DE VOLTA PARA O INFERNO (Uncommon Valor, 1983)

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Daqueles filmes que você para e dá aquela refletida… “Por que raios eu não assisti essa merda antes?”  DE VOLTA PARA O INFERNO é o típico de filme de ação/guerra dos anos 8o que eu já deveria ter visto e não sei porque ainda não o tinha feito. Possui uma história sólida, relevante, pessimista de um certo ponto de vista, ao mesmo tempo em que todos os elementos divertidos e exagerados que me fazem sorrir em filmes do tipo se materializam por aqui. É dirigido pelo Ted Kotcheff, um casca-grossa com muito talento e sensibilidade, e reúne alguns dos atores mais badasses do cinema testosterona oitentista! Entre eles o grande Gene Hackman encabeçando o elenco.

Em uma narrativa ao estilo “men in a mission“, DE VOLTA PARA O INFERNO centra-se em um coronel dos Estados Unidos aposentado, Jason Rhodes (Hackman), que acredita que seu filho, Frank, um soldado que esteve em ação no Vietnã, ainda está vivo e mantido prisioneiro no Laos, mesmo passados dez anos do fim da guerra. Depois de conseguir financiamento de um magnata do petróleo (Robert Stack), cujo filho também desapareceu na mesma guerra, Rhodes recruta um grupo de ex-militares e velhos companheiros de guerra de seu filho para retornar à região em busca do pobre rapaz, além de outros americanos vivendo em cativeiro. A equipe inclui Fred Ward, Randall “Tex” Cobb, Reb Brown (o Capitão América dos anos 70), o grande Tim Thomerson e Patrick Swayze, num de seus primeiros papeis para cinema. Se esse não é um dos elencos com um dos mais altos níveis de truculência desse período, então eu já não sei mais nada da vida.

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A primeira metade do filme é a reunião do grupo e o treinamento para colocar esses veteranos em forma antes de partir para a ação. Serve também para que o público se identifique com os personagens, com suas habilidades e trabalhe a química entre eles. Mas também pra mostrar o quão fodido é a vida de alguns indivíduos no pós-guerra, um bando de outsiders atormentados sem a mínima capacidade de se encaixar num convívio social decente. E vêem nessa oportunidade de retornar ao campo de batalha uma maneira de tentarem se reencontrar e dar sentido às suas vidas.

Dessa forma, DE VOLTA PARA O INFERNO serve de expansão ao universo do trabalho anterior de Kotcheff, um dos melhores filmes que existe na vida, que também trata de traumas do Vietnã, FIRST BLOOD, mais conhecido no Brasil como RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR, também conhecido como a obra-prima de Sylvester Stallone. Aliás, recomendo muito este texto sobre RAMBO, do amigo Lázaro Cassar, para o Action News. 

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A segunda metade do filme é tiro, porrada e bomba, como diz minha mulher… Mas sem a previsibilidade habitual. Por exemplo, todo o planejamento para a ação de resgate termina numa furada e grande parte da missão acaba acontecendo na base do improviso – o armamento de Rhodes é confiscado pela polícia local e precisa arranjar armas velhas no mercado negro; os helicópteros de resgate não estão onde deveriam e acabam roubando de uma base militar Vietcong; um dos personagens é mordido por uma cobra ao adentrar um túnel que dá no campo de concentração… E por aí vai. Quando a ação começa pra valer é de arregaçar! Kotcheff manda muito bem  em criar um espetáculo de balas e explosões, com domínio de ritmo, de coreografia e de exageros típicos do cinema de ação/guerra oitentista. A ação final é ao mesmo tempo frenética, divertida, classuda e sem frescuras, mas também melancólica… Como em OS STE SAMURAIS, de Kurosawa, ou SETE HOMENS E UM DESTINO, de john Sturges, o filme não tem muito receio em terminar com algumas baixas de personagens importantes. Personagens que passamos metade do filme criando uma relação… Continuar lendo

