ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.2 – ONE FOR THE ANGELS (1959)

bscap0171

Este segundo episódio é um bom contraponto ao primeiro, que possui um tom mais sério e angustiante. ONE FOR THE ANGELS representa uma parcela de histórias mais leves e sentimentais que ocasionalmente aparecem em ALÉM DA IMAGINAÇÃO.

Na trama, novamente escrita pelo criador e narrador da série, Rod Serling, Ed Wynn vive Lou Bookman, um caixeiro que tenta vender tudo o que pode sair de sua mala, geralmente coisas comuns, como robôs de brinquedo e gravatas. Logo no início, ele percebe que está sendo observado por um homem misterioso trajando um terno preto, interpretado por Murray Hamilton. Ao chegar em casa, Lou se surpreende com o homem de preto sentado num canto de seu modesto apartamento de um quarto. O homem anuncia que deve “levá-lo” à meia-noite. Lou custa a descobrir, mas no fim percebe que o sujeito é ninguém menos que a morte.

bscap0164bscap0165

A menos que Lou consiga preencher um dos três requisitos de adiamento, não há nada que possa fazer para evitar sua passagem pro outro lado. Mas Lou não tem família, que é o primeiro requisito, salvo um grupo de crianças do bairro que o adoram. Ele também não está trabalhando em qualquer tipo de avanço científico (outro requisito), e ele não tem negócios inacabados, que seria o terceiro item que lhe daria mais algum tempo.

Mas como bom vendedor, sujeito de lábia afiada, Lou convence a Morte de que ele tem sim algo inacabado na vida: quer fazer uma grande venda, um venda daquelas que faria com que os céus se abrissem, “one for The angels” como diz o título do episódio. A morte concede, e Lou rapidamente guarda sua mala e se aposenta. Na sua lógica, se ele não vende, não morre. A morte, no entanto, percebe a jogada e decide levar uma das crianças do bairro. Uma garotinha é atropelada e a morte marca para pegá-la à meia-noite. Passado esse horário, a garotinha vive. É quando Lou bola um plano para a morte se atrasar.

bscap0172

Uma das grandes sacadas deste episódio é a relação de Lou com a Morte. Ambos são afiados, os atores estão excelentes em cena, o diálogo entre eles é incrível. E Serling e o diretor Robert Parrish nunca deixam a coisa degringolar pra um sentimentalismo besta, mantendo sempre uma boa dose de humor, com situações realmente divertidas – como na cena em que Lou tenta fugir da morte nas escadarias do prédio. A morte, na verdade, não é nem ameaçadora, faz mais o tipo burocrata, enquanto Wynn faz um personagem muito fácil de se gostar.

O papel pelo qual Hamilton talvez seja mais lembrado é o de prefeito da cidade em TUBARÃO (75), do Spielberg. Mas quem merece mesmo os nossos olhares é Wynn, que está formidável. Um comediante à moda antiga, possui mais de quarenta filmes no currículo, incluindo algumas comédias estreladas por Jerry Lewis. A sequência em que seu personagem faz a morte se atrasar é um de seus momentos mais inspirados, digna de aplausos.

bscap0173

O diretor Robert Parrish era um veterano da indústria naquela altura, tendo sido ator, assistente e montador antes de estrear na direção em 1951, com CRY DANGER, um noir com Dick Powell. Teve uma carreira sólida, mas nunca foi considerado entre os grandes diretores de sua época, embora fosse bastante elogiado pelos franceses. Além deste episódio, Parrish realizou mais duas entradas em ALÉM DA IMAGINAÇÃO: A STOP AT WILLOUGHBY (1960) e THE MIGHTY CASEY (1960), ambos da primeira temporada.

ONE FOR THE ANGELS é bastante simpático e levanta questões interessante que nos faz refletir sobre o tempo e a morte, mas sem soar chato ou pesado. Não deixa de ser melancólico, como é a vida às vezes, mas sem deixar o bom humor de lado.

