DERSU UZALA (1975)

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Sobre a sessão de ontem de DERSU UZALA, de Akira Kurosawa, na Cinemateca, na 4º Mostra Mosfilm de Cinema Soviético e Russo, foi uma experiência daquelas assistir a esta belíssima obra na tela grande, à céu aberto, com direito à barraquinhas com bebidas e comidas típicas da Rússia. A mostra vai até hoje e é um trabalho incrível da CPC UMES Filmes, que os mais habituados aqui do blog já conhecem.

Mas peralá, um filme de Akira Kurosawa, um dos mais reverenciados diretores japoneses, numa mostra de cinema russo? Vamos com calma. Para quem não conhece, DERSU UZALA é uma produção russa, dirigida pelo mestre japonês, o único longa do diretor realizado fora de seu país e talvez o mais importante de sua carreira, representando um renascimento criativo após um tempo sombrio na vida do cineasta. Kurosawa vivia maus momentos no final da década de 60, com o fracasso comercial de DODESKADEN e a falta de financiamento dos produtores para futuros projetos. Isso abalou até a vida pessoal do diretor, que caiu numa profunda depressão que culminou numa tentativa de suicídio no início dos anos 70. Foi com o convite da grande produtora russa, Mosfilm, que DERSU UZALA foi possível.

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Na verdade, o projeto de DERSU UZALA vinha de longa data. Kurosawa tinha planos já na década de 50 para sua produção, mas teve dificuldade em adaptar a história a um cenário japonês, sem imaginar que um dia ele poderia realmente filmá-la na Rússia, com atores russos. O filme é baseado em um livro autobiográfico de Vladimir Arsenev, que narra as suas aventuras explorando territórios selvagens de seu país para realizar um trabalho topográfico na região. Nas mãos de Kurosawa, a aventura ganha o status de poesia existencialista, com um estudo de caráter abordando o impacto que um primitivo de bela alma tem em um sujeito do mundo civilizado.

Falado inteiramente em russo, o filme começa em 1910, quando Arsenev (Yurly Solomin) viaja para a Sibéria ao saber que seu velho amigo, Dersu Uzala (Maksim Munzuk), morreu. Arsenev relembra seu longo período com Dersu, desencadeando as imagens que proporcionam a maior parte do filme, que se passa quase totalmente em terrenos selvagens do extremo leste russo, no qual Kurosawa utiliza, numa tela larga, para criar algumas das mais sublimes imagens de sua carreira, num bombardeamento de beleza pictórica de duração épica de 144 minutos.

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O relacionamento central do filme entre Arsenev e Dersu começa em 1902, quando o primeiro parte para a Sibéria, encarregado de mapear a área para o governo russo. Aresnev conhece por acaso Dersu, um Nanai solitário que vive nas montanhas e florestas e que vaga caçando sozinho por muitos anos depois que perdeu sua família durante um surto de varíola. A princípio, a equipe de pesquisa da Arsenev acha Dersu um sujeitinho curioso e motivo de boas risadas, mas aos poucos o “selvagem” se revela especialista em sobrevivência e acaba se tornando guia do grupo nessa jornada. Dersu demonstra também seu lado espiritual, reverente em relação ao mundo natural, tornando objeto de fascinação de Arsenev e, posteriormente, um valioso amigo.

Na sequência mais impressionante do filme, Arsenev e Dersu encontram-se perdidos e sozinhos em um campo congelado, antes do anoitecer. Dersu leva Arsenev a um esforço desesperado para reunir talos de grama alta para construir um abrigo improvisado, salvando assim os dois da morte certa. Embora o estilo visual de Kurosawa em grande parte de DERSU UZALA seja estático, estruturado em composições lúgubres e longas tomadas, a grande habilidade do artista emerge num momento como este, quando ele usa uma câmera ágil para captar os dois homens lutando por suas vidas em meio aos tons dourados do crepúsculo. Dessas ocasiões que provam porque Kurosawa foi um dos maiores…

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DERSU UZALA ganha outra dimensão na segunda metade, quando Arsenev retorna à Sibéria para uma missão subsequente e reencontra, por acaso, seu amigo Dersu. A cena do reencontro é simplesmente tocante. Descobre também que a visão deficiente de Dersu eliminou seu valor como guia e ameaçou sua capacidade de sobreviver no mundo selvagem. Este desenvolvimento do enredo motiva outra sequência de destaque, durante a qual Dersu reage com terror depois que dispara na direção de um tigre que ameaçava o grupo; Na mente supersticiosa de Dersu, o espírito do tigre o perseguirá por não conseguir cumprir seu papel na ordem natural das coisas.

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Arsenev leva seu amigo para viver com ele na cidade, mas Dersu é incapaz de se adaptar no mundo moderno. Já perto do fim, durante as passagens que descrevem o declínio de Dersu, Kurosawa conduz o filme com narração lírica sobre a perda, que resume não só um dos temas-chave de DERSU UZALA, mas também as questões metafísicas que atravessaram inúmeras obras do diretor, de VIVER (52), passando por RAN (85) até RAPSÓDIA EM AGOSTO (91).

DERSU UZALA é uma aventura fascinante, que ganhou aclamação considerável na época, incluindo o Oscar de melhor filme em língua estrangeira, além de ter permitido a Kurosawar de continuar sua brilhante carreira. Mas mesmo que fosse sua última obra, já seria um de seus trabalhos essenciais. Como é uma produção da Mosfilm, é bastante provável que a CPC UMES Filmes lance no mercado de home video essa obra-prima. Aguardamos ansiosamente. Qualquer novidade, eu comento por aqui, mas não deixem de conferir o trabalho de curadoria, tanto em mostras pelo país quanto em distribuição de DVDs, que a CPC UMES vem fazendo acessando sua loja virtual e pelo facebook.

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2 pensamentos sobre “DERSU UZALA (1975)

  1. Pingback: DERSU UZALA EM DVD – CPC UMES FILMES | dementia¹³

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