IT (2017); continuando…

maxresdefault (3)

Então, só para deixar claro, eu dizia que o Pennywise de Skarsgård me causa mais impressão, é mais perturbador que o do Curry, bem mais eficaz como agente causador de horror. Mas numa reflexão estrutural, IT segue mais uma linha da “aventura de horror” típica dos anos 80, com personagens infantis, como alguns que já citei no post anterior. Claro, é um filme que tem bons momentos atmosféricos, de tensão e uns sustos bem colocados, elaborados, e nada sutis, para gerar alguns gritos – a sequencia do projetor é excepcional -, no entanto, me parece que há mais a ideia de medo na sensação de que todas as crianças do filme estão lidando com abusos em algum nível do que quando encaram o Palhaço Pennywise, que acaba sendo uma representação do medo coletivo dessas personagens; A mãe superprotetora de Eddie, o racismo pra cima de Mike, que é negro, o bullying agressivo e violento que todos sofrem do maldoso Henry (muito melhor desenvolvido aqui) e principalmente o abuso literal de Berverly nas mãos de seu pai.

it2960

Cada uma das crianças possui sua própria personalidade muito bem definida. Têm também suas próprias perseguições personalizadas por Pennywise. Por exemplo, Mike tem visões de seus pais morrendo queimados num incêndio, enquanto a pia do banheiro de Berverly soltar jatos de sangue parece especificamente relacionado à compra de sua primeira caixa de absorventes. Muschietti demonstra muito carinho pelo grupo, e isso faz com que nos preocupemos com o destino de cada um, algo raro hoje em dia. E é divertido vê-los contracenando, o elenco possui uma química muito forte, os diálogos são inteligentes e convincente, atados com algumas tiradas engraçadíssimas, especialmente dos personagens vividos por Finn Wolfhard e Jack Dylan Grazer.

121458.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx

Muito tem se comparado IT com a série STRANGER THINGS. Não vejo muita relação, a não ser o fato da história se passar nos anos 80 e por roubar um dos atores da série (Wolfhard). Claro, Muschietti aproveita muito da iconografia de aventura dos anos 80 na tela: o cenário da cidade pequena com seu passado sombrio; crianças de bicicletas; cartazes de filmes clássicos do período, como GREMLINS e BEETLEJUICE; um cinema que está passando A HORA DO PESADELO 5: O MAIOR HORROR DE FREDDY e BATMAN… Está tudo aqui, mas diferente de STRANGER THINGS esses elementos nunca se sobrepõem em causa de uma nostalgia barata. Mas é certamente um filme apaixonado por suas inspirações e pelo período fantástico que foi a década de 80…

Para o cenário atual, IT pode até estar causando gargalhadas da moçada dentro dos multiplexes, mas acho um filme com um conceito bem estabelecido por Muschietti, bem construído dentro de seus propósitos, e os fãs de horror quem possum certa bagagem e tem consciência do que faz um bom filme de horror, vão perceber isso, vão ter em IT uma experiência fascinante e com sabor especial.

Anúncios

IT (2017)

coisa

Se a revisão recente da adaptação dos anos 90 revelou-se uma decepção, ainda que eu tenha um certo afeto nostálgico pelo filme, o IT de 2017, dirigido por Andy Muschietti (do fraquinho MAMA) por outro lado, foi uma das grandes surpresas do ano em termos de horror

Gosto sempre de abordar as reações do público. É uma curiosidade minha… Este aqui teve diversas e opostas, mas a maioria é positiva, especialmente do público fã de horror. Mas teve quem achou um um lixo, teve quem diz ser um novo clássico do gênero. Há quem diga que nem horror é… Queria entender quem pensa algo assim. Vai ver é sequela do surgimento desse novo termo, “pós-horror”. Eu gostaria de dizer algumas coisas sobre “pós-horror”. Vamos lá? É o seguinte: “Pós-horror” é o meu ovo!

Bom, agora vamos com calma. IT não é a última bolacha do pacote, obviamente, mas estou do lado dos que gostaram. Na verdade, nessa ceara atual que todo mundo procura chifre em cabeça de cavalo com esses termos inúteis, chega a ser um frescor um filme como IT que se assume como um horror puro e basicão, que não faz questão alguma de evocar temas de agendas sociais nem reinventar o gênero. Só quer mesmo trabalhar os dispositivos do medo e dar uns bons sustos de vez em quando…

É evidente que filmes assim ainda sejam produzidos todos os anos, mas com a qualidade de IT já não são muitos. Não que eu desgoste de alguns exemplares que estão sendo classificados como “pós-horror”. Um dos meus filmes favoritos do gênero nos últimos anos é CORRENTE DO MAL. Acho que A BRUXA também entrou na dança, e é uma obra-prima. E curti muito, por exemplo, CORRA, IT COMES AT NIGHT e estou bem interessando neste A GHOST STORY. São filmes que se levam a sério e são honestos nas suas propostas, mas aparentemente não querem ser rotulados como filmes de horror… Ou, as pessoas que assistem, críticos e cinéfilos metidos à besta, não querem que sejam. Foda-se, são horror. Independente de estilo e “mensagens” sociais, não vão deixar de ser.

Bom, já não sei onde quero chegar. Antes que isso aqui fique longo demais, voltemos ao IT. Na sessão que eu estava, eu não sei se a moçada gostou ou não, mas ouvia frequentes gargalhadas em determinadas sequências mais tensas… Normal. Não dá pra esperar muito do público atual. IT é um tipo raro de horror, que pouco se faz atualmente, mas que vem ressurgindo aos poucos. É um horror adolescente estilo trem fantasma, com exageros e extravagâncias, mas assustador na medida certa, e que tínhamos aos montes nos anos 80 e 90. O público de hoje tá em outra, tá numa pegada de horror mais realista… Já IT, com seu horror retrô, achei divertido até o talo.

Algumas mudanças cruciais desta nova versão para a dos anos 90: o foco agora é só na aventura infantil, não chegamos a ver os personagens adultos. Ou seja, o que de melhor restava no filme de Tommy Lee Wallace é trabalhado e até melhorado por aqui. Outra coisa legal, pelo menos pra mim, é a aventura ser transportada da década 60 para os anos 80, um período que pessoalmente me encanta mais, foi a década que nasci e que guardo recordações nostálgicas de referências visuais e sonoras com muito carinho.

