THE BLACK PANTHER (1977)

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Donald Neilson ficou conhecido como o Black Panther. Ele era um cidadão britânico que em meados dos anos 60 resolveu invadir, armado e com uma máscara negra, casas e postos dos correios para praticar roubos, o que ao longo do tempo acabou causando algumas mortes e um notório sequestro de uma garota na metade dos anos 70. Essa história é real e THE BLACK PANTHER, de Ian Merrick, narra com precisão esses eventos.

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A trama faz um retrato perfeito de Neilson, um sujeito obcecado pelo militarismo, colecionador de um verdadeiro arsenal, um ex-soldado que havia lutado em uma guerra na África em que a Inglaterra acabou se envolvendo. A Grã-Bretanha do período foi marcada por desempregos, greves e perspectivas sombrias para os cidadãos, e aqui estava um homem que tentou resolver as coisas por conta própria para poder colocar comida em casa. O filme se estrutura como um estudo de personagem, ainda que raso, sem se aprofundar muito na psicopatia do protagonista, e nos vários assaltos que Neilson cometeu.

Meticuloso, o sujeito realmente acreditava ser um mestre do crime, mas como THE BLACK PANTHER mostra, a realidade era muito diferente. Neilson era um atrapalhado e todos os seus atos terminavam em tragédia mais por conta da sua ineptidão do que por maldade. É até um milagre que seus assaltos tenham durado anos sem que fosse capturado. Se não houvessem tantas mortes em suas mãos, ele seria quase uma figura cômica. Foi uma combinação de erros por parte de Neilson, da interferência da imprensa e de uma força policial muito mal preparada para lidar com a situação que culminou com o assassinato de Lesley Whittle, uma garota herdeira de uma fortuna, que Neilson sequestrou e trancou num poço de drenagem de um local chamado Bathpool Park. Neilson só foi capturado dois meses depois por pura coincidência, em vez de um esforço concentrado por parte da polícia.

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O curioso é que no ano da produção de THE BLACK PANTHER, estes trágicos eventos ainda estavam muito frescos na memória pública. O roteiro foi baseado em relatórios policiais, declarações escritas e transcrições de julgamento, o que confere ao filme um grau de realismo interessante. Se levar em consideração a direção seca e crua de Merrick e o fato da produção utilizar muitos dos locais reais dos eventos, incluindo o Dudley Zoo, onde o criminoso utilizava a cabine telefônica para tentar obter o dinheiro do resgate, e Bathpool Park em Kidsgrove, local onde manteve Whittle em cativeiro, reforça ainda mais uma uma sensação quase documental da obra.

Neilson foi interpretado por Donald Sumpter, hoje conhecido principalmente por seu trabalho na TV, como por exemplo o velho Maester Luwin de Game of Thrones. É uma performance incrível, no que deve ter sido um papel difícil de encarnar, dada a notoriedade de seu personagem na época. E não são poucas as sequências em que a ação acontece sem qualquer diálogo, com Sumpter comunicando as emoções de Neilson puramente no visual.

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Infelizmente, o público escolheu ignorar o filme na época. Seu lançamento foi controverso e muitos cinemas em todo o Reino Unido se recusaram a exibi-lo. Dada a acusação implícita do filme de que a imprensa era em parte culpada pela morte de Whittle, não surpreende que a mídia também tivesse uma antipatia especial pela obra e a crítica caiu matando. Hoje, THE BLACK PANTHER possui excelentes cópias lançadas em DVD e Blu-Ray pelo mundo afora. Uma bela maneira de redescobrir esta pequena gema do cinema britânico.

