a dica é RACE WITH THE DEVIL, que saiu aqui no Brasil como CORRIDA COM O DIABO.

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Na trama, os bons amigos Roger (Peter Fonda) e Frank (Warren Oates) planejam as melhores férias de suas vidas. Acompanhados pelas suas respectivas mulheres, Kelly (Lara Parker do seriado DARK SHADOWS) e Alice (Loretta Swit, “Hot Lips” do seriado MASH), os dois casais enchem o luxuoso trailer de Frank de cerveja e outros mantimentos e caem na estrada para uma viagem até o Colorado. Num trecho rural do Texas, eles acham um ponto para estacionar e descansar durante a noite. Sob a lua cheia os dois amigos vão à beira de um riacho, jogam conversa fora enquanto enchem o bucho de álcool, quando veem uma enorme fogueira sendo acesa do outro lado do rio.

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Observando a cena de forma, digamos, clandestina, Frank e Roger a princípio pensam que estão testemunhando uma boa e velha putaria de hippies libertinos; várias mulheres peladonas brincando em volta do fogo fazem com que os dois disputem jovialmente os binóculos. Só que a diversão se transforma em horror quando uma moça é esfaqueada por uma figura com uma máscara bizarra em algum tipo de sacrifício humano ritualístico. Os dois sujeitos borram nas calças, metaforicamente falando, e decidem tirar o trailer de lá antes que sejam vistos. Mas é tarde demais – um bando de adoradores do Diabo já está se espalhando pelo rio, correndo direto na direção da dupla.

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Depois da fuga, os casais vão até a delegacia de polícia mais próxima para relatar o que aconteceu. O amável Sheriff Taylor (veterano ator R.G. Armstrong) investiga devidamente o local, mas Frank começa a suspeitar de algo. A força policial local parece tranquila demais, até irreverente eu diria, sobre um possível assassinato de uma jovem numa floresta no meio da noite. O xerife sugere que hippies “fumaram umas cocaina”, estavam de brincadeira e que os dois amigos deve ter se confundido com alguma encenação… Mas aos poucos, vários sinais misteriosos vão sendo deixados aos casais protagonistas, que parecem indicar exatamente o contrário do que a polícia pensa. Não exatamente certo em que acreditar, o quarteto continua suas férias, deixando para trás a horrível experiência daquela noite. Mas parece que nem todo mundo quer “virar essa página”…

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RACE WITH THE DEVIL é uma miscelânea de temas e gêneros muito bem combinados. Temos uma pitada de horror rural do início dos anos 70, como DELIVERANCE, do John Boorman, ingredientes do horror satanista e um bocado de thriller/ação para dar um tempero mais excitante. Na verdade, é curioso pensar que toda a ideia do culto satânico poderia ser facilmente substituído por algum outro tipo de atividade nefasta – contrabando de drogas, escravidão humana, enfim, qualquer coisa – e pouco da trama precisaria ser alterado. Mas o toque de horror dessa mistura de gêneros vem com um gostinho especial, são vários momentos em que as convenções do terror deixam as coisas mais tensas de acompanhar…

A cena do ritual, por exemplo, é bem macabra e os figurantes eram compostos por membros reais de seitas, conforme afirma o diretor Jack Starrett em entrevistas. Se é verdade, eu não sei, só garanto que a coisa toda é uma experiência angustiante. Até porque, em vez de pegar em cheio na jugular, RACE WITH THE DEVIL toma o seu tempo em estabelecer o cenário, em construir os personagens e em aumentar gradualmente o suspense e a tensão.

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A ação mais direta, mais  deflagradora mesmo, não entra em cena até os 15 minutos finais, em uma sequência de perseguição de tirar o fôlego, colocando o trailer dos protagonistas contra um bando de carros e caminhões dirigidos pelos membros da seita. Numa época em que nem se sonhavam nas possibilidades dos efeitos especiais de CGI, é revigorante ver os dublês se arriscando perigosamente ou pirotecnias geradas com explosivos reais em vez de pixels movidos à photoshop. Os carros trombando em alta velocidade no clímax é de encher os olhos e lembram muito o que George Miller faria no seu maravilhoso MAD MAX II, oito anos depois. Não ficaria surpreso se houvesse algum tipo de influência deste aqui sobre a obra do australiano.

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RACE WITH THE DEVIL era inicialmente para ser dirigido por Lee Frost, especialista em filmes baratos daquele período, mas acabou substituído pelo Starrett, que era outra figura que contribuiu bastante com o cinema exploitation. Frost chegou a receber crédito como roteirista, ao lado de Wes Bishop, mas todas as cenas que rodou foram refilmadas por Starrett. O sujeito tinha um estilo eficiente e direto de filmar, sem muita frescura, não se vê virtuosismo e beleza estética nos filmes do Starrett, embora ele consiga extrair sempre algo interessante do seu material. E RACE WITH THE DEVIL é um de seus momentos mais inspirados, sem duvida.