Esta versão está intitulada como “Capítulo Um”, o que é bem provável que tenhamos uma continuação focada nos personagens adultos. Vamos ver o que sai… Se for no mesmo nível deste aqui já tá bom demais.

it7

O cenário de IT é basicamente a mesma pequena cidade do material original, onde um grupo de moleques – apelidados de “otários”, nas legendas nacionais – resolvem fazer algo em relação à onda de desaparecimentos de crianças na região. Um dos desses casos é Georgie, a quem vemos na cena de abertura sendo arrastado de forma brutal para dentro de um bueiro durante uma tempestade por um palhaço bizarro chamado Pennywise (Bill Skarsgård). É uma das minhas cenas favoritas dessa nova versão e que estabelece de prontidão alguns pressupostos por aqui. Como por exemplo deixar bem claro que o “bicho vai pegar”…

A maneira como age, como fala, convence, se expressa, como a luz incinde sobre os olhos, a performance de Skarsgård, tudo me leva a crer que o Pennywise de IT versão recauchutada 2017 é um desses personagens fascinantes que chega para marcar, para ser um ícone do horror moderno, com todos os méritos que lhe cabe. E basta a cena inicial do bueiro para convencer de que isso é uma realidade. O Pennywise de Skarsgård é uma criatura genuinamente ameaçadora. Cheguei a comentar no post anterior que este filme aqui era melhor em todos os sentidos. Muita gente concordou, mas corrigiu que ao menos o Tim Curry era melhor como Pennywise. Mas não sei, há algo de perturbador e doentio no Pennywise de Skarsgård, na sua relação com as crianças, na maneira que ele as seduz e as ameaça que me deixou um tanto arrepiado e até incomodado. O palhaço de Curry nunca vai deixar de ser o ícone do horror que sempre foi, mas confesso que se eu tivesse que entrar num bueiro com algum dos dois, não escolheria de forma nenhuma o Pennywise de Skarsgård…

E ainda tem mais! Comparando novamente com o filme original, algo que não deveria fazer, mas só para exemplificar o que temos aqui, quase todas as mortes do filme de 1990 eram off screen, com a câmera aproximando da vitima e rolando um fade sem mostrar de fato o que acontece. Para um filme de terror, isso é caixão. É um dos detalhes que me chateou na revisão… Em IT 2017, a cena do bueiro é uma aula de tensão e leva o horror até as últimas consequências. É simplesmente chocante, inesperado, violento, subverte toda a nossa concepção de cena de morte de uma criança no horror atual. O filme já me ganhou aqui.

Eu ainda tenho mais algumas impressões sobre esta nova versão de IT que gostaria de registrar aqui no blog, mas já estou cansado, com sono, trabalhei o dia inteiro e vou ficar por aqui. Vou dividir então este texto em dois e provavelmente amanhã termino… Até logo!

IT – UMA OBRA PRIMA DO MEDO (1990)

pennywise

Assistir a IT – UMA OBRA PRIMA DO MEDO, a primeira adaptação do livro de Stephen King, lá nos anos 90 quando era moleque, foi uma experiência, digamos, interessante. Especialmente para a minha formação como admirador de filmes de horror.

Rever agora, depois dos 30, tendo uma consciência do que é realmente um bom filme do gênero para os “meus padrões”, tendo na bagagem John Carpenter, Dario Argento, Lucio Fulci, Tobe Hooper, David Cronenberg, Clive Barker e até o Tommy Lee Wallace (diretor deste aqui, e que fez o maravilhoso HALLOWEEN III), já não foi tão agradável assim… Se levar em consideração que na mesma semana conferi a nova adaptação, aí que a coisa fica mais feia ainda para o filme de 1990.

Confesso que nunca li It. Portanto, não farei aqui nenhum tipo de comparação com o material original. Algo que, na verdade, eu provavelmente não faria mesmo que tivesse lido… Mas é notório que se trata de um romance que é um calhamaço de mais de mil páginas e esta primeira adaptação deve ter tentado esgotar ao máximo o que havia no livro. Acabou virando uma mini-série de TV com três horas de duração. Depois foi lançado em vídeo, inclusive no Brasil, com uma duração menor, mas ainda um loooongo filme que, querendo ou não, marcou muito o período, principalmente no meio da molecada que assistia escondido dos pais para comentar com os colegas no recreio no dia seguinte.

vhs-it

A trama, para quem tiver curiosidade, se passa nos anos 60, com um grupo de sete adolescentes na cidade de Derry, no Maine. Uma série de desaparecimentos e assassinatos misteriosos assola o local, incluindo o garotinho Georgie, o irmão mais novo de Bill, quem podemos chamar de personagem central dessa história. Esses amigos têm uma ideia do que está acontecendo, pois todos tiveram visões estranhas e encontros assustadores com a figura de um palhaço bizarro que chamam de Pennywise (Tim Curry). O grupo decide fazer algo em relação a isso e se aventura nos subterrâneos para tentar destruí-lo.

Trinta anos depois, o grupo relutantemente retorna para Derry quando Mike, o único que continuou morando na cidade, os chama para lhes dizer que Pennywise está de volta e os assassinatos estão acontecendo de novo. Apesar dos seus medos individuais, os amigos decidem mais uma vez entrar nos esgotos para enfrentar o palhaço do mal, ou seja lá o que for, e acabar com o horror de uma vez por todas.

it-1

Tudo isso em três horas de filme, que se revelou nessa revisão um tédio. Precisei de três noites, assistindo uma hora em cada. Simplesmente não consegui embarcar mais nessa aventura como quando o fiz há vinte e poucos anos atrás… A narrativa até se esforça para manter um certo ritmo, com o enredo se entrelaçando com cenas dos personagens adultos e flashbacks com eles no verão de 1960. Que é onde se concentra as melhores partes de IT, conseguindo criar um clima de nostalgia representado nessas crianças desajustadas que acabam se tornando amigos para toda a vida e unem-se para lidar com o horror que as afeta. É cativante, de certo modo, e bastante identificável se você também foi um moleque desajustado de dez anos… Apesar de exemplos melhores tenham aos montes no período, como OS GOONIES, VIAGEM AO MUNDO DOS SONHOS, DEU A LOUCA NOS MONSTROS e até, por que não, CONTA COMIGO, também adaptado de King.

Picture_4

Com os personagens menores, Tim Curry, como Pennywise, é mais assustador e memorável. Já adultos, com a turma mais velha lidando com o retorno do horror, a coisa perde a graça. Há algumas cenas divertidas, como quando se encontram depois de tantos anos, mas a química entre eles logo evapora com os atores adultos. É tudo tão frouxo… Algumas das cenas de horror nesses momentos também não têm o mesmo efeito, muito burocrático, sem inspiração, sem clima, especialmente quando voltam a entrar nos subterrâneos para o confronto final, que convenhamos, beira o ridículo.