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ENTREGA MORTAL (The Package, 1989)

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Houve um tempo em que Gene Hackman ensaiou uma de se transformar num herói de ação badass. Isso aconteceu especialmente nos anos 80 e início dos 90. Nada muito exagerado como fora sua “concorrência” no período, como Stallone, Schwarza, Van Damme… Também não foram muitos filmes assim, mas temos DE VOLTA PARA O INFERNO, O ALVO DA MORTE, DE FRENTE PARA O PERIGO, COMPANHIA DE ASSASSINOS, tem até a comédia de ação UM TIRO QUE NÃO DEU CERTO. Como Hackman era um baita ator, hoje gozando de sua merecida aposentadoria, vou dar uma debruçada nessa fase action hero dele a pedido de um leitor. Começando pelo thriller político ENTREGA MORTAL.

Hackman é Johnny Gallagher, um oficial do exército americano encarregado de transportar um soldado prisioneiro (Tommy Lee Jones) de volta aos EUA para a corte marcial. Já em solo americano, o soldado escapa e Gallagher descobre da pior maneira possível que se meteu numa encrenca daquelas, numa trama internacional intrincada envolvendo espiões, mercenários, polícia, o próprio governo e até mesmo uma conspiração com planos terroristas.

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Contando com a ajuda de sua ex-mulher, Eileen (Joanna Cassidy), e de um detetive de Chicago, Delich (Dennis Franz), Gallagher precisa agora encontrar de volta o seu “pacote”, ou seja, o soldado que escapou (o package do título original), no qual ele descobre se tratar de um assassino profissional contratado que precisava entrar nos EUA sem um passaporte para realizar sua missão – o assassinato do presidente dos Estados Unidos. Continuar lendo

OS GAROTOS PERDIDOS (The Lost Boys, 1987)

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É mais fácil as pessoas lembrarem do Joel Schumacher como o cara que colocou mamilos no Homem-Morcego, dirigindo tralhas como BATMAN & ROBIN (97), e esquecerem que a grande maioria de seus trabalhos são bem legais. Acabei de rever OS GAROTOS PERDIDOS, seu clássico oitentista de vampiros, que sempre reprisava na Sessão da Tarde e que fazia, no mínimo, uns vinte anos que eu não via. Continua uma delícia.

A trama do filme todo mundo deve se lembrar. Começa com uma mãe (Diane Wiest) e seus dois filhos (Corey Haim e Jason Patric) se mudando para uma pequena cidade costeira da Califórnia. A cidade é atormentada por gangues de motoqueiros, punks e drogados e alguns misteriosos desaparecimentos. Sam (Haim), o mais novo, não demora muito para fazer amizade com dois outros garotos que afirmam ser caçadores de vampiros, enquanto Michael (Patric), o mais velho, é atraído por uma gangue liderada por David (Kiefer Sutherland) e uma bela garota, Star (Jami Gertz). O que Michael acaba descobrindo da pior maneira possível é que a gangue é formada por… Isso mesmo, vampiros!

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Kiefer Sutherland e sua gangue de vamp… Ops, desculpem. Estes aqui é a banda Twisted Sister. A gangue de vampiros é essa aí embaixo. Mas, é quase a mesma coisa…

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No mesmo ano de 87, tivemos NEAR DARK, da Kathryn Bigelow, outro grande filme de vampiros que a princípio até poderia dialogar com OS GAROTOS PERDIDOS dentro do gênero, ambos têm aquele visual estilizado que parece um videoclipe da MTV dos anos oitenta e chupadores de sangue jovens vestindo jaquetas de couro… Mas enquanto NEAR DARK é mais sombrio e consegue se aprofundar em questões de ser um vampiro num mundo moderno, o filme de Schumacher não passa muito da superfície, do visual estiloso, da trilha sonora cheia de hits oitentistas… Mas ao mesmo tempo possui uma energia, várias sequências memoráveis, personagens legais, um senso humor bacana, e a maneira como Schumacher mistura todos esses ingredientes é que mantém o encantamento e torna o filme bem mais popular que seu “concorrente”.

