ARMADO ATÉ OS DENTES (The Man With the Gun, 1955)

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Assisti a este western rotineiro que no Brasil ganhou o divertido título ARMADO ATÉ OS DENTES. Mas referir-se ao filme como rotineiro pode não parecer uma recomendação muito entusiástica. No entanto, como a década de 50 foi um período tão fértil para filmes excelentes do gênero, digamos que “rotina” pode ser tomada como algo positivo…

O filme possui muitos dos elementos padrões que eram populares na época: temos o solitário e misterioso pistoleiro, com um passado sombrio, que encara as forças do vilão sem escrúpulo numa cidade cuja população de homens tímidos e indefesos precisa contar com o estranho pistoleiro para salvá-los de serem explorados e enganados.

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Robert Mitchum, ainda começando a se tornar um astro, interpreta Clint Tollinger, um pistoleiro com uma reputação de “domar” cidades selvagens. E o local que chega tem um baita problemão. Um tal de Dade Holman (Joe Barry), um poderoso fazendeiro, tem usado seus consideráveis ​​recursos financeiros para comprar toda a terra circundante à sua e utiliza mercenários armados para aterrorizar ou matar qualquer pessoa que não ceder às suas propostas de compra.

E Tollinger entra na cidade para descobrir que sua reputação o precede. Ele acaba contratado pelo conselho local para frustrar os planos de Holman e seus lacaios, que também habitualmente têm perturbado a paz. Tollinger aceita o trabalho contanto que tenha controle total sobre os métodos que emprega, o que inclui a regra “sem armas na cidade” e também um toque de recolher. Em pouco tempo, os empresários que o contrataram estão reclamando que agora as coisas estão pacíficas demais e seus negócios vão de mal a pior.

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Enquanto isso, os pistoleiros de Holman não demoram muito para testar Tollinger, que prova ser rápido e certeiro o suficiente para se defender. Mesmo quando seus adversários estão maior número. O filme também investe bastante tempo na relação que Tollinger estabelece com um jovem casal prestes a se casar: a adorável Stella Atkins (Karen Sharpe) e seu noivo cabeça-dura Jeff Castle (John Lupton), que continua a desafiar os homens de Holman e acaba seriamente ferido por sua recusa em ceder suas terras.

Tollinger também encontra na cidade sua ex-mulher, Nelly (Jan Sterling), que administra o bordel local. Os dois não ficam lá muito felizes em se ver, e quando Nelly revela um segredo chocante sobre sua filha, Tollinger enfurecido resolver tocar o terror pra cima da bandidagem.

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ARMADO ATÉ OS DENTES sofre de um título original brando, sem muita inspiração e genérico (MAN WITH THE GUN). Mas o filme em si é bastante envolvente. Mitchum está ótimo como sempre, fazendo um personagem bem mais complexo que a impressão superficial sugere. E já nessa fase inicial da carreira havia evidências claras de um astro sendo lapidado. O elenco de apoio também é muito bom, especialmente alguns atores como Henry Hull (O LOBISOMEM DE LONDRES), Emile Meyer (OS BRUTOS TAMBÉM AMAM), James Westerfield (SINDICATO DE LADRÕES) e outros rostos familiares da época (incluindo um jovem Claude Akins). O filme, habilmente dirigido por Richard Wilson (talentoso assistente de Orson Welles), certamente não é nenhum clássico espetacular, mas por outro lado, é sólido, divertido e tem Robert Mitchum fazendo a alegria da moçada.

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TWIN PEAKS – PRIMEIRAS IMPRESSÕES DA NOVA TEMPORADA

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No último episódio da segunda temporada, Laura Palmer (Sheryl Lee) diz ao agente Cooper (Kyle MacLachlan) que dentro de 25 anos eles se veriam novamente. E ontem, finalmente, isso aconteceu. Fui surpreendido ao assistir aos episódios 1 e 2 da nova temporada de TWIN PEAKS. Mas quem não foi? Eu imaginava que seria um “retorno” ao mesmo universo da série como uma espécie de “soft reboot“, esperando talvez um apanhado do que já vimos antes, mostrando aquele mesmo mundinho fascinante da cidade do título na atualidade, com seus novos mistérios, mas com os mesmos personagens envelhecidos. No entanto, David Lynch e Mark Frost  resolveram foder com a mente de todo mundo com algo totalmente novo. Os caras romperam as fronteiras da pequena Twin Peaks e todos os seus mistérios bizarros, surreais e sobrenaturais já não cabem dentro da pequena cidade.