O que ainda salva é o maravilhoso desempenho de Tim Curry. Sempre que eu recordava do filme durante todos esses anos, obviamente a primeira coisa que vinha na mente é a imagem de Pennywise aprontando as suas. É até desapontante perceber nessa revisão que, na real, ele aprece tão pouco em três horas…

it-a-coisa-8

A verdade é que a cada ano que passa, esta versão de IT vai envelhecendo mal e ficando menos divertida. Revê-la agora gerou algumas pontas de decepção. Apesar disso, há uma parte de mim que sempre gostará de IT, da nostalgia e do que ele representa pra mim como obra de horror num momento mais puro e inocente da minha formação cinéfila. E parte disso tem a ver com Tim Curry, cuja performance como Pennywise é o que faz o filme. Dito isso, a nova versão que está nos cinemas é um daqueles raros casos de ser melhor que o original em todos os sentidos. Provavelmente amanhã devo postar alguma coisa sobre ele…

Mas e quanto a este aqui? Vocês ainda têm boas recordações? Já fizeram alguma revisão atualmente?

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.7: THE LONELY (1959)

bscap0343

Mais um ALÉM DA IMAGINAÇÃO pra moçada bonita que acompanha o blog! É evidente que só vou conseguir definir os melhores e piores episódios quando terminar de assistir a essa primeira temporada por completo. Mas uma coisa pelo menos já posso confirmar: THE LONELY, sétimo episódio, corre sérios riscos de ser um dos meus favoritos. É bem simples e trata de um dos temas mais frequentes da série – o isolamento humano, como o título do capítulo já indica – mas a premissa é simplesmente genial e teria potencial para algo bem mais ambicioso.

James A. Corry (Jack Warden) é um prisioneiro que vive completamente sozinho num asteroide vagando no espaço, que consiste num novo e particularmente cruel, tipo de prisão. Sim, os condenados são jogados num asteroide no espaço e cumprem suas penas por lá! Isso é fantástico! Óbvio que o que realmente pega para Corry é a solidão, já que passa meses sem viva alma para interagir, jogar xadrez ou beber uma cerveja. Situação que o deixa completamente louco. De tempos em tempos, um foguete pousa no local para lhe trazer mantimentos, entre outras coisas. São esses mínimos contatos que mantêm a cabeça do sujeito no lugar. Mas depois de tanto tempo, nem isso basta.

bscap0335

Felizmente, o gentil capitão Allenby (John Dehner) trouxe uma caixa a mais na sua última visita. Dentro, um robô chamado Alicia (Jean Marsh), que foi construída com características muito humanas. Incluindo sentimentos. Ela pode sentir dor e solidão, assim como Corry. Embora a rejeite num primeiro momento, o protagonista não está mais sozinho e se entrega à necessidade de uma companhia. Na próxima visita, Allenbe chega com boas notícias. Corry foi perdoado, o sistema de prisão espacial em asteroides foi cancelado e todos os prisioneiros estão voltando para a terra. O problema é que há espaço suficiente no foguete apenas para Corry, Alicia precisa ser deixada para trás.

bscap0349

Dirigido por Jack Smight, e escrito pelo criador da série, Rod Serling, THE LONELY peca apenas por ser tão urgente, deixa um gostinho de “quero mais” e, talvez, não chegue a fundo no seu estudo sobre o homem em isolamento, nem na ideia de suprir essa necessidade numa relação com um robô. No entanto, a história é tão bem contada nesses vinte e poucos minutos, reduzindo toda a sua potencialidade à essência, que o episódio acaba passando seu recado de forma contundente e divertido às pampas.

Algumas cenas chaves são fantásticas nesse sentido, como quando Corry conhece Alicia e a rejeita porque ela não é uma pessoa real, apenas uma imitação. Mais tarde, ele se deixa consumir pela fantasia, não porque esteja apaixonado por um robô, mas porque ele precisa de algo tangível para se relacionar. No final, quando Allenby atira no rosto de Alicia, revelando nada mais do que fios em curto-circuito, Corry é imediatamente lembrado de quão perto ele chegou de perder a noção de realidade.

bscap0356

Um dos destaque de THE LONELY é a solução que encontraram para a geografia do asteroide. Foi filmado principalmente no Parque Nacional do Vale da Morte, um lugar que serviria de cenários para muitos episódios da série que se passam em algum planeta distante. O deserto vazio e sem vida proporciona ao espectador a sensação de solidão perturbadora que os personagens encaram. É um oceano de nada. Quando Allenby e seus homens chegam ao local, são um lembrete para Corry que ainda há esperança, mas quando vão-se embora, não importa onde o protagonista vá, em qualquer direção que ele olhe sempre vai haver o vazio.

bscap0337

Para quem não se lembra, Jack Warden é o jurado # 7 no clássico de Sidney Lumet, DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA. Ator prolífico, marcou presença em várias produções de peso nas três décadas seguintes. E é notória sua participação em THE LONELY, numa atuação expressiva e convencendo como sujeito desesperado pela solidão. O diretor americano Jack Smight é um dos mais interessantes a pintar na série e manda bem na direção, com muito frescor e originalidade. É um sujeito que já fez de tudo um pouco: estudou psicologia, lutou na guerra, dirigiu teatro e até foi Disc-Jockey. No cinema, demonstrou grande talento, mas acabou sendo engolido pelos estúdios e relegado mais à televisão. Mas tem vários bons filmes no currículo. Voltou à ALÉM DA IMAGINAÇÃO mais três vezes: THE LATERNESS OF THE HOUR (1960), THE NIGHT OF THE MEEK (1960) e TWENTY TWO (1961), todos na segunda temporada.

DVD REVIEW: UM ACIDENTE DE CAÇA (1978); CPC UMES FILMES

PDVD_026

As descobertas dos filmes soviéticos lançados pela CPC UMES Filmes tem sido uma das melhores coisas do ano. O lançamento deste mês, por exemplo, UM ACIDENTE DE CAÇA, uma pequena obra-prima baseada num romance clássico de Chekhov, é uma belíssima surpresa e mais um exemplo que merecia maior reconhecimento por esses lados.