O filme até possui um olhar sobre a cultura adolescente, um lance da busca por aceitação, especialmente com Michael fazendo de tudo para provar que pode fazer parte da gangue de David. Não se aprofunda tanto nesse ponto, mas duas sequências espetaculares saem dessa ideia, a corrida de motocicletas no alto da colina e a que se passa nos trilhos do trem. Ambas me deixaram pregado na poltrona de tensão… Mas a maior parte do filme é uma aventurazinha de comédia divertida com toques de horror protagonizada por Corey Haim e os irmãos Frogs, os caçadores de vampiros, encarnados por Corey Feldman e Jamison Newlander.

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Se há uma dupla teen que conquistou o público infanto-juvenil ontentista, essa dupla é formada pelos dois Coreys. Eu cresci assistindo aos filmes desses moleques e vê-los enfrentando vampiros era parte da magia de OS GAROTOS PERDIDOS. Os caras tinham tanta química, ao longo de vários trabalhos nos anos 80 e início dos 90 que já chegaram a protagonizar um reality show juntos (The Two Coreys), só que o programa foi um fiasco. Além disso, ambos estiveram envolvidos com drogas na adolescência, o que atrapalhou muito suas carreiras. Corey Haim morreu em 2010 aos 39 anos. Feldman pelo menos apareceu nas duas continuações que OS GAROTOS PERDIDOS possui, já nos anos 2000.

Vale ressaltar que OS GAROTOS PERDIDOS foi justamente a primeira vez que os dois trabalharam juntos.

O restante do elenco também se destaca. Kiefer Sutherland, em especial, está excelente como o líder da gangue de vampiros, com muita presença em cena, e Bernard Hughes, que faz o avô dos protagonistas, está simplesmente hilário, assim como todas as cenas em que os Frog Brothers aparecem. A sequência do jantar em que tentam desmascarar Max (Ed Herrmann) é engraçadíssima.

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A direção de Schumacher é inspirada, tem estilo, com várias sacadas visuais e bom trabalho de câmera, como as sequências aéreas que mostram o ponto de vista dos vampiros voadores. O sujeito tem muito bom olho também para a composição estética, nos pequenos detalhes que enriquecem o visual (os cartazes de pessoas desaparecidas) em como consegue casar as imagens e a trilha sonora de maneira tão efetiva, sem soar brega, como vários exemplos dos anos 80. A sequência de ação final é muito bem conduzida, uma boa mistura de humor, tensão, horror e até um bocado de gore, como na clássica cena “death by stereo“, ou na curta, mas ágil, luta entre David e Michael…

Enfim, legal rever OS GAROTOS PERDIDOS depois de tanto tempo. Há muita coisa que tinha esquecido e que veio à tona com muito prazer nos olhos. Realmente não lembrava que o filme era tão estiloso. Mas o melhor de tudo foi perceber que continua tão divertido.

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O EMBAIXADOR (The Ambassador, 1984)

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Hoje assisti a’O EMBAIXADOR, uma produção da Cannon Films, estrelada por um velho Robert Mitchum, só pra não perder o costume aqui no blog. O filme foi uma das oito colaborações entre os notórios produtores israelenses, Golan & Globus, com o mestre subestimado do cinema de ação clássico J. Lee Thompson (OS CANHÕES DE NAVARONE) e trata-se de um dos thrillers políticos dos mais sinceros que eu já vi.

O roteiro nem é lá grandes coisas e, na trama, temos Mitchum vivendo um embaixador americano em Israel tentando selar a paz entre judeus e palestinos, tema que até hoje é complicado de tratar. Mas os esforços do sujeito são dificultados quando sua esposa (Ellen Burstyn) acaba pulando a cerca e é filmada na cama com um dos líderes da OLP (Organização para a Libertação da Palestina). A coisa é tão ingênua que as ideias do embaixador para a paz no local é tentar reunir jovens estudantes palestinos e israelenses para conversar, bater um papinho, acender umas velas, gritar por paz… Mas Mitchum passa tanta segurança e credibilidade no seu desempenho que não fica muito difícil relevar certa inocência.