Anúncios

AMERICAN POLTERGEIST: POSSUÍDOS (Encounter, 2016)

Mais uma contribuição da minha parte no blog Vá e Veja, escrevi sobre este pequeno filme de horror independente, AMERICAN POLTERGEIST: POSSUÍDOS, que foi lançado no Brasil pela A2 Filmes, através do selo Flashstar. O filme está disponível em DVD para aluguel ou compra, assim como em serviços ‘on demand’ como o Looke e o NOW. O longa é recomendado para quem curte filmes de assombração com uma pitada de sci-fi.

Clique aqui para ler os meus comentários sobre
AMERICAN POLTERGEIST: POSSUÍDOS no blog Vá e Veja.

American Poltergeist - Possuídos

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.1 (The Twilight Zone, 1959)

bscap0108

Os mais saudosistas vão curtir essa. ALÉM DA IMAGINAÇÃO é uma das séries mais cultuadas da televisão americana e uma das minhas favoritas de todos os tempos e não é de agora que eu tenho planos de escrever sobre essa belezinha aqui no blog, episódio por episódio. Mas sempre acabo adiando… Como finalmente animei rever tudo de novo, vou tentar não perder a chance novamente.

Antes de entrar no primeiro episódio, acho que vale a pena uma ligeira introdução para quem não viu ou nem conhece a série entender a importância da coisa. Criada pelo escritor e roteirista Rod Serling, ALÉM DA IMAGINAÇÃO encantou os ávidos fãs de sci-fi, horror e fantasia durante cinco temporadas, entre 1959 e 1964, em dramas e situações que lidam com o sobrenatural, com a psicologia, com conceitos kafkanianos, resultando em episódios que vão do incomum e insólito até o aterrorizante e perturbador. Devido a grande variedade de temas e abordagens da série, não poderia ser diferente: acabou por ser uma das mais influentes fontes de inspiração de praticamente tudo relacionado a ficção científica no cinema, televisão, literatura e games pós-anos 60.

A série também é notável pela presença de alguns atores gabaritados do período (Dana Andrews, Art Carney, Buster Keaton, Burgess Meredith, etc…) e por apresentar algumas figuras mais jovens em início de carreira e que se tornariam famosos mais tarde, como Charles Bronson, Robert Duvall, Peter Falk, Dennis Hopper, Leonard Nimoy, Robert Redford, e tantos outros… Vale destacar também alguns diretores e roteiristas que contribuíram com seu talento em alguns episódios, como Don Siegel, Richard C. Sarafian, Ida Lupino, Jacques Tourneur, Christian Nyby, Richard Donner, Buzz Kulik, Richard Matherson, Ray Bradbury, Reginald Rose, etc.

bscap0145

Enfim, hoje assisti ao primeiríssimo episódio da primeiríssima temporada, que se chama WHERE IS EVERYBODY?.  Já dá pra ter uma boa noção do que esperar da série só pela trama deste aqui. Um sujeito, vivido por Earl Holliman, chega a uma pequena cidade, sem saber quem é, de onde veio e como chegou ali, e encontra o local desprovido de qualquer pessoa. A cidade inteira está deserta. O moço passa então a vagar de um lado a outro, de estabelecimento a outro, sempre proferindo um monólogo constante, vivendo situações solitárias. Quase fica preso em uma cabine telefônica, toma sorvete, ouve música, vai ao cinema e sempre encontra evidências de que pessoas estiveram ali recentemente: um charuto aceso num cinzeiro, uma cafeteira assobiando… Mas não encontra uma alma viva.

bscap0147

Escrito pelo próprio Rod Serling, já é possível identificar por aqui um dos principais temas da primeira temporada de ALÉM DA IMAGINAÇÃO: os efeitos da solidão humana. Desse modo, WHERE IS EVERYBODY? é um episódio que depende muito do desempenho de seu ator principal. E Earl Holliman consegue ser convincente e eficaz como o amnésico perdido nessa situação totalmente insólita. Seu papel não é tão fácil, considerando que seu personagem praticamente não contracena com ninguém e, mesmo assim, consegue manter a atenção de forma expressiva, falando em voz alta – uma maneira de fornecer alguma satisfação ao público.