Dirigido por Emil Loteanu, o filme retrata uma aristocracia russa em seu glamour decadente numa trama que gira em torno de três nobres que se apaixonam pela jovem Olenka. Nascida em uma família pobre, ela tem a ideia de que precisa se casar casar com um homem rico para sair da vida de pobreza. Temos um velho viúvo, um conde beberrão e um jovem e belo investigador, que formam os três homens que lutam por seu coração. A partir disso, o filme se desdobra em cima desses personagens revelando suas turbulentas bases morais, suas paixões, suas fraquezas, que constituem a própria matéria deste denso relato.

PDVD_013

No entanto, diferente do que possa parecer, UM ACIDENTE DE CAÇA não é nem de longe um dramalhão histórico, pesado e chato. É claro que esse olhar sobre a burguesia russa de fim de século levanta certas reflexões, até porque a história de amor que gira em torno desses personagens é, na verdade, destrutiva e serve como pretexto para examinar as classes dominantes da aristocracia. Mas o romance clássico em que o filme se baseia, é um Chekhov puro, com humor, ironia, sarcasmo, lirismo e sutilezas, e o filme mantém essa mesma pegada.

PDVD_004

Ou seja, o filme tem uma leveza que ajuda muito o olhar, em especial porque formalmente UM ACIDENTE DE CAÇA é uma pequena maravilha. Quase todos os quadros são lindamente filmados, com composições visuais muito bem cuidadas e uso dramático de cores. Uma câmera excepcional e atraente em seu virtuosismo moderado, Loteanu se permite deslumbrar com o décor, com os objetos de cena, especialmente estátuas, como um mundano maravilhado pela aristocracia. Mas também os figurinos e paisagens, há muito para se olhar e admirar, um filme que encanta pelo que mostra.

PDVD_001PDVD_011

A música de Evgeniy Doga também merece destaque, por ser explorada quase como um personagem, convivendo com as imagens e acentuando o clima dialético entre a festividade de fachada e o esgotamento moral. O filme tem alguns momentos que remetem a musicais, como no primeiro ato, na sequência da festa de despedida de bebedeiras do Conde, que está com o fígado gastado e os médicos lhe deram pouco tempo de vida. A mise en scène dessas cenas é simplesmente deslumbrante. A parceria entre Doga e Loteanu já vinha de quase uma década e acabou se tornando bem popular no período.

O tema principal possui até uma certa importância histórica. A valsa de casamento composta para o filme foi chamada por Ronald Reagan, então presidente americano na época, de “valsa do século” quando visitou Moscou nos anos 80. A música foi usada também na abertura dos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980 e nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014, e foi ainda escolhida pela UNESCO como a quarta obra-prima musical do século XX. Como sou legal, deixo vocês ouvirem por aqui:

Atores russos famosos e talentosos do período interpretam os personagens principais. Entre eles, Oleg Yankovsky, o protagonista e narrador da trama (e que trabalhou em alguns filmes do Tarkovski, como O ESPELHO e a obra-prima NOSTALGIA). Kirill Lavrov (OS IRMÃOS KARAMAZOV, de Ivan Pyryev) é quem faz o conde doente e corrompido. E o veterano Leonid Markov encarna o viúvo de meia-idade.

Mas talvez a grande força de UM ACIDENTE DE CAÇA seja Galina Belyaeva, que na época estava com 17 anos, a mesma idade que sua personagem no livro de Chekhov, e que possui uma beleza poética arrebatadora. Sua primeira aparição no filme diante dos três homens, os principais pretendentes, faz você entender por que os sujeitos literalmente perderam suas mentes e pagariam qualquer preço para tê-la.

PDVD_012

UM ACIDENTE DE CAÇA é o lançamento do mês de setembro da CPC UMES filmes, cujo DVD traz o filme numa qualidade impecável de imagem e som, além de apresentar várias informações sobre o diretor Emil Loteanu, do compositor Evgeniy Doga e outros detalhes. Mas só pelo filme e pela possibilidade de ver e rever uma obra tão sublime e obscura aqui no Brasil, já vale a pena ter na estante. Basta acessar a loja virtual da distribuidora e adquirir este e tantos outros clássicos obrigatórios. E não deixe de curtir a página da CPC UMES filmes no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

46667342

DVD REVIEW: A VIDA É MARAVILHOSA (1979); CPC UMES FILMES

PDVD_102

O que mais me surpreende foi terminar de assistir a um belíssimo exemplar como A VIDA É MARAVILHOSA e perceber o quanto ele é obscuro em relação a outros thrillers políticos italianos do período. Não sei se chegou a ser lançado no Brasil nos cinemas ou em VHS na época, mas pelo menos hoje não existe desculpa, temos a oportunidade de conferir essa preciosidade desconhecida em DVD, pela distribuidora CPC UMES filmes.

A expressão “A vida é Maravilhosa” utilizada no título, na verdade trata-se de um código utilizado por revolucionários que lutam contra uma ditadura. A produção, que é uma parceria Russa e Italiana, é sobre o piloto Antonio Murillo (Giancarlo Gianinni) que, após ser expulso do exército depois se recusar a atirar contra uma embarcação que transportava mulheres e crianças em algum local na África, só quer uma vida sossegada dirigindo seu taxi e fumando um cigarro atrás do outro. Mas acaba entrando numa enrascada política com as autoridades locais depois que se apaixona por Mary (Ornella Muti), a garçonete de um café, que serve de fachada para revolucionários que tentam desmantelar o autoritarismo que assola o país.

PDVD_093PDVD_091

Dirigido por Grigory Chukhray (A BALADA DE UM SOLDADO), A VIDA É MARAVILHOSA se estrutura basicamente em duas partes. A primeira é como híbrido de thriller político italiano e romance barroco russo, com o personagem de Gianinni tendo que espreitar pela noite para não levar chumbo da polícia ou participando de reuniões secretas, com direito até de um MacGuffin Hitchcockiano representado numa bolsa misteriosa que passa de mão em mão até chegar em Murillo, no qual tanto as autoridades quanto os revolucionários querem tomar posse. Tudo isso em conjunto com sequências mais tenras, em que Gianinni divide a tela com Muti, e o olhar mais humano e poético de Chukhray se reforça, como na sequência na praia ou quando Murillo mostra a Mary seu sonho de consumo, um avião de pequeno porte, o que representa um alento em meio a tempos complicados.