Mas o grande destaque de O EMBAIXADOR é a presença de Rock Hudson, em sua última performance. O sujeito parece se divertir como o braço direito e conselheiro de segurança da Mitchum, e não aparenta nenhum sinal de alguém que sofria com o vírus da AIDS. Hudson morreria um ano depois.  Continuar lendo

RAIZES DO CÉU (Roots of Heaven, 1958)

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Em meados dos anos 40, ainda durante a Segunda Guerra, o diretor John Hunston  estava em Los Angeles finalizando algum de seus documentários filmados em campo de batalha. Huston, ao lado de John Ford, Frank Capra, William Willer e outros, contribuiu com o exército americano registrando imagens da guerra. Enfim, o fato é que neste período em que estava em LA, Huston passava os dias entre o trabalho e um bocado de festas. Segundo as palavras do próprio diretor, “Tendo acabado de voltar ao trabalho com heróis de verdade, não estava com vontade de aguentar a subespécie cinematográfica. Foi com essa disposição e ânimo que encontrei Errol Flynn parado no saguão durante uma recepção na casa de David O. Selznick“.

Flynn estava já com um copo de uísque na mão, como lhe era habitual. Devia ter enchido a cara… E Huston conta que o sujeito andava a procura de confusão. Não demorou muito, Flynn chamou a mulher que Huston estava paquerando na época de alguma coisa não muito agradável, Huston retrucou sem muita gentileza e ambos acabaram procurando um local mais isolado, ao fundo dos jardins, para chegarem às “vias de fato”.

Essa história é uma das melhores entre as tantas que Huston conta em sua biografia e que vale a leitura de cada palavra, cada linha, cada descrição… Mas, para resumir, a luta entre Errol Flynn e John Huston realmente aconteceu neste dia, ambos eram pugilistas e trocaram socos violentos por quase uma hora, sem golpes sujos e tudo dentro das normas do Marquês de Queensberry, ou seja, as regras oficiais do boxe. Detalhe que foi visto com grande decência para ambos oponentes.

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Errol Flynn vive um boxeador em GENTLEMAN JIM, de Raoul Walsh

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Nos anos 70, o diretor John Huston mostra a Stacy Keach como se faz em CIDADE DAS ILUSÕES

A coisa foi  tão respeitosa entre os dois que, na manhã seguinte, Flynn ligou para Huston para saber como o diretor estava passando (só para constar, o ator foi parar no hospital com algumas costelas quebradas). Todo esse respeito fez com que Huston tivesse sempre Flynn em alta estima. No fim dos anos 50, o diretor foi escalado para dirigir um filme na África em que um dos atores contratados era Errol Flynn. “Ele apareceu logo depois da nossa chegada e nós dois nos apertamos as mãos. Era o nosso primeiro encontro desde aquela noite sanguinolenta séculos atrás“. O filme: RAÍZES DO CÉU.

Quando fez RAÍZES DO CÉU, Errol Flynn estava muito longe de ter aquela imagem que o imortalizou nos filmes de aventura dos anos 30, vivendo heróis como Robin Hood e Capitão Blood. E não apenas por estar mais velho, mas pela seu notório problema com o alcoolismo. Em 1958, Flynn abandonou uma peça de teatro antes da estreia por alegar que era um veículo pobre e banal, mas também porque a essa altura ele era incapaz de memorizar suas falas e sua atuação era deplorável. Ganhou uma chance de Zanuck quando lhe ofereceu uma participação em RAÍZES DO CÉU justamente para fazer o papel de um bêbado…

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Já era a terceira vez em seguida que Flynn interpretava um bêbado, desta vez encarnando o Major Forsythe, um desertor britânico que se junta a um grupo de aventureiros – alguns deles bem oportunistas – para seguir o idealista Morel (Trevor Howard) nos seus esforços de preservar os elefantes africanos e impedir que sua caça aconteça.