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RAPTADO (Kidnapped, 1971)

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O célebre romance de Robert Louis Stevenson, Kidnapped – inicialmente publicado como uma série de histórias em jornais antes de ser lançado num único volume em 1886 – foi adaptado várias vezes para cinema e televisão, as principais sendo em 1948, estrelado por Dan O’Herlihy e Roddy McDowell, e em 1959 com Peter Finch e James McArthur. Nunca assisti a estas versões e por melhores que possam ser, RAPTADO, do diretor Delbert Mann, de 1971, me parece a mais agradável entre as adaptações, já que tem a presença de um desses atores que basta uma pequena participação para me deixar com sorriso no rosto, e no caso deste aqui o ator é Michael Caine encabeçando o elenco…

Durante a eterna guerra entre escoceses e ingleses no século XVIII, no qual as forças escocesas estão sendo aniquiladas por tropas do governo inglês, um rapaz que perdeu o pai, David Balfour (Lawrence Douglas), chega à casa de seu tio Ebenezer (Donald Pleasence) para reivindicar sua herança. No entanto, com a intenção de ter os bens para si mesmo, o velho resolve raptar David e vendê-lo como escravo.

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Prisioneiro em alto mar, o rapaz se vê numa situação complicada. Quando a embarcação se depara com o notório rebelde escocês Alan Breck (Caine), David aproveita a oportunidade para se aliar a Breck e fugir. Eles chegam de volta à costa e buscam refúgio com os parentes do famigerado rebelde, o tio James Stewart (Jack Watson) e a prima, Catriona (Vivien Heilbron). Mas a aventura deles está apenas começando…

Embora entre todas as histórias de Robert Louis Stevenson A Ilha do Tesouro continue sendo sua principal aventura, Kidnapped parece ter sua graça. O roteiro de Jack Pulman para esta adaptação de 1971, no entanto, não se baseia apenas nessa história, mas também em trechos da sua sequência, lançado em 1893, Catriona. E, independente do fato do filme terminar de uma maneira brusca e um bocado pessimista, ainda é uma peça divertida e cuja recriação contextualiza bem o momento histórico que a aventura transcorre.

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Delbert Mann, que recebeu o Oscar de melhor diretor com seu filmes de estreia, MARTY, talvez não fosse o sujeito mais preparado para narrar as peripécias da dupla protagonista, as cenas de ação não empolgam muito e nas mãos de um Richard Fleischer ou John Huston renderiam uma emoção a mais. No entanto, Mann dirige bem os atores, e com o elenco que temos aqui, a diversão é garantida.

Michael Caine está em excelente forma com seu carisma e inesgotável brio de “tough guy“. Há uma sequência em que Caine resolve executar sozinho dois soldados ingleses após se deparar com uma família inteira massacrada. É um dos momentos altos do filme, e se a encenação da luta não é lá grandes coisas, pelo menos o ator demonstra muita presença em cena, matando seus inimigos à sangue frio. Caine certamente ofusca o jovem Lawrence Douglas, cujo papel que faz, David, é um pouco insosso; Donald Pleasence é outro gigante que sempre merece destaque e está genial como o viscoso e dúbio Ebenezer. O elenco ainda conta com o grande Trevor Howard.

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Um dos elementos que mais impressiona em RAPTADO é a bela fotografia de Paul Beeson, que aproveita muito bem as paisagens da Escócia (deixo umas imagens aí em baixo para apreciação). E também as partituras de Roy Budd – junto com a balada romântica de encerramento interpretada por Mary Hopkin. Simplesmente memorável e contribui imensamente para tornar o filme, que está longe de ser uma maravilha, numa adaptação respeitável da obra de Stevenson.

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MOTHRA VS. GODZILLA (1964)

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Mothra é uma mariposa gigante criada pelo estúdio Toho em 1961 num filme que apresentava suas origens e levava seu nome no título, MOTHRA. Ao longo dos anos acabou se tornando um dos mais populares Daikaijus da Toho, perdendo apenas para Godzilla em seu número total de aparições em produções. E já em seu segundo filme, como o título indica, Mothra é colocado para tretar com o Rei dos Monstros em MOTHRA VS GODZILLA!