PDVD_108PDVD_100

A segunda parte da trama é um “prison movie“, não tão barra pesada, mas com o suficiente para que o personagem de Gianinni coma o pão que o diabo amassou por conta da enrascada que entrou. E aí temos um gostinho do que é estar preso sob uma ditadura: a trama passeia entre torturas físicas e psicológicas, mas também a angústia da distância da pessoa amada, além da elaboração de um plano de fuga que culmina numa rebelião na prisão e uma perseguição de carro num climax bem agitado. Mas o filme nunca descamba nem para a ação poliziesca, nem para o dramalhão carregado, mas consegue passar o efeito catártico das situações mesmo com um incomum tom de humor que paira sobre toda a narrativa.

PDVD_114PDVD_113

Apesar de italianos e dublados em russo, grande parte da força de A VIDA É MARAVILHOSA se concentra em Ornella Muti e Giancarlo Gianinni. Este último num desempenho inspirado, é o sarcasmo em pessoa, o que ajuda a manter uma certa dignidade ao personagem de Murillo mesmo quando acuado por autoridades e nas situações mais adversas. Já Muti, uma das mulheres mais lindas da história do cinema, demonstra grande talento representando uma figura forte e determinada, embora ambígua em alguns momentos.

A direção Chukhray é simples e possui um tratamento realista, reforçado com uma pontuada câmera na mão que dá um maior dinamismo, mas também de rara beleza com composições visuais requintadas, que coloca o filme no mesmo penteão dos thrillers políticos europeus ao lado de obras de diretores como Costa-Gavras, Marco Bellochio, Gillo Pontecorvo, Damiano Damiani e Elio Petri.

PDVD_112

Embora nunca se fale o nome do país onde a história se passa, há vários momentos que aparecem placas e pichações nos muros no idioma português. Portanto, enquanto assistia, achei bem provável que A VIDA É MARAVILHOSA fosse filmada na Portugal do ditador Salazar, nos anos 70. Informações e resenhas sobre este filme são escassas, o que me deixa ainda mais estupefato como ele é obscuro. Mas num fórum que encontrei num canto da internet, veio a confirmação com uns gajos lusitanos a discutirem:

No último excerto, a montagem/edição não fez coincidir as zonas de Lisboa captadas pelas diferentes câmaras… Na que “olha para a frente” o taxi anda pela zona riberinha perto alcântara (há uma parte inclusive na Ponte 25 de Abril, ainda com duas faixas), e na que está de lado e apanha o protagonista, vejo zona aleatórias de Lisboa – a Almirante Reis, o Jardim Constantino, a saída do túnel do Campo Grande...”

PDVD_096

Nesse mesmo fórum descobri que existem duas versões do filme. A Russa, que é esta restaurada pela Mosfilm e que a CPC UMES Filmes lançou aqui no Brasil, e a Italiana, que me parece inacessível, não faço ideia se existe em circulação. A diferença é que nesta versão do país da bota algumas coisas ficam mais explícitas, como deixar claro que a trama realmente se passa em Portugal e que o país africano que está sob ataque no início do filme é Angola.

De qualquer maneira, é um filme que não precisa de posições geográficas, o que o torna universal e necessário. E em períodos obscuros como a que vivemos atualmente, vale a pena se deparar com um A VIDA É MARAVILHOSA para lembrar que independente de visões políticas, censura, autoritarismo e fascismo são merdas que precisam ser combatidas.

E é preciso também que  A VIDA É MARAVILHOSA seja descoberto o mais rápido possível. O filme está disponível no catálogo da CPC UMES Filmes e pode ser adquirido na loja virtual da distribuidora. E não deixe de curtir a página deles no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

GODZILLA RAIDS AGAIN (1955)

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Primeira continuação de GODZILLA, que já comentei aqui no blog no no início de 2017. Não é melhor que seu antecessor, mas para quem curte esses clássicos filmes de Daikaiju (monstro gigante), GODZILLA RAIDS AGAIN é um prato cheio, até porque já aqui ele tem um outro monstro como oponente, o espinhoso Anguirus, para deixar as coisas mais hiperbólicas e divertidas. Só acho que perde para o anterior pelo tom muito sério e uma falta de refinamento, um certo cuidado visual e dramático que não vejo por aqui e que GODZILLA esbanjava. Obviamente a troca na direção, do genial Ishirō Honda, por Motoyoshi Oda tenha um bocado a ver com isso…

Na trama, temos Kobayashi, um piloto que durante um vôo precisa fazer um pouso de emergência em uma ilha. Só que não é uma ilha qualquer, e não demora muito o sujeito avista dois grandes monstrengos trocando desaforos numa batalha épica. Um piloto colega consegue resgatar Kobayashi em algum momento e eles sobrevoam a ilha e percebem que confronto é entre Anguirus e Godzilla. Todo mundo fica encucado quando ouvem que Godzilla foi avistado numa ilha em algum lugar do Pacífico.

GMM8_Godzilla_Raids_Again_1

O que é estranho, já que Godzilla havia morrido por um dispositivo de destruição em massa no filme anterior… Mas GODZILLA RAIDS AGAIN não se preocupa muito em explicar seu retorno, e eu não faço questão em saber. Só quero ver monstros lutado, quebrando e explodindo coisas!

O exército japonês é convocado para reuniões de emergência para discutir a situação dos monstros. A oportunidade perfeita para apagarem as luzes e Takashi Kimura, um dos protagonistas do antecessor, levante e comece a falar da ameaça que estão lidando, além de mostrar “filmes caseiros” sobre Godzilla. O que nada mais é que cenas do primeiro filme, quando o espectador que já assistiu a GODZILLA tem a oportunidade de tirar um cochilo enquanto os realizadores resolvem resumir e reviver tudo o que aconteceu no filme de 1954.

Godzilla-Raids-Again-1955

O sujeito disserta como Godzilla é um monstro fodão, praticamente indestrutível, arrasou cidades inteiras e como só foi possível pará-lo com um dispositivo destruidor de oxigênio. O problema é que o cara que criou tal arma está morto e levou consigo o segredo da fórmula para o túmulo. A apresentação do cara continua e continua, só faltou um power point, mas pelo menos temos as imagens do primeiro filme com Godzilla causando a maior destruição…

Eventualmente, Godzilla e Anguirus aparecem em alguma cidade japonesa e acabam numa refinaria de petróleo, como se fossem dois elefantes numa loja de cristal, explodindo tudo que vêem pela frente, num trabalho de efeitos especiais de maquetes sensacional como é o habitual dessas produções japonesas.