Outras grandes atuações deste ator praticamente desconhecido hoje pelo público podem ser conferidas em filme como PLANETA PROIBIDO, ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE e LÁGRIMAS DO CÉU (56), pelo qual ganhou o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante.

bscap0156

WHERE IS EVERYBODY? também deve muito ao diretor Robert Stevens, cujos movimentos de câmera e enquadramentos ousados em alguns momentos dão energia a uma história que poderia resultar num tédio. Há algumas sacadas visuais geniais aqui, uma delas é quando Holliman desce correndo pelas escadas no cinema e se choca contra um espelho estraçalhando-o, causando um efeito bem interessante.

bscap0162

Stevens fez sua carreira mais voltada para a televisão, realizando um grande número dos mais variados seriados. Apesar de ter dirigido este episódio de estreia, o sujeito só viria a dirigir mais um capítulo de ALÉM DA IMAGINAÇÃO, chamado WALKING DISTANCE, ainda na primeira temporada. Hoje, ele seria mais lembrado por seu prolífico trabalho na série HITCHCOCK PRESENTS e THE ALFRED HITCHCOCK HOUR, onde dirigiu quase cinquenta episódios entre os dois programas de TV.

WHERE IS EVERYBODY? é um ótimo começo para ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Não chega nem perto de ser o melhor episódio, ainda vamos chegar lá, mas até hoje continua divertido e mantém com segurança o peso da responsabilidade por começar um dos programas de TV mais celebrados e, por isso, tem a sua importância distinta para a série.

SCHLOCK (1973)

bscap0060bscap0059

Meu “diretor favorito do fim de semana” foi o John Landis (UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES), que peguei pra passar a régua em alguns dos seus trabalhos que eu ainda não tinha visto, como ANIMAL HOUSE, KENTUKY FRIED MOVIE e este SCHLOCK, que é o seu primeiro filme como diretor. Uma comédia deliciosa que presta homenagem aos filmes B dos anos 50 e 60, cheio de clichês de filmes de monstro.

A trama é simples e direta. Uma espécie de “pé-grande” chamado Schlock, que ficou congelado por 20 milhões de anos, acorda de seu longo sono e toca o terror em uma pequena cidade no sul da Califórnia, deixando um rastro de corpos, comendo muitas bananas e criando o caos em qualquer lugar que se mete. Em meio às investigações policiais e reportagens sensacionalistas da mídia local, o monstro encontra uma garota temporariamente cega e se apaixona, mas infelizmente ela acha que Schlock é apenas um cachorro. Depois que seus olhos melhoram, ela vê a criatura peluda à sua frente e grita desesperada, machucando o coração do pobre macaco pré-histórico…

dhUdM

O plot é basicamente isso. O resto do filme se constrói em como os indivíduos da cidade reagem a Schlock, numa série de situações engraçadas e absurdas. O que não quer dizer que teremos 78 minutos de pessoas correndo e gritando ao ver a criatura sedenta de sangue. O que torna este filme tão único é que é totalmente imprevisível. Não temos a menor ideia de como Schlock ou alguém da cidade reagirá um ao outro nos mais diversos tipos de ambientes, locais e interação. Uma mais ridícula que a outra…