Tanto o homem do dinheiro, Zanuck, quanto o diretor John Huston ficaram interessados no romance do francês Romain Gary e decidiram tocar o projeto juntos. No entanto, a expedição da equipe de filmagens em território africano resultou numa saga desastrosa com elenco e equipe tentando mais sobreviver à experiência do que no resultado do filme. Temperaturas altíssimas e doenças tropicais tomaram uma boa parcela de tempo da produção… O ator Eddie Albert, por exemplo, teve um colapso e delirou por vários dias. E Flynn se fortificou, obviamente, com suas doses de vodka e outros drinks, administrando sua aventura diante de qualquer contratempo que lhe pudesse ocorrer. Tanto que, em sua autobiografia, Flynn comenta que foi o filme que mais gostou de fazer acima de qualquer outro… Continuar lendo

O RIO DAS ALMAS PERDIDAS (River of No Return, 1954)

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O primeiro que enjoar das postagens com o Robert Mitchum vai ser a mulher do padre… Até porque depois que se mergulha de cabeça na obra deste estupendo ator fica difícil parar. É como um vício. Mas um dos bons, saudável, recomendável aos amantes de boas atuações. E, neste ofício, Mitchum foi um dos grandes… Quiçá o maior… Se cuida, Lee Marvin!

O RIO DAS ALMAS PERDIDAS foi o último que vi estrelado por Mitchum.

Dirigido pelo gênio Otto Preminger, o filme é um western de aventura que se passa durante a famigerada corrida do ouro do final do século IXX. O fazendeiro Matt Calder (Bob Mitchum), que vive em uma fazenda remota com seu jovem filho Mark, ajuda um casal que perde o controle de sua jangada num rio nas proximidades. Um deles é Harry Weston, um jogador profissional que está tentando chegar à cidade mais próxima o mais rápido possível para registrar uma reivindicação de uma mineiradora que ele alega ter ganho em um jogo de poker. Sem cavalo, achou que a melhor maneira era descer o perigoso rio de jangada… Junto dele, sua namorada, a bela Kay (Marilyn Monroe), uma cantora de salão.

Quando Calder se recusa a deixar Weston “pegar emprestado” seu único rifle e seu único cavalo para seguir viagem, o clima fica pesado entre os dois. O local é cercado de índios e é o rifle de Calder que protege ele e seu filho dos peles-vermelhas. Além disso, o cavalo é seu “instrumento” para arar a terra nas suas plantações… Mas, como sabemos, Weston precisa urgentemente chegar à cidade mais próxima. Demonstrando ser um grandessíssimo filho da puta, o jogador acerta a cabeça de Calder e parte montado no animal levando o rifle do protagonista embora. A trairagem foi tão grande que até Kay resolve ficar para trás.

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Incapazes de se defender de um iminente ataque índio, Calder, seu filho e Kay só vêem na jangada e nas perigosas águas do rio o único meio de manterem a pele intácta. E assim, a aventura de O RIO DAS ALMAS PERDIDAS começa, com esse improvável trio tentando sobreviver às correntesas do rio com a jangada e aos eventuais ataques de índios. E só um pensamento que dá força a Calder nessa jornada: vingança.

Parece divertidão, não é? Uma montanha-russa em forma de filme de aventura. Pois é, o produtor do filme, Stanley Rubin, também achava que deveria ser assim. No entanto,  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS é bem mais complexo, intimista e reflexivo do que parece. E grande parte dessa lógica de aventura descompromissada se perde graças a Otto Preminger.