Q5aond9

Após quebrar a cara de Anguirus, Godzilla resolve bater em retirada e os militares tentam rastreá-lo para não perdê-lo de vista. Mas perdem. Como você perde uma lagartixa de trinta andares que está fodendo com a vida dos japoneses? Talvez seja porque seu rastreamento envolve pessoas escrevendo em tabuletas de giz, empurrando pequenos barcos modelo em mapas de mesas e enviando barquinhos de pesca para procurá-lo.

Mas o bom e velho Kobayashi finalmente localiza Godzilla na mesma ilha que havia realizado o pouso forçado no início do filme. O que leva a uma das cenas mais absurdas de todo o filme – Godzilla sendo derrotado, enterrado em uma avalanche (causada por Kobayashi), que mais parecem ser um monte de cubos de gelo, com seus bracinhos acenando freneticamente no ar! E pronto. Fácil assim. A arma de hidrogênio não foi capaz de matar Godzilla como todos esperavam, mas enterrá-lo em uma avalanche de neve e gelo é a solução perfeita! Esperem só até a chegada da primavera pra ver o que acontece…

x2wnsaF

Apesar dessa galhofa toda no final, GODZILLA RAIDS AGAIN possui uma pegada mais séria do que deveria, o que os próximos filmes vão deixando de lado. Quero dizer, se você quer assistir a filmes do Godzilla pela gozação, este aqui não deve funcionar. Tirando os momentos mais insanos, o filme é bem paradão e mesmo assim não chega ao nível do tratamento de GODZILA, cuja história é realmente impactante sobre o alvorecer da era atômica. Mas, também não deixa de ser uma continuação digna do grande clássico que é o filme de 1954.

DVD REVIEW: ENCONTRO.COM (Slasher.com, 2017); A2 FILMES

PDVD_184

Confesso que estava um bocado preocupado com a qualidade que eu ia encontrar em ENCONTRO.COM. Não parece ter dos melhores orçamentos e hoje em dia é mais fácil encontrar filmes caseiros que são verdadeiros lixos do que aquelas obras involuntariamente engraçadas e sem pretensão que de tão toscas acabam surpreendendo por serem mais divertidas do que muita coisa com produção classe A por aí… Realmente o orçamento não é dos melhores por aqui, mas felizmente ENCONTRO.COM pertence à segunda categoria.

Só o título que engana um bocado, ENCONTRO.COM remete mais a um cyber-thriller ou torture porn urbano, algo no estilo MENINA MÁ.COM… Mas essa lógica é rapidamente descartada com uma trama que lembra mais os slashers de florestas oitentistas (o título original faz mais sentido, nesse caso).

PDVD_137

Um serial killer está à solta na cidade, fazendo vítimas que conhece em aplicativos de encontros on-line. Neste contexto, Jack (Ben Kaplan) e Kristy (Morgan Carter) se encontram pessoalmente pela primeira vez após se conhecerem num desses aplicativos. Apesar de ser o primeiro encontro, Kristy fez reservas para que eles passem um fim de semana numa cabana na floresta, que pertence a excêntrica família Myers, Momma (a musa dos anos 80 Jewel Shephard, de A VOLTA DOS MORTOS VIVOS), Jesse (R.A. Mihailoff, que já foi o Leatherface em O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA III) e a filha Caitlin (Rebecca Crowley). As coisas vão muito bem até que o casal acorda amarrados num porão e os Myers prontos para uma pequena dose de tortura e assassinato. No entanto, alguns desses personagens possuem segredos sombrios e as regras do jogo podem mudar…

PDVD_125

Chip Gubera, o diretor da bagaça, mantém ENCONTRO.COM em bom ritmo, até mesmo enquanto Jack e Kristy estão ainda se familiarizando um com o outro, conversando bobagens e fazendo longas caminhadas no meio do mato – e eventualmente se “conhecendo melhor”, se é que me entendem – sempre mantendo um clima suspenso de possível ameaça a qualquer momento, especialmente por conta do velho casal caipira que vive no local… O filme tira o melhor possível do elenco, mesmo que se perceba a falta de talento de alguns atores, como Kaplan, que a maior parte do tempo fica fazendo “expressões bem naturais” que me causavam boas risadas… Mas os coadjuvantes são o grande destaque, especialmente os ícones do horror, Shephard e Mihailoff, que aproveitam bastante suas participações.

PDVD_145PDVD_179

As cenas mais tensas e de violência até que não são ruins, apesar do baixo orçamento e da falta de talento dos envolvidos, como nas duas sequências em que Jack encara o brutamontes Jesse no meio da floresta. Acho apenas que faltou mesmo um banho de sangue daqueles para alegrar a moçada, mas temos algumas mortes legais e até uns efeitos especiais old school. Ocasionalmente, um CGI bem cretino aparece para lembrar que estamos vendo um filme atual…

Mas esse tipo de coisa é compensada pelo menos com algumas ceninhas de nudez gratuitas passando na tela… É um filme que reconhece seus defeitos e não se leva a sério em momento algum. E não vejo como alguém pode assisti-lo sem esse espírito. Só assim se aproveitará as situações absurdas que o roteiro tem para oferecer, as reviravoltas bobinhas da trama, mas que funcionam perfeitamente, os diálogos e atuações ruins, os momentos de sangue e peitos de fora, enfim, tudo o que faz um legítimo filme B divertir.

PDVD_133PDVD_182

ENCONTRO.COM é mais um filme lançado no Brasil pela A2 Filmes, através do selo Flashstar e está disponível para locação em DVD e também nas melhores plataformas online, como Google Play e Looke. O filme vai estar disponível no varejo em outubro e é altamente recomendado para quem curte um terrorzinho independente de baixo orçamento, que não se leva a sério e ainda presta uma bela homenagem aos clássicos filmes de florestas dos anos 70 e 80.

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.6: ESCAPE CLAUSE (1959)

bscap0359

Da safra dos episódios cômicos da série, ESCAPE CLAUSE conta a história de Walter Bedecker (David Wayne) um homem tão paranoico com a morte que vive com a ideia de que está com doenças terminais e à beira de comer capim pela raiz, quando na verdade possui uma saúde de ferro e queixa-se de que seu médico e sua esposa estão lhe enganando. Na verdade, Bedeker é tão obcecado pelo medo da morte, fantasiando essas situações patológicas, que o próprio diabo o vê como uma boa fonte para assegurar mais uma alma para o inferno.