Há uma cena em que as pessoas estão assistindo a polícia e cientistas investigarem a cena de um crime na entrada de uma caverna e Schlock espreita por trás da multidão. Uma senhora acaba percebendo e em vez de fugir, diz: “Por que você não corta esse cabelo? Por que não arruma um emprego?“. O chefe da polícia vê Schlock, mas não parece assustado e tenta algemá-lo enquanto lê seus direitos. Assim, na maior naturalidade… Umas ceninhas bestas, mas que fazem uma sutil alegoria ao estado de espírito americano do período, a reação da sociedade com o outsider, com as pessoas que não se encaixam no padrão “certinho” que as instituiçõs idealizam… É por isso que no fim das contas acabamos por nos simpatizar por Schlock, essa criatura desajustada com suas atitudes rebeldes diante dos chatos e hipócritas que erguem os bastiões da moral, bons costumes e do politicamente correto… Felizmente, nosso grande Schlock quebra as algemas com facilidade e continua tocando o terror.

7d5DO

Na sua jornada, Schlock varia desde atitudes violentas para o extremamente amigável. Em um minuto ele arranca o braço de um repórter sensacionalista e no instante seguinte vai tomar sorvete com algumas crianças. Num outro momento, ele destroça o carro de um sujeito, e é hilário porque ele fica sentado no seu assento e não faz nada. Mas a minha parte favorita de SCHLOCK é quando o monstro vai ao cinema! Pra começar, ele senta ao lado do grande Forrest J. Ackerman, de quem rouba a pipoca, e os filmes que assiste são deliciosos B movies antigos – como THE BLOB, com o Steve McQueen – e um monte de coisa acontece para atrapalhar a sessão do macaco… E eu só posso dizer que vi essa cena com um largo sorriso no rosto.

Vale destacar o visual de de Schlock, um dos primeiros trabalhos do maquiador Rick baker, apesar do baixo orçamento, e a performance da criatura, ou o ator dentro da “fantasia de macaco”. Um belo trabalho inusitado e espontâneo de expressão corporal e que, curiosamente, é o próprio John Landis quem o faz.

xCQqy

Há muitos outros detalhes que Landis joga pra dentro, há muitas referências a outros filmes, alguns bem conhecidos, como uma genial paródia da famosa cena de esmagamento de ossos de 2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick, e, obviamente, o clímax do clássico KING KONG original. No geral, SCHLOCK é uma bobagem divertida, uma produção capenga de apenas 60 mil dólares que se destaca devido à sua estranheza, às referências apaixonadas de seu diretor e a uma espécie de humor cretino que raramente é visto hoje em dia.

A NOITE DOS MORTOS VIVOS (The Night of the Living Dead, 1968)

night3

Morreu George A. Romero. Talvez o público mais jovem não tenha ainda muita noção, mas a importância que esse homem teve para o cinema, não só para os filmes de zumbis, não só para o gênero horror, é para o CINEMA mesmo, é algo simplesmente extraordinário. Pessoalmente, o cara foi responsável por algumas obras fundamentais na minha formação cinéfila, como DIA DOS MORTOS, OS CAVALEIROS DA NOITE e, claro, A NOITE DOS MORTOS VIVOS, seu primeiro trabalho.

Antes de A NOITE DOS MORTOS VIVOS, os zumbis eram trazidos à vida nos filmes, em sua grande maioria, em cerimônias voodoo como peões para seguir as ordens de seus mestres. De vez em quando alguns exemplares faziam algo diferente e mostravam mortos-vivos agindo em hordas bem parecidos com o que Romero viria a fazer, como em MORTOS QUE MATAM (64) ou O PARQUE MACABRO (62). Mas tudo mudou mesmo em 1968, com A NOITE DOS MORTOS VIVOS, quando Romero entra em cena e transforma a figura do zumbi numa metáfora político-social do indivíduo moderno. Além de injetar nessas criaturas um terror mais visual. Uma criatura putrefata que se levanta do túmulo para devorar as tripas dos vivos não era algo tão comum nos anos 60.