Para quem não sabe, o Starrett também era ator, participou de muita produção de baixo orçamento, mas é mais conhecido por ter vivido o policial sádico que acerta umas pancadas em John Rambo em RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR. O mesmo que cai do helicóptero, que balança quando Rambo acerta uma pedrada… Enfim, só uma curiosidade.

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Por último, vale destacar a presença de dois dos mais significativos nomes do cinema setentista encabeçando o elenco, Fonda e Oates, que estão excelentes como os amigos tranquilos, bem de vida, que só querem um pouco de paz e diversão em família e acabam metidos numa confusão macabra em que precisam chegar aos extremos, pegar em armas e atirar para matar. Já o lado feminino infelizmente acaba não tendo muito destaque, o que é estranho considerando que o movimento feminista estava em plena atividade na metade dos anos setenta; as esposas de Roger e Frank não passam de mulherzinhas completamente indefesas que se põem a gritar e a chorar a qualquer circunstância misteriosa.

Tirando isso, filmaço! RACE OF THE DEVIL Foi lançado em DVD por aqui, mas se não encontrar, procure nos torrents, foda-se, encontre alguma maneira de conhecer este clássico do cinema grindhouse.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.10: JUDGMENT NIGHT (1959)

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Em JUDGMENT NIGHT, um sujeito chamado Carl Lanser (Nehemiah Persoff) se vê de repente num navio percorrendo o oceano Atlântico. Estamos em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, e o sujeito não sabe direito quem é, quem são as pessoas ele encontra – embora tenha a sensação de tê-los conhecido antes – e nem como chegou ali. No decorrer da trama, as coisas vão ficando cada vez mais misteriosas, até porque Lanser, de alguma maneira, tem a certeza de que um submarino nazista está perseguindo o navio e, pela sua premonição, algo vai acontecer à 1h15 da madrugada.

Seus temores acabam se confirmando e exatamente no horário esperado surge um submarino alemão numa ofensiva contra a sua embarcação. Olhando através de binóculos, Lanser tem uma visão aterradora ao perceber a identidade do capitão do submarino… Seu navio afunda, a tripulação é metralhada ainda tentando sobreviver na água, e a consequência de todas essas ações trágicas e sádicas resulta num dos mais perturbadores infernos que a série poderia nos proporcionar.

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O roteiro de Rod Serling para JUDGMENT NIGHT provavelmente foi inspirado no mito do Holandês Voador, a famigerada lenda do navio fantasma cuja tripulação é condenada a vagar pelos mares por toda a eternidade. A diferença aqui é que o tal inferno consiste na sentença de Lanser em reviver o naufrágio daquele navio infinitamente. Noite após noite, o sujeito de repente se vê na mesma situação, sem saber como chegou ali, mas tendo certeza de que à 1h15, vai dar merda…

A direção do episódio ficou por conta de John Brahm, que já havia realizado um dos meus episódios favoritos até aqui, TIME ENOUGH AT LAST, e ainda viria a contribuir pelo menos uma dezena de vezes. Seu trabalho não é tão ousado como a de Robert Stevens (WHERE IS EVERYBODY?, WALKING DISTANCE), com seus enquadramentos entortados, Brahm geralmente era mais sutil e apostava mais no visual sombrio e atmosfera carregada. De fato, JUDGMENT NIGHT parece um pesadelo e por um bom tempo a impressão é que o protagonista vai acordar a qualquer momento.

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Um nevoeiro sempre presente nas externas e o uso de imagens desfocadas contribuem bastante para impressão confusa de Lanser da situação. Brahm usou imagens semelhantes em 1944 para retratar as ruas cobertas de neblina da Londres vitoriana na sua refilmagem de THE LODGER, de Alfred Hitchcock. A sequência do ataque no final também é muito bem conduzida, com explosões e efeitos especiais cuidadosamente utilizados e sem receio algum de chocar o público da época mostrando inocentes passageiros, incluindo mulheres e crianças, sendo destroçados pelo ataque submarino.

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Embora possa ser um pouco previsível, JUDGMENT NIGHT ainda é um ótimo episódio com um roteiro intrigante de Serling, uma performance maravilhosa de Nehemiah Persoff (que ainda está vivo, aos 98 anos), e um momento inspirado do diretor John Brahm. Sem dúvida um dos pontos altos da primeira temporada.