O próprio Belzebu (Thomas Gomez) aparece em seu leito e lhe oferece uma tentadora vida eterna. Em troca, Bedecker lhe daria a sua mercadoria mais valiosa. O contrato ainda diz que nada de mal pode lhe acontecer. Seu corpo é indestrutível, não importa que se jogue à frente de um trem ou entre num prédio em chamas… Bedecker não reluta muito e assina o papel…

bscap0347

O episódio prossegue mostrando que a vida de um imortal pode ser bem entediante. E na sua busca por novas emoções (e muito se jogar no vão do metrô), Bedeker acaba provocando um acidente que mata a sua própria mulher (Virginia Christine). O sujeito acaba preso e é sentenciado à prisão perpétua, o que pra ele é passar toda uma eternidade trancafiado numa cela…

ESCAPE CLAUSE é o típico conto do “contrato com o diabo”, tão explorado na cultura popular. E aqui não foge muito da fórmula – um protagonista que faz um acordo com o tinhoso que vai lhe beneficiar, mas acaba prejudicado exatamente pelo seu desejo – exceto pelo fato de que Rod Serling, o roteirista do episódio e criador da série, tenha escolhido trabalhar o tema num tom de comédia. Se por um lado ESCAPE CLAUSE é simpático e curioso, por outro, essa opção pelo cômico tira imensa força que o episódio poderia ter.

bscap0352

Acaba tudo soando de maneira leve demais, sem que o conceito desse tipo de história tenha o efeito de reflexão desejado no espectador. No entanto, ESCAPE CLAUSE é o que é. Ou seja, não vale a pena criar hipóteses do que poderia ter sido… E vale ainda como passatempo rápido e rasteiro, especialmente pelas atuações. David Wayne exagera um pouco na dose, mas funciona dentro da proposta do episódio. Mas quem realmente se destaca em ESCAPE CLAUSE é Thomas Gomez no papel do diabo, que se apresenta como o Sr. Cadwallader. Gomez desafia a imagem tradicional do Anjo das Trevas, atraente, refinada e sombria como é habitual, para aparecer aqui com sua aparência de gordinho sorridente e simpático. Toda a sequência em que convence Bedeker a assinar o contrato já vale uma conferida no capítulo.

bscap0346

A direção de ESCAPE CLAUSE é de Mitchell Leisen, que já havia realizado THE SIXTEEN MILLIMETER SHRINE, o quarto episódio, e ainda viria a dirigir PEOPLE ARE ALIKE ALL OVER, também nessa primeira temporada.

DVD REVIEW: FORA DA TRILHA (Off Piste, 2016); A2 FILMES

PDVD_080

A primeira coisa a se fazer para apreciar FORA DA TRILHA é ignorar um bocado as artes promocionais, a capa do DVD e até o trailer da obra, que prometem muita ação num filme movimentado e visceral, quando na verdade o que temos aqui é um drama bucólico, lento e pesado sobre cicatrizes do passado. Tendo isso em mente, dá para apreciar melhor, sem decepções, o que temos aqui. Até porque esta pequena produção independente britânica é um belo exemplar que me surpreendeu bastante.

Stanley Winters (Henry Douthwaite) é um ex-membro do SAS (Serviço Aéreo Especial, do Reino Unido), que, após um horrível acidente traumático numa operação em Belfast, na Irlanda, se retira para os alpes franceses para tentar esquecer seu passado sombrio e cuidar de sua mãe cega. Doze anos depois, Niamh O’Brian (Lara Lemon) sai de Belfast à procura de vingança pelo responsável da tragédia que dizimou sua família. No entanto, como a sua saída repentina deixa uma série de perguntas sem resposta, o namorado de Niamh começa a persegui-la para descobrir exatamente onde a moça foi, e quem é a pessoa pelo qual ela viajou centenas de quilômetros para se encontrar…

off-piste

Obviamente, a moça vai parar nos alpes franceses e sua busca chega em Stanley. Não é nenhuma surpresa… Não que o filme escancare isso logo de cara, mas é uma coisa que fica óbvia logo no início. A verdadeira surpresa de FORA DA TRILHA, no entanto, é o ótimo estudo desses personagens que possuem marcas profundas de um passado trágico e se encontram cara a cara para resolver as questões que os desequilibraram na vida. Mas nada acontece num tom de thriller tenso como as já citadas artes promocionais indicavam, a coisa funciona mais como um jogo de xadrez melancólico, impossível de prever os próximos movimentos.

PDVD_071

Evitando certos clichês e se arriscando até demais num roteiro que falha em alguns momentos por conta dessa ousadia narrativa (que é bem-vinda, é melhor errar ousando do que acertar ficando na mesmice genérica do cinema atual), FORA DA TRILHA é um belo filme de personagens fortes, um visual estonteante de encher os olhos, muito bem utilizados pelo diretor Glen Kirby – E o cenário branco e montanhoso é perfeito, captura bem a solidão invernal desse conto de retribuição e redenção. Além de um ritmo lento e contemplativo sem pressa alguma na exposição narrativa. Qualidades que às vezes escapam de um produto independente de gênero Direct to Video.

PDVD_078

FORA DA TRILHA é uma baita surpresa lançada no Brasil pela A2 Filmes, através do selo Flashstar e está disponível para locação em DVD e também nas melhores plataformas online do Brasil!

estojo-fora-da-trilha

DVD REVIEW: ALEXANDER NEVSKY (1938); CPC UMES FILMES

PDVD_067

Um dos filmes mais importantes do acervo da CPC UMES Filmes é, sem dúvida alguma, ALEXANDER NEVSKY, dirigido por um dos maiores patrimônios que o cinema já criou, o diretor russo Sergei Eisenstein. Embora o filme tenha sido inicialmente concebido como propaganda de guerra, acabou que seu conteúdo foi ofuscado pela técnica. Eisenstein aproveitou algumas de suas próprias habilidades cinematográficas inovadoras para criar uma das mais surpreendentes obras-primas do período e um das mais incríveis batalhas já filmadas.

Na época, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, o então líder soviético Joseph Stalin queria que fosse produzido um filme como ferramenta de propaganda a fim de alertar os cidadãos soviéticos para a crescente ameaça alemã. ALEXANDER NEVSKY surgiu com tais propósitos e conta a história do príncipe Alexander Vasilievich Nevsky que levou os russos a lutar contra o imperialismo teutônico germânico. O ano era 1242, e os Teutons já haviam conquistado uma grande parte do Império Russo, com ataques rápidos e pegando cidades de surpresa. A cidade de Pskov e toda a Rússia ocidental se renderam aos impotentes Teutons, que então colocaram seus olhos em Novgorod, o epítome do progresso da pátria russa no período.