High-Def-Digest-highdefdigest.com-Blu-ray-Review-Night-of-the-Living-Dead-1968-Japan-Import-George-Romero_2_

O primeiro zumbi de Romero

Romero também estabeleceu as regras básicas para o milhares de zombie movies que viriam a seguir, como por exemplo a maneira de matar um morto-vivo… Como você pode matar algo que já está morto? Fácil! Atire na cabeça! Outra regra: Se você for mordido por um zumbi, você se transformará em zumbi! As causas e origens dos mortos voltarem à vida, no entanto, nunca são claramente explicadas nos filmes de Romero. Mas quem se importa?

A NOITE DOS MORTOS VIVOS começa com Barbra (Judith O’Dea) e Johnny (Russell Streiner), dois irmãos que chegam a um cemitério para colocar flores no túmulo do pai e se deparam com um zumbi lhes aporrinhando. Depois de matar Johnny, o morto-vivo persegue Barbra, que procura abrigo em uma fazenda aparentemente abandonada. Mas, não demora muito, Ben (Duane Jones) chega ao local fugindo desse inesperado horror e ajuda Barbra a bloquear a casa do iminente ataque de zumbis. As tensões aumentam também dentro da casa, quando uma família escondida no porão é revelada e instaura outros tipos de conflitos dentro desse pequeno universo particular, num complexo estudo do comportamento humano em situações extremas. Não é a toa que Romero escolhe o gênero terror para expressar sua desilusão no ser humano e mostrar pela imagem a que ponto podemos chegar na ânsia de nos devorar. No caso dos zumbis, o ato de devorar o outro é literal, mas por trás disso há uma grande metáfora de passar por cima, de engolir o próximo em nome dos interesses pessoais. Continuar lendo

GEORGE A. ROMERO

O DIA DOS MORTOS (1985) foi o primeiro filme de zumbi que assisti na vida, quando era um moleque ainda, e foi um dos responsáveis por me fazer gostar tanto de filmes de horror. Valeu, Romerão, por fazer algumas das obras mais importantes da minha formação cinéfila.

R.I.P. George A. Romero.

LpJVylwE

THE LOST CITY OF Z (2016)

230572R3

São raros agora, mas ainda bem que temos, atualmente, um James Gray fazendo filmes que nos despertam tanto prazer e encantamento por suas obras. Gray, Michael Mann, Johnnie To… Brisseau, Verhoeven, De Palma e Miller, quando conseguem filmar… David Lynch com essa nova temporada de TWIN PEAKS. Enfim, o número de diretores que ainda me causam um fascínio puro são poucos nos nossos dias. Poderia citar alguns outros, mas não me ocorre agora. Quero falar do Gray e seu novo trabalho, THE LOST CITY OF Z, que me arrebatou essa semana.

Gray faz filmes que são considerados regressões, clássicos, anacrônicos… Adjetivos que no fim das contas o torna um dos mais modernos diretores da atualidade. Mas é também parte da razão pela qual ele ainda não teve um verdadeiro sucesso com o grande público mesmo trabalhando com gêneros populares, como o crime movie, o policial e agora com aventura em THE LOST CITY OF Z.

O que é uma pena… A cada filme eu fico impressionado com a habilidade de Gray em contar histórias moralmente complexas com uma verdadeira sensação de beleza cinematográfica, e, ao lado de Mann, se tornou um dos meus cineastas favoritos nos últimos 20 anos em solo americano. Estreou com uma obra-prima, LITTLE ODESSA (94) e já emendou a porrada que é THE YARDS, tragicamente subestimado, e alguns anos mais tarde, o policial dos anos 80 WE OWN THE NIGHT, que é o meu favorito do homem e um dos melhores filmes da década passada (só perde pra MIAMI VICE e talvez pro MARCAS DA VIOLÊNCIA). Depois continuou no mesmo nível com os belíssimos AMANTES e A IMIGRANTE.  Mas, com THE LOST CITY OF Z, Gray sai um bocado da sua zona de conforto, da sua Nova York, e cria uma história assombrosa de aventura, família e loucura potencial. Dificilmente eu vou assistir a um filme tão grandioso este ano…

