A NOITE DOS MORTOS VIVOS (The Night of the Living Dead, 1968)

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Morreu George A. Romero. Talvez o público mais jovem não tenha ainda muita noção, mas a importância que esse homem teve para o cinema, não só para os filmes de zumbis, não só para o gênero horror, é para o CINEMA mesmo, é algo simplesmente extraordinário. Pessoalmente, o cara foi responsável por algumas obras fundamentais na minha formação cinéfila, como DIA DOS MORTOS, OS CAVALEIROS DA NOITE e, claro, A NOITE DOS MORTOS VIVOS, seu primeiro trabalho.

Antes de A NOITE DOS MORTOS VIVOS, os zumbis eram trazidos à vida nos filmes, em sua grande maioria, em cerimônias voodoo como peões para seguir as ordens de seus mestres. De vez em quando alguns exemplares faziam algo diferente e mostravam mortos-vivos agindo em hordas bem parecidos com o que Romero viria a fazer, como em MORTOS QUE MATAM (64) ou O PARQUE MACABRO (62). Mas tudo mudou mesmo em 1968, com A NOITE DOS MORTOS VIVOS, quando Romero entra em cena e transforma a figura do zumbi numa metáfora político-social do indivíduo moderno. Além de injetar nessas criaturas um terror mais visual. Uma criatura putrefata que se levanta do túmulo para devorar as tripas dos vivos não era algo tão comum nos anos 60.

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O primeiro zumbi de Romero

Romero também estabeleceu as regras básicas para o milhares de zombie movies que viriam a seguir, como por exemplo a maneira de matar um morto-vivo… Como você pode matar algo que já está morto? Fácil! Atire na cabeça! Outra regra: Se você for mordido por um zumbi, você se transformará em zumbi! As causas e origens dos mortos voltarem à vida, no entanto, nunca são claramente explicadas nos filmes de Romero. Mas quem se importa?

A NOITE DOS MORTOS VIVOS começa com Barbra (Judith O’Dea) e Johnny (Russell Streiner), dois irmãos que chegam a um cemitério para colocar flores no túmulo do pai e se deparam com um zumbi lhes aporrinhando. Depois de matar Johnny, o morto-vivo persegue Barbra, que procura abrigo em uma fazenda aparentemente abandonada. Mas, não demora muito, Ben (Duane Jones) chega ao local fugindo desse inesperado horror e ajuda Barbra a bloquear a casa do iminente ataque de zumbis. As tensões aumentam também dentro da casa, quando uma família escondida no porão é revelada e instaura outros tipos de conflitos dentro desse pequeno universo particular, num complexo estudo do comportamento humano em situações extremas. Não é a toa que Romero escolhe o gênero terror para expressar sua desilusão no ser humano e mostrar pela imagem a que ponto podemos chegar na ânsia de nos devorar. No caso dos zumbis, o ato de devorar o outro é literal, mas por trás disso há uma grande metáfora de passar por cima, de engolir o próximo em nome dos interesses pessoais.

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Isso fica muito claro nas relações que se estabelecem dentro da casa. São sete indivíduos tentando se manter vivos a qualquer custo. Ainda que tenham que se desentender, insistir em dar ordens ou tomar atitudes extremas em nome da salvação alheia. Essas pessoas tornam-se tão mortas-vivas como os zumbis, por ninguém querer enxergar o óbvio: sem o outro, não existe vida. Resta a morte.

Além disso, vale ressaltar que o elenco possui apenas dois atores profissionais: Duane Jones e Judith O’Dea, sendo que o primeiro é um negro. Como protagonista. Algo extremamente incomum no cinema americano da época. Mas é o tipo de coisa que garante a Romero a importância da sua obra, muito além de um simples filme de horror. A direção do sujeito também merece destaque, com uma abordagem de documentário, com câmera na mão e ângulos oblíquios em determinados momentos e uma fotografia em preto e branco incrível que conferem uma atmosfera densa e uma tensão dramática muito forte. Além de nos inundar de sequências impressionantes, de puro medo e pavor: a garota sendo perseguida no cemitério logo no início, todas as cenas externas dos zumbis rodeando a casa, a sequência da explosão do carro, a garotinha que mata a própria mãe com uma pá de pedreiro, coisas de impressionar mesmo…

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O filme termina com um dos desfechos mais niilistas e irônicos na história do cinema, mas que não vale comentar para não estragar a surpresa para quem não viu… Se é que existe ainda um ser que não tenha assistido ainda.

Romero retornou ao zombie movie em várias sequências, como O DESPERTAR DOS MORTOS e O DIA DOS MORTOS (meu favorito do homem) confirmando o nome mais importante para o subgênero. Mas seu trabalho fora do ciclo de mortos-vivos provam que Romero foi um dos maiores diretores de todos os tempos, independente de gênero. Milhares de imitações se seguiram a partir de A NOITE DOS MORTOS VIVOS, mas este primeiro filme de Romero permanece ainda entre as melhores obras de horror já realizadas (a refilmagem dirigida pelo mago dos efeitos especiais, Tom Savini, em 1990, também vale uma conferida).

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Uma vez que os produtores esqueceram de colocar os direito autorais sobre o filme, A NOITE DOS MORTOS VIVOS entrou em domínio público bem mais cedo que deveria e hoje é possível encontrar dezenas de versões em DVDs e fazer downloads legalmente em alguns sites. Então não existe desculpa para não ter visto ainda. Se alguém aí não o fez, aproveita que o cabra morreu e comecem a prestar uma homenagem, porque o sujeito merece.

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Uma resposta para A NOITE DOS MORTOS VIVOS (The Night of the Living Dead, 1968)

  1. Fabiano disse:

    Filmaço. Clássico absoluto. E Romero ainda fez diversos filmaços além da zumbizada, como Martin, Dois olhos Satânicos com o Argento, Creepshow, Instinto Fatal, que tive o prazer de ver no cinema aqui em BH, The Crazies e tantas outras pérolas. Em homenagem ao Romero Of The Dead, um ciclo dele viria bem a calhar… se não, já valeu a homenagem

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