PDVD_038PDVD_039

Os laços entre os alemães alemães do século XIII e a Alemanha nazista do início do século XX são claros, razão pela qual Stalin acabou proibindo ALEXANDER NEVSKY de ver a luz do dia após ter assinado o pacto de não agressão com Hitler. Pacto que foi quebrado em 1941 e Stalin acabou voltando para sua ideia original de apresentar o filme como propaganda de guerra. Era óbvio o quão poderoso o filme era, não só em termos da caracterização dos alemães como animais cruéis e invasores a serem combatidos com violência, que jogam crianças em fogueiras para serem queimadas vivas… Mas também em seu impacto geral como obra cinematográfica. Eisenstein era incapaz de fazer um filme que fosse apenas uma mensagem política e acabou criando uma verdadeira obra de arte.

PDVD_018

Grande parte das atenções de ALEXANDER NEVSKY se concentram na extraordinária sequência de 30 minutos da Batalha do Gelo, na qual o exército de Alexander enfrenta os alemães em um lago congelado. Segundo Eisenstein, em seu livro O sentido do Filme, que eu considero obrigatório, é nesta cena que “o aspecto audiovisual de Alexander Nevsky atinge sua fusão mais completa“. A batalha é um exemplo incrível de encenação, arquitetura da ação e como a combinação de imagem e música pode despertar emoções profundas. As composições visuais são cuidadosamente colocadas em compatibilidade com as notas musicais do compositor Sergei Prokofiev e o resultado é simplesmente magistral em todos os sentidos.

PDVD_064PDVD_060

Em ALEXANDER NEVSKY, Eisenstein demonstra que ele poderia trazer sua visão de autor mesmo trabalhando dentro dos rígidos códigos do estalinismo. Embora ele tenha sido posteriormente humilhado e exilado. Eisenstein prova aqui que o seu brilho não podia ser esquecido tão cedo. E ainda hoje seu trabalho técnico impecável impressiona. É por isso que o filme faz parte do catálogo da CPC UMES Filmes e pode ser adquirido na loja virtual da distribuidora. E não deixe de curtir a página deles no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

PDVD_070

DVD REVIEW: LILA & EVE – UNIDAS PELA VINGANÇA (2015); A2 FILMES

LilaAndEve_184900_ClipIWantAName

Dizem que não há amor maior que o de uma mãe para seus filhos. Então, faz sentido quando um filho é assassinado, uma mãe desejar vingança. Essa é essencialmente a premissa da produção independente LILA & EVE – UNIDAS PELA VINGANÇA, no qual as duas personagens título (Viola Davis e Jennifer Lopez respectivamente) juntam-se para procurar os responsáveis do assassinato de Stephon (Aml Ameen), filho de Lila. Sim, estamos falando de um filme de mães vigilantes.

Aliás, não apenas vigilantes mulheres, mas também vigilantes mulheres que não são brancas, o que na nossa sociedade hipócrita atual já é motivo para jogar um filme desses de escanteio. Se é um thriller de vingança com, sei lá, Scarlett Johanson, ia encher as salas de cinemas, mas como é uma negra, que já passou dos 40 anos querendo vingar a morte do filho, acabou virando peça direct to video. Mas não tem problema, já que temos uma distribuidora como a A2 Filmes prestando esse serviço no mercado brasileiro de home video, lançando algumas pérolas que nem saberíamos a existência.

ebd784770a901eb11051968428039450_640_x_341

Ainda que este “DESEJO DE MATAR de saias” não seja nenhuma obra-prima, longe disso, LILA & EVE possui alguns pontos a favor. É um filme sincero ao trabalhar o tema da dificuldade de lidar com a perda e das consequências de fazer justiça com as próprias mãos, mesmo que se enverede para o estilo camp e exagerado da coisa. Em particular, Viola Davis – que é uma das produtoras do filme e três vezes indicada ao Oscar, levando uma estatueta pra casa este ano com UM LIMITE ENTRE NÓS – está sublime e convence facilmente como a mãe devastada. A complexidade com que ela aborda cada avanço da trama é notável. Jennifer Lopez também surpreende com uma atuação segura, mais envelhecida, ainda com uma beleza natural, fazendo uma espécie de dispositivo de Lila. Ambas trabalham bem juntas, com uma química legal. Especialmente quando saem à noite fazendo o trabalho que a polícia deveria estar fazendo e, eventualmente, atirando em pessoas ligadas à morte do filho de Lila.

Tirando Davis e Lopez, o elenco não possui atores famosos, com exceção da participação de Shea Whigham, como detetive responsável pelo caso de Lila.

060415-Centric-Entertainment-Viola-Davis-Jennifer-Lopez-Star-in-Lila-and-Eve-Trailer

A vingança em si não é lá grandes coisas em LILA & EVE, com algumas ceninhas mais tensas, uns tiros aqui e ali, mas de vez em quando quase aparece em segundo plano na trama quando se olha para o filme como um todo. O foco é mais no peso dramático, na luta de Lila em confrontar seus sentimentos, sua vida cotidiana e na relação com Eve, uma ajudando a outra a seguir em frente ou, ocasionalmente, planejando seus próximos passos para a vingança.

Como já disse, LILA & EVE foi lançado no Brasil pela A2 Filmes, através do selo Flashstar, e chegou em DVD para locação, além de estar disponível para compra ou aluguel digitais nas melhores plataformas virtuais. O DVD chegará às lojas em Outubro e é altamente recomendado para quem curte um thriller de vingança fora do convencional, com excelentes atuações e até algumas boas sacadas de roteiro (o twist no final me pegou de surpresa!).

46506489

LANÇAMENTO DE SETEMBRO DA CPC UMES FILMES: UM ACIDENTE DE CAÇA

0RCpuBC

Adaptado da novela de Anton Chekhov, publicada como folhetim em 1884-85 e considerada precursora do romance policial psicológico, UM ACIDENTE DE CAÇA penetra no vazio moral da aristocracia decadente ao narrar o drama da jovem Olga, filha de um servo, cobiçada por três homens de meia-idade.

O filme é o lançamento de setembro da CPC UMES FILMES e já está disponível na sua loja virtual. Uma distribuidora que vem fazendo um dos melhores trabalhos de curadoria home video, com filmes que realmente valem a pena ter na estante. Clique aqui e adquira já o seu!

46667342

E confira a resenha de COSSACOS DE KUBAN, o lançamento do mês passado da CPC UMES FILMES e que vale a pena conhecer.