tumblr_ot2109Muk91vdap0oo6_1280

Charlie Hunnam talvez não seja o melhor ator do momento, mas até que Gray extrai dele uma ótima presença. O sujeito vive Percy Fawcett, um oficial de artilharia britânica, do início dos anos 1900, que foi recrutado pela Royal Geographical Society para explorar a Amazônia, a fim de criar um mapa que estabelecesse a fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Uma vez lá, o sujeito fica obcecado por encontrar uma cidade antiga que lhe foi descrita por tribos indígenas locais, que mais tarde seria conhecida como El Dorado. Com o interesse pessoal e o forte apoio de sua esposa, maravilhosamente desempenhada por Sienna Miller, Fawcett retornaria à selva em sete ocasiões distintas (o filme se condensa a três), e nunca mais voltaria para casa depois da última jornada.

Esses eventos foram relatados no livro The Lost City of Z pelo jornalista David Grann, e Gray, ao adaptar o material para a tela, recria uma aventura aos moldes dos antigos clássicos de aventura de um John huston, David Lean, mas com tons de Herzog de AGUIRRE e FITZCARRALDO. A fotografia é inegavelmente surpreendente. Filmado em 35mm, num widescreen 2,35: 1, pelo diretor de fotografia Darius Khondji, em nova perceria com Gray após A IMIGRANTE, LOST CITY OF Z possui uma gloriosa riqueza visual em cada imagem, cada frame que me deixou maravilhado em vários momentos. A luz natural da selva é capturada de forma graciosa e as sequências passadas na Europa é de uma exuberância sem igual, como por exemplo a cena da última despedida de Fawcett de sua família rumo a sua jornada final. Ninguém filma o céu como Gray no cinema atual.

tumblr_opcnabZ9r01rjo59oo1_1280

O elenco de apoio inclui várias excelentes performances, como a de Robert Pattinson, Tom Holland (o novo Homem-Aranha), o grande Angus MacFadyen, que há muito tempo não era bem aproveitado, Ian McDiarmid, além da pequena participação de Franco Nero, que me fez sorrir por um bom tempo durante o filme.

LOST CITY OF Z  tem duas horas e vinte minutos de projeção, mas se Gray quisesse alongar o filme por mais umas duas horas eu continuaria sem piscar, só admirando as suas imagens. É curioso pensar que, apesar da aparência de super-produção, o filme teve contribuição financeira através de vários investidores independentes, com a Amazon Studios fazendo um lançamento discreto nos cinemas no mês de abril. Num mundo justo, teria sido lançado em período de premiações e receberia várias indicações. O que não faria diferença alguma. O mundo sendo justo ou não, já temos o nosso melhor filme de 2017.

O ALVO DA MORTE (Target, 1985)

bscap0026

Mais um Hackman pintando por aqui. Achava que com esse O ALVO DA MORTE não teria erro depois de assistir a dois ótimos filmes desse período e estrelado pelo ator. Mais uma vez temos Hackman pagando de badass num thriller de ação dirigido pelo veterano Arthur Penn (BONNIE & CLYDE)… Então, imaginem a frustração, lá pelas tantas, quando descobri que já estava numa furada. Não que o filme seja horrível, a trama até que é interessante, mas não tem nada muito marcante, não consegui entrar muito no clima e algumas soluções me incomodaram bastante na maior parte do tempo.