Logo no primeiro episódio somos levados à Nova York, no alto de um prédio muito bem protegido por sistemas de segurança e guardas, onde Sam (Ben Rosenfield) mantém  várias câmeras gravando uma grande caixa de vidro vazia selada. No Black Lodge, um distúrbio está desequilibrando a estabilidade dessa célula espiritual onde o Agente Especial Dale Cooper se encontra preso durante todos esses 25 anos. Já o Cooper “do mal” – agora possuído por BOB, como confirmado no último episódio da segunda temporada, quando Cooper bate a cabeça contra a parede, lembram? – viaja pela América recrutando ou acompanhado de pessoas que me parecem estar possuídos pelos mesmos espíritos que habitavam os entornos de Twin Peaks. Chamado de Mr. C no episódio 1, o sujeito se envolve com personagens esquisitos, assassinatos e busca por misteriosas coordenadas… Ou seja, é o personagem mais foda até agora, mesmo sem entender muito bem suas motivações.

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Além disso, um assassinato hediondo põe uma pequena cidadezinha em estado de choque e o diretor da escola (Matthew Lillard) atrás das grades, mesmo jurando não ter cometido tais crimes. Apesar de ter sonhado com o fato…

Acho que já dá pra perceber que a trama do novo TWIN PEAKS afasta-se do estilo “novelesco” que marcava as temporadas anteriores. Agora, Lynch e Frost parecem mais ligados aos dramas policiais da atualidade (CSI, TRUE DETECTIVE), mas com o estilo bizarro e surreal de Lynch, além do sobrenatural que sempre fluiu à série. Vai ser interessante ver como esses elementos se reúnem em TWIN PEAKS 2017 e ver como eles coagulam dentro da querida cidade de Twin Peaks.

Há uma quantidade considerável cenas e imagens intrigantes, excêntricas e aparentemente soltas e deslocadas da trama, que sempre marcaram o estilo de Lynch. Ele e Frost deixam as coisas sempre abertas, vão soltando pistas visuais e apontando pra elementos que a princípio é só mais uma maluquice da mente dos criadores. Mas que depois se revelam essenciais. É uma série que vai precisar da sua plena atenção.

É curioso também ver os crueis efeitos do tempo nos atores. Parece que estamos reencontrando velhos amigos, mas ao mesmo temo bate certa melancolia, como por exemplo, ao ver a senhora do tronco (Catherine Coulson), já tão frágil. É de estraçalhar o coração sabendo que a atriz se foi pouco tempo depois… Várias outras figuras da série original são as caras por aqui e ainda não dá pra saber a importância de cada um deles nessa expansão.

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Enfim, TWIM PEAKS está de volta com seu universo ampliado, com novos e velhos rostos e muito mais macabro e sombrio. Nem os episódios mais sombrios das duas primeiras temporadas chegam no nível de terror que, por exemplo, a sequência da caixa de vidro do primeiro episódio deste aqui. Não quer dizer que seja melhor, ou pior, é apenas uma característica que vale a pena destacar.

Atualmente, eu não tenho acompanhado série alguma. Mas parei tudo pra poder acompanhar TWIN PEAKS e estou bem feliz pelo resultado até agora. E mais feliz ainda pelo retorno de David Lynch atrás das câmeras, nem que seja numa série. Já que declarou que nunca mais faria filmes de novo, pode ser que seja a oportunidade de ver a obra final de um diretor que sempre admirei.

INNER GHOSTS: UM PROJETO DE HORROR QUE VOCÊ PRECISA CONHECER

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Alguma vez você já quis contribuir e apoiar um filme de terror independente? Então aqui está a sua chance. INNER GHOST é um novo filme que está bem perto de ser concluído, mas, infelizmente, o dinheiro da pós-produção ficou escasso. Para aumentar os fundos restantes, os produtores começaram uma campanha pesada e bem legal de crowdfunding no kickstarter, a fim de conseguir colaboradores para terminar o filme.

Apesar do título e do elenco internacional, vale destacar que INNER GHOSTS é uma co-produção entre Brasil e Portugal. Foi o próprio produtor e roteirista Paulo Leite que entrou em contato comigo e me apresentou a história de INNER GHOSTS e fiquei imediatamente interessado. Continuar lendo

INCUBUS (1966)

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Pouco antes de tentar o papel de Capitão James T. Kirk no seriado STAR TREK, William Shatner fez um filme de horror, digamos, bizarro e pouco visto, chamado INCUBUS.

Foi pouco visto porque o negativo original do filme e quase todas as suas impressões foram misteriosamente perdidas ou destruídas pouco tempo após suas exibições iniciais em festivais de cinema. E Bizarro porque INCUBUS, embora filmado sob o sol da Califórnia, foi gravado em esperanto, que é o idioma artificial mais usado no mundo. Só para constar, o esperanto é uma linguagem criada no final do século XIX por L. L. Zamenof para estimular a paz e o entendimento entre os povos de diferentes nações.

INCUBUS foi escrito e dirigido por Leslie Stevens, um dos principais criadores da série de TV dos anos 60 THE OUTER LIMITS. No Brasil, conhecido como A QUINTA DIMENSÃO. Quando o programa foi cancelado, Stevens procurou uma maneira de se reerguer como diretor e, curiosamente, decidiu que um filme de terror artístico de baixo orçamento, falado num idioma que poucas pessoas entendiam, poderia ser a solução ideal.