Se KING KONG VS GODZILLA já foi bizarro o suficiente, como comentei neste post, esperem só para ver a doidera que é MOTHRA VS GODZILLA. A trama é muito simples, mas recheada de elementos esquisitos que me faziam soltar um “pqp” em voz alta a cada revelação estranha que aparecia na tela…

Executivos capitalistas inescrupulosos estão à solta, construindo um resort à beira-mar em algum lugar qualquer do Japão. O filme abre com um tufão que atinge o local com toda a sua fúria e arrasa com os preparativos da inauguração do empreendimento. Quando as coisas se acalmam, um ovo gigantesco é encontrado em terra.

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Os capitalistas perversos não perdem a chance e compram o ovo dos aldeões que vivem na região com a intenção de torná-lo a principal atração do local. Surgem então duas criaturinhas do tamanho de um latão de Itaipava, duas moças minúsculas, que suplicam se poderiam por favor ter seu ovo de volta. Sim, são bem educadas. O repórter Ichiro Sakai (Akira Takarada), a fotógrafa Junko Nakanishi (Yuriko Hoshi) e o professor Miura (Hiroshi Koizumi) são simpáticos e fazem o melhor que podem para convencer aos devotos capitalistas a devolverem o gigantesco ovo. Mas não conseguem…

O artefato veio trazido pelo tufão de uma ilha misteriosa e logo descobrimos que é um ovo de Mothra, a mariposa gigante. A tal ilha tinha sido local de testes de bombas nucleares que naturalmente, ao longo dos anos, produziu todo tipo de coisas estranhas, como mariposas gigantescas e mocinhas em miniatura. Com isso, MOTHRA VS GODZILLA não ia perder a chance de cutucar os causadores de males humanitários, todo o filme é marcado por um monte de propaganda sobre os perigos dos testes atômicos, uma das paranoias recorrentes do período.

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Enquanto isso, do nada, de repente, Godzilla está de volta… Já nem me recordo qual foi o fim que lhe deram em seu último filme, KING KONG VS. GODZILLA, mas o fato é que ele sempre retorna, sempre procurando coisas para pisar e esmagar. O exército tenta de todos os meios possíveis, em vão, parar o réptil gigante jogando o que podem em cima dele, raios elétricos, tanques de guerra que não economizam chumbo, bombas lançadas pela força aérea e até redes gigantescas jogadas sobre o Daikaiju.

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Mas o trio protagonista percebe que apenas Mothra pode salvar a humanidade de Godzilla. E não demora muito, o monstrengo surge nos ares – não o do ovo, este continua quietinho – mas outro, um protetor da ilha radioativa, que encara Godzilla numa batalha daquelas que só o grande diretor especialista em Kaijus, Ishirô Honda, sabia filmar. Foi ele quem realizou o GODZILLA original e também o filme sobre a origem de Mothra… E é difícil imaginar como, em 1964, uma mariposa gigante seria retratada voando e lutando contra Godzilla, mas MOTHRA VS. GODZILLA não poderia estar em mãos melhores.

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Óbvio que não chega no nível do confronto entre King Kong e Godzilla, no filme anterior, também dirigido por Honda, mas é interessante ver como o diretor se vira para tornar a coisa divertida, com uso de stop motion, bom trabalho de câmera, planos sempre abertos, mostrando tudo o que tinha direito e aproveitando ao máximo dos poderes dos dois monstrengos.

Desta vez, Tóquio não é atingida pelo caos e destruição que esses monstros causam quando resolvem trocar desaforos. Mas ainda há estrago suficiente para alegrar os corações dos fãs de filmes de monstros gigantes. Cidades costeiras são devastadas, um complexo industrial é esmagado por Godzilla e o caos generalizado habitual acontece de forma linda. E tudo é muito bem feito, os efeitos especiais são muito bons para o período e o uso de maquete é aquela coisa incrível de sempre.