Hackman é Walter Lloyd, um sujeito pacato de Dallas, administrando uma madeireira, mas que esconde um passado sombrio. O sujeito tem uma relação distante com seu filho (Matt Dillon) e o casamento já teve dias melhores, tanto que sua esposa (Gayle Hunnicutt) resolve tirar umas férias na Europa totalmente sozinha. Antes de viajar, no entanto, ela pede que Walter tente dar uma atenção ao filho, o que acaba acontecendo. São forçados a isso quando um telefonema acorda Walter no meio da noite com a informação de que sua mulher está desaparecida há mais de 48 horas.

target

Pai e filho partem para a Europa e, não demora muito, descobrem que a mulher foi sequestrada. E aos poucos Walter vai revelando para o filho (e também para o espectador) detalhes do seu passado desconhecido, como por exemplo, ser um espião da CIA aposentado, que comandou várias operações especiais internacionais ultra-secretas durante a Guerra Fria. Tentando libertar sua esposa, Walter se vê num fogo cruzado entre os sequestradores de sua mulher, que por algum motivo querem encontrá-lo com vida, e outras pessoas que querem matá-lo antes que ele encontre os sequestradores.

Sim, a trama é, aparentemente, intrincada, mas que poderia fluir com mais leveza. Ao invés disso, a mão dos realizadores pesou e O ALVO DA MORTE acaba pecando por situações que não levam a lugar algum e diálogos maçantes que me fizeram soltar grandes bocejos. A química entre Hackman e Dillon não funciona como pai e filho, embora haja um grande esforço do filme em trabalhar o tema, e são poucas as sequências de ação que realmente empolgam.

bscap0027

Hackman acaba por ser a grande virtude de O ALVO DA MORTE. É quem segura o filme e faz manter o interesse pela trama central. Infelizmente não me lembro de mais nada para elogiar. Algum momento e outro de tensão, talvez, como a cena do assassino que invade o quarto de Walter… Meia hora a menos já faria um bem danado ao ritmo do filme, poderia ter rendido um pequeno thriller divertido se fosse mais enxugado, com algumas doses de ação mais caprichadas, mas simplesmente desperdiçaram qualquer possibilidade disso acontecer.

Foi a última colaboração entre o diretor Arthur Penn com Hackman, que começou em BONNIE & CLYDE (67) e continuou em NIGHT MOVES (75). O diretor já não faria muitas coisas depois de O ALVO DA MORTE… Dois longas, alguns trabalhos para a TV. Mas teve uma carreira sólida, com alguns filmes realmente brilhantes que valem a pena conhecer. Morreu em 2010.

A ARTE DE ENZO SCIOTTI

Muito antes dos cartazes “photoshopados” habituais dos dias de hoje, haviam artistas que realizavam verdadeiras obras de arte de maneira artesanal para criar os cartazes dos filmes. Para quem se interessa por cinema de gênero italiano, é muito provável que já tenha se deparado com vários trabalhos de um deles: Enzo Sciotti. Trata-se de um desenhista e pintor italiano bastante prolífico que dedicou uma parte de sua carreira nos anos 80 a fazer cartazes cinematográficos, de diretores do calibre de Lucio Fulci, Dario Argento e Joe D’Amato (que o contratou para a sua produtora, a Filmirage), além de versões italianas de peças gráficas de produções de outros países, como VELUDO AZUL e ARMY OF DARKNESS. O trabalho do sujeito é simplesmente fantástico e, de vez em quando, até melhor que o próprio filme.

Aqui vai uma pequena degustação (clique nas imagens para aumentar):

THE BEYOND (1981)

vlcsnap-2015-04-10-17h01m30s154

E eis que resolvi rever mais uma vez THE BEYOND este último fim de semana. Não é apenas o meu filme favorito do diretor Lucio Fulci, que considero um dos maiores autores do gênero, como é também a experiência de pesadelo definitiva no cinema, ou seja, do horror puro e cristalino em todos os sentidos possíveis. E não é lá muito fácil descrever o fascínio que tenho pela obra, a maneira como me impressiona a cada revisão. Mas a gente vai levando do nosso jeitinho de sempre…