Na ocasião, Rubin achava que Preminger teria sido uma escolha equivocada. Queria alguém mais ligado a aventuras mais rotineiras, alguém que já tivesse dirigido western, algo que Preminger nunca tinha feito. Rubin queria mesmo o grande Raoul Walsh, que já era célebre por balancear filmes escapistas com um bocado de substância… Mas o chefão da Fox, o lendário Darryl F. Zanuck, precisava arranjar um projeto rápido para Preminger, porque já estava pagando um sálario astronômico na época de 2.500 dólares por semana com o sujeito trabalhando ou não. Preminger, a princípio, não queria saber muito de  O RIO DAS ALMAS PERDIDAS, mas aceitou na boa após ler o roteiro e perceber que poderia explorar alguns conceitos, tanto estéticos quanto humanos com aqueles personagens. O que gerou certo desconforto entre Stanley Rubin e o diretor, que sempre teve fama de autoritário. Continuar lendo

A MANCHA DE UM PASSADO (Going Home, 1971)

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Ah, o bom e velho cinema americano dos anos 70… Cada dia é uma nova descoberta. Hoje assisti A MANCHA DE UM PASSADO. Não fez muito sucesso na época do lançamento e hoje é praticamente esquecido entre os vários filmes americanos que marcaram esse período conhecido como “Nova Hollywood”. Eu mesmo não fazia a menor ideia da existência. Só acabei vendo porque ando numa onda de ver uns filmes do Robert Mitchum ❤ . E que agradável surpresa! Filme de drama forte, sombrio, com alguns momentos realmente densos sobre uma família que sofre os impactos de uma tragédia ocorrida mais de uma década atrás.

Mitchum interpreta um sujeito que numa noite qualquer enche a cara de cachaça, fica bebaço e mata sua esposa brutalmente cortando-lhe uma artéria do pescoço com a ponta de uma garrafa quebrada. A mulher ainda cambaleia sob o olhar do filho pequeno do casal e acaba perdendo a vida diante do menino. Treze anos mais tarde, Mitchum obtém liberdade condicional, vai morar num acampamento de trailers e se apaixona por uma moça (Brenda Vaccaro). E tem de lidar com a presença de seu filho (Jan-Michael Vincent), agora com dezoito anos.

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E é do ponto de vita do moleque que acompanhamos A MANCHA DE UM PASSADO. No entanto, o filme se constrói mesmo em torno de Mitchum, que é gênio, engole as atenções. Um filme que parece tão disposto a confiar num ator, como se fosse um jogo de atração e ao mesmo tempo repulsa entre a incógnita personagem de Mitchum e o espectador.

Na cena inicial, a deste frame aí embaixo, o sujeito surge apenas com as cuecas e a garrafa quebrada com o corpo da mulher aos seus pés, uma dessas imagens que mostram o monumento que era Mitchum. Mas também o apresenta como um assassino psicótico de filme de terror. Depois, quando o filho reaparece para ele pela primeira vez, após de treze anos, e diz “Oi, pai“, chega a ser tocante ver a reação daquele monstro assassino embargar e adentrar seu trailer sem dizer uma palavra sequer, totalmente arrasado…

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Mas não pensem que tomamos simpatia pelo rapaz. O mundo é sórdido em A MANCHA DE UM PASSADO, há mais nobreza num velho bêbado assassino na condicional do que num rapaz inocente que tenta perdoar o pai pelos pecados do passado. E o filme aproveita-se disso para nos pregar umas peças. talvez seja por isso que várias críticas que li são negativas e reclamam da dificuldade de se identificar com os personagens… Mas é exatamente um dos principais motivos que me fez gostar do filme.

A direção é de Herbert B. Leonard, cuja carreira é mais ligada à produção para a televisão. Tem pouquíssimos longas como diretor. Aqui faz um bom trabalho, ousado na condução dos atores, com sequências pesadas, como a cena do galinheiro com os galos de briga, ou no climax, o provável último encontro dramático entre pai e filho. Tão singelo e brutal ao mesmo tempo.

Vale a pena conhecer A MANCHA DE UM PASSADO. Vale, acima de tudo, pela estupenda atuação de Mitchum.