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E o tal ovo? Bom, lá pelas tantas saem de dentro duas larvas de Mothra que cospem uma teia e ajudam a derrotar Godzilla. Mas a essa altura, a gente já se acostumou com as bizarrices do filme… Ou não…

Aparentemente, há uma versão americana de MOTHRA VS GODZILLA que elimina algumas cenas e acrescentam outras. A que eu assisti é a japonesa mesmo, que é altamente recomendável. Filminho de monstro divertido, bobo mas cheio de momentos memoráveis para os fãs de Daikaiju.

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.9: PERCHANCE TO DREAM (1959)

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Primeiro episódio da série ALÉM DA IMAGINAÇÃO que não foi escrito pelo seu criador, Rod Serling. Charles Beaumont, que viria a escrever algumas obras em parceria com Roger Corman, como ORGIA DA MORTE e THE INTRUDER, ficou responsável por PERCHANCE TO DREAM, que conta a história de Edward Hall (Richard Conte), um sujeito que está acordado há mais de 80 horas quando o episódio começa. Diagnosticado ainda muito jovem com uma doença cardíaca degenerativa, ele tem medo de adormecer e que um pesadelo recorrente envolvendo um cenário surreal e uma mulher misteriosa (Suzanne Lloyd) seja suficientemente chocante para fazer seu coração parar.

O capítulo começa com Hall procurando ajuda de um psiquiatra, o Dr. Eliot Rathmann (John Larch), a quem ele conta sua história. E a partir disso já não sabemos o que é relato, o que é sonho, o que é realidade, mas ao mesmo tempo temos uma das sequências visuais das mais impressionantes de toda a série.

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PERCHANCE TO DREAM foi uma produção agraciada com as pessoas certas em seus devidos lugares. Complementando a história psicologicamente aterrorizante escrita por Beaumont, havia um grupo de atores perfeitamente adequados para dar vida a este pequeno conto. O pequeno elenco incluiu três excelentes nomes, com Richard Conte, mais conhecido como o mafioso Barzini em O PODEROSO CHEFÃO, entregando uma performance especialmente angustiante como o condenado Edward Hall. John Larch, que viria aparecer em outros episódios da série, como DUST e IT’S A GOOD LIFE, tem uma atuação sutil num personagem muitas vezes estereotipado. E a atriz canadense Suzanne Lloyd que captura a essência da sedutora misteriosa que perturba os sonhos de Hall.

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O diretor do episódio, Robert Florey, não era nenhum estranho no gênero de mistério e horror, tendo co-roteirizado FRANKENSTEIN, de 1931, dirigido por James Whale (inicialmente Florey era cotado para dirigir), além de ter adaptado e dirigido OS ASSASSINATOS DA RUA MORGUE, de Edgar Allan Poe, com o o Bela Lugosi, e que eu já comentei por aqui. Florey faz um trabalho maravilhoso em PERCHANCE TO DREAM, conferindo à sequência do cenário alucinatório de pesadelo e imagens oníricas uma verossimilhança que consegue manter a atenção do espectador ao longo do ritmo acelerado e curto do episódio. É como se estivéssemos diante de alguns dos maiores pesadelos filmados do Expressionismo Alemão.

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E temos a estreia de um roteirista para dar uma nova cara à esta primeira temporada. Talvez o aspecto mais importante que Beaumont trouxe para a série tenha sido a propensão à fantasia sombria, às histórias de horror, quase sempre de natureza psicológica, que exploravam o aspecto mais sombrio da mente humana. Enquanto Serling trabalhava em grande parte dentro dos limites reconhecíveis da fantasia (robôs, viagens no tempo, medos coletivos, como a solidão, etc.), Beaumont chegou com um tratamento singular da fantasia e do horror psicológico. Com exceção de Serling, Beaumont foi o mais ativo roteirista de ALÉM DA IMAGINAÇÃO, tendo assinado 22 scripts ao longo das temporadas. E PERCHANCE TO DREAM é um dos melhores exemplos do processo imaginativo único de Beaumont.