THE BEYOND foi lançado no Brasil com o título TERROR NAS TREVAS e depois relançado como A CASA DO ALÉM, o que é estranho, já que o horror transcorre a partir de um hotel amaldiçoado e não de uma casa. O título original em italiano é L’ADILÀ, ou “o outro lado”, “o lado de lá”. Mas ainda tem um título mais longo: …E TU VIVRAI NEL TERRORE! L’ADILÀ. Nos Estados Unidos, o filme foi lançado primeiro como 7 DOORS OF DEATH, que foi bastante retalhado até o lançamento da versão definitiva: THE BEYOND, que é como eu gosto de chamar o filme mesmo.

bscap0058

THE BEYOND começa na Louisiana, em 1927, com o assassinato de um pintor acusado de bruxaria no tal hotel. Em seguida, pula para 1981, altura em que uma jovem que herdou este mesmo hotel está prestes a reformá-lo e reabri-lo. O local, no entanto, aparentemente foi construído em uma das sete portas do inferno! Coisas estranhas começam a acontecer, pessoas são acometidas por mortes violentíssimas, no fim surge uma horda de zumbis e o Além… Os motivos para a maioria desses acontecimentos, no entanto, permanecem um tanto obscuros e sem qualquer sentido. Mas se levarmos em conta a lógica de sonho que Fulci propõe aqui, então na verdade tudo FAZ sentido.

O que o diretor faz é trabalhar os elementos sobrenaturais de maneira que desafiam a compreensão racional, abandona as estruturas tradicionais de um enredo para desorientar e confundir o público, que se vê diante de um estado de sonho e de pavor irracional. E a grande sacada de THE BEYOND é justamente levar até as últimas consequências esta lógica. É um pesadelo filmado, a imprevisibilidade reina, a sensação é de que qualquer coisa pode acontecer e que tudo é inesperado. O importante é como toda a estrutura narrativa é solta, como o filme se preocupa apenas na imagem e em construir uma atmosfera de puro horror.

ZncSuv0

Eu sei, parece muito vago, muito abstrato… Na verdade, THE BEYOND até possui uma trama bem definida, mas é só um fiapo e Fulci não se interessa muito em desenvolvê-la nem se preocupa com a lógica, se o desencadeamento dos acontecimentos faz sentido… A chave é não fazer muitas perguntas, tal como nos comportamos nos sonhos. Durante essas horas de atividade cerebral, aceitamos o que está acontecendo, seja um pesadelo assustador ou um sonho divertido, mas raramente o questionamos. É assim que THE BEYOND deve ser visto. Por favor, não façam como o Roger Ebert

05-1

O roteiro de Fulci, escrito com o grande Dardano Sacchetti, é, segundo o próprio diretor, “Uma sucessão de imagens impactantes, caóticas e sem um fio condutor muito claro“. Já no prólogo se percebe o que Fulci quer dizer com isso, com a imagem em tom de sépia, em movimentos de câmera que guia o nosso olhar para os detalhes enquanto a edição faz o encadeamento das situações: uma garota encontra um antigo livro com as profecias de Eibon, que falam sobre os sete portões do Inferno, os quais, quando abertos, libertarão o Mal sobre a face da Terra; o pintor que realiza seu trabalho num quadro mórbido retratando o “Mar dos Mortos”; e homens carregando tochas e correntes se aproximando do local.

bscap0057.jpg

Em seguida vemos as tais “imagens impactantes” que Fulci comenta, quando o pintor é espancado à correntadas, com cada pancada abrindo feridas enormes, mostradas em planos detalhes com direito a carne dilacerando e o sangue escorrendo para todos os lados. O sujeito é aprisionado pelos habitantes da cidade, ao mesmo tempo em que argumenta dizendo que o lugar foi construído sobre uma das sete portas do Inferno e que se o matarem não haverá como conter o Mal que ali vive. Claro que não adianta avisar: furiosos, os cidadãos pregam o sujeito na parede, com a câmera colada nos pregos penetrando nas mãos do coitado, e para finalizar corroem seu rosto com cal.

Continuar lendo