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William Shatner, que é o protagonista de INCUBUS, lembra nos comentários do DVD quando se deparou com o roteiro de Stevens:

“(O roteiro) tinha uma dureza, uma simplicidade para tratar sobre o bem e o mal, era ao estilo grego na sua simplicidade e no modo como os acontecimentos caminhavam, no roteiro, para sua conclusão inevitável. Então eu li, liguei para ele rapidamente e disse: ‘Isso é maravilhoso, eu adoraria fazer”.

Neste ponto da carreira, Shatner já havia aparecido em vários papéis em seriados na televisão (incluindo o episódio de THE OUTER LIMITS “Cold Hands, Warm Heart“) e em papéis de secundários em algumas produções gabaritadas, como O JULGAMENTO DE NUREMBERG, de Stanley Kramer, e THE OUTRAGE, de Martin Ritt. Seus únicos trabalhos como protagonista até então fora THE EXPLOSIVE GENERATION, de Buzz Kulik, e o provocador THE INTRUDER, do mestre Roger Corman, que recebeu distribuição muito escassa.

Shatner também já declarou:

“Quando [INCUBUS] me foi apresentado, eu estava de certa forma no auge, pegando bons trabalhos e tendo demandas, e este era um filme pequeno, não era algo que você pode imaginar movimentando a minha carreira, mas era tão intrigante, e eu gostava muito de trabalhar com Leslie Stevens, que eu queria estar nele.”

A trama de INCUBUS se passa numa misteriosa ilha habitada por demônios. Um desses seres malignos, encarnado na figura de uma bela mulher, Kia (Allyson Ames), tenta seduzir Marc (Shatner), um soldado de coração puro e honesto. Inevitavelmente, o demônio apaixona-se por Marc e acaba sucumbindo por ir contra sua natureza, infectada pelo amor e pela bondade. Uma trama simples, mas realmente curiosa.

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Stevens queria “colocar seu filme em um lugar diferente”, então decidiu que os atores deveriam falar em esperanto. O diretor/roteirista imaginava que o idioma era estranho, exótico e arcaico o suficiente para criar um misterioso senso de surrealismo e alteridade, ou seja algo distinto de tudo que já havia sido feito.

Evidente que nem tudo saiu como desejado. INCUBUS estreou no Festival de Cinema de São Francisco em outubro de 1966 e um grupo de esperantistas gritava e rachava o bico em gargalhadas cada vez que os atores interpretavam mal a língua – especialmente Shatner, cujo esperanto foi prejudicado por seu sotaque francês (o sujeito passou grande parte da infância em Montreal).

Obviamente não é só a excentricidade do esperanto que torna o filme especial. INCUBUS é revolucionário em termos de estética e construção do horror, deliciosamente fotografado pelo gênio do preto e branco Conrad Hall e dirigido com maestria por Stevens. Imaginem um roteiro lisérgico de um Jess Franco ou Jean Rollin, mas filmado com o rigor e elegância de um Ingmar Bergman…

Apesar disso, o filme é marcado não apenas por seus valores artísticos, mas principalmente por causa dos estranhos incidentes associados a uma maldição supostamente colocada no filme.

Via IMDB:

Em seu comentário para o DVD, William Shatner lembrou um incidente que ocorreu quando o elenco e a equipe chegaram pela primeira vez em Big Sur, Califórnia. Ele se lembra de um hippie que se aproximando da equipe, indagando qualquer coisa. Shatner diz que o elenco e produção reagiram com certa hostilidade ao seu interesse, o que acabou irritando o sujeito, que em seguida, em voz alta, colocou uma maldição sobre a produção, que algumas pessoas acreditam realmente ter dado certo.

Essa tal de maldição teria sido responsável por uma série de incidentes que ocorreram no período de um ano após a produção do filme. Logo depois da sua versão inicial, limitada, o filme foi considerado perdido depois de ter sido destruído em um incêndio (ou acidentalmente destruído por um laboratório de filmes francês, ou o próprio Stevens teria mandado destruir as cópias, enfim, nunca foi devidamente esclarecido); Um dos principais atores, Milos Milos, que interpretou o Incubus, matou sua amante, Carolyn Mitchell (curiosamente, a esposa de Mickey Rooney na época) e, em seguida, cometeu suicídio; Enquanto a atriz Ann Atmar, que interpretou a irmã de Shatner no filme também se suicidou.

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Enfim, acontecimentos trágicos à parte, INCUBUS foi recuperado após a morte de Stevens décadas mais tarde, em 1998, à partir de uma única cópia descoberta na França pelo produtor Anthony Taylor, e lançado em vídeo, em grande escala, pela Amazon. Hoje o filme já está remasterizado, tratado quadro a quadro e com legendas em inglês sobrepostas às francesas e disponível para quem quiser conferir.

E pra mostrar que eu sou um cara legal, basta apertar o play no video abaixo e desfrutar de um dos filmes de horror mais impressionantes de todos os tempos: